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1 de julho de 2025

Terra, cooperação e socialismo

João Pedro Stedile, fundador e porta-voz do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Brasil, reflete sobre os esforços do movimento para construir uma alternativa socialista por meio de ocupações de terras, produção cooperativa e formação política. Ele destaca a importância da luta coletiva e o aprofundamento dos laços do MST com o movimento comunitário venezuelano como parte de um projeto mais amplo de construção de uma sociedade justa e solidária.

João Pedro Stedile

Monthly Review

Volume 77, Number 03 (July-August 2025)

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Brasil é o maior movimento social da América Latina, lutando há décadas por uma reforma agrária popular e justiça social no Brasil. Desde sua fundação, no início da década de 1980, o MST tem combinado ocupações de terras, trabalho cooperativista, formação política e internacionalismo para desafiar o sistema latifundiário altamente concentrado do país e resistir à expansão do agronegócio.

O movimento desenvolveu um modelo de luta coletiva baseado na solidariedade e na mobilização de massas, organizando centenas de milhares de famílias no campo brasileiro. Quando o MST ocupa uma área de terra subutilizada ou ociosa, ele primeiro estabelece um acampamento. Um acampamento é um método de ação direta para pressionar o governo a redistribuir terras em conformidade com as leis de reforma agrária do Brasil. Durante esse período, o movimento organiza formação política, trabalho coletivo e autogoverno.

Se a luta for bem-sucedida, o acampamento se transformará em um assentamento, agora reconhecido e legalizado pelo Estado e, portanto, mais estável. Assim como os acampamentos, os assentamentos são projetos coletivos, mesmo que as famílias neles mantenham parcelas individuais. Em um assentamento, a terra não pode ser comprada ou vendida. Tecnicamente, ela pertence ao Estado, mas é administrada pelo coletivo ou pelo que poderíamos chamar de comuna. Os assentamentos também são autogovernados, administram grande parte de sua própria justiça e autogerenciam seus processos educacionais. Em suma, tanto acampamentos quanto assentamentos expressam um alto grau de controle comunitário sobre sua produção e vida cotidiana.

Além da luta pela terra, o MST trabalha para confrontar dinâmicas capitalistas mais amplas, adotando a agroecologia, a produção cooperativa e a educação política. Todos esses são elementos do que o movimento chama de "reforma agrária popular". A ideia da "reforma agrária popular" é que, em um mundo onde o capital financeiro e as corporações multinacionais dominam a agricultura, não basta garantir terra para os sem-terra. É preciso também desenvolver um modelo alternativo de produção e vida, que incorpore princípios socialistas e ecológicos.

Nesta entrevista, João Pedro Stedile, porta-voz e fundador do MST, discute a ênfase do movimento na luta coletiva e na solidariedade, os desafios da organização da produção cooperativa e a evolução dos objetivos do MST em resposta às mudanças na economia capitalista. Ele também examina a estratégia do MST de construir alianças entre a classe trabalhadora rural e urbana e seu engajamento em lutas internacionais, particularmente com o movimento comunitário na Venezuela.

Em um momento em que o capitalismo aprofunda as desigualdades e a destruição ecológica, as experiências e propostas do MST oferecem insights valiosos para a construção de um futuro socialista.

— Cira Pascual Marquina e Chris Gilbert

Cira Pascual Marquina e Chris Gilbert

Desde os primórdios do MST, na década de 1980, a organização tem se concentrado na reforma agrária e fez da ocupação e do uso coletivo da terra uma parte fundamental de seu projeto. Você pode explicar por que a organização enfatiza a coletividade e a cooperação? Que tipos de comunidades — com quais valores e práticas — são criadas antes, durante e depois da ocupação da terra?

João Pedro Stedile

O MST se baseou em dois conceitos-chave da experiência histórica da classe trabalhadora em geral e dos camponeses em particular: luta de massas e solidariedade.

Acreditamos que somente a luta de massas pode alcançar conquistas sociais e organizar as pessoas de forma eficaz. Se você quer mudar de vida, precisa participar da luta de massas, pois é aí que reside a verdadeira força: no povo. Como força organizadora, a luta de massas é mais eficaz do que a mera motivação do trabalho coletivo. É por isso que, no trabalho de base do nosso movimento, vinculamos a luta de massas ao poder político.

Nossa força não vem de nossos argumentos ou ideias; ela vem do número de pessoas que conseguimos mobilizar. Desde o início, adotamos um método que envolve a todos — crianças, jovens, homens, mulheres e idosos. Toda a família deve participar de uma ocupação de terra para que ela tenha sucesso. Uma ocupação de terra é uma ação coletiva de massa que deve gerar força suficiente para criar conflito e obrigar o governo nacional, o Estado, a aplicar as leis da reforma agrária.1

O segundo conceito que permeia o nosso movimento é a solidariedade, que vemos como um princípio civilizatório da razão humana. Os seres humanos só podem se realizar verdadeiramente e encontrar a felicidade por meio da solidariedade, que é, em última análise, a ajuda mútua. O que isso significa? Para ocupar terras e mudar minha vida, devo me unir a outros em um ato de solidariedade como igual. Ao mesmo tempo, essas ações coletivas também geram uma solidariedade mais ampla da sociedade e da classe trabalhadora em relação à nossa luta. Esse princípio definiu nosso movimento desde o início.

Outro desafio importante é organizar a produção depois que as pessoas reivindicam a terra e formam o que chamamos de assentamento no Brasil. Inicialmente, havia uma forte vontade política de desenvolver a produção agrícola coletivamente. No entanto, tanto a nossa experiência quanto a dos camponeses em geral têm mostrado que o trabalho cooperativo na agricultura pode ser bastante difícil. Cada camponês interage com a natureza de forma diferente, seguindo seus próprios ritmos e horários de trabalho. Alguns acordam cedo para começar suas tarefas, enquanto outros dormem até mais tarde e começam mais tarde. Alguns levam seus filhos para o campo, enquanto outros não. Com o tempo, nossa experiência vivida nos ensinou que, quando se trata de cultivar a terra, a coletivização nem sempre funciona.

Como organizar o trabalho camponês [no campo] coletivamente se mostrou desafiador, mudamos nosso foco para estruturas cooperativas em outras áreas de produção. Por exemplo, o MST estabeleceu cooperativas para adquirir máquinas agrícolas ou gerenciar a comercialização de produtos agrícolas, incluindo plantas de processamento e instalações de armazenamento. Avançamos para o estágio de agroindustrialização cooperativa, desenvolvendo empreendimentos para produção de leite, fornecimento de cadeia fria e muito mais. A produção agroindustrial é complexa, exigindo que diversas tarefas sejam realizadas com precisão e colaboração — por exemplo, no processamento e distribuição de alimentos. É aqui que nossos esforços cooperativos estão agora concentrados.

Cira Pascual Marquina e Chris Gilbert

A contradição entre cidade e campo muda ao longo do tempo, resultando em produtores camponeses ou campesinos vivenciando diferentes formas de opressão. Hoje, o capital financeiro e as corporações multinacionais dominam os pequenos produtores, mesmo quando estes possuem suas próprias terras. A resposta deve ser, portanto, uma reforma agrária abrangente e multifacetada. Ela deve incluir a recuperação de terras, a (re)apropriação da ciência e da tecnologia, a promoção da vida cultural e social no campo, o desenvolvimento da agroecologia, a conquista da soberania alimentar e a defesa dos direitos da natureza. Como o MST atua nessas áreas e por que recorre a soluções cooperativas ou comunitárias?

João Pedro Stédile 

Ao longo do século XX, a maioria dos países operou sob a hegemonia do capitalismo industrial. Para o capitalismo industrial, era conveniente integrar os camponeses ao mercado, razão pela qual as reformas agrárias foram implementadas na maioria das nações industrializadas do Norte Global. Chamamos essas reformas agrárias de "clássicas" porque foram as primeiras; envolveram a expropriação de grandes propriedades e a redistribuição de terras aos camponeses. Esses camponeses foram então integrados ao mercado interno. Consumiam o que era produzido pela indústria e também para a agroindústria.

Embora essas reformas agrárias clássicas tenham desempenhado um papel significativo no desenvolvimento das forças produtivas, elas também representaram uma aliança entre a burguesia industrial — que se opunha ao latifúndio e à oligarquia rural — e os camponeses que precisavam de terra para trabalhar. No entanto, como você apontou, desde a década de 1990, o setor hegemônico do capital mudou do capital industrial para o capital financeiro e suas corporações multinacionais que dominam o mercado mundial e, por extensão, a agricultura. Ao contrário do modelo anterior, que mantinha uma aliança com os camponeses, existe um novo modo de exploração da agricultura, conhecido como agronegócio. É a forma do grande capital dominar a agricultura como um todo. Envolve monocultura em larga escala, uso generalizado de sementes geneticamente modificadas, mecanização intensiva e uso generalizado de fertilizantes químicos e pesticidas.

Diante desse novo modelo capitalista, o bloco camponês teve que repensar seu projeto, que não poderia mais se concentrar exclusivamente na posse da terra. Em vez disso, teria que abordar a reorganização da agricultura em geral. Novos programas, não apenas focados na defesa do pequeno produtor, começaram a ser desenvolvidos. Chamamos nosso programa de "reforma agrária popular", mas em outras partes da América Latina ele é chamado de "reforma agrária integral" ou, quando se busca um foco mais político, "reforma agrária radical". Esses são apenas nomes. No entanto, o importante é que o programa agora é diferente. Temos que pensar na agricultura como um todo e responder com novos paradigmas. Em tempos passados, as reformas agrárias em favor dos camponeses, como exemplificadas por excelência pela reforma de Emiliano Zapata durante a Revolução Mexicana, tiveram enorme influência em toda a América Latina. No entanto, o projeto não pode se limitar a distribuir terras; precisa se concentrar em atender às necessidades de todo o povo. Portanto, agora, nosso objetivo é atender às necessidades do povo como um todo, e precisamos fazê-lo com novos paradigmas. Na época de Zapata e nas reformas agrárias asiáticas, os camponeses buscavam se libertar da exploração dos latifúndios ou dos senhores feudais. No entanto, no mundo de hoje, a reforma agrária popular deve visar, acima de tudo, a produção de alimentos saudáveis ​​para toda a população.

Isso significa empregar a agroecologia como método de produção de alimentos. Além disso, devemos defender a natureza. Se não reflorestarmos, protegermos as fontes de água e salvaguardarmos a biodiversidade, a vida neste planeta não será sustentável. Já estamos testemunhando os efeitos devastadores das mudanças climáticas, que estão colocando milhões de pessoas em perigo e ceifando muitas vidas. No verão passado, mais de 50 mil pessoas morreram na Europa devido ao calor extremo. No meu estado natal, no Brasil [Rio Grande do Sul], um dilúvio afetou cerca de 5 milhões de pessoas. Felizmente, o número de mortos foi relativamente baixo — cerca de duzentas —, mas plantações foram destruídas e milhares perderam suas casas, incluindo meu filho. Este é o futuro que o capitalismo está criando. Cabe a nós, no campo, defender a natureza para que a vida neste planeta possa continuar para todos.

A nova reforma agrária popular também se concentra no que chamamos de emancipação humana. Isso significa que, na terra que reivindicamos, além de produzir alimentos, proteger a natureza e salvaguardar a água e a biodiversidade, devemos também forjar novas relações sociais entre as pessoas que a habitam.

Agora, não se trata apenas de defender o modo de vida camponês. Precisamos de escolas, agroindústrias e, acima de tudo, novas relações humanas. A vida deve ser emancipatória, baseada na convivência, no respeito à diversidade, às mulheres, às diversas identidades sexuais, aos negros e pardos, a todas as culturas. Este é o novo paradigma que estamos construindo; uma tarefa contínua e permanente.

Afinal, este não é apenas um programa teórico escrito no papel que as pessoas simplesmente seguirão. É um processo educacional contínuo, um processo de autoformação e autotransformação dentro das comunidades. Requer mudanças na economia de forma a transformar também a sociedade. Por exemplo, não podemos superar o patriarcado sem garantir que as mulheres tenham renda e trabalho autônomo. Ninguém imagina um futuro em que as mulheres trabalhem no campo o dia todo como bestas de carga. O que buscamos é trabalho digno e renda para as mulheres, para os jovens, para todos. Para nós, isso só é possível com o desenvolvimento de cooperativas agroindustriais. A produção cooperativa criará novas relações econômicas e sociais capazes de combater as distorções do capitalismo — patriarcado, discriminação racial e todas as outras formas de opressão.

Cira Pascual Marquina e Chris Gilbert

O capitalismo evoluiu de tal forma que hoje a burguesia é incapaz de liderar um processo de libertação e desenvolvimento nacional; somente a classe trabalhadora pode fazê-lo. Pode-se argumentar que é por isso que, mesmo que o MST tenha começado inicialmente confrontando uma contradição específica do capitalismo — a luta pela reforma agrária —, a dialética da luta levou o movimento a desafiar o sistema capitalista como um todo. Desde 1990, o MST adotou o socialismo como seu objetivo estratégico. Hoje, sua tarefa é nada menos do que organizar toda a classe trabalhadora para enfrentar o capitalismo e o imperialismo. Gostaríamos de ouvir suas reflexões sobre essa trajetória e como a luta do MST pelo controle coletivo da terra e pela construção de cooperativas se insere em uma estratégia nacional mais ampla voltada para o socialismo. Além disso, como esse projeto se traduz em uma estratégia internacional?

João Pedro Stédile

Socialismo não é idealismo nem uma fórmula pronta que resolve tudo. Trata-se de superar o capitalismo em sua totalidade — da exploração das pessoas à concentração de riqueza e muito mais. Embora sejamos um movimento camponês que defende o projeto de uma reforma agrária popular, sabemos que, para alcançar essa reforma hoje, um paradigma centrado apenas nas forças camponesas não é suficiente. Isso é especialmente verdade porque, na maioria dos nossos países, os camponeses são uma minoria. A maioria da classe trabalhadora está nas cidades, o que significa que nosso trabalho político deve ser feito em conjunto com os setores urbanos. Essa unidade será construída por meio de um programa que defenda o acesso à alimentação saudável, renda e trabalho para todos, e também defenda a natureza.

Mas o que está acontecendo agora? Desde a ascensão do neoliberalismo e o domínio do capital financeiro e das multinacionais, vivemos uma época histórica em que o movimento de massas está em declínio, juntamente com uma crise ideológica da esquerda. A dialética da luta de classes tem seus altos e baixos, e eles também afetam o campo. No entanto, devemos reconhecer que esta é uma fase histórica particular — uma fase que, como todas as outras, não durará para sempre. Eric Hobsbawm e os historiadores marxistas britânicos nos ensinaram que a luta de classes, tanto nacional quanto globalmente, ocorre em ondas. Há momentos em que as massas tomam a iniciativa e impulsionam os movimentos, e há momentos de refluxo, quando as massas são derrotadas e a burguesia afirma a hegemonia total.

No entanto, também há períodos em que vivenciamos um retorno ao equilíbrio de forças e as massas começam a se reerguer. Na minha opinião, sofremos uma grande derrota com a queda do Muro de Berlim em 1989 e o consequente fim do bloco socialista. Esse evento provocou um refluxo nos movimentos de massa em todo o Ocidente. Eu diria que ainda estamos nesse momento, mas já conseguimos reequilibrar a situação em muitos países e as massas estão começando a se reerguer. No entanto, ainda não somos um movimento internacional, o que é crucial para o sucesso de nossas lutas. A única vantagem, se podemos chamá-lo assim, é que o capitalismo se tornou totalmente internacionalizado. É por isso que também devemos canalizar nossa energia para a construção de conexões internacionais que, a médio prazo, lançarão as bases para o ressurgimento de movimentos de massa em escala global.

A outra questão a considerar é que, nesta nova fase de renascimento dos movimentos de massa, provavelmente veremos um período de governos populares no poder antes do surgimento do próprio socialismo. A Venezuela é um exemplo. Não houve uma revolução clássica, mas sim um ressurgimento do movimento de massa que começou com o Caracazo em 1989 [uma rebelião popular]. A repressão popular durante o Caracazo provocou profunda indignação em setores das Forças Armadas, levando à rebelião de 1992 e ao surgimento de um líder, Hugo Chávez. Então, em 1998, Chávez foi eleito e um governo popular assumiu o poder. No entanto, ainda não era um governo resultante de uma revolução [clássica].

No Brasil, não temos nem mesmo um governo popular nesse sentido. Lula, embora oriundo de um partido de esquerda [o Partido dos Trabalhadores, PT], governa por meio de uma aliança com setores da burguesia. É um governo de frente ampla que visa conter a ascensão da extrema direita. No Brasil de hoje, as condições políticas e organizacionais necessárias para acumular forças revolucionárias ainda não existem, o que significa que o ressurgimento do movimento de massas ainda está por vir.

Pascual Marquina e Chris Gilbert

O MST mantém uma brigada na Venezuela desde 2005, que tem trabalhado muito com as comunas. O projeto comunal socialista de Hugo Chávez influenciou o MST? Por outro lado, houve influência na direção oposta?

João Pedro Stédile

Acredito que houve um processo de integração e aprendizado mútuo entre venezuelanos, brasileiros e latino-americanos em geral. Desenvolvemos diversas formas de nos unir. Um exemplo importante, de longa data, é o papel do movimento camponês na luta contra o neoliberalismo e a iniciativa dos EUA de impor a Área de Livre Comércio das Américas [ALCA]. A ALCA teria submetido nossos países à completa liberalização do mercado sob o domínio do capital americano. No início dos anos 2000, a luta contra a ALCA resultou na união e no trabalho conjunto de inúmeras organizações latino-americanas. A luta culminou na histórica marcha de 2005 em Mar del Plata [Argentina], onde derrotamos e enterramos com sucesso a ALCA.

A luta continental contra a ALCA também levou à criação de novos órgãos de coordenação, como a Coordenadora Latino-Americana de Organizações Rurais [CLOC-Vía Campesina]. Desde o seu início, camponeses venezuelanos e trabalhadores rurais de toda a América Latina participaram da CLOC. Em seguida, foi criada a ALBA Movements [Aliança Bolivariana para os Movimentos dos Povos da Nossa América], que seria a contrapartida da ALCA. Esses projetos internacionalistas serviram – e continuam a servir – como espaços de integração, onde trocamos experiências e construímos solidariedade. Posteriormente, os Movimentos da ALBA enviaram brigadas pela América Latina com diversos objetivos. Essas brigadas foram inspiradas pela Revolução Cubana, que as desenvolveu desde seus primórdios como um método para organizar a militância em um coletivo que enfrentaria desafios específicos.

A primeira grande brigada que os cubanos organizaram nos primeiros anos da revolução foi uma brigada de alfabetização. Posteriormente, formaram brigadas para colher cana-de-açúcar e, com o tempo, essas brigadas viajariam pelo mundo, refletindo seu espírito internacionalista de solidariedade com outros povos. Milhares de cubanos passaram a apoiar outros países em áreas como saúde, agronomia e educação. Isso representa um processo de aprendizado coletivo que não afetou apenas o Brasil, a Venezuela e Cuba — o espírito das brigadas se espalhou por toda a América Latina.

O MST também promoveu brigadas em vários países — sempre a convite de organizações locais de base e dentro de um contexto de entendimento mútuo. Tivemos brigadas em Cuba, Haiti, América Central, Colômbia e Paraguai, e uma brigada permanente aqui na Venezuela. Também enviamos brigadas para vários países africanos.

Todos nós aprendemos muito com essas experiências, e elas nos ajudam a desenvolver nossas ideias e nossos programas de novas maneiras. As brigadas nos ajudam a abordar problemas comuns na agricultura, na educação em geral, na formação de quadros ou na área da saúde.

Pascual Marquina e Chris Gilbert

Por fim, gostaríamos de ouvir suas reflexões sobre a comuna, entendida em sentido amplo como um mecanismo para desmantelar o metabolismo do capital por meio do autogoverno democrático e do controle coletivo sobre as condições de reprodução da vida.

João Pedro Stédile

Na Venezuela, devido à sua cultura política, as pessoas usam o termo “comuna”. A comuna pode ser entendida de duas maneiras: por um lado, como um espaço de organização dos processos produtivos ou, por outro, como um espaço de poder político nos níveis municipal e distrital. Prefiro pensar na comuna como uma experiência de cooperação produtiva, que é a questão central.

Para acumular forças para superar o capitalismo e alcançar o socialismo, precisamos gerar diversas formas de organização da produção que empoderem as pessoas. É somente no local de produção que as pessoas podem controlar os produtos de seu trabalho e desenvolver novas relações sociais de produção. Como mencionei ao discutir a experiência brasileira, é por meio da cooperação na produção que se pode desenvolver um novo nível de consciência de classe nas massas e entre os militantes. Mesmo que se ofereça educação política, aulas de literatura, cursos de história e assim por diante, a consciência de massa só avançará com a prática.

A comuna é uma forma de organizar a cooperação na produção, mas, sem dúvida, existem outras formas, com nomes diferentes, aqui na Venezuela e em toda a América Latina. Por exemplo, na Venezuela, fala-se do conuco como um modelo agroecológico enraizado nas tradições indígenas. Outras formas associativas ou cooperativas também podem persistir e devem ser levadas em consideração. Existem múltiplas maneiras de desenvolver formas colaborativas de trabalho. No fim das contas, o objetivo é organizar o trabalho e a produção de forma cooperativa.

Nota

1. O MST se baseia em dois marcos legais fundamentais para apoiar suas ocupações de terra e impulsionar uma reforma agrária popular. O primeiro é o Estatuto da Terra de 1964, que define os princípios da posse da terra, enfatizando a produtividade e estabelecendo mecanismos para a desapropriação de terras improdutivas. O segundo é a Constituição Brasileira de 1988, em particular os Artigos 184 e 186, que autorizam o governo a desapropriar terras que não cumpram sua função social da propriedade. Essa função social é definida pelo uso racional e adequado, pela preservação ambiental e pelos benefícios tanto para proprietários quanto para trabalhadores. Tal legislação fornece uma base legal para uma reforma agrária popular, permitindo que terras improdutivas sejam desapropriadas e redistribuídas aos trabalhadores rurais sem terra.

O projeto comunitário da Venezuela

Ángel Prado, fundador da Comuna de El Maizal e Ministro das Comunas desde 2024, discute o projeto comunal da Venezuela como uma resposta às necessidades materiais urgentes e uma estratégia de longo prazo para a construção do socialismo. Com base em sua experiência como organizador de base, ele explora como as comunas são estruturadas, como se relacionam com o Estado e como incorporam uma visão de poder popular. Ele também reflete sobre a necessidade de unidade dentro do movimento chavista.

Ángel Prado

Monthly Review

Volume 77, Number 03 (July-August 2025)

Ángel Prado é um dos fundadores da Comuna de El Maizal, no centro-oeste da Venezuela, e um dos principais líderes da União Comunarda, organização que reúne cerca de oitenta comunas. Desde junho de 2024, Prado é Ministro das Comunas. Nesse cargo, ele concilia o trabalho incansável de promoção da organização comunal em todo o país com a participação ativa nos assuntos de Estado. Nesta entrevista, o ministro comunarda analisa inicialmente como as comunas venezuelanas são estruturadas e como se relacionam com o Estado. Prado também reflete sobre os desafios que as comunas enfrentam hoje, a importância da unidade no chavismo e os planos de incorporar as comunas a uma reforma da Constituição venezuelana. Ao longo do texto, Prado destaca a comuna tanto como uma solução prática para as necessidades imediatas da comunidade quanto como parte de um projeto estratégico de libertação nacional e construção socialista.

— Cira Pascual Marquina

Cira Pascual Marquina

Vamos começar com a pergunta mais básica: O que é uma comuna venezuelana?

Ángel Prado

Primeiramente, gostaria de expressar minha gratidão pelo interesse dos leitores em compreender a transformação política que está ocorrendo na Venezuela e também como a comuna — de acordo com o roteiro traçado pelo Comandante [Hugo] Chávez — serve como um caminho para a construção do socialismo.

Uma comuna é uma organização de base dentro de um território específico, onde o autogoverno é estabelecido com uma estrutura política que legisla, administra recursos e gerencia seus próprios meios de produção.

Em uma comuna, existem muitos níveis de organização popular. Há o parlamento comunal, o banco comunal e vários comitês, da economia aos esportes. Na base da comuna estão os conselhos comunais, que são as células organizacionais fundamentais.

O processo de assembleia está no coração da comuna — é a vida e a alma de nossas organizações. A assembleia é o órgão máximo decisório da comuna: qualquer pessoa no território da comuna pode participar, falar, exigir, questionar, votar e supervisionar os processos. A assembleia tem a palavra final sobre todos os assuntos relativos à comuna.

As comunas também dão grande importância ao simbolismo e à identidade, ao estabelecer normas de coexistência e desenvolver planos que solucionem os problemas da comunidade. A vida comunitária é moldada por esses processos, fomentando gradualmente o que chamamos de "espírito da comuna", um espírito coletivo baseado na identidade e no trabalho em conjunto.

Cira Pascual Marquina

Não é também verdade que, segundo Chávez, as comunas devem promover novas relações sociais de produção?

Ángel Prado

Sim, a comuna se concentra no território e na identidade, mas também na organização econômica. Ela mobiliza e reúne a força coletiva das pessoas para resolver problemas e melhorar as condições materiais de vida. Isso significa gerar processos econômicos autogeridos. Por meio do planejamento e da força de trabalho da comunidade, a comuna constrói o que chamamos de economia popular e comunitária. As pessoas precisam de serviços, alimentos e outros bens, e grande parte disso pode ser produzida internamente. Em tudo isso, o planejamento comunitário é fundamental.

Há também um debate em andamento nas comunas sobre propriedade e posse, que abrange desde a propriedade comunal coletiva até a propriedade pública, familiar e privada. Uma comuna almeja que a propriedade comunal e coletiva seja hegemônica em seu território, mas isso ainda é um trabalho em andamento. É por isso que há uma luta pelo controle dos meios de produção — terra, fábricas e todos os recursos essenciais para o desenvolvimento das forças produtivas nas comunas. Outra questão discutida é a distribuição e o reinvestimento do excedente. É necessário equilibrar o investimento social com o reinvestimento produtivo.

Cira Pascual Marquina

Em um país sitiado pelas sanções americanas, as comunas mais fortes trabalharam para atender às necessidades urgentes de suas comunidades. Em muitos casos, elas tiveram muito sucesso em neutralizar alguns dos efeitos do bloqueio.

Ángel Prado

Em uma comuna, é essencial identificar os valores e princípios que moldam a vida comunitária. As pessoas veem a comuna como o nível de governo mais próximo em sua comunidade. É a instituição mais imediata à qual recorrem para resolver seus problemas.

Vimos isso claramente durante a pandemia. Comunidades organizadas trabalharam ao lado de profissionais de saúde locais, motoboys voluntários e outros membros da comunidade que, em espírito de solidariedade, assumiram a tarefa de obter medicamentos, realizaram campanhas de vacinação e garantiram que as pessoas não ficassem sem atendimento. Os porta-vozes comunitários eleitos tiveram um papel importante nisso, demonstrando liderança e preocupação genuína com as pessoas em suas comunas. A comuna forneceu uma estrutura e, em meio à crise, as pessoas sabiam que podiam recorrer aos líderes comunitários em busca de apoio.

Apesar do bloqueio, da pandemia e da crise econômica, não há um único bairro na Venezuela sem algum nível de organização popular. Em muitos lugares, existem comunas autogovernadas que se envolvem no planejamento e na execução de iniciativas de ajuda mútua. As comunas também mantêm dados detalhados sobre suas comunidades, ajudando-as a compreender e atender melhor às necessidades do pueblo.

Cira Pascual Marquina

Hoje, o movimento comunal e o governo bolivariano parecem ter uma relação sinérgica, enquanto há apenas cinco anos havia momentos de acentuada tensão e contradição. O que permitiu essa convergência?

Ángel Prado

Após a saída física do Comandante Chávez, as contradições cresceram não apenas dentro do chavismo, mas também em relação à burguesia nacional e ao imperialismo norte-americano, que ameaça constantemente os países que afirmam sua soberania.

Vimos recentemente o que aconteceu na Síria. Serviu de alerta para o povo venezuelano, que é em grande parte anti-imperialista. Nosso momento histórico exige unidade. O chavismo é diverso, assim como o peronismo na Argentina, com várias correntes ideológicas. No entanto, na Venezuela, qualquer político que se autodenomine chavista, mas não esteja enraizado na comunidade e não tenha reconhecimento da base, não contribui em nada para a frente nacional contra o imperialismo — e o povo sabe disso.

É claro o que acontece quando governos progressistas e anti-imperialistas são derrubados — massacres, repressão e devastação. É por isso que a unidade é essencial. Sempre haverá debates internos. No entanto, no movimento de massas, lutamos para fortalecer as comunas, para garantir que se tornem mais organizadas, mais robustas e uma verdadeira expressão da autogovernança popular.

Hoje, existe uma forte sinergia entre os líderes governamentais e o movimento comunal. Há uma clara disposição do governo em reconhecer e apoiar as comunas. É claro que sempre teremos reformistas e oportunistas que não acreditam na comuna e se escondem nas fileiras do chavismo para sabotar essa unidade. No entanto, nossa luta anti-imperialista nos mantém unidos, permitindo-nos dar o exemplo para outros países e povos que resistem ao imperialismo em todo o mundo.

Cira Pascual Marquina

Durante o período mais difícil do bloqueio e da crise, as comunas se fortaleceram. Mesmo assim, muitas pessoas buscaram soluções individuais em vez de coletivas para seus problemas. Isso continua até hoje. Qual é a maneira correta de interagir com aqueles que não conseguem se conectar com o projeto comunitário?

Ángel Prado

Há baixas em qualquer guerra. Na Venezuela, estamos enfrentando uma guerra econômica que já dura quase uma década. É uma guerra brutal, projetada para desmoralizar e desmantelar a sociedade venezuelana e forçar as pessoas a buscar táticas individuais de sobrevivência. De fato, alguns se retiraram da ação coletiva, concentrando-se apenas em suas necessidades imediatas e nas de suas famílias, afastando-se temporariamente da participação popular.

Mas aqueles que se mantiveram firmes — aqueles que permaneceram na luta — são muitos. Apesar das dificuldades, em cada bairro e em cada comunidade rural, uma vanguarda revolucionária permaneceu ativa. Eles se mantiveram firmes, resistindo, liderando e mantendo acesa a chama da organização popular.

É por isso que hoje a revolução venezuelana avança novamente. Os anos mais difíceis — de 2016 a 2021 — já passaram. O país desenvolveu novas capacidades econômicas, às vezes acompanhadas por decisões políticas difíceis que alguns de nós questionamos, mas que acabaram impedindo a guerra civil e a intervenção dos EUA.

Essa resistência nos fortaleceu. Apesar das feridas, permanecemos moral e politicamente resilientes. Milhões de líderes de base, em sua maioria mulheres, demonstraram que defender a comunidade é a forma mais elevada de liderança.

As comunas que surgiram ou ressurgiram nos anos mais difíceis tornaram-se ainda mais robustas, controlando as economias de base, promovendo a educação política e organizando a juventude.

Cira Pascual Marquina

Um bom exemplo de estreita cooperação entre o governo e as comunas são as consultas populares que começaram em maio de 2024. Você poderia explicar como elas funcionam? Como o processo de consulta transfere poder para as comunas?

Ángel Prado

Os processos de consulta popular tornaram-se um canal importante entre o governo e as comunas neste momento. O primeiro passo consiste em assembleias realizadas em todas as comunas e circuitos comunais [essencialmente comunas que ainda não foram consolidadas] em todo o país. Nessas assembleias, as pessoas se reúnem para debater e priorizar os problemas mais urgentes. Em seguida, ocorre um processo de votação nacional, no qual os membros de cada comuna selecionam um único projeto entre aqueles que as assembleias identificaram como necessários.

Após o processo de votação, os fundos são alocados a cada comuna ou circuito comunal, que então se responsabiliza por levar o projeto até a conclusão. Por enquanto, o financiamento é limitado [US$ 10.000 por consulta], mas o presidente indicou que os governos municipais e regionais também devem financiar projetos comunais.

Dessa forma, cada projeto resulta de um processo de planejamento interno à comunidade. As pessoas adotaram essa nova prática. Ela reconquistou muitos que haviam se afastado da participação comunitária e restaurou a fé nos conselhos e comunas comunitários. Agora, todos podem ver como as comunas podem, de fato, resolver problemas coletivos.

O resultado é que a confiança nas estruturas comunitárias está sendo restaurada. Há quase um ano, consultas populares são realizadas a cada três meses, e a participação cresce a cada novo ciclo. As pessoas passaram a confiar nesse método.

As consultas se conectam com as aspirações dos trabalhadores. Esse processo empodera as comunidades e fortalece sua identificação com a comuna. Nossa tarefa agora é consolidar ainda mais as comunas para que a visão do Comandante Chávez – de que o povo realmente se autogoverne e assuma a liderança nas grandes transformações que virão – se torne realidade. O povo organizado deve se tornar protagonista na recuperação da infraestrutura de saúde e educação, na melhoria dos espaços públicos e, acima de tudo, assumir o planejamento, a gestão, a execução e a supervisão dos projetos.

Em suma, as consultas são tanto um processo de empoderamento quanto uma experiência de aprendizado. As comunidades estão trabalhando arduamente para evitar contratempos, garantindo ao mesmo tempo que os recursos recebidos sejam administrados com eficiência. A luta contra a burocracia e a corrupção é constante, mas quando o próprio povo controla esses fundos e trabalha coletivamente para protegê-los, esse é o melhor antídoto.

Com as consultas populares, estamos garantindo a participação real na democracia venezuelana: provando que um povo organizado pode alcançar mais do que qualquer instituição estatal sozinha.

Cira Pascual Marquina

Uma reforma constitucional está planejada para este ano, e muitos têm argumentado que a comuna deveria ter um papel de destaque na Carta Nacional atualizada. A possibilidade de incluir a comuna na Constituição Bolivariana levanta muitas questões sobre a relação da comuna com o Estado. Como o senhor entende essa relação?

Ángel Prado

Ao elaborar a Constituição Bolivariana de 1999, o povo venezuelano deu um passo importante em direção à democracia participativa. Essa Constituição estabeleceu marcos legais para que as pessoas se organizassem de diversas maneiras: em fábricas, universidades e sindicatos, bem como territorialmente. Isso por si só já foi uma grande conquista. No entanto, não conseguimos a aprovação de uma reforma constitucional de 2007 que reconheceria explicitamente as organizações comunitárias e de base na Constituição.

Em um discurso de 2012, popularmente conhecido como "Golpe de Timón" ["Golpe no Leme"], o Comandante Chávez desafiou seus ministros. "Onde está a comuna?", perguntou-lhes. Hoje, o povo venezuelano pode responder: “A comuna está aqui, no território. Ela está organizada, funcionando e lutando.”

No entanto, ainda queremos que a comuna seja explicitamente reconhecida na Constituição; esse continua sendo um dos nossos maiores desafios no momento. É por isso que estamos trabalhando arduamente, tanto nas comunas quanto no Ministério [das Comunas], para ganhar ainda mais legitimidade e confiança, a fim de construir um amplo consenso em apoio à inclusão da comuna no texto constitucional.

O debate vai além da questão do reconhecimento. Não se trata apenas de incluir a comuna na Constituição. Também estamos pensando em como a comuna deve se relacionar com o Estado venezuelano. Hoje, o governo reconhece a comuna como uma organização de base, mas precisamos que ela exista em pé de igualdade com outras instituições e estruturas de governança.

Mantemos nosso lema, “¡Comuna o Nada!” [“Comuna ou Nada!”], que agora não é apenas palavras, mas uma realidade no território. Hoje, as comunas são as estruturas organizacionais mais tangíveis e imediatas, tanto nas áreas urbanas quanto rurais. Tudo isso é muito importante, mas queremos constitucionalizar essa expressão vital do poder popular. Mesmo aqueles que podem não concordar plenamente com o governo ou a revolução reconhecem a legitimidade da comuna. Eles o fazem porque veem como a comunidade organizada está resolvendo seus próprios problemas.

A maioria dos venezuelanos vive em comunidades da classe trabalhadora e precisa do apoio do Estado para atender às suas necessidades. Assim como os municípios e os governos estaduais têm o direito constitucional de receber financiamento, exigimos que as comunas tenham o mesmo direito — um direito que não depende da vontade política de um determinado prefeito, governador ou ministro, mas sim que seja garantido pela Constituição. Deve ser um dever constitucional do Estado venezuelano garantir o acesso a esses fundos.

Nossos debates sobre a Constituição estão apenas começando, mas chegaremos a uma decisão este ano. Há amplo consenso de que um dos nossos principais objetivos deve ser garantir que o termo "comuna" seja incorporado e reconhecido na Constituição. No entanto, é igualmente importante definir a relação das comunas com o Estado e garantir o seu acesso ao financiamento.

Cira Pascual Marquina

Você tem alguma reflexão final sobre Chávez, a comuna e o socialismo?

Ángel Prado

Nas últimas três décadas, a Venezuela tem se empenhado em uma luta total contra as forças do imperialismo que saquearam nosso país por séculos. Como disse o Comandante Chávez: "É hora de defender as causas da dignidade e da verdadeira libertação, de erguer as bandeiras da independência e da autodeterminação".

Diante do ataque imperialista, não podemos ser conservadores em relação ao nosso modelo político. Não podemos copiar seu modelo de falsa democracia. Neste momento, na região do Sahel, vários países se rebelaram contra as corporações transnacionais e as estruturas neocoloniais, expulsando bases militares e abrindo caminho para a soberania. Sua luta nos inspira, lembrando o exemplo de Chávez, que também lutou pela soberania nacional.

Devemos continuar a batalha iniciada por Chávez, uma luta que se intensificou e se polarizou. A escolha diante de nós é clara: ou avançamos na construção do socialismo, construindo uma democracia participativa e protagonista, defendendo nossos recursos naturais; ou corremos o risco de nos tornarmos mais um Estado reformista com um governo supostamente progressista que não transforma as estruturas estatais existentes. Se não avançarmos com nosso próprio modelo político — aquele proposto pela Revolução Bolivariana e por Chávez — o imperialismo nos destruirá. Se não desmantelarmos as estruturas que nos impuseram, destruirão tudo o que construímos.

Estamos vendo isso acontecer na Argentina, onde governos progressistas tiraram o país da ruína econômica, mas não conseguiram transformar as bases da política. Mantiveram a antiga Constituição, preservaram as estruturas tradicionais de governança e nunca transferiram o poder ao povo por meio de organizações de base. Como resultado, foram derrubados. Infelizmente, hoje, o FMI e as corporações imperialistas estão saqueando o que já foi uma das nações mais ricas da América Latina, enquanto a pobreza aumenta a um ritmo alarmante.

A Venezuela está comprometida em transformar o Estado, construir uma nova sociedade, construir uma democracia verdadeira e preservar a independência nacional. Também estamos comprometidos em construir o socialismo... e as pessoas estão impulsionando isso adiante!

Ángel Prado é membro da Comuna de El Maizal e Ministro das Comunas de Nicolás Maduro desde 2024. Prado também é fundador da União Comunarda, uma organização que reúne comunas em toda a Venezuela. Entre 2022 e 2024, foi prefeito do município de Simón Planas, onde está localizada a Comuna de El Maizal. Cira Pascual Marquina é educadora popular na Pluriversidad, iniciativa educacional da Comuna de El Maizal no bairro operário 23 de Enero, em Caracas. Ela também é fundadora e membro da Rede de Democracia Comunal.

Esta entrevista foi realizada em Caracas em 11 de março de 2025.

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