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1 de novembro de 2020

Encarando o Antropoceno: uma atualização

O conhecimento científico e os debates na ciência da Antropoena se desenvolveram ao longo dos anos, particularmente nos dois principais campos envolvidos: a geologia, que tem se preocupado principalmente em definir formalmente a nova época; e a ciência do Sistema Terrestre, que estuda as mudanças biológicas, químicas e físicas globais que estão remodelando as condições de vida neste planeta.

Ian Angus

Monthly Review

Volume 72, Issue 06 (November 2020)

Tradução / Escrevi Facing the Anthropocene (Encarando o Antropoceno) para ajudar a fazer uma ponte entre a ciência do Sistema Terrestre e o ecossocialismo — para mostrar aos socialistas por que devem compreender o Antropoceno e para mostrar aos cientistas do Sistema Terrestre porque devem compreender o marxismo ecológico.

Quando Facing the Anthropocene foi publicado em 2016, refletia, com o melhor da minha capacidade, o estado do conhecimento científico e do debate na época. Mas o mundo não para, então pode ser útil delinear alguns desenvolvimentos recentes importantes na ciência do Antropoceno nos dois principais campos envolvidos: a Geologia, que tem se preocupado principalmente em definir formalmente a nova época; e a ciência do Sistema Terra, que estuda as mudanças globais biológicas, químicas e físicas que estão remodelando as condições de vida neste planeta.

Formalização

Os geólogos dividiram os 4,5 bilhões de anos da Terra em uma hierarquia de éons, eras, períodos, épocas e idades — divisões que refletem as principais mudanças nas condições e formas de vida dominantes na Terra, conforme revelado nos estratos geológicos. Os procedimentos para alterar a Escala do Tempo Geológico, desenvolvidos ao longo de dois séculos, são rigorosos e demorados: não é incomum que uma proposta de alteração seja investigada e debatida por décadas antes de uma decisão ser tomada.

Em 2016, uma clara maioria no Grupo de Trabalho do Antropoceno era favorável ao reconhecimento de uma nova época, mas eles precisavam de evidências estratigráficas mais específicas antes que uma proposta formal pudesse ser feita aos órgãos de regulação da Geologia, onde uma maioria de 60 por cento dos votos é necessária para aprovar qualquer mudança na Escala do Tempo Geológico. A pesquisa subsequente se concentrou em duas questões.

Quando o Antropoceno começou? Em maio de 2019, após extensa avaliação de múltiplas possibilidades, 88 por cento dos membros do Grupo de Trabalho do Antropoceno votaram que uma nova época começou em meados do século XX. Essa foi uma votação vinculante, então outras possibilidades não estão mais em discussão.

Que evidência física nos estratos geológicos — conhecida informalmente como “cavilha de ouro” [“golden spike”] — é o melhor indicador para o novo começo de uma nova época? Muitas possibilidades estão sendo consideradas, cada uma com vantagens e desvantagens. Por exemplo, um estudo de 2018 discute vários exemplos de “depósitos do Antropoceno” apenas na Inglaterra, incluindo precipitação radioativa, plásticos, cinzas de combustíveis fósseis, concreto e vários poluentes químicos que deixam traços duradouros e prontamente identificáveis. Todos eram raros ou inexistentes antes da Segunda Guerra Mundial e todos tem sido largamente depositados desde então.1

Outro artigo recente propõe os resíduos de frangos de corte moderno, que são “morfologica-, genetica- e isotopicamente distintos dos frangos domésticos antes de meados do século XX… [e] simbolizam vividamente a transformação da biosfera para se ajustar aos padrões de consumo humano em evolução, e mostram claro potencial para ser uma espécie-marcadora bioestratigráfica do Antropoceno.”2

Uma cavilha de ouro deve identificar inequivocamente o início de uma nova época e deve estar acessível para estudo por geólogos, agora e no futuro. A escolha de um que seja aceito por geólogos de todo o mundo — uma comunidade que é cientificamente conservadora quanto às mudanças na escala de tempo — exigirá uma pesquisa geológica detalhada. O presidente do Grupo de Trabalho do Antropoceno, Jan Zalasiewicz, descreve o trabalho como “extenso, complicado e caro” e diz que “provavelmente não será antes, no mínimo, do final de 2022, que os dados terão sido coletados e compilados para que a proposta possa ser formulada corretamente.”3 A pandemia de COVID-19, é claro, pode atrasar esse trabalho ainda mais.

Além da geologia

É importante ter em mente que os debates sobre a aceitação formal do Antropoceno são específicos da Geologia. Em outras ciências da Terra, a ideia de que um estágio qualitativamente novo na história planetária começou agora é amplamente aceita e se tornou uma parte fundamental da análise da mudança global.

Em 2018, por exemplo, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) afirmou que o “contexto abrangente” para seu relatório sobre o impacto do aquecimento de 1,5 ºC é que “a influência humana se tornou o principal agente de mudança no planeta, fazendo o mundo passar do período relativamente estável do Holoceno para uma nova era geológica, freqüentemente chamada de Antropoceno. Responder às mudanças climáticas no Antropoceno exigirá abordagens que integrem vários níveis de interconectividade em toda a comunidade global.”4

Na visão do IPCC, “o Antropoceno oferece uma compreensão estruturada da culminação das relações passadas e presentes entre ser humano e meio ambiente e oferece uma oportunidade de visualizar melhor o futuro para minimizar dificuldades , ao mesmo tempo que reconhece a responsabilidade diferenciada e a oportunidade de limitar o aquecimento global e investir em perspectivas para um desenvolvimento sustentável climaticamente resiliente .”5

Essas declarações marcam um importante avanço na abordagem do IPCC quanto às mudanças climáticas, indo além dessa (muito importante) questão isolada e passando a vê-la como parte da emergência global que ameaça a relação metabólica da sociedade com o resto do Sistema da Terra — a questão central na ciência do Antropoceno.

A Ciência do Antropoceno Culpa Toda a Humanidade?

No apêndice de Facing the Anthropocene, mostrei que os cientistas dos Sistemas da Terra vem repetidamente rejeitando as afirmações de que “todo mundo é responsável” pelas mudanças climáticas. Mas, aparentemente porque a palavra Antropoceno deriva do grego anthropos, que significa ser humano, alguns críticos continuam a acusar a ciência do Antropoceno de culpar toda a humanidade pela crise ambiental global. Alguns até afirmam que nomear a nova época de Antropoceno é parte de um esforço deliberado para desviar a atenção da responsabilidade do capitalismo.

Quem ainda acredita nisso deve ler dois artigos científicos recentes.

Em agosto de 2018, proeminentes cientistas do Antropoceno escreveram: “diferentes sociedades ao redor do mundo têm contribuído de maneira diferente e desigual para as pressões sobre o Sistema da Terra e terão capacidades variadas para alterar trajetórias futuras”. Em sua seção de informações suplementares, eles acrescentam: “o bilhão de pessoas mais ricas produzem 60% dos GEEs [gases de efeito estufa], enquanto os três bilhões mais pobres produzem apenas 5%.”6

Ainda mais decisivamente, Will Steffen, que liderou os programas de pesquisa que identificaram e definiram o Antropoceno, desafiou diretamente a afirmação comum de que o crescimento populacional é um dos principais motores da Grande Aceleração. Em um livro de 2019 editado por membros do Grupo de Trabalho do Antropoceno, ele destacou que “quase todo o crescimento populacional de 1950 a 2010 ocorreu nos BRICS e em países pobres … [e] em 2010, os 18% da população mundial que vivem em países da OCDE representaram 74% da atividade econômica global.” Ele concluiu que “capitalistas industriais dos países ricos, não ‘a humanidade como um todo’, são os grandes responsáveis pelo Antropoceno, como visto nos padrões da Grande Aceleração.”7

Essas podem não ser análises ecossocialistas perfeitas, mas certamente explodem o mito de que a ciência do Antropoceno culpa a todos. Vamos acabar com essa confusão.

Em direção à Terra Estufa?

A pesquisa contínua na ciência do Sistema da Terra está produzindo cada vez mais evidências que confirmam, como escreveu o ambientalista radical Barry Commoner cinquenta anos atrás, que “o atual sistema de produção é autodestrutivo; o curso atual da civilização humana é suicida.” Aqui estão alguns exemplos de estudos publicados recentemente:

  • Aquecimento global: os cinco anos mais quentes já registrados foram 2015, 2016, 2017, 2018 e 2019.
  • Biodiversidade: as populações de insetos terrestres caíram 25% desde 1990.
  • Oceano Ártico: a cobertura de gelo no verão está diminuindo cerca de 13% ao ano.
  • Peixes: cerca de 90% das populações de peixes marinhos estão agora totalmente exploradas, superexploradas ou esgotadas.
  • Destruição de terras: Dependendo da localização, o solo fértil está sendo erodido entre dez e cem vezes mais rápido do que o solo novo pode se formar.
  • Desmatamento: em média, uma área de floresta do tamanho do Reino Unido foi perdida todos os anos de 2014 a 2018.

Essa lista poderia ser estendida exaustivamente — quase todas as partes da biosfera estão sendo degradadas a taxas sem precedentes. Mas o Antropoceno envolve mais do que um acúmulo de problemas ambientais. É uma crise do Sistema da Terra — perturbação dos processos biológicos, químicos e físicos globais que interagem constantemente e em que uma mudança em qualquer parte pode afetar o resto. Algumas das pesquisas atuais mais importantes focam no potencial de processos estressados pelo clima desestabilizarem uns aos outros, levando a uma retroalimentação que pode perturbar todo o sistema.

Um relatório de 2018 assinado por dezesseis dos principais cientistas do Sistema Terra do mundo examinou os possíveis efeitos do aquecimento global nos ciclos complexos e retroalimentados que moldam todo o planeta. Eles identificaram dez processos que têm impactos globais e podem ser radicalmente acelerados por aumentos de temperatura relativamente pequenos, incluindo degelo do permafrost, liberação de hidratos de metano do fundo do oceano, absorção de dióxido de carbono pelo oceano e solo enfraquecido, aumento da respiração bacteriana nos oceanos, desmatamento da Amazônia e/ou de florestas boreais, redução da cobertura de neve do norte, perda do gelo marinho ártico e/ou antártico e derretimento dos mantos de gelo polares.

Qualquer um deles poderia acelerar substancialmente o aquecimento global por si só e, se algum ultrapassar um ponto de inflexão, pode desencadear uma “cascata de inflexão” que acelera permanentemente outras. “Por exemplo, a derrubada (perda) do Manto de Gelo da Groenlândia pode desencadear uma transição crítica na Circulação Meridional de Capotamento do Atlântico. Ao causar o aumento do nível do mar e o acúmulo de calor no Oceano Antártico, esses dois efeitos em conjunto acelerar a perda do Manto de Gelo da Antártica Oriental.”

Se tal cascata acontecer, a Terra poderá ser propulsionada de maneira imparável em direção a “uma temperatura média global muito mais alta do que qualquer interglacial nos últimos 1,2 milhão de anos e a níveis do mar significativamente mais altos do que em qualquer momento do Holoceno.” A resultante “Terra Estufa” (“Hothouse Earth”) experimentaria “condições que seriam inóspitas para as sociedades humanas atuais e para muitas outras espécies contemporâneas”.8

Outro estudo publicado na Science examinou como grandes mudanças em trinta sistemas naturais diferentes podem afetar uns aos outros. Eles descobriram que em 45% dos casos, exceder um ponto de inflexão em um sistema pode levar outros ao limite. “Ecossistemas regionais podem ser transformados pelo manejo de ecossistemas distantes e, inversamente, podem eles próprios impulsionar as transformações de outros ecossistemas distantes.”9

Um artigo na Nature em 2019 também abordou “a ameaça crescente de mudanças climáticas abruptas e irreversíveis”. Os autores concluíram:

Se cascatas de inflexão danosas podem ocorrer e um ponto de inflexão global não pode ser descartado, então esta é uma ameaça existencial para a civilização. Nenhuma análise econômica de custo-benefício vai nos ajudar. Precisamos mudar nossa abordagem quanto ao problema do clima... 
O tempo de intervenção restante para evitar inflexões já pode ter encolhido em direção a zero, enquanto o tempo de reação para atingir emissões líquidas nulas é de 30 anos, na melhor das hipóteses. Consequentemente, podemos já ter perdido o controle sobre a ocorrência ou não de inflexões . Uma possível salvação é que a taxa na qual o dano se acumula a partir da inflexão — e, portanto, o risco apresentado — ainda pode estar sob nosso controle até certo ponto. 
A estabilidade e resiliência do nosso planeta estão em perigo. A ação internacional — não apenas palavras — deve refletir isso.10

Ao colocar firmemente as mudanças climáticas no contexto do Antropoceno, estudos como esses desafiam a visão de que o aquecimento global pode ser resolvido por pequenas mudanças e reformas de mercado. Medidas incrementais, como a precificação do carbono, não podem resolver os problemas sistêmicos que estão incessantemente elevando as temperaturas globais e empurrando a Terra para um estado novo e sem precedentes no qual o futuro da própria civilização está em perigo.

Em Facing the Anthropocene, tentei mostrar como as mudanças no capitalismo durante e após a Segunda Guerra Mundial causaram as mudanças globais que os cientistas chamaram de Grande Aceleração. Como resultado, o que Karl Marx chamou de “uma ruptura irreparável no processo interdependente do metabolismo social” tornou-se uma rede inter-relacionada de rupturas globais. O maior desafio que nossa geração enfrenta é reparar essas imensas quebras nos sistemas de suporte de vida da Terra antes que seja tarde demais.

Notas

1. Jan Zalasiewicz et al., “The Stratigraphical Signature of the Anthropocene in England and Its Wider Context,” Proceedings of the Geologists’ Association (2018): 482–91.
2. Carys E. Bennett et al., “The Broiler Chicken as a Signal of a Human Reconfigured Biosphere,” Royal Society Open Science, 12 de Dezembro, 2018.
3. Correspondência privada, 23 de Abril, 2020.
4. Global Warming of 1.5°C (Geneva: Intergovernmental Panel on Climate Change, 2019), 53.
5. Global Warming of 1.5°C, 54.
6. Will Steffen et al.,”Trajectories of the Earth System in the Anthropocene,” Proceedings of the National Academy of Sciences, 6 de Agosto, 2018, 8252–59.
7. Will Steffen, “Mid-20th-Century ‘Great Acceleration,’” em The Anthropocene as a Geological Time Unit, ed. Jan Zalasiewicz et al., (Cambridge: Cambridge University Press, 2019), 254–60.
8. Steffen et al., “Trajectories of the Earth System in the Anthropocene.”
9. Juan C. Rocha et al., “Cascading Regime Shifts within and Across Scales,” Science, 21 de Dezembro, 2018, 1379-83.
10. Timothy Lenton et al., “Climate Tipping Points — Too Risky to Bet Against,” Nature, 27 de Novembro, 2019, 592-95.

Ian Angus edita o site Clima e Capitalismo. Ele é autor de vários livros e artigos, incluindo A Redder Shade of Green (Monthly Review Press, 2017).

Este artigo foi adaptado do posfácio de Angus para a edição alemã (Unrast Verlag, 2020) de seu livro pioneiro Facing the Anthropocene (Monthly Review Press, 2016).

26 de abril de 2017

Os passos para o ecossocialismo

Qualquer movimento ecossocialista deve ter uma estratégia de organização no aqui e agora.

Ian Angus e John Bellamy Foster


Alberta, Canada. kris krüg / Flickr

Tradução / Ficamos contentes ao descobrir que Daniel Tanuro estava escrevendo um artigo sobre esquemas de precificação de carbono. Seu livro Green Capitalism: Why it Can’t Work (Capitalismo Verde: Porque não pode dar certo) traz uma importante contribuição para o pensamento ecossocialista, e Tanuro tem um impressionante histórico de envolvimento pessoal em diversas campanhas radicais pelo meio ambiente na Europa. Esperávamos ansiosamente por uma explicação clara e uma forte crítica a abordagens mercadológicas das mudanças climáticas que sabemos que ele poderia escrever.

Infelizmente, “The Right’s Green Awakening” (O Despertar Verde da Direita) não correspondeu às expectativas da alta qualidade estabelecida pelo seu livro. Ao invés de abordar os planos de precificação do carbono que têm emergido nas políticas capitalistas, Tanuro foca sua crítica nas propostas desenvolvidas pelo importante cientista do clima James Hansen e no apoio crítico que demos a sua proposta na Monthly Review e na Climate & Capitalism.

Tanuro equipara nossa posição — e a posição diferente de Hansen — a uma proposta feita por políticos da direita americana, argumentando que apoiamos “uma variante populista... [da] doutrina neoliberal.” Obviamente, discordamos.

Não estamos dizendo que nossos pontos de vista não podem ser criticados. O debate aberto é uma parte essencial da construção de um movimento ecossocialista global e nós acolhemos respostas ponderadas a qualquer coisa que escrevemos. No entanto, já que o artigo de Tanuro deturpa seriamente tanto o plano de Hansen quanto nossa abordagem em relação a ele, precisamos corrigir seu equívoco antes de começar uma discussão adequada.

As propostas de Hansen

O que chamamos de “Estratégia de Saída das Mudanças Climáticas” de James Hansen inclui um plano de taxas e dividendos, no qual companhias de combustíveis fósseis pagariam uma taxa de carbono crescente na boca de poço, poço de mina ou ponto de entrada. Todos as rendas provenientes desses pagamentos seriam distribuídas como dividendos à população em um esquema per capita.

Diferentemente de planos de mercado de carbono e impostos sobre o consumo, a taxa proposta por Hansen seria simples de se coletar e difícil de sonegar. Hansen estima que 60 por cento dos cidadãos americanos iriam receber mais em dividendos do que teriam que pagar em aumentos de preços.

Ao contrário de economistas clássicos que prometem resultados mágicos a partir exclusivamente da precificação do carbono, Hansen entende que “por si só, um imposto sobre o carbono não consegue resolver o problema energético e permitir um rápido término gradativo do carvão”, então seu programa vai além disso.

Ele inclui um banimento total do petróleo de areias betuminosas, do óleo e do gás de xisto, e de hidratos de metano, assim como o fechamento de todas as usinas movidas a carvão que não capturem suas emissões de CO2 — o que equivale a todas as usinas em operação hoje.

Hansen também demanda eliminação de todos os subsídios a companhias de combustíveis fósseis, transição global para uma agricultura e práticas florestais sustentáveis, rápida redução nas emissões de metano, ozônio e de carbono negro, assistência substancial a países emergentes no que diz respeito à implementação e ao desenvolvimento de energia limpa, e investimento no que ele espera serem tecnologias nucleares de quarta geração e seguras.

Essas medidas, aplicadas em conjunto, representam uma estratégia abrangente de saída das mudanças climáticas.

Um cavalo de troia conservador.

A recém-formada Cúpula dos Líderes sobre o Clima (CLC) publicou “Uma Defesa Conservadora dos Dividendos Climáticos” em fevereiro de 2017. Seis ex-líderes do Partido Republicano e o ex-presidente da Walmart assinaram o documento, temendo que políticas anti-ambientais grosseiras prejudicassem os Republicanos nas pesquisas, levando “jovens votantes[,] que detém a chave para a futura fortuna política de cada partido,” a apoiarem defensores de “regulações de comando e controle inibidoras de crescimento.”

Para evitar isso, eles propuseram um plano “que demonstrasse o inteiro poder de convicções conservadoras duradouras.” Sua principal proposta — um imposto gradualmente crescente sobre as emissões de dióxido de carbono distribuído a todos os cidadãos estadunidenses — se assemelha ao plano de taxas e dividendos de Hansen, mas, em contraste agudo à sua abordagem, eles insistem que ela deve estar atrelada a um “retorno regulatório significante.” Sem o banimento a combustíveis não-convencionais, sem o fechamento de usinas a carvão, e sem o investimento em conservação e energia limpa. “Muito da autoridade regulatória da EPA (Agência de Proteção Ambiental) sobre emissões de dióxido de carbono seria eliminada gradualmente, incluindo uma revogação aberta do Clean Power Plan (Plano de Energia Limpa),” eles escrevem, e cidadãos não teriam permissão para processar emissores por danos.

Além disso, o crescimento de taxas iria acabar automaticamente depois de cinco anos, a não ser que um “Painel de Fita Azul” (um painel governamental de alto nível) decida o contrário. Eles não especificam a composição do painel, mas não nos surpreenderíamos quando interesses em combustíveis fósseis desempenhassem um grande papel.

Em suma, a caricatura do CLC de um plano de taxas e dividendos não mira em uma prevenção das mudanças climáticas. É um cavalo de Troia para eliminar todas as medidas práticas que poderiam contribuir para tal objetivo.

Na prática, claro, líderes republicanos de fato decidiram por abolir proteções regulatórias sem se darem ao trabalho de determinar um preço do carbono ou prometer a eleitores um dividendo, então a preocupação de Tanuro de que o plano CLC “poderia formar consenso público de maneira real” parece deslocada.

Ecossocialistas e o programa de Hansen

Essa fraude conservadora não é o mesmo que o plano de Hansen, e não tem qualquer semelhança com o programa revolucionário ecossocialista que viemos defendendo por anos.

Contudo, Tanuro conecta tendenciosamente as perspectivas de Hansen às dos conservadores — descrevendo o plano do CLC como “uma ideia inicialmente proposta pelo proeminente climatologista James Hansen” e afirmando que “Hansen formulou originalmente o plano.” Ele se refere a “Hansen e as propostas do CLC” como se fossem idênticas. Então, para a nossa surpresa, ele afirma que John Bellamy Foster “apoiou fortemente o imposto sobre dividendos,” assim como “seus seguidores, que incluem Ian Angus”. Ele dedica a segunda metade do seu artigo para nos criticar por isso.

Tanuro pode não ter tido a intenção de identificar as nossas perspectivas com as do reacionário CLC , mas certamente essa é a impressão que seu artigo dá.

Apesar de nós dois termos escritos múltiplos artigos sobre a abordagem de Hansen à mudança climática, a crítica de Tanuro é baseada em apenas um exemplo, “James Hansen e a Estratégia de Saída das Mudanças Climáticas” de Foster, publicado cinco anos atrás. Aquele artigo, o primeiro em qualquer publicação socialista a discutir a natureza e significado das propostas de Hansen, tem duas seções principais: “A Estratégia de Saída de Hansen,” um relato objetivo sobre o programa, e “A Pegada Ecológica do Capitalismo: Para além da Estratégia de Saída de Hansen,” uma crítica ecossocialista que defende “uma transformação social muito maior” do que Hansen imagina. (Nós achamos que as críticas a Hansen que Foster faz na segunda seção são, na verdade, bem mais afiadas e completas do que as de Tanuro.)

Em uma curta seção de conclusão, Foster argumenta que a abordagem de Hansen, apesar de suas limitações, representa um importante avanço no movimento para impedir o ecocídio capitalista.

Ao longo do artigo, Foster usa o termo “estratégia de saída” para se referir ao programa inteiro de Hansen, incluindo seu foco no fechamento de oleodutos, usinas a carvão, e operações com combustíveis não-convencionais. Taxas e dividendos compõem apenas uma parte do programa e, como Foster afirma claramente, ela não se sustenta sozinha: “todas as estratégias exclusivamente baseadas no mercado tendem a sair pela culatra, já que elas se apoiam principalmente em incentivos econômicos.” O plano de taxas e dividendos de Hansen, Foster escreve, “é apenas um único ponto de apoio no que deve ser uma estratégia bem mais abrangente de saída das mudanças climáticas.

Apesar disso, Tanuro repetidamente trata os comentários positivos de Foster sobre a estratégia inteira como entusiasmo pelo componente de taxas e dividendos. Ele diz, por exemplo, que nós “argumentamos que o imposto sobre dividendos é a única abordagem viável no contexto atual”. No contexto, as palavras de Foster claramente dizem que esse é o ponto de vista de Hansen, não o nosso: “Isso levou ele a promover taxas e dividendos como a única abordagem viável para diminuir as emissões de carbono rapidamente” (ênfase adicionada).

De fato, Tanuro repetidamente confunde a apresentação de Foster das visões de Hansen com a própria opinião de Foster acerca dessas visões. Por exemplo, Foster elogia Hansen, que não é um socialista, por fazer uma “tentativa calculada de levar a cabo o plano máximo que se poderia conceber ser aceitável pelo regime do capital”. O comentário claramente se refere às intenções de Hansen com toda a estratégia de emergência, mas nas mãos de Tanuro, isso se torna, “Eles argumentaram que o imposto sobre dividendos é... 'o máximo que o capital poderia racionalmente aceitar', como Foster coloca”.

De forma similar, Tanuro se opõe à descrição de Foster do programa de Hansen como um “primeiro passo,” porque “a solução pode vir apenas… da convergência das lutas concretas dos explorados e oprimidos,” implicando que Foster ignoraria tais lutas. Ele não consegue perceber que imediatamente após mencionar esse primeiro passo, Foster adverte:

Uma solução real demanda uma alteração radical nas prioridades sociais — o tipo de transformação revolucionária que poderia ocorrer em velocidade inimaginável se a população atingisse um dia seu próprio ponto de inflexão sócio-ambiental.

Frequentemente, Tanuro tira as palavras de Foster de contexto, mudando seu significado. Ele escreve: “Foster argumenta que a proposta [de taxa e dividendo] de Hansen é ‘objetivamente revolucionária.’ “ Aqui está a frase inteira de Foster:

O que é objetivamente revolucionário na proposta de Hansen é sua raiz em um senso compartilhado de emergência e de crise que pode ser prontamente comunicado no centro do sistema, nas próprias economias de capital financeiro monopolista.

Nenhum de nós jamais sugeriu que um plano de taxas e dividendos por si só é revolucionário. Como Angus escreveu:

Taxas e dividendos podem ser parte de um programa de ação radical contra as mudanças climáticas, mas não são suficientes por si só, e não são adequados para a construção de movimentos de massas que socialistas sabem ser necessários.

Corrigindo todos os erros de má citação e representação nesse artigo tomaria muito mais tempo e espaço, mas achamos que o ponto está feito. Daniel Tanuro está nos criticando — e a Hansen — por pontos de vista que não temos.

A importância da estratégia de saída

Reduzido ao essencial, o artigo de Tanuro traz dois pontos importantes. Primeiro, “o mercado não pode ser a solução... Temos que confrontar as dinâmicas de acumulação, o que o plano de taxas e dividendos simplesmente não consegue fazer.” E, segundo, precisamos “de uma estratégia de aliança com os explorados e oprimidos para desenvolver uma alternativa ecossocialista.”

Concordamos inteiramente. Isso é exatamente o que Foster argumenta no mesmo artigo que Tanuro critica:

A estratégia de saída de Hansen, apesar de todos os seus pontos fortes, é ainda insuficiente. Sua fraqueza é que ela não vai longe o suficiente no enfrentamento às contradições sócio-sistêmicas geradas pela estrutura de poder do capital monopolista-financeiro atual. O que é necessário sob as presentes circunstâncias é a aceleração da história envolvendo uma reconstituição da sociedade. Os tipos de mudanças a serem consideradas no contexto de uma emergência planetária não podem ser confinados a canais estreitos que a classe dominante e sua poderosa elite política irão aceitar. Pelo contrário, uma estratégia efetiva de saída das mudanças climáticas deve contar com uma transformação social muito maior que pode ser desencadeada apenas por meio de mobilizações democráticas em massa.

Ecossocialistas não precisam debater se soluções de mercado podem fazer o trabalho (elas não podem) ou se precisamos construir um movimento de massas que consiga barrar o ecocídio capitalista (obviamente precisamos). O problema real é: como vamos daqui para lá? Como podem os ecossocialistas, uma corrente política relativamente pequena, contribuírem com a construção de um amplo e unido movimento que concordamos que é necessário?

O artigo de Tanuro não aborda o contexto prático no qual a estratégia de saída das mudanças climáticas de Hansen se desenvolveu. Organizações conservadoras e liberais que trabalham próximas às companhias de combustíveis fósseis vêm dominando por muito tempo o movimento verde estadunidense. Como Naomi Klein demonstra em Isso Muda Tudo, os maiores grupos verdes têm “enredado seus destinos com as corporações no cerne da crise climática… As mãos de quase ninguém estão limpas.” Teremos pouco progresso contra as mudanças climáticas enquanto tais forças possuírem controle político e organizacional.

É por isso que ecossocialistas devem apoiar grupos e campanhas como 350.org, Idle No More, e NoDAPL. Enquanto poucos desses “novos guerreiros climáticos,” como Klein os designa, são explicitamente anticapitalistas, eles ainda assim arriscam seus corpos para barrar os projetos mais destrutivos do capital.

James Hansen desempenhou um papel crítico na motivação e construção do novo movimento climático radical. Ele não é apenas qualquer cientista climático ou apenas qualquer ativista. Desde que prestou depoimento pela primeira vez em um comitê congressional em 1979, ele tem sido reconhecido como o principal climatologista do mundo e um ator central no novo movimento climático:

Ele foi preso em uma tentativa de proibir usinas a carvão e em um protesto contra o oleoduto Keystone XL, projetado para trazer areia betuminosa de Alberta para o Golfo do México. Seu ativismo e o fato de ele estar disposto a ir preso por essas questões demonstram o que ele considera ser essencial.

Uma estratégia de saída das mudanças climáticas concebida por ecossocialistas teria sem dúvidas sido mais forte e mais radical do que a de Hansen, mas não teria tido a mesma relevância ou credibilidade científica. Quando uma figura de tal proeminência chega a conclusões radicais provindas da falha dos governos e de corporações em agir, a Esquerda precisa prestar atenção.

Foster escreveu seu artigo de 2013 exatamente por essa razão: para alertar ecossocialistas e outras pessoas da esquerda sobre uma importante inflexao nas políticas verdes, uma mudança profunda que oferece novas possibilidades para a ação unida contra o ecocídio capitalista. Escrevemos tais artigos porque concordamos com Marx: “Todo passo do movimento real é mais importante do que uma dúzia de programas.”

Discordamos com aspectos do programa de Hansen. Nos incomodamos com seu apoio à energia nuclear e achamos que ele dá ênfase demais à parte de taxas e dividendos do seu programa. Mas nunca conseguiremos construir um movimento amplo se insistirmos em unanimidade. A não ser que você acredite que se deva, por uma questão de princípio, fazer oposição absoluta à precificação do carbono — e não é essa a visão de Tanuro, já que ele é favorável a uma taxação sobre o combustível de aeronaves — não há motivo para rejeitar de imediato a estratégia de saída de Hansen.

Não estamos debatendo se taxas e dividendos oferecem uma solução completa, mas se um programa que os inclui, assim como campanhas pelo fechamento de usinas de carvão, fracking e mineração de areias betuminosas, pode contribuir para um movimento de massas contra as mudanças climáticas.

Enquanto construímos esse movimento, vamos nos deparar com o trabalho em conjunto com pessoas que pensam que “precificar o carbono” representa a melhor solução. (Se não nos depararmos com esse trabalho em conjunto, não estamos obtendo alcance suficiente!) Deveriam os ecossocialistas simplesmente afastar essas pessoas? Ou deveríamos as conduzir mais à esquerda, argumentando, “se tal programa for introduzido, ele deve alvejar diretamente as corporações de combustíveis fósseis, enquanto protege os padrões de vida do povo trabalhador e dos pobres,” como a proposta de Hansen almeja?

Precisamos de um programa para a ação contra as mudanças climáticas que possa ganhar apoio de um amplo alcance de correntes e ativistas em potencial. O programa de Hansen pode não ser perfeito, mas não conhecemos uma proposta melhor vinda de um ambientalista com a influência que ele tem.

O plano de taxas e dividendos não entra em conflito com a construção de um movimento de massas, a não ser que o apresentemos como a única solução. Como parte de uma estratégia de saída ampla na linha do que Hansen propõe, esse plano oferece uma base consistente para o desenvolvimento de um movimento amplo contra as mudanças climáticas e avança uma contestação sistêmica ao capitalismo.

Concordamos com Daniel Tanuro que o mercado não é a resposta: o ecossocialismo é a resposta. Apenas de quaisquer desacordos que tenhamos, esperamos poder trabalhar com ele nesse projeto de vital importância.

Colaboradores

Ian Angus é editor do site Climate & Capitalism e autor do livro Facing the Anthropocene.

John Bellamy Foster é editor da revista Monthly Review e professor de sociologia na Universidade de Oregon.

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