30 de outubro de 2022

Lula como contrapeso à ultradireita

Vitória é apenas o primeiro passo na reconstrução de instituições democráticas

Jorge Chaloub

Folha de S.Paulo

Professor de ciência política da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora)

O segundo turno da eleição mais disputada do pós-1988 decidiu mais do que o novo presidente do Brasil. Em um pleito marcado pela sombra de práticas golpistas, como o uso eleitoral da Polícia Rodoviária Federal e o claro desrespeito a decisões judiciais, a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) oferece um horizonte para a sobrevivência da ordem democrática de 1988.

Se o primeiro turno institucionalizou a ultradireita, fortaleceu o lugar dos aliados de Jair Bolsonaro (PL) neste campo e reduziu a força política da direita hegemônica nas últimas décadas, o segundo turno se destaca sobretudo por dois eventos: a impressionante demonstração de força política de Lula e mais uma didática demonstração de que o ataque às instituições democráticas não era apenas uma "cortina de fumaça" farsesca, mas elemento central da ação política do bolsonarismo.

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no discurso da vitória, em São Paulo - Carla Carniel/Reuters

A força política de Lula tem como evidência o ineditismo do seu feito. Trata-se, afinal, do primeiro a derrotar nas urnas um candidato à reeleição no Brasil. Mesmo ante todas as tragédias que marcaram o governo Bolsonaro e em face da sua ampla rejeição, governamental e pessoal, é difícil imaginar que outro líder político pudesse alcançar uma vitória em cenário tão difícil. O domingo de votação deixou bem evidentes algumas das razões dessa suposição. Os cerca de 2 milhões de votos de vantagem, neste sentido, representam um grande feito.

Bolsonaro não respeitou os limites democráticos e republicanos do uso da máquina pública em eleições. Fiel aos momentos em que afirmou "Eu sou a Constituição", ou se referiu às Forças Armadas como sua propriedade, ele utilizou os recursos, os funcionários e as prerrogativas do Estado brasileiro para fins eleitorais de modo nunca visto na Nova República. O candidato derrotado foi, todavia, ainda mais longe.

Com ataques ao sistema eleitoral, ao Judiciário e recorrente criminalização dos adversários, ele sempre transitou em uma fronteira ambígua entre a disputa eleitoral e o golpe de Estado. Por seus discursos e gestos, é razoável imaginar que a saída golpista não foi colocada em prática por razões de oportunidade e apoio político. Toda a atenção para a defesa da democracia é, contudo, necessária até o final do seu mandato, pois suas manifestações públicas tornam difícil imaginar uma transição institucional adequada e sugerem outras possíveis investidas autoritárias.

A terceira vitória de Lula e a quinta do Partido dos Trabalhadores nas eleições presidenciais da Nova República ocorrem, contudo, em condições muito diversas das anteriores.

A coligação vitoriosa, com o apoio oficial de 10 partidos no primeiro turno e 16 no segundo, assumiu a feição de uma efetiva frente ampla, composta por algumas das mais relevantes lideranças políticas dos últimos 30 anos. Compõem a chapa vitoriosa com Lula, ou o apoiam publicamente, por exemplo, seu adversário na última eleição presidencial disputada pelo líder petista, Geraldo Alckmin; o ex-presidente que o derrotou em dois pleitos, Fernando Henrique Cardoso; a candidata no primeiro turno do partido responsável pelo fim do último governo petista, Simone Tebet.

Como o próprio Lula já sinalizou, a chapa indica que, quando comparado ao seu papel entre 2003 e 2015, o PT terá uma atribuição mais modesta no próximo governo. Se, por um lado, o partido chega a impressionantes 5 vitórias em 9 eleições na Nova República, por outro ele terá que lidar com um cenário muito mais duro para algumas das suas pautas históricas. Derrotada nas urnas, a ultradireita foi vitoriosa em tornar corriqueiras muitas das suas pautas no debate público e ao fortalecer consensos conservadores, ou mesmo reacionários. A vitória de Tarcísio de Freitas (Republicanos) na eleição para o governo paulista abre, por sua vez, um importante espaço institucional para a organização política e ação pública de muitos dos quadros bolsonaristas, que certamente farão uma oposição duríssima ao governo eleito.

Os motivos de uma coalizão tão ampla decorrem, em parte, de um inevitável cálculo eleitoral, reafirmado pela apertada vitória, já que era difícil crer em triunfo contra um candidato à reeleição sem a construção de uma ampla gama de apoios. Por outro lado, a frente ampla se tornou necessária e urgente justamente pelas sérias ameaças à ordem democrática brasileira, brevemente descritas acima. Neste sentido, a vitória deste domingo (30) é apenas um primeiro passo para a reconstrução de muitas das instituições democráticas brasileiras, abaladas ou destruídas ao longo dos últimos anos.

Ex-secretário de imprensa de Lula sobre o significado do lulismo

Hoje, Luiz Inácio Lula da Silva pode voltar ao poder e construir um Brasil mais justo e próspero. O ex-secretário de imprensa de Lula, André Singer, conversou com Jacobin sobre o que é possível no poder e o apelo duradouro do lulismo.

Uma entrevista com
André Singer

Jacobin

Luiz Inácio Lula da Silva cumprimenta apoiadores após votar e dar uma entrevista coletiva em 30 de outubro de 2022 em São Bernardo do Campo, Brasil. (Rodrigo Paiva/Getty Images)

Entrevistado por 
Igor Peres

O segundo turno da eleição presidencial do Brasil acontece hoje, colocando o atual presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro contra o ex-presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT). À medida que a disputa chega a uma conclusão tensa, com a liderança de Lula nas pesquisas diminuindo e a retórica política de direita ficando mais extrema, vale a pena dar uma olhada nos dois candidatos.

Após o desempenho inesperadamente forte de Bolsonaro nas eleições gerais de 2 de outubro, quase todos os jornais publicaram um artigo sobre a resiliência da candidatura do direitista e até mesmo a perspectiva de um “Bolsonarismo-além-de-Bolsonaro”: a possibilidade de que, mesmo em derrota, o líder poderia ser sobrevivido pelo movimento reacionário que leva seu nome.

Menos artigos foram escritos sobre o ex-presidente Lula, que a maioria concorda ser uma quantidade conhecida neste momento. No entanto, como André Pagliarini mostrou de forma convincente, não se pode entender nem o passado nem o futuro do Brasil sem também estudar o fenômeno político maior que a vida em torno de Lula.

Esta foi a grande conquista de um dos principais cientistas políticos do Brasil, André Singer, um homem apelidado por Perry Anderson como o “maior pensador” do Partido dos Trabalhadores. Criador do termo “Lulismo” e principal estudioso do modelo de governo “social liberal” de Lula, poucos analistas são mais capazes de dissecar o que está em jogo nesta eleição e o que a vitória de Lula pode significar para o Brasil.

Igor Peres conversou com Singer para ter uma ideia de como o “fenômeno Lula” moldou a história brasileira e o que ela pode ter reservado para o futuro.

Igor Peres

Em Os sentidos do lulismo. Reforma gradual e pacto conservador (Companhia das Letras, 2012), são mencionados os resultados de uma investigação anterior sua sobre as eleições presidenciais de 1989 e 1994 no Brasil. Apresenta então a ideia da “questão setentrional”, definida como uma “estranha monstruosidade política onde os excluídos sustentam a sua própria exclusão”. Como argumentado ali, esse era o empecilho que a esquerda vinha encontrando ao tentar construir uma alternativa de poder no país.

Aliás, você menciona a esse respeito uma declaração do próprio Lula após o revés na disputa de 1989: "a verdade mais crua é que quem nos derrotou foram os setores menos favorecidos da sociedade". Gostaria que comentasse a ideia da “questão setentrional” e sua importância para a compreensão do lulismo.


André Singer

A ideia da questão setentrional tem a ver com o período anterior a 2006, quando foi possível identificar um bloco conservador que tinha forte base no Nordeste e no Norte do Brasil. Essa base é tão importante que permitiu à ditadura derrotar, com votos no Congresso, uma das maiores mobilizações de massa da história recente do país: a campanha pelas "Diretas Já", ocorrida em 1984. Como essa base conservadora foi gestada? Através de uma articulação entre oligarquias regionais e bases eleitorais. Quando falo da "questão setentrional" quero dizer isso. O lulismo transformará essa relação e produzirá uma novidade no processo político brasileiro ao criar uma base fixa no Nordeste.

Por outro lado, após as eleições presidenciais de 1989, Lula diz algo como "fomos derrotados pela periferia, não pelos ricos". Essa periferia também pode estar localizada em grandes cidades brasileiras da região sudeste, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Acontece que as periferias das grandes cidades são formadas em certa medida por pessoas que vêm da região Nordeste.

Para entender, portanto, a questão setentrional, é fundamental a distinção que faço entre os pobres e as classes trabalhadoras. Os pobres fazem parte da classe trabalhadora, mas são uma fração —que chamei de subproletariado— desta última. Quando comecei a trabalhar a questão eleitoral, o que levantei foi que esse setor é vulnerável e carece do que poderíamos chamar de “cidadania trabalhista”. Essa fração da classe trabalhadora carece de direitos (estamos falando de cerca de metade da força de trabalho que nunca conseguiu se integrar totalmente ao mercado de trabalho).

O lulismo conseguiu começar a integrar parte desse contingente, que nos últimos anos voltou a crescer. Procurei caracterizar esse setor como um setor vulnerável e sugerir que essa vulnerabilidade o impede de participar da "luta de classes", como disse Paul Singer. Não é que você não possa fazer nada; mas, em condições normais, sua participação é difícil. Assim, me ocorreu pensar que essa condição é parte da explicação de por que uma parte da classe trabalhadora tende a não apoiar posições vinculadas aos sindicatos, por exemplo, tendendo a opções políticas que garantam a ordem. Isso é o que muda com a reeleição de Lula em 2006.

Igor Peres

É neste mesmo livro que a ideia de "Lulismo" ganha a estatura de um conceito. Ele nomeia o encontro entre uma ocasião adversa, marcada por denúncias de corrupção na arena legislativa nacional —que mais tarde se chamará Mensalão— e a decisão do Executivo nacional de adotar "políticas públicas para reduzir a pobreza e ativar o mercado interno sem confronto com o capital. Para explicar o que emerge desse encontro, você usa a categoria de "realinhamento eleitoral", movimento que acabaria por dar origem ao lulismo, em 2006. Você poderia reconstruir esse raciocínio?

André Singer

O lulismo é o corolário eleitoral de um programa prático que atende ao subproletariado. Acredito que este programa não foi concebido como tal, mas praticado. Em que consiste? É um programa de combate à pobreza. Não estou me referindo à distribuição de renda, que é um conceito mais complexo. Falo em reduzir a pobreza sem confrontar o capital.

A partir de 2004, já é perceptível a redução da pobreza, alcançada por meio do Programa Bolsa Família e do crédito consignado; em 2005, somou-se a essas duas iniciativas o aumento do salário mínimo. Esse programa prático teve muito sucesso, pois produziu um aumento no nível de consumo de parte da população que ganhava muito pouco, sustentando a situação econômica desse segmento em situação de baixo crescimento. Do meu ponto de vista, isso representou uma invenção. Foi algo que não foi planejado. Insisto, sem confrontar o capital: não foi feito em detrimento de certas diretrizes centrais do neoliberalismo (juros altos, baixos níveis de investimento público e uma estrutura cambial flutuante), e foi isso que permitiu que os dois governos de Lula se movessem dentro de um certa estabilidade. Não houve comoção social como se esperava e foi prenunciada por setores conservadores que diziam que o governo Lula seria um governo tumultuado.

O que chamo de "realinhamento eleitoral" ocorre em 2006 e é composto por dois elementos. O primeiro delas tem a ver com a mudança de posição dos mais pobres em relação a Lula, e o consequente surgimento do lulismo eleitoral. Ou seja, até 2002, o PT tinha um perfil eleitoral mais de classe média. A partir de 2006 houve uma mudança, e é justamente isso que interpreto a partir de uma ideia que vem da ciência política norte-americana, que busca pensar a transição de determinados setores do eleitorado de um bloco para outro. Se olharmos para os números, notamos que em termos de massa de votos, ambas as disputas presidenciais são semelhantes, o que muda é o perfil dos eleitores.

Os mais pobres passaram a votar em massa em Lula, principalmente no Nordeste (e continuam votando até hoje). Por sua vez, a classe média se voltou para o Partido da Social Democracia Brasileira (PSBD). É verdade que esta última sempre esteve relacionada à classe média, mas a classe média estava dividida. O Mensalão, que foi uma crise desencadeada por denúncias de corrupção relacionadas a suposta compra de votos na arena legislativa nacional, unificou a classe média contra o lulismo e contra o PT. Em suma, este foi o realinhamento que o lulismo deu à luz. Os mais pobres de um lado, a classe média do outro; é uma polarização social que persiste até hoje. Acredito que a hipótese do realinhamento sobreviveu até mesmo àquela grande mudança que a eleição de Bolsonaro representou em 2018.

Igor Peres

Em Os sentidos do lulismo você destaca a dificuldade do lulismo em passar de um "reformismo fraco" para um "reformismo forte". Analisa como o "sonho de Roosevelt" que surgiu como horizonte no segundo mandato de Lula está subordinado ao realismo da correlação de forças. E descreve também como a decisão de manter os antagonismos em equilíbrio e a arbitragem acabou sendo imposta como meio e fim de seu segundo mandato presidencial. Você poderia detalhar essa ideia?

André Singer

A questão da passagem de um reformismo fraco para um reformismo forte me dá a oportunidade de fazer alguns ajustes que só a passagem do tempo permite. Ambos os livros — Os sentidos do lullismo. Reforma gradual e pacto conservador e (2012) e O lulismo em crise. Um quebra-cabeça do período Dilma (2011-2016) (2018)— foram escritos quentes, por assim dizer. Nesse sentido, e olhando para trás, eu diria que a segunda presidência de Lula é um mandato em que as grandes diretrizes neoliberais começam, de alguma forma, muito lentamente, a sofrer uma mudança. O investimento público, por exemplo, começa a descongelar. Era limitado e começa a se expandir. Há também algum tipo de contenção das taxas de juros e, além disso, uma pequena mudança em termos de política cambial.

São movimentos que apontam para uma política econômica mais próxima do desenvolvimentismo. Não se torna uma política econômica desenvolvimentista, mas visa a isso. Nesse sentido, acredito que o segundo termo seja diferente do primeiro. Entre outras mudanças importantes, destaco, por exemplo, a troca do primeiro ministro da Fazenda (que havia sido Antonio Palocci) por Guido Mantega. Agora, também é verdade que essa ainda é uma medida bastante homeopática, no sentido de preservar a premissa de não enfrentar o capital —que é o que garante a estabilidade política— mantendo um baixo nível de conflito, mesmo no segundo mandato de Lula.

Esta decisão é baseada em uma avaliação da correlação de forças em cada momento. Esta é uma questão decisiva, e devemos pensá-la de uma perspectiva objetiva e o menos ideológica possível. Como é medida a correlação de forças? Uma primeira maneira é olhar para a Câmara dos Deputados, que é uma expressão (um pouco distorcida, é verdade) do eleitorado de cada estado. Não é a única, mas é uma expressão significativa. O Congresso Nacional, tanto a Câmara dos Deputados quanto o Senado, retiraram, por exemplo, 30 bilhões de reais de investimentos na área da saúde (em valores da época) em 2007.

No Brasil temos o Sistema Único de Saúde (SUS) garantido pela Constituição de 1988, que é como se tivéssemos uma espécie de Sistema Único de Saúde, que na Inglaterra foi fruto de um forte reformismo após a Segunda Guerra Mundial. Mas na verdade isso nunca foi feito no Brasil. O sistema existe, mas não atende a todos e não o faz com a devida qualidade. Em 2007, uma enorme quantidade de investimento é retirada deste sistema. E por que o Congresso fez isso? Porque tem uma maioria conservadora. Poderia ter havido um processo social fora do Congresso? Sim, poderia, mas não houve. Seria preciso pensar em combinar ação institucional e mobilização social.

Igor Peres

Você dedica parte de O lulismo em crise à caracterização do primeiro mandato de quem sucedeu o ex-líder metalúrgico na presidência. Segundo o senhor, "[...] estimulada pelo capital político acumulado por Lula, Dilma levou a sério a ideia de acelerar o ritmo da iniciativa da presidente, dando lugar a uma política econômica desenvolvimentista". Gostaríamos que você resumisse o que você chama de o "ensaio desenvolvimentista" de Dilma.

André Singer

A principal medida que caracteriza o ensaio desenvolvimentista é a redução acentuada da taxa de juros. A taxa de juros havia sido apontada pela esquerda brasileira, antes da chegada do PT ao governo em 2003, como o principal obstáculo ao crescimento (se esse diagnóstico estava correto ou incorreto não posso dizer, porque não sou economista, sou um cientista político e não pretendo ser economista... quando falo de economia é porque entendo que a economia está no centro da política e que a luta de classes está no centro da economia). Toda a esquerda brasileira havia identificado o problema da taxa de juros como fundamental para a questão da distribuição de renda. E faz sentido, pois estamos falando em mudar o perfil de distribuição de renda em um dos países mais desiguais do mundo. Para tanto, todos concordam que a economia tem que crescer, algo assim não se faz com uma economia em recessão.

Nessa linha, Dilma tomou a corajosa decisão de baixar drasticamente a taxa de juros no início de 2012. Ela conseguiu porque travou uma grande e importante luta para mudar os rumos do Banco Central, quando estava apenas começando seu mandato. Ela escolheu um presidente do Banco Central que não veio do mercado financeiro, mas da burocracia do Banco Central, que é bem diferente. Os bancos privados não gostaram da queda das taxas de juros. Com isso, desencadeou-se o que chamo de “guerra do spread”: o Estado baixa sua taxa, mas os bancos privados continuam praticando a sua. Dilma usou os bancos públicos para fazer os bancos privados baixarem as taxas de juros, argumentando que se os bancos privados não fizessem o mesmo, perderiam clientes. Os bancos privados foram forçados a reduzi-la. Isso significa lutar com o cerne do capitalismo, que é o financeiro.

A segunda medida consistia em tratar da questão cambial, que basicamente significava administrar as importações e facilitar as exportações, favorecendo as indústrias brasileiras. Houve uma desvalorização cambial em torno de 20%. Aqui há um debate entre os economistas: há quem diga que essa magnitude de desvalorização não foi suficiente, que com essa desvalorização não foi garantida a competitividade da indústria nacional. Seja como for, é preciso reconhecer que Dilma foi a única que fez isso. E fez isso para favorecer a indústria brasileira.

Se os industriais viram insuficiente a magnitude da desvalorização, por que não fizeram um movimento para apoiar a decisão da presidente? Por que eles não pressionaram por mais desvalorização? O que de fato aconteceu foi que enquanto Dilma tomava essas decisões em questões econômicas, os industriais, paradoxalmente, começaram a mudar de posição em relação ao seu governo. Ela fez tudo para favorecê-los, mas eles se opuseram a ela por razões que não são fáceis de entender. Esse processo, que se inicia em 2012, levará à queda de Dilma em 2016.

Por fim, alterou as regras relativas ao setor de energia elétrica, que era uma demanda dos empresários industriais, principalmente os das indústrias eletrointensivas. Com eletricidade cara, os produtos brasileiros perderam competitividade. Em seguida, houve uma mudança no regulamento que baixou as taxas, incluindo as taxas domésticas, em setembro de 2012.

Em suma, eu diria que essas são as três principais medidas do ensaio desenvolvimentista. Acrescento mais uma informação: há quem acredite que o investimento público feito naquela altura estava longe de ser suficiente. É verdade que em 2011 foi feito um corte nos investimentos públicos, mas penso que, embora a magnitude dos investimentos não tenha sido provavelmente a ideal, há elementos para caracterizar o período de 2011 a 2014 como um "ensaio desenvolvimentista". O governo Dilma foi um avanço em relação ao mandato anterior. É como se ela tivesse dito: “agora vamos pisar no acelerador”. Mas a decisão saiu cara, porque a reação do capital nacional e internacional foi violenta e, mais uma vez, não houve tentativas de mobilização dos trabalhadores para defender esse "ensaio".

Igor Peres

No meio do caminho desenvolvimentista havia uma pedra... Usando uma passagem de Tocqueville, para quem as grandes convulsões sociais eclodem “quando as coisas estão melhores”, em Os sentidos do lulismo prenunciava que o subproletariado começaria a ter suas próprias demandas. No entanto, ao analisar os protestos de 2013, você chega a conclusões diferentes sobre a composição social daqueles que saíram às ruas naquele momento. Gostaríamos que você voltasse à caracterização desse evento decisivo na história recente do Brasil

André Singer

Junho de 2013 representa, como Marx disse em outro contexto, "relâmpagos em um céu sereno". Eu investiguei com base nos dados disponíveis e minha conclusão é que o subproletariado estava ausente das manifestações, que contaram principalmente com a participação dos setores médio e alto. O que aconteceu em 2013 foi uma espécie de transformismo, mas das ruas. Começou como um protesto de esquerda, honesto, de jovens, com uma visão interessante, muito mais radical que o lulismo, sem dúvida. Aquelas pessoas, que não tinham nada a ver com o subproletariado, entenderam que a situação era melhor, mas que precisavam avançar, dar um passo à frente. O que acontece é que eles acordaram um monstro que não podiam controlar.

Em questão de dias, entre 13 e 17 de junho do mesmo mês, as manifestações mudaram completamente de sentido. É incrível. Houve uma sequência de manifestações de esquerda pela redução do preço das passagens de transporte, principalmente em São Paulo. Essas manifestações terminaram em uma grande repressão no dia 13, que foi criticada até pelos jornais mais conservadores, porque a polícia estava realmente fora de controle. Em reação a essa repressão, desencadeou-se uma manifestação que foi aproveitada pela classe média conservadora, que usou o argumento antirrepressivo para iniciar um movimento de massas contra o lulismo, que na cidade de São Paulo foi representado pelo prefeito Fernando Haddad , e contra o governo federal liderado por Dilma Rousseff.

Na época eu não entendia: parecia uma grande manifestação de esquerda, mas não era. Tanto que dois dias depois, em uma terceira manifestação, a esquerda foi expulsa das ruas. Grupos vestidos com camisetas da seleção brasileira de futebol começaram a aparecer. Não se sabia exatamente de onde vinham, mas hoje vemos que esse foi o germe do bolsonarismo. Acho que isso tem a ver com o fenômeno das redes sociais. Tudo isso aconteceu no subsolo. Não teria acontecido cinco anos antes. Foi um "transformismo espontâneo". Muitas pessoas da esquerda participaram das jornadas, que se espalharam pelo país, e não as critico, porque não foi fácil entender o que estava acontecendo. Às vezes, a extrema esquerda e a extrema direita protestavam na mesma avenida. Em São Paulo houve até conflitos entre essas forças, mas não em outros lugares.

Em suma, 2013 é um evento muito especial. Há autores que o relacionam com os casos da Turquia ou do Egito, mas o caso brasileiro é diferente. Mas o que aconteceu em junho de 2013 foi um ponto de virada. Desde então, a direita mudou de posição e partiu para a ofensiva contra o governo, o que impactará no golpe parlamentar de 2016.

Igor Peres

Além do "ensaio desenvolvimentista", em O lulismo em crise você argumenta que Dilma também teria promovido um segundo "ensaio" em seu primeiro mandato, que você chama de "republicano". A tentativa do ex-juiz Sergio Moro de se apresentar como representante da indignação social contra a corrupção pode ter relegado essa iniciativa às sombras, pouco comentada até mesmo por analistas políticos dedicados a esse período. Gostaríamos que você voltasse à ideia de um "ensaio republicano".

André Singer

O que verifiquei em minha pesquisa foi que Dilma, além de realizar o que chamei de "ensaio desenvolvimentista" —que teve mais visibilidade— implementou outras transformações sistemáticas que não chamaram tanta atenção. A ex-presidente implementou uma política sistemática de combate ao que no Brasil chamamos de fisiologismo, ou seja, a ocupação de espaços no Estado em benefício próprio. Dilma tomou decisões muito claras e distintas no sentido de combater o fisiologismo, que lhe custou a maioria no Congresso (especialmente na Câmara dos Deputados) e pelo qual pagou um alto custo.

Por sua decisão de combater a fisiologia, Eduardo Cunha (PMDB), representante por excelência dessa prática, foi eleito presidente da Câmara dos Deputados. Estamos falando de um político extremamente agressivo, com grande capacidade de ação e articulação nessa esfera do poder legislativo. Dilma foi, mais uma vez, muito corajosa. O que acontece é que ela não o fez de forma mobilizadora. Ela incitou bestas; no caso do que chamei de “ensaio republicano”, segundo ensaio de Dilma, estou me referindo a parlamentares ferozes, que ela decidiu enfrentar sem recorrer à mobilização para se sustentar. Ela o fez sem as bases sociais necessárias, e a única maneira de realizá-lo com sucesso seria através da mobilização massiva das forças sociais. É sempre um processo arriscado, mas é uma opção. É como se ela tivesse contado com a força da investidura presidencial, que é grande, mas não onipotente.

Por outro lado, está ocorrendo um processo completamente diferente, do qual participa o juiz Sergio Moro, e que começa em 2014. Estou me referindo à Operação Lava-Jato, que foi um processo extraordinário, que produziu descobertas incríveis, e que foi realizada por uma ação de tipo inédito no Brasil. A operação acabou sendo, em suma, uma manobra faccional cujo objetivo claro era destruir o PT e o ex-presidente Lula. Mesmo assim, ela tem um aspecto republicano por causa do que descobriu. Mas o uso político e partidário da operação era absurdo do ponto de vista democrático. Um juiz tem que ser imparcial, e o juiz Moro demonstrou sua imparcialidade ao aceitar se juntar ao governo Bolsonaro, que foi o principal beneficiário de suas ações. Quando isso aconteceu, sua aura escureceu e a tese da natureza facciosa da operação foi demonstrada.

Então fica claro que o ensaio republicano de Dilma e a operação Lava-Jato são dois processos totalmente diferentes. Onde eles se cruzam? Eles se cruzam quando a Operação Lava-Jato faz suas descobertas sobre a Petrobras. Quando isso aconteceu, fazia mais de um ano que Dilma havia afastado toda a gestão da empresa, sem que sua ação tivesse relação direta com a Lava-Jato. Involuntariamente, então, e em um fato incrível, os processos se cruzam. O processo político brasileiro daqueles anos produziu acontecimentos que deveriam fazer parte de qualquer compêndio da política mundial. Distâncias à parte, é como 2013: fatos fora do roteiro conhecido, processos com direções opostas que se cruzam inesperadamente.

Igor Peres

Fonte de inspiração para o ensaio desenvolvimentista, "o roosevelteanismo surgiu no centro capitalista numa fase de keynesianismo dominante", sustenta em O lulismo em crise. "Aplicado à questão brasileira em tempos de globalização e neoliberalismo, despedaçou o lulismo, levando a sociedade a um lugar distante de qualquer anseio igualitário."

Talvez hoje já estejamos em condições de dar um nome a esse "lugar" que você menciona; podemos chamar de bolsonarismo. Recentemente, você vem analisando o que você caracteriza como um processo de "reativação da direita" no Brasil. Você poderia nos explicar o que quer dizer com isso?


André Singer

Acho que o processo de impeachment foi um golpe parlamentar. Não foi um golpe no sentido clássico do termo, mas um golpe parlamentar típico dos processos de erosão da democracia que estão ocorrendo em todo o mundo. É um processo que ocorre dentro das leis. Não rompe com as constituições, mas usa-as: se faz um uso golpista das leis. O impeachment está previsto na Constituição. Mas a mesma constituição prevê que este instrumento só poderá ser acionado quando houver crime de responsabilidade. E é claro que a presidente Dilma Rousseff não cometeu crime de responsabilidade. Portanto, acho que foi um golpe parlamentar que abriu as portas para o desmonte da democracia brasileira.

O bolsonarismo é uma continuação desse processo. O governo Temer já havia sido um governo de retrocessos sociais e econômicos muito importantes, e o de Bolsonaro segue essa tendência. O importante é que em 2018 houve eleições relativamente representativas. Digo relativamente porque a participação de Lula na disputa foi impedida, e isso foi resultado de uma ação deliberada da Operação Lava-Jato para impedir sua volta ao governo. Mesmo assim, o PT decidiu reconhecer os resultados, e se o PT reconheceu os resultados, eles devem ser analisados.

Examinando os resultados dessas eleições de 2018, percebe-se uma reativação de uma base de direita que é muito forte no eleitorado brasileiro, embora não seja a maioria. A direita tem uma base eleitoral próxima de 30%, o que equivale ao peso que o lullismo tem em condições normais, ou seja, em momentos anteriores ao início das campanhas. Quando estas últimas são ativadas, os eleitores que estão localizados entre os dois extremos tendem a se deslocar.

A dinâmica da reativação funciona, por exemplo, quando Bolsonaro adota uma retórica anticomunista que a princípio pode soar extemporânea para alguns. E isso porque não há ameaça comunista real no Brasil, já que o lulismo, como argumentei, não é comunista. É verdade que houve um processo político e econômico mais forte com Dilma, mas sem mobilização, como também mencionei anteriormente. Podemos pensar também, mesmo no contexto do governo Dilma, nas manifestações de junho de 2013, mas aqui a radicalização foi liderada pela direita, não pela esquerda.

Então, por que a retórica anticomunista tem ressonância? Porque há uma base caracterizada pelo que chamei de "conservadorismo popular". Esse segmento há muito é identificado pela literatura brasileira dedicada ao assunto, mas ao mesmo tempo é um fenômeno ainda pouco compreendido. Essa base é composta por setores da classe média baixa aos quais se somam frações da massa trabalhadora. São setores que não dispõem de muitos recursos, mas que, pela existência de um grande subproletariado, funcionam como classes médias e têm medo de perder o que têm. Os setores vulneráveis ​​—que não têm quase nada— também temem a desordem, pois são o elo mais fraco. Eles querem uma mudança, mas pelo medo com que se alimentam, pedem que qualquer transformação seja feita dentro da ordem.

A combinação de uma situação econômica negativa —que começou em 2015, ainda no governo Dilma— e uma tradição ideológica que tem longa história no país criou as condições para uma reativação da direita, antes adormecida, por Bolsonaro.

Em um estudo recente tentei mostrar que o lulismo neutralizou e desmantelou aquele conservadorismo popular entre 2006 e 2014, mas que o preço a pagar por isso foi a desmobilização. Havia uma espécie de entorpecimento deliberado do conservadorismo causado pela política homeopática do lulismo, que procurava evitar o confronto. Temos que esperar para ver o que acontecerá no processo eleitoral de 2022. Embora com continuidades, estamos hoje diante de uma nova situação devido à presença de fenômenos políticos com componentes fascistas na política nacional e internacional. Isso não fazia parte do cenário global até 2016, nem no Brasil em 2018. Mas é algo que aqui, como talvez também na Argentina, veio para ficar.

Colaboradores

André Singer é um teórico político que atuou como secretário de imprensa do governo de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil.

Igor Peres é sociólogo na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, no Brasil.

Nicolas Allen é editor colaborador da Jacobin e editor-chefe da Jacobin América Latina.

Eleição de Lula reforça nova onda de esquerda que renasce pela América Latina

Progressistas recém-eleitos enfrentam cenário mais complicado do que a geração anterior desses líderes

Sylvia Colombo

Foha de S.Paulo

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao lado da vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, da ex-vice-presidente do Uruguai, Lucía Topolansky, do ex-presidente do Uruguai, José 'Pepe' Mujica, e do presidente da Argentina, Alberto Fernández, em Buenos Aires - LulaOficial no Twitter -10.dez.21

Com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), neste domingo (30), os seis países mais populosos e principais economias da América Latina passam a ter presidentes de esquerda ou centro-esquerda —México, Argentina, Brasil, Peru, Colômbia e Chile.

Nos anos 2000, a imprensa dos Estados Unidos cunhou o apelido algo depreciativo de "pink tide", ou onda rosa, para se referir ao surgimento de governos progressistas na região, como os do próprio Lula no Brasil.

Além dele, havia Rafael Correa, no Equador, Hugo Chávez, na Venezuela, Ricardo Lagos e Michelle Bachelet, no Chile, Néstor Kirchner e Cristina Kirchner, na Argentina, Ollanta Humala, no Peru, Daniel Ortega, na Nicarágua, e Evo Morales, na Bolívia.

Vários desses líderes se juntaram à Alba, a Aliança Bolivariana das Américas, em 2004, numa tentativa de criar um bloco regional cujo objetivo era confrontar proposta de criação da Alca, a Área de Livre Comércio das Américas, impulsionada por Washington e que terminou fracassando.

As referências constantes por parte de Chávez a Simón Bolívar, prócer de várias independências da região, fizeram com que esses países também fossem apelidados de "bolivarianos".

Naquela ocasião, havia diferenças programáticas e ideológicas entre os governos, com uma corrente mais identificada com a social-democracia (no Chile e no próprio Brasil), outra de tom mais nacionalista (Bolívia e Argentina) e uma terceira de cunho autoritário, que com o tempo virariam ditaduras (Venezuela e Nicarágua).

Distinções marcam também a nova leva. Nela cabem a nova esquerda chilena e sua ênfase nas pautas identitárias e ecológicas; o primeiro governo de esquerda da Colômbia com propostas disruptivas de desmontar as redes de narcotráfico por meio do diálogo e de acordos; uma esquerda arcaica e muito conservadora nos costumes, como a peruana; outra de tom mais populista, como a mexicana; e ainda a que aposta em políticas protecionistas para lidar com sérios problemas econômicos, como a argentina.

"A vitória de Lula é relevante por dar novo ânimo às iniciativas de integração regional, mas não se deve esperar algo parecido com a chamada 'onda rosa' anterior", diz a cientista política Lorena Oyarzún, da Universidade do Chile.

"A região vive outro momento econômico, marcado pela pandemia e pela Guerra da Ucrânia, não há um boom de commodities para alimentar projetos de elevado gasto social e, portanto, há menos possibilidades de criar programas de inserção trabalhista."

Em relação ao Chile, Oyarzún crê que haverá uma "mudança de 180 graus" na relação com o Brasil. Na campanha eleitoral, Jair Bolsonaro (PL) criou um atrito diplomático com o país ao afirmar que Gabriel Boric havia cometido atos de vandalismo em protestos no passado. O embaixador do Brasil em Santiago, Paulo Pacheco, foi chamado a dar explicações, e tanto o governo chileno quanto a oposição repudiaram as declarações.

"À primeira vista, pode parecer que um triunfo estimulará as relações entre Colômbia e Brasil e com outros países da região sintonizados com o progressismo e o 'latino-americanismo'", afirma Álvaro Duque, sociólogo da Universidade do Rosário, de Bogotá.

"Mas os jogos políticos locais nem sempre resultam em benefícios apenas por função de alinhamento ideológico. Se houver reveses a um presidente, como com Boric na derrota no plebiscito constitucional, isso pode contaminar a popularidade dos demais ou levar a um afastamento."

Duque também crê que pode haver avanços num dos pontos da agenda de interesse de ambos, a proteção da Amazônia. "Tanto esse tema como o da criação de alternativas para a guerra contra as drogas pode aproximar muito Petro de Lula."

Federico Merke, professor de ciência política da Universidade de San Andrés, na Argentina, acredita que Lula terá de ser muito cauteloso em seu envolvimento na campanha presidencial argentina em 2023, mas que sua eleição favorecerá uma reaproximação dos dois países nos níveis político e econômico.

"Os problemas da região são tantos, e o cenário internacional é tão distinto do de 20 anos atrás, que os governos terão muito trabalho internamente. Por isso creio que haverá uma mímica de integração regional, mas as prioridades desses presidentes será a agenda doméstica", afirma.

Merke chama a atenção, ainda, para o fato de estar havendo um desgaste rápido de presidentes recém-eleitos. "O que vivemos na região hoje é mais um impulso antigoverno do que um impulso de esquerda. Há uma insatisfação nos últimos anos, que produziu manifestações de rua e resultados eleitorais adversos para quem estava no poder", diz.

"Isso demonstra que a paciência da sociedade tem sido pequena, o tempo de trégua aos que acabam de se eleger é mais curto. Petro e Boric já estão sentindo isso e essa cobrança ocorrerá também com Lula."

Segundo Oyarzún, a polarização e o contexto de países que tiveram manifestações são elementos que contribuem para que o início das gestões seja tumultuado. "Os eleitores, mais do que votar, fizeram apostas reais em seu futuro e querem resultados muito rápido. As novas lideranças da região terão de mostrar se são capazes de entregar isso."

29 de outubro de 2022

O porrete do vigia noturno

Fascismo aos 100.

Alberto Toscano

Sidecar


Em 29 de outubro de 1922, Benito Mussolini foi levado ao poder pela Marcha sobre Roma, inaugurando L'Era fascista. A data foi posteriormente declarada o primeiro dia do Ano Um do calendário fascista. Como qualquer evento fundador, a Marcha também foi a encenação de um espetáculo e a criação de um mito. Um leitor precoce e oportunista das Reflexões sobre a Violência (1908) de Georges Sorel, Mussolini foi persuadido de que a política era inseparável da criação de mitos, que era uma espécie de mitopoiese. Em seu discurso em Nápoles, alguns dias antes da Marcha, ele anunciou que

Nós criamos nosso mito. O mito é uma fé, uma paixão. Não é necessário que seja uma realidade. É uma realidade na medida em que é um aguilhão, uma esperança, fé, coragem. Nosso mito é a Nação, nosso mito é a grandeza da Nação. E a esse mito, a essa grandeza – que queremos traduzir em uma realidade cumprida – subordinamos todo o resto. Pois a Nação está acima de todo Espírito e não apenas território.

O mito da Nação, de sua grandeza perdida e futura, continua a animar a extrema direita ressurgente em todo o mundo. Como no discurso feito esta semana pela nova primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, esse mito agora é frequentemente acompanhado por hinos à "liberdade", que devem servir como antídotos para suspeitas persistentes de autoritarismo. Isso não é liberdade como emancipação ou libertação, mas liberdade de mercado — atrelada ao que Meloni, citando o Papa João Paulo II, descreveu como "o direito de fazer o que se deve". Sem nos apressarmos em analogias históricas instáveis, pode ajudar revisitar as origens do fascismo, cem anos após seu surgimento, a fim de entender sua relação particular com o mercado e complicar a percepção generalizada dele como antítese do liberalismo.

A Marcha como mito – como a demonstração ousada e viril de força que gerou o estado fascista – não foi apenas martelada na hagiografia fascista ou na mise-en-scène retroativa da Exposição da Revolução Fascista, realizada pela primeira vez em 1932. Ela também serviu como um modelo – um mito consequente – para os aliados de Mussolini, acima de tudo para os nazistas. A ‘conversa de mesa’ de Hitler de 1941 registra a seguinte afirmação sobre o ‘épico heróico’ da ‘revolução irmã’ do Nacional-Socialismo:

A camisa marrom provavelmente não teria existido sem a camisa preta. A marcha sobre Roma, em 1922, foi um dos pontos de virada da história. O simples fato de que qualquer coisa do tipo poderia ser tentada, e poderia ter sucesso, nos deu um ímpeto... Se Mussolini tivesse sido superado pelo marxismo, não sei se teríamos conseguido resistir. Naquele período, o nacional-socialismo era um crescimento muito frágil.

Tão frágil, na verdade, que quando Hitler tentou seu próprio golpe em 1923, ele pôde ser descartado na imprensa italiana como uma "caricatura ridícula" de seu paradigma fascista.

Em contraste com essa mitologia, relatos históricos da Marcha tendem a minimizar sua importância. Robert Paxton, em seu lúcido e sintético The Anatomy of Fascism (2004), atribui seu sucesso às debilidades e inépcias das classes políticas italianas. Não foi a força do fascismo que decidiu a questão, ele escreve, mas a relutância dos conservadores em arriscar sua força contra a de Il Duce. A “Marcha sobre Roma” foi um blefe gigantesco que funcionou, e ainda funciona, na percepção do público em geral sobre a “tomada do poder” de Mussolini. Salvatore Lupo, em seu estudo da história política do fascismo italiano, também observa que, com a Marcha, "a Itália provinciana do esquadrismo desejava forçar a mão daquela vasta faixa do establishment liberal-conservador [liberal-moderato], monarquista, militar e capitalista [confindustriale] que olhava para os Camisas Negras com simpatia, mas que precisava sentir alguma pressão ameaçadora para abandonar a opção de um governo de centro-direita". Vista sob essa luz, a Marcha sobre Roma não foi um épico tão heroico, mas a conquista de "um resultado máximo com risco mínimo", na formulação de Emilio Gentile.

Mas, embora seja útil minar os mitos egoístas do fascismo, devemos ter cuidado para não ampliar seu parasitismo sobre a fraqueza de seus inimigos e a cumplicidade de seus beneficiários. Ao fazê-lo, corremos o risco de apresentá-lo como um fenômeno insubstancial, quase inexplicável. Dobrando o bastão um pouco na outra direção, é instrutivo voltar ao tratamento da Marcha por aquele cronista brilhante e ambíguo de sua época, Curzio Malaparte. Em sua Técnica do Golpe de Estado de 1931, que Mussolini proibiu para não desagradar Hitler (que foi ridicularizado em comparações pouco lisonjeiras com Il Duce), Malaparte, um dos primeiros participantes do esquadrismo e fascista de "esquerda", comenta irreverentemente que Mussolini só poderia ter comandado a "máquina insurrecional fascista" como ele fez por causa de seu "marxismo". Com isso, Malaparte quis dizer perversamente o reconhecimento de Mussolini da importância estratégica de derrotar a classe trabalhadora – uma vitória que, segundo ele, também enfraqueceria qualquer outra força de resistência dentro do Estado.

O que Malaparte acaba descrevendo é algo como uma tática do vazio. Como ele observa:

Não era apenas uma questão de impedir a greve geral, mas também a frente unida do Governo, Parlamento e proletariado. O fascismo enfrentou a necessidade de fazer um vazio ao seu redor, de fazer uma tabula rasa de toda força organizada, seja política ou sindical, proletária ou burguesa, sindicatos, cooperativas, círculos de trabalhadores, Bolsas de Trabalho (Camere del lavoro), jornais, partidos políticos.

A máquina insurrecional fascista era um aparato formidável para a organização da desorganização, a imposição hiperpolítica de uma despolitização mortal – algo que ela realizou nos trilhos paralelos da violência direta e das conspirações de corredor. Malaparte sinaliza a inteligência logística que entrou nas táticas do que o The Guardian descreveu na época como uma "revolução sem derramamento de sangue". Não foram tanto as ruas ou os centros de poder mais visíveis, mas vários nós materiais e institucionais – pontos-chave na rede de energia política da Itália – que foram o foco dos squadristi nos estágios preparatórios da Marcha. Como Malaparte relata:

Os camisas negras ocuparam de surpresa todos os pontos estratégicos da cidade e do país, a saber, os órgãos de organização técnica, as fábricas de gás, as usinas de eletricidade, as agências centrais de correio, as centrais telefônicas e telegráficas, as pontes, as estações ferroviárias. As autoridades políticas e militares foram pegas desprevenidas por esse ataque repentino.

Daí a percepção melancólica na confissão de Giovanni Giolitti, o primeiro-ministro italiano de longa data durante as duas primeiras décadas do século XX: "Estou em dívida com Mussolini por ter aprendido que não é contra o programa de uma revolução que um estado deve se defender, mas contra suas táticas".

Mas que programa acompanhou essas táticas? O estudioso de Gramsci Fabio Frosini compilou recentemente uma excelente antologia crítica dos discursos e escritos de Mussolini de 1921 a 1932 sob o título A Construção do Novo Estado. Os pronunciamentos que levaram à Marcha ressoam amplamente com a concepção de Malaparte. Os métodos violentos do Squadrismo foram sustentados por um aristocratismo pseudo-nietzschiano que contrastava o poder transformador das elites guerreiras com as tendências pacifistas do proletariado. Em seu discurso inaugural na Câmara dos Deputados, Mussolini declarou que

é óbvio [pacífico], a esta altura, que no terreno da violência as massas trabalhadoras serão derrotadas... as massas trabalhadoras são naturalmente, ousaria dizer abençoadamente [santamente], pacificadoras [pacifondaie], porque sempre representaram as reservas estáticas das sociedades humanas, enquanto o risco, o perigo, o gosto pela aventura sempre foram tarefa e privilégio das pequenas aristocracias.

Essa rejeição ‘antropológica’ da capacidade de luta das massas foi acompanhada por uma rejeição do marxismo, entendido como um amálgama de ‘socialismo de estado’ e a teoria da luta de classes qua motor histórico: ‘Negamos que existam duas classes porque existem muitas mais, negamos que toda a história humana possa ser explicada pelo determinismo econômico.’ Na ‘síntese das antíteses’ do fascismo – classe e nação – o internacionalismo deveria ser vigorosamente repelido. Para Mussolini, em uma fórmula que encontra uma miríade de ecos na retórica contemporânea da reação, o internacionalismo era uma ‘mercadoria de luxo, que só pode ser praticada pelas classes altas, enquanto o povo está desesperadamente preso à sua terra natal.’

Mas o modus operandi do fascismo antes da Marcha sobre Roma não era apenas uma guerra de classes contra uma guerra de classes. Abandonando seu republicanismo anterior por elogios oportunistas ao Exército e ao Rei, ele se cristalizou em um projeto de violência pública para o capital privado. Enquanto a construção do estado fascista implicou um movimento significativo em direção à centralização administrativa e ao envolvimento na esfera econômica, o Mussolini de 1921-22 foi enfático sobre a filosofia econômica fundamentalmente liberal do fascismo. Em seu discurso parlamentar inaugural, Mussolini disse a seus oponentes de esquerda que a literatura socialista revisionista o imbuiu da convicção de que "só agora a verdadeira história do capitalismo está começando, porque o capitalismo não é apenas um sistema de opressão, mas também uma seleção de valores, uma coordenação de hierarquias, um senso mais amplamente desenvolvido de responsabilidade individual".

Uma crença na vitalidade do capitalismo apoiou a retração programática do estado exigida por Mussolini. Salvar o estado, ele argumentou, exigia uma "operação cirúrgica". Se o estado tinha cem braços, 95 exigiam amputação, dada "a necessidade de reduzir o estado à sua expressão puramente jurídica e política". Lendo passagens como a seguinte, dificilmente é misterioso por que pessoas como Ludwig von Mises saudaram o triunfo do fascismo como a salvação do liberalismo:

Que o Estado nos dê uma força policial, para salvar cavalheiros de canalhas, um exército pronto para qualquer eventualidade, uma política externa sintonizada com as necessidades nacionais. Todo o resto, e não estou excluindo nem o ensino médio, pertence à atividade privada do indivíduo. Se você deseja salvar o Estado, você tem que abolir o Estado coletivista... e retornar ao estado de Manchester.

No Terceiro Congresso Nacional Fascista, em 8 de novembro de 1921, Mussolini reiteraria que, quando se tratava de questões econômicas, os fascistas eram "declaradamente antissocialistas", ou seja, "liberais".

O ‘Estado ético’ era entendido como o inimigo do Estado monopolista e burocrático, como um Estado que reduzia suas funções às necessidades básicas. Mussolini até enfatizou a necessidade de ‘restaurar as ferrovias e os telégrafos para empresas privadas; porque o aparato atual é monstruoso e vulnerável em todas as suas partes.’ Em Udine, um mês antes da Marcha, ele declarou:

Todos os apetrechos do Estado desmoronam como um velho cenário de opereta quando falta a convicção íntima de que se está cumprindo um dever, ou melhor, uma missão. É por isso que queremos despojar o Estado de todos os seus atributos econômicos. Chega de Estado ferroviário, de Estado carteiro, de Estado segurador. Chega de Estado operando às custas de todos os contribuintes italianos e agravando as finanças exaustas da Itália.

A justificativa para esse encolhimento do Estado aos seus aparatos repressivos e ideológicos não era apenas pragmática, mas idealista: ‘Que não se diga que assim esvaziado o Estado permanece pequeno. Não! Ele continua sendo uma coisa muito grande, porque retém todo o domínio das almas [spiriti], enquanto abdicou de todo o domínio da matéria.’

Hoje, enquanto lutamos com as vidas posteriores e repetições do fascismo, ajuda lembrar que ele surgiu há cem anos não como uma forma de "totalitarismo" fundindo o político e o econômico, mas como uma variante particularmente virulenta do que Ruth Wilson Gilmore chamou de estado antiestado. E foi recebido como tal por muitos liberais, de Luigi Einaudi a Benedetto Croce. O que Mussolini apresentou como o caráter moral, libertador e solucionador de problemas da violência "cirúrgica" do fascismo foi explicitamente articulado, em 1921-22, como uma violência antidemocrática para a redenção de uma Nação e Estado baseados na acumulação privada. Como ele declarou no Congresso Nacional Fascista: "Absorveremos os liberais e o liberalismo, porque com o método da violência enterramos todos os métodos anteriores."

Essa promessa de liberalismo por meios não liberais foi o motivo pelo qual o fascismo chegou ao poder (em 1922 como em 1933) não como uma insurreição, mas como um convite para formar um governo emitido por autoridades constitucionais soberanas (Rei Vittorio Emanuele III, Presidente Paul von Hindenburg). Como Daniel Guérin observou em Fascism and Big Business (1936), aqui estava a "diferença vital" entre socialismo e fascismo quando se tratava da tomada do poder: o primeiro é o inimigo de classe do estado burguês, enquanto "o fascismo está a serviço da classe representada pelo estado" - ou, pelo menos, é inicialmente bem-vindo e apoiado financeiramente como tal. Contemplando as devastações do neoliberalismo-como-guerra-civil no início do século XXI, não devemos esquecer que o fascismo chegou ao poder pela primeira vez em uma guerra civil pelo liberalismo econômico.

O fascismo foi uma contrarrevolução violenta

Um século desde a Marcha sobre Roma, é importante relembrar os horrores do regime de Benito Mussolini. O fascismo era moralmente repugnante - mas também um movimento baseado na contrarrevolução violenta.

Stefanie Prezioso

Jacobin

Benito Mussolini analisa a milícia Camisas Negras em Roma em 1936. (Arquivo Bettmann via Getty Images)

Resenha de M: O Filho do Século por Antonio Scurati (Fourth Estate, 2022)

Tradução / Um século desde a Marcha sobre Roma, o “retorno” do passado fascista da Itália nunca pareceu mais próximo. Este mês, o Senado elegeu como novo presidente Ignazio La Russa, cofundador do partido pós-fascista Fratelli d’Italia, poucas semanas depois da declaração que “somos todos herdeiros do Duce”.

Nesse contexto, lançar um romance sobre Benito Mussolini – como Antonio Scurati fez com sua trilogia M. – é uma grande responsabilidade. Mais do que qualquer escrita histórica, a obra de Scurati tornou-se um best-seller, traduzido para vários idiomas. A responsabilidade é ainda maior porque Scurati busca “trazer o fascismo para a terra, dando real conhecimento dele como só a literatura sabe, quando se aprofunda nos detalhes da vida material”. M. é, portanto, um “romance documentário”; ele deliberadamente joga com a fronteira borrada entre história e ficção, com o “entrelaçamento” dos dois gêneros em uma época que, Scurati nos diz, convida “a cooperação entre o rigor da erudição histórica e a arte de contar histórias ficcionais”.

A escrita histórica não imita a ficção, quando preenche as lacunas com narrativa inteligente, com imaginação, com simpatia? Apreender o passado “como ele realmente foi” não exige do historiador a capacidade de mergulhar em outros mundos, de torná-los seus e transmiti-los a outros? Os historiadores profissionais muitas vezes se mostram incapazes de falar para um público mais amplo e não familiar ao tentar usar a arte literária, o que é ainda mais necessário com biografia ou biografia coletiva. Deste ponto de vista, os três livros M. de Scurati são uma obra-prima.

Scurati constrói uma narrativa cortante e cativante com base em fontes em primeira mão. Ele não tem medo de confrontar o mito duradouro de Italiani brava gente (italianos, as pessoas boas) – um mito que diminui a responsabilidade dos italianos por crimes de guerra na Segunda Guerra Mundial. Particularmente notável é sua descrição da política genocida do fascismo na Líbia, à qual o segundo volume dedica muitas páginas e que ainda permanece uma parte esquecida da história italiana.

Scurati queria “dar voz ao pensamento daqueles que, por meio de suas ações, contribuíram para escrever essa história”. Para isso, ele afirma que era preciso operar sem “preconceitos ideológicos”. Esta é uma afirmação significativa em um país onde, há décadas, o revisionismo histórico encontrou sua força justamente na pretensão de produzir uma história “desideologizada” e “serena” “sem preconceitos”, distante das “grandes paixões políticas” do curto século XX. Scurati não é exceção: ele afirma que o “preconceito antifascista” bloqueia a capacidade de analisar o fascismo, produzindo uma “forma de cegueira”.

Isso implica que devemos ignorar as centenas de estudos produzidos no calor da luta antifascista — ainda hoje essenciais para a abordagem do fenômeno — como Rise of Italian Fascism [Ascensão do fascismo italiano], de Angelo Tasca, publicado às vésperas da Segunda Guerra Mundial, do qual Scurati, no entanto, desenha extensivamente. Isso é mais surpreendente quanto o autor de M., que se descreve como “democrático, libertário e progressista”, vê seu romance como sua “maior contribuição para a refundação do antifascismo”, um antifascismo que pode resistir a novos tempos.

Ignorância produzida culturalmente

Um livro é, como tudo, parte da época em que nasceu, do contexto sócio-histórico em que se desenvolveu e deixou sua marca. Que interesse teria uma obra de arte em ser despojada do mundo em que foi concebida? O historiador francês Marc Bloch, fuzilado pelos nazistas em 1944, não argumentou que é impossível compreender o passado sem olhar para o presente? O lançamento da obra de Scurati coincide com o centenário da chegada do fascismo ao poder – um passado que parece não querer passar, em um país onde a memória de Mussolini ainda paira como uma sombra ameaçadora, um “fantasma”.

O romance também sai em um momento em que o retorno do fascismo está na boca de todos. A publicação do primeiro volume coincidiu com a ascensão do líder da Lega Matteo Salvini ao alto cargo (na época era ministro do Interior), com políticas agressivas e vínculos abertos com grupos neofascistas, alarmando a opinião pública nacional e internacional. O terceiro e último volume — “M. Gli ultimi giorni dell’Europa” — saiu poucos dias antes da vitória eleitoral, em 25 de setembro, de Giorgia’Meloni e seu Fratelli d’Italia; um partido em cujas artérias ainda circula o fascismo e cujo logotipo exibe orgulhosamente a chama tricolor, representando o espírito ainda vivo do fascismo. A atmosfera nociva em que o livro apareceu foi evidenciada pelo intimidante artigo de 25 de setembro de Alessandro Sallusti, editor do jornal Libero, intitulado “o príncipe dos inimigos”, em referência ao autor.

Nesse contexto, falar sobre o “retorno do fascismo” na Itália pode parecer absurdo, como disse o historiador Emilio Gentile, já que o fascismo nunca parece ter desaparecido. Entre outras coisas, Scurati assume abertamente o papel de revelar o presente ao evocar certas “analogias surpreendentes e arrepiantes com os dias modernos”.

O passado iluminado pelo presente faz parte de qualquer processo literário-criativo de natureza histórica – atento, como escreveu G. W. F. Hegel, à “verdade histórica” e ao mesmo tempo “aos costumes e cultura intelectual de seu tempo”. Scurati insiste que “nenhuma pessoa, evento, fala ou frase narrada no livro é arbitrariamente inventada”, dando especial atenção às fontes, à maneira de um historiador. Isso só é reforçado pela impressão de realismo que advém da inclusão de extratos de documentos de arquivo ao final de cada capítulo. No entanto, sua exposição muitas vezes truncada não pode ir além de uma ilusão da materialidade do passado.

O romance de Scurati, diz ele, “complementa, talvez, o trabalho analítico da pesquisa histórica com a força sintética da narrativa” e não tenta substituí-la. Deste ponto de vista, M. desempenha o papel de síntese narrativa das análises produzidas pelos historiadores. No entanto – e será ainda mais o caso quando o filme for lançado – o que Scurati chama de ficcional (uma mistura de ficcional e factual) elabora uma nova forma de pensamento histórico que rompe com a história acadêmica, em grande parte desconhecida para a maioria das pessoas. Esse novo pensamento histórico é chamado para substituí-lo.

É difícil ignorar o ambiente cultural, social e político em que este trabalho surgiu. Este é um país onde ainda é possível ouvir que “Mussolini também fez coisas boas”; um país onde o desconhecimento do passado é comum, seja porque sua população não o conhece ou porque não quer saber. Uma ignorância no sentido mais forte, tingida de indiferença, vem sendo produzida culturalmente desde a Segunda Guerra Mundial através da grande imprensa e especialmente da televisão, veículo extraordinário de identidade e memória. A Itália é um país em que, ao longo dos últimos trinta anos de hegemonia cultural da direita plural, o antifascismo foi retratado como sinistro, devido ao seu caráter supostamente antidemocrático e à suposta crueldade da violência comunista.

Não se trata, de forma alguma, de apontar todos os erros do romance da inexpugnável torre de marfim dos historiadores “profissionais”, reservando a estes a produção do conhecimento histórico. Trata-se, antes, de questionar a interpretação de M. no presente, de interrogar a relação entre as formas de produção narrativa que seu autor privilegia e a autoconsciência da sociedade italiana. “O futuro do passado” está em jogo, não apenas seu presente.

Fascismo "por dentro"

No primeiro volume, intitulado M: filho do século, Antonio Scurati decide relatar a ascensão do fascismo a partir da perspectiva do próprio Mussolini. Essa escolha narrativa levantou muitas questões e críticas – algumas delas injustificadas – de “proximidade” de seu “personagem” ou de uma “reabilitação” latente de Mussolini. O objetivo de Scurati, ao adotar o ponto de vista do líder fascista, é contar essa história por dentro. Ao fazê-lo, Scurati recorre aos historiadores Renzo de Felice, George L. Mosse, Zeev Sternhell e Emilio Gentile, que defenderam a necessidade de uma análise do fascismo “de dentro”, levando a sério sua linguagem e mitos.

Scurati argumenta que o fato de ele pertencer a uma geração “nascida logo após o fim de tudo isso e pouco antes do início de todo o resto” lhe permite “reapropriar o material narrativo explosivo do século XX, com base em [seu próprio] seu não pertencimento a ele.” Nascido em 1969, seria, assim, uma encarnação do que chama de “literatura da inexperiência”, representada neste “romance pós-histórico”. O autor estaria assim finalmente liberto de qualquer dogmatismo ideológico em relação à geração que o precedeu, livre para encontrar a verdade ou pelo menos elaborar uma verdade: “A equidistância (certamente não a equivalência) do autor pós-histórico”, ele escreve, “no que diz respeito ao ponto de vista das vítimas e carrascos, portanto, sua livre escolha no foco narrativo, descende diretamente do transcendental da inexperiência”.

A abordagem de Scurati à literatura da inexperiência parece característica do que Eric Hobsbawm chamou de “a destruição do passado, ou melhor, dos mecanismos sociais que ligam a experiência contemporânea à das gerações anteriores”, efetivamente libertando a geração mais jovem do imperativo categórico da lembrando os vencidos, ou seja, levando a bordo suas derrotas para transformá-los em uma força “revolucionária” no presente. A distinção reconhecidamente importante que o autor faz entre “equidistância” e “equivalência” não pode, porém, por si só resolver a questão de sua relação com seus personagens, o leitor a quem se dirige e o que seu texto “postula” para eles.

O leitor de M., exposto sem mediação ao conto de Mussolini no primeiro volume, é levado a experimentar a ascensão do fascismo de dentro do ventre da besta. A força inegável da escrita de Scurati está na descrição “debaixo” dos anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial; um período particularmente intenso que deve ser analisado hora a hora, região a região, cidade a cidade, bairro a bairro, na tentativa de “enfrentar” o fascismo por meio de seus “desenvolvimentos”. A narrativa é, sem dúvida, eficaz. Usando a estética do “horror”, Scurati provoca arrependimento, não responsabilidade. Ele consegue cativar um grande número de leitores, mergulhando-os na vida cotidiana do fascismo. No entanto, a narrativa da ascensão do fascismo ao poder deixa pouco espaço para a perspectiva necessária para entender um fenômeno complexo e vívido na memória coletiva da Itália, da Europa e do mundo.

Seus desdobramentos cotidianos, vistos pelo prisma necessariamente míope de um “fascínio pela catástrofe”, vinculam a definição de fascismo ao plano contingente e efêmero das circunstâncias e aos efeitos recíprocos da violência e do medo. O que é fascismo? A resposta, segundo Scurati, está em seu caráter moral e psicológico, que não pode ser dissociado dos “humores” das favelas. Os fascistas estão constantemente apegados às suas origens sociais plebeias – Roberto Farinacci, “filho do ferroviário”, e Mussolini, “filho do ferreiro”, repetiam teimosamente, como se essas indicações fossem a melhor maneira de compreender o fenômeno. A natureza plebéia dos “fascistas” reforça a ideia de um fascismo “revolucionário”: “a revolução não será feita pelos comunistas, será feita pelos donos de dois quartos e uma cozinha em um bloco de apartamentos suburbano”. Um ponto de vista de dentro que nunca é questionado nos três volumes de Scurati.

De uma perspectiva croceana, o fascismo também é visto como uma doença moral degenerativa. O segundo volume, que abre com um Mussolini dobrado em dois pela dor de sangue e merda, é o exemplo mais típico. A imagem do vírus aparece muitas vezes, um vírus que “infecta milhares de funcionários dos correios prontos para incendiar os salões de trabalho”. O terror que esse povo armado de paus inspira, portanto, não está relacionado apenas à violência que produz, mas ao que representa em termos de patologia física e psíquica localizada nas profundezas da sociedade, em seu ventre, em seus instintos mais básicos.

Ao medo da “multidão” que “avança instintivamente” junta-se a imagem de um Benito Mussolini apresentado como um “super-homem gerado no ventre do povo e não de uma casta privilegiada”. Um Mussolini que “despreza e teme seus próprios esquadrões [uma atitude] que é amplamente correspondida”. Um Mussolini que retrata suas tropas como “mendigos enriquecidos, tropas de assalto transformadas em oficiais” e os italianos como “covardes e fracos”. Um Mussolini que hesita em voltar atrás “mas agora o círculo de ódio está se apertando por todos os lados. Talvez, se pudesse, ele voltaria. Mas é tarde demais.” Um Mussolini que “está protegido do espetáculo humilhante da miséria humana por um estranho tipo de hipermetropia: ele não vê seu par, seu vizinho, as pessoas pequenas, ou, se os vê, parecem borrados, indistintos, insignificantes”. homem como Giacomo Matteotti, o deputado socialista assassinado pelos camisas negras em 1924.

Um homem sozinho diante da loucura que pôs em movimento: “deveria falar de um chefe de Estado, idolatrado pelas multidões, que cai dia após dia no destino nada invejável da desconfiança mais radical de qualquer pessoa e no ainda mais condenação arrepiante de ter que cultivar uma confiança cada vez maior, absoluta e anormal em si mesmo”. Um homem cuja estatura encolheu tanto quanto a distância entre o dedo indicador e o polegar (daí o m minúsculo estilizado no título do volume três) ao se aproximar de Hitler e que está “com medo”. O mesmo medo que “vinte anos antes, quando habilmente orquestrado, o havia elevado ao poder” estava se voltando contra ele, levando-o à violência e a “lançar o povo italiano na carnificina de um novo conflito mundial”.

No terceiro volume, que abrange o período das Leis Raciais de 1938 até a entrada da Itália na Segunda Guerra Mundial, o ponto de vista de Scurati fica cada vez mais claro. Ele apresenta um Mussolini em “êxtase”, fascinado pelo medo, a “mais poderosa das paixões políticas”, incutida nele por um “sanguinário” Hitler, o “demônio nazista” e sua corte composta por um “plebeu, arrivista, doente”. “Ralé bem-educada” – mas um Mussolini ao mesmo tempo um súcubo; um líder envelhecido, gordo e inquieto, ansioso pelo “destino” de “seu” povo. Scurati aqui se inclina para aquela leitura que dá desculpas para o fascismo italiano, apanhado na órbita da Alemanha nazista, um velho clichê que lança a aliança com Hitler como acidental, um “erro fatal” feito com o argumento de que é “melhor” que Hitler esteja “com nós do que contra nós”.

Enquanto isso, as leis raciais são apresentadas como um “instrumento diplomático”, uma promessa dada a essa aliança, uma “garantia” da firmeza de um acordo duradouro. Essa leitura revisionista é reforçada pelo fato de que a reconstrução de Scurati do curso do fascismo deixa de lado seis anos (de 1932 a 1938), deixando de lado a colonização da Etiópia – uma importante transição entre o racismo colonial e o antissemitismo em casa concebido como instrumento para a “regeneração” dos italianos.

A crítica básica do fascismo, portanto, parece abstratamente moral porque quase apenas a violência e o medo dominam. Na narrativa da ascensão do fascismo ao poder, como na da consolidação de seu regime, Scurati dá pouco espaço às condições econômicas, políticas, sociais e culturais que lhe deram base, seu programa político e ideologia, e o regime que estabeleceu . A historiadora Giulia Albanese tem razão ao apontar que “as páginas da marcha sobre Roma mostram que o evento foi reversível”. Scurati corretamente sugere que o fascismo foi um resultado possível, mas dificilmente automático, do conflito social contemporâneo e que, portanto, a convergência entre a classe dominante e a contrarrevolução – essencial para a chegada do fascismo ao poder – não poderia ser tomada como inevitável.

No entanto, o objeto da atenção do autor não é, nas palavras do historiador Charles S. Maier, “o capitalismo de crise armado de cassetete”, mas sim, e apenas às vezes, a inadequação da classe dominante tradicional, “pessoas de um museu”, composto por uma “burguesia italiana inimiga espiritual do fascismo” diante da nova situação que se abriu em março de 1919. A descrição do rei como “prisioneiro de guerra” e do primeiro-ministro liberal Giovanni Giolitti “tentativa parcial, laboriosa e contraditória de transformar um país antigo e arcaico em uma democracia moderna” parecem exonerar, pelo menos em parte, o estado liberal.

O oprimido ausente

Scurati sustentou em inúmeras entrevistas que “o romance gera um julgamento histórico, moral e civil preciso e firme condenando o fascismo. E o faz justamente porque não parte de um preconceito ideológico.” Toda a questão que isso coloca é a definição de antifascismo que resulta da exposição “terceira” do romancista, mas não “neutra”. O que Scurati quer nos dizer sobre o antifascismo no passado e, talvez mais importante para ele, sobre sua adaptação aos novos tempos?

A questão nos remete ao papel político do romance “histórico”. Em meados da década de 1930, György Lukács dedicou algumas páginas esclarecedoras ao romance antifascista, literatura que, segundo ele, marcou a “ruptura entre o escritor e a vida do povo”. Ele escreveu que “É sobretudo o preconceito que vive no povo, nas massas, o princípio da irracionalidade, do que é puramente instintivo, contra a razão. Com tal concepção do povo, o humanismo destrói suas melhores armas antifascistas”. O filósofo húngaro então pediu o “desmascaramento da hostilidade do fascismo” em relação aos oprimidos para “proteger as forças criativas do povo” porque “as grandes ideias e ações que a humanidade produziu até agora se originaram na vida popular”.

Depois de ler os três volumes de M., não há dúvidas quanto à sua condenação moral do fascismo – apesar das limitações e elementos negligenciados destacados acima. Mas para Scurati, a batalha antifascista é essencialmente uma luta entre a razão e a irracionalidade brutal e bárbara: “Hoje estamos numa encruzilhada: devemos escolher entre cultura, democracia e progresso, ou nos lançar nos braços do despotismo, cegueira obediência”.

Ao reduzir a luta antifascista, esta luta pela eternidade (como Carlo Rosselli a chamou), a uma luta entre progresso e reação, entre democracia (mas qual?) oprimido. Claramente, os preconceitos de classe antiplebeus colorem o afresco de Scurati: os camponeses sem terra são descritos como “bois cinzentos idiotas”; a “multidão” é vista como “dócil, primitiva”; as pessoas parecem ser guiadas por seus instintos, seus estômagos, seus “humores”, dos quais se diz que Mussolini tem uma “inteligência formidável”; um povo na melhor das hipóteses ausente, na pior consentindo por preguiça. “Sim, a maioria dos italianos”, escreve Scurati, para explicar a atmosfera após o assassinato do líder socialista Matteotti, “horrorizado com o crime, gostaria que a queda do regime recuperasse suas casas infestadas de fantasmas. Mas, então, por volta da hora do jantar, as exigências da vida prevalecem. A moral não é uma delas. O país é opaco, seu senso de justiça é lento, turvo”.

Neste afresco, os antifascistas de baixo aparecem quase exclusivamente em seu papel de vítimas, mortos, espancados, humilhados, como os “dois pobres” condenados por insultar o Duce, que são apresentados como “animais mansos e inofensivos”. Os círculos de emigrantes antifascistas de Nice em que Gino Lucetti – que tentou matar Mussolini – se desenvolveram são apresentados como: “um tribunal de milagres de pobres emigrantes, comunistas, anarquistas, revolucionários, párias, espancados, expulsos, homens que enganaram a fome em diante das mesas das tavernas humildes, entre invertidos, ladrões e putas, numa louvável e, ao mesmo tempo, sublime mistura de embriaguez, vãs esperanças de redenção, idealismos desesperados e miséria crônica, feroz”.

Ainda mais significativo nesse sentido é o fato de que o antifascismo desaparece no terceiro volume, com Scurati decidindo deixar de lado o momento mais importante da luta antifascista no exterior. A década de 1930 provou ser um teste decisivo para o antifascismo. Dez anos de “academia do exílio” em Paris tornaram possível apenas uma alternativa: morte ou “redenção”. Scurati trata do fim da parábola, a derrota republicana na Guerra Civil Espanhola, resumida como uma “guerra interna entre republicanos e franquistas”. Mais uma vez, os antifascistas são aqueles imediatamente executados por ordem de Mussolini, mas não aqueles que lutaram com armas na mão, “hoje na Espanha e amanhã na Itália”; aqueles que clamavam por uma guerra preventiva e uma revolução antifascista; aqueles que precisavam mais da Espanha do que a Espanha precisava deles, como escreveu Emilio Lussu.

Tudo é como se os oprimidos não pudessem desempenhar nenhum papel ativo na luta contra um movimento e um regime construído justamente em oposição às suas lutas. Scurati ignora os oprimidos, talvez em função desse duplo medo: as pessoas que têm medo, mas também os medos estimulados por essa “massa informe, estúpida e apática”. Mas como é possível contemplar a luta antifascista ignorando o subalterno, e vice-versa, como entender o fascismo sem considerar sua dimensão profundamente contrarrevolucionária? Porque o fascismo realmente fez guerra contra os subalternos.

Sob a pena de Scurati, as lutas emancipatórias do bienio rosso (os “dois anos vermelhos” de greves e ocupações em 1919 e 1920) aparecem como “ilusões revolucionárias” que arruinaram a Itália por meio de uma “fúria de greves”, sugerindo que o “revolucionário” ultrajes do movimento trabalhista de alguma forma detonaram o barril de pólvora. Scurati faz Mussolini dizer que “[os comunistas] não começaram essa guerra civil, mas vão terminá-la. Trata-se de tornar a violência cada vez mais inteligente, de inventar a violência cirúrgica”.

A esperança orientou os passos daqueles que participaram das ondas grevistas no período imediato entre guerras, exigindo não apenas aumentos salariais, redução da jornada de trabalho e o fim da escassez de alimentos, mas também mudar o destino do mundo, quebrar as correntes. Tudo parecia possível quando, na Rússia, a primeira revolução socialista finalmente pareceu abrir novas perspectivas. Scurati não fala desse entusiasmo, mas se debruça longamente sobre os “milhões de italianos [que] deixaram de esperar por mudanças e começaram a se sentir ameaçados por ela. O canto dos quadrados se engasgou em um coro. Um grito que já não implorava ao futuro para redimir finalmente o presente, mas implorava que permanecesse não criado. Não uma oração, mas um exorcismo.”

Às vezes Scurati chega a igualar violência (pré)revolucionária e contrarrevolução; sua crítica a-histórica e abstratamente ética da violência lhe permite confundir os campos opostos: “Protestos, devastação, incêndios estão por toda parte. Por todos os lados. A escalada culminou em um bonde em Roma onde, em 12 de setembro, o policial Giovanni Corvi assassinou o sindicalista fascista Armando Casalini com três tiros de revólver enquanto os olhos da criança ainda estavam abertos.” O líder comunista Nicola Bombacci serve perfeitamente a esse propósito. O homem que o autor descreve como “o homem de Moscou”, o “confidente italiano” de Lenin (não está claro em que base), que mais tarde se tornaria um dos fervorosos defensores de Mussolini, serve como um elo entre os dois lados violentos do mesmo “guerra civil europeia” – sobre a qual, no entanto, Scurati não diz nada.

Pois a contrarrevolução não foi organizada apenas na Itália, mas em todos os lugares após a Revolução Russa de Outubro. O anticomunismo não visava apenas o recém-nascido Estado soviético, no qual se concentravam todos os tipos de fantasias, mas também se expressava em hostilidade aos dominados e em uma concepção elitista de democracia, resultado do que Peter Gay chamaria de cultura do ódio. As democracias europeias que emergiram da Primeira Guerra Mundial apoiaram soluções reacionárias para lidar com um comunismo, que era visto como um perigo muito maior.

Quanto aos partidos antifascistas, em M. tudo o que se percebe é a “cegueira” de seus dirigentes: “Os ódios faccionais, a escravidão às fórmulas, a cegueira ideológica, a linguagem que se volta uma e outra vez para questões formais, à pura lógica, a eterna roda das rivalidades pessoais, a surdez ao barulho do mundo, às promessas da aurora”. O Scurati do século XXI esquece de retratar o antifascismo de dentro, dia a dia, como um movimento concreto ancorado em seu tempo, com seus erros, mas também com suas forças. Isso limita severamente a complexidade da situação, mesmo em uma fase particularmente intensa da luta política.

Certamente, a oposição antifascista mostrou-se incapaz de adaptar sua luta à nova configuração política. Esta foi uma inadequação ligada, na pior das hipóteses, a um mal-entendido radical e, na melhor das hipóteses, a uma concepção estreita do fascismo como um fenômeno. O socialismo italiano, sem dúvida, provou-se desastrosamente inadequado diante da situação pós-Primeira Guerra Mundial na Itália. Mas descartar a fundação do Partido Comunista em 1921 — fruto de séria reflexão, cuidadosa elaboração e intensa ação política e social — como uma “divisão demente” ou reduzir a história do movimento operário italiano às vésperas da ascensão de Mussolini a “ ódios faccionais” dificilmente permite ir além dos juízos de valor, de pouca utilidade para uma refundação ou consolidação do antifascismo.

A cegueira denunciada por Scurati não nos ajuda a entender o que deveria ter sido feito, ou melhor, o que deveria ser feito (o famoso desvelamento do presente) em tal situação. A menos que consideremos que apenas o sacrifício de alguns heróis individuais (Matteotti é a única figura totalmente positiva na história) pode redimir toda a Itália.

Sob a pena de Scurati, os subalternos passam de portadores de emancipação a “vítimas” voluntárias ou heróis de sacrifício. Nessa perspectiva, apesar de seu objetivo declarado, M. não pode ser base para refundar o antifascismo. Sua leitura “vitimizadora” da oposição daqueles tempos não pode servir à memória coletiva e à redenção das vítimas de lutas passadas. Ao ignorar a dimensão propriamente revolucionária do antifascismo (e a dimensão contrarrevolucionária do fascismo), M. não pode cumprir a crítica revolucionária do presente, que é a única capaz de enfrentar o novo fascismo. O livro se esforça para perseguir o mundo que era, sem realmente entender o mundo que é.

Colaborador

Stefanie Prezioso é professora associada da Universidade de Lausanne e autora de vários trabalhos sobre o antifascismo europeu.

Unir o país para mudar o Brasil

Povo deve voltar a ser o centro das atenções

Luiz Inácio Lula da Silva
Candidato do PT à Presidência, é ex-presidente da República (2003-2010)


Neste domingo (30), o Brasil vai decidir seu futuro. Vamos escolher entre o caminho da prosperidade ou o da fome, dos livros ou das armas, da paz ou do ódio, da democracia ou do autoritarismo. Por isso é tão importante que cada cidadão e cidadã exerça o direito de votar. E votar com consciência, pensando no amanhã, no país que vamos deixar para nossos filhos e nossos netos.

Ao longo desta campanha, tive a oportunidade de reencontrar nosso povo nas ruas e praças do país. E o que eu vi nos olhos das pessoas foi o brilho da esperança e a vontade de mudar a vida para melhor. Este é o sentido da nossa candidatura: resgatar milhões de brasileiros e brasileiras da fome, da pobreza e da exclusão, por meio do crescimento sustentável e com distribuição mais justa da riqueza.

O candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discursa em São Paulo - Mariana Greif - 10.fev.22/Reuters

Sou candidato mais uma vez porque acredito que é possível realizar essa mudança. Sou candidato para unir o país em um grande movimento em defesa da democracia e pela reconstrução do Brasil. A decisão política mais importante a ser tomada é colocar novamente o povo no centro das atenções do governo. Incluir outra vez no Orçamento os trabalhadores e a maioria da população. Cuidar das pessoas em primeiro lugar, especialmente das que mais necessitam de apoio.

A experiência nos mostra que é perfeitamente possível aumentar a renda e os salários num ambiente de crescimento com estabilidade econômica. Para isso, é necessário que o presidente e o governo atuem com responsabilidade, credibilidade e previsibilidade. Foi assim que vencemos a fome, criamos 22 milhões de empregos e fizemos do Brasil a sexta maior economia do mundo.

É nosso compromisso retomar este caminho e fazer ainda mais, reabrindo os canais de diálogo entre governo e sociedade. Pretendemos definir, junto com os governadores, um conjunto de obras prioritárias e construir mecanismos de financiamento público e privado para a infraestrutura e os recursos estratégicos, de forma a gerar milhões de empregos de qualidade.

Em nosso país, a melhor maneira de fazer a roda da economia girar novamente é dinamizar e expandir o mercado interno. Por isso, é essencial aumentar o valor real do salário mínimo, retomar o Bolsa Família fortalecido, renegociar as dívidas de milhões de famílias e apoiar fortemente os batalhadores das micro, pequenas e médias empresas.

O Brasil é um país extraordinário, pronto para ingressar na economia do conhecimento e iniciar a transição energética e ecológica. Pronto para evoluir para uma agropecuária e uma mineração sustentáveis, uma agricultura familiar mais forte e uma indústria mais verde. Temos compromisso com a preservação da Amazônia e todos os grandes biomas, com o meio ambiente e o enfrentamento da crise climática.

O atual governo deixa uma herança terrivelmente pesada. Foram anos de cortes nos recursos para educação e saúde, arrocho nos salários e explosão do custo de vida. A desumanidade do atual presidente durante a pandemia foi a mais cruel expressão de sua falta de compromisso com o país, com a vida, com os valores cristãos e civilizatórios.

No primeiro turno, a maioria da sociedade brasileira disse não a este governo, apesar de todos os abusos que cometeram para tentar desvirtuar as eleições. Felizmente, ao longo do segundo turno, vimos crescer a unidade dos que, mesmo divergindo, estão juntos pela democracia, juntos pela paz e pelo Brasil.

Vamos com fé e esperança votar neste domingo para construir o futuro do país.

- O candidato do PL, Jair Bolsonaro, foi convidado a escrever nesta seção, mas não enviou artigo

Bolsonaro é um instrumento da guerra de classes global

Conversamos com Noam Chomsky sobre as consequências das eleições no Brasil para o mundo, os riscos da expansão da OTAN e as alternativas para as crises social e ambiental. Ele retoma a memória dos movimentos sindical e por direitos civis nos EUA e exalta a importância do MST e o MTST na atual configuração da luta de classes.

Uma entrevista com
Noam Chomsky


O que vem ocorrendo na Colômbia e no Chile pode acontecer no Brasil. (Wikimedia Commons)

Entrevista por
José Guilherme, Vanessa Nicolav e Hugo Albuquerque

Tradução / O linguista norte-americano Noam Chomsky – um dos maiores intelectuais públicos mundiais do último meio século – está no Brasil. Daqui “de baixo”, e do alto de seus 93 anos de idade, ele observa atentamente os desdobramentos de duas disputas políticas globais, simultâneas e correlatas: de um lado, o segundo turno das eleições brasileiras no próximo 30 de outubro, em que Jair Bolsonaro tenta a reeleição contra o ex-presidente Lula; de outro, as eleições legislativas norte-americanas, em que os republicanos buscam retomar o controle do Congresso e travar o governo de Joe Biden.

É nesse contexto que a Jacobin Brasil, sob a batuta de Hugo Albuquerque, José Guilherme Pereira Leite e Vanessa Nicolav, produziu essa entrevista. Procuramos decifrar este momento dramático da humanidade e, ao mesmo tempo, pensar em rotas de resistência e renovação.

Quando a câmera se abriu para a nossa equipe na entrevista, Chomsky surgiu como um velho sábio, lembrando a figura do Eremita – Arcano de número 9 – do Tarot de Edward Waite. O rosto parcialmente coberto por uma barba longuíssima, os olhos serenos e a voz calejada conjugaram-se por quase duas horas na expressão de uma inteligência cortante. É a clarividência simples e direta de um personagem histórico, que testemunhou as principais agruras geopolíticas que nos atravessam desde a Guerra do Vietnã.

O tom sereno e pausado de sua fala não esconde porém a gravidade do mundo por ele descrito. É, entretanto, um mundo que, embora aturdido por catástrofes climáticas, avanço do fascismo e cenário geral de belicismo, contém para Chomsky – ainda – a perspectiva de uma superação possível. No centro dessa superação está para ele a força dos movimentos sociais que, mesmo tantas vezes esmagados, sempre renascem e deixam os seus avanços.

José Guilherme, Vanessa Nicolav e Hugo Albuquerque

Você tem falado sobre as eleições brasileiras. Qual a maior ameaça que Bolsonaro representa para o mundo, tanto do ponto de vista estratégico quanto ideológico? Bolsonaro antecipa “o novo normal”, isto é, essa forma de ultraliberalismo radical e exterminatório?

Noam Chomsky

Primeiramente, eu seria cauteloso com a palavra ultraliberalismo no que diz respeito a Bolsonaro. Isso é aplicável ao Ministro da Economia dele, Paulo Guedes, cujos slogans sempre giram em torno da privatização de tudo para deixar aos cuidados da esfera privada etc.. Isso é chamado “liberalismo” atualmente, mas na realidade, é um autoritarismo profundo. É entregar tudo aos centros de poder menos transparentes que existem. Trata-se, na verdade, de neoliberalismo, e ele tem dominado a cena política nos últimos 40 anos, disfarçado de discurso sobre mercados. Isso é quase sempre uma fraude.

Esse neoliberalismo é uma guerra de classes selvagem, um capitalismo desenfreado. Quais são as suas consequências? Vejamos os Estados Unidos, por exemplo. Mesmo a Rand Corporation estimou que cerca de 50 trilhões de dólares foram distribuídos ao 1% mais rico da população, isso só nos últimos 40 anos, a partir do início da presidência de Ronald Reagan, em 1981. As consequências disso podem ser observadas por vários aspectos.

Desde os anos 1970, os Estados Unidos não eram muito diferentes de qualquer país desenvolvido, em termos de serviços de saúde, custos do sistema de saúde e mortalidade, índice de encarceramento, entre outros. Agora está tudo fora de controle. Atualmente, os índices de encarceramento dos Estados Unidos, que estavam na média durante os anos 1970, atingiram algo em torno de 10 vezes a taxa dos outros países desenvolvidos. O custo da saúde nos Estados Unidos é cerca de duas vezes mais alto do que em países do mesmo porte, mas os resultados estão entre os piores.

Quando Margareth Thatcher se tornou primeira-ministra do Reino Unido, em 1979, quase na mesma época de Reagan nos Estados Unidos, sua primeira medida foi enfraquecer e desmontar os sindicatos de trabalhadores. Isso abriu as portas para as grandes empresas usarem meios ilegais, como a sabotagem de greves, para impedir a organização dos seus empregados. Tudo isso foi ilegal, mas quando se tem um Estado criminoso, não faz diferença. Situações similares aconteceram no mundo todo.

Uma das consequências disso é deixar a população enfurecida, ressentida, indiferente às instituições. É o terreno fértil ideal para demagogos como Jair Bolsonaro no Brasil, Viktor Orbán na Hungria, e outros. Essas figuras aparecem prometendo a salvação para a angústia e o sofrimento infligidos aos trabalhadores. E enquanto prometem isso, estão, na verdade, intensificando essa situação, pois pessoas como Bolsonaro ou Orbán estão trabalhando para os opressores.

Observem a agenda legislativa de Donald Trump nos Estados Unidos. Basicamente, sua meta principal era cortar os impostos sobre os muito ricos e o setor corporativo, o que significa gerar mais fardos a todo o restante da população, levando à continuação do corte de benefícios para a classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, Trump surge com um discurso de “Eu sou seu salvador, o problema não é minha agenda, são os imigrantes, os negros etc… os culpados. Preocupem-se com eles!”

Aliás, antes de voltarmos a Bolsonaro, me deixem acrescentar que teremos uma outra eleição, uma semana depois da brasileira, só que nos Estados Unidos, em 8 de novembro. Será uma semana fatídica. Estamos falando das duas maiores sociedades do hemisfério ocidental, o colosso do Norte e do Sul — sendo que o este último, o Brasil, despendeu gigantescos esforços para alcançar seu potencial, tanto em desenvolvimento quanto para ter voz, sobretudo entre os anos 1950 e início dos 1960, com o Presidente Juscelino Kubitschek. A oposição a isso pelo governo de John Kennedy nos Estados Unidos abriu o caminho para o golpe militar no Brasil, uma das primeiras pragas com tendências neonazistas que se espalharam pela América Latina. Uma pestilência aterradora de retrocesso.

Com o governo de Lula, rapidamente o Brasil se tornou um dos países mais influentes e respeitados do mundo, a voz do Sul global, com imensa redução da pobreza, com inclusão. Então vieram os golpes soft que levaram ao governo Bolsonaro, causando o retrocesso atual. Se Bolsonaro conseguir se manter no poder, seja por meio das eleições ou de alguma forma de golpe, e, uma semana depois, o Partido Republicano dos Estados Unidos — que é por si protofascista — tomar o controle do Congresso já tendo o controle da Suprema Corte, ele cercará o Poder Executivo e, assim, entrará em risco o que resta da democracia nos dois maiores países do continente.

Por sua vez, na Europa, Viktor Orbán conduz a Hungria na direção de se consolidar como uma democracia intolerante, em que o Estado aumenta seu poder coercitivo limitando instituições acadêmicas, veículos independentes de imprensa e partidos políticos. Assim, ele projeta uma sociedade fundamentalmente racista, cristã e nacionalista, os mesmos ideais e fundamentos do Partido Republicano norte-americano. E Orbán, por sinal, foi a atração principal da Conferência Conservadora de Ação Política, principal evento da direita dos Estados Unidos e, por tabela, do Partido Republicano. Donald Trump não cansa de fazer discursos com menções a Orbán — e vice-versa. Esse é o ideal que querem alcançar e medidas estão sendo instituídas em diversos Estados republicanos nesta direção.

Em 8 de novembro, os republicanos pretendem tomar o Congresso, preparando o caminho para o próximo passo. O que isso significa? Significa que no hemisfério ocidental as duas maiores potências, uma delas fazendo as vezes de governo mundial, estariam essencialmente em mãos de forças fascistas. Isso terá efeitos estrondosos nos outros países do hemisfério.

Republicanos e bolsonaristas atrasarão os esforços para as reformas moderadas que podem ser feitas em seus países. E isso terá impactos cruéis e brutais em nível global, devido ao imenso tamanho dos Estados Unidos e do Brasil. Então, esse pode ser um real impulsionador ao crescimento de forças profundamente reacionárias em todo o mundo. Forças que, em suas bases populares, resultam de uma fratura da ordem social pela guerra de classes selvagem dos últimos quarenta anos.

José Guilherme, Vanessa Nicolav e Hugo Albuquerque

Depois de Bolsonaro, o Brasil se tornou mais violento. Não só a polícia, mas muitas famílias e indivíduos estão armados. Há uma militarização também em escala molecular, para além dos milhares de militares na administração federal. Na sua visão, quais as consequências disso, especialmente da base organizada da extrema direita?

Noam Chomsky

Minha esposa, que é brasileira, e eu estávamos assistindo aos noticiários brasileiros na última noite. Vocês provavelmente também viram. Um dos segmentos era uma peça bastante fantástica, na qual a polícia federal era responsável pela administração de um programa para crianças, de três, quatro, cinco anos de idade, em que os ensinavam a manusear rifles militares. E eles ensinam essas crianças a desfilarem com capacetes, manejando esses rifles.

Tinha uma cena em que eles estavam treinando elas! Crianças lidando com todo tipo de armamento militar, sendo treinadas para funções bélicas. Foi algo bastante chocante.

Bolsonaro, vocês sabem melhor que eu, liberou uma enxurrada de armas na sociedade. O Brasil costumava ser moderadamente rigoroso com o acesso a armas, mas Bolsonaro simplesmente removeu essas restrições. E isso fez chegar esse armamento às milícias. Tudo isso será a base de um eventual golpe. Pode não ser como em 1964, mas seria algo parecido.

A crítica de Bolsonaro à ditadura brasileira é de, segundo ele, os generais daqui não foram brutais como seus parceiros na Argentina, que executaram 30 mil pessoas. Ele deixou suas intenções bastante transparentes, de diversas formas, nem preciso mencioná-las. Quando Bolsonaro proferiu seu voto favorável ao fraudulento impeachment de Dilma Rousseff, ele dedicou seu voto inteiramente ao torturador dela, um horror sem palavras que o descreva. Essas armas precisam estar sob controle, senão, vocês se tornarão algo parecido com a Alemanha nazista.

José Guilherme, Vanessa Nicolav e Hugo Albuquerque

No Brasil, a principal figura de esquerda, há décadas, é Lula. Em razão disso, ele acabou sendo tratado como uma figura messiânica pela classe trabalhadora. Depois dele, temos poucas lideranças de esquerda com destaque. Como você vê essa que, possivelmente, será a última batalha dele? E como poderá ser o pós-Lula?

Noam Chomsky

No Brasil, como ocorre de forma geral, líderes políticos surgem de movimentos sociais, tornando-se seus porta-vozes. Martin Luther King foi uma figura fundamental, mas não o teria sido, e acho que ele concordaria com isso, se não fosse pelos jovens do Comitê Estudantil Coordenador Não-Violento. Eles dirigiam os “ônibus da liberdade” pelo Alabama e pela Geórgia, arriscando suas vidas, tentando encorajar camponeses negros a votar. Ativistas reais, jovens ativistas que dirigiam essas atividades nas bases, foram eles que criaram a onda com a qual King pôde se tornar um representante eloquente.

Já o Brasil tem o que eu considero ser o movimento popular mais importante do mundo: o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST). Um movimento enorme, muito corajoso, fazendo coisas importantes, no qual há figuras bastante impressionantes. E que teve inclusive resultados relevantes nas últimas eleições — assim como o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Se observarmos esses movimentos atentamente, notaremos novos líderes surgindo.

Devo dizer que uma das falhas do PT, em meu ponto de vista, foi a falta de organização local efetiva. Portanto, tem sido bastante chocante observar tantas pessoas que foram beneficiadas pelos programas sociais dos governos petistas não reconhecerem de onde tudo isso veio. Eram então crianças e jovens que puderam frequentar a escola e a universidade devido aos programas de inclusão, ao Bolsa Família, que impulsionou a criação de pequenos negócios e etc.. Com uma aposta intensiva em organização local, creio que essa questão da formação de lideranças deixaria de ser um problema.

José Guilherme, Vanessa Nicolav e Hugo Albuquerque

Os partidos e os sindicatos foram muito enfraquecidos no Brasil nas últimas décadas, assim como os movimentos sociais, se compararmos com a década de 1980. Em que medida as práticas do anarquismo e o anarcossindicalismo — todos reivindicados por você em certos momentos — podem oferecer possibilidades para uma renovação da esquerda e o combate dessa ascensão da direita?

Noam Chomsky

Voltando ao MST, ele é um bom exemplo. Muito do que eles fazem é o desenvolvimento de uma sociedade cooperativa, de propriedade cooperativa, participação, desenvolvimento fundamentalmente centrado em indústria de base agrícola, como a indústria de laticínios e outras, que realmente circulam na sociedade em geral.

Essa é a forma como movimentos populares verdadeiros são desenvolvidos: trabalhando em direção de uma economia participativa cooperativa, em uma escala bastante significativa. Mas é preciso expandir isso cada vez mais, integrando-a às áreas urbanas, com o crescente movimento dos sem teto.

Olhemos para os movimentos anarquistas relevantes, como o anarquismo espanhol e a forma como ele se desenvolveu ao longo de décadas. Só que chegou uma hora em que eles não conseguiam seguir em direção a uma real revolução anarquista e ficaram sob a pressão de uma combinação de fascistas, comunistas e democracia liberal — isso foi muito forte, muito pesado.

E podemos ver esse tipo de desenvolvimento com frequência. Pegue os Estados Unidos como referência. Há algo chamado “populismo” hoje, que nada tem a ver com a versão popular tradicional. O populismo tradicional era um movimento radical de produtores rurais independentes tentando desenvolver o que chamavam de “regras comuns cooperativas”, que os libertaria dos Estados Unidos. Banqueiros do Norte e do Leste dos Estados Unidos e agentes de mercado articularam a destruição desse movimento de trabalhadores, um dos mais vibrantes dos fins do século XIX. Isso teria sido uma base para um Estados Unidos bastante diferente. É claro que essa destruição aconteceu por via da força.

A elite capitalista nos Estados Unidos é bem organizada, bastante consciente de sua natureza de classe, sempre batalhando duramente na luta de classes. Ela é capaz de mobilizar recursos estatais e de tratorar o que for necessário. Mas isso ocorreu repetidas vezes em vários outros países. É em relação a isso que o MST resiste aqui no Brasil também.

Antes dos anos 1920, o movimento dos trabalhadores foi quase completamente destruído pelas medidas altamente repressivas do presidente Woodrow Wilson, que liderou a pior repressão da história norte-americana. Milhares de radicais foram deportados, o pensamento independente foi extinto, a desigualdade era imensa, parecida com agora, e o movimento sindical foi praticamente extinto.

Nos anos seguintes, dos quais eu já tenho memória própria, iniciou-se a criação da Congresso das Organizações Industriais (CIO), fundada em 1935, uma grande central sindical que promoveu grandes atos militantes de trabalhadores, modificando a política dos Estados Unidos. Os Estados Unidos chegaram a ter um governo razoável, que estabeleceu as bases de uma moderna democracia social que, embora tenha tido muitas falhas e recebido muitas críticas, promoveu grandes avanços em políticas de bem-estar social e direitos humanos. Essa ascensão dos movimentos nos Estados Unidos exigiu um imenso esforço, por parte dos mestres da economia americana e do sistema político, para desmantelar isso novamente.

Mas acho que pode renascer, e acho que também é possível esse renascimento para o Brasil e para outros lugares. Vemos sinais por toda parte, neste momento. O que vem ocorrendo na Colômbia e no Chile pode acontecer no Brasil. Isso faria uma enorme diferença, até pelas proporções e, consequentemente, pela influência que o Brasil tem no Sul Global.

José Guilherme, Vanessa Nicolav e Hugo Albuquerque

Você tem falado muito sobre a destruição da Amazônia. Além de Bolsonaro promover isso, também temos a cumplicidade do mercado global e da comunidade internacional, que não apoia diretamente a devastação mas não toma medidas concretas contra o atual governo brasileiro. Seria a Amazônia a fronteira final do capitalismo?

Noam Chomsky

Pode ser a fronteira final da sociedade organizada na Terra, não apenas para o capitalismo. Assim como foi de conhecimento geral, por um longo tempo, que se as tendências atuais persistirem, a Amazônia, da qual a maior parte é território brasileiro, será obliterada. E, assim, chegaremos a um ponto em que a umidade produzida será insuficiente para sustentar a floresta, e ela se tornará uma savana, ao invés de ser o maior reservatório de carbono, vai se tornar um imenso emissor de carbono.

Isso é um desastre para o Brasil, uma catástrofe que o mundo não terá realmente como superar. Era algo previsto para acontecer em algumas décadas, mas, recentemente, os cientistas brasileiros descobriram que, com o aumento do desmatamento madeireiro ilegal, a mineração, o agronegócio financiado pelo governo Bolsonaro começou a tomar porções da Amazônia que já se encontram em estado crítico — o qual só era esperado para décadas mais adiante.

Uma das piores consequências da eleição desse primeiro turno, foi a eleição de pessoas como Ricardo Salles. Ele é uma liderança da verdadeira campanha para destruir a vida humana na Terra. Isso soa como um exagero, mas não é. É isso que significa a destruição da Amazônia, que é uma das principais formas de comprometer a vida humana.

Voltemos ao dia 8 de novembro nos Estados Unidos. O Partido Republicano pode tomar o Congresso. Eles são 100% negacionistas, não se importam, negam que a mudança climática esteja ocorrendo. E dizem “quem se importa?”. Trump era o mais explícito em relação a isso, mas o resto do Partido Republicano também não se importa, porque está enriquecendo empresas de combustíveis fósseis, cujos lucros estão explodindo.

Muitas outras coisas que estão acontecendo ao redor do mundo e, assim como a destruição da Amazônia, são espantosas. O Ártico tem esquentado bem mais do que os cientistas esperavam, e isso tem como consequência o derretimento do permafrost, que tem uma quantidade astronômica de carbono armazenado e que começa a derreter, liberando consequentemente gases tóxicos na atmosfera.

Uma das principais empresas de energia, a ConocoPhillips acabou de anunciar uma descoberta científica importante. Encontraram uma forma de desacelerar o degelo do permafrost no Alasca, onde exploram petróleo, por um método mediante o qual se introduzem hastes metálicas no gelo. Por que estão fazendo isso? Para que possam endurecer a superfície e extrair o petróleo, mantendo a produtividade. Então não é só capitalismo selvagem — em forma bestial. Atrasaremos o degelo do permafrost para que possamos extrair, precisamente, e mais rapidamente, o material que destruiu o mundo.

Coisas assim estão acontecendo em todo lugar. Muitos estavam bastante empolgados com a incrível proeza de Israel e Líbano terem chegado a um acordo, há poucos dias, sobre uma antiga disputa territorial no mar Mediterrâneo. Mas isso tinha apenas a ver com a repartição das áreas de extração submarina de gás, o que pode ser, na verdade, um golpe de misericórdia mais rápido nos países que possuem costas no Mediterrâneo.

Alguns cientistas descobriram que as estimativas de aumento do nível do mar no Mediterrâneo eram muito moderadas. E a previsão agora é de que, no fim desse século, esse aumento chegará a dois metros e meio. Imaginem isso: dois metros e meio de aumento do nível do mar!

Então, Israel e Líbano estavam discutindo sobre quem vai ter o direito de enfiar a adaga no coração de todas aquelas sociedades. Isso é o que está sendo celebrado. Quando você vai ao sul da Ásia, você presencia coisas similares. É como se aqueles que Adam Smith chamava de “mestres da humanidade” tivessem feito uma aposta para ver quem nos destruiria primeiro.

Alguns dias atrás, a Associação Meteorológica Mundial mostrou sua análise da situação climática global, dizendo que devemos dobrar os investimentos no desenvolvimento de tecnologias sustentáveis até 2030, poucos anos daqui até lá, se quisermos ter esperanças de sobreviver de forma organizada. Enquanto isso, na Ucrânia, os poderes globais estão investindo recursos escassos na destruição em massa, retrocedendo os esforços limitados que deveriam ser direcionados para lidar com a crise climática. Ao mesmo tempo, condenam a Arábia Saudita por não estar produzindo óleo suficiente para a destruição.

Alguém assistindo isso do espaço, pensaria que essa espécie está enlouquecendo, a luta de classes se tornando completamente bestial.

José Guilherme, Vanessa Nicolav e Hugo Albuquerque

Podemos aprender com sua obra que existe uma conexão entre assuntos internos e externos para todos os países… O mundo está conflagrado. E Biden tem lançado uma política demasiado agressiva de expansão da OTAN – o que não tem sido suficientemente debatido. Mesmo figuras como Kissinger tem alertado sobre isso. Como você vê isso? Como você acha que o mundo está dividido hoje? Qual é a “ordem” para além da “desordem” superficial?

Noam Chomsky

Os alertas de Henry Kissinger são os mesmos dos altos escalões dos corpos diplomáticos nos últimos 30 anos, pelo menos entre aqueles com alguma familiaridade com questões envolvendo Rússia e Europa. Notadamente, George Kennan, nos anos 1990, alertou fortemente Bill Clinton para que não iniciasse o processo de expandir a OTAN. Jack Matlock Jr, um dos principais especialistas em diplomacia dos Estados Unidos e embaixador de Ronald Reagan na União Soviética, disse a mesma coisa. Alguns cabeças da CIA, incluindo o seu atual chefe, William Burns, também ex-embaixador na Rússia, alertou que isso tudo era algo extremamente perigoso.

Robert Gates, o segundo secretário de defesa de Bush, bastante belicoso, foi irresponsável e provocativo ao tentar integrar a Ucrânia à OTAN. Nenhum líder russo aceitaria isso em seu plano estratégico. Gorbachov, Yeltsin, nenhum deles sequer começaria a aceitar isso.

Então isso vem acontecendo há 30 anos. No ano passado, e desde 2014, os Estados Unidos não apenas tem falado em integrar a Ucrânia e a Geórgia ao comando da OTAN, mas estão fazendo isso de fato e vem executando isso desde antes da gestão de Biden, desenvolvendo ações que efetivamente integram a Ucrânia ao comando militar da OTAN. De tal forma que periódicos do exército literalmente descrevem a Ucrânia como um membro da OTAN de fato, com interoperabilidade de armas e com cooperações em operações militares, disponibilizando armas ofensivas. Os russos estão fazendo o mesmo com a China.

Depois que Biden assumiu a presidência, ele expandiu isso. Principalmente a partir de setembro de 2021, com uma decisão oficial de expandir as operações na Ucrânia e caminhar para a adesão dela à OTAN. Foi o próprio Departamento de Estado que declarou, publicamente, não estar levando em consideração as preocupações russas de segurança.

Bem, este é o plano de fundo para a invasão russa. Ele não fornece qualquer justificativa para a invasão e, na realidade, invasões são geralmente agressões imperialistas brutais, mas também inconcebivelmente estúpidas.

Temos por exemplo as transcrições das discussões entre o presidente francês Emmanuel Macron e o presidente russo Vladimir Putin – disponíveis até poucos dias antes da invasão. Macron oferece outra proposta para que fossem acomodados os interesses russos sem a necessidade de uma invasão. Putin se desculpa e diz que não poderia mais continuar a conversa pois tinha que ir esquiar no gelo, literalmente, naquele fim de semana. Então o que ele fez foi o maior movimento em direção à OTAN, já que havia colocado a Europa no bolso dos Estados Unidos, o melhor presente que poderia ter dado a Washington. E nesse ponto temos que regressar um pouco e pensar no que vem acontecendo com nosso Exército.

Quando a União Soviética colapsou, houve muitas discussões sobre qual organização global emergiria disto. E há dois cenários diferentes que surgiram contendo raízes mais fortes. Um deles é a tão chamada visão do atlantismo, baseada na necessidade de governar dos Estados Unidos, com a Europa submetida a isso. É a perspectiva pela qual os Estados Unidos manteriam seu posicionamento global como conhecemos.

Uma posição alternativa foi oferecida por Mikhail Gorbachov, na época do Protocolo de Lisboa, uma grande aliança europeia, sem alianças militares, sem vitoriosos, sem derrotados, cooperativamente trabalhando juntos em direção a algum tipo de sociedade democrática em toda a região da Eurásia.

Mas os Estados Unidos foram fortemente opositores dessa proposta — e Kissinger também, exigindo um papel dominante dos Estados Unidos sob o enquadramento atlantista. Mas eu entendo que Vladimir Putin acabou contribuindo para empurrar a Europa nessa direção.

A parceria entre Europa e Rússia é muito natural. Eles se complementam, e de muitas maneiras. A Europa baseou seu sistema industrial, principalmente a Alemanha, na necessidade de estar mais próxima dos minerais valiosos da Rússia e na oportunidade de se mover mais para o Oriente, com a iniciativa chinesa da Nova Rota da Seda. Miraram o investimento e o desenvolvimento do próspero mercado chinês.

Então o que temos hoje é um conflito sobre se o mundo será unipolar – dominado pelos Estados Unidos, com a Europa submetida a isso – ou será um mundo multipolar, com inúmeros centros de poder cooperando. Pela ordem unipolar, o hemisfério ocidental também estaria submetido ao poderio dos Estados Unidos, especialmente com Bolsonaro. O Sul Global tenta se manter fora disso, mas não é uma força majoritária. Eu entendo que deveríamos estar cooperando.

O aquecimento global não tem fronteiras. Se houver guerra nuclear, tudo estará destruído. A pandemia não teve fronteiras. Caso após caso, ou estamos todos juntos nessa, ou afundamos todos juntos. E não há muito tempo para esses temas, eles devem ser tratados dentro das próximas duas décadas para que seja esse o ponto de virada. Recuperação já não é algo possível. Estamos enfrentando um momento único na história humana, e um elemento fundamental é o modo como essas questões de unipolaridade e multipolaridade serão resolvidas.

O Brasil teve um papel muito significativo nisso, principalmente sob o governo de Lula, quando ele agia revitalizando instituições do Sul Global, como a Unasul, por exemplo, ou o BRICS, em que o Brasil era base — e poderia ser uma grande força em alguns anos — ou, até mesmo, produzindo avanços notáveis no Banco Mundial, que não é uma instituição particularmente progressista. O Brasil estava se tornando eloquente, importante para o Sul Global. E era um país altamente respeitado, e pode ser ainda com Lula no governo. Com seus ministros, há muito mais espaço para um grupo internacional bastante eficaz e construtivo surgir novamente. Ou podemos ter Trump e Bolsonaro, futuramente, aglutinando forças reacionárias e destrutivas tanto para o clima quanto para as políticas sociais. Um mundo bastante diferente do que ele deveria ser.

José Guilherme, Vanessa Nicolav e Hugo Albuquerque

Há dez anos, estávamos celebrando as promessas e potencialidades da internet e da cultura digital, da democracia digital e etc. ... Isso nos levaria a novas formas de participação, debate, engajamento etc… Hoje, essa esfera paradisíaca virou um inferno... o inferno de mentiras, falsificação, adulteração, antitransparência, em uma palavra, "falha de comunicação babélica"...Você concorda? O que dizer sobre isso?

Noam Chomsky

A linguagem não responde a essas questões. O que aconteceu com a internet é o que acontece com toda tecnologia. A maior parte das tecnologias são neutras. Um martelo que pode ser utilizado para construir uma casa também pode ser usado por um torturador para esmagar a cabeça de alguém. O martelo não mata. E quase toda tecnologia, mesmo coisas como a tecnologia nuclear, mesmo que sejam desenhadas para destruir e devastar, talvez possa acabar com toda a vida humana da terra, mas a princípio podem fazer outras coisas também.

Acabamos de ver um exemplo, há poucas semanas. Foi feito um experimento para desviar a órbita de um asteroide. Foi algo experimental, mas na hipótese de termos um asteroide rumando para nos atingir em alguns anos, as armas nucleares podem ser usadas para desviá-lo. Talvez pudéssemos desenvolver a fusão nuclear e, assim, produzir energia limpa.

Então seja lá o que você escolher, virtualmente qualquer coisa pode ser utilizada para destruir ou construir. E aqui vem a questão do empenho humano. Estruturas sociais humanas e instituições organizam o modo como os poderes são distribuídos e implicam diretamente questões de atritos humanos, na luta de classes, nos embates sociais. Então, como podemos utilizar a internet?

Podemos utilizar a internet para diversas formas de organização, e muito da organização ativista se dá pela internet. E é por isso que governos autoritários fecham a internet. Logo, haverá desdobramentos políticos mas ela pode ser utilizada para fins libertadores e para o conhecimento. Há 20 anos, se você quisesse ler algo da imprensa internacional, teria de buscar em uma grande livraria que talvez vendesse algo de mídia estrangeira. Agora você usa o seu próprio celular. Posso ler a Al Jazeera e tenho acesso à imprensa brasileira ao mesmo tempo.

A pesquisa é de tremendas possibilidades, ou pode ser utilizada, como você disse, para separar as pessoas em bolhas de auto-reforço e extremismo ideológico, mantendo grupos de comunicação e o contato entre eles para distribuir mentiras e promover destruição. Foi um exemplo memorável o das eleições de 2018 no Brasil. Vimos o material que circulava pelo WhatsApp, que era a fonte de informação mais usada.

Sim, isso abrange provavelmente cerca de metade dos que se identificam com o Partido Republicano nos Estados Unidos. Neste momento, eles acreditam que os democratas se dedicam a seduzir crianças para abusar delas sexualmente.

Então a tecnologia depende de nós. Como vamos utilizá-la? Usaremos para construir ou destruir. Com outras tecnologias também, o mesmo é válido aqui. E é uma questão de intenção, escolha, engajamento, comprometimento, organização e ativismo.

JB

Escutando você hoje, nos deu a impressão de que há algum tipo de liderança política internacional que poderia fazer algo para parar esse processo destrutivo, mas ela não o faz — e até se recusa a fazer isso. Por quê? Por que nossas lideranças têm sido tão cegas?

Noam Chomsky

As lideranças projetam a distribuição e o caráter das forças sociais nas sociedades em que vivemos. Essas sociedades são altamente desiguais, principalmente na América Latina, onde a praga da desigualdade é muito antiga. É uma desigualdade radical, que implica diretamente na natureza das instituições políticas.

É uma contenda constante. Nada de novo. Volte aos primeiros dias do capitalismo. Quando você lê Adam Smith, um astuto comentarista, você vê o que ele chamou de “mestres da humanidade”, que seriam os mercadores e manufatureiros na Inglaterra da época. Eles dominavam e controlavam o Estado, eram os principais arquitetos do poder. Eles faziam isso para que seus próprios interesses fossem atendidos, não importava o quão nefasto fosse o efeito disso para os outros. Eles viviam pela máxima do cada um por si de 250 anos atrás, mas é assim até agora. A questão é se os ativistas organizados podem lutar contra isso.

Pega a Constituição dos Estados Unidos, que é do século XVIII, e ali ela era um passo adiante que apavorou os líderes europeus — eles estavam preocupados com a ameaça subversiva de democracia, chamada de republicanismo, que poderia se espalhar, minando sua autoridade.

Se você olha para isso hoje, vê que a Constituição foi uma realização reacionária. Na realidade a Constituição, por si só, foi um golpe contra a democracia. Um golpe de fazendeiros contra a democracia. Ela foi um instrumento com mecanismos para exercer o controle, sendo o mais importante deles, o controle dos meios de produção e distribuição. E essa é a maneira como o mundo continua em desenvolvimento. O poder estará nas mãos da população geral se ela o tomarem. Se você decidir se conformar, garantirá que o pior aconteça.

Lembro, por exemplo, de 20 anos atrás, atendendo ao convite do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, muito alegre, centenas de pessoas interessantes. O slogan era Outro mundo é possível, trabalhando coletivamente. Todos nós estávamos juntos de camponeses, mulheres de todos os países, encontrando uma forma de trabalharmos juntos pelo bem comum. E aqueles movimentos tiveram seu impacto. Um grande impacto. Eles são as raízes. As chamas podem ser acendidas e passadas à frente.

Sobre o entrevistado

Noam Chomsky é professor emérito de lingüística no Massachusetts Institute of Technology (MIT) e leciona na Universidade do Arizona. É autor de mais de 70 livros sobre linguística, conflitos armados, política, mídia e filosofia.

Sobre os entrevistadores

JOSÉ GUILHERME PEREIRA LEITE é professor universitário, crítico e ensaísta.

VANESSA NICOLAV é cientista social, videomaker e educadora audiovisual. Pesquisa temas relacionados a vídeo popular e movimentos sociais e vem desenvolvendo práticas de educação democrática audiovisual para jovens e adultos em oficinas no Brasil, Uruguai e Argentina. Já colaborou com veículos como Vice Brasil, Revista Trip, Agência Pavio, OXFAM, Rede Brasil Atual e Brasil de Fato. Também é produtora independente de vídeo ensaios e webdocumentários.

HUGO ALBUQUERQUE é publisher da Jacobin Brasil, editor da Autonomia Literária, mestre em direito pela PUC-SP, advogado e diretor do Instituto Humanidade, Direitos e Democracia (IHUDD).

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