Mostrando postagens com marcador Oliver Stone. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Oliver Stone. Mostrar todas as postagens

18 de abril de 2025

Oliver Stone vai para Washington

A Jacobin conversou com o lendário cineasta Oliver Stone sobre seu recente depoimento perante o Congresso sobre o assassinato de JFK, a obstrução contínua da CIA e por que estamos mais perto do que nunca de finalmente desvendar o mistério de 22 de novembro de 1963.

Uma entrevista com
Oliver Stone


O cineasta Oliver Stone fala com jornalistas após uma audiência com o Comitê de Supervisão da Câmara, no Capitólio dos EUA, em 1º de abril de 2025, em Washington, DC. (J. Countess / Getty Images)

Três décadas depois, Oliver Stone continua ajudando a desvendar o assassinato mais desconcertante da história dos Estados Unidos. Stone pode ter ganhado o Oscar de Melhor Diretor pelos clássicos da Guerra do Vietnã, Platoon e Nascido em 4 de Julho, mas o impacto mais duradouro do autor é, sem dúvida, o papel que desempenhou em reacender o interesse pelo assassinato do presidente John F. Kennedy em 1963. O sucesso de Stone, JFK, de 1991, detonou o mito oficial da Comissão Warren de que Lee Harvey Oswald era o único atirador responsável pela morte de Kennedy, e defendeu com veemência um "contramito" em que agentes de inteligência desonestos faziam parte de uma conspiração para liquidar o presidente antes que ele pudesse retirar as tropas americanas do Vietnã.

Indicado ao Oscar de Melhor Filme e vencedor de dois Oscars, a dramatização de Stone impulsionou o Congresso a criar a Lei de Coleta de Registros do Assassinato do Presidente John F. Kennedy de 1992, que exigia que a Administração Nacional de Arquivos e Registros revisasse todos os registros relacionados ao assassinato e fornecesse cópias ao Conselho de Revisão de Registros de Assassinato (ARRB). No entanto, muitos documentos de JFK permaneceram confidenciais — até que o presidente Trump divulgou até 80.000 páginas em março.

Em 1º de abril, Stone retornou ao Capitólio para depor perante a Força-Tarefa do Comitê de Supervisão da Câmara sobre a Desclassificação de Segredos Federais, acompanhado por seu escritor e pesquisador Jim DiEugenio e outro proeminente especialista no assassinato de Kennedy, Jefferson Morley. Nesta conversa franca, Stone — que também dirigiu o documentário de 2021 JFK Revisited: Through the Looking Glass — discorre sobre sua aparição perante o Congresso, novas evidências descobertas nos arquivos desclassificados, o que ele acredita que deve ser feito em relação ao caso arquivado mais polêmico da história americana e muito mais.

Ed Rampell

Muitos leitores da Jacobin provavelmente não sabem que seu filme JFK, de 1991, inspirou uma lei de longo alcance do Congresso, ajudando a desclassificar milhares de registros de segurança nacional. Você poderia nos contar sobre essa legislação e como ela conseguiu extrair tantos documentos secretos de segurança nacional das mãos do governo?

Oliver Stone

Era chamada de Lei de Coleta de Registros de Assassinatos. Basicamente, não havia exceções permitidas, exceto em casos graves de segurança nacional, pelo que entendi. Mas ela nunca foi aplicada. O Congresso não tinha nenhum mecanismo para aplicá-la. A ARRB ficou sem fundos em 1997 ou 1998 e foi fechada. Não houve continuidade, nenhum mecanismo para continuar. Nesse caso, a CIA assume o controle e não faz nada. Eles rejeitaram tudo o que lhes foi pedido.

Ed Rampell

Pelo que você sabe, já houve outro filme de Hollywood que inspirou legislação federal?

Oliver Stone

Não que eu saiba.

Ed Rampell

Como foi, mais uma vez, testemunhar perante o Congresso sobre o assassinato de JFK?

Oliver Stone

Rip Van Winkle. Acordei depois de trinta anos e aqui estou eu de novo, basicamente a mesma coisa. Francamente, minha interpretação é que eles nunca absorveram os fatos da Comissão Warren. Há inúmeras coisas que a Comissão Warren disse — estamos falando de mil coisas diferentes. Há muitas pistas diferentes por aí, elas estão em lugares diferentes. É preciso um computador ou um Sherlock Holmes para reunir todos esses fatos em um só lugar. Se isso fosse feito, por um modelo de linguagem para um computador gigante juntar tudo isso, então as pessoas entenderiam.

Primeiro, a falta de provas originais — a cadeia de custódia foi quebrada em rifles e balas. Ou seja, desde o início não há caso. Acrescentei [no documentário JFK Revisited, de 2021] as três mulheres que não viram Oswald [no Edifício do Depósito de Livros Escolares do Texas, de onde ele supostamente disparou contra o Presidente Kennedy], bem como as impressões digitais da inteligência em Oswald por tantos anos. É muito perturbador para qualquer pessoa sã, que acompanhe essas coisas e saiba como o governo funciona. Por que você entrega o Arquivo 201 de Oswald [um Arquivo Oficial de Pessoal Militar] para [Chefe de Contrainteligência da CIA, James Jesus] Angleton, e ele fica com ele para sempre? Diga-me você.

Acho que o depoimento mais interessante que dei foi, na verdade, anedótico. No final, mencionei a história de Angleton, ele foi citado dizendo — ele era católico e aparentemente tinha algum tipo de sentimento de culpa — que ele disse que estava lá com todos os fundadores [da CIA], que os conhecia muito bem, [Allen] Dulles e [Richard] Helms. Ele disse: "Eles todos iriam se encontrar no inferno novamente."

Isso não é prova, mas, meu Deus, é algo a que você precisa prestar atenção. Sabe, é solucionável. Uma pessoa inteligente pode juntar as peças e mostrar todas as falhas do caso. Primeiro, você precisa começar com o fato de que você não condenou Oswald pelo assassinato. Quem cometeu o assassinato ali? Não há assassino. Não há ninguém no sexto andar [do Edifício do Depósito de Livros Escolares do Texas] para assumir a culpa pelo assassinato.

Ed Rampell

Por que você acha que Trump está divulgando esses arquivos agora?

Oliver Stone

Porque ele expressou o desejo de um governo mais transparente diversas vezes. Ele próprio pode ter fortes dúvidas sobre o caso. Muitas pessoas têm. Na verdade, a maioria das pessoas não acredita na Comissão Warren. Se você se lembra bem, quando JFK se manifestou em 1991, eu disse que isso não era fato — mas sim um "contramito". Um mito cria o outro mito. É isso que eu acredito que aconteceu. E eu fui criticado por isso.

Mas desde então, nós provamos, a AARB provou, que [o Secretário de Defesa Robert] McNamara disse muito claramente que estava retirando as tropas do Vietnã. Isso foi em maio de 1963, pouco antes da morte de Kennedy. Ele disse isso em voz alta aos líderes militares em Honolulu: Temos que ir mais rápido. "Vencer ou perder", foi o que ele disse. Vencer ou perder. Em outras palavras, Kennedy queria sair, vencendo ou perdendo.

Veja o depoimento. Está diante dos seus olhos, e mesmo assim as pessoas não.

Ed Rampell

Qual o papel, se houver, de RFK Jr. na divulgação desses documentos confidenciais?

Oliver Stone

Não posso falar por ele, mas ele afirmou acreditar que houve conspiração na morte de seu pai e de seu tio. Nunca ouvi sua opinião sobre Martin Luther King ou Malcolm X, mas certamente há um padrão suspeito de assassinatos nos anos 60. Todas as histórias são inacreditáveis ​​quando examinadas, e foram examinadas com bastante cuidado por detetives e pesquisadores.

Ed Rampell

Como você disse, milhares de arquivos acabaram de ser divulgados e levará muito tempo para analisá-los. Mas, até agora, quais são algumas das maiores conclusões, das maiores revelações?

Oliver Stone

O memorando de Schlesinger sobre a CIA [Reorganização de 30 de junho de 1961] certamente foi publicado na íntegra. Foi redigido originalmente. É preocupante a questão da CIA — quase 47% do Departamento de Estado eram agentes da CIA no exterior, em nossas embaixadas. É uma estranha tomada de poder por uma agência secreta de inteligência, muito estranha. Schlesinger e Kennedy achavam que a CIA deveria ser completamente reorganizada.

O poder de ação secreta foi concedido a eles em 1947, em uma pequena cláusula na criação da Agência Central de Inteligência (CIA). A capacidade de criar ações secretas é o principal erro cometido na origem. Porque isso lhes deu um poder que eles inflaram a proporções enormes, como um elefante. E ninguém pode detê-los.

Até [Harry S.] Truman, que assinou os papéis [de criação da CIA], tinha enormes dúvidas em 1963. Há uma longa história — Dulles voou especialmente para o Missouri para conversar com ele e tentar tirá-lo do caso, porque ele escreveu um artigo de opinião no qual questionava o papel da CIA no governo. Esse artigo existiu por um tempo no Washington Post e foi modificado e modificado, e os historiadores argumentam que foi porque Dulles trabalhou muito para tirá-lo de circulação.

Ed Rampell

Em 1º de abril, Jefferson Morley, autor de The Ghost: The Secret Life of CIA Spymaster James Jesus Angleton, testemunhou sobre outras revelações sobre a CIA. Ele disse que Angleton, chefe de contrainteligência da CIA, compilou um arquivo de Oswald antes do assassinato e até examinou o correio de Oswald.

Oliver Stone

Sim, é verdade. Mas, por outro lado, a AARB também encontrou vestígios de inteligência em Oswald, desde 1959. Em outras palavras, Angleton se antecipou a grande parte do material e aparentemente o escondeu. Isso é muito importante. O que ele escondeu? O que ele sabia? Sempre imaginei que Angleton estivesse muito envolvido nisso. É por isso que usei a citação dele na audiência. Angleton faz sentido, porque ele é o chefe de contraterrorismo.

Jeff Morley fez um ótimo trabalho acompanhando três ou quatro aspectos diferentes do caso. George Joannides era um agente da CIA que comandava o grupo cubano anti-Castro. Ele estava trabalhando em 1963, estava lá [em Miami] durante todos aqueles episódios lidando com todos esses grupos secretos. Joannides mentiu muito. Quando a Câmara fez sua investigação em 1978 — Morley conta a história em JFK Revisited — eles perguntaram a Joannides: "Você tem algum conhecimento do caso da investigação da Comissão Warren de 1963?" Joannides diz: "Não, eu não estive envolvido de forma alguma em 63, no caso de Oswald ou no assassinato". Ele estava mentindo e [G. Robert] Blakey descobriu depois. Está no filme — ele diz: "Nunca mais confiarei na CIA". Ah, sim, Blakey acordou, finalmente, em 1978. Mas Blakey tinha muito poder [como conselheiro-chefe do Comitê Seleto da Câmara dos Representantes dos EUA sobre Assassinatos]. É uma pena. Ele ainda está vivo — ele deveria ser chamado.

Ed Rampell

Em seu depoimento em 1º de abril, você pediu que o assassinato de JFK fosse "reaberto" e "investigado". Por quem? Por quê?

Oliver Stone

Deveria haver uma nova comissão. Da Câmara, do Senado ou de ambos — uma comissão conjunta. A burocracia funciona de tantas maneiras. Mas, definitivamente... Não há provas [de que Oswald atirou em Kennedy]! Não há cadeia de custódia, nada se sustenta no tribunal. Se Oswald tivesse ido a tribunal, o caso teria sido arquivado por qualquer juiz. Não se sustenta! E a bala? E o fuzil? O depoimento de que Oswald nem estava no sexto andar?

Richard Schweiker [membro da Comissão Especial do Senado para o Estudo de Operações Governamentais com Relação às Atividades de Inteligência] disse que as impressões digitais da inteligência estão em Oswald desde o início. E ninguém entra nisso. Por que deixamos a CIA escapar impune?

Nem sequer mencionamos a autópsia. Aquela autópsia foi uma farsa, uma vergonha! Quarenta e duas pessoas viram um enorme ferimento aberto na parte de trás da cabeça do Presidente Kennedy, bem aqui. Quarenta e duas! Isso aconteceu no Parkland [Hospital] e no Bethesda [Hospital Naval] — Bethesda foi a autópsia. Quarenta e duas pessoas, e todas apontaram para a mesma área. Como um ferimento na cabeça como esse acontece? Acontece de frente — é um ferimento de saída [Oswald supostamente atirou em Kennedy pelas costas]. Um ferimento de saída gigantesco. Isso foi enterrado.

Você precisa de alguma força investigativa federal. Fizeram isso na África do Sul com a Comissão da Verdade e Reconciliação, e no Camboja, fizeram. Essas coisas acontecem. Este é um assassinato grave de um líder importante em um momento importante. E foi feito nas circunstâncias mais suspeitas possíveis. Devemos uma comissão da verdade e reconciliação a este país.

Ed Rampell

Se isso acontecer, você acha que algum dia descobriremos quem realmente atirou em JFK?

Oliver Stone

Certamente acho que podemos mostrar às pessoas que estariam mais interessadas em sua eliminação. Os esqueletos se foram. A verdade é sempre difícil de ser alcançanda.

Colaboradores

Oliver Stone é cineasta, três vezes vencedor do Oscar e autor de Chasing the Light: Writing, Directing, and Surviving Platoon, Midnight Express, Scarface, Salvador, and the Movie Game (HMH Books, 2020).

Ed Rampell é um historiador e crítico de cinema radicado em Los Angeles, autor de Progressive Hollywood: A People’s Film History of the United States e coautor de The Hawaii Movie and Television Book.

25 de setembro de 2020

O cineasta Oliver Stone fala com a Jacobin sobre sua vida e política

Conversamos com o lendário diretor Oliver Stone sobre sua carreira, Fidel Castro, Edward Snowden, filmes sobre a Guerra do Vietnã e por que ele toma o lado dos oprimidos em seu trabalho.

Uma entrevista com
Oliver Stone

Jacobin

Oliver Stone durante o Starmus Festival em 21 de junho de 2017 em Trondheim, Noruega. (Michael Campanella / Getty Images).

Tradução / Poucos cineastas estadunidenses têm uma carreira tão bem-sucedidas e selvagem como a do triplo vencedor do Oscar Oliver Stone. E pouquíssimos fazem cinema nos seus próprios termos, como fez Stone — forjando um cinema assumidamente de esquerda no coração da Hollywood de Reagan e Bush.

Agora o açoite cinematográfico dos poderosos tem uma nova biografia. Chasing the Light: Writing, Directing, and Surviving Platoon, Midnight Express, Scarface, Salvador, and the Movie Game [Perseguindo a luz: escrever, dirigir, sobreviver a Platoon, O Expresso da Meia-Noite, Scarface, Salvador e o Jogo do Cinema, sem tradução no Brasil] reconta a vida e carreira do ator-diretor, desde a infância em Nova Iorque até seu trabalho clássico e controverso em Hollywood na década de 80. E pela primeira vez, Stone mergulha em suas experiências profissionais enquanto soldado no Vietnã, de onde explodiram filmes que entraram nos rankins das maiores obras-primas anti-guerra do cinema.

Em 1979, ele venceu o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por O Expresso da Meia-Noite, seus três primeiros prêmios da Academia. Mas foi em 1986 — o ano em que ele completou 40 anos e o ponto em que sua biografia termina — que o cineasta realmente se destacou como autor. Foi o ano em que ele dirigiu dois de seus próprios roteiros originais, Salvador (co-escrito por Richard Boyle) e Platoon. Os roteiros de ambos os filmes foram indicados ao Oscar no mesmo ano, mas Stone ganhou o prêmio de Melhor Diretor por Platoon, baseado principalmente em suas próprias experiências como soldado de infantaria na Guerra do Vietnã.

Como o vencedor do Coração Púrpura observa em suas memórias, Platoon – que também ganhou o Oscar de Melhor Filme – tinha “força, vitalidade, originalidade e algo não visto com frequência no cinema estadunidense... um compromisso político radical e dramático que lembra algum jovem dramaturgo das décadas de 1930 ou 1940, um Clifford Odets ou um Arthur Miller, irrompendo para dizer uma verdade de forma direta e dinâmica.”

O colaborador da Jacobin, Ed Rampell, conversou recentemente com Stone para falar sobre Fidel Castro, Edward Snowden, os filmes da Guerra do Vietnã e seu legado cinematográfico.

Ed Rampell

Scarface abre com clipes de notícias sobre o barco de Mariel que trouxe milhares de cubanos para os EUA, incluindo fotos de Fidel Castro, que Tony Montana, interpretado por Al Pacino, denuncia repetidamente. Isso parece prefigurar seus documentários sobre Fidel, Comandante, de 2003 e Castro in Winter, de 2012, além de Ao Sul da Fronteira, de 2009.

Oliver Stone

E tem Procurando Fidel, de 2004. Você se esqueceu dele! [Risadas]

Ed Rampell

O que você pensa sobre Fidel?

Oliver Stone

Veja, o que escrevi no roteiro de Scarface não são minhas opiniões sobre Fidel. A única maneira de se dar bem em Miami, que é uma sociedade anti-Castro de extrema direita – como você sabe, o senador Marco Rubio, da Flórida, é um dos maiores falcões de guerra que temos – então, naquela época, principalmente em 1980, meu Deus, o ódio pelo experimento de Fidel era extremo. E eu não compartilho dessas opiniões.

Pelo contrário, acho que Fidel trouxe uma grande mudança para a América Latina. Ele é um grande símbolo de reforma – reforma agrária e todas as formas de reforma. E, claro, ele sempre foi atacado, e ainda temos o embargo desde aqueles anos. É insano. A impopularidade das pessoas ao redor do mundo – a comunidade mundial condena esse embargo na ONU há décadas. Ninguém nos EUA parece ouvir, prestar atenção. Acho que temos dois ou três aliados que votam conosco nas Nações Unidas todos os anos nesse embargo contra mais de 190 países.

No que diz respeito à percepção de Cuba, muitas elites que vêm aos EUA são corruptos e fogem das revoluções em seus próprios países. Seja no Vietnã ou em Cuba... muitos deles se tornam terroristas por direito próprio e tentam voltar e ferrar suas próprias nações.

Ed Rampell

Ao lançar documentários sobre Fidel, você encontrou algum problema de censura por parte de cubanos ou estadunidenses?

Oliver Stone

Encontrei, sim. O documentário Comandante estava prestes a ir ao ar na HBO e eles tiraram sem me avisar. Fizeram isso abruptamente, em resposta às cartas da extrema direita cubana que prometiam vir e cancelar – já existia a cultura do cancelamento – suas assinaturas da HBO. Houve uma grande ameaça, eles disseram. Ninguém tinha visto o filme, exceto no Festival de Sundance, onde fora exibido um mês antes. Correu muito bem, mas houve um boato de que o filme permitia que Fidel falasse. Não estava tomando nenhum lado editorial; foi simplesmente uma plataforma onde o entrevistei por vários dias, e ele fez muitos comentários interessantes. O filme deu voz à versão da Revolução Cubana contado por Fidel, que nunca ouvimos aqui.

Ed Rampell

Por que você costuma ficar do lado dos oprimidos que às vezes são impopulares nos EUA, como Fidel e Edward Snowden?

Oliver Stone

Porque essa é minha natureza. Eu não gosto de valentões. Não gosto que as pessoas sejam intimidadas por governos e outros poderosos. Sempre fui assim. Eu sinto muito, não sei por que. Acho que muitas pessoas também são como eu. Só não acho que seja justo. Quando algo não é justo, surge algum gene em mim que quer lutar.

Ed Rampell

Em seu documentário de 2009, Ao sul da fronteira, um dos líderes latino-americanos que você cobre é Hugo Chávez. O que você gostaria de dizer sobre Chávez?

Oliver Stone

Ele tirou 70% da população da Venezuela da extrema pobreza. Deu-lhes uma educação, deu-lhes esperança, deu-lhes um sentido de participação no governo, deu-lhes uma rede de segurança social – coisas que eles nunca tiveram antes. A Venezuela era um dos países mais pobres e pior administrados da América do Sul. Por exemplo, ele certamente influenciou muitos outros países a mudar. Sob seu governo, houve uma maré de mudança. Você viu no filme – visitei cerca de seis ou sete outros presidentes em diferentes países para mostrar a influência que ele teve. É como o New Deal de Roosevelt.

É claro que os EUA estão tentando reverter a maré, e o fizeram isso efetivamente em alguns desses países. Como no New Deal de Roosevelt, as pessoas nunca mais serão as mesmas. Eles foram levantados por Roosevelt e Chávez e esses outros presidentes.

Ed Rampell

Por que demorou tanto para filmes sobre a Guerra do Vietnã encontrarem público nos EUA?

Oliver Stone

Eles tinham visto alguns filmes antes dos meus, que eram a versão de Sylvester Stallone [a franquia Rambo] e a versão de Chuck Norris [O Super Comando]. Teve O Franco Atirador (1978), Apocalypse Now (1979) e Amargo Regresso (1978). Amargo Regresso foi muito realista, mas não foi muito bem. Apocalypse Now e O Franco Atirador tiveram muito sucesso, mas ao mesmo tempo não eram muito realistas. Eles eram filmes fortes e metafóricos. Os outros filmes que foram notáveis eram chauvinistas e ruins.

Ed Rampell

No esforço para colocar o Vietnã no cinema, houve consequências indesejadas ao retratar a guerra como uma espécie de tradição cinematográfica “brutal” do amadurecimento, empurrando a política e as atrocidades cometidas contra os vietnamitas para o lado em favor de se concentrar nas lutas dos soldados estadunidenses?

Oliver Stone

Sim, O Franco Atirador e Apocalypse Now não levam em conta o ponto de vista vietnamita. Acho que isso aconteceu em Platoon – havia um grande problema sobre matar aldeões e narrar esse ponto de vista. A mesma questão aparece em Nascido em 4 de julho. Mas em Entre o Céu e a Terra, eu entro totalmente no ponto de vista vietnamita. Há uma heroína vietnamita. Mas o filme não foi bem neste país. Acho que é um dos meus melhores filmes. É muito emocionante. A história de uma mulher, Le Ly Hayslip – ela acabou vivenciando quase tudo, como estar dos dois lados, e finalmente acabou na América, casada com um estadunidense, interpretado por Tommy Lee Jones, que trouxe seus problemas para casa.

Ed Rampell

Em Chasing the Light você menciona muito Costa-Gavras. Você se considera o Costa-Gavras americano?

Oliver Stone

Bem, eu o admiro muito Z (1969), foi um dos filmes mais evocativos para mim na escola de cinema. Ele me disse que isso poderia ser feito, esse tipo de edição poderia ser eficaz na tela. Me mostrou o caminho. Seu filme, se você olhar de perto, em alguns aspectos tem uma estrutura que lembra JFK (1991). Ele veio para a nossa escola, um dos destaques dos meus anos lá na NYU. Acho que Desaparecido: Um Grande Mistério (1982) também foi um filme muito bom, muito eficaz. Mas também não teve um grande impacto. Todos os filmes sobre a América Latina foram ignorados, não tiveram grande sucesso. Mas Costa-Gavras é certamente um herói, sim.

Ed Rampell

Você sempre teve objetivos políticos com seus filmes?

Oliver Stone

Não. Sempre tive a política circulando no sangue em meu corpo porque meu pai falava sobre isso. Aprender a arte do filme – aprender a escrever roteiros, drama, isso é algo realmente crucial. Para mim, minha educação foi realmente em torno disso. Fiz dois filmes de terror [Seizure, de baixo orçamento, de 1974; A Mão, de 1981, estrelando Michael Caine] e depois escrevi O Expresso da Meia-Noite, Scarface, O Ano do Dragão. Eu era roteirista e queria ser diretor. Mas foi só em Salvador e Platoon – aqueles dois seguidos – que me senti realmente um roteirista-diretor.

Mas essa não era minha intenção. Platoon não era sobre política – era apenas para mostrar o drama do dia a dia no Vietnã. Mesma coisa com Salvador. Tem uma cena em que ele [o personagem de James Woods, Richard Boyle] denuncia a CIA. Concordo. Mas ele é um jornalista interessante que é meio maluco. Você aborda a história do ponto de vista de Hunter Thompson, não de um ponto de vista político.

Ai, eu tentei em todos os meus filmes, incluindo JFK, manter a diversão, manter o movimento, manter a tensão – esses são meus objetivos. Se chegarmos a qualquer tipo de esqueleto político, ele deve sair da história, não ser imposto a ela.

Sobre o entrevistado

Oliver Stone é um cineasta, três vezes vencedor do Oscar e autor de Chasing the Light: Writing, Directing, and Surviving Platoon, Midnight Express, Scarface, Salvador, and the Movie Game (HMH Books, 2020).

Sobre o entrevitador

Ed Rampell é um historiador / crítico de cinema de Los Angeles e autor de "Progressive Hollywood: A People’s Film History of the United States" e co-autor do The Hawaii Movie and Television Book.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...