Mostrando postagens com marcador Alexa Salomão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alexa Salomão. Mostrar todas as postagens

27 de janeiro de 2024

"Erros do passado foram reconhecidos e consertados", diz ex-ministro de Dilma

Segundo Nelson Barbosa, a então presidente iniciou mudança de rota, e hoje até UE e EUA investem em política industrial

Alexa Salomão


O economista Nelson Barbosa, diretor de Planejamento e Estruturação de Projetos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), refuta a análise de que o banco engatou uma volta ao passado, rumo aos subsídios, uma nova versão da política de campeões nacionais e projetos sem metas —crítica repetida nos últimos dias, após o anúncio de que instituição vai bancar R$ 250 bilhões no plano Nova Indústria Brasil.

"A maior parte do que estamos propondo agora é com taxa de mercado. O que tem taxa direcionada é bem específico, Fundo Clima e inovação", afirma. "Quem diz que o plano não tem meta e prazo é quem não leu e não gostou."

Economista Nelson Barbosa, diretor de Planejamento e Estruturação de Projetos do BNDES - Pedro Ladeira - 3.mar.23/Folhapress

Ministro do Planejamento e da Fazenda no segundo mandato de Dilma Rousseff, Barbosa afirma que o PT identificou os problemas de programas anteriores, fez correções e autocrítica, apesar de alguns, por "viés ideológico", não admitirem as mudanças.

"Houve excessos. Mas esses excessos foram eliminados, diga-se de passagem, ainda no governo da presidente Dilma. O PSI [Programa de Sustentação do Investimento, criado em 2009 para estimular a produção, aquisição e exportação de bens de capital e a inovação] acabou em 2015, quando eu estava no Ministério do Planejamento, e o Joaquim Levy, na Fazenda", afirma.

"Agora, para algumas pessoas, não há autocrítica suficiente. Isso é mais um problema psicológico de quem cobra a autocrítica do que da proposta do governo em si." Leia a seguir os principais trechos de sua entrevista à Folha.

*

O plano Nova Indústria Brasil foi chamado de proposta velha [o Estado vai induzir o crescimento de empresas privadas com subsídios e reserva de mercado para setores escolhidos], com roupagem nova [associada a tecnologia e mudanças climáticas], mas com as falhas de sempre [falta de metas, de prazos para o cumprimento de metas e de sanções para quem não corresponder]. Como avalia essa crítica?

Quem diz que o plano não tem meta e prazo é quem não leu e não gostou. Tem meta, valor, prazo e as condições. Sobre a questão de ser política velha, precisamos ir para uma discussão mais ampla.

A ação da China nos últimos dois anos e a Covid mostraram a importância de os países terem resiliência produtiva e política industrial. Nações ocidentais desenvolvidas na Europa e os Estados Unidos mudaram de postura e adotaram mais medidas dentro do que antes era considerado política industrial.

O chamado Consenso de Washington não é adotado nem mais por Washington, mas algumas pessoas no Brasil ainda estão apegadas a essa ideia. Nenhum problema a pessoa ser feliz no seu nicho, mas, no que se refere à política econômica, a discussão relevante é como será a nova política industrial.

Estou escolhendo as palavras para ser politicamente correto. Eu acho muito equivocado a pessoa decidir que uma política já deu errado antes de ela começar.

O investimento de R$ 8 bilhões em ações causou polêmica. Depois, o presidente do BNDES [Aloizio Mercadante] explicou que não seria para compra direta de ações em empresas, mas via fundos. Por que é importante o banco público estar em fundos de ações?

Para cada real que o BNDES coloca em fundo de ações, alavanca um volume maior. Desses R$ 8 bilhões, a perspectiva é que serão R$ 2 bilhões do BNDES e R$ 6 bilhões do setor privado. Estou fazendo o chamado "crowding in", que o recurso do BNDES atraia recurso privado.

Não é uma prática nova. Existe há muito tempo no banco. Foi feita no governo do PT, no do [Michel] Temer e do [Jair] Bolsonaro. O BNDES coloca investimento em um fundo de participação, que é administrado por um agente de mercado. Esse para mim é o exemplo mais claro de complementariedade entre BNDES e o setor privado.

O governo anterior lançou chamada para criar cinco fundos dedicados à infraestrutura, ciência e tecnologia, e colocar R$ 500 milhões em cada um deles.

O engraçado é que não ouvi críticas a isso no governo passado. Parece que algumas coisas só podem ser feitas pelo governo que a pessoa gosta. Se é feita pelo governo que a pessoa não gosta, a mesma medida recebe críticas.

A gestão anterior era elogiada, mas vocês estão fazendo muitas mudanças. Para onde estão levando o BNDES?

O BNDES é um banco de desenvolvimento para apoiar sobretudo o investimento de longo prazo. O novo BNDES tem de depender cada vez menos do recursos do Tesouro e operar cada vez mais com recursos próprios, como opera o KFW, que é nosso equivalente alemão, e faz muito mais do que o BNDES.

Ficou claro que o BNDES, mesmo operando a taxas de mercado, tem demanda.

Quando veio o evento Lojas Americanas, o crédito para pessoa jurídica secou, principalmente para empresas pequenas e médias. Com o FGI [Fundo Garantidor para Investimentos], a taxa de mercado, o BNDES garantiu liquidez.

Sei que o BNDES tinha outra orientação até 2022, mas o governo mudou e as prioridades também. Estamos implementando essas novas prioridades com transparência, prestação de contas, responsabilidade financeira e social.

Diante do que o senhor está falando é inevitável perguntar se estão querendo trazer de volta aquele BNDES grande que, muitos avaliam, concorria com o sistema privado, inclusive criando barreiras para o crescimento do mercado de capitais. Isso ocorreu lá atrás e pode voltar a ocorrer?

Lá atrás, pode ter ocorrido quando tinha uma diferença muito grande entre TJLP [Taxa de Juros de Longo Prazo] e taxa de juros de mercado. Aquilo foi feito, inicialmente, como medida emergencial contra a crise de 2008, e depois acabou se tornando mais permanente.

Houve excessos. Mas esses excesso foram eliminados, diga-se de passagem, ainda no governo da presidente Dilma. O PSI acabou em 2015, quando eu estava no Ministério do Planejamento, e o Joaquim Levy, na Fazenda.

A maior parte do que estamos propondo agora é com taxa de mercado. O que tem taxa direcionada é bem específico, Fundo Clima e inovação. Dentro do desafio ambiental, existe uma percepção mundial de que os projetos têm retorno mais social do que financeiro e, sem apoio, não vão ser feitos. Na inovação, há uma corrida tecnológica global.

Tem país colocando dinheiro a custo zero para levantar novas fábricas. A gente está fazendo o que é possível dentro das metas fiscais, em compatibilidade com o Ministério da Fazenda. São R$ 40 bilhões, em quatro anos [com subsídio].

Vou pegar carona nos "excessos do passado". Muitas pessoas dizem que os erros cometidos na economia não foram reconhecidos pelo PT e que hoje o que está sendo feito no BNDES vai colocar o banco de volta nesses erros. "Filme que já vi" e "dia da marmota" são expressões usadas. Vocês não fizeram autocrítica? O banco está voltando ao modelo anterior que todo mundo diz que deu errado?

A autocrítica é o esporte preferido da esquerda. A gente já está na fase da autocrítica à autocrítica. Pode ser que não tenha ocorrido a autocrítica que algumas pessoas queriam. Isso pode criar uma frustração para quem apoiou o projeto passado, que foi usado no golpe de 2016 e deu errado nas urnas. Não posso resolver esse problema.

Erros do passado já foram reconhecidos e consertados dentro do próprio governo do PT. Agora, para algumas pessoas, não há autocrítica suficiente. Isso é mais um problema psicológico de quem cobra a autocrítica do que da proposta do governo em si.

É muito difícil você convencer alguém de alguma coisa quando o emprego dela depende de ela não entender o que você está explicando. Tem uma parte das críticas que é isso, e não dá para ficar no viés ideológico. Tem também críticas válidas, e vamos ouvir e aperfeiçoar.

Colocamos como objetivo emprestar até 2% do PIB em 2026. No final do governo Bolsonaro, estava em cerca de 1% do PIB. Esses 2% é uma meta ambiciosa para nós, porque precisa ter demanda e funding.

Porém, é uma meta compatível, nada além do que ocorreu no governo Fernando Henrique Cardoso, no final dos anos 1990, início de 2000. Se não era excessivo naquela época, por que seria excessivo agora?

Raio-X

Nelson Barbosa, 54

Economista formado pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e doutor em economia pela New School for Social Research (EUA). É professor titular da FGV e professor associado da UnB (Universidade de Brasília), em licença para ocupar o cargo de diretor do BNDES. Foi secretário de Política Econômica e secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda (2007-2010), no governo Luiz Inácio Lula da Silva, secretário-executivo do Ministério da Fazenda (2011-13), ministro do Planejamento e da Fazenda (2015-2016) no governo de Dilma Rousseff e colunista da Folha (2017-22)

9 de dezembro de 2022

Espero que seja esperto para ajudar com PEC, diz Lula sobre anúncio de Haddad na Fazenda

Presidente eleito disse que, "se fosse para atrapalhar", não teria indicado petista ao cargo

Julia Chaib
Victoria Azevedo
Alexa Salomão


O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta sexta-feira (9) esperar que o anúncio de Fernando Haddad (PT) como futuro ministro da Fazenda ajude na tramitação da PEC (proposta de emenda à Constituição) da Transição na Câmara.

"Espero que seja esperto para ajudar [na tramitação da PEC]. Espero. Se fosse para atrapalhar, não seria indicado", afirmou Lula em entrevista à imprensa sobre a escolha de Haddad.

Parlamentares reclamavam da demora do petista em anunciar quem comandaria a pasta responsável pela economia. Deputados e senadores cobravam de Lula a definição do nome com o qual poderiam negociar termos da PEC e posteriormente cobrar acordos, já que a pessoa estaria sentada na cadeira de ministro.

O presidente eleito Lula e Fernando Haddad, ex-prefeito de SP e anunciado como ministro da Fazenda, participam da COP27, em Sharm el-Sheik, Egito - Joseph Eid - 17.nov.2022/AFP

O texto, que foi aprovado nesta semana pelo Senado, amplia o teto de gastos em R$ 145 bilhões em 2023 e 2024 para o pagamento do Auxílio Brasil (que voltará a se chamar Bolsa Família) e libera R$ 23 bilhões para investimentos fora do teto em caso de arrecadação de receitas extraordinárias, além de conter outras medidas.

Embora tenha sido aprovada por um placar folgado —64 votos favoráveis, quando eram necessários 49—, o cenário de aprovação na Câmara está mais nebuloso porque deputados defendem algumas alterações.

Lira havia afirmado a Lula que a Câmara aprovaria o texto que saísse do Senado, sem alterações, mas uma ala do centrão insiste na redução do prazo de dois anos para um ano. A pressão vem, principalmente, dos partidos que estão na base do presidente Jair Bolsonaro (PL) –Republicanos, Progressistas e PL, além da União Brasil.

Além disso, a possibilidade de o STF (Supremo Tribunal Federal) acabar com as emendas de relator em julgamento em análise pela corte também piorou o clima na Casa.

O receio de a proposta ser desidrata levou Lula e petistas a entrarem em campo para dizer a Lira que o partido não tem relação com o julgamento em curso no Supremo.

"Eu já ouvi boatos que a PEC vai ter problema na Câmara dos Deputados. Eu não acredito. Eu farei quantas conversas forem necessárias para a PEC ser aprovada na Câmara dos Deputados da mesma forma que foi aprovada de forma extraordinária por 64 votos no Senado", disse Lula.

"Espero que as pessoas compreendam que essa PEC não é para o governo Lula, essa PEC é para fazer o reparo no orçamento do presidente Bolsonaro e para que a gente possa garantir o mínimo necessário às pessoas mais necessitadas nesse pais", continuou o presidente.

Lula afirmou ainda que o processo das emendas de relator está no Supremo antes das eleições e que, portanto, em algum momento seria pautado.

"Se está na suprema corte, em algum momento eles vão pautar. E eu, sinceramente, não tenho ainda nenhuma interferência e nenhum poder de interferência na suprema corte para defender quando e como eles vão votar. É uma decisão da corte de tomar a decisão de votar", comentou Lula.

O presidente eleito também disse que ele é um defensor das emendas parlamentares, mas afirmou que elas não "precisam ser secretas".

"A emenda do deputado, ela pode ser uma emenda muito importante se estiver acoplada ao Orçamento do governo e às obras preferenciais do governo. E quem decide liberar a emenda na verdade é o poder executivo."

"O presidente lira sabe que eu penso isso. Se tiver qualquer problema, nós vamos conversar. Eu já conversei duas vezes com o presidente Lira, com o presidente Rodrigo Pacheco e se for preciso conversar dez vezes, eu conversarei dez vezes para que a gente possa fazer aquilo que for melhor para o povo brasileiro no começo do nosso governo. Eu estou muito tranquilo", concluiu Lula.

Na primeira sessão de julgamento das chamadas emendas de relator, usadas como moeda de troca nas negociações políticas entre Planalto e Congresso, a AGU (Advocacia-Geral da União) defendeu ao STF (Supremo Tribunal Federal) que o instrumento é constitucional.

16 de julho de 2022

Brasil fica mais pobre durante governo Bolsonaro

Covid e Guerra da Ucrânia agravaram cenário, mas crise social é anterior a elas, dizem economistas

Alexa Salomão

Folha de S.Paulo

Trabalhadores amanhecem na fila para disputar uma vaga em hotéis e restaurantes no bairro Liberdade, em São Paulo - Zanone Fraissat - 13.jul.22/Folhapress

O Brasil ficou mais pobre durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), e não apenas por causa da Covid ou da Guerra da Ucrânia. Quando assumiu, em um cenário de economia ainda fragilizada pela recessão dos anos Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB), o presidente fez escolhas.

Reduziu investimentos públicos, avançou pouco na agenda de reformas e travou o Bolsa Família, deixando a fila do programa crescer. Com a crise social se agravando a três meses da eleição, presidente e aliados encampam uma PEC para distribuir R$ 41,2 bilhões em auxílios. Para tirar da frente a Lei Eleitoral, que só permite algo assim em ambiente de exceção, o pacote inclui que Bolsonaro assine um decreto para colocar o Brasil em um estado de emergência que não existe.​

O PIB (Produto Interno Bruto) per capita, indicador que mostra a produção da riqueza dividida pelo número de habitantes, fechou o ano passado em US$ 7.500 (R$ 41 mil). São cerca de US$ 5.726 (R$ 31 mil) menos que o pico, registrado em 2011. O valor atual equivale ao patamar de 2007. Em 2018, último ano do governo Temer, o indicador estava em US$ 9.151,40 (R$ 49 mil).

Dados relativos à renda média do brasileiro também mostram esse empobrecimento. O rendimento médio caiu de R$ 2.823 no início de 2019 para R$ 2.613 no trimestre de março a maio deste ano, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Mesmo antes da pandemia, esse valor já vinha caindo: no trimestre de dezembro de 2019 a fevereiro de 2020, o rendimento médio do brasileiro estava em R$ 2.816.

Em 2019, o programa Bolsa Família sofreu a maior queda da história, recuando de 14 milhões para 13 milhões de famílias. A fila de espera superou 1,5 milhão.

"Houve negligência em relação à situação social do país ainda antes da Covid", afirma economista Débora Freire, professora do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

"Crises econômicas acontecem, trazem impactos negativos, mas faz muita diferença a forma como se lidam com elas. O governo agora usa esses eventos como desculpa, mas a verdade é que era seu dever fazer políticas públicas mais eficientes", afirma ela.

"Eu atribuo os problemas de hoje ao modelo de política econômica, que não prevê estímulos para a recuperação e deixou de lado a áreas social. Antes da Covid, o Bolsa Família tinha filas enormes. Famílias que empobreceram na crise, já elegíveis para o programa, não estavam sendo atendidas. Isso não poderia ter acontecido, porque uma vez que uma família cai na extrema pobreza ela pode levar gerações para se recuperar."

O economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do FGV-Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), acredita que a gênese do empobrecimento está na incapacidade dos governos de ajustar as contas públicas, o que elevaria a confiança das empresas privadas para elevarem os investimentos, a geração de empregos e o aumento da renda.

Ou seja, fazer a roda do crescimento ganhar impulso virtuoso.

"A minha visão é que o processo de empobrecimento gradual que vivemos decorre de um problema fiscal ainda não solucionado, e caminhamos para mais uma década perdida ainda sem um desfecho para esse problema", afirma ele.

"Entre 2015 e 2016, a gente teve uma crise nas contas públicas, provocada pelo aumento de gastos do governo Dilma Rousseff (PT), que buscava a reeleição, ali saímos do superávit para déficit primário."

No segundo mandato da petista, o país enfrentou oficialmente uma recessão, segundo o Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos).

Os desembolsos da Assistência Social, sem contar o BPC (Benefício de Prestação Continuada), mas incluindo Bolsa Família e o sucessor Auxílio Brasil, estagnaram na casa de R$ 43 bilhões de 2015 até 2019, às vésperas da pandemia.

Deram um salto apenas depois da liberação do Auxílio Emergencial, que era para ser de R$ 200, mas chegou a R$ 600 após uma queda de braço entre governo e Congresso, que insistiu no aumento do valor.

Esses dados constam de um levantamento realizado pelos pesquisadores Carlos Bastos e Julia Braga do Grupo de Economia do Setor Público da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A dupla está finalizando um estudo sobre os efeitos do teto de gastos, desde a sua criação, sobre a aplicação do Orçamento. A conclusão é que ele funciona.

"O teto foi muito bem-sucedido em segurar os aumentos, mas fica claro também que as despesas com menos apoio político ou interesse do comando da vez são mais sacrificadas", afirma Bastos. "Como a gente previu, os gastos sociais foram espremidos."

Os recursos destinados a iniciativas que servem de apoio à ampliação do bem-estar social, em áreas como trabalho, saneamento, habitação, lazer e cultura, despencaram. Caíram de R$ 111,6 bilhões em 2015, um ano antes da criação do teto, para R$ 73,4 bilhões no ano passado, queda de 34% em valores ajustados pela inflação.

A PEC das eleições, por sua vez, vai na contramão da solução, diz Barbosa, da FGV. "Não há dúvida que está focada em aspectos eleitorais, porque não há programa de combate a pobreza estrutural em fazer transferências e dando incentivos por três meses."

A economista Sandra Brandão, que mantém levantamentos sobre gastos sociais desde o tempo em que atuava como chefe de gabinete de informações da ex-presidente Dilma Rousseff, destaca a forte retração dos recursos em uma outra área, a rede de apoio aos benefícios assistenciais.

Caiu praticamente à metade na gestão Bolsonaro, e recebeu R$ 2 bilhões no ano passado.

A rede Suas (Sistema Nacional de Informação do Sistema Único de Assistência Social), que cuidava das políticas de apoio aos beneficiários dos programas, como o Cadastro Único no antigo Bolsa Família, foi praticamente desmontada e transferida para um sistema operacional virtual da Caixa.

"É claro que o governo precisa ser digital, mas muita gente não tem acesso à internet ou dificuldade para lidar com ela", diz Brandão. "Não tenho dúvidas de que as filas com pessoas tentando se cadastrar para receber o benefício, agora chamado Auxílio Brasil, tem relação com o desmonte do cadastro, piorando a situação da população mais vulnerável."

Uma dessas pessoas é Beatriz Cristina dos Santos Silva, 22, é mãe solo de Maitê, de cinco meses. Nunca teve emprego com carteira assinada, mas conta que chegou a ganhar em média R$ 3.600 como gerente comercial.

Desde maio, três vezes por semana, ela enfrenta uma viagem de duas horas de Mairiporã (SP), onde mora, carregando a cesta de doces e a filha no colo, para vender brigadeiros e brownies próximo a um shopping na zona leste da capital paulista. Esse é seu único sustento.

Tentou ser cuidadora em um hospital, mas a filha ficou doente sob os cuidados de outra pessoa. "Percebi que estava muito cedo para deixá-la, então comecei a ver vídeos na internet e aprendi a fazer os doces com uma confeiteira", diz.

Ela conquistou clientes, mas conta que as vendas caíram nas últimas quatro semanas. "Foram péssimas. Saio de casa com 10 a 12 caixinhas. Nem sempre vendo tudo, mas, normalmente, o lucro líquido em um bom mês é de R$ 1.400, e de R$ 1.000 em um ruim."

Sua preocupação agora é conseguir um novo lugar para morar. "O aluguel está em dia, mas de repente fui informada de que teria que desocupar a casa. Me senti muito mal", afirma.

Ela conta que o único benefício social que recebeu até hoje foram três parcelas de R$ 600 do Auxílio Emergencial. "Tentei atualizar o CadÚnico para pegar o Auxílio Brasil, mas estão pedindo um documento que não tenho." Como não é contribuinte do INSS, também não recebeu o auxílio-maternidade.

Procurado para comentar sobre a dificuldade de Silva para atualizar o CadÚnico, o Ministério da Cidadania não se manifestou até a conclusão desta matéria.

64% DOS BRASILEIROS DECLARAM SOFRER RESTRIÇÕES ORÇAMENTÁRIAS APÓS A PANDEMIA; MÉDIA GLOBAL É 46%

O empobrecimento do brasileiro nos últimos anos aparece em diferentes dados, mas um indicador de consumo traz uma nova faceta dessa situação, a piora no sentimento de perda no poder de compra em escala internacional.

Levantamento realizada em 100 países pela Nielsen Media Research, uma empresa global de pesquisa de mercado consumidor, mostra que 64% dos brasileiros declaram ter passado a viver restrições orçamentárias após a pandemia. O número está bem acima da amostra geral, em que 46% disseram ter passado a sofrer limitações financeiras.

"Há uma combinação de dois fatores que podem explicar isso", diz o espanhol Roberto Butragueno, diretor de varejo de Nielsen. "O Brasil foi um dos países que mais sofreu os efeitos da pandemia, quando se olha o contágio e o número de mortos, e também onde os preços de produtos básicos mais aumentaram."

A Nielsen tem acesso a pontos de venda, como supermercados e farmácias, em escala global, e cruzou os dados. A cesta básica de consumo subiu 30% no Brasil entre 2019 e 2021. "É uma variação bem mais alta do IPCA, o índice oficial de inflação, e não há nada assim na Europa ou nos Estados Unidos", diz.

No México, por exemplo, variação ficou na casa de 20%, nos Estados Unidos, 10%.

A pesquisa também retrata como os brasileiros tentam contornar essa realidade mais dura alterando hábitos. No quesito carne, por exemplo, há aumenta na busca por cortes congelados, que custam 25% menos em média que a versão in natura. Um dos produtos mais procurados na proteína bovina passou a ser o fígado, cujo quilo custa 50% menos em relação ao preço médio da categoria.

Há um efeito desânimo. Um terço diz que não tem vontade de sair para gastar. Quase metade, 46%, reduziu as refeições na rua, e 21% concentraram as compras em alimentos.

Eduardo Yamashita, diretor de Operações da Gouvêa Ecosystem, outra consultoria especializada em consumo e varejo, não visualiza mudança radical nesse cenário no segundo semestre. A razão é simples, falta dinheiro persiste, mesmo com a melhora no mercado de trabalho.

No trimestre até maio deste ano, a taxa de desemprego recuou para 9,8%, o menor nível para o intervalo desde 2015, mas a renda cai 7,2% no ano.

"Durante o auge da Covid, tivemos uma forte injeção de recursos públicos na economia, com a impressão de dinheiro em muitos países, o que levou a um expressivo aumento da massa salarial —ou seja, cresceu a quantidade de dinheiro disponível durante boa parte de 2020, e um pouco menos em 2021",afirma.

"Quando o auxílio emergencial foi cortado no Brasil, a quantidade de dinheiro estava voltando ao pré-pandemia, mas aí veio a inflação."

Configurou-se em 2022, define Yamashita, um clássico cenário de crise, com chances de arrefecimento em 2023, se a inflação ceder. E o pacote de benefícios aprovados no Congresso com apoio do governo não altera o seu cenário.

"Os auxílios que estão vindo são tímidos em comparação aos oferecidos no ápice da pandemia, a quantidade de pessoas que vai receber é menor, porque há restrições, o volume de dinheiro é inferior, e a inflação é bem maior", diz Yamashita. "Obviamente vai se positivo e ajudar, mas não vamos ter o efeito que vimos antes, como alta nas vendas de eletroeletrônicos, boom de reformas e aumento até no consumo de proteínas."

A associação de queda da renda, alta de inflação e, consequentemente dos juros, para segurar os preços, vai freando a economia e ampliando o efeito empobrecimento. Veja o caso do empresário Pedro Bressane. Ele fechou uma de suas pizzarias em abril deste ano depois de tentar mantê-la com o lucro das outras duas unidades.

Segundo ele, a demanda por pizza explodiu em 2020, mas os clientes sumiram no final do ano passado. Para Bressane, a queda na renda das famílias e do aumento nos preços dos alimentos foram decisivos.

"Estava em uma região boa de Osasco, classe média alta. Contratei influencers, investi R$ 4.000 em anúncios no Instagram, mas as vendas pararam, e os insumos só subiram", diz Bressane.

"Eu pagava cerca de R$ 35 na caixa de tomate. Quando fechei, estava R$ 200 a caixa", afirma. Na tentativa de manter a loja, o empresário fez ajustes em gastos pessoais e vendeu um carro. Já o hábito diário de jantar fora com a esposa se tornou quase mensal.

Ele contratou quatro corretores de imóveis para passar o ponto, mas, em cinco meses, não apareceu nenhum interessado. "Para não entrar em dívida, fechei."

Colaboraram Havolene Valinhos e Ana Paula Branco

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...