15 de janeiro de 2016

Relembrando Ellen Meiksins Wood

Ellen Meiksins Wood mostrou a muitos de nós o que significa ser um intelectual comprometido.

Vivek Chibber

Jacobin


Ellen Meiksins Wood faleceu em 14 de janeiro de 2016 após uma longa luta contra o câncer. Wood foi uma pensadora de categoria extraordinária, que escreveu com autoridade sobre a Grécia Antiga, o pensamento político de começos da idade moderna, a teoria política contemporânea, o marxismo, e a estrutura e evolução do capitalismo moderno. Mas o que convêm destacar sobretudo é que foi uma das poucas integrantes da New Left que nunca cedeu em seu compromisso com a política socialista. De fato, foi com seu livro The Retreat from Class (O recuo da classe), publicado em 1986, quando fez ato de presença como figura importante da esquerda intelectual. Aquele livro foi uma das primeiras críticas, e sem dúvida uma muito convincente, à corrente pós-marxista emergente que estava tomando forma dentro da “nova esquerda” estadunidense. De um ponto de vista intelectual, formulou uma vigorosa defesa do materialismo histórico frente às críticas pós-marxistas; politicamente, anunciou a oposição de Woods a uma geração que, após um breve flerte com a política socialista, se voltava contra esta com feroz intensidade.

A defesa que Wood fez da análise de classe sempre se combinou com a insistência na necessidade de fundamentá-lo mediante a investigação empírica. Sobre esta base nunca exitou em acertar as contas inclusive com aqueles historiadores e teóricos que lhe eram mais próximos. Em Peasant-Citizen e Slave (Camponês-cidadão e escravo), discutiu com G.E.M. de Ste. Croix, talvez um dos maiores historiadores da antiguidade e sem dúvida o mais ilustre analista marxista daquela época, que sustentou em seu libro The Class Struggle in the Ancient Greek World (A luta de classes na Grécia Antiga) que a principal fonte de mais-valia tanto na Grécia como em Roma era o trabalho escravo. Wood argumentou que, embora Ste. Croix tivesse sem dúvida razão no que respeita à importância do trabalho escravo na antiguidade, na realidade exagerava muito sua centralidade na produção de excedentes. Baseou seu argumento em um minucioso estudo de fontes primárias, mediante o qual não só rebateu a Ste. Croix, mas que também elaborou uma das análises materialistas mais convincentes da estrutura da democracia grega. Pouco mais de uma década depois, Wood se enfrentou com Robert Brenner, seu amigo de toda a vida e camarada político, em torno às origens do capitalismo moderno. Apesar de ser profundamente influenciada pela explicação de Brenner sobre a origem do capitalismo na Inglaterra, Wood insistiu que sua análise da ascensão do capitalismo nos Países Baixos era empiricamente duvidosa e analiticamente deficiente. De novo, sua postura se baseava em um exame minucioso dos dados realizado com uma grande precisão analítica. Sua argumentação constitui talvez uma das principais críticas da influente obra de Brenner.

Talvez o aspecto mais conhecido de Wood seja seu papel no desenvolvimento do “marxismo político”. Este é o nome dado a uma discussão sobre a estrutura e as origens do capitalismo, baseado sobretudo na obra do historiador Robert Brenner. Este e seus colegas argumentaram que o que define o capitalismo é um conjunto particular de relações de propriedade social que são exclusivas da idade moderna e que forçam todos os agentes econômicos a depender do mercado. Enquanto que em todas as épocas prévias a produção estava orientada para a subsistência, o capitalismo é o primeiro sistema econômico que obriga os produtores a vender no mercado e, portanto, a ter que competir se querem sobreviver. Wood argumentou que isto tinha duas implicações muito importantes. Em primeiro lugar, que o capitalismo é o primeiro sistema econômico em que o mercado desempenha uma função central. Enquanto que os mercados existem há milênios, a nossa é a primeira época em que de fato regulam a produção e o intercâmbio e, portanto, geram a divisão social do trabalho. Isto não é fruto de um processo natural. Não existe nenhuma tendência intrínseca que faça com que os mercados cresçam até o ponto de deslocar as formas de produção pré-capitalistas. Eles tiveram que ser criados por meio da expropriação forçada de terras de agricultores.

Em segundo lugar, supõe que a maximização do lucro é algo que se impõe aos produtores como meio de sobrevivência. As empresas não geram lucros por avidez, mas porque se não o fazem, acabarão sendo expulsas do mercado. O mercado, portanto, não é uma instituição construída ao amparo do feliz exercício do espírito empreendedor, mas uma instituição sumamente coercitiva que não apenas domina os trabalhadores, mas também os capitalistas. Isto tem uma clara implicação política: que, enquanto a produção se basear na competição no mercado, o antagonismo entre trabalhadores e empresários é ineludível, já que enquanto os empresários tiverem que sobreviver ganhando a batalha competitiva, vão se esforçar sem cessar por minimizar seus custos. E isto significa que vão pressionar constantemente para baixo os salários e benefícios dos trabalhadores, como parte de sua estratégia de sobrevivência. O mercado confronta os capitalistas com seus próprios trabalhadores. Conclusão de Wood? Que enquanto se mantiver as relações de propriedade capitalistas, a luta de classes seguirá sendo o eixo central do conflito. Nos anos posteriores à publicação de The Retreat from Class, Wood publicou dezenas de ensaios nos quais aprofunda este argumento e demonstra como a teoria política passa por alto a toxicidade do capitalismo por sua própria conta e risco.

Em seus últimos anos, Wood embarcou em uma análise extraordinariamente ambiciosa da evolução do pensamento político, desde a antiguidade até a idade moderna. Wood tratou de situar os pensadores centrais de cada época em seu contexto social, leia-se de classe, mostrando como os principais temas e argumentos estavam vinculados à dinâmica política central da época, e, portanto, relacionando às ideologias políticas de cada época com a estrutura de classes subjacente. Ela tinha completado dois volumes da série, que se estende desde os gregos até o Iluminismo. O terceiro volume, que devia chegar até o nosso século, estava em preparação, mas agora ficaram inconclusas.

Eu só me encontrei com Ellen em um par de ocasiões, mas como tantos outros da esquerda, sinto que tenho contraída com ela uma enorme dívida. Não apenas foi uma teórica fantasticamente dotada, talvez a mais brilhante de sua geração, mas que também soube manter moral e politicamente seu fundamento ao longo do que sem dúvida tem sido o período mais difícil para a esquerda desde que existe. Ellen mostrou a tantos de nós o que significa ser um intelectual comprometido; que é possível ser intensamente moral e incessantemente analítico; ser apaixonado, mas trabalhar com fria atenção pelo detalhe; estar profundamente arraigado em um movimento, mas manter o próprio juízo independente. Obtinha tudo isto com tão pouco esforço que só se pode tentar imitá-la. Seu desaparecimento é uma perda que sentiremos profundamente durante muito tempo. E, infelizmente, é uma perda que a esquerda ainda não tem os recursos para absorver.

Colaborador

Vivek Chibber é professor de sociologia na New York University. Ele é editor do Catalyst: A Journal of Theory and Strategy.

14 de janeiro de 2016

Ellen Meiksins Wood (1942-2016)

Ellen Meiksins Wood deu vida à teoria política marxista.

Corey Robin

Jacobin

Ellen Meiksins Wood falando em Berlim, Alemanha, 8 de maio de 2012. (Rosa Luxemburg-Stiftung / Wikimedia Commons)

Eu vim a conhecer o trabalho de Ellen Meiksins Wood tarde na vida. Eu tinha conhecimento sobre ela durante anos; ela era um boa amiga da minha amiga Karen Orren, a cientista político da UCLA, que estava constantemente me pedindo para ler o trabalho de Wood. Mas eu só fiz isso, finalmente, há dois anos, por sugestão de, eu acho que foi, Paul Heideman.

Eu li A Origem do Capitalismo. Foi um daqueles momentos "Aha!". Wood era uma pensadora extraordinariamente rigorosa e imaginativa, alguém que deu vida à teoria política marxista e tornou a falar - não só para mim, mas para muitos outros - em múltiplos níveis: histórico, teórico, político. Ela variou destemidamente por todo o cânone, desde os antigos gregos à teoria social contemporânea, sem se intimidar com reivindicações especializadas ou pieguices de domínio de glebas. Ela insistiu que temos de olhar para todos os tipos de contextos sociais e econômicos, ampliando nosso senso do que é um contexto.

Ela realmente tinha uma teoria do capitalismo e que é distinguido de outras formas sociais: que não era meramente de troca comercial, que não evoluiu de uma propensão natural para troca e comércio, que não era uma criação de mercados urbanos. A dela era uma teoria política do capitalismo: o capitalismo foi criado por meio de atos de força e foi mantido como um modo de força (embora, um modo de força que foi exercido principalmente através da economia).

Ela também foi uma escritora extraordinariamente clara: despretensiosa, livre de jargões, simples. Na semana passada, eu tinha começado a ler Citizens to Lords, e eu tinha acumulado lentamente uma lista de perguntas que eu esperava fazer a ela um dia que por acaso pudéssemos nos encontrar pessoalmente. Agora ela se foi. O trabalho continua.

Colaborador

Corey Robin é o autor de The Reactionary Mind: Conservatism from Edmund Burke to Donald Trump e editor colaborador da Jacobin.

A ameaça de um Haiti livre

Como a Revolução Haitiana semeou o medo nos corações da classe escravocrata de Cuba.

Samuel Farber 


Batalha em San Domingo, uma pintura de January Suchodolski, representando uma luta entre as tropas polonesas ao serviço francês contra os escravos rebeldes e soldados revolucionários libertados. Wikimedia.

Tradução / Em 1791, enquanto a França entrava nos estágios iniciais de sua revolução, os escravos de sua colônia caribenha, Santo Domingos, rebelaram-se e pegaram em armas. Foi a primeira revolta de escravos bem sucedida na história, uma revolta que derrubou o domínio colonial branco e estabeleceu o novo estado do Haiti em 1804.

A Revolução Haitiana causou arrepios nas propriedades européias no Caribe e na América Latina, e nos Estados Unidos então recém-independentes. Tornou-se um tremendo símbolo de esperança para os povos escravizados nesses países e um tremendo terror para os senhores proprietários, em especial para aqueles que viviam nas colônias. Seus efeitos se estenderam ao movimento de independência sul-americano liderado por Simon Bolívar e à França, particularmente durante os momentos mais radicais de sua própria revolução.

Em “Espelho da Liberdade: Cuba e Haiti na Era da Revolução”, a historiadora Ada Ferrer faz uma avaliação abrangente do impacto da Revolução Haitiana sobre Cuba, então uma colônia espanhola localizada a apenas 80 quilômetros das fronteiras marítimas ocidentais do Haiti.

Ferrer – cujo livro anterior, “Cuba Insurgente”, examinava as dimensões raciais do movimento pró-independência na ilha na segunda metade do século XIX – desenvolve uma avaliação abrangente de como a Revolução Haitiana levou à intensificação do latifúndio escravista em Cuba, fomentando a uma só vez o poder crescente dos senhores de escravos e um novo espírito de rebeldia entre os escravos, intensificando um antagonismo que culminou em várias conspirações e rebeliões de escravos fracassadas.

Quando a revolta eclodiu em 1791, Santo Domingos tinha oitocentos latifúndios de cana de açúcar que juntos produziam tanto açúcar quanto todas as colônias do Caribe britânico juntas. Quando chegou ao fim, a produção de açúcar havia colapsado no Haiti, juntamente com a escravidão e o domínio francês.

Com a insurgência de escravos levando ao colapso da plantação e manufatura do açúcar no Haiti, a produção explodiu na vizinha Cuba, assim como se desenvolveu um novo sistema de plantação de café estabelecido por refugiados brancos de Santo Domingos, na parte oriental da ilha.

Nos trinta anos que se seguiram, aproximadamente 325.000 africanos foram trazidos para Cuba como escravos, mais de quatro vezes o número trazido nas três décadas anteriores. Em 1804, as exportações de açúcar cubano aumentaram de 15.000 toneladas para 40.000. Entre 1791 e 1810, a população de Havana duplicou. A economia e a sociedade de Cuba foram rapidamente transformadas.

O crescimento da produção de açúcar e a importação maciça de escravos converteram Cuba numa sociedade distintamente escravagista. Governantes e a elite branca cubana ficaram obcecados com o “equilíbrio racial” da população. Já em 1815 as autoridades coloniais estabeleceram uma “Junta de Población Blanca” (Conselho da População Branca) encarregada de aumentar a imigração branca.

Em 1817, as autoridades espanholas emitiram um decreto real, especificamente desenhado para atrair colonos brancos para a ilha, estendendo os direitos de propriedade e isenções fiscais para todos os europeus que migrassem. Assim, a elite dirigente cubana conseguiu restabelecer a maioria branca após a primeira metade do século XIX.

Colônias sangrentas

Entre as muitas virtudes do trabalho de Ferrer está sua vívida descrição da mentalidade dos senhores de escravos cubanos ao se verem frente às conseqüências da Revolução Haitiana, que disseminou terror, ainda que a chegada de cerca de 35.000 refugiados brancos de Santo Domingos (nem todos permaneceram em Cuba) tenha servido para fortalecer seu poder de classe.

Assombrados ao longo de todo o século XIX pelo espectro do Haiti, escreve Ferrer, proprietários de escravos cubanos incessantemente invocavam uma imagem dessa revolução, na qual “os escravos se levantaram, mataram mestres, cobriram de sangue a mais rica colônia do mundo e a transformaram em uma montanha de cinzas “.

Essa imagem convenientemente obscurecia as atrocidades francesas, que aceleraram a rebelião de escravos, tais como as narradas por Nicolas Geffrard, uma testemunha ocular citada por Ferrer, que conseguira escapar de Santo Domingos em outubro de 1802, quando as forças francesas na cidade portuária de Le Cap cercaram e afogaram milhares de membros negros do exército colonial francês.

Simultaneamente, o relato de Ferrer revela que por trás da ideologia racista e colonial dessas histórias de horror se escondia um medo de classe fundamentalmente racional. Entre as muitas expressões de medo, a obsessão dos proprietários de escravos na congregação de muitos “negros franceses”, se referindo aos negros haitianos, em Havana, que foram identificados como uma fonte potencial de contágio político para escravos nascidos em Cuba – uma preocupação validada pela descoberta de cinco pequenas conspirações de escravos e rebeliões na região perto da capital entre 1802 e 1803.

Em 1811, as Cortes de Cádiz na Espanha – pressionadas a estabelecer uma monarquia constitucional liberal pela resistência nacionalista à ocupação francesa que acompanhou a Guerra Ibérica – começaram a considerar uma série de reformas no sistema escravista, incluindo a possibilidade de sua abolição.

O delegado cubano à convenção constitucional em que ocorreram as discussões insistiu que as considerações a respeito de tais medidas fossem mantidas em segredo, expressando ansiedade de que a mera discussão de reformas levaria a uma catástrofe na ilha. Sua proposta foi aprovada por unanimidade. Os temores dos cubanos brancos de “outro Santo Domingos” atrasaria a abolição da escravidão e a luta armada pela independência da Espanha até a segunda metade do século XIX.

A escravocracia cubana não suportaria a própria existência da nação negra independente vizinha. A preocupação primordial dos donos de escravos não era a ameaça de uma invasão, nem mesmo a instigação à revolta em Cuba, mas o perigo que representava para o comércio marítimo cubano, que trazia a mão de obra escrava para a ilha e levava o açúcar para fora. No entanto, como mostra Ferrer, o medo dos proprietários de escravos cubanos de rebelião negra e a desconfiança com seus novos vizinhos nunca poderiam competir com o fascínio dos lucros do tráfico de escravos.

Com a cumplicidade de compradores locais e autoridades governamentais, os proprietários de fazendas cubanas continuaram a comprar e vender escravos, incluindo negros livres capturados em Santo Domingos, ex-insurgentes entre eles. Por um constante flerte com a anexação americana, a classe dominante colonial de Cuba repeliu qualquer gesto de reforma vindo do império espanhol.

Contágio político

Em um dos episódios mais elegantemente narrados no livro, Ferrer relata como a chegada de um navio negreiro em Cuba durante os primeiros estágios da Revolução Haitiana trouxe a notícia do levante negro vitorioso, bem como alguns de seus protagonistas recapturados para serem vendidos: a destruição e reconstrução do sistema caribenho de escravidão em um único momento.

Apesar dos dados limitados, Ferrer é capaz de oferecer uma variedade de fontes que atestam o impacto dos escravos vindo de Santo Domingos e dos materiais gráficos e escritos que vieram juntos com eles. Ela descreve encontros de negros capturados recém chegados da África e escravos caribenhos, tanto aqueles nascidos em Cuba quanto aqueles transplantados do Haiti; as notícias (às vezes falsas ou incoerentes) e as opiniões que trocavam conforme tentavam antecipar o que o levante no Haiti significaria para Cuba, e a forma como mobilizavam essas notícias como um símbolo de sua própria libertação futura.

As pessoas e material gráfico chegaram rapidamente a Cuba vindo do Haiti. Ferrer descreve como os trabalhadores portuários negros carregavam cartazes impressos de líderes negros como Toussaint Louverture e os compartilhavam com escravos quando podiam. Apesar de tentativas de censura, a Declaração da Independência do Haiti foi traduzida para o espanhol e publicada em um jornal que circulava entre os negros cubanos, livres ou escravizados.

Os escravos rebeldes em Santo Domingos, assim como em Cuba, bebiam de um conjunto diverso de influências ideológicas. Ferrer cita o exemplo bem conhecido de um escravo rebelde capturado e executado em Santo Domingos em 1791, que estaria carregando pólvora, um talismã africano e panfletos de “Direitos do Homem” [do revolucionário britânico Thomas Paine]: símbolos da modernidade, da tradição africana e da Revolução Francesa em um único bolso.

A Revolução Francesa, então em escalada, parece ter exercido a influência mais significativa, particularmente em suas fases mais radicais. Mas o sinal viajou em ambas as direções: embora Ferrer não o mencione, em janeiro de 1794 a delegação multirracial de Santo Domingos foi recebida, como CLR James [intelectual marxista negro de Trinidad e Tobago] descreve de modo comovente em “Os Jacobinos Negros”, com grande entusiasmo pela Convenção Revolucionária Francesa, que procedeu a abolir a escravidão em todos os territórios franceses.

Da mesma forma, as tradições intelectuais e políticas sincretizadas influenciaram as conspirações e rebeliões de escravos em Cuba. Neste contexto, Ferrer discute a insurreição de 1812 liderada por José Antonio Aponte, homem negro livre, que era carpinteiro, artista e, possivelmente, um padre na religião afro-cubana da Santería.

Aponte e seus associados elaboraram um plano para queimar as usinas de açúcar e atacar as fortalezas e arsenais de Havana, apreendendo arsenal para armar os quatrocentos homens que, segundo Aponte, estavam organizados e esperando para se levantar quando convocados. Chegado o momento, Aponte emitiu uma declaração pública de libertação para todos os escravos, que mais tarde foi pregada às portas do palácio do governo.

O movimento foi violentamente esmagado e Aponte enforcado em 9 de abril de 1812. Sua rebelião teve lugar no período de atividade antiescravista efervescente nas colônias do Atlântico que se seguiram à Revolução Haitiana, ao lado de tramas e conspirações em Trinidad, Jamaica, Estados Unidos, Porto Rico e Brasil.

Liderança revolucionária

Nos anos que antecederam o estabelecimento formal do Estado haitiano, Ferrer mostra, a liderança revolucionária da ilha adotou uma política externa militante e antiescravista, ordenando ataques a navios espanhóis envolvidos no tráfico de escravos e enviando agentes para agitar contra a escravidão dentro das colônias espanholas.

Esta política foi renovada em 1809, após as autoridades coloniais em Havana, contra as orientações de Madrid, se recusarem a reconhecer o Haiti e estabelecer relações amistosas. Em resposta, Henri Christophe, governante de um estado estabelecido na parte norte do Haiti, começou a interceptar navios de escravos destinados a Havana e redirecioná-los a portos haitianos, convidando os escravos a bordo para desembarcar como cidadãos livres e devolvendo a embarcação e sua tripulação ao porto de origem.

Alexandre Petion, presidente do estado do sul do Haiti, ofereceu assistência moral e material a Simón Bolívar em sua luta pela independência da Espanha em troca da promessa do revolucionário venezuelano de abolir a escravidão nos países libertados e não vender como escravos os africanos a bordo dos navios tomados pelos insurgentes bolivarianos.

No papel, no papel, o artigo trinta e seis da Constituição do Haiti de 1805 prometia que o país não “perturbará a paz e a administração interna de colônias estrangeiras”. Mesmo antes, em 1799, Toussaint Louverture havia informado os britânicos de uma conspiração francesa para provocar uma rebelião de escravos na Jamaica, a fim de proteger o comércio do Haiti com os britânicos e americanos. Alguns anos mais tarde, em 1804-5, Jean-Jacques Dessalines, agindo no interesse do Estado haitiano, proclamou que o antiescravismo continuaria sendo uma política exclusivamente interna.

Ferrer aponta para considerações de longo e curto prazo por trás de tais mudanças políticas. Na visão de longo prazo, o Haiti era um Estado fraco, sujeito a ataques armados por parte dos franceses, e vulnerável ao isolamento econômico e político de outras potências escravistas operando no Caribe.

Mas a liderança haitiana adaptava suas políticas em resposta a questões imediatas. Entre 1805 e 1806, tomaram uma posição cautelosa sobre as rebeliões de escravos no exterior. De 1808 a 1811, no entanto, eles se envolveram mais agressivamente nas lutas antiescravistas estrangeiras porque consideraram as novas condições estratégicas como mais promissoras.

A análise de Ferrer sugere que, embora a Revolução Haitiana tenha ocorrido no momento em que a revolução industrial começou a decolar, o jovem Estado já enfrentava as pressões exercidas pelo capital organizado internacionalmente. Mesmo no final do século XVIII, um estado revolucionário como o Haiti enfrentou o dilema, típico do século XX, de pesar o internacionalismo solidário em relação a interesses nacionais mais urgentes.

Existem notáveis paralelos entre a política externa, cambiante, dos líderes revolucionários haitianos e a dos líderes da Revolução Cubana de 1959. A política externa cubana oscilou entre a ofensiva revolucionária e a defesa nacional, tanto em resposta a mudanças históricas quanto em relação a diferentes países e regiões.

Uma política agressiva em Angola e na África do Sul coexistiu com uma abordagem conservadora, condicionada pela Guerra Fria, na Etiópia e na Eritreia. O apoio aos guerrilheiros comunistas em muitos países latino-americanos não impediu relações amigáveis com o partido governista corrupto do México, o Partido Revolucionário Institucional, e com a Espanha de Franco. Como o Haiti, Cuba era um Estado fraco, vulnerável às agressões de uma superpotência imperialista, e dependia do apoio econômico e militar soviético.

No entanto, a influência sobre Cuba do marxismo stalinista importado da URSS, com suas premissas políticas da realpolitik, cristalizou a inconstante política externa cubana em um método que converteu a necessidade em virtude. Já no caso do Haiti, as limitações que impediram a Revolução Haitiana de realizar plenamente seus objetivos transformaram o destino da revolução em tragédia.

Colaborador

Samuel Farber nasceu e foi criado em Cuba e escreveu extensivamente sobre esse país. Seu mais novo livro, The Politics of Che Guevara: Theory and Practice, já saiu pela Haymarket Books.

10 de janeiro de 2016

O extremismo temerário da Arábia Saudita

Até agora, escreve o ministro das Relações Exteriores do Irã, Teerã agiu com moderação em relação às provocações de Riad.

Mohammad Javad Zarif

The New York Times

Manifestantes contra a Arábia Saudita se reuniram em Teerã na sexta-feira. Créditos: Abedin Taherkenareh/European Pressphoto Agency

Tradução / O mundo em breve comemorará a implementação de um acordo emblemático solucionando a crise desnecessária, embora perigosa, envolvendo o programa nuclear do Irã. Todas as partes esperavam, e continuam acreditando, que a solução dessa disputa permitirá que nos concentremos no grave desafio representado pelo extremismo que vem devastando nossa região e o mundo.

O presidente iraniano, Hassan Rohani, tem afirmado repetidamente que a principal prioridade da política externa do país é manter um relacionamento de amizade com seus vizinhos, paz e estabilidade na região – e uma cooperação global, particularmente na luta contra o extremismo. Em setembro de 2013, um mês após assumir o poder, ele apresentou uma iniciativa chamada Mundo contra a Violência e o Extremismo, aprovada por consenso pela Assembleia-Geral da ONU, trazendo a esperança de uma campanha global de longo alcance contra o terrorismo. Infelizmente, alguns países vêm criando obstáculos a esse compromisso construtivo.

Após a assinatura do acordo nuclear provisório, em novembro de 2013, a Arábia Saudita passou a direcionar recursos para destruir o acordo, impelida pelo medo de que sua “iranofobia” esteja desmoronando. Hoje, algumas pessoas em Riad não só continuam a dificultar a normalização, mas estão determinadas a arrastar a região inteira para o confronto.

A Arábia Saudita teme que a remoção da cortina de fumaça da questão nuclear deixará à mostra a verdadeira ameaça global: o seu patrocínio ativo do extremismo violento. O barbarismo está claro. Internamente, os carrascos do Estado saudita procedem a decapitações com espadas, como ocorreu na recente execução de 47 prisioneiros em um único dia, incluindo o xeque Nimr al-Nimr, uma respeitada autoridade religiosa que consagrou sua vida a promover a não violência e os direitos civis. Fora do país, homens mascarados cortam cabeças com facas.

Não devemos nos esquecer de que os responsáveis por muitos atos de horror, dos atentados do 11 de Setembro ao ataque a tiros em San Bernardino e outros episódios de massacres extremistas nesse ínterim – e também quase todos os membros de grupos extremistas como Al-Qaeda ou a Frente Al-Nusra – são cidadãos sauditas ou sofreram lavagem cerebral pelos demagogos financiados por petrodólares que promovem mensagens anti-islâmicas de ódio e sectarismo há décadas.

A estratégia saudita para destruir o acordo nuclear e perpetuar – e até exacerbar – a tensão na região tem três componentes: pressão sobre o Ocidente, promoção da instabilidade regional por meio da guerra no Iêmen e patrocínio do extremismo, e, indiretamente, provocação do Irã. A campanha militar de Riad no Iêmen e o seu apoio aos extremistas são bem conhecidos. As provocações contra o Irã não chegaram às manchetes internacionais graças à nossa prudente discrição.

O alto escalão do governo iraniano condeno o ataque contra a embaixada e o consulado sauditas em Teerã no dia 2, e garantiu a segurança dos diplomatas sauditas. Imediatamente, adotamos medidas para restaurar a ordem no complexo diplomático e afirmamos nossa determinação em levar os culpados à justiça. Também estabelecemos medidas disciplinares contra aqueles que não protegeram a embaixada e lançamos uma investigação interna para impedir qualquer situação similar.

O governo saudita e seus membros delegados, pelo contrário, nos últimos três anos, têm visado a instalações diplomáticas iranianas em ataques no Iêmen, no Líbano e no Paquistão, matando diplomatas iranianos e cidadãos locais. Ocorreram outras provocações. Peregrinos iranianos na Arábia Saudita são sistematicamente acossados. Em um caso, autoridades aeroportuárias sauditas molestaram dois garotos iranianos em Jeddah, o que provocou uma grande indignação.

A negligência saudita também foi responsável pela correria ocorrida durante recente peregrinação a Meca que deixou 464 iranianos mortos. Além disto, durante dias, as autoridades sauditas recusaram-se a atender aos pedidos das famílias enlutadas e do governo iraniano para repatriação de corpos.

Vale mencionar a prática rotineira de discursos de ódio não só contra o Irã, mas contra todos os muçulmanos xiitas por clérigos nomeados pelo governo saudita. A decapitação do xeque Al-Nimr foi imediatamente precedida de um sermão de ódio contra os xiitas pelo pregador da Grande Mesquita, em Meca, que no ano passado declarou que “nosso desacordo com os xiitas não será eliminado nem nosso suicídio para combatê-los” enquanto eles existirem na terra.

Em todos esses episódios, o Irã, confiante da sua força, rejeitou retaliar, romper ou rebaixar as relações diplomáticas com a Arábia Saudita. Até agora, temos respondido com moderação, mas a prudência unilateral é algo que não se sustenta. O Irã não deseja uma escalada das tensões na região. Precisamos de unidade para enfrentar as ameaças extremistas. Desde sua eleição, o presidente e eu temos deixado claro que privilegiamos o diálogo, a promoção da estabilidade e o combate ao extremismo desestabilizador. A tudo isso, a Arábia Saudita se faz de surda.

A liderança saudita tem agora de optar: ou continua apoiando os extremistas e promovendo o ódio sectário, ou assume um papel construtivo na promoção da estabilidade regional. Esperemos que a razão prevaleça.

8 de janeiro de 2016

O jovem Benjamin

O marxismo de Walter Benjamin deveu muito ao seu envolvimento inicial com o anarquismo e o surrealismo.

Michael Löwy



Tradução / A discussão sobre a obra de Walter Benjamin tradicionalmente teve como foco sua crítica cultural, geralmente deixando de lado seu engajamento com o marxismo. Ainda que tenha emergido nos últimos anos no interior do marxismo discussões substanciais sobre os escritos de Benjamin, focando principalmente em seus trabalhos mais “materialistas” dos anos 30, seus escritos marxistas iniciais – que representam uma forma bastante heterodoxa e pouco usual de associar anarquismo e comunismo –, contudo, merecem uma atenção maior.

Antes de 1924, o anarquismo parece ser a inspiração política principal do jovem Benjamin. Em sua conferência “A vida dos estudantes”(1915), ele presta homenagem ao “espírito tolstoiano” do serviço aos pobres, que cresceu “das ideias dos mais profundos anarquistas e em comunidades monásticas cristãs”. Mais significantemente, em seu ensaio de 1921 “Crítica da Violência”, podem ser encontradas reflexões diretamente inspiradas por Sorel e pelo movimento anarco-sindicalista.

Benjamin não esconde o seu total desdém pelas instituições do Estado, como a polícia (“a mais degenerada forma de violência que alguém possa imaginar”), ou o parlamento (“um espetáculo deplorável”), e aprova sem reservas as críticas antiparlamentares dos bolcheviques e dos anarco-sindicalistas – duas correntes que ele considera pertencentes ao mesmo campo.

Ele também celebra a proposta soreliana de uma greve geral como forma de ação coletiva, que “atribui a si mesma como missão única e exclusiva a destruição da violência do Estado”. A estratégia de Sorel, que Benjamin designa pela palavra “anarquista”, parece-lhe a mais apropriada, sendo “profunda, ética e autenticamente revolucionária”.

Em um documento do mesmo período (que permaneceu não-publicado durante sua vida), O direito de usar a violência. Notas para um socialismo religioso (1920-1921), Benjamin explicitamente descreve seu próprio pensamento como anarquista: “A apresentação desse ponto de vista é uma das tarefas da minha filosofia moral, na qual o termo Anarquismo pode certamente ser usado. É uma teoria que não rejeita o direito de usar a violência enquanto tal, mas ao invés disso recusa a qualquer instituição, comunidade ou indivíduo que atribua a si próprio o monopólio da violência”.

É portanto evidente, a partir desses documentos iniciais, que a primeira escolha ético-política de Benjamin foi o anarquismo – a rejeição radical e categórica de todas as instituições estabelecidas e, em particular, do Estado. Foi apenas alguns anos depois – estranhamente depois do fim do grande ascenso revolucionário na Europa de 1917-1923 – que Benjamin descobre o marxismo.

A onda revolucionária provavelmente o tornou mais receptivo às ideias comunistas, mas foi só tardiamente, em 1924, pela leitura de História e Consciência de Classe de Gyorgy Lukács, e conhecendo a professora bolchevique e ativista Asja Lácis – por quem ele se apaixonou – que ele realmente foi atraído pelo marxismo, uma forma de pensar que se tornaria em breve um componente chave de suas reflexões políticas e teóricas.

Em uma carta para Gershom Scholem em Setembro de 1924, Benjamin reconhece as tensões entre o que ele chama de “as fundações do meu niilismo” e a dialética de Lukács; o que ele mais admirou em História e Consciência de Classe foi a articulação entre teoria e prática que forma “o núcleo filosófico duro” do livro e dá a Lukács uma tal superioridade que faz com que “qualquer outra abordagem não seja nada além de burguesa e fraseologia demagógica”.

Dois anos depois, em outra carta para Scholem, Benjamin escreve que ele estava considerando entrar no Partido Comunista Alemão, mas insiste que isso não significa abjurar (abzuschwören) seu “antigo Anarquismo”.

Finalmente, depois de muita hesitação, Benjamin decidiu não entrar no Partido Comunista. Ele permaneceu um simpatizante próximo do partido, mas mantendo um distanciamento crítico. Um exemplo desse apoio pode ser encontrado nos seus Diários de Moscou (1926-1927), onde ele expressa uma visão negativa da tentativa do governo soviético de “sufocar a dinâmica do processo revolucionário” – um argumento que tem afinidades óbvias com as visões críticas desenvolvidas pela oposição de esquerda do Partido Comunista Russo (Trotsky, Zinoviev, Kamenev).

Se Benjamin não desistiu do seu “antigo anarquismo”, como ele explicou a Scholem, então como ele procedeu à vinculação deste com o projeto comunista? Seu mais importante documento anarco-marxista é, sem dúvida, seu ensaio de 1929 Surrealismo, o último instantâneo da inteligência europeia.

Nos primeiros parágrafos desse artigo, Benjamin descreve a si mesmo como um “observador alemão” situado em uma “posição altamente delicada entre a fronda anarquista e a disciplina revolucionária”. São compatíveis? Em 1927, nas ruas de Paris, comunistas e anarquistas marcharam juntos em manifestações e motins contra a condenação dos anarquistas norte-americanos Sacco e Vanzetti; os surrealistas estavam presentes; e Benjamin celebra a “excelente passagem” no romance de André Breton Nadja (1928) que se refere aos “dias agradáveis pilhando Paris por ocasião do episódio de Sacco e Vanzetti”.

Para Benjamin, o surrealismo é algo mais do que o trabalho de “uma outra clique de literatos” – uma opinião que ele atribui a “especialistas” medíocres e filisteus. O surrealismo é muito mais do que um “movimento artístico”: ele é uma tentativa de explodir a esfera da poesia de dentro, graças a um conjunto de experimentos mágicos com implicações revolucionárias. Mais especificamente, ele é um movimento “visionário” que é ao mesmo tempo profundamente libertário (anti-autoritário) e em busca de uma possível convergência com o comunismo.

Como Benjamin define a dimensão anarquista do surrealismo? Tentando alcançar o Pólo Norte do campo magnético surrealista, ele escreve: “Desde Bakunin, a Europa perdeu um conceito radical de liberdade. Os surrealistas têm um”.

É difícil imaginar uma formulação melhor – em poucas e incisivas palavras – do núcleo inquebrável de escuridão do movimento fundado por André Breton. De acordo com Benjamin, foi “a hostilidade da burguesia em relação a cada manifestação de liberdade intelectual radical que empurrou o surrealismo para a esquerda, para a revolução e, após a guerra de Rif, para o comunismo”. De fato, logo depois da guerra colonial francesa no Norte da África, Breton e outros surrealistas entraram, em 1927, no Partido Comunista Francês.

Para Benjamin, a figura que preparou e induziu o “giro à esquerda” do surrealismo foi Pierre Naville, o antigo diretor do jornal La Revolution Surrealiste e o autor de A Revolução e os intelectuais (1926) – um texto no qual Naville propõe que seus amigos surrealistas participem do movimento comunista. De Naville, Benjamin tomou emprestada a definição da verdadeira atitude revolucionária como “a organização do pessimismo”.

Essa tendência à politização e o compromisso crescente não significaram, para Benjamin, que o surrealismo tinha que abandonar suas qualidades mágicas e libertárias. Ao contrário, Benjamin acreditou que essas qualidades lhe permitiria exercer um papel único e insubstituível no movimento revolucionário: “para ganhar as energias da embriaguez para a revolução – é sobre isso o projeto surrealista, em todos os seus livros e iniciativas. Assim pode ser chamada sua tarefa mais autêntica. Se é para realizar essa tarefa, o surrealismo deve, todavia, abandonar sua postura unilateral e aceitar uma aliança com o comunismo”.

Que tipo de comunismo tem a simpatia de Benjamin? Aparentemente não o oficial: no ensaio sobre o surrealismo, Bukharin – que era, no tempo em que o artigo foi escrito, o principal ideólogo do marxismo soviético após Stalin – é rejeitado (junto com Carl Vogt, materialista vulgar do século XIX) como um “materialista metafísico” e Trotsky é favoravelmente citado, ainda que ele já tenha sido expulso do partido e estava exilado naquele momento.

Em uma carta de 1973 para Soma Morgenstern, Gershom Scholem escreve o seguinte sobre a política de Walter Benjamin: a despeito de sua decisão de não entrar para o partido em 1926, “não há dúvida de que ele continuou a relatar sua simpatia para com o comunismo... Ele era, poder-se-ia dizer, o que alguém chamaria hoje de um trotskista”.

Isso me parece um pouco exagerado. É verdade que Pierre Naville, o representante principal nesse ensaio da aproximação entre o surrealismo e o comunismo, foi expulso em fevereiro de 1928 do Partido Comunista Francês por seu apoio à oposição trotskista. Mas diferentemente de Naville, Benjamin não pensava que os surrealistas deveriam desistir de suas inclinações anarquistas. Ele simplesmente insistiu na necessidade de combinar a “embriaguez” anarquista com organização e disciplina:

“Para eles não é suficiente, como sabemos, que um componente ectásico esteja vivo em cada ato revolucionário. Esse componente é semelhante ao anárquico. Acentuá-lo exclusivamente seria subordinar a preparação metódica e disciplinada para a revolução a uma práxis que oscila entre o exercício e a véspera da festa.”

O que é esse “intoxicação”, essa Rausch (embriaguez) cujas energias Benjamin ansiosamente tenta trazer para a revolução? Em Rua de Mão Única, Benjamin refere-se à intoxicação como uma expressão da relação mágica entre os ancestrais e o cosmos, mas ele sugere que a experiência (Erfahrung) e a Rausch [embriaguez] que certa vez caracterizaram a relação ritual com o mundo desapareceram na sociedade moderna. No artigo da Literarische Welt, ele parece redescobrir essa relação, sob uma nova forma, no surrealismo.

O artigo de Benjamin contém severas críticas aos surrealistas, mas a conclusão é uma celebração relativamente incondicional de Breton e seus amigos: “Nesse momento, apenas os surrealistas conseguiram compreender as palavras de ordem [do Manifesto Comunista]. Eles trocam a mera interpretação de feições para encarar um alarme que a cada minuto soa durante sessenta segundos”.

Qual o significado dessa enigmática alegoria? Talvez Benjamin esteja sugerindo que a importância única do surrealismo reside na habilidade de ver cada segundo como a porta estreita pela qual entra a revolução – para parafrasear uma imagem que ele usaria não muito depois (na última das teses Sobre o conceito de história).


Quase não há referências explícitas ao anarquismo nos últimos escritos de Benjamin. Todavia para um observador perspicaz como Rolf Tiedemann – o editor da primeira edição alemã de seus escritos completos – as teses Sobre o Conceito de História de Benjamin “podem ser lidas como um palimpsesto: sob o marxismo explícito o antigo niilismo torna-se visível, e arrisca levá-lo à abstração da prática anarquista”.

O comentário é interessante, mas o termo “palimpsesto” não é o mais apropriado: a relação entre ambos os componentes, para Benjamin, não é uma mecânica de superposição, mas muito mais uma combinação alquímica de substâncias previamente destiladas.

Desenvolvendo seu argumento Tiedemann declara, novamente em referência às Teses de 1940, que “a representação da práxis política em Benjamin é muito mais o entusiasmo do anarquismo do que a sobriedade do marxismo”. O problema desse comentário é que ele opõe como mutuamente exclusivas as atitudes que Benjamin tentou precisamente associar, porque elas lhe parecem complementares e igualmente necessárias para a ação revolucionária: “entusiasmo” libertário e “sobriedade” marxista.

De maneira mais sistemática do que Tiedemann, Jürgen Habermas analisou a dimensão anarquista das últimas reflexões de Benjamin de forma a submetê-las a uma crítica radical a partir de sua perspectiva histórica evolucionista e “modernista”. Em um artigo bastante conhecido sobre Benjamin dos anos 70, Habermas rejeita a tentativa de Benjamin de radicalizar o materialismo histórico com a ajuda de elementos messiânicos e libertários:

“Essa tentativa deve falhar porque a teoria materialista do desenvolvimento social não pode ser simplesmente combinada à concepção anarquista dos Jetztzeiten [tempos-agoras] que intermitentemente colide com o destino como algo exterior. Uma concepção da história antievolucionista não pode ser alinhavada ao materialismo histórico como se fosse o capuz de um monge – alinhavado ao materialismo histórico que leva em conta não apenas a dimensão das forças produtivas, mas a dominação dessas forças produtivas também.”

O que Habermas considera um erro é precisamente, do meu ponto de vista, uma das grandes qualidades do marxismo de Benjamin, e sua superioridade sobre todas as formas de “evolucionismo progressista”: sua capacidade de compreender um século caracterizado pela interconexão direta entre modernidade e barbárie – uma interconexão que tomaria a forma, alguns anos após a sua morte, da figura catastrófica de Auschwitz e Hiroshima.

Uma concepção evolucionista da história, que acredita no progresso necessário das formas de dominação, dificilmente poderia dar conta do que foi o fascismo – exceto como um parêntese inexplicável, uma regressão incompreensível “em meados do século XX”. Agora, como Benjamin havia escrito nas Teses, não é possível compreender o significado do fascismo se alguém o considera apenas uma exceção à norma histórica que seria o progresso.

Alguns anos depois Habermas renovou sua polêmica discussão com Benjamin em seu livro de 1985 O discurso filosófico da Modernidade. Agora ele opôs aqueles que sustentam uma visão não-continuista da história, como Karl Korsch, Benjamin, “e os ultra-esquerdistas”, aos pensadores, como Karl Kautsky e os protagonistas da Segunda Internacional, “que viram no desenvolvimento das forças produtivas uma garantia de transição evolutiva da sociedade burguesa ao socialismo”.

Benjamin e os “ultra esquerdistas”, de acordo com Habermas, “puderam apenas imaginar a revolução como um salto para fora da eterna recorrência do barbarismo da pré-história, como a explosão da continuidade de toda história”. Essa atitude, argumenta Habermas, “inspirada pela consciência surrealista do tempo, tem algo em comum com o anarquismo daqueles que, seguindo Nietzsche, opõe o nexo universal de poder e delírio apelando à soberania do êxtase [...], resistência local e revoltas involuntárias de uma natureza subjetiva ferida”.

A interpretação de Habermas tem muitos problemas. Antes de tudo, seu conceito de “barbarismo pré-histórico” é completamente inadequado: todo o esforço de Benjamin visava precisamente mostrar que o barbarismo moderno não foi uma “recorrência” de uma selvageria “pré-histórica”, mas um fenômeno especificamente moderno – uma ideia que dificilmente pode ser aceita por um defensor tão fiel da modernidade como Habermas.

Contudo, ele compreendeu com grande perspicácia tudo aquilo que as reflexões finais de Benjamin devem ao surrealismo e ao anarquismo: a revolução não é a coroação da evolução histórica – o “progresso” – mas a interrupção radical da continuidade histórica da dominação.

Sobre o autor

Michael Löwy é diretor emérito de pesquisa do National Center for Scientific Research. Seu último livro é Ecosocialism: A Radical Alternative to Capitalist Catastrophe.

7 de janeiro de 2016

De militar para militar

Seymour M. Hersh sobre a partilha de inteligência dos Estados Unidos na guerra síria

A persistente insistência de Barack Obama de que Bashar al-Assad deve deixar o cargo – e que há grupos rebeldes "moderados" na Síria capazes de derrotá-lo – provocou uma dissensão silenciosa e até oposição aberta entre alguns dos oficiais mais graduados da Estado-Maior Conjunto do Pentágono nos últimos anos.

Seymour M. Hersh

London Review of Books

Vol. 38 No. 1 · 7 January 2016

Tradutor / A incansável insistência de Barack Obama, em que Bashar al-Assad teria de deixar o governo – e em que haveria grupos rebeldes moderados na Síria capazes de derrotá-lo – provocou, em anos recentes, dissidência silenciosa e até declarada oposição entre alguns dos mais altos oficiais do comando do estado-maior do Pentágono. As críticas focaram-se no que eles veem como uma fixação do governo no principal aliado de Assad, Vladimir Putin. Naquele ponto de vista, Obama estaria cativo do pensamento da Guerra Fria sobre Rússia e China, e não ajustara a própria visão sobre a Síria ao fato de que Rússia e China partilham a ansiedade de Washington sobre a disseminação do terrorismo na e além da Síria e, como Washington, acreditam que o Estado Islâmico tem de ser detido.

A resistência entre os militares data do verão de 2013, quando uma avaliação altamente sigilosa, construída pela Agência de Inteligência da Defesa e o Comando do Estado-maior das Forças Militares Conjuntas dos EUA, presidido pelo general Martin Dempsey, previu que, sem o regime de Assad, a Síria seria tomada pelo caos, e o Estado sírio poderia ser tomado por extremistas jihadistas, mais ou menos como já se via acontecer na Líbia.

Ex-conselheiro daquele estado-maior dos EUA disse-me que aquele documento era avaliação construída por multi-fontes, a partir de informações recolhidas de sinais de satélite e de inteligência humana, e avaliava muito duramente a insistência do governo Obama em continuar a financiar e armar os chamados rebeldes moderados. Naquele momento a CIA já conspirava há mais de um ano com aliados no Reino Unido, na Arábia Saudita e no Qatar para embarcar armas e suprimentos – a serem usados para derrubar Assad –, da Líbia, via Turquia, para a Síria. Aquela nova avaliação da inteligência especificava a Turquia como principal impedimento à política de Obama para a Síria. O documento mostrava, disse-me o ex-conselheiro, "que o que começou como programa clandestino dos EUA para armar e apoiar rebeldes moderados que combatiam contra o governo de Assad, já havia sido cooptado pela Turquia, e se metamorfoseara em programa de contrabando através da fronteira, de armas, treinamento e logística para toda a oposição, incluindo a Frente al-Nusra e o Estado Islâmico. Os chamados moderados haviam evaporado, e o Exército Sírio Livre não passava de bando esfarrapado acampado numa base aérea na Turquia". O parecer era sombrio: não havia qualquer oposição moderada contra Assad; e os EUA estavam entregando armas a extremistas.

O tenente-general Michael Flynn, diretor da DIA de 2012 a 2014, confirmou que sua agência havia enviado fluxo ininterrupto de alertas sigilosos para a liderança civil do país, sobre as graves consequências de derrubarem Assad. Os jihadistas, disse ele, controlavam integralmente a oposição. A Turquia não se esforçava para deter, na sua fronteira, o contrabando de armas e de mercenários recrutados pelo mundo. "Se a opinião pública americana conhecesse a informação que produzimos todos os dias, no nível mais sensível, haveria escândalo generalizado e muita indignação pelas ruas", disse-me Flynn. "Compreendemos a estratégia de longo prazo do ISIS e seus planos de campanha, e também discutimos o fato de que a Turquia fingia que não via o evidente crescimento do Estado Islâmico dentro da Síria." Os relatórios da DIA, disse ele, "encontraram feroz resistência dentro do governo Obama. Minha impressão foi que eles não queriam ouvir a verdade."

"Nossa política de armar a oposição contra Assad fracassou e, na verdade, está tendo impacto negativo", disse o ex-conselheiro do comando do estado-maior dos EUA. "Os comandantes do Estado-maior entendiam que Assad não devia ser substituído por fundamentalistas. A política do governo era contraditória. Queriam que Assad saísse, mas a oposição já estava dominada por extremistas." Assim sendo, quem o substituiria? Muito bem, declarar que Assad tem de sair, mas se você aprofunda a ideia, é como se "qualquer coisa é melhor". Esse ponto, "qualquer coisa é melhor" é o ponto que separa o estado-maior dos EUA e a política de Obama. Os comandantes do Estado-maior sentiam que desafiar diretamente a política de Obama tinha "chance zero de sucesso". Então, no outono de 2013 decidiram tomar medidas contra os extremistas sem seguir os canais políticos, fornecendo inteligência dos EUA a militares de outros países, com o combinado de que seria passada ao exército sírio, para ser usada contra o inimigo comum, Frente al-Nusra e Estado Islâmico.

Alemanha, Israel e Rússia tinham contato com o Exército Sírio e alguma influência sobre as decisões de Assad – e a inteligência dos EUA seria partilhada através desses países. Cada um dos três países tinha suas razões para cooperar com Assad: Alemanha, com medo de como reagira sua própria população de seis milhões de muçulmanos, se o Estado Islâmico se expandisse; Israel, preocupado com a segurança de fronteira; a Rússia tinha uma aliança há muito tempo com a Síria, e temia pela sua base naval no Mediterrâneo, em Tartus. "Não tínhamos intenção de nos desviar das políticas determinadas por Obama", disse-me o ex-conselheiro. "Mas partilhar nossa avaliação mediante relações de militar para militar com outros países poderia ser atitude produtiva. Era claro que Assad carecia de melhor inteligência tática e de aconselhamento operacional. O comando do estado-maior concluiu que, se se atendessem a essas necessidades, a luta geral contra o terrorismo islâmico seria melhorada. "Obama não sabia, mas Obama não sabe de nada que o comando do estado-maior das forças conjuntas dos EUA faz, o que vale para todos os presidentes."

Tão logo começou o fluxo de inteligência dos EUA, Alemanha, Israel e Rússia começaram a passar informações sobre os pontos onde estavam e os planos dos grupos jihadistas radicais, para o exército sírio; em troca, a Síria forneceu informações sobre suas capacidades e intenções. Não houve contato direto entre militares dos EUA e da Síria; em vez disso, o ex-conselheiro disse, "fornecíamos a informação – inclusive análises de longo prazo sobre o futuro da Síria reunidas por empresas contratadas ou um de nossos colégios de guerra – e aqueles países tinham liberdade para fazerem o que decidissem fazer com a informação, inclusive partilhá-la com Assad. Dizíamos, para os alemães e os demais: "Aqui está informação bastante interessante, e nosso interesse é mútuo". Fim da conversa. O comando do estado-maior dos EUA concluiu que resultaria algo benéfico – mas era assunto de militar para militar, não algum tipo de plano sinistro do estado-maior para enganar Obama e apoiar Assad. Na verdade, era muito mais inteligente que isso. Se Assad fica no poder, não seria porque nós o seguramos lá. Seria por ele teria sido esperto o bastante para usar a informação de inteligência e assessoria tática de primeira qualidade, que fornecemos a muita gente."

***

A história pública das relações entre EUA e Síria ao longos das últimas poucas décadas é história de inimizade. Assad condenou os ataques do 11/9, mas se opôs à guerra do Iraque. George W. Bush repetidas vezes associou a Síria aos três membros do seu "eixo do mal" – Iraque, Irã e Coreia do Norte – durante todo o seu governo. Os telegramas do Departamento de Estado divulgados por WikiLeaks mostram que o governo Bush tentou desestabilizar a Síria, e os esforços continuaram nos anos Obama. Em dezembro de 2006, William Roebuck, então encarregado da embaixada dos EUA em Damasco, divulgou uma análise das vulnerabilidades do governo Assad e listou métodos que "irá melhorar a probabilidade" de oportunidades de desestabilização. Recomendava que Washington trabalhasse com Arábia Saudita e Egito para aumentar a tensão sectária e se focasse em divulgar "esforços sírios contra grupos extremistas" – dissidentes curdos e facções sunitas radicais – "de modo que sugira fraqueza, sinais de instabilidade e revide não controlado"; e que "o isolamento da Síria" deveria ser encorajada, mediante o apoio, dos EUA à Frente de Salvação Nacional liderada por Abdul Halim Khaddam, um ex-vice-presidente sírio cujo governo no exílio, em Riad, era patrocinado pelos sauditas e pela Fraternidade Muçulmana. Outro telegrama de 2006 mostrava que a embaixada gastara $5 milhões financiando dissidentes que concorreram como candidatos independentes à Assembleia Popular; os pagamentos continuaram, mesmo depois que ficou claro que a inteligência síria já sabia do que estava acontecendo. Um telegrama de 2010 alertava que financiamento para uma rede de televisão com sede em Londres e dirigida por um grupo da oposição síria seria visto pelo governo sírio "como um gesto secreto e hostil para com o regime".

Mas há também uma história paralela de cooperação sombria entre a Síria e os EUA durante o mesmo período. Os dois países colaboraram contra a al-Qaeda, inimiga comum. Um consultor com muitos anos de serviços prestados ao Comando de Operações Especiais Conjuntas disse que, depois do 11/9, "Bashar foi, durante anos, extremamente útil, quando nós, em minha opinião, fomos extremamente tolos, no uso que demos ao ouro que ele nos ofereceu. Essa cooperação silenciosa continuou também com outros elementos, mesmo depois que o governo [de Bush] resolveu pôr-se a demonizar Assad." Em 2002, Assad autorizou a inteligência síria a entregar centenas de arquivos internos sobre atividades da Fraternidade Muçulmana na Síria e na Alemanha. Mais tarde, nesse mesmo ano, a inteligência síria abortou um ataque da al-Qaeda contra os quartéis da Quinta Frota da Marinha dos EUA, no Bahrain, e Assad concordou que a CIA recebesse o nome de um informante vital da al-Qaeda. Em clara violação desse acordo, a CIA imediatamente fez contato direto com o informante; ele rejeitou a abordagem e rompeu relações com seus contatos sírios. Assad também entregou secretamente aos EUA parentes de Saddam Hussein que haviam procurado refúgio na Síria, e – como outros aliados dos EUA na Jordânia, Egito, Tailândia e em outros pontos – torturou a serviço da CIA suspeitos de terrorismo, numa prisão em Damasco.

Essa história de cooperação tornou possível crer, em 2013, que Damasco concordaria com o novo arranjo de partilha indireta de inteligência com os EUA. Os comandantes do estado-maior fizeram saber aos sírios que, em troca, os EUA queriam quatro coisas: Assad teria de impedir o Hezbollah de atacar Israel; teria de renovar as negociações paralisadas com Israel para alcançar um acordo sobre as Colinas do Golan; teria de aceitar conselheiros russos e de outros países; e teria de se comprometer com realizar eleições abertas depois da guerra, incluindo larga gama de grupos. "Tínhamos feedback positivo dos israelenses que estavam apoiando a ideia, mas eles queriam saber qual seria a reação do Irã e da Síria", disse-me o ex-conselheiro do comando do estado-maior das forças armadas conjuntas dos EUA. "Os sírios disseram que Assad não tomaria decisão unilateral – que queria o apoio de seus militares e aliados alauitas. A preocupação de Assad era que Israel dissese que sim e depois não defendesse a sua parte no trato." Um antigo conselheiro do Kremlin para assuntos do Oriente Médio contou-me que, no final de 2012, depois de sofrer revezes de combate e deserções, Assad aproximou-se de Israel mediante um contato em Moscou, e ofereceu para reabrir as conversações sobre as Colinas do Golan. Os israelenses rejeitaram a oferta. "Disseram 'Assad está acabado'", disse-me o funcionário russo. – "Disseram que 'Assad está chegando ao fim.'" Disse-me também que os turcos haviam dito exatamente a mesma coisa a Moscou. Mas em meados de 2013, os sírios achavam que o pior já tinha passado, e queriam garantias de que os americanos e outros falavam a sério, sobre ofertas de ajuda.

Nas fases iniciais das conversações, disse o ex-conselheiro, os comandantes do estado-maior tentaram fixar o que convenceria Assad, como sinal de suas boas intenções. A resposta chegou através de um amigo de Assad: "Tragam a ele a cabeça do príncipe Bandar." Não podia ser. Bandar bin Sultan serviu durante décadas à Arábia Saudita, nos serviços de inteligência e questões de segurança nacional, e passou mais de 20 anos como embaixador em Washington. Em anos recentes, tornou-se conhecido como empenhado militante a favor da derrubada de Assad, por quaisquer meios. Entre notícias de que estaria gravemente doente, Bandar renunciou ano passado ao cargo de diretor do Conselho de Segurança Nacional Saudita, mas a Arábia Saudita ainda é fornecedora de dinheiro para a oposição síria, estimado pelos EUA, ano passado, em pelo menos $700 milhões.

Em julho do ano passado, os comandantes do estado-maior das forças conjuntas dos EUA encontraram meio mais direto de demonstrar a Assad que, sim, queriam ajudá-lo. Naquele momento, o fluxo de armas patrocinado secretamente pela CIA da Líbia para a oposição síria, através da Turquia, já tinha mais de um ano (começou pouco depois da morte de Gaddafi, em 20 de outubro de 2011).[*] A operação era quase toda comandada por um anexo clandestino da CIA em Benghazi, com pleno conhecimento do Departamento de Estado. Em 11 de setembro de 2012, o embaixador dos EUA na Líbia, Christopher Stevens, foi morto durante demonstração anti-EUA que resultou no incêndio que destruiu completamente o consulado dos EUA em Benghazi; repórteres do Washington Post encontraram cópias da agenda do embaixador entre as ruínas queimadas do prédio. Ali se via que em 10 de setembro Stevens tinha se reunido com o chefe da operação da CIA. No dia seguinte, horas antes de ser morto, ele tinha se reunido com um representante da empresa de transportes marítimos Al-Marfa Shipping and Maritime Services, empresa com sede em Trípoli e que, como me disse o ex-conselheiro do Estado-maior, era conhecida também do próprio estado-maior como encarregada dos embarques e entregas de carregamentos de armas.

No final do verão de 2013, o parecer da Agência de Inteligência da Defesa já circulara amplamente, mas embora muita gente na comunidade de inteligência dos EUA soubesse que a oposição síria era dominada por extremistas, o fluxo de armas patrocinadas pela CIA continuava, e era continuado problema para o exército de Assad. O estoque de armas de Gaddafi criou um bazaar internacional de armas, embora os preços fossem altos. "Não havia como interromper os embarques de armas que o presidente Obama autorizara", disse o ex-conselheiro do comando do estado-maior dos EUA. "A solução acabou por envolver um apelo ao bolso. O comando do estado-maior dos EUA enviou representante para falar com a CIA, com uma sugestão: havia armas muito mais baratas disponíveis nos arsenais turcos, que podiam chegar em poucos dias aos rebeldes sírios, e sem viagens por mar." Mas a CIA não seria a única beneficiária do novo arranjo. "Trabalhávamos com turcos que sabíamos que não eram leais a Erdoğan e nos quais confiávamos", disse-me o ex-conselheiro. "E conseguimos que entregassem aos jihadistas na Síria todo o armamento obsoleto que havia no arsenal, inclusive carabinas M1 que nunca mais haviam sido usadas desde a Guerra da Coreia e muitas armas soviéticas. Era mensagem clara, que Assad entenderia: 'Temos poder para reduzir efeitos de uma política do presidente dos EUA já em andamento'."

O fluxo de inteligência dos EUA para o exército sírio e o rebaixamento na qualidade das armas fornecidas aos rebeldes aconteceram em momento crítico. O exército sírio sofrera pesadas perdas na primavera de 2013 em combates contra a Frente al-Nusra e outros grupos extremistas, e perdera o controle sobre a capital provincial de Raqqa. Continuaram durante meses raids esporádicos na área, pelo Exército Árabe Sírio e pela Força Aérea síria, com sucesso reduzido, até que decidiram retirar-se de Raqqa e de outras áreas pouca habitadas e difíceis de defender no norte e no oeste, para concentrar-se em consolidar as defesas do Estado sírio em Damasco e nas áreas densamente povoadas que legam a capital a Latakia, no nordeste. Mas, quando o Exército sírio ganhou potência com o apoio do comando do estado-maior das forças armadas conjuntas dos EUA, Arábia Saudita, Qatar e Turquia escalaram o apoio financeiro e o fornecimento de armas para a Frente al-Nusra e o Estado Islâmico, os quais, ao final de 2013 haviam tido ganhos enormes dos dois lados da fronteira Síria/Iraque. Os demais rebeldes não fundamentalistas viram-se combatendo – e perdendo – batalhas terríveis contra os extremistas. Em janeiro de 2014, o Estado Islâmico conseguiu controle completo em Raqqa e nas áreas tribais circundantes, derrotando a Frente al-Nusra e estabeleceu sua base naquela cidade. Assad ainda controlava 80% da população síria, mas perdera áreas gigantescas de território.

Os esforços da CIA para dar treinamento a forças rebeldes moderadas estavam também fracassando miseravelmente. "O campo de treinamento da CIA ficava na Jordânia e era controlado por um grupo tribal sírio", disse o ex-assessor do comando do estado-maior dos EUA. Havia uma suspeita de que alguns dos que se inscreviam para o treinamento eram realmente soldados do exército sírio, menos o uniforme. Já acontecera antes, no auge da Guerra do Iraque, quando centenas de membros de milícias xiitas apareciam nos campos americanos de treinamento, em busca de roupas limpas, armas e uns dias de treinamento e, em seguida, sumiam no deserto. E outro programa de treinamento que o Pentágono estabelecera na Turquia, também não ia bem. Em setembro, o Pentágono reconheceu que só "quatro ou cinco" de seus recrutas ainda combatiam contra o Estado Islâmico; poucos dias depois, 70 deles desertaram para a Frente al-Nusra, no instante em que atravessaram a fronteira e entraram na Síria.

Em janeiro de 2014, já desesperado com o progresso zero, John Brennan, diretor da CIA, convocou os chefes das inteligências americana e sunitas-árabes de todo o Oriente Médio, para uma reunião secreta em Washington, com o objetivo de tentar convencer a Arábia Saudita a parar de apoiar combatentes extremistas na Síria. "Os sauditas disseram que muito se alegravam com a iniciativa", disse-me o ex-assessor do estado-maior dos EUA. Assim sendo, sentaram-se todos eles para ouvir Brennan dizer que tinham de aliar-se aos chamados moderados. A ideia de Brennan era que, se todos na região parassem de apoiar a Frente al-Nusra e o Estado Islâmico, eles ficariam sem armas e munição, e os moderados venceriam." Mas a mensagem de Brennan foi ignorada pelos sauditas, disse-me o ex-assessor. Os sauditas voltaram para casa e aumentaram a ajuda aos extremistas e nos pediram mais e mais suporte técnico. "Então nós dissemos OK, e foi assim que acabamos reforçando os grupos mais extremistas."

Mas os sauditas não eram, nem de longe, o único problema. A inteligência dos EUA havia acumulado interceptações e inteligência humana que mostrava que o governo de Erdoğan já apoiava a Frente al-Nusra há anos, e que agora está fazendo o mesmo com o Estado Islâmico. "Podemos lidar com os sauditas", disse-me o ex-conselheiro, "podemos lidar com a Fraternidade Muçulmana. Pode-se dizer que todo o equilíbrio no Oriente Médio está baseado numa modalidade de destruição mútua assegurada entre Israel e o resto do Oriente Médio. Mas a Turquia pode romper esse equilíbrio (e esse é o sonho de Erdoğan). Dissemos a ele que queríamos que ele fechasse a torrente de jihadistas estrangeiros que não paravam de chegar à Turquia. Mas ele sonha grande – quer restaurar o Império Otomano – e não se dá conta da mínima probabilidade de conseguir ser bem-sucedido."

***

Um dos relacionamentos mais constantes dos EUA, desde a queda da União Soviética, tem sido uma relação militar-a-militar com os russos. Depois de 1991, os EUA gastaram bilhões de dólares para ajudar a Rússia a proteger seu complexo de armas nucleares, incluindo uma operação conjunta altamente secreta para remover urânio enriquecido para ser usado em armas atômicas, retirando o material de onde estava, em silos sem segurança no Cazaquistão. Programas conjuntos para monitorar a segurança de materiais radioativos alto-enriquecidos continuaram durante as duas últimas décadas. Durante a guerra dos EUA contra o Afeganistão, a Rússia concedeu direitos de sobrevoo a aviões cargueiros e de transporte de tanques, além de acesso para manter o fluxo de armas, munição e água para manter diariamente a máquina de guerra dos EUA. Militares russos forneceram inteligência sobre o paradeiro de Osama bin Laden e ajudaram os EUA a negociar direitos para usarem uma base aérea no Quirguistão. O estado-maior dos EUA estiveram em contato frequente com seus contrapartes russos durante toda a guerra da Síria, e os laços entre os dois blocos militares começam pelo topo. 

Em agosto, poucas semanas antes de aposentar-se como comandante do estado-maior das forças conjuntas dos EUA, Dempsey fez uma visita de despedida ao quartel-general das Forças de Defesa da Irlanda em Dublin, onde disse, numa conferência a comandantes do estado-maior da Irlanda, que um dos pontos altos de sua carreira fora manter-se em contato com o comandante do estado-maior das forças conjuntas da Rússia, general Valery Gerasimov. "De fato, sugeri a ele que não terminássemos nossas carreiras como começamos", disse Dempsey, "um pilotando tanques na Alemanha Ocidental, o outro, na Alemanha Oriental".

No que tenha a ver com derrotar o Estado Islâmico, Rússia e EUA têm muito a oferecer um ao outro. Muitos no comando e nas fileiras do Estado Islâmico combateram durante mais de uma década contra a Rússia nas duas guerras chechenas que começaram em 1994, e o governo de Putin está pesadamente investido em combater contra o terrorismo islamista. "A Rússia conhece muito bem a liderança do Estado Islâmico", disse-me o ex-conselheiro do comando do estado-maior dos EUA, "inclusive suas técnicas operacionais, e tem muita inteligência a partilhar." Em troca, disse ele, "temos excelentes instrutores, com anos de experiência em treinamento de combatentes estrangeiros – uma experiência que a Rússia não tem." Minha fonte não discute que inteligência supõe-se que os EUA tenham: capacidades para obter dados sobre alvos, não raras vezes comprados por montanhas de dinheiro, de fontes dentro das milícias rebeldes.

Um ex-assessor da Casa Branca sobre assuntos russos me disse que antes de 9/11 que Putin costumava dizer-nos: "Temos os mesmos pesadelos sobre lugares diferentes." Ele estava se referindo a seus problemas com o califado na Chechênia e nossos primeiros problemas com al-Qaida. Hoje, depois do bombardeio que derrubou o Metrojet sobre o Sinai e dos massacres em Paris e em outros locais, impossível escapar da conclusão de que nós, realmente, temos os mesmos pesadelos sobre os mesmos locais."

Pois com tudo isso, o governo Obama continua a condenar a Rússia por causa do apoio que dá ao presidente Assad. Diplomata aposentado que serviu na embaixada dos EUA em Moscou mostrou compreensão quanto ao dilema de Obama, como líder da coalizão ocidental, que se opõe ao que Putin fez na Ucrânia: "A Ucrânia é questão difícil, e Obama até que a conduziu com firmeza, mediante sanções. Mas nossa política para a Rússia e muito frequentemente sem foco. E não é por causa do que fazemos na Síria. É porque os russos não podem permitir que Bashar seja derrubado. A verdade é que Putin não quer que o caos sírio se espalhe para Jordânia ou Líbano, como se espalhou para o Iraque, e não quer ver a Síria tombar em mãos do Estado Islâmico. O movimento mais contraproducente de Obama, e que atrapalhou gravemente nossos próprios esforços para acabar com os combates, foi declarar, como premissa das negociações, que 'Assad deve ir como premissa para a negociação.'" O mesmo diplomata repetiu também um pensamento que circula em alguns setores do Pentágono, ao aludir a um fator colateral por trás da decisão dos russos, de 30 de setembro, de lançarem ataques aéreos em apoio ao exército sírio: impedir que Assad tivesse destino semelhante ao de Gaddafi. Meu informante ouvira dizer que Putin assistiu três vezes a um vídeo do brutal assassinato de Gaddafi. O ex-assessor do estado-maior dos EUA também me falou de uma avaliação da inteligência dos EUA, que concluía que Putin ficou terrivelmente emocionado ante o destino de Gaddafi: "Putin culpou-se por ter deixado que acontecesse daquele modo, por não ter agido com mais firmeza nas coxias da ONU, quando a coalizão ocidental fazia lobby para ser autorizada a consumar os ataques que destruíram o regime líbio. "Putin convenceu-se de que, a menos que a Rússia se engajasse, Bashar também seria assassinado e mutilado – e a Rússia teria de assistir à destruição de seus aliados na Síria."

Em um discurso em 22 de novembro, Obama declarou que "os principais alvos" da artilharia russa "foram a oposição moderada". É linha da qual o governo e a mídia dominante nos EUA praticamente nunca se desviaram. Os russos insistem que só atiram contra grupos rebeldes que ameaçam a estabilidade na Síria – inclusive o Estado Islâmico. O assessor do Kremlin para o Oriente Médio explicou em entrevista que a primeira rodada de ataques aéreos russos teve o objetivo de reforçar a segurança em torno de uma base aérea russa em Latakia – fortaleza de forças alauitas. O objetivo estratégico, disse ele, foi estabelecer um corredor pelo qual não circulasse jihadistas, de Damasco a Latakia e a base russa em Tartus e, na sequência, mudar gradualmente o foco do bombardeio para o sul e leste, com maior concentração de missões de bombardeio sobre o território do Estado Islâmico. Ataques russos contra alvos do EI em e próximo de Raqqa foram noticiados já desde o início de outubro; em novembro, houve novos ataques contra posições do EI perto da cidade histórica de Palmyra, e na província de Idlib, fortaleza duramente disputada na fronteira turca.

Incursões russas no espaço aéreo turco começaram imediatamente depois que Putin autorizou os bombardeios, e a força aérea russa usou sistemas para misturar sinais e interferiu na operação do radar turco. A mensagem enviada à força aérea turca foi clara, diz o ex-conselheiro do estado-maior dos EUA: vamos voar quantas missões quisermos, onde quisermos e quando quisermos, e interferiremos no radar de vocês. Não se metam conosco. Putin mostrou aos turcos contra que forças lutavam." A ação russa levou a reclamações turcas e negativas russas, e a ações mais agressivas de patrulha na fronteira, pelos aviões turcos. Nada aconteceu de importante, até o dia 24 de novembro, quando dois jatos F-16 turcos, aparentemente obedecendo ordens mais agressivas, derrubaram um jato russo Su-24M que entrara em espaço aéreo turco por não mais de 17 segundos. Nos dias depois de o jato russo ser derrubado, Obama manifestou apoio a Erdoğan e, depois de os dois encontrarem-se privadamente dia 1º de dezembro, Obama disse numa conferência de imprensa que seu governo continuava "fortemente comprometido com a segurança e a soberania da Turquia." Disse que, enquanto a Rússia permanecesse aliada a Assad, "muitos alvos e recursos russos ainda serão alvo de grupos de oposição... que nós apoiamos... Assim sendo, não creio que devamos cultivar ilusões de que a Rússia comece a atirar exclusivamente contra alvos do EI. Não está acontecendo agora. Nunca aconteceu antes. Não acontecerá nas próximas várias semanas."

O conselheiro do Kremlin para o Oriente Médio, como os comandantes reunidos no estado-maior dos EUA e a Inteligência da Defesa, todos negam que haja coisa semelhante a "moderados" apoiados por Obama; para todos esses, só há grupos islamistas extremistas que lutam ao lado da Frente al-Nusra e do EI ("Não há necessidade desses jogos de palavras, e de separar terroristas em moderados e não moderados", disse Putin, em um discurso em 22 de outubro). Os generais americanos veem esses grupos como milícias exauridas que foram forçadas a acomodar-se ao lado da Frente al-Nusra ou do EI, para sobreviver. No final de 2014, Jürgen Todenhöfer, jornalista alemão que foi autorizado a visitar durante dez dias territórios ocupados pelo EI no Iraque e na Síria, disse à CNN que a liderança do EI "ri do Exército Sírio Livre. Não os levam a sério. Dizem: "os melhores vendedores de armas são eles, do ESL. Se encontram alguma arma boa, logo nos vendem.' Absolutamente não os levam a sério. Assad, sim, levam a sério, por causa das bombas. Mas o Exército Sírio Livre e nada, para eles, é a mesma coisa."

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As bombas de Putin provocaram inúmeros artigos anti-Rússia na mídia americana. Em 25 de outubro, o New York Times noticiou, citando funcionários do governo Obama, que submarinos russos e naves espiãs estariam em "agressiva" operação próximos de onde há cabos submarinos que transportam grande parte do tráfego da internet mundial – embora, como o artigo logo reconhecia, "ainda não houvesse" qualquer prova de que os russos tentavam interferir no tal tráfego. Dez dias antes, o Times publicou quadro sintéticos de intrusões russas nas suas ex-repúblicas satélites soviéticas, e referiu-se aos bombardeios russos na Síria como "em alguns sentidos uma volta aos ambiciosos movimentos militares do passado soviético". A matéria não explicava que o governo Assad solicitou a ação russa, nem falava dos bombardeios de aviões americanos dentro de território sírio, já em andamento desde setembro anterior, com autorização do governo sírio. Em outubro, em coluna assinada no mesmo jornal, Michael McFaul, embaixador de Obama na Rússia entre 2012 e 2014, declarava que a campanha aérea russa atirava contra qualquer coisa, "menos o Estado Islâmico". E a campanha anti-Rússia nesses veículos não diminuiu nem depois da tragédia do avião Metrojet – cujos duvidosos méritos foram reivindicados pelo Estado Islâmico. Poucos no governo dos EUA e na indústria da mídia questionaram-se sobre por que o Estado Islâmico atiraria contra avião civil russo, para matar 224 passageiros mais a tripulação, dado que a força aérea russa estaria atacando exclusivamente os "moderados".

Sanções econômicas, por sua vez, continuam vigentes contra a Rússia como castigo por atos que muitos americanos veem como crimes de guerra de Putin na Ucrânia, além de sanções do Tesouro dos EUA contra a Síria e contra americanos que tenham negócios lá. O New York Times, em matéria sobre as sanções do final de novembro requentou uma notícia nunca confirmada, dizendo que as ações do Tesouro "enfatizam um argumento que o governo tem usado cada vez mais frequentemente contra o Sr. Assad, quando pressiona a Rússia para que deixe de apoiá-lo: que por mais que diga que estaria em guerra contra terroristas islamistas, ele mantém relação simbiótica com o Estado Islâmico que ficou livre para crescer e prosperar durante o tempo que Assad manteve-se agarrado ao poder."

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Os quatro elementos núcleo da política de Obama para a Síria permanecem intactos até hoje: a obcecada insistência em que Assad tem de sair; que nenhuma coalizão anti-EI é possível com a Rússia; que a Turquia seria aliado confiável na guerra contra o terrorismo; e que existem forças moderadas de oposição para receberem o apoio dos EUA. Nem os ataques em Paris dia 13 de novembro, que mataram 130 pessoas, abalaram a posição da Casa Branca de Obama, embora muitos líderes europeus, entre os quais François Hollande, tenham advogado a favor de maior cooperação com os russos e aceitaram coordenar-se mais de perto com a força aérea russa; também houve conversas sobre a necessidade de flexibilizar a data para que Assad deixe o governo da Síria. Em 24 de novembro Hollande foi a Washington para discutir como França e EUA poderiam colaborar mais intimamente na luta contra o Estado Islâmico. Em uma conferência de imprensa conjunta, na Casa Branca, Obama disse que ele e Hollande concordavam que "os ataques russos contra a oposição moderada só fortalecem o regime de Assad, cuja brutalidade estimulou o crescimento" do EI. Hollande não foi tão longe, mas disse que o processo diplomático em Viena levaria "à saída de Bashar al-Assad [e a um] necessário governo de unidade". A conferência de imprensa nem tocou no assunto muito mais urgente para os dois governantes: o caso Erdoğan. Obama defendia o direito da Turquia de defender as próprias fronteiras; Hollande disse que "foi questão de urgência" para a Turquia agir contra os terroristas. O ex-conselheiro do estado-maior contou-me que um dos principais objetivos de Hollande naquela viagem a Washington foi tentar convencer Obama a acompanhar a União Europeia numa declaração conjunta de guerra contra o Estado Islâmico. Obama disse não. Claramente os europeus não procuraram a OTAN, da qual a Turquia é membro, para a tal declaração de guerra. "A Turquia é o problema", disse o ex-conselheiro do estado-maior dos EUA.

Assad, naturalmente não aceita que um grupo de governantes estrangeiros ponham-se a decidir o futuro dele. Imad Moustapha, hoje embaixador da Síria na China, era reitor da Faculdade de Tecnologia da Informação na Universidade de Damasco, e assessor muito íntimo de Assad, quando foi nomeado embaixador da Síria nos EUA em 2004, posto que ocupou durante sete anos. Moustapha ainda é homem muito próximo de Assad e é fonte confiável como fonte sobre o que pensa o presidente da Síria. Imad Moustapha disse-me pessoalmente que, para Assad, deixar a presidência da Síria significaria capitular ante "grupos terroristas armados" e ministros num governo de unidade nacional – como os europeus propunham – seria vistos como prepostos das potências externas que os nomeassem. As mesmas potências que logo fariam ver ao novo 'presidente' que "poderiam substituí-lo no poder, com a rapidez com que o puseram lá... Assad deve isso ao povo sírio: não pode deixar o poder, porque quem exige sua saída são inimigos históricos da Síria."

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Moustapha também falou da China, aliada de Assad e que teria aplicado mais de $30 bilhões na reconstrução da Síria pós-guerra. A China também está preocupada com o Estado Islâmico. "A China considera a crise síria a partir de três pontos de vista", disse ele. "Do ponto de vista da lei internacional e da legitimidade; do posicionamento estratégico global; e da perspectiva dos jihadistas uigures, da província de Xinjiang no extremo oeste do país. Xinjiang tem fronteiras com oito nações: Mongólia, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Afeganistão, Paquistão e Índia – e, do ponto de vista da China, serve como um funil para o terrorismo em todo o mundo e dentro da China. Muitos combatentes uigures hoje na Síria são conhecidos membros do Movimento Islamista do leste do Turquistão – organização separatista quase sempre violenta que luta para estabelecer um estado uigur islamista em Xinjiang. "O fato de terem sido ajudados pela inteligência turca a mudarem-se da China para a Síria atravessando a Turquia causou muita tensão entre chineses e turcos da inteligência", disse Moustapha. "A China preocupa-se com a possibilidade de o que os turcos fizeram, ao apoiarem os combatentes uigures na Síria possa ser ampliado no futuro, para apoiar a agenda da Turquia em Xinjiang. Também estamos provendo o serviço chinês de inteligência com informação relativa àqueles terroristas e as rotas pelas quais viajaram para entrar na Síria."

As preocupações de Moustapha são preocupações também de um analista de questões de política exterior com base em Washington e que acompanhou de perto a passagem de jihadistas através da Turquia para a Síria. Esse analista, cujos pareceres muitos altos funcionários do governo buscam com frequência contou-me que "Erdoğan está trazendo uigures para a Síria em transporte especial, ao mesmo tempo em que seu governo têm feito propaganda a favor da luta deles na China. Terroristas muçulmanos uigures e de Burma, que escapam para a Tailândia, conseguem, não se sabe como, passaportes turcos, e são levados de avião até a Turquia, de onde passam para a Síria." O mesmo analista acrescenta que havia também o que, na prática, pode ser definido como uma outra "linha do rato", para a passagem de uigures – estimados entre algumas centenas e muitos milhares ao longo dos anos – que saem da China para o Cazaquistão, com eventual desvio para a Turquia, e depois para os territórios do Estado Islâmico dentro da Síria. "A inteligência dos EUA", disse esse especialista, "não está obtendo informação de boa qualidade sobre essas atividades, porque os agentes insiders nada satisfeitos com a política, não estão falando com os americanos". Disse também que "não está claro" se os funcionários responsáveis pela política para a Síria no Departamento de Estado e na Casa Branca "compreendem" tudo isso. Anthony Davis, do blog IHS-Jane's Defence Weekly estimava em outubro que prováveis 5 mil futuros combatentes uigures teriam chegado à Turquia desde 2013, dos quais prováveis dois mil passaram para a Síria. Moustapha disse que tem informações de que "até 860 combatentes uigures estão atualmente na Síria."

A crescente preocupação da China sobre o problema uigur e sua conexão com a Síria e o Estado Islâmico é também preocupação de Christina Lin, especialista que se dedicou a questões chinesas, quando, há cerca de dez anos, trabalhou no Pentágono, sob ordens de Donald Rumsfeld. "Cresci em Taiwan e cheguei ao Pentágono como crítica anti-China", contou-me Lin. "Demonizava os chineses como ideólogos, e sei que não são perfeitos. Mas, com os anos, vi os chineses abrindo-se e evoluindo, e comecei a mudar minha perspectiva. Vejo a China como parceira potencial para vários desafios globais, especialmente no Oriente Médio. Há muitos lugares – a Síria, por exemplo –, nos quais EUA e China podem cooperar na segurança regional e no contraterrorismo". Há poucas semanas, disse ela, China e Índia, inimigos da Guerra Fria, que "se odiavam uma a outra mais do que China e EUA odeiam-se hoje, fizeram importantes manobras conjuntas de exercício de contraterrorismo. E hoje China e Rússia querem cooperar na luta contra o terrorismo, com os EUA". Do modo como a China vê as coisas, Lin sugere, militantes uigures que chegaram à Síria estão sendo treinados pelo EI em táticas de sobrevivência, orientadas para ajudá-los quando voltarem como clandestinos ao território chinês, para futuros ataques terroristas. "Se Assad fracassar", Lin escreveu em artigo publicado em setembro, "combatentes jihadistas da Chechênia russa, da Xinjiang chinesa e da Caxemira indiana voltarão os olhos para o front doméstico, para continuar a jihad, apoiados por uma nova e bem suprida base operacional síria no coração do Oriente Médio".

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O general Dempsey e seus colegas no estado-maior dos EUA mantiveram sua dissidência distante dos canais burocráticos, e sobreviveram no cargo. Mas não o general Michael Flynn. "Flynn incorreu na ira da Casa Branca, insistindo em contar a verdade sobre a Síria", disse Patrick Lang, coronel do exército aposentado, que serviu por quase uma década como oficial comandante da inteligência civil da Agência de Inteligência da Defesa, no Oriente Médio. "Flynn entendia que a verdade era a melhor solução, e acabaram com ele. Flynn simplesmente não parou de falar". Flynn contou-me que seus problemas iam bem além da Síria. "Eu estava chacoalhando toda a Agência de Inteligência da Defesa – não estava só mudando de lugar as cadeiras do deck do Titanic. Foi reforma radical. Achei que o comando civil não queria ouvir a verdade. Sofri por isso, mas estou OK com tudo que fiz." Numa entrevista recente à revista Der Spiegel, Flynn foi muito claro sobre a entrada da Rússia na guerra síria: "Temos de trabalhar construtivamente com a Rússia. Gostemos ou não, a Rússia tomou a decisão de intervir e de agir militarmente. Estão lá, e a ação dos russos mudou dramaticamente a dinâmica. Não adianta dizer que a Rússia é malvada; que eles têm de sair de lá. Nunca acontecerá assim. Todos precisam cair na real."

Poucos, no Congresso dos EUA partilham esse ponto de vista. Mas uma exceção é Tulsi Gabbard, deputada Democrata pelo Havaí, nascida em Samoa, membro da Comissão das Forças Armadas da Câmara de Representantes, e major da Guarda Nacional do Exército, com dois períodos de serviço no Oriente Médio. Em entrevista à rede CNN em outubro, ela disse: "Os EUA e a CIA devem parar esta guerra ilegal e contraproducente para derrubar o governo sírio de Assad e devem manter o foco em lutar contra ... os grupos extremistas islâmicos."

"A senhora não se incomoda", perguntou o entrevistador, "que o regime de Assad seja brutal, que tenha assassinado 200 mil, talvez 300 mil de seu próprio povo?"

"As coisas que se dizem por aí sobre Assad", Gabbard respondeu, são exatamente as mesmas que diziam sobre Saddam Hussein as pessoas que pregavam que os EUA derrubassem aqueles regimes. Se acontecer aqui na Síria... acabaremos em uma situação de muito mais sofrimento, de muito mais feroz perseguição contra minorias religiosas e contra cristãos na Síria, e nosso inimigo estará muito mais forte".

"O que a senhora está dizendo", perguntou o entrevistador, "é que, com o envolvimento militar russo pelo ar, e dos iranianos por terra – eles estão fazendo um favor aos EUA?"

"Eles estão trabalhando para derrotar nosso inimigo comum", Gabbard respondeu.

Gabbard contou-me depois que muitos dos colegas dela no Congresso, Democratas e Republicanos, lhe agradeceram, privadamente, por ela ter falado. "Há muita gente, entre o público em geral, e também no Congresso, que precisa ouvir as coisas claramente explicadas de modo que entendam o que realmente se passa", disse Gabbard. "Mas é difícil quando há tal quantidade de mentiras e falsidades sobre o que acontece. A verdade não está incluída nas discussões." É raro que um político manifeste diretamente opinião tão absolutamente divergente da de seu partido em questões de política exterior, e em declarações para o grande público. Para o público interno, com acesso à inteligência mais altamente secreta, falar abertamente e criticamente é encurtar muito a própria carreira. Dissidência fundamentada pode ser encaminhada através de um jornalista e os de dentro, mas quase invariavelmente não inclui nomes e identificação. Mas, seja como for, a dissidência existe. Aquele ex-assessor do comando do estado-maior das forças militares conjuntas dos EUA não conseguiu esconder o desânimo quando lhe perguntei sobre sua opinião da política dos EUA para a Síria. "A solução para a Síria está bem aí diante do nosso nariz", disse ele. "Nossa principal ameaça é o Estado Islâmico e todos nós, EUA, Rússia e China – temos de trabalhar juntos. Bashar continuará na presidência e, mais tarde, quando o país estiver estabilizado, haverá eleições. Não há outra possibilidade."

A via indireta que ainda havia até Assad desapareceu quando Dempsey aposentou-se em setembro. Seu substituto no comando do estado-maior dos EUA, general Joseph Dunford, foi sabatinado na Comissão de Serviços Armados do Senado, em julho, dois meses antes de assumir o posto. "Se querem falar de nação que impõe ameaça existencial aos EUA, tenho de falar da Rússia", disse Dunford. "Se se examina o comportamento dos russos, é nada menos que alarmante." Em outubro, já como comandante do estado-maior, Dunford ridicularizou os esforços russos na Síria e disse àquela mesma comissão, que a Rússia "não está lutando contra o Estado Islâmico". Acrescentou que os EUA "têm de trabalhar com os parceiros turcos para proteger a fronteira norte da Síria" e "fazer tudo que pudermos para capacitar forças selecionadas da oposição síria" – i.e. os "moderados" – para que eles combatam os extremistas.

Implica dizer que Obama agora conta com Pentágono muito mais obediente. Não haverá contestação ou desafio indireto pelas lideranças militares à política obamista de desdenhar Assad e apoiar Erdoğan. Dempsey e seus associados continuam hipnotizados pela incansável defesa pública que Obama garante a Erdoğan, apesar do muito que a inteligência dos EUA teria a dizer sobre ele, mesmo que, no privado, acredite. "Nós sabemos o que você está fazendo com os radicais na Síria", disse Obama ao chefe da inteligência de Erdoğan, numa reunião tensa na Casa Branca (como relatei na LRB de 17/4/2014). O alto comando do estado-maior dos EUA e a Agência de Inteligência da Defesa nunca se cansaram de informar a liderança em Washington sobre a ameaça que são os jihadistas na Síria e sobre o apoio que a Turquia lhes dá. A mensagem nunca foi ouvida. Por quê?

3 de janeiro de 2016

História de um desastre anunciado

O que o pior desastre ambiental da história do Brasil nos fala sobre o custo real da privatização.

Ian Steinman

Jacobin

Foto: Bruno Alencastro

Tradução / Em 5 de novembro, uma represa usada como um depósito de rejeitos de propriedade da mineradora Samarco rompeu, causando uma inundação de lama tóxica e de água que matou doze pessoas, feriu muitas mais, e destruiu completamente a o distrito de Bento Rodriguez no Brasil. Os resíduos do derramamento passaram a envenenar o Rio Doce, um grande rio que liga o interior de Minas Gerais do Brasil à costa leste do Espírito Santo.

60 milhões de metros cúbicos de águas residuais têm sufocado a vida no interior e no entorno do rio Doce. Mais de um quarto de milhão de pessoas ficaram sem água potável. Comunidades inteiras, vilas e cidades espalhadas ao longo do Rio Doce e nas áreas vizinhas encontram seus meios de subsistência e de futuros ameaçados.

As causas exatas da quebra de segurança ainda estão sob investigação, pontos de informação, entretanto, lançados recentemente no sentido de um projeto de construção que era para ligar a barragem com outra represa nas proximidades, quintuplicando o tamanho da instalação. A Samarco tem mantido que as águas não teriam sido contaminadas com material tóxico, e que os rejeitos não representam qualquer ameaça para as pessoas ou o ambiente. O governo tem apoiado em grande parte essas alegações.

No entanto um teste recente mostrou níveis de arsênico e mercúrio mais de dez vezes acima do limite legal. O escritório do Alto Comissariado para Direitos Humanos da ONU também criticou os relatórios da Samarco e declarou que as respostas apresentadas pelo Governo Federal e pela empresa como sendo inadequadas.

Enquanto a verdadeira escala do desastre ainda é desconhecida, os efeitos devastadores serão sentidos para os próximos anos. A responsabilidade por esta catástrofe não reside apenas com a Samarco, mas também as tendências econômicas destrutivas das últimas décadas, a privatização da coproprietária da Samarco, a mineradora Vale, e a conivência generalizada entre as classes dominantes e as corporações da mineração.

Uma tendência global no sentido do desastre

O desastre vem em meio a uma grande crise econômica no Brasil, que afetou profundamente a indústria de mineração. A queda global no valor dos recursos de materiais como o ferro tem contribuído para a desaceleração econômica do Brasil.

As empresas de mineração têm respondido à crise demitindo trabalhadores e concentrando-se em medidas de corte de custos. 2.097 trabalhadores na indústria de mineração do estado de Minas Gerais foram demitidos no primeiro semestre de 2015. No Espírito Santo, um dos estados através do qual o Rio Doce passa no caminho para a costa, a empresa-mãe da Samarco, a Vale demitiu mais de quatro mil trabalhadores.

Enquanto a Samarco alega que as lagoas de rejeitos passaram pela inspeção do governo em julho e foram considerados seguras, o método que a empresa está usando para depositar resíduos em águas locais represadas é uma solução barata e arriscada. No Chile, onde os terremotos são uma ameaça constante, muitas empresas de mineração dependem de técnicas de armazenamento seco que custam dez vezes mais.

A construção de áreas de armazenamento à base de água a partir do zero em terra virgem também seria mais segura, mas custaria o dobro. Isso não é nada comparado com a morte, deslocamento e devastação afetando o ambiente e as comunidades ao longo do rio Doce. No entanto, para uma empresa capitalista, especialmente sob pressões recessivas, o método mais barato possível sempre prevalecerá.

Este tipo de desastre não é exclusivo para o Brasil e o mundo em desenvolvimento. É na verdade parte de uma tendência global na indústria de exploração mineira para falhas técnicas de armazenamento de resíduos à base de água cada vez mais numerosas e catastróficas. Um relatório da Lindsay Bowker e David Chambers mostra uma tendência crescente para falhas mais “sérias” e “muito graves” começando na década de 1960 e aumentando até o presente.

Quando as empresas se recusam a optar por estruturas de alto custo, técnicas de armazenamento mais seguras, e reparos eles se voltam para soluções improvisadas, que muitas vezes expandem o armazenamento e despejam muito além dos limites inicialmente previstos e concebidos. Ao analisar a segmentação dos mercados financeiros da indústria e as tendências de investimento, o relatório conclui que há “uma relação clara e irrefutável entre as mega tendências que espremem fluxos de caixa para todos os mineiros em todos os locais, e esta tendência indiscutivelmente clara para as falhas de cada vez maior consequência ambiental.”.

A crise causada pelas falhas no despejo de resíduos parece muito com a crise geral do investimento capitalista na produção. Não é lucrativo investir em grandes reparações, técnicas de armazenagem seguras, ou novas minas tecnicamente mais avançadas.

Diante da crise de sobreprodução desencadeada pela queda global nos preços do minério, as empresas procuram extrair o máximo possível de instalações de mineração existentes. No entanto, empurrando a extração até o ponto de ruptura tem consequências desastrosas para comunidades inteiras, regiões e ecossistemas.

Os custos de limpeza e prejuízos econômicos e ambientais a longo prazo nunca são suportados integralmente pela empresa – muitas vezes ela própria uma filial usada por grandes corporações para evadir a responsabilidade – mas em vez disso são repassados para os governos locais e nacionais.

No Brasil, essa tendência é exacerbada como os custos da adoção de medidas de segurança ou mesmo operando legalmente, muitas vezes superam as multas simbólicas impostas a empresas que violam a lei. As multas aplicadas à Samarco são de longe algumas das maiores aplicadas no Brasil, mas ainda estão muito aquém do esmagador custo econômico ambiental e humano deste desastre provocado pelo homem.

A Vale foi uma vez uma empresa de mineração nacional e vista como fundamental para o desenvolvimento da economia brasileira e da independência nacional. Mas a empresa estatal foi privatizada em 1997 sob a administração neoliberal de Fernando Henrique Cardoso em uma venda amplamente considerada como tendo desvalorizado substancialmente a empresa.

O seu preço de venda de 3,14 bilhões de dólares omitiu o valor de suas patentes, direitos minerais, reservas, e estoque em outras empresas. Embora incluídas na infraestrutura, muitas minas foram excluídas na avaliação do preço da Vale. No dia em que a venda foi finalizada milhares de manifestantes entraram em confronto com a polícia na frente da sede da empresa no Rio de Janeiro com protestos semelhantes em todo o Brasil.

Hoje, a empresa tem um valor estimado de mais de 53 bilhões de dólares e se estabeleceu- como uma multinacional global com uma reputação a ser superada. Por trás da ilusão de solidariedade Sul-Sul, as operações internacionais da empresa são tão ruins quanto e muitas vezes ainda piores do que as práticas das multinacionais europeias e americanas.

A Samarco, a empresa formalmente responsável pelo desastre, é por si só é uma joint venture de propriedade da Vale e da multinacional anglo-australiana BHP Billiton.

A cumplicidade do PT

Enquanto a Vale pode ter sido privatizada sob a liderança neoliberal de Cardoso e o direitista PSDB, os novos proprietários da empresa rapidamente encontraram parceiros dispostos no Partido dos Trabalhadores do ex-presidente Lula da Silva e da atual presidente Dilma Rousseff. Esforços legais para desafiar a privatização sobre irregularidades na venda da Vale não receberam nenhum apoio do PT que, em vez disso, abraçou a empresa, a indústria de mineração, e os bancos que controlam e financiam grande parte da indústria da mineração.

Apenas em 2014, a Vale investiu R$ 8,25 milhões nas campanhas eleitorais do PT e R $ 23,55 milhões para o PMDB – um aliado PT que controla o Ministério de Minas e Energia, bem como o Departamento Nacional de Produção Mineral. A campanha de reeleição de Dilma Rousseff contou com R$ 14 milhões em doações da Vale – superando de longe os R$ 2,7 milhões que foram para o candidato da oposição de direita, Aécio Neves - bem como outros R$ 14 milhões a partir de outras mineradoras.

Uma das maiores acionistas da Vale é o Banco Bradesco. Joaquim Levy, principal ministro econômico de Dilma e arquiteto de programas de austeridade recentemente implementados, trabalhou anteriormente como diretor do Bradesco. O Bradesco registrou um lucro recorde de R$ 4,47 bilhões, no segundo trimestre de 2015, um crescimento de 18% em relação ao ano anterior. O setor bancário como um todo tem visto um crescimento sem precedentes e as taxas de lucro sob a administração do PT, e os bancos têm sido um parceiro disposto do governo.

Em Minas Gerais, o epicentro do desastre, do PT Fernando Pimentel está servindo como governador. Longe de usar a crise como uma oportunidade para impor regulamentações mais rígidas, ele e os deputados do PT, em vez disso correu para aprovar um projeto de lei que já foi defendido pelo PSDB de Aécio Neves, que acelera o licenciamento ambiental para as empresas de mineração. O que emerge em nível estadual e nacional é uma teia de cumplicidade e apoio em que o PT tem sido muitas vezes partido de escolha da Vale para garantir e defender seus interesses econômicos.

Além disso, sob a pressão da crise econômica e profundamente afetado pelos escândalos de corrupção, há agora uma grande proposta para privatizar grandes seções da Petrobras, a companhia petrolífera estatal brasileira. A Petrobras tem avançado com um plano para vender US $ 15 bilhões em ativos até o final de 2015, com mais vendas para vir em 2016 e além. O custo estimado do escândalo de corrupção Lava Jato tem sido até agora de US$ 6 bilhões e, juntamente com a queda nos preços do petróleo, deixou a empresa altamente endividada e enfrentando uma grave crise.

Os trabalhadores da Petrobras têm tentado resistir a esta tendência de privatização. Os trabalhadores da Petrobras encerraram recentemente uma das maiores greves na história recente em que os trabalhadores em muitos locais ocuparam plataformas e locais de trabalho, bem como desafiaram as tentativas do burocracia sindical para acabar logo com a greve. A oposição ao plano de privatização foi uma grande demanda da greve e uma fonte de desilusão generalizada com o governo do PT.

No entanto, o principal sindicato responsável por representar os trabalhadores da Petrobras está profundamente ligado à gestão do PT e Petrobras. O descontentamento expresso na greve foi substancial, mas ainda muito aquém do tipo de movimento operário de massa que seria necessário para bloquear a proposta venda ativos.

A ameaça de privatização em curso e tanto futuro não só representa uma questão importante para os trabalhadores da Petrobras, mas potencialmente representa uma ameaça ambiental substancial. Se setores privatizados da indústria de petróleo e gás seguirem o mesmo caminho da Vale, a consequência provável será ainda a ocorrência de mais desastres ambientais.

Lutando de volta

O desastre de Mariana mostra o dano irreparável que as empresas capitalistas causam sobre o meio ambiente, e que as tendências de crescimento em toda a indústria de mineração são para a adoção de técnicas cada vez mais arriscadas e prejudiciais. Modelos empresariais em indústrias de risco ambiental, como a mineração, tendem a socializar os riscos terríveis de extração enquanto privatizam os benefícios financeiros.

No entanto, defender a propriedade estatal é importante, mas está longe de ser suficiente. A crise da Petrobras e sua crescente tendência para a privatização em si foi impulsionado pela pilhagem dos seus ativos pelo partido governante, o PT, e seus aliados. A capacidade dos partidos do governo e aliados para roubar a Petrobras em conluio com empresas privadas e gestão da empresa é uma fraqueza de seu caráter estatal e controlado pelo Estado.

A oposição de direita até agora tem sido capaz de usar os escândalos de corrupção para empurrar para posterior privatização. Rousseff e o PT tem avançado a privatização parcial da Petrobras pela venda de ativos como uma solução para os enormes custos da corrupção e do aprofundamento da crise econômica.

No rescaldo do desastre há uma oportunidade política para dar um golpe contra todo o projeto de privatização. A única alternativa que os partidos do governo têm para oferecer ao Brasil é mais privatização em ritmo mais lento ou mais rápido, com mais desastres ambientais como uma certeza para o futuro.

Contra a corrupção estatal e corporativa, a esquerda deve retomar o velho slogan de nacionalização sob o controle operário – não apenas como uma demanda de trabalho, mas também uma necessidade ambiental. Com uma crise na Petrobras e crescente ódio popular contra a Vale, a gestão dos trabalhadores representa a única alternativa real a um futuro dominado pelos lucros privados e a socialização da devastação.

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