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1 de dezembro de 2024

É a produtividade, estúpido!

Taxas medíocres deveriam ser consideradas o maior problema da economia brasileira; gargalos do tipo não trazem votos

Paulo Feldmann
Professor de economia da USP e diretor do Centro do Comércio da FecomercioSP

Folha de S.Paulo

Em 1992, na campanha eleitoral norte americana, Bill Clinton enfrentava George Bush e a economia do país estava indo muito mal. O democrata venceu a eleição para presidente com o slogan "É a economia, estupido!", criado pelo seu estrategista de campanha, James Carville.

Em 2024, não podemos dizer que o Brasil possua um grave problema econômico, pois os principais índices, como desemprego e inflação, apresentam valores bem adequados —o primeiro, inclusive, recuou a 6,2%, o menor da série histórica. No entanto, o país não demonstra taxas significativas de crescimento econômico há pelo menos 15 anos.

Produção no estaleiro Atlântico Sul, em Ipojuca (PE), investimento considerado de baixo retorno para a produtividade do país. - Eduardo Anizelli - 10.nov.2023/Folhapress

A razão principal para esse desempenho pífio está na baixa taxa de produtividade medida pelo PIB em relação à mão de obra que efetivamente trabalha. Não conseguimos sair do "voo da galinha"; ou seja, não crescemos mais que 3% ao ano. Mas todos os países que deram o salto, como China, Coreia do Sul ou Índia, souberam aumentar suas respectivas taxas de produtividade e, por isso, cresceram tanto.
Baixa produtividade deveria ser considerada o principal problema da economia brasileira.

Aliás, há décadas que nossa produtividade apresenta resultados medíocres. Basta dizer que enquanto um trabalhador americano leva 1 hora para executar uma tarefa, o operário brasileiro levará 4 horas para a mesmíssima atividade. Acontece que, enquanto nos Estados Unidos o trabalhador está rodeado pelo que há de mais moderno em equipamentos e tecnologia, seu equivalente brasileiro raramente dispõe de algo avançado para lhe suportar.

Recente relatório do IMD (Institute for Management Development), referente ao ano de 2023, apresenta a classificação dos 64 países mais importantes do mundo no quesito competitividade. O Brasil ficou em 60º lugar. Por muito pouco não amargamos a última posição, que pertence à Venezuela. O pior é que quem acompanha o mesmo relatório nos últimos anos percebe que nosso país cai uma posição a cada ano. Se continuarmos assim, rapidamente seremos o último da lista.

A baixa produtividade é que causa a falta de competitividade do país. Talvez porque os nossos governantes, em geral, ficam muito mais entusiasmados com os temas macroeconômicos, como inflação, moeda, taxa de juros e desemprego. Acontece que resolver os assuntos macroeconômicos pode ser uma condição necessária, mas não é suficiente para aumentar a competitividade das empresas. É fundamental que se dê atenção também aos problemas da empresa brasileira.

Para isso, é vital, por exemplo, que se resolva o problema de transporte de mercadorias, que ainda utiliza caminhões, enquanto até nossos vizinhos sul-americanos já possuem muito mais ferrovias do que nós. É vital que se melhore de vez o nível educacional do país para que possamos contar com trabalhadores mais qualificados. Energia elétrica não pode ser tão cara, nem falhar com tanta frequência. Tudo isso sem falar da carga tributária que, além de muito alta, é indecente para as empresas.

Por inúmeras razões não há investimento governamental, mas também não há investimento privado. Este deixou de acontecer porque, nestes últimos anos, as empresas justamente ficaram inseguras quanto ao futuro, temendo que o mesmo fosse quase sempre de piora nas condições. Além disso, as empresas se ressentem da falta de planos governamentais de longo prazo e que digam exatamente quais serão as prioridades do país.

Enfim, há diversos fatores minando nossa produtividade e tornando nossas empresas menos competitivas. A maioria dos problemas depende de soluções que precisam partir dos governos e do setor público. Isso deixa a solução ainda mais distante, e o que é pior: solucionar esses gargalos em geral não traz votos.

O país precisa de uma cruzada pela produtividade —o que entidades e associações de classe poderiam levar a frente. Poderia começar pelos mais de 5.400 prefeitos que assumirão seus cargos logo mais: seria vital que ao menos tomassem consciência da importância da produtividade e tratassem do tema com a prioridade que ele merece.

29 de setembro de 2024

O dano que Gerry Healy causou

Chefe de um dos maiores grupos de extrema esquerda na Grã-Bretanha dos anos 1970, Gerry Healy foi acusado de estupro e abuso sexual. Uma nova biografia reflete sobre o pântano de onde ele emergiu — e como o modelo autoritário de seu grupo facilitou seus crimes.

Uma entrevista com
Aidan Beatty


A primeira página do jornal do Partido Revolucionário dos Trabalhadores anuncia a expulsão do líder de longa data Gerry Healy em 30 de outubro de 1985. (Cortesia de Aidan Beatty)

Entrevista por
David Broder

Nos anais do trotskismo britânico, uma figura grotesca se destaca. Envolvido pela primeira vez no movimento trotskista em 1937, Gerry Healy se tornaria uma figura de liderança após a Segunda Guerra Mundial, passando a liderar a Socialist Labour League e, a partir de 1973, o Workers Revolutionary Party (WRP). Por um tempo entre as maiores organizações de extrema esquerda da Grã-Bretanha, o WRP era famoso por seu círculo de membros famosos, seu relacionamento com a Líbia de Muammar Gaddafi e seu líder autoritário Healy.

O WRP não apenas tinha uma cultura de punição violenta de seus próprios membros, mas Healy foi acusado de abusar sexualmente de dezenas de membros do sexo feminino. Por fim, em 1985, ele foi expulso do partido, com a fragmentação do WRP como resultado. Sua impunidade de longa data é frequentemente atribuída à cultura do WRP, desde seu culto ao líder em torno de Healy até seu controle sobre o comportamento de outros membros. Mas por que tantos milhares de pessoas estavam dispostas a se juntar a esse partido?

Aidan Beatty, historiador da Carnegie Mellon University, é autor de uma nova biografia de Gerry Healy, The Party Is Always Right. O trabalho de Beatty retrata o WRP não como uma aberração estranha, mas como uma versão extrema de um modelo organizacional trotskista autoritário e fracassado. Em uma entrevista, ele falou com David Broder, da Jacobin, sobre o "vanguardismo" do WRP, sua cultura abusiva e o papel de Healy como um suposto líder da classe trabalhadora.

David Broder

O Workers Revolutionary Party foi uma das maiores organizações trotskistas do Reino Unido. Como, em geral, você caracterizaria o tipo de pessoa que se juntou a esse partido — o que eles viram nele?

Aidan Beatty

O WRP foi fundado em 1973, quando o trotskismo estava realmente em ascensão na Grã-Bretanha; o acadêmico John Kelly corretamente chamou isso de sua "era de ouro". Havia talvez até vinte mil pessoas em grupos trotskistas — mais do que o Partido Comunista, embora divididos em vários grupos em vez de unidos em um partido. O WRP afirmava ter oito mil membros, mas isso era um exagero; nunca teve mais de três mil membros, com uma rotatividade muito grande. Esperava-se que aqueles que se juntassem fizessem sacrifícios impossíveis pelo partido, e então a rotatividade de membros era bem alta.

O partido tinha uma forte presença em Londres, em Manchester, em Cardiff e, em menor grau, em áreas de mineração de carvão em Yorkshire e Nottingham. Tinha alguns membros irlandeses, mas não tantos quanto poderíamos esperar, dado o número de irlandeses na Grã-Bretanha e as próprias origens irlandesas de Healy; ele parecia desconfiar de outros irlandeses. Comparado ao International Socialists/Socialist Workers Party e ao International Marxist Group, o WRP estava muito menos interessado em recrutar estudantes. Era massivamente dominado por homens, o que é mais típico para esses tipos de grupos do que seus membros gostam de admitir; o WRP era abertamente desdenhoso do feminismo de segunda onda, e isso definitivamente prejudicou sua capacidade de recrutar mulheres.

O WRP deu grande ênfase à organização do local de trabalho, então era relativamente forte, por exemplo, na British Leyland, uma fábrica de automóveis famosamente militante em Oxford (embora dentro de um ano de sua fundação tenha expulsado seu principal organizador sindical aqui, Alan Thornett, e ele levou talvez de cem a duzentos membros com ele — um grupo sério para um partido de apenas três mil).

Por mais contraintuitivo que possa parecer agora, o que tornou o WRP atraente para membros em potencial foi sua rigidez doutrinária. Após as convulsões globais de 1968, quando uma revolução ainda parecia possível, mas também estava se esvaindo aos poucos, o WRP ofereceu uma visão de militância obstinada, certeza ideológica e devoção inflexível à revolução. Seu dogmatismo — e a insistência constante de que a revolução ainda estava no horizonte — nunca agradaria a todos. Mas claramente atraiu um conjunto específico de pessoas que ainda tentavam entender as possibilidades de construir uma revolução depois de 1968.

David Broder

O WRP atraiu um importante grupo de apoiadores famosos. Você cita a avaliação de Tariq Ali sobre Healy cativando intelectuais de classe média. O que permitiu que ele os impressionasse com as armadilhas de um "líder proletário" e quão envolvido estava o partido em lutas que deram a isso alguma substância? Como Healy poderia confeccionar essa imagem?

Aidan Beatty

O ator Corin Redgrave supostamente disse uma vez que não gostava da suavidade do lado mais hippie da Nova Esquerda e queria algo mais militante, não "centrado em moleza e frágil".

Quando Corin ou sua irmã Vanessa Redgrave se juntaram, eles foram rapidamente promovidos a posições de liderança. Healy lhes deu muita atenção e bajulou seus egos, e eles nunca foram alvos de seu temperamento infame e violento. Houve muita especulação injusta sobre Vanessa Redgrave na época — que esse era apenas mais um papel de atriz para ela, ou que ela se agarrou a Healy porque queria uma figura paterna forte. É revelador que ninguém especule sobre as motivações de seu irmão da mesma forma sexista. Sempre sou cauteloso em especular sobre motivações psicológicas profundamente arraigadas, embora pareça haver um desejo, para ambos os irmãos Redgrave, de fazer parte de um movimento "duro" ou "duro".

Em 1973, Healy estava envolvido no trotskismo há quase quarenta anos; esse histórico, que remonta ao antifascismo na década de 1930 e a uma época em que o próprio [Leon] Trotsky ainda estava vivo, definitivamente o ajudou. Mas Healy cultivou muito cuidadosamente de sua autoimagem. Ele alegou ser um produto da extrema pobreza no oeste da Irlanda (quando sua família era realmente muito rica); ele alegou ter visto Black and Tans atirar e matar seu pai em 1919 (o que era uma mentira descarada); ele alegou ter testemunhado pessoalmente a ascensão do fascismo enquanto visitava a Europa continental como marinheiro da marinha mercante e alegou ter sido expulso do Partido Comunista por questionar os laços comerciais contínuos da URSS com a Itália fascista (novamente uma mentira — ele plagiou essa história da biografia de Jock Haston, um dos primeiros líderes trotskistas escoceses). Não obstante quão falsas essas alegações sejam, elas se alinham com o desejo de que os Redgraves e outros tinham de ser membros de um partido ostensivamente sério e militante.

David Broder

O WRP realizou alguns feitos organizacionais incríveis para um partido de seu pequeno tamanho — notavelmente tendo o primeiro jornal diário colorido na Grã-Bretanha. Era uma questão de dinheiro estrangeiro, doadores generosos ou apenas autoexploração por seus militantes? Que tipo de atmosfera sustentou uma atividade tão intensa?

Aidan Beatty

A acusação a que você está aludindo aqui sobre "ouro árabe" perseguiu o WRP do final dos anos 1970 em diante. Até as revelações sobre Healy e abuso sexual virem à tona em 1985, era uma das coisas mais notórias que os estrangeiros associavam a eles. Essencialmente, a partir de 1977, quando o WRP emitiu uma declaração conjunta com o governo líbio condenando o imperialismo e o sionismo, houve acusações persistentes de que o partido estava sendo financiado pelo governo líbio ou era até mesmo uma espécie de posto avançado da influência líbia na Grã-Bretanha. A partir de 1979, há acusações semelhantes sobre fundos vindos do Iraque.

Sem dúvida, há alguma verdade nessas acusações; provavelmente somas de cinco dígitos estavam sendo dadas ao partido e o WRP também estava usando sua impressora de alta tecnologia no norte da Inglaterra para contratos de impressão pagos para o governo líbio. Membros do WRP na época — e desde então — mais ou menos admitiram tudo isso. O dinheiro iraquiano é um pouco mais difícil de definir. Minha sensação é que isso envolvia quantias muito menores de dinheiro e, em geral, os baathistas sabiam o suficiente para ficar longe do WRP. Mas também acho que isso é exagerado, tanto por outros grupos trotskistas que poderiam usá-lo como um porrete para bater no WRP, mas também por Healy e o próprio WRP, que eu acho que queriam enfatizar demais sua importância internacional.

Em geral, acho que a verdade muito menos intrigante e muito mais deprimente é que grande parte da infraestrutura que o partido construiu — uma gráfica colorida e um jornal diário, uma rede de centros de treinamento para jovens, uma rede de livrarias, uma pequena mansão em Derbyshire usada para retiros educacionais marxistas — foi paga mais com dinheiro suado dos membros do partido do que com riquezas secretas vindas de Trípoli. E ao longo do caminho, alguns dos membros famosos de maior destaque pareciam ter pago por isso também. A casa em Derbyshire era legalmente de propriedade de Corin Redgrave.

O Daily News Line é um bom exemplo do que o WRP foi capaz de alcançar, bem como dos custos que tudo isso implicou. Foi o primeiro jornal colorido na Grã-Bretanha, e os membros do partido venderam cerca de sete a dez mil cópias por dia de meados da década de 1970 até a divisão do WRP em 1985. No começo, quando eu estava pesquisando tudo isso, quando vi esse número de circulação, pensei algo como "bem, isso não é ótimo", considerando quantas cópias o Mirror ou o Sun vendiam por dia. Mas então percebi o quão genuinamente impressionante era — seria difícil imaginar qualquer grupo de esquerda hoje sendo capaz de fazer isso (ou qualquer que seja o equivalente em notícias online).

Mas o nível de comprometimento que isso exigia era massivamente insustentável. Os membros do partido acordavam às 4 da manhã, talvez tivessem que viajar pelo país até um ponto de coleta para encontrar um motorista de caminhão que vinha da gráfica (em Runcorn, perto de Liverpool) e então os traziam de volta para Londres, Glasgow, Cardiff ou outra cidade, os vendiam do lado de fora das fábricas ou estações de trem, depois iam para seu trabalho regular e ainda eram esperados para vender mais à noite em pubs ou comparecer a uma reunião de filial do partido. Isso causou um esgotamento massivo. Filiais do partido receberam cotas cada vez maiores de cópias para vender e havia um sistema de contabilidade complicado usado onde eles eram cobrados por sua cota de jornais diários, independentemente de vendê-los ou não.

Definitivamente, houve períodos em que o jornal era um empreendimento deficitário e o trabalho de vender os jornais se tornou totalmente consumidor para os membros; eles se tornaram um jornal com um partido vinculado, em vez de um partido que pode usar um jornal para promover suas ideias.

David Broder

O WRP era notável por sua cultura de violência física e punição, assim como pelo autoritarismo pessoal extremo de Healy. Provavelmente nós dois conhecemos ex-membros do WRP que eram pessoas que queriam derrubar a sociedade capitalista, eram críticos de modelos autoritários de socialismo e eram de outra forma articulados em desafiar a opressão — mas também faziam parte dessa cultura. Por que eles permitiram que isso acontecesse?

Aidan Beatty

Parte disso é muito fácil de responder; a violência em si impediu que a oposição surgisse. A violência era uma ferramenta de organização rudimentar para o WRP. Entrevistei alguns ex-membros e, mesmo voltando ao início dos anos 1960 e à Socialist Labour League [antecessora do WRP], fica claro que os membros do partido tinham medo de Healy. O uso da violência por Healy era, em geral, bastante sistemático e intencional. Ele sabia quando usar sua raiva e quando e onde usá-la. Ele criticava os intelectuais do partido por serem muito acadêmicos e distantes, e atacava os trabalhadores por serem muito ignorantes e ignorantes na teoria marxista. Era bastante óbvio para todos os membros que se você tentasse se manifestar contra Healy, na melhor das hipóteses seria caluniado e denunciado verbalmente, e na pior das hipóteses seria atacado fisicamente. Por que arriscar falar se você sabe que esses resultados estão esperando por você?

Há um incidente bastante notório em 1966 quando Ernie Tate, um membro da Irlanda do Norte do Grupo Marxista Internacional, foi violentamente atacado por um grupo de apoiadores de Healy do lado de fora de uma reunião do partido em Londres; Healy estava presente e essencialmente supervisionou o ataque. O ataque foi ruim o suficiente para que Tate não apenas fosse hospitalizado, mas Healy mais tarde foi forçado a comparecer a uma reunião com Isaac Deutscher e se desculpar. Este ataque não foi planejado, mas como eu digo no livro, "Healy propagou uma aura de total crueldade, mas depois pôde se beneficiar dessa aura, já que seguidores em potencial acreditavam que ele era totalmente cruel, em uma espécie de ciclo de feedback".

Um ex-membro me disse que nunca questionou que o partido tinha que ser estruturado de uma maneira muito autoritária e de cima para baixo, porque era isso que seria necessário para realizar uma revolução na Grã-Bretanha. Em geral, acho que muitas pessoas que permaneceram com Healy aceitaram o abuso verbal e físico porque acreditavam que era necessário manter a disciplina ou porque a revolução era mais importante do que seu próprio bem-estar pessoal.

David Broder

Seu livro descreve Gerry Healy como um estuprador. Ele acabou sendo afastado da liderança por causa disso. Nas palavras de Clare Cowen — uma das ativistas que ajudou isso a acontecer — a longa inação sobre seu comportamento criminoso e vil se deveu à falta de "linguagem" do partido para falar sobre isso, também devido à sua forte rejeição ao feminismo. E quanto à estrutura e ideologia do WRP especificamente "possibilitaram" os crimes de Healy? Que efeito mudanças sociais mais amplas, ou movimentos como aqueles vistos no período pós-1968, tiveram sobre os membros?

Aidan Beatty

Quando entrevistei Clare Cowen, ela disse que mesmo que as pessoas "soubessem" o que Healy estava fazendo, elas não sabiam a extensão do abuso de mulheres que ele fazia. Eu definitivamente acho que ela está correta em dizer isso. Quando Cowen, Aileen Jennings e outros membros do partido circularam uma carta expondo Healy em 1985, eles nomearam vinte e seis mulheres que ele havia estuprado ou coagido a fazer sexo. O número total é maior do que isso, em um padrão de abuso que remonta pelo menos a 1964. Como muitos abusadores sexuais, Healy usou sua autoridade para isolar as mulheres que ele tinha como alvo; só quando Cowen e Jennings começaram a contatar cuidadosamente outras mulheres que todos eles descobriram quantas outras tinham sido alvos.

Mas também precisamos reconhecer que o abuso de Healy contra membros femininas do partido não estava acontecendo no vácuo. O WRP não era apenas crítico do feminismo liberal; era abertamente desdenhoso de todas as formas de feminismo, até mesmo do feminismo socialista. Sempre vi isso como politicamente inseparável do abuso de Healy.

Havia uma cultura masculinista muito pronunciada que predominava dentro do WRP — muito severa e austera, totalmente severa e sem humor, arrogantemente convencida de que você está certo em todas as questões. Ela endossava muito a ideia de que os membros deveriam ser capazes de suportar dor e privação. O partido era abusivo por design. Além disso, o WRP sempre fechava fileiras diante de qualquer crítica, não importa o quão significativa ou real fosse essa crítica. Uma organização onde você não pode criticar a liderança de forma alguma é uma organização que está incubando abusadores como este.

Muitos ex-membros do WRP que entrevistei disseram que ficaram chocados quando as revelações sobre Healy surgiram em 1985 e, ainda assim, também disseram que ouviram rumores ou acusações antes disso, que pareciam ter compartimentado. Outros membros me disseram que, assim que ouviram as acusações, souberam que eram reais. Eles já sabiam, em parte, que isso estava acontecendo — e agora as peças se encaixaram em seu entendimento.

David Broder

Hoje, não apenas o WRP, mas as organizações trotskistas em geral têm muito menos influência sobre a esquerda britânica do que na década de 1970, ou mesmo na década de 2000. Poderíamos apontar certas mudanças conjunturais (ou coisas como a liderança de Jeremy Corbyn no Partido Trabalhista) como encorajadoras de escolhas táticas diferentes. Mas você acha que há razões mais fundamentais pelas quais o modelo de organização do "partido de vanguarda militante" não é mais reproduzível? É uma perda de crença no objetivo final socialista ou tem mais a ver com o fato de que os indivíduos não querem mais ser membros de tais partidos hierárquicos?

Aidan Beatty

Acho que o declínio está lá ainda mais cedo. Há claramente um problema no trotskismo britânico de meados da década de 1980 em diante. Além da fratura muito dramática do WRP, a Tendência Militante foi expulsa do Partido Trabalhista na primeira metade da década de 1980. O que tinha sido o Grupo Marxista Internacional (mas estava operando com um nome diferente a essa altura) se desfez em 1985. Os problemas gerais da esquerda na década de 1980 — a força do thatcherismo, a derrota dos mineiros em 1985 e um declínio geral na filiação sindical, a marginalização dos bennitas dentro do Partido Trabalhista e a lenta ascensão da direita blairista — todos são problemas enormes para os trotskistas também. Dos grandes partidos trotskistas, realmente apenas o Partido Socialista dos Trabalhadores sobreviveu à década de 1980 razoavelmente ileso (e eles tiveram seus próprios problemas internos muito sombrios mais tarde).

1989 deveria ter sido o grande momento dos trotskistas. Ou pelo menos, muitos deles esperavam que se os stalinistas desaparecessem, isso deixaria um vazio que os trotskistas poderiam preencher. Em vez disso, os trotskistas entraram em declínio com eles. Não é uma coincidência que, assim como o stalinismo e a social-democracia entraram em declínio na Grã-Bretanha, o trotskismo também entrou em declínio. Por mais que os trotskistas condenassem os comunistas ortodoxos e o Partido Trabalhista, eles também permaneceram um tanto orientados para ambos de maneiras complicadas e contraditórias, e todos afundaram juntos.

Eu acho que a Irlanda é um contraste valioso. Os trotskistas têm sido relativamente bem-sucedidos lá nas últimas duas ou três décadas, e eles fizeram isso se demarcando claramente do Partido Trabalhista (o que não é difícil, dado o quão mais à direita esse partido sempre foi) e por estarem abertos e dispostos a aprender com o feminismo, os direitos gays, os direitos transgêneros. E partidos como o People Before Profit conseguiram descobrir uma maneira de ser politicamente radical sem ter que usar o vocabulário insular do trotskismo — chamando qualquer um de quem você não gosta de "pabloístas" ou "shachtmanitas" ou tendo "discussões" realmente longas sobre se a URSS era um estado operário deformado.

Mesmo apenas com base em evidências anedóticas, fica claro que os grupos ou movimentos de esquerda que tiveram algum tipo de sucesso recente, mesmo que apenas parciais ou limitados, não são vanguardistas em estrutura: Democratic Socialists of America, Momentum, Black Lives Matter. Os partidos trotskistas que permanecem presos nas franjas são aqueles que se recusam a aceitar que o vanguardismo ou estruturas partidárias autoritárias e de cima para baixo são desagradáveis ​​para a vasta maioria das pessoas hoje. E ligados a essas estruturas autoritárias, os membros desses partidos não têm meios de fazer seus líderes mudarem suas táticas. Então você encontra esses partidos ainda se apegando às mesmas ideias, vocabulários e táticas, apesar de todas as evidências de que não funcionarão.

David Broder

Quero insistir um pouco sobre "vanguardismo" e relação com lutas. Quase todos os grupos trotskistas insistem que grupos trotskistas rivais são "seitas", enquanto eles próprios se relacionam com movimentos reais. Muito provavelmente poderia citar algumas lutas onde eles têm alguma presença, por exemplo, onde eles acontecem de ter alguns membros em certos locais de trabalho ou campi. Mas, além de alguns casos locais e excepcionais, em geral o trotskismo tem um histórico ruim de influência de massa.

Lendo um de seus entrevistados, cujo próprio grupo trotskista rival eu pertencia quando adolescente, pensei sobre o fato de que a organização que ele liderou desde a década de 1960 não estabeleceu padrões de sucesso para si mesma — mas também que essa questão fundamental simplesmente nunca surgiu. Seus membros tinham certeza de estar certos, tinham relação suficiente com lutas reais para nos manter ocupados, e isso foi o suficiente para sustentar a intensa atividade, eu diria de culto, de um grupo com algumas dezenas de membros, confortado por seu status de pária. Eu me pergunto o quanto tudo isso tem a ver com o "vanguardismo leninista" em si, ou algo mais particular à tradição trotskista: uma internalização da derrota e uma suposição de minoritarismo por um período tão longo que torna difícil para tais grupos se responsabilizarem.

Aidan Beatty

O irônico é que esses grupos são frequentemente muito hábeis em identificar esses problemas uns nos outros, se não em si mesmos. Alex Callinicos, por exemplo, escreveu uma crítica bastante sólida ao trotskismo em 1990, mas não pareceu reconhecer que o que ele estava dizendo era tão verdadeiro para o Partido Socialista dos Trabalhadores do qual ele era membro quanto para qualquer outra dessas seitas.

Uma das coisas mais evocativas que já ouvi sobre o trotskismo — e cito isso no final do livro — é a visão de Sheila Rowbotham de que os trotskistas frequentemente demonstravam uma tenacidade admirável e um senso de resolução, ao mesmo tempo em que se apegavam, como ela disse, a uma visão de mundo que "baseada na traição, forjada na amargura do fracasso... subordinou toda individualidade ao chamado do revolucionário profissional. Para o trotskista, a alegria pessoal poderia ser esperada apenas como o mais tênue vislumbre de luz do sol na grama".

Uma coisa que aprecio nessa observação é como ela realmente chega à ambiguidade que sinto sobre o trotskismo. Tenacidade, um senso resolvido de comprometimento político, uma disposição para se dedicar a uma causa — todas essas são coisas muito boas. Quando eu entrevistava ex-membros do WRP, sempre senti que, embora não concordemos em tudo, eu geralmente conseguia dizer que eles eram pessoas muito bem-intencionadas e idealistas, dispostas a fazer enormes sacrifícios por suas crenças políticas. Esses são bons atributos para qualquer pessoa ter (mesmo que Healy e outros líderes como ele tenham se aproveitado completamente deles). Há muitas pessoas que são trotskistas ou passaram um tempo orbitando o trotskismo por quem tenho imenso respeito: Tariq Ali, Ernest Mandel, Raya Dunayevskaya, Isaac Deutscher, C. L. R. James, Ken Loach, Sheila Rowbotham, Richard Seymour, Keeanga-Yamahtta Taylor...

Mas algumas práticas dentro do trotskismo são realmente desanimadoras: o sexismo e o desprezo por qualquer tipo de política antirracista que ainda prevalece nos remanescentes do trotskismo healyista; uma cultura de bullying, intimidação e violência; uma arrogância sobre ter as ideias certas que está fora de proporção com o tamanho desses grupos hoje e sua incapacidade de atrair (e manter) qualquer número significativo de recrutas.

Uma coisa que eu sempre achei exasperante é a tendência desses grupos, mesmo que sejam muito pequenos, de produzirem resmas infinitas de documentação. Muitas vezes, é incrivelmente longo no estilo, com prosa agressiva e enfadonha. Enquanto eu estava me arrastando por todo esse material, eu costumava pensar: para quem é isso realmente? Quais opiniões serão mudadas por isso? Como isso está construindo o socialismo? Parece tão introspectivo e insular e serve para afastar as pessoas, mesmo que não intencionalmente (embora eu ache que seja parcialmente intencional). Certamente esse tipo de material é frequentemente sobre atacar outros grupos trotskistas, novamente de maneiras que os isolam uns dos outros e todos eles do mundo não trotskista.

A maioria, se não todos, desses grupos tem uma rotatividade muito rápida de membros. Acho que isso desempenha um papel fundamental — a falta de filiação popular de longo prazo impede que um tipo de memória institucional cresça, então, muitas vezes, a filiação deste ano não saberá o que o partido estava fazendo alguns anos antes.

A maneira como esses grupos disputam eleições também é reveladora. Eles geralmente se saem muito mal — mesmo quebrar 1% dos votos na Grã-Bretanha seria difícil. Vanessa Redgrave concorreu três vezes para o WRP na década de 1970. Em uma eleição em Manchester em 1978, ela recebeu menos de quatrocentos votos, embora tivesse acabado de ganhar um Oscar.

Em sua defesa, esses partidos geralmente alegam que não querem realmente vencer; eles só querem aumentar a consciência política. Mas há alguns problemas com isso. Primeiro, quando você concorre em qualquer eleição e faz isso mal, você está envergonhando a si mesmo — e até mesmo envergonhando as ideias que você afirma estar promovendo. Segundo, como eu acho que você está sugerindo, essa "consciência elevada" é completamente incomensurável. Como você pode saber que realmente aumentou a compreensão de alguém sobre o mundo?

Se os trabalhadores querem essas ideias trotskistas — assim como a realidade do apoio da classe trabalhadora para todos os tipos de outras opções — nunca é realmente enfrentado. Não acho que isso seja verdade para toda a gama do trotskismo, mas certamente as vertentes mais doutrinárias tendem a ver as pessoas da classe trabalhadora como uma espécie de massa inerte, apenas esperando para ser acionada por uma liderança de vanguarda armada com as ideias corretas. Essa mesma classe trabalhadora não é estúpida — e pode facilmente identificar isso pela arrogância que é.

Colaboradores

Aidan Beatty é professor de história na Carnegie Mellon University. Ele é autor de The Party Is Always Right: The Untold Story of Gerry Healy and British Trotskyism.

David Broder é editor da Jacobin na Europa e historiador do comunismo francês e italiano.

17 de novembro de 2018

O Banco Central deve ganhar autonomia formal? NÃO

Política econômica sem BC?

Paulo Feldmann


Paulo Feldmann, professor de Economia da USP, durante fórum realizado pela Folha, em 2014 - Moacyr Lopes Junior - 28.ago.14/Folhapress

Entre as principais atribuições de um presidente da República está a concepção e execução da política econômica da nação, e esta é dividida em três partes igualmente importantes: política fiscal, política monetária e política cambial.

A primeira fica na órbita do ministro da Fazenda, e as outras duas são ligadas ao Banco Central.

Essas três políticas precisam estar totalmente integradas, pois cada uma delas afeta as demais.

A política fiscal cuida do que o governo arrecada e de seus gastos; a política monetária é responsável pelo controle da inflação, da quantidade de moeda em circulação e das taxas de juros; e, por fim, a política cambial controla as entradas e saídas de divisas estrangeiras, agindo na valorização ou desvalorização da moeda.

Qualquer pequena alteração em uma dessas políticas afeta imediatamente as outras duas.
Assim, por exemplo, se há uma ameaça de inflação, o governo aumenta a taxa de juros para atrair capitais externos, o que valoriza a moeda e atenua a inflação.

Mas, quando o governo aumenta a taxa de juros, ele próprio vai ter uma despesa adicional, pois terá que pagar àqueles que investirem em seus títulos, o que pode aumentar seu déficit; aí, terá que mexer novamente na política monetária. As três políticas são interativas entre si.

Ou seja, se o Banco Central for independente, a formulação da política econômica não será nem coesa nem integrada. Pior que isso: o Banco Central vai poder agir na conjuntura econômica sem que o governo central possa executar ou fazer valer suas intenções.

Elegemos um presidente da República para ele delegar a execução da política econômica a outros agentes independentes dele? 

Bancos centrais independentes se justificam em países altamente desenvolvidos, onde as questões orçamentárias já estão resolvidas e o Orçamento é a principal peça para se administrar o país. Estamos longe disso.

Aqueles que pedem a independência do Banco Central são em sua maioria do mercado financeiro e consideram que questões como redução de endividamentos ou manter baixa a taxa de inflação são preponderantes sobre qualquer aspecto da economia.

Mesmo assim, e, apesar de ainda não ser formalmente independente, na prática o Banco Central no Brasil tem atuado há tempos muito mais em favor do setor financeiro e muito menos em favor do crescimento econômico.

Isso explica por que, ao longo desses últimos anos, não surgiu nenhuma política de combate ao desemprego no Brasil, mas em compensação o spread bancário é o mais alto do mundo.

Talvez poucos saibam, mas o Banco Central deveria ser o órgão regulador do sistema financeiro --e, portanto, precisava ser independente sim, mas dos bancos. O que vemos é o contrário.

Apesar de cinco bancos deterem cerca de 80% do mercado no Brasil, não se vê aquela instituição atuando para coibir essa falta de competição, que faz com que as taxas de juros para empréstimos no Brasil se situem entre 200% e 300% ao ano. Sem contar o cheque especial, que está acima disso.

O que notamos é, sim, uma enorme promiscuidade na circulação de executivos que ora estão no Banco Central ora voltam às suas funções no mercado financeiro.

O presidente foi eleito pela maioria da população e não pelo mercado; portanto, não faz sentido capturar o Banco Central para que este priorize medidas favoráveis ao setor financeiro em detrimento da nação.

Paulo Feldmann
Professor de economia da USP e ex-presidente da Eletropaulo (1995-96, governo Covas), foi diretor e presidente no Brasil de multinacionais como Microsoft, Ernst & Young e Sharp.

14 de outubro de 2018

Quando não se quer combater privilégios

Samuel Pessôa não quer ver que os pobres e a classe média pagam muito mais tributos do que os ricos

Marcio Pochmann e Paulo Feldmann

Folha de S.Paulo

Silvia Izquierdo / Associated Press

Samuel Pessôa na Folha de 7 de outubro, em seu artigo “Difícil Debate”, defendeu seu amigo Alexandre Schwartsman (“Alex” para ele) com velhos argumentos de sempre daqueles que acham não prioritário resolver a questão da péssima distribuição de renda no Brasil.

O que Samuel não quer ver é que os pobres e a classe média pagam muito mais tributos do que os ricos e super-ricos por uma razão muito simples: estes últimos vivem do lucro de suas empresas e dos dividendos que recebem das ações que possuem, e no país nada disso é taxado pelo IR (Imposto de Renda).

Já para quem vive de salário, além de não haver escapatória, o pior é ter de pagar a mesma alíquota do super-rico, uma vez que a alíquota de quem ganha de cinco a 320 salários mínimos mensais é a mesma (27,5%).

O resultado final de quanto cada faixa de renda paga de IR efetivo foi divulgado pela Receita Federal para o ano de 2016, apontando que 67 mil famílias ricas (0,14 % dos brasileiros), cuja renda anual declarada foi de R$ 399 bilhões, contribuíram com R$ 24,3 bilhões de IR, o que significou taxa efetiva de apenas 6,1%.

Se essas mesmas famílias pagassem a mesma taxa efetiva do IR (12,1%) que incide na classe média (ganhos mensais entre 30 e 40 salários mínimos), o valor arrecadado seria de R$ 48,3 bilhões.

Ou seja, se os muito ricos não tivessem tanta isenção, pagariam R$ 24 bilhões a mais.

Mesmo assim, seria justo alguém com renda superior a 330 salários mínimos contribuir com taxa idêntica de quem ganha 30 salários mínimos? Claro que não.

Em qualquer país do mundo o IR é progressivo, isto é, quem ganha mais paga mais.

No Brasil é o contrário. Como entre as faixas de 40 a 320 salários mínimos de rendimentos seria possível estabelecer escala progressiva de alíquotas, o adicional arrecadatório poderia atingir R$ 100 bilhões.

Mas, quando levantamos em nossos artigos anteriores a necessidade de fazer com que os muito ricos paguem mais tributos, não estávamos pensando apenas no IR, mas também na aplicação do imposto sobre grandes fortunas e, principalmente, no imposto de responsabilidade estadual sobre heranças e transmissão de bens, que no Brasil tem, em média, alíquota
de apenas 4%.

Na maioria dos países desenvolvidos este imposto é federal e sua alíquota, como nos países escandinavos, chega a 50%.

Conforme o livro “Os Ricos no Brasil”, os privilegiados seguem ocultos pela miopia de certos analistas, cuja riqueza se mantém à margem do Fisco.

Formas de arrecadar mais e tentar melhorar a distribuição de renda existem e são várias.

Até achamos natural que Pessôa seja contra a melhoria da distribuição de renda no Brasil, pois esta é uma questão de fundo ideológico.

O que não está certo é ele atacar com argumentos pífios e distorcidos os que defendem estas alternativas.

Sobre os autores

Marcio Pochmann

Professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas e ex-presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) entre 2007 e 2012 (governos Lula e Dilma)

Paulo Feldmann

Professor de economia da USP e ex-presidente da Eletropaulo (1995-96, governo Covas)

4 de outubro de 2018

Tréplica: Há diferentes visões e um passado no setor financeiro

O que interessa é que um dos maiores problemas do Brasil é a injusta distribuição de renda

Paulo Feldmann e Marcio Pochmann

Folha de S.Paulo

Fila sob o Viaduto do Chá, no centro de São Paulo, para o segundo mutirão do emprego; sindicato calculou 5.500 candidatos. Rivaldo Gomes/Folhapress

O economista Alexandre Schwartsman resolveu nos atacar, mas não achamos razoável cansar o leitor com xingamentos ou desqualificações porque não é assim que se debate.

Por mais que os temas econômicos devam ser tratados de forma técnica ou científica quando possível, é inegável que economistas têm visões de mundo diferentes.

E essa é a grande diferença que temos em relação a Alexandre Schwartsman. Por isso não vamos nos ater às estatísticas por ele citadas para saber se o desemprego em maio de 2016 era de 11% ou de 10,9%, pois apenas cansaria o leitor.

O que interessa é que, para nós, um dos maiores problemas econômicos do Brasil é a injusta distribuição de renda que nos coloca na lista dos dez piores países do mundo ao lado de oito países africanos bem pobres.

Esse é o problema principal que precisa ser atacado e nada melhor do que alterando a nossa estrutura tributária.

Nossa visão é que existem rendimentos altamente concentrados na mão de muitos poucos, que, se taxados devidamente, poderiam contribuir para atenuar o déficit fiscal estimado em R$ 160 bilhões neste ano.

Ou seja, a chave para o Brasil voltar a crescer está em promover mudanças no nosso injusto sistema de Imposto de Renda.

No artigo anterior, Alexandre nos critica porque propomos cobrar mais impostos de apenas 0,14% da população brasileira, justamente aquela que tem rendimentos mensais acima de R$ 160 mil por mês.

Alexandre, por favor, nos responda sem ódio e sem agressão: onde está o erro em querer taxar tão poucos, em benefício da quase totalidade da população brasileira?

Mas há outras mudanças no Imposto de Renda que poderiam ser feitas.

Considere-se o lucro dos bancos no Brasil. A estimativa é que neste ano ele atinja R$ 100 bilhões.

Ao contrário de outros países onde há um grande número de bancos competindo entre si, no Brasil não apenas o lucro é muito mais alto mas está concentrado em apenas quatro bancos.

A própria revista The Economist questionou o descalabro do lucro dos bancos no Brasil em 2017. E, apesar de o país estar em crise profunda, os bancos continuam aumentando os seus ganhos a cada ano.

Não deveria haver um imposto especial sobre o lucro para que os bancos dessem sua contribuição? Há países que fizeram isso —por exemplo, a Hungria em 2011— e se deram muito bem. Conseguiram zerar seu déficit fiscal.

Claro que Alexandre não vai concordar, mas é aí que dissemos que há diferentes visões de mundo por parte dos economistas.

Alexandre tem todo um passado ligado ao setor financeiro, tendo sido diretor do Banco Central. Por essa visão taxas de juros devem ser altas para combater a inflação.

É por esse falso argumento que faz mais de 20 anos que estamos entre os países que praticam as mais altas taxas de juros no mundo.

Apenas no Brasil, por que não há hoje nenhum país sério que ainda acredite nessa história.

Enfim, nosso objetivo foi aproveitar esta oportunidade que a Folha nos dá para expor ao leitor que existem, sim, alternativas, relativamente fáceis, para debelar a crise fiscal que nos assola.

Mas o que se faz necessário é coragem para enfrentar justamente os mais poderosos, que, por sinal e felizmente, são poucos.

28 de setembro de 2018

Réplica: Alexandre Schwartsman perde o decoro ao ofender Marcio Pochmann

Não podemos esquecer que a qualidade mais importante que um bom economista deve apresentar é aceitar a contradição

Paulo Feldmann

Folha de S.Paulo

O economista Marcio Pochmann é um dos formuladores da agenda econômica do PT. Eduardo Anizelli/Folhapress

Há um problema que se repete no Brasil em vésperas de eleições: Trata-se da visão futebolística de que nosso time é o melhor e tudo que vem do adversário não presta. Este fato, aliado à intensa rivalidade existente entre PSDB e PT, é uma das causas da tragédia brasileira.

Ambos partidos já fizeram coisas muito boas pelo país —o Plano Real de FHC e a melhoria da renda dos mais pobres de Lula são exemplos inequívocos de que há coisas boas dos dois lados e que precisam ser mutuamente reconhecidas.

Além disso, não podemos esquecer que a qualidade mais importante que um bom economista deve apresentar é aceitar a contradição, pois a mesma está presente em quase todos aspectos que envolvem a teoria econômica.

Em economia raramente há uma única forma de se enxergar ou interpretar fatos. É isso que surpreende em Alexandre Schwartsman. Em seu artigo de quarta-feira (26) nesta Folha ele se põe a ofender Marcio Pochmann, professor da Unicamp, chamando-o de desonesto ao invés de se contrapor com bons argumentos ao que Marcio coloca.

Poucos contestam que um dos maiores problemas do Brasil é a péssima distribuição de renda. O que Marcio quis dizer, e certamente Alexandre entendeu, é que aumentando um pouco a alíquota paga pelas famílias muito ricas, já se conseguiria arrecadar o suficiente para cobrir praticamente todo o déficit primário de cerca de R$ 170 bilhões.

Segundo dados da Receita Federal, as 70 mil famílias (0,14 % do total) mais ricas do país pagam um imposto efetivo de apenas 6% da renda, enquanto a classe média paga 12%. Se os muito ricos passassem a pagar um imposto efetivo igual ao pago pela classe média, acabaríamos com o déficit primário. Simples assim.

Segundo Alexandre, a segunda mentira de Pochmann é com relação à evolução do endividamento. Como ex- diretor do Banco Central, Alexandre deveria consultar as informações e estatísticas desta instituição. Por ali fica muito claro o que Pochmann quis dizer: Sim, o endividamento cresceu —tanto bruto quanto o líquido— durante o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, mas a taxa de crescimento foi muito menor do que nestes dois últimos anos de Temer.

Alexandre se ressente por Marcio não ter dito qual o período em que o desemprego subiu? Ora, como um economista que tem obrigação de conhecer os dados da economia brasileira, ele deveria saber de cor que 8,4% foi no último ano de Dilma, e 11,7% foi no primeiro ano de Temer.

A última das quatro mentiras apontadas por Alexandre não somente se trata de pura verdade como é o que se faz necessário para o país voltar a crescer. Pochmann estima que haja um potencial arrecadatório de 1,5% do PIB (equivalente a R$ 120 bilhões) possível de ser conseguido com pequenas mudanças, como a da alíquota do IR e mudanças no imposto sobre heranças, hoje muito baixa —além de tratar-se de um imposto estadual.

Claro que discordar é natural e necessário, mas sem perder o decoro. E Alexandre perdeu o decoro ao ofender de forma grave um economista como Marcio Pochmann, que já foi presidente do Ipea, talvez o posto mais importante do país em termos de fórum para a discussão das grandes questões brasileiras.

Paulo Feldmann é professor de economia brasileira da FEA-USP.

29 de julho de 2018

Era dos robôs está chegando e vai eliminar milhões de empregos

Mercado de trabalho nunca mais será o mesmo com indústria 4.0, escreve professor de economia da USP

Paulo Feldmann

Folha de S.Paulo

[RESUMO] Professor de economia chama a atenção para os avanços tecnológicos que alteram de modo radical as perspectivas do mercado de trabalho. Empregos serão extintos em diversos setores, em um processo que afeta todas as classes.

Ilustração de Ricardo Cammarota para Ilustríssima - Ricardo Cammarota

Em breve um robô vai lhe entregar a pizza de domingo. Talvez seu condomínio não exija que você desça até a portaria para apanhá-la, pois não vão suspeitar que possa ser um assalto. Na Alemanha, esse serviço já está funcionando —e a pizzaria é uma rede que atua no Brasil.

Mas isso é pouco: logo essa pizza será resultado de um processo totalmente automatizado. Se você acha que esse cenário pertence à ficção, ou que vai demorar muitos anos até ele se tornar realidade, pesquise sobre a americana Zume Pizza. Situada no Vale do Silício, a casa entrega comida feita por robôs. E o pior é que os consumidores da Califórnia têm adorado a novidade.

Pior por quê? Porque é enorme a quantidade de empregos que será eliminada. Alguns poderão afirmar que esses postos de trabalho demandam baixa qualificação e que o importante é aumentar a produtividade ——no caso, a das pizzarias.

O argumento perde metade de sua força quando se sabe que, na mesma Califórnia da pizza robotizada, quem se envolve em problemas de trânsito não depende mais de advogados para apresentar recursos. Um dos maiores fabricantes de computadores criou um robô, baseado em inteligência artificial, capaz de elaborar petições para quem quiser recorrer de uma multa, por exemplo. O interessado não precisa dar um único telefonema, nem para o despachante, nem para o defensor.

Exemplos como esses se reproduzem em todos os setores da economia mundial. Eles ilustram um processo novo e muito importante: as empresas se automatizam cada vez mais, com softwares poderosos e inteligência artificial, de tal modo que se expandem empregando número muito menor de trabalhadores.

É o que os americanos chamam de "jobless growth", crescimento sem empregos. Há muitos anos se previa que isso poderia acontecer —e agora a previsão virou realidade. Diante desse cenário, como a humanidade vai reagir?

Rebeliões contra a mecanização ou a automação dos processos produtivos não são inéditas. Quando o arado passou a ser utilizado na agricultura e muitos trabalhadores perderam seus empregos, foi grande a oposição ao novo instrumento. Na Inglaterra do século 19, os ludistas destruíam os teares em sua revolta contra a substituição da mão de obra humana pelas máquinas. Nos Estados Unidos do século 20, Henry Ford foi considerado um grande inimigo dos manobristas de charretes.

A tecnologia, contudo, sempre venceu. Por um lado, pois aumentava a produtividade da economia como um todo; por outro, e não se pode ignorar este fator, porque só afetava empregos de baixa qualificação.

Aí está a diferença desta vez: agora os empregos de alta qualificação também são afetados —e muito. O mesmo robô que faz as vezes de advogado consegue ler mil tomografias por hora; os médicos que avaliaram seus diagnósticos e resultados concluíram que estavam certos em 99% das ocasiões. Ou seja, uma das profissões mais valorizadas e intelectualizadas hoje em dia está sob ameaça. Em suma, a classe média está saindo do paraíso.


Wolfgang Streeck entra fundo nesse tema em seu livro "How Will Capitalism End?" (como o capitalismo vai terminar?), editado pela Verso e lançado em 2016. Para o autor, a inteligência artificial e a robotização vão fazer com a classe média o que a mecanização fez com a classe trabalhadora nos séculos 19 e 20. Ele afirma que os únicos beneficiados serão os donos dos robôs.

Assim como foi chamado de mecanização o processo de substituição da mão de obra menos qualificada por máquinas, que se desenrolou no final do século 19 e durante praticamente todo o século 20, Streeck cunhou o termo "eletronização" para denominar essa nova fase, na qual computadores e robôs passam a ser dotados de competência para criar e desenvolver tarefas cognitivas simplificadas, além de tomar algumas decisões. No século 21, a eletronização deve afetar a maior parte das atividades profissionais.

A maior parte, mas não todas. Ao que tudo indica, algumas profissões nos extremos estão a salvo.

Estudos mostram que pessoas em funções no topo da pirâmide, que em geral demandam criatividade e capacidade de solucionar problemas, não têm o que temer. As máquinas ainda não conseguem desempenhar tais tarefas com a mesma eficácia. Estão nessa categoria certos ramos da engenharia e das ciências, por exemplo.

Algo semelhante se passa na outra ponta. Trabalhadores manuais sem qualificação nenhuma, como faxineiros ou pedreiros, tampouco serão afetados —não porque a tecnologia não os tenha alcançado, mas por não valer a pena economicamente.

Entre os extremos, as funções mais sujeitas a serem eliminadas são as que exigem repetição. Importa pouco que seja uma atividade fabril ou de serviços, que envolva operários ou profissionais liberais. A questão é: quanto mais rotineira for uma profissão, maior a chance de ela desaparecer —mesmo que demande algum brilho cognitivo.

Um dos livros mais importantes sobre o tema é "Rise of The Robots: Technology and Threat of a Jobless Future" (ascensão dos robôs: tecnologia e a ameaça de um futuro sem emprego), de 2015. Seu autor, Martin Ford, também sustenta que há uma grande diferença entre o que aconteceu no passado e o que vai acontecer agora.

Antigamente, diz Ford, quando um setor se modernizava e com isso eliminava empregos, restava ao trabalhador se mudar para outra atividade econômica. Hoje, contudo, esse caminho não é uma opção sempre válida, pois inúmeros setores estão se modernizando ao mesmo tempo. Ou seja, trata-se agora de fugir das atividades rotineiras e repetitivas e procurar abrigo naquelas que exijam habilidades (ainda) não dominadas pelos robôs.

Questões tributárias e regulatórias podem retardar a utilização desses equipamentos no Brasil, mas nem por isso os brasileiros deveriam estar menos preocupados. Na medida em que o avanço tecnológico e os ganhos de escala tornarem a produção de robôs mais barata, multinacionais tenderão a repensar suas estratégias. Se hoje companhias dos países mais desenvolvidos instalam-se em nações menos avançadas a fim de aproveitar a mão de obra barata, talvez em breve elas considerem mais vantajoso manter uma fábrica quase 100% automatizada em território americano ou europeu.

Muita gente acha que as empresas norte-americanas que operavam na Ásia e no México estão voltando aos Estados Unidos por causa dos pedidos de Donald Trump. Ledo engano. A nova tendência corporativa, que já vem sendo adotada por muitas multinacionais, beneficia-se dos avanços tecnológicos, aqui incluído também outro equipamento revolucionário —as chamadas impressoras 3D, ou impressoras aditivas. Com elas, tornou-se possível fabricar peças e componentes nos próprios locais onde eles são necessários.

Ou seja, um dos princípios básicos da globalização —o uso de cadeias de valores espalhadas pelo mundo— pode estar em xeque. Montadores de automóveis, por exemplo, recorrem à dispersão geográfica da produção, fabricando cada parte ou peça dos veículos na região ou país que ofereça as maiores vantagens competitivas. Isso deixará de existir. Graças às impressoras 3D, esses componentes poderão ser feitos onde se situa a matriz da empresa.

Não surpreende, assim, que toda essa parafernália tecnológica venha sendo chamada por muitos de indústria 4.0, ou que a renovação que ela possibilita seja classificada como a quarta Revolução Industrial. Robôs, inteligência artificial e impressoras 3D são apenas uma parte desse fenômeno, que inclui ainda a internet das coisas (IoT), a computação na nuvem, a nanotecnologia etc.

Todos esses avanços destinam-se a aumentar a produtividade das fábricas; nenhum leva em conta a possibilidade de preservar empregos.

Economistas têm procurado calcular o tamanho do impacto da revolução em curso. Larry Summers, ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos e ex-presidente da Universidade Harvard, chama a atenção para uma grande diferença entre a automatização de agora e aquela promovida nos anos 1960 e 1970 (ele fez uma síntese interessante num painel de 2015, "The future of work", o futuro do trabalho).

Naquelas décadas, a intensa modernização da maioria dos setores afetou 5% dos empregos. Desta vez, segundo cálculos de Summers, as novas tecnologias sacrificarão algo entre 15% e 20% dos postos de trabalho.

São estimavas modestas se comparadas com as dos economistas Michael Osborne e Carl Frey, ambos da Universidade Oxford, no Reino Unido. Em um célebre estudo de 2013, eles afirmaram que, até 2030, cerca de 45% dos empregos americanos poderão ser eliminados ("The future of employment: How susceptible are jobs to computerisation?", o futuro do emprego: quão suscetíveis à informatização são os empregos?).

Uma das variáveis dessa equação é o espantoso barateamento dos preços de robôs, softwares de inteligência artificial e outros equipamentos de alta tecnologia. Há dez anos, muitos desses dispositivos eram impensáveis para companhias médias ou mesmo grandes; hoje, até pequenas empresas conseguem comprá-los.

Outra variável é a frustração das expectativas quanto à substituição dos empregos. Imaginava-se que a sociedade pós-industrial geraria ocupações em novos setores, sobretudo ligados à área de serviços, para absorver os trabalhadores deslocados da indústria. Essa perspectiva foi descartada; os equipamentos de ponta são mais utilizados justamente no setor de serviços, onde mais se estão eliminando funções.

Ao mesmo tempo, as ocupações criadas como decorrência dessas tecnologias são em quantidade diminuta. Estudo de 2017 feito no Canadá mostra que, na hipótese mais otimista, os novos empregos não chegam a 4% do total de postos de trabalho existentes naquele país ("Future Shock? - The Impact of Automation on Canada's Labour Market", choque futuro - o impacto da automação no mercado de trabalho do Canadá, de Matthias Oschinski e Rosalie Wyonch).

Sem contar que é praticamente impossível prever hoje quais empregos vão surgir nos próximos 40 anos. Para exemplificar, Joel Mokyr, um renomado professor de história da economia na Universidade Northwestern (EUA), afirmou em entrevista à revista The Economist que há 40 anos ninguém teria adivinhado que profissões como projetista de videogame ou especialista em cybersegurança seriam importantes.

Mas uma coisa é certa: é muito pequena a probabilidade de que surjam novas atividades e profissões nas quais a presença de seres humanos seja imprescindível. Robôs e equipamentos de automação mostram-se cada vez mais sofisticados, aptos a desempenhar mais e mais funções. Ou seja, não se deve apostar que a criação de postos de trabalho não previstos poderá resolver o problema do desemprego.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), existem 194 milhões de pessoas desempregadas no mundo, quase um Brasil inteiro. O que poderá acontecer com as taxas de desemprego nos próximos anos? Como a tendência implicada pela automação é certa e irreversível, a geração de empregos vai cair. Não se sabe para qual patamar, mas será uma situação dramática —e a sociedade precisa agir.

A situação embute um paradoxo. Por um lado, a solução deveria envolver as grandes empresas, principalmente as que mais estão se beneficiando das novas tecnologias. Assim como questões de ética concorrencial e proteção do meio ambiente, a preservação de postos de trabalho precisa entrar na pauta da responsabilidade social corporativa. Além disso, se, por hipótese, todas as companhias dispensarem seus empregados ou a maior parte deles, não haverá mercado consumidor.

Por outro, essas companhias não podem abrir mão da automação; ganhar produtividade é crucial para quem quer se manter vivo num mercado competitivo. Como consequência, investem em robôs, inteligência artificial, drones etc., contribuindo para o desemprego.

Uma das maiores dificuldades está na própria teoria econômica, que ainda não avançou o suficiente para perceber que nem sempre o mercado resolve tudo: se deixarmos para o mercado, vamos assistir ao crescimento cada vez maior das empresas gigantes, o que significará menos emprego e menos consumidores.

Por que as empresas gigantes? Porque só vence uma competição acirradíssima quem tem capacidade de fazer investimentos em robôs cada vez mais poderosos. Com isso, as já muito grandes se tornam ainda mais produtivas e acabam adquirindo ou eliminando concorrentes menores, num processo de oligopolização em curso nos mais diversos setores, mas sobretudo onde há maior demanda por tecnologia de ponta.

O problema vem sendo pensado e discutido à exaustão em alguns países, com destaque para Alemanha, França e Itália. A recomendação mais importante é a de que haja redução na jornada de trabalho. Na França e na Itália, a jornada semanal já é de 34 horas, contra 40 no Brasil.

Embora a medida tenha sido bem-sucedida no início, ainda nas décadas de 1980 e 1990, após alguns anos se percebe que ela só será efetiva se for adotada por todos países. É que, com as facilidades da globalização —e com as novas possibilidades oferecidas pelas tecnologias de ponta—, as empresas que querem aumentar sua produtividade simplesmente evitam lugares onde a jornada de trabalhado tenha sido reduzida.

De qualquer forma, a própria OIT prioriza essa iniciativa, e a frase "trabalhar menos para que todos trabalhem" virou um lema muito utilizado na Europa.

Outra medida bastante polêmica vem sendo alardeada por sindicatos britânicos: eles defendem uma atuação conjunta de governos, empresários e organizações de trabalhadores para estabelecer um imposto sobre ganhos de produtividade decorrentes do uso de robôs ou outras tecnologias de automação.

A alíquota do tributo seria diferenciada por segmentos da economia. Assim, sobre o setor bancário, incidiria uma taxa maior do que sobre a construção civil, pois neste último os impactos da automação são menores. Esses impostos, além disso, teriam destinação específica, qual seja, a criação de empregos públicos nas áreas de educação e saúde.

Como sempre, os países mais avançados nessa discussão são os escandinavos. Por lá, predomina a ideia de introduzir um programa de renda mínima nacional. Todo cidadão receberia um valor mensal que lhe garantiria a subsistência, independentemente de ele estar ou não trabalhando. O pressuposto por trás desse tipo de ação é que o desemprego vai crescer de forma assustadora nos próximos anos e toda a sociedade precisa estar protegida.

Nesse debate, há ainda a considerar as questões filosóficas suscitadas pelas novas tecnologias. Computadores e robôs sabem ler textos e fazer cálculos há bastante tempo, mas só recentemente passaram a enxergar, ouvir e falar. Devido ao avanço da inteligência artificial, também passaram a ter... inteligência. A humanidade deveria se preocupar com esse fato, na linha do que sugerem filmes como "O Exterminador do Futuro" e "Matrix"?

Existem diversos grupos de cientistas, futurólogos e filósofos que especulam cenários apocalípticos. Vernor Vinge é um deles. Respeitado professor de matemática e computação da Universidade de San Diego na Califórnia, escreveu livros de ficção sobre a era em que os computadores e robôs serão equivalentes aos seres humanos —como "The Children of The Sky" (as crianças do céu) e "Rainbows End" (o fim do arco-íris). Para ele, isso deve começar a acontecer em menos de 15 anos e será a maior mudança no planeta após o surgimento da vida humana.

O recém-falecido cientista Stephen Hawking era um dos estudiosos da inteligência artificial que mais se preocupavam com as consequências negativas dessa tecnologia. Ele chegou a antever o fim da raça humana como decorrência do poder incontrolável que as máquinas passarão a deter.

A mesma posição vem sendo manifestada pelo visionário Elon Musk, fundador da Tesla (uma das maiores fabricantes de carros elétricos do mundo) e da SpaceX, empresa que pretende pôr um homem em Marte nos próximos dez anos. Musk defende a criação de uma espécie de órgão regulador com a função de prevenir situações futuras em que equipamentos dotados de inteligência artificial poderiam ameaçar a sobrevivência de humanos.

Quanto a isso, assim como em relação à ameaça do crescimento sem empregos, a situação também termina em paradoxo. Uma empresa ou um país que resolver frear o desenvolvimento tecnológico para evitar uma catástrofe —tanto quanto para evitar a extinção de postos de trabalho— acabará perdendo competitividade nacional e internacional.

Como consequência, essa empresa ou esse país se verá às voltas com o desemprego (fruto da diminuição da fatia de mercado decorrente da menor competitividade) e não terá interrompido a escalada tecnológica de outras empresas ou outros países.

Apesar de todos estes aspectos assustadores, o que há de pior para um país é não discutir o assunto. E é justamente isso o que acontece no Brasil, mesmo neste ano eleitoral.

Paulo Feldmann é professor da Faculdade de Economia e Administração da USP, professor visitante da
Pécs University (Hungria) e autor do livro “Robô: Ruim com ele, pior sem ele”.

Ricardo Cammarota é Ilustrador.

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