Raz Segal e Sonia Boulos
Jacobin
Nos últimos dois anos e meio, Israel intensificou seu projeto central de concretizar uma “Grande Israel”. Sua campanha contínua para eliminar os palestinos desde a Nakba de 1948 escalou para uma violência genocida em larga escala em Gaza. A intensificação da violência colonial israelense também incluiu uma campanha de deslocamento forçado na Cisjordânia sem precedentes desde a guerra de 1967, um ataque renovado aos direitos políticos dos palestinos em Israel e a transformação das prisões israelenses em uma rede de campos de tortura onde uma indescritível crueldade é a ordem do dia.
Os ataques em larga escala de Israel contra o Líbano e o Irã, e o uso da “doutrina de Gaza” — particularmente no Líbano — tornaram o ataque sistemático a civis, bairros inteiros, escolas e hospitais, e a imposição de destruição em massa, sofrimento e morte, uma realidade regional. Ao mesmo tempo, a guerra entre EUA e Israel contra o Irã causou uma crise econômica internacional que evidencia como regimes genocidas representam uma ameaça em escala global.
É difícil imaginar um futuro na região para além desta realidade horrível sem que o Estado de Israel, apoiado por uma grande maioria dos seus cidadãos judeus, seja responsabilizado. A responsabilização exige que se dê prioridade às experiências e ao conhecimento dos palestinos que enfrentam a perseguição israelense, mas a supremacia judaica e o racismo anti-palestino que alimentam o genocídio também impulsionam o silenciamento dos palestinos e do seu ativismo para pôr fim a ele. O resultado é que vozes predominantemente judaicas críticas a Israel conseguem ganhar atenção através das brechas dessa censura e silenciamento, embora ofereçam pouco em termos de reflexão sobre uma real responsabilização.
É o caso, mais recentemente, do último livro do estudioso israelense-estadunidense do Holocausto, Omer Bartov, intitulado Israel: What went wrong? [Israel: O que deu errado?]. Recém-lançado em inglês e com previsão de publicação em diversos outros idiomas, o livro convida os leitores a refletirem sobre o genocídio em curso perpetrado por Israel em Gaza, a partir de uma narrativa que começa com o Holocausto e o antissemitismo. Bartov argumenta que o sionismo surgiu como um projeto de libertação dos judeus da perseguição e da destruição, mas se transformou com a criação do Estado de Israel em 1948, quando se tornou uma ideologia oficial, tornando-se cada vez mais excludente e violentamente etnonacionalista, culminando, em última instância, em genocídio.
Na verdade, palestinos e até mesmo sionistas entendiam o sionismo como uma ideologia etnonacionalista excludente, colonialista e violenta muito antes de 1948. Sabemos disso, por exemplo, pelo trabalho de acadêmicos palestinos como a socióloga Areej Sabbagh-Khoury, que demonstra em seu livro Colonizing Palestine: The sionist left and the making of the palestinian Nakba [Colonizando a Palestina: A esquerda sionista e a criação da Nakba palestina] como sionistas de esquerda, sob os auspícios coloniais britânicos, desempenharam um papel ativo na desapropriação dos palestinos por meio do estabelecimento de colônias de kibutzim na região fronteiriça do Vale de Jezreel/Marj Ibn Amer nas décadas de 1920 e 1930.
É impossível compreender a Nakba de 1948 sem considerar o consenso sionista eliminacionista formado nas três décadas anteriores e que influenciou os assentamentos e as ações sionistas muito antes do Holocausto.
Se os sionistas de esquerda falavam em coexistência com os palestinos mesmo enquanto os expulsavam, os sionistas de direita abandonaram esse discurso desde cedo. O conhecido ensaio de Ze’ev Jabotinsky, de 1923, “A muralha de ferro”, estabeleceu o tom com um reconhecimento explícito do sionismo como um movimento colonialista de povoamento que visa remover os árabes palestinos nativos para criar um Estado judeu.
É impossível compreender a Nakba de 1948 sem considerar o consenso sionista eliminacionista formado nas três décadas anteriores e que influenciou os assentamentos e as ações sionistas muito antes do Holocausto. A Nakba de 1948 marcou, além disso, o nascimento do Estado de Israel como um ente claramente excludente, racista e violento; parafraseando o título de Bartov, o Estado de Israel já surgiu fundamentalmente errado.
Bartov, que se inclui entre os antigos sionistas liberais, rejeita essa posição. Seu argumento sobre o genocídio em Gaza funciona de maneira semelhante ao seu argumento sobre o sionismo. Ele acabou tendo dificuldades, durante o genocídio transmitido ao vivo por Israel, em descartar a acusação de genocídio. Para ele, a invasão de Rafah em maio de 2024 sinalizou a transição de Israel para o genocídio de fato. Isso significa que a campanha israelense em seus meses iniciais — sua fase mais letal — não foi genocida, segundo Bartov, mesmo reconhecendo que líderes políticos e militares israelenses expressaram clara intenção genocida na época. Essa qualificação da determinação de genocídio reflete a visão otimista de Bartov sobre o sionismo pré-estatal, pois visa ocultar a continuidade histórica entre a lógica eliminatória do sionismo e da Nakba e a violência genocida que se desenrola em Gaza desde outubro de 2023.
Bartov argumenta, portanto, que “o foco na realidade funcional dos assentamentos [sionistas] na Palestina ignora em grande parte as motivações ideológicas e emocionais desse movimento [sionista], bem como a autopercepção subjacente de gerações de ativistas e apoiadores sionistas”. Dentro dessa narrativa, as vítimas do sionismo — agora em sua fase genocida — erraram ao julgar o sionismo por meio de sua experiência vivida de desapropriação e violência; em vez disso, deveriam ter estado suficientemente “sintonizadas com as aspirações dos refugiados judeus da Europa”. Essa perspectiva transforma a luta anticolonial palestina e árabe — que começou com a Revolta Árabe de 1936, ou mesmo antes — em um ato hostil de agressão contra os colonos judeus na Palestina, criando assim uma falsa equivalência entre colonizados e colonizadores.
O Estado de Israel já surgiu fundamentalmente errado.
Sabemos também que, enquanto os refugiados judeus buscavam asilo, o movimento sionista que os encaminhava para a Palestina visava criar uma maioria demográfica judaica que, eventualmente, facilitaria o controle sionista do país. Os sionistas, portanto, transformaram refugiados em colonos. Além disso, pelo menos alguns dos refugiados judeus europeus que chegaram à Palestina durante ou imediatamente após a guerra de 1948 compreenderam isso e perceberam que o recém-criado Estado judeu reproduzia o tipo de violência excludente que haviam vivenciado na Europa. Foi uma libertação muito amarga para eles, se é que a perceberam dessa forma.
Independentemente de como se compreenda as múltiplas perspectivas dos refugiados judeus em 1948, a abordagem de Bartov afirma hierarquias epistêmicas racializadas, marginalizando as perspectivas, o conhecimento e as vozes dos palestinos que enfrentaram a violência colonial e eliminatória de Israel antes e depois de 1948, incluindo aqueles que identificaram o ataque de Israel a Gaza como genocídio desde o início.
Reconhecimento sem responsabilização?
Hierarquias socializadas moldam não apenas a forma como as causas do genocídio em Gaza são discutidas, mas também como os desdobramentos a seguir são imaginados. Seria de se esperar que o reconhecimento do genocídio fosse seguido por um claro apelo por justiça e responsabilização. Isso inclui o direito das vítimas da violência colonial e do genocídio de verem levados à justiça aqueles que atacaram seus entes queridos e a sociedade: aqueles que cometeram os crimes, aqueles que os ordenaram e aqueles que os incitaram. As vítimas também têm direito a um relato oficial do ocorrido. O próprio Estado deve ser responsabilizado por esses graves crimes.
Assim, fica o questionamento de por que o livro de Bartov não contém um apelo claro por responsabilização legal, especialmente à luz do recente desvelamento da impunidade que por muito tempo protegeu Israel da responsabilização por crimes cometidos contra o povo palestino.
Por que ele não apoia explicitamente os esforços de responsabilização perante o Tribunal Penal Internacional? Bartov menciona o Parecer Consultivo de 2024 emitido pela Corte Internacional de Justiça (CIJ) sobre a ilegalidade da presença de Israel na Cisjordânia e em Gaza, mas o faz sem explicar que o documento insta terceiros Estados a não reconhecerem, nem auxiliarem ou contribuírem para a manutenção dessa situação ilegal — abrindo, assim, uma janela de oportunidade para a imposição de medidas eficazes que pressionem Israel a cessar e remediar suas violações das normas imperativas do direito internacional. Em vez disso, Bartov adverte que, se Israel não mudar de rumo, enfrentará um isolamento semelhante ao sofrido pela África do Sul do apartheid.
Independentemente de como se compreenda as múltiplas perspectivas dos refugiados judeus em 1948, a abordagem de Bartov afirma hierarquias epistêmicas racializadas, marginalizando as perspectivas, o conhecimento e as vozes dos palestinos que enfrentaram a violência colonial e eliminatória de Israel antes e depois de 1948, incluindo aqueles que identificaram o ataque de Israel a Gaza como genocídio desde o início.
Reconhecimento sem responsabilização?
Hierarquias socializadas moldam não apenas a forma como as causas do genocídio em Gaza são discutidas, mas também como os desdobramentos a seguir são imaginados. Seria de se esperar que o reconhecimento do genocídio fosse seguido por um claro apelo por justiça e responsabilização. Isso inclui o direito das vítimas da violência colonial e do genocídio de verem levados à justiça aqueles que atacaram seus entes queridos e a sociedade: aqueles que cometeram os crimes, aqueles que os ordenaram e aqueles que os incitaram. As vítimas também têm direito a um relato oficial do ocorrido. O próprio Estado deve ser responsabilizado por esses graves crimes.
Assim, fica o questionamento de por que o livro de Bartov não contém um apelo claro por responsabilização legal, especialmente à luz do recente desvelamento da impunidade que por muito tempo protegeu Israel da responsabilização por crimes cometidos contra o povo palestino.
Por que ele não apoia explicitamente os esforços de responsabilização perante o Tribunal Penal Internacional? Bartov menciona o Parecer Consultivo de 2024 emitido pela Corte Internacional de Justiça (CIJ) sobre a ilegalidade da presença de Israel na Cisjordânia e em Gaza, mas o faz sem explicar que o documento insta terceiros Estados a não reconhecerem, nem auxiliarem ou contribuírem para a manutenção dessa situação ilegal — abrindo, assim, uma janela de oportunidade para a imposição de medidas eficazes que pressionem Israel a cessar e remediar suas violações das normas imperativas do direito internacional. Em vez disso, Bartov adverte que, se Israel não mudar de rumo, enfrentará um isolamento semelhante ao sofrido pela África do Sul do apartheid.
Fica o questionamento: por que o livro de Bartov não contém um apelo claro por responsabilização legal?
Muitos sionistas liberais compartilham a preocupação de Bartov. O renomado escritor israelense David Grossman, por exemplo, declarou ao jornal italiano La Repubblica, no início de agosto de 2025, que “a maldição de Israel começou com a ocupação dos territórios palestinos após 1967” — apagando, assim, a Nakba de 1948 — e que permanece “desesperadamente comprometido” com a solução de dois Estados; ou seja, um Estado judeu e um Estado palestino “sem armas”. A grande mídia liberal também parece desesperadamente comprometida com a negação da Nakba e com o estabelecimento de um Estado judeu, mesmo que amaldiçoado, o que explica o espaço que concede a pessoas como Bartov em suas colunas de opinião, enquanto suas reportagens, em grande parte, reproduzem o racismo anti-palestino.
Bartov vai além de outros sionistas liberais em suas críticas a Israel e ao sionismo. Ele agora não vê futuro para o sionismo, pois este se tornou uma ideologia de genocídio, embora rejeite o rótulo de “antissionista”. Consequentemente, ele não consegue imaginar um futuro sem um Estado judeu, ainda que diferente do atual. Por esse tipo de crítica e pelo seu reconhecimento tardio do genocídio em Gaza, Bartov enfrentou intensa hostilidade, incluindo ser chamado de “judeu traidor” e outros epítetos comumente lançados contra judeus que se recusam a repetir os discursos do Estado israelense e das principais organizações comunitárias judaicas.
Contudo, suas visões para a Palestina/Israel se concentram, em grande parte, em salvar Israel como um Estado de maioria judaica de um temido futuro ou “pesadelo”, marcado pelo êxodo de pessoas instruídas e qualificadas, pelo crescente isolamento internacional e pela perspectiva de sanções. O que permanece sem resposta é o imperativo moral e político da responsabilização pelas injustiças históricas e estruturais infligidas aos palestinos pelo regime colonial sionista desde a sua criação.
A “revisão fundamental da relação entre os sete milhões de judeus e os sete milhões de palestinos que vivem entre o rio e o mar”, proposta por Bartov, implica principalmente em pôr fim à guerra em Gaza, reconstruí-la e substituir o controle do Hamas sobre a Faixa, com o objetivo final de criar um Estado palestino na Cisjordânia e em Gaza que seria viável apenas como parte de uma confederação com Israel. Nesse cenário, baseado nos escritos de Dahlia Scheindlin, Gaza poderia se tornar “a Dubai do Mediterrâneo”, e um modelo de confederação é apresentado como uma alternativa à lógica fracassada de Oslo, que defendia a solução de dois Estados.
De acordo com essa visão, os refugiados palestinos deslocados à força durante a Nakba em curso podem retornar como cidadãos palestinos à Cisjordânia ou à Faixa de Gaza, enquanto que em Israel só lhes seriam concedidos direitos de residência. Seus “direitos” dentro de Israel seriam análogos aos concedidos aos colonizadores judeus israelenses que vivem na Cisjordânia: eles manteriam sua cidadania israelense e teriam permissão para residir na Cisjordânia não como cidadãos, mas como residentes, desde que aceitassem a soberania palestina.
Assim, os refugiados palestinos expulsos à força de sua terra natal recebem, dentro de Israel, o mesmo pacote de direitos garantido aos colonos da Cisjordânia em um futuro Estado palestino. De acordo com essa visão, os refugiados palestinos podem retornar a Haifa, Jafa, Safad e Lida como hóspedes tolerados, não como beneficiários do direito à autodeterminação na terra natal da qual Israel os expulsou. Embora possam ter permissão para residir nesses locais e votar nas eleições municipais, não teriam o direito de usufruir das terras e recursos que lhes pertenciam antes da Nakba para o desenvolvimento de suas comunidades. Tampouco seriam reconhecidos como parte da comunidade política encarregada de determinar o futuro político, econômico e cultural de sua própria terra natal.
Bartov não percebe como relegar os refugiados palestinos a um status comparável ao dos colonos da Cisjordânia — participantes ativos de uma política criminosa de assentamentos — reafirma uma lógica colonial, especialmente quando essa visão nada diz sobre restituição ou reparações.
É difícil escapar à conclusão de que a indignação expressa por Bartov sobre o que Israel se tornou não está, de fato, centrada nos palestinos.
Bartov vai além de outros sionistas liberais em suas críticas a Israel e ao sionismo. Ele agora não vê futuro para o sionismo, pois este se tornou uma ideologia de genocídio, embora rejeite o rótulo de “antissionista”. Consequentemente, ele não consegue imaginar um futuro sem um Estado judeu, ainda que diferente do atual. Por esse tipo de crítica e pelo seu reconhecimento tardio do genocídio em Gaza, Bartov enfrentou intensa hostilidade, incluindo ser chamado de “judeu traidor” e outros epítetos comumente lançados contra judeus que se recusam a repetir os discursos do Estado israelense e das principais organizações comunitárias judaicas.
Contudo, suas visões para a Palestina/Israel se concentram, em grande parte, em salvar Israel como um Estado de maioria judaica de um temido futuro ou “pesadelo”, marcado pelo êxodo de pessoas instruídas e qualificadas, pelo crescente isolamento internacional e pela perspectiva de sanções. O que permanece sem resposta é o imperativo moral e político da responsabilização pelas injustiças históricas e estruturais infligidas aos palestinos pelo regime colonial sionista desde a sua criação.
A “revisão fundamental da relação entre os sete milhões de judeus e os sete milhões de palestinos que vivem entre o rio e o mar”, proposta por Bartov, implica principalmente em pôr fim à guerra em Gaza, reconstruí-la e substituir o controle do Hamas sobre a Faixa, com o objetivo final de criar um Estado palestino na Cisjordânia e em Gaza que seria viável apenas como parte de uma confederação com Israel. Nesse cenário, baseado nos escritos de Dahlia Scheindlin, Gaza poderia se tornar “a Dubai do Mediterrâneo”, e um modelo de confederação é apresentado como uma alternativa à lógica fracassada de Oslo, que defendia a solução de dois Estados.
De acordo com essa visão, os refugiados palestinos deslocados à força durante a Nakba em curso podem retornar como cidadãos palestinos à Cisjordânia ou à Faixa de Gaza, enquanto que em Israel só lhes seriam concedidos direitos de residência. Seus “direitos” dentro de Israel seriam análogos aos concedidos aos colonizadores judeus israelenses que vivem na Cisjordânia: eles manteriam sua cidadania israelense e teriam permissão para residir na Cisjordânia não como cidadãos, mas como residentes, desde que aceitassem a soberania palestina.
Assim, os refugiados palestinos expulsos à força de sua terra natal recebem, dentro de Israel, o mesmo pacote de direitos garantido aos colonos da Cisjordânia em um futuro Estado palestino. De acordo com essa visão, os refugiados palestinos podem retornar a Haifa, Jafa, Safad e Lida como hóspedes tolerados, não como beneficiários do direito à autodeterminação na terra natal da qual Israel os expulsou. Embora possam ter permissão para residir nesses locais e votar nas eleições municipais, não teriam o direito de usufruir das terras e recursos que lhes pertenciam antes da Nakba para o desenvolvimento de suas comunidades. Tampouco seriam reconhecidos como parte da comunidade política encarregada de determinar o futuro político, econômico e cultural de sua própria terra natal.
Bartov não percebe como relegar os refugiados palestinos a um status comparável ao dos colonos da Cisjordânia — participantes ativos de uma política criminosa de assentamentos — reafirma uma lógica colonial, especialmente quando essa visão nada diz sobre restituição ou reparações.
É difícil escapar à conclusão de que a indignação expressa por Bartov sobre o que Israel se tornou não está, de fato, centrada nos palestinos.
É revelador que Bartov se baseie em um plano recente formulado por Scheindlin, um judeu israelense que cresceu nos Estados Unidos, mesmo existindo uma alternativa palestina: o plano da Sociedade Palestina da Terra, sob a liderança de Salman Abu Sitta. Esse plano contém diretrizes detalhadas e viáveis para o retorno de refugiados, desenvolvidas em consulta com refugiados e seus descendentes, que permitem o retorno dentro da Linha Verde sem exigir qualquer realocação significativa de israelenses.
“Aliviar o medo dos desequilíbrios demográficos”, como afirma Bartov, está no cerne do plano que ele apoia. Na prática, isso significa que mais de treze milhões de palestinos receberiam 22% do território da Palestina que esteve sob Mandato Britânico para exercer suas aspirações e direitos nacionais coletivos, enquanto aproximadamente dois milhões de palestinos com cidadania israelense seriam reduzidos a uma minoria, e não a um grupo indígena com direito à autodeterminação.
Uma posição semelhante foi adotada pelo movimento político Terra para Todos. Em seu programa, o movimento afirma que o Estado da Palestina teria o poder soberano de conceder cidadania aos refugiados palestinos. Ao receberem a cidadania palestina, os refugiados poderiam viajar livremente para Israel “para trabalho, turismo e residência”. Mais importante ainda, para evitar a “inundação”, seria alcançado um acordo sobre o número de refugiados palestinos elegíveis para residência em Israel.
Tais arranjos assegurariam um corpo político onde os judeus israelenses permaneceriam maioria em 78% da Palestina histórica, controlando seus recursos naturais. Esse esquema reproduz a lógica da supremacia judaica que os sionistas há muito invocam para justificar o deslocamento forçado e a eliminação política e física dos palestinos. A linguagem da demografia é a linguagem da dominação.
Estruturas de supremacia judaica
Não é surpreendente, portanto, que Bartov considere a Declaração de Independência de Israel uma oportunidade perdida, sem perceber como ela estabeleceu oficialmente um regime de supremacia judaica ao excluir os palestinos de seu lema “Nós, o povo”. Ela reconhece apenas o direito natural exclusivo do povo judeu à terra, como se a Palestina sob Mandato Britânico fosse terra nullius. Os palestinos que sobreviveram à Nakba e permaneceram no território que se tornou Israel são tratados meramente como “minorias”, nominalmente com direito não a direitos nacionais ou soberanos coletivos, mas apenas à “completa igualdade de direitos sociais e políticos a todos os seus habitantes, independentemente de religião, raça ou sexo”.
Era de se esperar que a escalada genocida do projeto colonial sionista expusesse as implicações catastróficas dessa lógica de supremacia, levando os críticos de Israel a abandoná-la de vez. Em vez disso, somos novamente confrontados com tentativas de priorizar as preocupações de segurança dos colonizadores em detrimento dos colonizados, agora articuladas pela linguagem da demografia. As preocupações de segurança dos colonizados — e o imperativo de fornecer às vítimas da violência genocida colonial as garantias legais internacionais de não repetição — estão totalmente ausentes ou, na melhor das hipóteses, relegadas à margem.
Bartov conclui sua discussão sobre essa visão com um comentário um tanto peculiar sobre como, na ausência de uma pressão significativa dos EUA sobre Israel, a Alemanha poderia servir como a principal força a impulsionar Israel nessa direção. A realidade é que a Alemanha tem trabalhado principalmente para empurrar Israel na direção do genocídio — fornecendo apoio militar a Israel, retratando os palestinos como nazistas e silenciando e reprimindo violentamente o ativismo pró-Palestina, incluindo a violência policial contra palestinos e judeus antissionistas nas ruas das cidades alemãs. O processo em curso no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) que a Nicarágua moveu contra a Alemanha em março de 2024 por cumplicidade com o genocídio israelense em Gaza (que Bartov menciona) torna seu comentário particularmente problemático.
Diante desse reconhecimento condicional do genocídio em Gaza, marcado pela ausência de qualquer apelo por responsabilização legal e de uma visão política capaz de abordar de forma abrangente os danos contínuos da Nakba, é difícil escapar à conclusão de que a indignação expressa por Bartov e outros liberais sobre o que Israel se tornou não está, de fato, centrada nos palestinos. Em vez disso, permanece como um esforço para salvar Israel, dentro de uma estrutura de supremacia judaica, daquilo que os sionistas liberais, independentemente de como se autodenominem, consideram um caminho autodestrutivo.
Colaboradores
Raz Segal é professor associado de estudos sobre o Holocausto e genocídio na Universidade de Stockton, onde também dirige o programa de mestrado em estudos sobre o Holocausto e genocídio.
Sonia Boulos é professora associada de direito internacional dos direitos humanos na Universidade Nebrija.
“Aliviar o medo dos desequilíbrios demográficos”, como afirma Bartov, está no cerne do plano que ele apoia. Na prática, isso significa que mais de treze milhões de palestinos receberiam 22% do território da Palestina que esteve sob Mandato Britânico para exercer suas aspirações e direitos nacionais coletivos, enquanto aproximadamente dois milhões de palestinos com cidadania israelense seriam reduzidos a uma minoria, e não a um grupo indígena com direito à autodeterminação.
Uma posição semelhante foi adotada pelo movimento político Terra para Todos. Em seu programa, o movimento afirma que o Estado da Palestina teria o poder soberano de conceder cidadania aos refugiados palestinos. Ao receberem a cidadania palestina, os refugiados poderiam viajar livremente para Israel “para trabalho, turismo e residência”. Mais importante ainda, para evitar a “inundação”, seria alcançado um acordo sobre o número de refugiados palestinos elegíveis para residência em Israel.
Tais arranjos assegurariam um corpo político onde os judeus israelenses permaneceriam maioria em 78% da Palestina histórica, controlando seus recursos naturais. Esse esquema reproduz a lógica da supremacia judaica que os sionistas há muito invocam para justificar o deslocamento forçado e a eliminação política e física dos palestinos. A linguagem da demografia é a linguagem da dominação.
Estruturas de supremacia judaica
Não é surpreendente, portanto, que Bartov considere a Declaração de Independência de Israel uma oportunidade perdida, sem perceber como ela estabeleceu oficialmente um regime de supremacia judaica ao excluir os palestinos de seu lema “Nós, o povo”. Ela reconhece apenas o direito natural exclusivo do povo judeu à terra, como se a Palestina sob Mandato Britânico fosse terra nullius. Os palestinos que sobreviveram à Nakba e permaneceram no território que se tornou Israel são tratados meramente como “minorias”, nominalmente com direito não a direitos nacionais ou soberanos coletivos, mas apenas à “completa igualdade de direitos sociais e políticos a todos os seus habitantes, independentemente de religião, raça ou sexo”.
Era de se esperar que a escalada genocida do projeto colonial sionista expusesse as implicações catastróficas dessa lógica de supremacia, levando os críticos de Israel a abandoná-la de vez. Em vez disso, somos novamente confrontados com tentativas de priorizar as preocupações de segurança dos colonizadores em detrimento dos colonizados, agora articuladas pela linguagem da demografia. As preocupações de segurança dos colonizados — e o imperativo de fornecer às vítimas da violência genocida colonial as garantias legais internacionais de não repetição — estão totalmente ausentes ou, na melhor das hipóteses, relegadas à margem.
Bartov conclui sua discussão sobre essa visão com um comentário um tanto peculiar sobre como, na ausência de uma pressão significativa dos EUA sobre Israel, a Alemanha poderia servir como a principal força a impulsionar Israel nessa direção. A realidade é que a Alemanha tem trabalhado principalmente para empurrar Israel na direção do genocídio — fornecendo apoio militar a Israel, retratando os palestinos como nazistas e silenciando e reprimindo violentamente o ativismo pró-Palestina, incluindo a violência policial contra palestinos e judeus antissionistas nas ruas das cidades alemãs. O processo em curso no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) que a Nicarágua moveu contra a Alemanha em março de 2024 por cumplicidade com o genocídio israelense em Gaza (que Bartov menciona) torna seu comentário particularmente problemático.
Diante desse reconhecimento condicional do genocídio em Gaza, marcado pela ausência de qualquer apelo por responsabilização legal e de uma visão política capaz de abordar de forma abrangente os danos contínuos da Nakba, é difícil escapar à conclusão de que a indignação expressa por Bartov e outros liberais sobre o que Israel se tornou não está, de fato, centrada nos palestinos. Em vez disso, permanece como um esforço para salvar Israel, dentro de uma estrutura de supremacia judaica, daquilo que os sionistas liberais, independentemente de como se autodenominem, consideram um caminho autodestrutivo.
Colaboradores
Raz Segal é professor associado de estudos sobre o Holocausto e genocídio na Universidade de Stockton, onde também dirige o programa de mestrado em estudos sobre o Holocausto e genocídio.
Sonia Boulos é professora associada de direito internacional dos direitos humanos na Universidade Nebrija.

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