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16 de julho de 2026

Verdade sem reconciliação

Por que as instituições democráticas do Brasil se mantiveram firmes enquanto as dos Estados Unidos definharam tão rapidamente?

Olúfẹ́mi O. Táíwò


Imagem: Getty Images

Em 5 de janeiro de 2025, o então presidente Joe Biden falou aos repórteres e reafirmou seu compromisso com uma transição pacífica de poder enquanto se aguardavam os resultados das eleições — quase quatro anos exatos após a infame tentativa de golpe de 6 de janeiro. "Acho que o que [Trump] fez foi uma ameaça real à democracia", disse Biden, "e tenho esperança de que já tenhamos superado isso". Não havíamos superado. Dias depois, em seu discurso de posse, Trump fez alegações falsas de fraude eleitoral, assim como havia feito em 2020.

Os Estados Unidos já enfrentam, há alguns anos, uma onda desastrosa de autoritarismo de direita. Poucos dias atrás, o ICE matou um pai diante de sua filha de três anos no Maine e deixou seu corpo — algemado postumamente — na rua por cinco horas. A mais recente onda de deportações em massa apenas acrescenta mais uma camada à realidade estrutural de violência policial constante e impune: segundo a organização Campaign Zero, houve apenas seis dias em todo o ano de 2025 em que as forças de segurança não mataram ninguém.

O movimento das famílias e seus aliados foram além da busca inicial por respostas, avançando para reivindicações mais amplas de punição e indenização.

Olhamos para o exterior com uma mistura de curiosidade e inveja para outros países que conseguiram conter suas próprias insurgências de direita — incluindo a Coreia do Sul, onde o ex-presidente escapou por pouco de uma sentença de morte por seu papel ao incitar uma tentativa de golpe frustrada apenas por um corajoso protesto popular em massa; e a Hungria, onde a recente derrota eleitoral de Viktor Orbán consolidou um revés para a coalizão internacional de direita que havia se mobilizado em sua defesa. Vale a pena aprender com esses casos por diversos motivos, sendo talvez o principal deles o fato de que uma rede de atores atua de forma coordenada, transcendendo fronteiras nacionais, para apoiar governos de direita ao fomentar o pânico xenofóbico e a violência. No entanto, entre os exemplos internacionais aos quais os pensadores daqui deveriam prestar atenção, um se destaca em particular: o Brasil.

Há muitos paralelos entre a nossa situação e a de nossos vizinhos do sul. A aversão do ex-presidente Jair Bolsonaro aos comunistas, seu esforço declarado para acumular riqueza pessoal e sua tendência a desafiar as normas do "politicamente correto" em discursos públicos contribuíram para que ele fosse chamado de "Trump dos trópicos". De forma ainda mais alarmante, os tumultos de 8 de janeiro de 2023 — quando o Supremo Tribunal Federal e o Congresso do Brasil foram invadidos em uma tentativa fracassada de incitar um golpe militar — ocorreram quase exatamente dois anos após a tentativa, em 6 de janeiro, de impedir a transição de poder na Casa Branca. Contudo, o que deveria atrair a atenção para o caso brasileiro não são as semelhanças com os eventos ocorridos aqui, mas sim as diferenças. O ponto central é que Bolsonaro começou a cumprir uma pena de vinte e sete anos de prisão por seu papel nos eventos de 8 de janeiro, enquanto o instigador do 6 de janeiro ocupa o Salão Oval.

Por que as instituições democráticas do Brasil resistiram com firmeza, enquanto as dos Estados Unidos fraquejaram tão rapidamente? Uma explicação reside na atuação de atores institucionais específicos. Talvez Merrick Garland, o ex-procurador-geral dos EUA, tenha alterado o curso da história de forma decisiva ao conduzir com lentidão excessiva o processo contra Trump e outros conspiradores. Outra explicação adota uma perspectiva mais ampla, argumentando que a relutância do presidente Biden e do Partido Democrata em adotar uma postura ofensiva contra os republicanos abriu caminho para o retorno posterior de Trump. Sob essa ótica, a memória pública do 6 de janeiro deveria ter servido não apenas como prova dos objetivos antidemocráticos da direita, mas como um ponto de orientação tanto para uma batalha jurídica quanto para uma disputa de propaganda em torno da legitimidade do Partido Republicano e de seus principais representantes. O que precisa mudar, então, não são as decisões pontuais deste ou daquele agente institucional, mas a orientação geral de um partido político: de "arquivistas" a "combatentes".

Em um novo livro, Disputed Pasts: Forgetting and Remembering the Dictatorship in Brazil, as cientistas políticas Cristina Buarque de Hollanda e José Szwako examinam essa perspectiva no contexto brasileiro. A condenação de Bolsonaro, argumentam elas, deve muito à disputa de décadas sobre como — ou se — devemos recordar a violenta ditadura militar brasileira. Como apontam as autoras, a memória pública não apenas fortaleceu o "longo retorno à democracia" do país, mas também impulsionou a tentativa de Bolsonaro de interrompê-lo. Nos Estados Unidos, da mesma forma, batalhas em torno de narrativas sobre o passado — a maneira correta, por exemplo, de recordar a escravidão e o genocídio dos povos indígenas — têm sido travadas tanto pela esquerda quanto pela direita. Deveríamos, nos Estados Unidos, adotar uma estratégia brasileira?


Comparar o Brasil com qualquer uma das outras nações das Américas é um exercício complexo, em parte porque a história política brasileira é, sob aspectos importantes, singular. O exemplo mais óbvio é o fato de o país possuir seu próprio idioma, em contraste com os dialetos do espanhol, inglês e francês que predominam em grande parte do restante do continente. No início do século XIX, o Brasil também se destacava nas Américas como a única monarquia, a única colônia a servir de sede e abrigo para sua metrópole e o último país a abolir a escravidão. Ainda assim, Buarque e Szwako insistem que a história do golpe de 1964 no Brasil e da subsequente ditadura militar se encaixa perfeitamente em uma narrativa tipicamente americana de tomadas de poder pela direita e repressão estatal. E, no fim das contas, é esse golpe — e seus desdobramentos — que detém a chave para compreender por que os eventos de 8 de janeiro se desenrolaram de maneira tão diferente daqueles de 6 de janeiro.

Em 1961, o país elegeu o presidente populista de esquerda João Goulart. Embora estivesse fora da órbita do comunismo brasileiro (assim como muitos integrantes do Partido Trabalhista Brasileiro daquela época), ele foi deposto por um golpe militar em 1964, com o apoio ativo dos Estados Unidos. Seguiu-se uma ditadura militar marcada por um anticomunismo feroz, imposto por meio de polícia secreta, centros de tortura e desaparecimentos forçados. Se os marcos principais dessa história lhe soam familiares, é porque você está captando a mensagem de Buarque e Szwako: é possível traçar um paralelo direto entre o destino de Goulart, no Brasil, e o de Allende, no Chile, por exemplo. Isso não ocorre por acaso. Na segunda metade do século XX, governos de todas as Américas adotaram uma estratégia coordenada de terrorismo de Estado contra a esquerda — desde a "Operação Condor", que envolvia a cooperação formal e explícita entre as polícias secretas de vários países sul-americanos, até o apoio direcionado dos Estados Unidos a novos golpes e a ditaduras de longa duração.

O espectro da repressão passada permitiu à direita remeter a uma época em que estava em ascensão.

No Brasil, os desaparecimentos forçaram uma disputa política em torno da memória pública. Em meados da década de 1970 — o auge da violência estatal da ditadura —, familiares de desaparecidos mobilizaram-se pressionando parlamentares do único partido de oposição legal para exigir uma investigação do Congresso sobre o destino de seus parentes. Uma combinação de ameaças e manobras parlamentares sufocou essa pequena insurreição. Na época, a ditadura militar, como era de se esperar, preferia esquecer completamente os esquerdistas desaparecidos, ocultando registros dos mortos sob codinomes e enterrando suas vítimas em valas comuns. E, talvez o mais importante: em 1979, o regime aprovou uma lei concedendo anistia a si mesmo e aos militares por crimes políticos cometidos desde 1961.

No final da década de 1970 e início da de 1980, começaram a surgir fissuras no poder do regime. Líderes de oposição de destaque, que desafiavam abertamente a ditadura, venceram eleições em estados de grande importância econômica e cultural, incluindo o Rio de Janeiro. Talvez o episódio mais célebre tenha sido o desafio de centenas de milhares de metalúrgicos organizados à proibição de greves e à repressão estatal, sob a liderança de diversos organizadores, entre eles Luiz Inácio Lula da Silva — o atual presidente do país.

Em 1985, a ditadura deu lugar ao controle civil e a eleições populares. O movimento dos familiares e seus aliados aproveitaram o ambiente de abertura recém-conquistado para investigar e divulgar provas dos crimes da ditadura, localizando valas comuns e expondo colaboradores que haviam auxiliado o regime anterior. Nas décadas de 1990 e 2000, à medida que a defesa global dos direitos humanos assumia o que os autores chamam de "inflexão contra a impunidade" — em resposta às atrocidades ocorridas ao longo do século —, o movimento avançou ainda mais, indo além da busca inicial por respostas e passando a exigir punições e reparações. No Brasil, isso ficou conhecido como o movimento por "memória, verdade e justiça", que, já nos anos 2000, reivindicava abertamente sanções penais para militares considerados culpados nas investigações que se multiplicavam. Ou seja: verdade sem reconciliação.

Disputed Pasts rejeita uma representação simplista do papel da memória, segundo a qual a esquerda exige que se recordem os abusos e crimes do passado, enquanto a direita os minimiza ou esquece. É possível traçar paralelos com o caso dos EUA. A atual administração tem tentado contestar a forma como museus e parques nacionais retratam os muitos episódios sombrios da história americana. Na segunda-feira, Marco Rubio — Secretário de Estado dos EUA e conselheiro de segurança nacional interino — publicou um artigo de opinião defendendo o desmantelamento do Tribunal Penal Internacional e clamando abertamente pela impunidade de autoridades estatais perante o direito internacional; o momento é oportuno, visto que a campanha de ataques indiscriminados com drones realizada pelos militares, iniciada no Caribe, não apenas prosseguiu, mas se expandiu para o Pacífico. Ao confrontar isso com a tentativa de higienizar o legado do recém-falecido senador Lindsey Graham, surge um quadro claro: se a direita promete impunidade mesmo após a morte, cabe à esquerda rebelar-se contra distorções da memória de toda espécie — incluindo, e sobretudo, a anistia póstuma à reputação concedida a aliados de regimes autoritários.

Talvez essa lição seja mais bem expressa por Marcelo Rubens Paiva, escritor e filho de um deputado brasileiro torturado até a morte pela polícia secreta durante o regime. Em uma entrevista de 2015 citada na obra Disputed Pasts, Paiva argumentou que "a ausência de um julgamento como o de Nuremberg no Brasil, na década de 1980, contaminou o processo de redemocratização e a nossa democracia atual". Seguindo a mesma lógica, para reverter a trajetória rumo ao autoritarismo nos Estados Unidos, devemos envidar todos os esforços para contabilizar, registrar e documentar os crimes da atual administração. Afinal, nossa hora chegará, assim como chegou para a esquerda brasileira e para tantos que se recuperavam das feridas da repressão estatal após a Operação Condor e suas diversas variantes. E, nesse dia: nada de anistia.


Disputed Pasts traz complexidade à narrativa sobre a memória em ambas as direções. Para a esquerda brasileira, observam os autores, o esquecimento também desempenhou um papel importante. Esquecer o passado significava também esquecer as divisões surgidas no seio das próprias organizações de esquerda e na luta conjunta para derrotar a ditadura e seus vestígios culturais: as cisões entre alas mais revolucionárias e mais reformistas da oposição, ou os inevitáveis ​​rompimentos partidários ocorridos ao longo das décadas. Do ponto de vista eleitoral, o bloco antiditadura — efetivamente forçado a uma coalizão sob um único partido de oposição — tornou-se vasto e fragmentado: vinte candidatos disputaram a presidência em 1989, permitindo que Fernando Collor, um jovem candidato com vínculos com o partido político da ditadura militar anterior, assumisse o cargo (ele renunciou dois anos depois, em meio a acusações de corrupção). Além disso, um dos embates mais acirrados entre a ditadura e seus opositores pró-democracia travou-se em torno da anistia ampla para todos os presos políticos que não haviam sido simplesmente assassinados — ou seja, tratava-se de fazer com que o Estado esquecesse as acusações que lhes imputara e se abstivesse de investigações ou represálias caso eles retornassem à vida pública no Brasil.

O perigo reside em ser parado no caminho da memória, da verdade e da justiça – e não em viajar por esse caminho.

Para a direita, rememorar o passado — algo trazido à tona pela esquerda — poderia significar algo além de simplesmente expor seus adeptos a litígios arriscados. À medida que políticos de direita se sentiam incomodados com as vitórias de figuras como Lula, o espectro da repressão passada lhes permitia evocar uma época em que detinham o poder. A memória social da ditadura — disseminada inicialmente por ativistas de movimentos de familiares e por setores do Estado que haviam aderido à causa — ofereceu à direita oportunidades tanto para projetar a força que atraía potenciais apoiadores quanto para deslegitimar, por meio de sinalização de valores, quaisquer escrúpulos morais que pudessem surgir. Bolsonaro, em particular, foi hábil nisso: celebrou abertamente, como um "herói do Brasil", o Major Sebastião Curió — um dos oficiais conhecidos como responsáveis ​​pelo massacre de militantes de esquerda no Araguaia, no início da década de 1970, e um homem que discutia publicamente seu apoio à tortura e ridicularizava o movimento que buscava localizar os corpos de entes queridos mortos. Foi justamente essa habilidade que ajudou Bolsonaro a articular a coalizão entre militares, elites econômicas e líderes evangélicos que o conduziu à presidência em 2018. Como afirmaram os autores, "a ascensão política de Bolsonaro e do bolsonarismo" foi, "em parte, uma resposta à própria política de memória".

Em meio a esse contra-ataque, o que o movimento por memória, verdade e justiça conseguiu alcançar? Apesar dos novos obstáculos, ele de fato abriu novos caminhos: em dezembro de 2009, trinta anos após o início dos crimes, conquistou finalmente a criação de uma Comissão Nacional da Verdade, destinada a empregar recursos estatais para desvendar as atrocidades da ditadura. Esse passo foi seguido por uma onda de centenas de comissões locais da verdade, o que forçou os ativistas a estabelecerem uma relação de trabalho, por vezes tensa, com o Estado. Dois anos depois, o país elegeu como presidente Dilma Rousseff, uma ex-militante socialista que havia sido torturada durante a ditadura (e que, como era de se esperar, apoiava abertamente aspectos do movimento por memória, verdade e justiça).

No entanto, o movimento deparou-se com um obstáculo na questão da reconciliação. O nome "Comissão Nacional da Verdade" omitia, de forma notável, qualquer referência a reconciliação, reparações ou justiça. Em 2008, a Ordem dos Advogados do Brasil levou um caso ao Supremo Tribunal Federal para contestar a imunidade política concedida aos militares pela Lei de Anistia de 1979. Apesar dos avanços obtidos pela vertente do movimento voltada à memória — que buscava evidenciar a gravidade dos crimes da ditadura —, o Tribunal decidiu manter a imunidade dos militares: prevaleceu a lógica da verdade acompanhada de reconciliação. Oito anos depois, Rousseff sofreu impeachment e foi afastada do cargo e, três anos mais tarde, Bolsonaro surfou a onda de um contra-movimento pró-militares para assumir a mesma presidência.


A política da memória é um terreno político acidentado. No entanto, concluir a partir desse fato que a esquerda brasileira — ou suas congêneres nos EUA — deveria evitá-la completamente devido à resistência que ela gera é uma atitude precipitada. Buarque e Szwako argumentam com maestria que o esforço para lembrar aos brasileiros a dureza da ditadura ajudou a fomentar a reação adversa que Bolsonaro aproveitou para ascender ao topo da política brasileira. Mas reações adversas são inevitáveis ​​sempre que se alcança algum tipo de progresso social. Além disso, as táticas específicas empregadas pelas forças pró-democracia de uma geração moldarão as opções práticas disponíveis para que a direita concretize seu desejo de vingança na geração seguinte.

Assim, a questão não reside na forma que o ressurgimento autoritário assume, mas na robustez das instituições e da cultura política que se erguem para enfrentá-lo. E, como apontam os autores, a institucionalização dos direitos humanos tornou-se "um dos principais fios condutores de continuidade entre os governos pós-1988", em parte devido ao avanço do movimento por memória, verdade e justiça pelas instituições do Estado brasileiro e pelas inúmeras legendas e correntes ideológicas que efetivamente disputam o poder em seu âmbito. O movimento por memória, verdade e justiça obteve êxito nos aspectos de memória e verdade de sua visão política — isto é, no desafio que lançaram à cultura política vigente. Embora tenham enfrentado uma oposição feroz de um contramovimento, conseguiram consolidar a ideia de que o período da ditadura foi uma era vergonhosa da história brasileira, cuja repetição o Estado e a sociedade civil precisavam evitar a todo custo. É difícil imaginar que uma massa crítica de funcionários desse Estado estivesse empenhada em fazer cumprir a letra da lei contra aspirantes a usurpadores — como Bolsonaro — sem um consenso moral sobre as consequências de desrespeitá-la. E a compreensão dessas consequências, em todo o espectro político, foi claramente moldada pela memória dos abusos da ditadura militar — e, portanto, pelo trabalho incansável de movimentos que mantiveram viva essa memória. Quem duvida disso basta comparar os acontecimentos de 6 de janeiro nos Estados Unidos — onde, creio eu, tentar derrubar o governo também constitui uma violação da letra da lei — com os de 8 de janeiro no Brasil.

Vale a pena prestar atenção à análise de Disputed Pasts sobre os usos indevidos da memória e do esquecimento. No entanto, o alerta que devemos tirar dessa situação diz respeito aos perigos de sermos interrompidos no caminho rumo à memória, à verdade e à justiça — e não aos perigos de trilhar esse caminho. Precisaremos de um movimento vigoroso em prol da verdade para documentar crimes de Estado, e de um movimento igualmente vigoroso por justiça para impedir que aqueles que inevitavelmente sentem nostalgia dos tempos de violência os tragam de volta — esforços como a iniciativa dos promotores de Minnesota para obter provas que o governo federal retinha sobre os assassinatos de Alex Pretti e Renée Good; uma determinação cuja força provavelmente deriva da intensa mobilização que sustentou a histórica resistência de Minnesota à invasão federal.

Isso significa que a lição simples apresentada por Paiva continua válida. Nossa hora chegará e, quando chegar: nada de anistia.

Olúfẹ́mi O. Táíwò é professor associado de Filosofia na Universidade de Georgetown e colunista da Boston Review. Entre seus livros estão Elite Capture e Reconsidering Reparations.

8 de janeiro de 2026

Império do vício

Numa perversa inversão da ostentação de virtude, o governo Trump está treinando os americanos na política da dominação pura e simples.

Olúfẹ́mi O. Táíwò

Boston Review

Donald Trump e a Secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, conversam com repórteres na Flórida, em julho de 2025. Imagem: Andrew Caballero-Reynolds/AFP via Getty Images.

A congressista e acólita do MAGA, agora antagonista, Marjorie Taylor Greene, deixou escapar algo revelador numa entrevista recente ao New York Times: “O nosso lado foi treinado por Donald Trump para nunca pedir desculpas e nunca admitir quando se está errado.”

O governo Trump tem sido, de fato, marcado por uma combinação de descaramento e intransigência que talvez se assemelhe tanto às estratégias de relações públicas de mafiosos quanto às de políticos. Mas, à primeira vista, a declaração de Greene diz mais do que isso. Uma coisa é apontar que Trump e seus lacaios desafiam as normas de decência e responsabilidade. Outra é afirmar que eles estão disseminando esses hábitos e ameaçando estabelecê-los como um novo normal na política americana. E suspeito que essa afirmação esteja correta: o governo Trump está realmente treinando as elites americanas e sua cultura política em geral.

Os sinais de vício não são apenas mensagens culturais ou poses estéticas. Eles também vêm acompanhados de um saldo de mortes.

Não é que Trump diga explicitamente às pessoas para cultivarem a falta de vergonha. Ele não é exatamente um coach de vida — além de "A Arte da Negociação", Trump nunca foi muito bom em comunicar princípios explícitos. O que não significa que ele esteja acima da explicitude: como relatado em uma cinebiografia sobre Trump, a advertência de que "não importa o que aconteça, você reivindica a vitória e nunca admite a derrota" estava entre as regras que o próprio Trump aprendeu como aprendiz obscuro do falecido advogado e articulador Roy Cohn. Mas, apesar da falta de reconhecimento aberto, o sentido em que Trump "treinou" ativamente o lado político de Greene não é particularmente sutil.

O presidente passou o dia de Natal postando no Truth Social sobre "Escória da Esquerda Radical" e lançando ataques com mísseis na Nigéria como um "presente de Natal". Se a mídia tradicional não deu a devida atenção a esses momentos, é provável que seja em parte porque Trump raramente se desviou do roteiro de insultos aos seus oponentes e desrespeito pelo valor da vida alheia. Qual a novidade? A crueldade declarada de Trump para com a família Reiner, tragicamente assassinada, foi menos surpreendente do que a oposição de alguns republicanos a ela — dada a hostilidade declarada de muitos dos mencionados anteriormente em relação aos ataques não menos trágicos contra a deputada democrata de Minnesota, Melissa Hortman, o senador estadual John Hoffman e seus cônjuges.

Essas declarações e ações são o treinamento. Nos últimos anos, muito se tem discutido sobre o suposto flagelo da "sinalização de virtude", a acusação de que alguém fez uma declaração pública aparentemente virtuosa ou agiu em prol de sua própria posição social, em vez de buscar o verdadeiro valor de seu ato. Mas poderíamos dedicar mais tempo a discutir um fenômeno relacionado e cada vez mais disseminado: a sinalização de vícios. Uma fotografia espontânea que viralizou nas redes sociais ilustra isso vividamente: Trump, o governador da Flórida, Ron DeSantis, e a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, rindo em frente ao centro de detenção "Alcatraz dos Jacarés", construído às pressas para impulsionar a campanha de deportação em massa do governo. A estética casual da crueldade é o objetivo. É uma forma de dar permissão aos espectadores. Diz: sabemos que tipo de pessoa acharia isso monstruoso: observem-nos rindo mesmo assim para provocar os liberais. Isso é sinalização de vícios por excelência.

À primeira vista, a sinalização de virtude e a sinalização de vício podem parecer opostas, com os sinalizadores de virtude associados a pessoas bem-intencionadas e os sinalizadores de vício a vilões mais caricatos. De fato, a sinalização de vício está relacionada à crueldade, ao prazer com o sofrimento alheio e ao mal em geral. Um sinalizador de virtude tenta parecer bom, enquanto um sinalizador de vício tenta parecer mau — mas não para todos. Um sinalizador de vício normalmente viola padrões morais ou outros padrões de um grupo externo justamente para parecer bem aos olhos dos membros de um grupo interno. A sinalização de vício, portanto, é tipicamente uma versão da sinalização de virtude, e não uma alternativa a ela.

Mas há um detalhe importante. Quando sinalizamos virtude, estamos apelando para os valores do nosso próprio grupo, por mais superficiais ou hipócritas que esses apelos possam ser: é o fato de nosso grupo interno considerar o apoio a esta instituição de caridade ou o uso destes pronomes como uma demonstração de bondade e respeito que permite que alguém tente ganhar influência aderindo às regras, apesar de ter motivações menos nobres em seu íntimo. Mas quando alguém demonstra um vício, os valores do grupo externo ganham destaque — para serem evitados, e não seguidos. Os compromissos morais do grupo interno tornam-se basicamente irrelevantes: tudo o que importa é derrotar o inimigo, no caso de Trump, os liberais. E quanto mais se depende da demonstração de vícios como estilo de ação e comunicação, menos relevante e poderosa se torna a bússola moral do grupo interno como restrição prática ao comportamento de qualquer pessoa.

Os indícios são bastante convincentes de que estamos vendo isso se desenrolar na política americana em geral hoje em dia. Parte da proposta inicial de Trump aos eleitores era que "América Primeiro" significava evitar intervenções e envolvimentos estrangeiros. Essa afirmação sempre foi bastante fácil de desmascarar, mas após os ataques de Natal na Nigéria, o sequestro de um líder estrangeiro na Venezuela e os renovados apelos pela colonização da Groenlândia, a ideia de que Trump é um "pombo" na política externa pode finalmente estar obsoleta. Anos atrás, a ideia de "direitos dos estados" supostamente estava ressurgindo, com governadores republicanos desafiando abertamente o governo federal sob o governo do presidente Joe Biden. No ano passado, um desses governadores rebeldes, Greg Abbott, ofereceu a Guarda Nacional de seu próprio estado para ajudar a restringir os direitos de outros estados a serviço da tentativa mais ampla de Trump de criar uma força policial federal improvisada. Tudo isso sem mencionar a saga contínua de tráfico e abuso infantil que se esconde por trás dos arquivos de Epstein, representando exatamente o tipo de pântano elitista que Trump prometeu drenar.

Há mais aqui do que oportunismo e hipocrisia comuns. O fato de os indivíduos envolvidos serem ou não hipócritas não explica a tímida condenação e resistência do restante do partido. A pura desfaçatez com que o governo desafia as normas de honestidade e decência é uma mensagem clara sobre o que importa — esmagar os oponentes pessoais do governo — e uma mensagem igualmente clara sobre o que não importa: qualquer outra coisa, incluindo quaisquer valores, princípios ou ideais que Trump ou seu partido aleguem defender.

Como esses exemplos demonstram, os sinais de vício não são apenas mensagens culturais ou poses estéticas. O banqueiro anônimo que queria dizer "retardado" e "covarde" em público quer viver em um mundo que agrada ao tipo de pessoa que gosta de usar essas palavras — e é por isso que ele experimentou essa permissividade como uma sensação de "libertação". Os membros da administração que estão especialmente ativos online podem estar interessados ​​nas "Reverdades" e nos números de comentários em resposta aos relatos públicos de suas várias desventuras, mas essas mensagens também trazem consigo um número de mortos: pelo menos 115 nos vários assassinatos ocorridos no Caribe e no Pacífico; pelo menos 40 no ataque à Venezuela que culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro; e um número ainda desconhecido nos atentados na Nigéria.

A crueldade performática pode ter começado com o governo Trump, mas não terminou e não terminará aí.

Esses ataques são completamente incompreensíveis como manobras táticas: as rotas de narcotráfico supostamente visadas pelos ataques militares têm pouca ou nenhuma relação com o consumo de drogas nos Estados Unidos; as reservas de petróleo na Venezuela estão do outro lado de um investimento bilionário em infraestrutura, para o qual as gigantes petrolíferas americanas demonstraram pouco interesse até o momento; e as próprias autoridades do governo nigeriano contradizem diretamente a narrativa da Casa Branca sobre o ataque em suas fronteiras, apesar de colaborarem com a operação. Mas tudo isso, ainda assim, faz um sentido sombrio quando interpretado como ações políticas tomadas principalmente para sinalizar vícios e projetar poder bruto: comunicar uma certa postura estética à base MAGA e seus diversos cúmplices ideológicos, nos treinando a aceitá-la e ameaçando todos aqueles que desobedecerem com o espectro de que as bombas virão em seguida. A mensagem é: eu posso fazer o que eu quiser, quando eu quiser, pelo motivo que eu quiser, e vocês têm que aceitar.

Ao contrário de objetivos estratégicos complexos que envolvem priorizar e manter relações diplomáticas sólidas, a emoção de sinalizar vícios — e o treinamento para isso — é intensificada ao se dizer em voz alta o que se pensa que não deve ser dito. Foi exatamente isso que Stephen Miller, agora chefe de gabinete adjunto da Casa Branca, fez na CNN no início desta semana. "Vivemos em um mundo no qual podemos falar o quanto quisermos sobre gentilezas internacionais e tudo mais, mas vivemos em um mundo, no mundo real", disse ele a Jake Tapper, "que é governado pela força, que é governado pela coerção, que é governado pelo poder."


Temos um problema de impunidade entre as elites — um problema global, com os Estados Unidos sendo o pior e principal infrator. Como Robert Reich nos lembra, há vinte anos os Estados Unidos invadiram um país sob pretextos hoje amplamente reconhecidos como basicamente fraudulentos. Esse fato mal merece um "ops" dos muitos atores, eleitos ou não, que o promoveram — principalmente George W. Bush, que permanece em silêncio até hoje. Mais recentemente, o homem mais rico do mundo ajudou a liderar demissões em massa de funcionários federais.

Enquanto isso, agentes estatais sequestram imigrantes e detêm cidadãos regularmente, de maneiras flagrantemente ilegais. Em sua declaração em resposta ao recente assassinato de um cidadão americano por um agente do ICE em Minneapolis — flagrado em vídeo e atestado por testemunhas oculares, a menos de um quilômetro do local do assassinato de George Floyd por um policial de Minneapolis — o Departamento de Segurança Interna comete uma série de mentiras descaradas. As consequências negativas para qualquer um dos casos mencionados são raras. Nos Estados Unidos, poder político há muito significa nunca ter que pedir desculpas.

Pode ter começado com o lado de Greene no espectro político, mas não terminou e não terminará aí. O conselho de Michelle Obama para seu lado político — “manter a postura elevada” quando “eles descem ao nível mais baixo” — soa cada vez mais antiquado a cada ano que passa (uma perspectiva que ela recentemente tentou esclarecer como um apelo ao objetivo decididamente mais combativo de “encontrar propósito em sua raiva”). Em resposta, figuras emergentes como o governador da Califórnia, Gavin Newsom, depositaram suas esperanças em derrotar Trump e o Partido Republicano em seu próprio jogo, intensificando uma estratégia de comunicação baseada em provocações e insultos que Steve Bannon elogiou como uma resposta "energizada" à forma como Trump "mudou a política moderna".

Provavelmente não é coincidência que Newsom tenha se inclinado para essa estratégia, tendo demonstrado sua própria inclinação pela crueldade performática ao ajudar pessoalmente a destruir os pertences de pessoas em situação de rua. Além disso, se o caso alarmante do Partido Trabalhista britânico, que abraçou a hostilidade declarada à imigração e aos imigrantes, serve de exemplo, não devemos esperar resultados diferentes de partidos de centro-esquerda, especialmente quando o centro-esquerda copia a direita ao designar os segmentos igualitários e pró-imigração de sua própria base como o grupo externo a quem se deve desrespeitar os padrões morais. Muito mais promissor é o caminho traçado por Zohran Mamdani: um caminho que não se esquiva do conflito, mas também não se esquiva da virtude. Os vícios devem ser deixados para os perversos.

Olúfẹ́mi O. Táíwò é professor associado de Filosofia na Universidade de Georgetown e colunista da Boston Review. Seus livros incluem Elite Capture e Reconsidering Reparations.

7 de maio de 2020

Políticas de identidade e captura de elite

Os ricos e poderosos aproveitarão todas as oportunidades para sequestrar as energias ativistas para seus próprios fins.

Olúfẹ́mi O. Táíwò

Boston Review

The National Negro Business League with founder Booker T. Washington, c. 1910. Image: Wikimedia

Tradução / Em abril de 2020, , num artigo de opinião para o Washington Post, Andrew Yang, candidato à presidência nas primárias do partido democrata, sustentou que os asiático-americanos deveriam “intensificar” e abertamente apoiar as iniciativas de socorro às vítimas da pandemia para combater o racismo que acompanhou o crescimento dos casos de COVID-19. O apelo é um exemplo de “identity politics” (identitarismo), embora não do tipo que a expressão evoca para a maioria das pessoas. O identitarismo é geralmente visto como a defesa de direitos de um determinado grupo, fundada na sua vitimização coletiva. Porém, muitas vezes, seja por acaso ou intencionalmente, o identitarismo atende a um conjunto mais restrito de interesses, como os objetivos eleitorais de um candidato democrata. O argumento de Yang, por exemplo, atribui ao próprio grupo vítima de racismo a responsabilidade de se mostrar digno de ser americano, ao mesmo tempo em que pede pouco à maioria não asiática dos EUA, de cujos votos depende o seu futuro político.

O termo “identity politics” (identitarismo) foi popularizado pelo manifesto do coletivo Combahee River — uma organização de ativistas feministas negras –– publicado em 1977. Numa entrevista recente para a revista online The Root e em artigo publicado no The Guardian, Barbara Smith, uma das fundadoras do coletivo, aborda os equívocos comuns sobre o termo. O manifesto, ela explica, foi escrito por mulheres negras que reivindicavam o direito de definir suas próprias agendas políticas. Elas não se projetaram como uma aristocracia moral –– elas formularam um ponto de vista político pautado pela experiência comum para superar “problemas comuns”. Daí a defesa da coalizão de pessoas de distintas origens, uma abordagem que para Smith foi exemplificada pelo trabalho de base da campanha de Bernie Sanders e seu foco nas questões sociais que as pessoas de várias identidades enfrentam, especialmente “necessidades básicas de alimentação, moradia e saúde.” De acordo com Smith, os usos atuais do conceito “identity politics” (identitarismo) são muitas vezes “muito diferentes do que pretendíamos”. “Não queríamos, de forma alguma, trabalhar apenas com pessoas que eram idênticas a nós”, ela insiste. “Acreditávamos fortemente em coalizões e no trabalho com pessoas de várias identidades para enfrentar problemas comuns.”

Mas, ao invés de forjar alianças inclusivas, alguns ativistas optaram por instrumentalizar o identitarismo, cerrando fileiras — especialmente nas redes sociais — em torno de concepções de “interesses de grupo” cada vez mais estreitas, em lugar da solidariedade. O identitarismo, em si, não é o culpado. O problema é que, como tantas outras coisas, ele é vítima de um “sequestro” orquestrado por elites políticas, sociais e econômicas a serviço de seus próprios interesses e não das pessoas vulneráveis que muitas vezes essas elites afirmam representar.

O conceito de captura pela elite (elite capture) originou-se no estudo dos países em desenvolvimento para descrever a maneira como as pessoas socialmente favorecidas tendem a obter controle sobre os benefícios financeiros destinados a todos, especialmente os oriundos da ajuda externa. Mas o conceito também foi aplicado de forma genérica para descrever como os projetos políticos podem ser sequestrados — em princípio ou de fato — por pessoas bem posicionadas e com recursos, como exemplifica o chamado à “intensificação” do candidato democrata Yang. A ideia também ajuda a explicar como recursos públicos, tais como conhecimento, cobertura e valores, são distorcidos e distribuídos entre nossas estruturas de poder. E é precisamente isso o que se encontra entre nós e a visão de Smith sobre a “política de coalizão.”

A captura pela elite é responsável por muitas das objeções levantadas contra o identitarismo: o apoio acrítico a figuras públicas a despeito da sua política, ou ainda preocupações sociais que são “realmente para brancos ricos” . Alguns críticos perceberam isso; Saagar Enjeti até usa a palavra “elite” em sua recente e “descontraída” crítica à “elite obcecada por política de identidade” no interior do Partido Democrata. Como Enjeti afirma, “as pessoas que povoam nossas redações” também “povoam a classe de gestores profissionais e têm um impacto excessivo em nosso discurso político contemporâneo”. Apesar de ter identificado o problema em torno do uso dominante do termo identitarismo –– qual seja o impacto descomunal de pessoas bem posicionadas em nosso discurso político —, Enjeti transparece ser este um problema específico de uma ala de um partido político. De fato, as dinâmicas subjacentes são tão antigas quanto a própria política e não se limitam a uma política particular de identidade social.

Em 1957, o sociólogo pioneiro afro-americano E. Franklin Frazier publicou seu estudo sobre a classe média negra dos Estados Unidos: Black Bourgeoisie (A Burguesia Negra). Esse trabalho pode ser classificado como um estudo inovador acerca da captura da política pelas elites. Frazier acusa a classe média negra de ser insegura e impotente, constantemente construindo um mundo de “faz de conta” para lidar com o “complexo de inferioridade” gerado pela histórica e brutal dominação racial nos Estados Unidos. Controverso desde sua publicação, o prefácio à edição de 1962 registra que Frazier foi, ao mesmo tempo, aplaudido por sua coragem e ameaçado de agressão.

Um dos argumentos do livro discute a estratégia política de promoção racial adotada ao longo de gerações: o projeto de construir uma economia negra paralela separada dentro dos Estados Unidos. Em 1900, por exemplo, Booker T. Washington organizou a National Negro Business League, reunida pela primeira vez em Boston. A liga foi saudada com entusiasmo e fanfarra; muitos líderes empresariais afro-americanos presentes nutriam esperanças de que esse tipo de iniciativa fosse a solução para erradicar os danos do racismo branco.

Frazier argumenta que a abordagem de Washington, além de equivocada, baseia-se numa análise falha do potencial econômico dos negócios afro-americanos. O patrimônio líquido total de todos os 115 participantes originais não alcançava sequer US$1 milhão. Na época em que Frazier escreveu seu livro, em 1955, se combinados, todos os onze bancos de propriedade de negros nos EUA não somavam o capital de um único banco de porte médio de qualquer pequena cidade branca norte-americana. Simplesmente, não havia suficiente riqueza em mãos negras para que uma economia paralela e separada se “autossustentasse”. Mesmo que a iniciativa conseguisse mobilizar consumidores para adquirir produtos de empresas negras — com os dólares de operários negros das fábricas da Ford, por exemplo —, ainda assim não surgiria uma economia paralela. No entanto, logo após o quinquagésimo aniversário do grupo, a liga reafirmou a sua missão: a pregação do evangelho da fé no black business. Não surpreende que Frazier vislumbre, para os anos 60, a continuação da economia afro-americana como uma doce ilusão, tal qual havia sido na virada do século.

Por que o mito da economia negra como resposta abrangente ao racismo anti-negro sobreviveu, mesmo quando proeminentes empresários negros estavam cientes de que não se tratava de um plano viável? Segundo Frazier, interesses particulares de classe da pequena mas influente burguesia negra sustentaram a ideia. Alguns eram proprietários de empresas esperançosos em desfrutar o monopólio do mercado econômico afro-americano. Outros eram profissionais assalariados — de longe a maior porcentagem da classe média negra da época — interessados em trabalhar para empresas de marketing de propriedade de brancos com base em seu suposto conhecimento do poder de compra inexplorado dos negros. De qualquer forma, a National Negro Business League promoveu um ponto de vista que encorajou as pessoas a enfrentar o complexo problema da hegemonia branca no campo da política, cultura e economia com a premissa mítica de que os negros poderiam escapar da dominação através do consumo e do investimento.

Frazier reserva suas críticas mais contundentes à imprensa negra, “o principal meio de comunicação que cria e perpetua o mundo do faz de conta para a burguesia negra”. Apesar de reconhecer as contribuições de publicações negras como o Chicago Defender e o Frederick Douglass’s Paper, ele insiste que a “demanda da imprensa negra por igualdade para o negro na vida americana está preocupada principalmente com as oportunidades que irão beneficiar economicamente a burguesia negra e melhorar o status social do negro”. O controle da elite sobre a proeminente mídia negra promoveu os interesses particulares de um subgrupo à revelia da maioria dos negros. Como exemplo, Frazier observa que o jornal negro Journal and Guide de Norfolk, Virgínia, celebrou a eleição de um médico negro para a presidência de uma afiliada local da American Medical Association — apesar de ele ter se oposto à “medicina socializada,” o que sem dúvida teria beneficiado os afro-americanos da classe trabalhadora.

Frazier conclui que, seja na imprensa negra ou no mundo dos negócios, “a burguesia negra não mostrou interesse na ‘libertação’ dos negros” — isto é, a menos que “isso afetasse seu próprio status ou aceitação pela comunidade branca”. Em todas as oportunidades, “a burguesia negra explorou as massas negras tão cruelmente quanto os brancos”. Frazier, certamente, exagera nessa afirmação, mas seu livro evidencia um fenômeno comum.

Para uma melhor compreensão dessa dinâmica, podemos usar como referência o trabalho sobre jogos do filósofo C. Thi Nguyen. Como ele explica em seu novo livro Games: Agency as Art (2020), confundir o mundo real com a estrutura cuidadosamente incentivada dos mundos dos jogos pode levar a um fenômeno que ele chama de “captura de valores”, um processo pelo qual progressivamente substituímos ricos e sutis valores por versões simplificadas destes mesmos valores assimilados em nossa vida social. Nguyen é cuidadoso ao indicar que a captura de valores não requer a intervenção deliberada ou calculada de ninguém, apenas um ambiente ou estrutura de incentivos que assegure uma intensa clareza artificial na relação entre valores e ações.

Nguyen não mencionou que outro risco de “gamificar os valores” é a distribuição desigual de poder entre os participantes. Afinal, fora do mundo dos jogos, o desequilíbrio de poder determina os cenários. A captura de valores é conduzida pelas elites, propositalmente ou não. Em outras palavras, as elites não somente participam de nossa comunidade; suas decisões ajudam a estruturá-la, da mesma forma que os designers de jogos estruturam o mundo dos jogos. Afinal, as elites enfrentam uma versão mais simples da opressão do que os grupos subalternizados: enquanto os negros da classe trabalhadora são afetados pelo desprezo racial, pauperização e problemas econômicos que talvez necessitem de uma “medicina socializada” para resolvê-los, a posição econômica das elites as deixa confortáveis o suficiente para concentrarem-se em seu próprio status e poder cultural — muitas vezes às custas dos subalternizados.

Em seu livro From #BlackLivesMatter to Black Liberation (2016), Keeanga-Yamahtta Taylor fornece um exemplo revelador. O apoio da bancada negra do Congresso americano (Congressional Black Caucus) à lei anti-abuso de drogas de Ronald Reagan de 1986 contribuiu para acelerar o encarceramento em massa ao estabelecer uma condenação mínima obrigatória e assegurar US$ 1,7 bilhão para “a guerra às drogas”, enquanto os programas de bem-estar eram cortados. O apoio a essa legislação permitiu que as elites negras do Congresso parecessem realmente envolvidas com a resposta à epidemia de crack. Mas com a aprovação da lei, a classe trabalhadora negra passou a enfrentar dois problemas interligados: a epidemia de drogas — não resolvida por essa legislação draconiana — e o uso racista da lei desencadeado pela própria legislação. Em Crack (2019), uma narrativa histórica deste período, o historiador David Farber cita a surpreendente avaliação do senador democrata Daniel Patrick Moynihan:

"Se colocarmos a culpa do crime no crack, nossos políticos ficarão fora do radar. Esquecidas, as escolas fracassam, são nefastos os programas de bem-estar, abandonam-se os bairros, perdem-se os anos. Só o crack é o culpado. Somos levados a pensar que, se o crack não existisse, alguém em algum lugar receberia verba federal para desenvolvê-lo."

Tal captura pela elite ameaça a estrutura de valores de todo um grupo, pois seus membros acabam sendo confrontados por esta simplificação dos seus valores fundantes e incentivados a adotá-la. Com o tempo, isso pode levar à mudança na compreensão dos valores desse mesmo grupo — tanto por seus membros quanto por outras pessoas externas a ele — em direção à visão simplista das elites.

Há, ainda, uma outra percepção construída através da aplicação da analogia dos jogos à nossa discussão sobre a apropriação pela elite. As decisões relativas ao design estruturam o ambiente artificialmente construído de um jogo, incorporando a visão dos designers às decisões que os jogadores devem tomar. De maneira semelhante, o processo decisório das elites determina quais opções estarão disponíveis às demais classes sociais (não-elites). Este é precisamente o papel que a imprensa, influenciadores digitais, o alto escalão militar e os titãs do capital têm em nossas vidas. Ou seja, eles definem as condições de trabalho (e lazer) para o resto de nós.

Isso ajuda a iluminar os desenvolvimentos na política da elite negra desde que Frazier escreveu nos anos 1950. Na época de Frazier, havia diferenças de classe entre os afro-americanos, mas muito poucos negros americanos acumulavam um notável poder político ou nível de riqueza que os assegurasse influência social. Mas isso mudou, como aponta Keeanga-Yamahtta Taylor:

"A transformação mais significativa em toda a vida negra nos últimos cinquenta anos foi o surgimento de uma elite negra, apoiada pela classe política negra, que foi responsável por operar cortes e administrar magros orçamentos em prejuízo dos eleitores negros."

Essa mudança se demonstrou dramática em Baltimore durante os protestos pelo assassinato de Freddie Gray. Taylor continua: “quando um prefeito negro, governando uma cidade predominantemente negra, ajuda na mobilização de uma unidade militar liderada por uma mulher negra para reprimir uma rebelião negra, estamos em um novo período de luta pela liberdade dos negros.”

A ação política dos negros e negras não é a única a ser capturada pela elite; trata-se de uma característica geral da política, em qualquer lugar e em todos os lugares. Sem maiores problemas, eu poderia concentrar a minha análise no mundo das universidades de elite. Na obra Philosophy of African American Studies (2015), por exemplo, Stephen Ferguson II apresenta um argumento semelhante sobre a apropriação, pela elite, dos estudos raciais — que inclusive devem a sua existência aos movimentos estudantis radicais das décadas de 1960 e 1970, mas, desde então, foram “transformados numa engrenagem burocrática na roda acadêmica controlada pelos administradores, praticamente sem nenhuma contribuição democrática dos alunos ou da classe trabalhadora negra”. Eu também poderia manter a perspectiva geral, mas invertendo o papel da raça e da classe. Por exemplo, em organizações socialistas, concluir-se-ia que brancos também tendem a se apropriar da política do grupo.

Ou, ainda, poderíamos desviar o olhar da raça em direção a um conjunto diferente de características identitárias. No artigo do Buzzfeed You Wanted Same-Sex Marriage? Now You Have Pete Buttigieg, Shannon Keating lamenta a trajetória mainstream da política queer distanciada dos elementos mais radicais tão marcantes na revolta de Stonewall, em 1969, e no ACT UP. Ou refletir como o The Wing, um espaço de coworking que se autodenomina uma “utopia feminina”, explora as mulheres que trabalham para elas.

E, claro, o uso desviante do identitarismo pela elite não se limita aos Estados Unidos. É também um problema saliente na política do Sul Global, onde as identidades nacionais, étnicas e de casta são moldadas por uma mistura instável de história indígena e colonial. A acadêmica da área dos estudos da paz, Camilla Orjuela, argumenta que, do Sri Lanka ao Quênia, a política em sociedades multiétnicas do Sul Global facilmente cai em ciclos de espera para que as elites aloquem recursos com base em critérios explicitamente étnicos e regionais. Afinal, as elites de todos os outros grupos étnicos farão o mesmo quando estiverem no poder. O jornalista John Githongo descreve essas elites étnicas como “criaturas do mecenato e [...] tráfico de influência” que tratam o Estado como uma escada para seus próprios objetivos, em vez de uma instituição de responsabilidade coletiva. Essas vertentes conceituais são vividamente ilustradas pela história dos ditadores haitianos apoiados pelos EUA, “Papa Doc” e “Baby Doc” Duvalier . Os Duvaliers cinicamente usaram tropos retirados da religião Vodu, popular entre as camadas pobres do país, para intimidar os cidadãos e enriquecerem-se . Ao mesmo tempo, eles desencadearam uma violência indescritível sobre os verdadeiros praticantes de Vodu, temendo o potencial revolucionário da religião, que foi fundamental para acabar com a escravidão na ilha.

O manifesto do coletivo Combahee River parte de uma profunda compreensão do processo de captura pela elite para oferecer uma resposta fundada em princípios. Sua posição foi gestada nas experiências dos movimentos sociais das décadas de 60 e 70. A historiadora Duchess Harris relata que, em 1961, o presidente John F. Kennedy criou a Comissão sobre o Status da Mulher. A comissão estava dividida em quatro órgãos consultivos, um dos quais era a Consulta sobre as Mulheres Negras. Estas iniciativas se desenvolveram e se multiplicaram; a terceira Conferência Nacional das Comissões sobre o Status da Mulher deu origem à reunião que fundou a Organização Nacional para Mulheres (NOW), cujas fundadoras esperavam que servisse como uma espécie de “NAACP” para mulheres. No entanto, a NOW falhou em cumprir essa promessa de tratar a questão racial com seriedade — e as organizações nacionalistas negras falharam igualmente em abordar as questões de gênero. Como resultado, ativistas, incluindo Shirley Chisholm e Alice Walker, formaram, em 1973, a National Black Feminist Organization (NBFO). Em 1974, a jovem ativista Barbara Smith conheceu Demita Frazier depois que ela começou a trabalhar para construir uma filial da NBFO em Boston. A dupla concordou com muitos objetivos da NBFO, mas também queriam uma organização que pudesse discutir o tema da “economia radical” mais livremente e garantisse voz para as lésbicas. De uma reunião de quatro pessoas começou o coletivo Combahee River: um coletivo político socialista e feminista negro. De 1977 a 1980, elas realizaram sete retiros com outras ativistas, aos quais compareceram ativistas veteranas de Boston com a mesma mentalidade, e até mesmo Audre Lorde.

As experiências que uniram essas mulheres –– ao terem suas prioridades políticas sistematicamente postas de lado ou desvalorizadas em diferentes organizações — resultaram na postura que desenvolveram e que batizaram de identity politics (identitarismo). Smith explicou suas motivações dizendo: “Nós, como mulheres negras, tínhamos realmente o direito de criar prioridades políticas e agendas e ações e soluções com base em nossas experiências” — uma agenda política baseada em suas experiências e seus interesses, não como token de mulheres brancas ou como secretárias de líderes e dirigentes negros, e com toda a complexidade de seus valores em vista, não uma caricatura degradada e disforme deles.

Um problema central com a apropriação é que o subgrupo de pessoas com poder e acesso aos recursos que são usados para descrever, definir e criar realidades políticas — em outras palavras, as elites — são substancialmente diferentes do conjunto total de pessoas afetadas pelas decisões que são tomadas. Como a parte do grupo mais próxima do poder e dos recursos, eles são normalmente a parte cujos interesses se distanciam dos interesses comuns da maior parte do grupo. Na ausência de freios ou restrições, eles irão capturar os valores do grupo, forçando as pessoas a se associarem a um projeto social mais restrito do que o grupo faria se o poder fosse distribuído de forma diferente. Quando as elites comandam o show, os interesses do “grupo” são reduzidos ao que eles têm em comum com os que estão no topo.

Vista como uma resposta a esse tipo de problema, a visão de Smith sobre o identitarismo, ela afirma, não foi uma alternativa oposta à coalizão política, mas uma condição para que essa existisse. O Combahee River enfatizava as diferenças individuais não como um fator decisivo para a participação na luta, mas sim para revelar as limitações na definição da escala e escopo tanto dos problemas como das respectivas soluções.

Posto dessa forma, faz mais sentido que Frazier tenha aplicado a sua crítica à burguesia negra também ao mundo dos negócios, à mídia e à cultura popular. Isso também esclarece por que a captura pela elite não é um problema exclusivo do identitarismo. Se a captura se resumir à maneira como o poder e os recursos tendem a ser distribuídos dentro dos grupos, e não simplesmente entre os grupos, então trata-se de um problema comum da política num mundo que distribui poder e recursos de maneira injusta e desigual. As elites controlam as ideias em circulação acerca das identidades pelos mesmos métodos e pelas mesmas razões que elas obtêm controle sobre todo o resto.

No prefácio à edição de 1962 de Black Bourgeoisie, Frazier sinaliza um grupo chave que ele decerto consideraria caso escrevesse o livro novamente: os participantes das manifestações e outros movimentos sociais contra a segregação racial. Quando instigado por um editor a imaginar uma elite negra alternativa que não merecesse a crítica contundente que ele fez à atual, esses ativistas serviram-lhe de resposta.

Isso é um começo, mas não o suficiente. Como o coletivo Combahee River reconheceu, apenas ser ativista não garante que desenvolveremos o tipo certo de cultura política; suas fundadoras eram veteranas de importantes movimentos políticos radicais que, no entanto, se desviaram ao longo do caminho. As elites precisam se envolver — realmente se envolver — mas esse envolvimento precisa resistir à captura de valores pela elite e à gamificação da vida política.

Estamos diante de uma situação complexa, mas felizmente não estamos começando do zero: temos uma rica história para nos inspirar. Na década de 1960, as feministas realizavam reuniões regulares, em casas e apartamentos, para discutir desigualdade de gênero de uma forma considerada tabu para organizações mistas da época. Um conjunto de diretrizes para o “aumento da consciência”, elaborado por Barbara Smith e suas colegas ativistas Tia Cross, Freada Klein e Beverly Smith fornece um exemplo do modelo de identitarismo que o Combahee River projetou. O exercício começa pedindo aos participantes que examinem suas próprias deficiências (“Quando você percebeu que tratava pessoas de cor de uma maneira diferente?”), mas termina questionando como elas podem usar uma opressão sofrida por todas como uma ponte para unir as pessoas diferentes (“De que maneiras a opressão lésbica compartilhada poderia ser usada para construir conexões entre mulheres brancas e mulheres de cor?”). Porque, no fim das contas, estamos nisso juntos — e, do ponto de vista do identitarismo, essa é a razão de fundo.

Olúfẹ́mi O. Táíwò

Olúfẹ́mi O. Táíwò é Professor Assistente de Filosofia na Georgetown University.

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