Mostrando postagens com marcador Aloizio Mercadante. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Aloizio Mercadante. Mostrar todas as postagens

16 de abril de 2025

Com reação agressiva à China, Trump destrói ordem mundial

Presidente rompeu previsibilidade econômica e enfraquece pilares do poder geopolítico dos EUA

Aloizio Mercadante
Presidente do BNDES. Foi ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República e ministro da Educação e da Ciência, Tecnologia e Inovação


[RESUMO] Autor sustenta que medidas agressivas e improvisadas de Donald Trump, como as idas e vindas de sua guerra comercial, expõem uma resposta errática do governo dos EUA à corrosão da hegemonia econômica, financeira e política do país e representam uma tentativa de recriação de um império assentado no uso ilimitado da força.

*

Logo após o "Dia da Libertação", o dia do grande tarifaço dos EUA, Drew Matus, estrategista-chefe de mercado da MetLife Investment Management, afirmou: "Não sei que tipo de orientação pode ser fornecida aos meus clientes". "Estamos dirigindo por uma estrada escura, sem faróis", arrematou. Esse quadro de perplexidade é geral.

Pudera. O que Trump está fazendo não tem precedente histórico equivalente. O exemplo que mais se aproxima é a Lei Tarifária de 1930 (Smoot-Hawley), adotada pelos EUA durante a Grande Depressão com o intuito de proteger seu mercado interno e "preservar empregos". Teve o efeito oposto: agravou a recessão nos EUA, aumentou o desemprego e reduziu o comércio mundial em até 70% pelo efeito cascata das retaliações que provocou.

Donald Trump em reunião na Casa Branca - Kevin Lamarque - 14.abr.25/Reuters

À perplexidade, se soma a imprevisibilidade, algo mortal para os investimentos e os negócios de um modo geral. Com efeito, as intermináveis idas e vindas do governo Trump em torno das tarifas tornam difíceis quaisquer prognósticos mais acurados sobre o que está por vir.

Uma coisa, no entanto, é certa: boa coisa não é.

Mesmo se, em um cenário mais otimista, talvez ingênuo, a guerra tarifária acabar mais restrita a um embate bilateral entre a China e os EUA, o prognóstico é muito ruim. Afinal, se trataria de um conflito entre as duas maiores economias do mundo.

Os EUA respondem por cerca de 26% do PIB mundial, enquanto a economia da China, medida em dólares, representa aproximadamente 19% do PIB planetário. Juntos, portanto, EUA e China são responsáveis por quase metade da economia do planeta. A China é o maior produtor de mercadorias do mundo, e os EUA, os maiores consumidores.

É impossível que a economia internacional passe incólume por um conflito desse calibre. A interrupção das exportações de minerais e ímãs críticos pela China após o tarifaço de Trump já ameaça o fornecimento de componentes essenciais para montadoras e as indústrias aeroespacial, bélica e de semicondutores de alguns países.

Porém, parece pouco provável que o fenômeno desencadeado por Trump fique limitado a um conflito bilateral com a China, embora a rivalidade crescente com o gigante asiático esteja no centro das suas preocupações geopolíticas e geoeconômicas.

É necessário entender o que está por trás da euforia e dos métodos irracionais de Trump. As reações iniciais às tarifas expuseram problemas mais profundos que meros déficits comerciais bilaterais. Por trás do cálculo linear, bisonho e, sobretudo, falso do tarifaço está a preocupação patente de Trump com o lugar dos EUA na nova ordem mundial.

Se os EUA enfrentam dificuldades crescentes para manter sua hegemonia, romper com a ordem política e o bom funcionamento da economia internacional, já em desgaste, pode ter uma certa, porém questionável, utilidade estratégica —especialmente diante do crescente endividamento do país e da ascensão chinesa, que avança em domínio tecnológico e autonomia financeira.

Peter Navarro, conselheiro sênior para o Comércio da Casa Branca, defende que as tarifas resolveriam a "emergência nacional" decorrente do alto nível de déficit das contas públicas dos EUA.

Atualmente, a dívida pública dos EUA está em 120% do PIB, ou aproximadamente US$ 35 trilhões (R$ 205 trilhões). O último superávit orçamentário ocorreu em 2001, e o último superávit comercial, em 1975. Os gastos militares e os juros da dívida —que devem atingir, respectivamente, cerca de US$ 950 bilhões (R$ 5,6 trilhões) em 2025 e US$ 1 trilhão (R$ 5,9 trilhão) em 2026— consomem grande parte do orçamento, assim como as despesas obrigatórias com programas sociais como Medicare, Medicaid e Seguridade Social.

Nesse contexto, as pretensões do Doge (Departamento de Eficiência Governamental) de Elon Musk soam particularmente utópicas. A meta de cortar US$ 1 trilhão em gastos federais sem afetar esses programas —que Trump declarou categoricamente não pretender reduzir— parece economicamente inviável.

Até agora, as medidas implementadas (demissões no serviço público, venda de ativos e cancelamento de contratos) geraram economias cujo impacto real permanece não comprovado. Analistas independentes identificaram graves falhas metodológicas nos cálculos de Musk, questionando a viabilidade de seu plano.

O tarifaço de Trump tem, também, um objetivo pouco visível: transferir parte do custo de um ajuste fiscal em grande escala para consumidores e empresas de outros países.

Por seu turno, a China vem acelerando sistematicamente o desacoplamento financeiro com os Estados Unidos. Em dezembro de 2024, reduziu sua exposição à dívida norte-americana pelo nono mês consecutivo —queda que trouxe suas reservas para US$ 759 bilhões (R$ 4,5 trilhões), valor significativamente inferior ao pico de US$ 1,3 trilhão (R$ 7,7 trilhões) detido entre 2011 e 2013. Essa estratégia de diversificação é complementada por uma agressiva acumulação de ouro, com o país alcançando a marca de 2.284 toneladas em janeiro de 2025.

O movimento ganhou novo ímpeto com a recente venda de mais de US$ 50 bilhões (R$ 295 bilhões) em títulos do Tesouro americano, operação que reverberou nos mercados globais, pressionando taxas de juros, depreciando ativos de risco e elevando o custo de financiamento tanto para o governo quanto para a economia norte-americana.

A China está liderando um processo global de desdolarização, que ameaça diretamente a hegemonia do dólar, que, em última análise, sustenta, ainda que de forma crescentemente precária, os déficits e as dívidas dos EUA.

O cabo de segurança da economia estadunidense vem sendo corroído e ameaça se romper, o que provocaria uma queda acentuada e irreversível da hegemonia política, econômica e financeira dos EUA, até pouco tempo inquestionável.

O governo Trump 2, com sua resposta improvisada e errática a esse imenso desafio estratégico, gera incertezas sobre a estabilidade e a previsibilidade da política econômica norte-americana e, assim, aumenta significativamente o risco de corroer ainda mais o pilar fundamental do poder geopolítico dos EUA: o status do dólar como a principal moeda de reserva internacional e o meio preferencial para transações comerciais globais.

Muito embora o yuan, como alternativa ao dólar nas transações financeiras globais (3,75% do total em dezembro de 2024), ainda esteja muito aquém da dominância da moeda estadunidense, que respondeu por 49% das transações no mesmo período, há uma tendência crescente de substituição do dólar tanto pela moeda chinesa quanto por outras em transações regionais e bilaterais.

Essa tendência vem sendo acentuada pelo uso político do dólar em sanções comerciais e financeiras contra vários países do mundo (Rússia, Venezuela, Irã etc.), o que aumenta a insegurança e a desconfiança internacional em relação à moeda dos EUA.

Evidentemente, abordar o déficit em conta corrente com uma análise simplista, que considera apenas o comércio de bens e ignora fluxos de serviço e renda, está fadado ao fracasso. As "tarifas recíprocas", que, na realidade, são sanções comerciais aleatórias impostas a todo o mundo, mesmo a países aliados e que apresentam déficit com os EUA (como o Brasil), produzem um efeito imediato: elevam significativamente a incerteza sobre a economia norte-americana, criando condições que podem precipitar uma recessão.

Embora Trump alegue que as medidas estimularão novos investimentos nos EUA, essa perspectiva parece pouco realista diante do clima de instabilidade já gerado nos mercados, tanto domésticos quanto globais. A combinação de políticas imprevisíveis e cálculos econômicos rudimentares tende a produzir resultados opostos aos prometidos.

Frise-se que procurar reduzir o déficit e buscar redinamizar a indústria estadunidense não seriam, em si mesmos, objetivos irracionais. O problema, obviamente, está na ausência total de uma estratégia racional e mesmo lícita, dentro das regras multilaterais de comércio, criadas em grande parte pelos EUA, para se atingir tais objetivos em prazo mais longo, com verdadeiras negociações e sem destruir cadeias regionais e globais de valor.

Ninguém cria uma nova indústria da noite para o dia mediante um protecionismo improvisado e exacerbado. O que vamos assistir é a interrupção de cadeias de suprimentos, desabastecimento e pressão inflacionária, porque não houve preparação ou tempo de maturação, por exemplo, em logística e infraestrutura. Todo esse processo é marcado pela improvisação e pela inconsistência.

Para tanto, seria necessária uma política industrial muito bem-concebida, desenhada para construir cadeias nacionais e regionais de valor a longo prazo e dentro de regras multilaterais acordadas, como o Brasil vem procurando fazer no terceiro governo Lula (PT).

Do mesmo modo, a China tampouco se tornou a primeira economia do mundo em paridade do poder de compra e a nova fábrica do planeta simplesmente praticando um protecionismo tosco e se aproveitando dos EUA, como afirma Trump.

A China se tornou o que é hoje porque não seguiu o paradigma neoliberal que os EUA contribuíram para impor ao mundo e, de certa forma, a si mesmos. Pequim seguiu um caminho diferente, centrado no papel do Estado.

A ascensão da China se deu mediante uma complexa e bem-elaborada estratégia econômica, política e tecnológica. Não ocorreu via bravatas e ameaças.

O governo chinês, já em 2005, elevou a inovação autóctone ao status de prioridade estratégica nacional, equiparando sua importância à política histórica de reforma e abertura. Ao posicionar o desenvolvimento científico e tecnológico como eixo central da reestruturação industrial e do novo modelo de desenvolvimento, a China estabeleceu a ambiciosa meta de alcançar a liderança tecnológica global até 2050.

Nas duas décadas seguintes, o país não apenas consolidou sua posição nas cadeias de valor em que já atuava quanto promoveu um salto qualitativo em sua base industrial, ampliando significativamente sua complexidade produtiva e conquistando vantagens competitivas em setores estratégicos, desde energia renovável até a indústria aeroespacial e a microeletrônica.

Atualmente, a China consolida sua liderança global em inteligência artificial e se destaca como a maior detentora de patentes e publicações científicas na área, além de dividir com os EUA a vanguarda no desenvolvimento de IA generativa.

Os investimentos chineses em escala industrial e sua notável habilidade em transformar pesquisa aplicada em soluções comerciais sugerem que o emparelhamento tecnológico com os líderes pioneiros não apenas é possível, mas pode ocorrer em curto espaço de tempo. Essa trajetória desafia a noção convencional de que vantagens tecnológicas são estruturalmente irreversíveis, apontando para um cenário global de competição mais dinâmico e imprevisível.

Isso assusta muito os EUA e suas big techs. A combinação da desdolarização crescente com a perda da vanguarda tecnológica nos setores portadores de futuro poderia fragilizar a economia estadunidense. Poderia, inclusive, ter efeitos diretos desastrosos em sua indústria de defesa e em sua hegemonia militar.

A questão essencial a ser destacada, no entanto, não é o equívoco fundamental de Trump de reagir às grandes mudanças geoeconômicas e geopolíticas ocorridas recentemente na ordem mundial mediante o vácuo estratégico de medidas improvisadas e contraproducentes. A questão central é geopolítica. Trump quebrou um vaso precioso, cujos cacos dificilmente serão colados de volta.

A partir de uma ação unilateral desabrida, Trump destruiu de vez a antiga ordem mundial baseada em regras e está tentando implantar, pela força e pelas ameaças, uma nova ordem mundial hobbesiana, a qual recriaria a antiga hegemonia inconteste e unilateralista dos EUA, que predominou desde o colapso da URSS até os primeiros dez anos deste século.

Em outras palavras, Trump, com suas ações improvisadas, equivocadas e agressivas, não apenas destruiu a previsibilidade econômica, mas também a confiança política em uma ordem mundial minimamente funcional. Agora, é cada um por si.

Como escreveu o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, ao analisar a brusca mudança de cenário: "O mundo como conhecíamos não existe mais". Em artigo publicado no jornal The Telegraph, Starmer afirmou que o Reino Unido está preparado para usar políticas industriais ativas a fim de proteger os interesses nacionais diante do novo contexto internacional. "Estamos prontos para usar a política industrial para proteger os negócios britânicos da tempestade."

Essa tempestade deverá afetar principalmente o Sul Global e os países mais frágeis.

A reciprocidade tarifária exigida por Trump iguala os desiguais e, na prática, fere de morte o direito ao desenvolvimento, o qual tem fundamento nas regras multilaterais de comércio, que asseguram tratamento especial e diferenciado aos países em desenvolvimento.

A reciprocidade com a maior potência do planeta resultou, por exemplo, na imposição de tarifas de 50% a um país paupérrimo como o Lesoto, que já tinha sido profundamente lesado pelo corte na ajuda internacional, também imposta pelo novo governo imperial dos EUA.

Por sua vez, a bilateralização dos contenciosos por ele imposta é uma negação das negociações. A bem da verdade, pela correlação de forças envolvidas, na imensa maioria dos casos a negociação será simples e descarada imposição, como se viu no caso do Panamá.

"Fale manso e carregue um grande bastão; você irá longe", afirmava Theodore Roosevelt. Trump abandonou a fala mansa e o soft power. Aos berros, brande um "big stick" de ameaças econômicas, políticas e militares.

É a volta de um império nu e cru, assentado somente no uso desavergonhado e ilimitado da força. É a volta a um colonialismo que ameaça até mesmo com a invasão de territórios de outros. Parece que voltamos ao século 19. Não deverá ir longe.

Resta, finalmente, uma última indagação. Como as democracias do mundo passarão por esse teste de estresse provocado pela maior potência mundial, que pode celeremente se tornar uma autocracia? Não se sabe.

Estamos em uma estrada escura, dirigindo sem faróis. O destino dessa estrada parece ser uma distopia econômica, política e civilizacional.

A salvação talvez possa vir de uma grande concertação internacional, que ilumine uma outra estrada, a qual tenha como destino o combate às assimetrias mundiais, o equilíbrio climático, a cooperação internacional, a paz e a aposta em uma ordem mundial com regras justas e renovadas, centrada no entendimento de que a relação entre os países não pode ser um jogo de soma zero, como pensa Trump.

Como diz sabiamente um conhecido provérbio chinês: "Se houver luz na alma, haverá beleza na pessoa. Se houver beleza na pessoa, haverá harmonia na casa. Se houver harmonia na casa, haverá ordem na nação. Se houver ordem na nação, haverá paz no mundo".

Trump, aterrorizando imigrantes e ameaçando países parece não ter luz na alma. Felizmente, há líderes mundiais, como Lula, que a tem.

9 de janeiro de 2025

Quem apostar contra Brasil que está ressurgindo irá perder

Terceiro governo Lula repete processo virtuoso de crescimento com justiça social e preservação do meio ambiente

Aloizio Mercadante
Presidente do BNDES. Foi ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República e ministro da Educação e da Ciência, Tecnologia e Inovação


[RESUMO] Depois de anos de retrocesso e predomínio de uma agenda política reacionária, sustenta o autor, o Brasil voltou a inspirar o mundo como exemplo de combate à pobreza, desenvolvimento econômico e enfrentamento da crise climática, mas o governo Lula enfrenta a intolerância de quem olha o país pelas lentes do crescimento predatório e da ideologia da desigualdade.

*

Em novembro de 2007, no primeiro ano do segundo governo Lula, publiquei um artigo nesta Folha intitulado "Eles estão chegando". Eles quem? Eles, os pobres, os miseráveis, os excluídos de oportunidades e direitos. Eles, os invisíveis.

Eles, os que passam fome, os que não têm empregos decentes, os que foram abandonados pela educação e não acessam as universidades. Eles, os que nunca têm seus sonhos realizados, mas que persistem sempre. Eles, os que sobrevivem de luta e vivem de fé.

Eles, os que dormem noites curtas e se exaurem em dias longos. Eles, os que sempre suam por seus incertos e magros almoços, que nunca são grátis.

Eles, os que não jogam na Bolsa, não especulam com o dólar e não vivem do rentismo propiciado pelas imoderadas taxas de juros. Ele, o fantástico povo brasileiro, nosso principal ativo humanitário, econômico e político. Nossa salvação coletiva.

Saguão do aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos - Rubens Cavallari - 11.dez.24/Folhapress

Ele, eles e elas, argumentava naquele artigo, estavam chegando aos lugares antes acessíveis apenas a uma minoria de privilegiados. Eles estavam chegando, graças ao governo Lula, aos mármores dos aeroportos. Voando pela primeira vez. Chegando ao fino papel dos títulos universitários. Os primeiros doutores dos filhos da pobreza.

Eles estavam chegando ao século 20 por meio do fornecimento de energia elétrica. Saindo das trevas pela primeira vez. Vendo os rostos adormecidos dos filhos pela primeira vez. Eles estavam chegando, ao mesmo tempo, ao século 21, pela via da inclusão digital, pela primeira vez. Eles estavam chegando ao mercado de consumo, ao emprego decente, ao salário suficiente. A igualdade racial avançava pela Lei de Cotas e por ações afirmativas. Cidadãos de verdade, pela primeira vez. Brasileiros de um Brasil para todos e todas, pela primeira vez.

Mas isso desagradava os ideólogos das assimetrias, os "kids pretos" da desigualdade, que viam com um misto de temor e ódio esse processo libertador e civilizatório.

Pois bem, após um longo retrocesso causado pelo golpe, pelo predomínio de uma agenda política francamente reacionária e por um governo de tintes nazistoides, aquele processo libertador e virtuoso se repete, agora, no terceiro governo Lula.

Democraticamente, o Brasil se levantou, sacudiu a poeira e o mofo de uma agenda antipopular e autoritária, derrotou a tentativa de golpe, reafirmou o Estado de Direito e "deu a volta por cima".

Eles e elas estão voltando. Eles estão voltando a sair da pobreza e da miséria. As taxas de desigualdade, desemprego e pobreza do país estão entre as menores da história. Com efeito, a pobreza e a extrema pobreza no Brasil registraram, em 2023, os menores índices da série histórica iniciada em 2012, conforme o IBGE. Pela primeira vez, a extrema pobreza ficou abaixo de 5%, caindo para 4,4%, o que representa 9,5 milhões de pessoas. Eles estão voltando à saciedade. Saindo da fome de novo.

Apenas em 2023, cerca de 13 milhões de pessoas saíram da condição de fome no Brasil, o que representa uma redução de mais de 30% da insegurança alimentar total do país. Em muito breve, o Brasil deverá sair, novamente, do Mapa da Fome da ONU.

Eles estão voltando ao emprego. A taxa de desemprego no terceiro governo Lula caiu para apenas 6,1%, a menor da nova série histórica do IBGE. Hoje, temos também a maior quantidade de trabalhadores ocupados. A massa salarial também atingiu um recorde histórico, de R$ 332,7 bilhões.

Deve-se ressaltar que, entre janeiro e setembro de 2024, a quantidade de novos empregos na indústria cresceu 75% em relação a 2023, e mais da metade deles foram ocupadas por trabalhadores jovens. O Brasil subiu 30 posições no ranking mundial de crescimento da produção industrial. A indústria brasileira se destaca no crescimento do PIB, que foi de 3,2% em 2023 e deve alcançar 3,6% em 2024.

O plano Nova Indústria Brasil está retomando o processo de industrialização, e o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), instituição por mim dirigida, já aprovou créditos com uma média de R$ 190,6 bilhões nos dois últimos anos, contra a média de R$ 92 bilhões dos quatro anos do governo anterior. O volume de crédito aprovado nestes dois anos de governo Lula já é superior aos quatro anos anteriores, sendo mais de R$ 171 bilhões para a indústria, com recorde histórico do financiamento para a inovação e a liderança do setor de alto valor agregado, como a indústria aeronáutica, a farmacêutica e a automotiva.

Com Lula, rumamos para deixar de ser apenas o maior produtor-exportador de alimentos e estamos revertendo a primarização da nossa economia. Avançamos para oferecer empregos de qualidade e renda mais elevada para a população.

De fato, eles estão voltando também à renda e ao consumo. Com a volta do emprego, a valorização do salário mínimo e o fortalecimento de programas sociais, como o Novo Bolsa Família, eles estão voltando a constituir um amplo mercado interno de consumo de massa, aquecendo muito as vendas do nosso comércio.



O presidente Lula (PT) durante cerimônia, em Brasília, que marca os dois anos dos ataques golpistas de 8 de janeiro - Evaristo Sá/AFP

Com isso, as vendas do varejo aumentaram 12,2% em 2024 e, no último Natal, cresceram nada menos que 5,5% nos shoppings em relação ao anterior, que já havia mostrado recuperação. Elas e eles voltaram para deixar cheias as lojas. Tudo isso estimula a nossa economia. Com elas e eles voltando, os investimentos voltaram também e já atingiram a taxa de 17,6% do PIB.

O Brasil com Lula voltou a ter a confiança do mundo. Lideramos o G20 e vamos estar à frente do Brics e da COP30.

O desmatamento da Amazônia atingiu a menor taxa dos últimos nove anos. No Pantanal, a redução estimada foi de 77,2% entre meados de 2024 e meados de 2023. Além disso, o Brasil lidera o G20 em energia limpa e renovável, graças ao BNDES, que, segundo a Bloomberg, foi o banco que mais financiou energia limpa na história. Esse esforço contribuiu para que nosso país passasse a ser o segundo maior receptor de investimentos estrangeiros diretos do mundo. O planeta vê o potencial sólido do nosso país e sua liderança no enfrentamento da grave crise climática.

Com o crescimento, o consumo e os investimentos voltando, as receitas também voltaram. Em novembro deste ano, a arrecadação federal atingiu R$ 209,2 bilhões, o maior valor para o mês desde 2013 e 11,2% superior ao mesmo período de 2023. A reforma tributária, aguardada por 40 anos, deverá aprofundar esse processo, com mais racionalidade.

Com eles e o crescimento, o consumo e os investimentos voltando, a tendência é que o Brasil se reequilibre cada vez mais do ponto de vista fiscal e que nossa dívida adquira um perfil perfeitamente sustentável, como certamente acontecerá com as novas medidas econômicas e a nova gestão do Banco Central.

A inflação, apesar da campanha de pânico introduzida pelos interessados no rentismo imoderado, está sob controle. O IPCA deve ser de 4,9% em 2024 e cair, segundo as projeções do Banco Central, para 4,5% em 2025. A inflação não voltou, apesar do impacto das inundações no sul e da seca histórica no Centro-Oeste e no Norte.

Não há gastança nem descontrole. O governo Lula herdou um pesado passivo fiscal de um governo negacionista que nunca cumpriu o teto de gastos e promoveu um populismo fiscal eleitoral sem precedentes na história do país. O déficit do governo anterior, em valores correntes, foi de R$ 88,9 bilhões em 2019, R$ 745,3 bilhões em 2020 e R$ 35,9 bilhões em 2021 —em 2022, houve um superávit maquiado de R$ 54,9 bilhões, decorrente do calote nos precatórios, de R$ 95 bi, e no ICMS dos estados, de R$ 80 bi.

A equipe econômica de Fernando Haddad tem feito um trabalho incansável para recuperar as finanças públicas e reduzir o ritmo de expansão dos gastos obrigatórios para preservar os investimentos públicos, com resultados muito expressivos e promissores. Em 2024, o déficit primário deve ser de apenas 0,1% do PIB, segundo o ministro, excluído o eficiente e indispensável empenho na recuperação do Rio Grande do Sul, que sofreu a maior catástrofe natural da história do Brasil.

O que há é uma intolerância ideológica e uma campanha política para tirar os pobres de Orçamento e manter privilégios inaceitáveis. Tirar os pobres e continuar a eximir os ricos dos devidos impostos. Tirar os pobres e manter um rentismo injustificável e incapaz de promover o desenvolvimento. Tirar os pobres e investir na "parlamentarizarão" opaca e ineficiente da gestão orçamentária. Essas são questões fundamentais que o país e sua democracia têm de decidir.

Mas quem apostar contra esse novo Brasil que está ressurgindo irá perder. Quem assim o faz está do lado errado da história e na contramão das tendências mundiais, que apostam no combate às assimetrias econômicas e sociais, no controle do rentismo financeiro e em um novo e dinâmico papel do Estado na economia, com sustentabilidade ambiental e enfrentamento da crise climática.

Por tudo isso, o investimento na preservação do meio ambiente e em nossa própria gente é o melhor investimento a ser feito. É um investimento que produz inúmeros benefícios econômicos, ambientais e sociais. Na realidade, é um investimento que beneficia todo o mundo, não apenas os pobres e necessitados. Não é "gastança", é investimento no futuro do Brasil.

Só os que ainda olham o país pelo retrovisor do crescimento predatório e da ideologia da desigualdade e da exclusão não conseguem perceber essa verdade fundamental. Até mesmo a democracia se beneficia muito desse investimento, pois os processos democráticos só se consolidam quando todas e todos têm oportunidades, emprego, saúde, segurança e educação. Quando todas e todos são cidadãos de verdade. Quando todas e todos têm esperança em um futuro melhor.

Quando a esperança volta, o ódio, o grande inimigo atual da democracia, some. Lula, pouco antes de assumir seu terceiro mandato, disse ao mundo que o Brasil tinha voltado.

De fato, o Brasil voltou. Voltou para inspirar o planeta com seu exemplo de solidariedade, de justiça social, de combate à pobreza e à fome, de busca do equilíbrio ambiental e de paz. Mas o Brasil voltou porque eles estão voltando.

O Brasil voltou porque o povo brasileiro voltou. Voltou ao lugar que lhe cabe no país e na história e, desta vez, não podemos retroceder. Eles estão voltando para ficar.

29 de junho de 2024

O Real não foi só um plano econômico

Programa teve êxito contra a inflação, mas não garantiu a retomada do crescimento

Aloizio Mercadante
Economista, é presidente do BNDES. Foi ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República e ministro da Educação e da Ciência, Tecnologia e Inovação

Folha de S.Paulo

O Plano Real teve sucesso em acabar com a alta inflação, diminuindo o grau de indexação da economia brasileira. A Unidade Real de Valor (URV) permitiu a saída de forma criativa e organizada da alta inflação inercial, sem congelamento de preços. Outro elemento crucial foi a renegociação e a securitização da dívida externa pelo Plano Brady.

Na preparação do Real, o governo renegociou a dívida externa velha, abriu a conta de capitais e elevou brutalmente o juro real, para evitar fuga de capitais domésticos e atrair capital de curto prazo, o que viabilizou a transição da URV para o Real.

A valorização inicial do câmbio foi essencial para a rápida redução da inflação, mas trouxe um alto custo: o início da era de elevados juros reais. De 1994 a 1999, a taxa básica média de juro real foi de 22% ao ano.

Batata com o preço em URV em feira em São Paulo, em março de 1994 - Luiz Carlos Murauskas/Folhapress

Para atrair recursos externos e promover o ajuste fiscal, o governo liquidou ativos estatais por preços reduzidos, sem o planejamento de uma política industrial e sem avaliação estratégica dos desdobramentos.

Depois de 30 anos, a história mostra que o Plano Real teve êxito ao reduzir a inflação, mas não em garantir a estabilidade macroeconômica e a retomada do crescimento. Para reeleger FHC, a âncora cambial foi prorrogada, com a apreciação do câmbio e a deterioração das contas externas, empurrando o país para grave crise cambial, econômica e social.

Do lado financeiro, o déficit em transações correntes aumentou de 2,5% do PIB, em 1995, para 4,5% do PIB, em 1999. Do lado social, o arrocho monetário e fiscal produziu alta no desemprego, de 4,6%, em 1995, para 7,6%, entre 1995 e 1999.

O governo FHC expôs o país a um ataque especulativo decorrente do desequilíbrio das contas externas, recorreu ao FMI e se submeteu ao chamado "Consenso de Washington". Mesmo assim, não evitou nova crise cambial e novo pedido de ajuda ao FMI (2002), selando o destino dos governos do PSDB, que não venceram mais eleições presidenciais e amargaram uma crise partidária, agravada pelo apoio ao golpe de 2016 e pela adesão de lideranças ao bolsonarismo.

A estabilização do Plano Real só se completou no governo Lula, quando o país quitou a dívida com o FMI e começou a acumular reservas internacionais, que até hoje nos dão autonomia de política econômica. Do lado fiscal, a estabilização está incompleta. Esgotaram-se as estratégias de queima de patrimônio público e de metas de resultado primário ambiciosas, que geraram uma política fiscal pró-cíclica que aprofundou as flutuações da economia.

Ao analisar o Plano Real, o PT reconheceu o mérito da desindexação da economia, mas denunciou a manutenção da âncora cambial, com a apreciação do câmbio e a deterioração das contas externas, e o elevado custo econômico e social, que precarizou a vida da população.

É preciso reconhecer a competência e a inovação da equipe técnica que criou o Plano Real, em particular Pérsio Arida e Lara Resende. Eles têm imensa responsabilidade pelas vitórias do PSDB, mas pressões eleitorais no ninho tucano impediram a saída organizada da âncora cambial e empurraram o país para grave crise cambial, desindustrialização, endividamento público elevado e recessão econômica prolongada.

A despeito das nossas divergências, o país sente saudade do tempo em que a polarização se dava entre o PT e o PSDB. Naquele período, havia disputa acirrada, mas qualificada, sem renunciarmos ao compromisso com o Estado democrático de Direito e com a cidadania.

5 de setembro de 2023

Produtividade e digitalização para a indústria

Brasil precisa dar salto tecnológico com automação e robótica avançada

Aloizio Mercadante
Presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)

Rafael Lucchesi
Diretor-geral do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e diretor de Educação e Tecnologia da CNI (Confederação Nacional da Indústria)

A indústria brasileira luta há décadas com desafios de produtividade: perdeu terreno durante as mudanças tecnológicas iniciadas nos anos 1970 e 1980 e falhou em capitalizar os benefícios da terceira revolução industrial. Esses desafios são exacerbados por questões da baixa qualidade da educação e um parque industrial obsoleto, com máquinas e equipamentos com idade média de 14 anos.

A produtividade é a medida da eficiência de produção. Ela é frequentemente definida como a relação entre a quantidade de produtos gerados e os recursos utilizados. Em termos simples, refere-se a "produzir mais com menos".

Robô trabalha na montagem de câmbio em linha de produção de motores na fábrica da Ford em Taubaté (SP) - Diego Padgurschi/Folhapress - Folhapress

A transformação digital, impulsionada pela quarta revolução industrial, é uma oportunidade para as indústrias brasileiras se tornarem mais competitivas. Adotar tecnologias como a internet das coisas e a inteligência artificial pode melhorar a eficiência, aperfeiçoar produtos e reduzir custos. Entretanto, falta de conhecimento e custos elevados são obstáculos para sua implementação.

A indústria desempenha um papel central na economia brasileira porque se destaca pela constante incorporação de avanços tecnológicos em seus processos. A cada R$ 1 produzido na indústria, são gerados R$ 2,44 na economia brasileira. O setor emprega 10,3 milhões de trabalhadores e é responsável por 66,4% do investimento empresarial em pesquisa e desenvolvimento, fator decisivo para a inovação e ganhos de competitividade.

No entanto, muitas empresas ainda não adotam tecnologia digital. Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram que 31% das empresas nacionais ainda não utilizam sequer alguma tecnologia digital em seu processo produtivo.

O governo anunciou recentemente a prioridade de uma política de neoindustrialização, incluindo o maior programa de produtividade e digitalização da história do país, cujo objetivo é aumentar a produtividade de pequenas e médias empresas por meio da aplicação da metodologia Lean ("produção enxuta") e adoção de ferramentas digitais.

O novo Brasil Mais Produtivo é liderado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em colaboração com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).

Para executar a transformação digital nas empresas, o programa vai unir consultoria e formação profissional de colaboradores. As indústrias terão apoio em produtividade e transformação digital; vão receber diagnóstico e acompanhamento para melhoria de gestão; participarão de intervenções para melhoria da produtividade e da eficiência energética; e serão beneficiadas com projetos de empresas provedoras de tecnologias 4.0 e contempladas com plano de transformação digital.

Programas anteriores demonstraram a eficácia dessa abordagem. O programa Brasil Mais Produtivo, por exemplo, aumentou a produtividade em 66%. Com a missão de alavancar a produtividade nacional, o Novo Brasil Mais Produtivo vai beneficiar mais de 200 mil empresas ao longo de quatro anos. Será um programa de alto impacto na indústria e na economia brasileira.

As medidas para aumentar a produtividade e incentivar a digitalização chegam em boa hora e são urgentes para construir uma nova política industrial sustentável, inovadora e socialmente inclusiva. Assim, as empresas brasileiras vão ampliar a escala de mercado e participar de cadeias globais de fornecimento.

O Brasil precisa dar um salto na direção da indústria 4.0, na automação, na robótica avançada. Essas tecnologias não apenas otimizam os processos de produção, mas também redefinem o conceito de manufatura.

É chegada a hora da retomada da indústria no Brasil.

8 de dezembro de 2019

Compromisso democrático e bolsonarismo envergonhado

Autores contestam versão de que equívocos petistas favoreceram a ascensão da extrema direita e reafirmam projeto de crescimento sustentável com inclusão social defendido por Lula

Aloizio Mercadante e Tereza Campello

Folha de S.Paulo

Ilustração: André Stefanini.

O retorno do ex-presidente Lula ao convívio dos brasileiros e brasileiras, após um ano e sete meses de prisão ilegal e injusta, é o dado novo do cenário político nacional. É um fato auspicioso para os que confiam na verdadeira justiça e trabalham pela retomada plena do processo democrático, abalado desde o afastamento da presidenta Dilma Rousseff sem crime de responsabilidade e comprometido pela interdição política da maior liderança do país por meio de uma condenação arbitrária.

Mesmo lutando ainda por um julgamento justo, no qual se reconheça sua inocência e se resgatem seus direitos, Lula já foi capaz de injetar nova esperança aos amplos setores que buscam uma saída democrática para a profunda crise social, econômica, política e civilizatória em que o país foi mergulhado pelo governo de extrema direita e seu projeto obscurantista e de regressão social.

Ao mesmo tempo, o retorno de Lula é perturbador para os poderosos interesses que este governo representa, porque Lula é uma ameaça real aos que querem iludir a população com a reimplantação de modelos econômicos socialmente excludentes, fracassados e com políticas antipopulares travestidas de inevitáveis escolhas técnicas.

Steve Bannon, líder da ultradireita mundial, afirmou que Lula é a grande liderança da “esquerda globalista” e que seu retorno à política provocará “grande perturbação”. Essa compreensível resistência da ultradireita à liderança de Lula, dentro e fora do país, tem se revelado também em setores situados no que seria o centro do espectro político e tentam se apresentar em conveniente distância da truculência bolsonarista.

É o que se constata da leitura do artigo aqui publicado (1º/12) por três interlocutores desse campo político-ideológico, Paulo Hartung, Marcos Lisboa e Samuel Pessôa, sob o revelador título [na versão online] “Brasil vive entre riscos de extrema direita e recaída lulista”.

Com excessos retóricos e simplificação artificial do debate, os autores equiparam Lula a Jair Bolsonaro. Não é uma “tese” nova, frise-se. Já foi apresentada em editoriais e artigos que tentam nivelar trajetórias e projetos políticos absolutamente distintos exatamente por serem opostos. A inovação do artigo é tentar encobrir essa falácia política e histórica com argumentos supostamente técnicos e econômicos.

Primeiramente, Lula é um autêntico democrata. Construiu sua trajetória na luta por direitos e liberdade. Uma liderança erguida na difícil arte da negociação sindical, entre os interesses conflitantes de patrões e empregados. Lula viveu para construir a democracia; Bolsonaro, para impedi-la e, agora, ameaçá-la. Estiveram e estão em polos opostos, sim, mas só um deles foi e continua sendo um extremista.

Convidamos os autores a ler o que disse Lula duas semanas atrás, no 7º Congresso Nacional do PT:

“Vamos deixar uma coisa bem clara: se existe um partido identificado com a democracia no Brasil é o Partido dos Trabalhadores. O PT nasceu lutando pela liberdade durante a ditadura. Não tentem negar essa verdade, porque nós apanhamos da repressão, fomos perseguidos, presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional por defender essa ideia.”

“Desde que foi criado, há quase 40 anos, o PT disputou dentro da lei e pacificamente todas as eleições neste país. Quando perdemos, aceitamos o resultado e fizemos oposição, como determinaram as urnas. Quando vencemos, governamos com diálogo social, participação popular e respeito às instituições.”

Alguém é capaz de apresentar alguma objeção factual a tais afirmações? Talvez por isso os autores fujam da realidade e forcem paralelismos entre os governos do PT e a ditadura militar. Por essa lente distorcida, Lula e o general Ernesto Geisel se igualariam politicamente por causa das agendas desenvolvimentistas, tratadas como “delírios”, embora o projeto de desenvolvimento com inclusão de Lula tenha resultado concretamente em estabilidade, crescimento sustentado e na mais ampla ascensão social da história.

O mesmo tipo de paralelismo poderia ser aplicado ao programa econômico neoliberal da ditadura de Augusto Pinochet, no Chile, com as trágicas consequências a que estamos assistindo, e ao que Paulo Guedes replica no Brasil, com apoio do campo que os autores do artigo representam. Aceitariam a comparação?

Lula fez um governo de diálogo democrático, que viabilizou um novo padrão de desenvolvimento econômico, socialmente inclusivo e ambientalmente sustentável. Tirou dezenas de milhões de pessoas da miséria, aumentou as oportunidades para os historicamente excluídos e constituiu um amplo mercado interno de consumo de massas.

Em seu governo, os empresários tiveram grandes oportunidades, pois houve aumento exponencial do consumo popular e expansão do mercado exterior. O Brasil conquistou imenso respeito internacional e construiu iniciativas como o Brics e o G-20, além de imensos avanços na integração regional.

Bolsonaro, ao contrário, governa para poucos, combina fundamentalismo de mercado e obscurantismo civilizatório. Retrocede nos direitos trabalhistas e sociais, ataca impiedosamente minorias, envergonha o país com afirmações misóginas, racistas, homofóbicas e machistas.

Equiparar os dois, identificando-os como polos opostos de um mesmo fenômeno político, é de uma má-fé intelectual mesquinha e descabida. É, “mutatis mutandis”, algo semelhante a comparar Nelson Mandela com Hendrik Verwoerd, o criador do apartheid.

Os autores consideram que “o governo Lula desperdiçou talvez a melhor oportunidade de desenvolvimento sustentado do país”. Certamente temos visões opostas sobre o que é desenvolvimento. A elite conservadora brasileira desperdiçou muitas oportunidades históricas de crescer e distribuir renda. Optou por manter e aprofundar a desigualdade, ignorando que ela é um obstáculo ao próprio crescimento.

A pobreza no Brasil tem muitas causas, mas todas derivam da exclusão social. Nos governos Lula e Dilma, pela primeira vez houve prioridade política no combate à pobreza e à fome, integradas ao acesso à saúde e à educação, com impactos diretos sobre a primeira infância. Construir uma rede de proteção social garantindo acesso de novas gerações nunca fora prioridade de governo.

A eficiência das nossas ações pode ser medida em várias políticas ignoradas pelos autores, mas reconhecidas e replicadas em vários países do mundo. Graças a milhares de estudos já publicados, temos evidências cientificas de que o Bolsa Família respondeu por uma redução de 58% na mortalidade infantil causada por desnutrição, 51% no déficit de estatura das crianças e pela redução da mortalidade materna.

Se hoje podemos comemorar que mais de 50% dos jovens nas universidades públicas são oriundos das escolas públicas, negros e negras, isso se deve a uma transformação que vem da base, impulsionada pela Lei de Cotas e pela expansão da rede pública, com a criação de 18 novas universidades e 178 novos campi, acompanhada por forte desconcentração territorial.

Os autores afirmam que Lula “só atende os setores organizados” da sociedade, referindo-se a corporações econômicas, sejam de empresários ou trabalhadores. Mas qual corporação representaria os 54 milhões de pobres atendidos pelo Bolsa Família? Qual a corporação dos milhões de trabalhadores que recebem o salário mínimo valorizado em 77%? Qual o lobby dos 38 milhões de moradores da cidade e do campo que tiveram acesso à água de beber e de plantar?

Em vez de apoiar, aberta ou veladamente, medidas cegas da ortodoxia fiscal permanente e seus efeitos nocivos prolongados, os autores poderiam se perguntar: quanto custará ao Brasil ter acabado com o Mais Médicos? Quanto custará aos cofres públicos o desmonte do Farmácia Popular com impactos sobre doenças crônicas como asma, diabetes e hipertensão? Qual o custo da exclusão educacional dos jovens filhos da pobreza e da ignorância? Afinal, quanto custa não fazer?

Ao afirmar que os governos do PT promoveram um “surto” insustentável de crescimento, brigam com a lógica. Que surto foi esse que durou pelo menos uma década? Onde estaria a insustentabilidade do crescimento nos governos Lula, que concluiu dois mandatos com significativa melhora dos indicadores macroeconômicos relevantes, mesmo enfrentando a maior crise econômica e financeira internacional desde 1929?

Se o governo Lula aplicou duro ajuste nas contas públicas nos dois primeiros anos, não foi por adesão ao neoliberalismo que os autores elogiam. Foi porque os governos neoliberais de FHC, apesar de contribuir para estabilidade monetária, dobraram a dívida pública e praticaram um populismo cambial que minou as contas externas e quase destruiu nossa indústria para conseguir a reeleição.


Problemas evidentemente existiram nos governos do PT, mas surtos insustentáveis foram os passivos externos acumulados no governo FHC, quando acabamos no FMI mendigando dólares. Nos governos Lula e Dilma tivemos restrições fiscais importantes, mas o país se livrou do fantasma da escassez de divisas, que nos assombrou por todo o século 20, ao acumular reservas e pagar a dívida externa pública, na mais clara demonstração de sustentabilidade da estratégia de desenvolvimento socialmente inclusivo.

Aliás, não fossem os US$ 370 bilhões em reservas internacionais acumulados nos governos do PT, o Brasil hoje estaria, aí sim, quebrado, como estava quando herdamos o governo subordinado ao FMI, em 2003.

Ao contrário do que dizia a oposição neoliberal da época e de agora, mantivemos uma trajetória fiscal sólida, com superávits primários elevados, de 2003 a 2013, quando comparados com o histórico brasileiro e do mundo, especialmente depois do poderoso impacto da crise internacional de 2008-2009.

Houve ainda trajetória declinante das dívidas públicas, líquida e bruta, e o pagamento de juros foi reduzido e manteve-se relativamente controlado. A inflação foi contida dentro das metas, sem para isso provocar recessão e desemprego.

A crise iniciada em 2014 mudou o cenário e precisa ser analisada com mais profundidade. E não se devem omitir seus múltiplos determinantes, como o fim abrupto do superciclo das commodities, o impacto inflacionário da seca prolongada e a sabotagem da oposição golpista, que interditou a pauta parlamentar e o esforço de ajuste, impondo pautas-bomba fiscais que tiveram papel decisivo na deterioração do cenário econômico.

A política econômica anticíclica de enfrentamento da crise financeira global de 2008-2009 teve como objetivo principal reforçar o investimento produtivo. A taxa agregada de investimento, representada pela proporção da formação bruta de capital fixo sobre o PIB, cresceu expressivamente, de uma média de 16,8% do PIB, entre 2001 e 2007, para 20,1%, entre 2008 e 2014. Em números de hoje, isso significaria mais R$ 243 bilhões ao ano em investimentos, ou mais R$ 1,7 trilhão de investimento adicional no período.

Esses volumes de investimento foram viabilizados por financiamentos de longo prazo, ofertados pelos bancos públicos. De fato, o Tesouro Nacional reforçou a capacidade de crédito do BNDES em R$ 440,8 bilhões (em valores nominais), entre 2008 e 2014. No período de 2009 a 2016, os desembolsos totais do banco alcançaram R$ 1,2 trilhão em valores correntes, sendo que, desse total, cerca de R$ 623 bilhões foram viabilizados pelos empréstimos do Tesouro (considerando o retorno de parcela dos empréstimos no período).

Esses empréstimos ao BNDES foram autorizados por lei, reportados ao Congresso Nacional e compuseram uma carteira diversificada de projetos, abarcando mais de 1,8 milhão de operações de financiamento. Se querem saber quem foram os beneficiários, foram primeiramente as micro, pequenas e médias empresas, que absorveram 87% dessas operações (R$ 243 bilhões).

Considerando apenas os recursos viabilizados pelo Tesouro, entre 2009 e 2016, a área de infraestrutura recebeu R$ 225 bilhões, a indústria de transformação, R$ 210 bilhões, o comércio e serviços, R$ 139 bilhões e a agropecuária, R$ 74 bilhões. O financiamento à inovação cresceu oito vezes em termos reais, e o financiamento à sustentabilidade ambiental mais que dobrou.

Os números falam mais alto que as lendas sobre a eficácia, transparência e a universalidade dessa política pública. O BNDES apoiou 91 das 100 maiores empresas do país e 783 das 1.000 maiores, sem discriminação. A grande maioria continua produzindo e honrando compromissos. Registre-se que, desde 2016, o BNDES já pagou antecipadamente R$ 380 bilhões ao Tesouro Nacional.

Da mesma forma, a trajetória da Petrobras e da produção de petróleo, gás e derivados nos governos do PT é bem diferente da narrativa ideologizada e irresponsavelmente travestida de senso comum. Os que hoje recriminam um suposto “atraso de cinco anos” nos leilões do pré-sal são os mesmos que reforçavam a falsa ideia de que o pré-sal seria inviável economicamente, pelos custos e desafios tecnológicos.

Pretendem dar lições de política energética, omitindo que legaram ao país um apagão no setor elétrico, que a competente gestão da ministra Dilma Rousseff dobrou a capacidade de geração de energia elétrica e que foram a mudança de concepção e a determinação dos governos do PT que permitiram a descoberta e o desenvolvimento do pré-sal.

O pré-sal já é responsável por 64% da produção nacional de petróleo. As reservas, em torno de 12 bilhões de barris, correspondem a mais de 11 anos da produção atual. A taxa de crescimento da produção de petróleo pela Petrobras foi cinco vezes maior que o crescimento da oferta mundial, e isso se deu na vigência do regime de partilha e das políticas de conteúdo local, atacadas pelos fundamentalistas do “livre mercado”.

A estratégia de impulsionar a indústria setorial de gás e petróleo visa a não repetir o grave equívoco de nos tornarmos um país meramente exportador de óleo cru. Por que o Brasil não pode produzir navios, se é um dos oito países do mundo que produzem aviões? Essa perspectiva histórica de um projeto de nação precisa ser resgatada.

Essa estratégia foi, sim, duramente atingida pelos métodos da Lava Jato no necessário combate à corrupção. É fato que os acordos de leniência —que em outros países preservam as empresas sem prejuízo de punir os controladores por seus crimes— não foram adotados da forma prudencial. Réus confessos negociaram benefícios penais e financeiros, enquanto empresas foram condenadas à falência, e 2 milhões de trabalhadores, ao desemprego, com perda estimada de 2,5% do PIB no conjunto da economia.

O esforço narrativo alegadamente técnico do artigo culmina na mais grave de suas falácias quando responsabiliza o “populismo” (de Lula e do PT) por “fortalecer a extrema direita”.

Alto lá! Quais foram as forças políticas, sociais e econômicas que desviaram o Brasil do caminho constitucional para derrubar uma presidenta eleita que não cometeu crime? Quais as forças políticas e midiáticas que sustentaram a farsa judicial, desnudada pela Vaza Jato, para prender e cassar o líder das pesquisas presidenciais?

As mesmas que trataram Bolsonaro como um candidato respeitável. Que o pouparam de debater propostas durante a campanha e toleraram a indústria de mentiras contra o candidato do PT, Fernando Haddad, plantada nas redes sociais com dinheiro oculto, que até o momento não foi devidamente investigado pela Justiça Eleitoral.

Parte dessas forças tenta agora se desvincular do monstro político que contribuiu decisivamente para criar. Como se nada tivessem a ver com o processo de deslegitimação da política desencadeado para impedir o projeto de desenvolvimento com inclusão que estava em curso no país.

Quem colaborou para a ascensão de Bolsonaro foram os mesmos que disseram que bastava tirar o PT do governo e todos os problemas estariam resolvidos. Foi quem, após o golpe, implantou uma agenda neoliberal que, sem passar pelas urnas, aumentou o descrédito das instituições, abrindo caminho para um aventureiro chegar ao governo.

Quem contribuiu decisivamente para eleger Bolsonaro foi o discurso de ódio contra o PT.

A causa principal da crise dos sistemas políticos e das democracias é basicamente a mesma em todas as regiões: a predominância do modelo neoliberal e das políticas ortodoxas de austeridade combinadas com a crise econômica mundial.

Muitos autores, como Thomas Piketty, Christian Laval, Noam Chomsky e Joseph E. Stiglitz, destacam essa relação estreita entre o capitalismo financeirizado e desregulado, o aumento das desigualdades, a erosão do Estado de bem-estar social e a crise que atinge em cheio as democracias e a legitimidade dos sistemas de representação política.

O grande inimigo da democracia, do diálogo e da conciliação é hoje um modelo econômico fracassado, que beneficia somente uma pequena minoria, mas que se traveste de responsabilidade macroeconômica e de racionalidade técnica única.

Lula e o PT defendem uma economia compartilhada, com políticas sociais solidárias, com sustentabilidade econômica, ambiental e social. Um modelo que enfrente a pobreza e a desigualdade, sem o que não haverá crescimento sustentado, democracia sólida nem a superação desta grave crise.

No papel de oposição que assumimos com coragem, não nos limitamos à crítica e à denúncia. Apresentamos alternativas para o país. Lançamos o plano emergencial de geração de emprego e renda, mostrando como é possível criar 7 milhões de empregos em curto e médio prazos, com um financiamento que assegure a sustentabilidade fiscal.

Apresentamos ao Congresso, junto com os partidos de oposição, o projeto de reforma tributária justa e solidária, que vai muito além da necessária racionalização dos impostos indiretos, que hoje representam 49% da carga tributária no Brasil, contra 32% na OCDE e 17% nos EUA. Esta estrutura fiscal regressiva sobrecarrega os assalariados e a classe média. Nossa proposta respeita o pacto federativo e propõe uma consistente justiça fiscal, taxando com progressividade a renda, a riqueza e as grandes fortunas.

Também estamos apresentando uma proposta de novo marco de responsabilidade fiscal, para permitir a retomada do investimento público.

Na disputa legítima por corações e mentes da sociedade, há os que têm um importante legado a defender e apresentam propostas para o debate nacional e os que, na dificuldade de defender seu legado e justificar os problemas do presente, aferram-se a uma visão distorcida do passado e vão fazer a autocrítica alheia.

Fica para os bolsonaristas, envergonhados ou de raiz, o temor de uma “recaída lulista”. O Brasil precisa de um debate qualificado, que discuta propostas para o futuro e fortaleça a democracia.

Sobre os autores

Aloizio Mercadante

Doutor em economia, professor, ex-deputado e senador (PT-SP), ex-ministro de Ciência e Tecnologia e da Educação e ex-chefe da Casa Civil da Presidência (Dilma Rousseff)

Tereza Campello

Economista, doutora por notório saber em saúde pública, pesquisadora associada à Universidade de Nottingham e ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (governo Dilma)

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...