Faisal Mahmud
Jacobin
Os movimentos e ideias de esquerda tiveram um grande impacto na história de Bengala desde a independência. Mas a esquerda do país não conseguiu se adaptar às novas circunstâncias e agora se vê diante de uma encruzilhada: a renovação completa ou um declínio rumo ao ostracismo.
Existe um silêncio peculiar que envolve a esquerda, antes muito vocal, em Bengala. Não se trata exatamente do silêncio da repressão em si — embora ela tenha sido real e muitas vezes brutal —, mas de uma quietude mais profunda, mais existencial. É o silêncio da irrelevância.
Outrora animados por promessas revolucionárias, moldados pela luta anticolonial e pelas correntes ideológicas globais, os partidos de esquerda de Bengala agora existem à margem de um cenário político dominado por formas concorrentes de nacionalismo e blocos de poder pragmáticos.
Seus slogans permanecem familiares e até onipresentes, e suas críticas são frequentemente incisivas. Mas sua presença política definhou, tornando-se algo espectral, como se a história tivesse seguido em frente sem que eles percebessem.
Visão e valores
Para entender esse fracasso, é preciso confrontar um paradoxo. Bengala nasceu de um movimento nacionalista profundamente progressista, que fundiu identidade linguística, aspiração secular, visão nacionalista e justiça social em um único projeto emancipatório. A visão fundadora do Estado, articulada após 1971, trazia traços inconfundíveis do pensamento de esquerda, incluindo compromissos com a redistribuição, o pluralismo cultural e a dignidade do trabalho.
Contudo, essa influência intelectual nem sempre se refletiu em termos de expressão política organizada. A esquerda bengalesa emergiu de uma linhagem política rica e complexa, ligada ao movimento comunista sul-asiático em geral.
Existe um silêncio peculiar que envolve a esquerda, antes muito vocal, em Bengala. Não se trata exatamente do silêncio da repressão em si — embora ela tenha sido real e muitas vezes brutal —, mas de uma quietude mais profunda, mais existencial. É o silêncio da irrelevância.
Outrora animados por promessas revolucionárias, moldados pela luta anticolonial e pelas correntes ideológicas globais, os partidos de esquerda de Bengala agora existem à margem de um cenário político dominado por formas concorrentes de nacionalismo e blocos de poder pragmáticos.
Seus slogans permanecem familiares e até onipresentes, e suas críticas são frequentemente incisivas. Mas sua presença política definhou, tornando-se algo espectral, como se a história tivesse seguido em frente sem que eles percebessem.
Visão e valores
Para entender esse fracasso, é preciso confrontar um paradoxo. Bengala nasceu de um movimento nacionalista profundamente progressista, que fundiu identidade linguística, aspiração secular, visão nacionalista e justiça social em um único projeto emancipatório. A visão fundadora do Estado, articulada após 1971, trazia traços inconfundíveis do pensamento de esquerda, incluindo compromissos com a redistribuição, o pluralismo cultural e a dignidade do trabalho.
Contudo, essa influência intelectual nem sempre se refletiu em termos de expressão política organizada. A esquerda bengalesa emergiu de uma linhagem política rica e complexa, ligada ao movimento comunista sul-asiático em geral.
A esquerda bengalesa emergiu de uma linhagem política rica e complexa, ligada ao movimento comunista mais amplo do sul da Ásia.
Durante o período do domínio colonial britânico, organizações ligadas ao Partido Comunista da Índia (PCI) desempenharam um papel central na mobilização de camponeses e trabalhadores em Bengala. Movimentos como a revolta camponesa de Tebhaga, em 1946-1947, reivindicavam uma distribuição mais justa da produção agrícola e se tornaram um momento decisivo da resistência agrária na região.
Após a partição da Índia em 1947, a política de esquerda continuou, mesmo sob condições adversas, no que era então o Paquistão Oriental. O Partido Comunista do Paquistão Oriental operava de forma semi-clandestina, frequentemente enfrentando repressão por parte do Estado paquistanês. Mesmo assim, ativistas de esquerda estiveram profundamente envolvidos no Movimento pela Língua Bengali e, posteriormente, em levantes populares que culminaram na independência de Bengala em 1971.
De fato, a própria Guerra de Libertação baseou-se fortemente em ideais socialistas e progressistas. Muitos grupos guerrilheiros de esquerda e organizações estudantis contribuíram para o esforço de guerra ao lado das forças nacionalistas. A Constituição de 1972 consagrou os princípios do socialismo, laicidade, nacionalismo e democracia.
Nas décadas seguintes, infelizmente, não foi a esquerda organizada que levou esses valores a cabo na política convencional. Em vez disso, os partidos dominantes do país (Liga Awami, Partido Nacionalista de Bengala e até mesmo o Jamaat-e-Islami) os absorveram e instrumentalizaram, ainda que de forma inconsistente, enquanto a esquerda se refugiava na rigidez doutrinária e na marginalidade política.
Ecossistema fragmentado
Desde a independência, a esquerda bengalesa nunca constituiu um bloco unitário e coerente, mas sim um ecossistema fragmentado de partidos, sindicatos, grupos estudantis e organizações temáticas. Suas principais forças parlamentares e extraparlamentares incluem o Partido Comunista de Bengala, várias facções do Partido Nacional Awami, o Partido dos Trabalhadores de Bengala, o Jatiya Samajtantrik Dal (JSD) e suas dissidências, bem como uma série de pequenos grupos marxistas-leninistas.
Após a partição da Índia em 1947, a política de esquerda continuou, mesmo sob condições adversas, no que era então o Paquistão Oriental. O Partido Comunista do Paquistão Oriental operava de forma semi-clandestina, frequentemente enfrentando repressão por parte do Estado paquistanês. Mesmo assim, ativistas de esquerda estiveram profundamente envolvidos no Movimento pela Língua Bengali e, posteriormente, em levantes populares que culminaram na independência de Bengala em 1971.
De fato, a própria Guerra de Libertação baseou-se fortemente em ideais socialistas e progressistas. Muitos grupos guerrilheiros de esquerda e organizações estudantis contribuíram para o esforço de guerra ao lado das forças nacionalistas. A Constituição de 1972 consagrou os princípios do socialismo, laicidade, nacionalismo e democracia.
Nas décadas seguintes, infelizmente, não foi a esquerda organizada que levou esses valores a cabo na política convencional. Em vez disso, os partidos dominantes do país (Liga Awami, Partido Nacionalista de Bengala e até mesmo o Jamaat-e-Islami) os absorveram e instrumentalizaram, ainda que de forma inconsistente, enquanto a esquerda se refugiava na rigidez doutrinária e na marginalidade política.
Ecossistema fragmentado
Desde a independência, a esquerda bengalesa nunca constituiu um bloco unitário e coerente, mas sim um ecossistema fragmentado de partidos, sindicatos, grupos estudantis e organizações temáticas. Suas principais forças parlamentares e extraparlamentares incluem o Partido Comunista de Bengala, várias facções do Partido Nacional Awami, o Partido dos Trabalhadores de Bengala, o Jatiya Samajtantrik Dal (JSD) e suas dissidências, bem como uma série de pequenos grupos marxistas-leninistas.
Desde a independência, a esquerda bengalesa nunca constituiu um bloco unitário e coerente, mas sim um ecossistema fragmentado.
Para além das estruturas partidárias, a esquerda historicamente exerceu influência através de federações sindicais em fábricas de juta, portos, ferrovias, transportes, plantações de chá e indústrias estatais, enquanto a política estudantil foi moldada em parte por organizações como a União Estudantil de Bengala (Bangladesh Chhatra Union) e alianças estudantis de esquerda. Nas áreas rurais, associações camponesas e campanhas pelos direitos à terra periodicamente conferiram à esquerda uma base social desproporcional à sua força eleitoral.
No entanto, essa infraestrutura enfraqueceu drasticamente nas últimas cinco décadas. A desindustrialização de setores estatais mais antigos, o declínio do movimento sindical no setor de juta e na indústria pesada, a repressão à atividade sindical e a ascensão da economia de exportação de vestuário sob condições trabalhistas muito mais restritivas reduziram o espaço tradicional da política de esquerda.
Relevância e contexto
Hoje, os partidos de esquerda ainda mantêm focos de relevância em associações profissionais, campus universitários, redes de defesa ligadas a ONGs, campanhas pelos direitos trabalhistas e, ocasionalmente, em coalizões de protesto urbano sobre questões como salários, defesa do laicismo, oposição à violência de gênero e proteção ambiental.
Alguns grupos têm formado alianças intermitentes com partidos maiores, particularmente a Liga Awami, ganhando visibilidade, mas frequentemente às custas de uma identidade independente.
Alguns grupos têm formado alianças intermitentes com partidos maiores, particularmente a Liga Awami, ganhando visibilidade, mas frequentemente às custas de uma identidade independente. A presença nas ruas ainda supera a porcentagem de votos, contudo, nem institucionalmente nem eleitoralmente, eles detêm a base de massa da classe trabalhadora que outrora os tornava relevantes.
Uma comparação regional provavelmente ajuda a esclarecer o contexto em Bengala. Na Índia, os desdobramentos do movimento comunista do século XX permaneceram politicamente relevantes até o século XXI, mesmo que sua base de apoio tenha diminuído em relação ao auge da Guerra Fria.
Partidos comunistas parlamentares, como o Partido Comunista da Índia (Marxista) e o PCI, governaram estados importantes como Bengala Ocidental, Kerala e Tripura, lideraram os debates sobre legislação trabalhista e reforma agrária e mantiveram quadros duradouros, especialmente em partes do sul e leste da Índia. Ao mesmo tempo, as insurgências maoístas e naxalitas, embora militarmente enfraquecidas, continuaram exercendo influência territorial e política por anos, o suficiente para que o Estado indiano as considerasse um grande desafio à segurança interna. Em outras palavras, a esquerda indiana perdeu a hegemonia, mas não a relevância.
No Paquistão, por outro lado, a trajetória tem sido muito menos favorável. As correntes comunistas e socialistas foram repetidamente podadas pela experiência do regime militar, da islamização, da repressão sindical e da predominância do nacionalismo centrado na segurança interna. Embora os organizadores sindicais, os grupos estudantis e os advogados progressistas permaneçam ativos, a esquerda organizada há muito luta para converter a influência intelectual em poder eleitoral ou institucional de massa.
Bengala situa-se em algum ponto entre esses dois casos, mas mais próximo do Paquistão do que da Índia em termos da influência política da esquerda. Ao contrário do Paquistão, as correntes seculares e socialistas marcaram profundamente a ideologia fundadora e a história constitucional bengalesa, e as organizações de esquerda conservam uma maior legitimidade simbólica no discurso público.
Contudo, diferentemente de seus homólogos indianos, eles não conseguiram preservar uma base eleitoral duradoura, governar territórios substanciais ou construir organizações de massa capazes de moldar a política nacional. A esquerda bengalesa, portanto, ocupa uma posição intermediária: historicamente influente, socialmente visível, mas politicamente marginal.
Pensando globalmente
Não podemos contar a história dessa divergência sem também olhar para as transformações que remodelaram a ordem global no final do século XX. O colapso da União Soviética, a liberalização das economias em toda a Ásia e a consolidação do que antes era chamado de ordem mundial liberal alteraram fundamentalmente o terreno em que a política de esquerda operava.
Para muitos partidos de esquerda ao redor do mundo, esse momento exigiu reinvenção. Isso implicaria repensar a política econômica, recalibrar os compromissos ideológicos e um engajamento com a globalização que fosse além da oposição reflexiva.
Em todo o mundo, os movimentos reagiram de maneiras diversas. Na Europa Ocidental, os partidos social-democratas mudaram sua visão sobre os mercados capitalistas. Na América Latina, países como Bolívia e Venezuela experimentaram novas formas de governança socialista no início do século XXI. Mesmo na Ásia, organizações partidárias como o Partido Comunista Chinês reorientaram suas estratégias econômicas em direção ao capitalismo de Estado.
Uma comparação regional provavelmente ajuda a esclarecer o contexto em Bengala. Na Índia, os desdobramentos do movimento comunista do século XX permaneceram politicamente relevantes até o século XXI, mesmo que sua base de apoio tenha diminuído em relação ao auge da Guerra Fria.
Partidos comunistas parlamentares, como o Partido Comunista da Índia (Marxista) e o PCI, governaram estados importantes como Bengala Ocidental, Kerala e Tripura, lideraram os debates sobre legislação trabalhista e reforma agrária e mantiveram quadros duradouros, especialmente em partes do sul e leste da Índia. Ao mesmo tempo, as insurgências maoístas e naxalitas, embora militarmente enfraquecidas, continuaram exercendo influência territorial e política por anos, o suficiente para que o Estado indiano as considerasse um grande desafio à segurança interna. Em outras palavras, a esquerda indiana perdeu a hegemonia, mas não a relevância.
No Paquistão, por outro lado, a trajetória tem sido muito menos favorável. As correntes comunistas e socialistas foram repetidamente podadas pela experiência do regime militar, da islamização, da repressão sindical e da predominância do nacionalismo centrado na segurança interna. Embora os organizadores sindicais, os grupos estudantis e os advogados progressistas permaneçam ativos, a esquerda organizada há muito luta para converter a influência intelectual em poder eleitoral ou institucional de massa.
Bengala situa-se em algum ponto entre esses dois casos, mas mais próximo do Paquistão do que da Índia em termos da influência política da esquerda. Ao contrário do Paquistão, as correntes seculares e socialistas marcaram profundamente a ideologia fundadora e a história constitucional bengalesa, e as organizações de esquerda conservam uma maior legitimidade simbólica no discurso público.
Contudo, diferentemente de seus homólogos indianos, eles não conseguiram preservar uma base eleitoral duradoura, governar territórios substanciais ou construir organizações de massa capazes de moldar a política nacional. A esquerda bengalesa, portanto, ocupa uma posição intermediária: historicamente influente, socialmente visível, mas politicamente marginal.
Pensando globalmente
Não podemos contar a história dessa divergência sem também olhar para as transformações que remodelaram a ordem global no final do século XX. O colapso da União Soviética, a liberalização das economias em toda a Ásia e a consolidação do que antes era chamado de ordem mundial liberal alteraram fundamentalmente o terreno em que a política de esquerda operava.
Para muitos partidos de esquerda ao redor do mundo, esse momento exigiu reinvenção. Isso implicaria repensar a política econômica, recalibrar os compromissos ideológicos e um engajamento com a globalização que fosse além da oposição reflexiva.
Em todo o mundo, os movimentos reagiram de maneiras diversas. Na Europa Ocidental, os partidos social-democratas mudaram sua visão sobre os mercados capitalistas. Na América Latina, países como Bolívia e Venezuela experimentaram novas formas de governança socialista no início do século XXI. Mesmo na Ásia, organizações partidárias como o Partido Comunista Chinês reorientaram suas estratégias econômicas em direção ao capitalismo de Estado.
Embora Bengala tenha passado por uma transformação drástica, a crítica da esquerda ao capitalismo permaneceu praticamente inalterada.
No entanto, em Bengala, grande parte da esquerda permaneceu ancorada em uma era anterior, agarrando-se a estruturas que perderam tanto sua relevância geopolítica quanto sua aplicabilidade prática. Essa estagnação é especialmente visível no pensamento econômico dos partidos de esquerda bengaleses. Embora Bengala tenha passado por uma transformação drástica — de um Estado devastado pela guerra e dependente de ajuda externa para uma das economias de crescimento mais rápido do Sul Global —, a crítica da esquerda ao capitalismo permaneceu praticamente inalterada.
O governo continuou enfatizando o protecionismo e a resistência aos mercados globais, mesmo quando milhões de bengaleses encontraram emprego e ascensão social por meio de indústrias voltadas à exportação. O setor têxtil, apesar de todas as injustiças bem documentadas, tornou-se a espinha dorsal da economia nacional, integrando Bengala às cadeias de suprimentos globais de maneiras tanto exploratórias quanto transformadoras. A esquerda, em vez de lidar com essa complexidade, muitas vezes recorria a uma linguagem de denúncia que não encontrava eco entre os trabalhadores cujos meios de subsistência dependiam do próprio sistema criticado.
Eventos como o desabamento do Rana Plaza, que resultou na morte de mais de 1.100 trabalhadores, expuseram a grave exploração laboral e as condições de trabalho inseguras. Isso deveria ter sido terreno fértil para a mobilização da esquerda. Embora os grupos de esquerda tenham participado de movimentos trabalhistas, tiveram dificuldades em converter essas formas de atividade em influência política prolongada.
Horizontes universais
Há aqui uma ironia que não passou despercebida. Nos últimos anos, os Estados Unidos, que dificilmente são um aliado tradicional do radicalismo trabalhista, exerceram uma pressão significativa sobre Bengala para melhorar os direitos dos trabalhadores, incluindo o direito à sindicalização nas Zonas de Processamento de Exportação. Essa pressão, por vezes, surtiu efeito onde os movimentos de esquerda internos tiveram dificuldades em obter impacto, forçando concessões de um Estado estreitamente alinhado com o capital industrial.
Essa contradição expõe um problema mais profundo: a incapacidade da esquerda bengalesa de traduzir seu compromisso moral com os trabalhadores em influência política efetiva. Quando atores externos conseguem obter ganhos incrementais para os trabalhadores de forma mais eficiente do que os partidos de esquerda locais, a credibilidade desses partidos inevitavelmente se deteriora.
Parte da dificuldade reside na relação conflituosa da esquerda com a própria globalização. O slogan “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” outrora apontava para um horizonte universalista, um reconhecimento de que as lutas trabalhistas transcendiam as fronteiras nacionais. Mas, na prática, à medida que a globalização neoliberal avançava, infelizmente foi o capital, e não o trabalho, que alcançou a integração transnacional.
À medida que a globalização neoliberal avançava, infelizmente foi o capital, e não o trabalho, que alcançou a integração transnacional.
O governo continuou enfatizando o protecionismo e a resistência aos mercados globais, mesmo quando milhões de bengaleses encontraram emprego e ascensão social por meio de indústrias voltadas à exportação. O setor têxtil, apesar de todas as injustiças bem documentadas, tornou-se a espinha dorsal da economia nacional, integrando Bengala às cadeias de suprimentos globais de maneiras tanto exploratórias quanto transformadoras. A esquerda, em vez de lidar com essa complexidade, muitas vezes recorria a uma linguagem de denúncia que não encontrava eco entre os trabalhadores cujos meios de subsistência dependiam do próprio sistema criticado.
Eventos como o desabamento do Rana Plaza, que resultou na morte de mais de 1.100 trabalhadores, expuseram a grave exploração laboral e as condições de trabalho inseguras. Isso deveria ter sido terreno fértil para a mobilização da esquerda. Embora os grupos de esquerda tenham participado de movimentos trabalhistas, tiveram dificuldades em converter essas formas de atividade em influência política prolongada.
Horizontes universais
Há aqui uma ironia que não passou despercebida. Nos últimos anos, os Estados Unidos, que dificilmente são um aliado tradicional do radicalismo trabalhista, exerceram uma pressão significativa sobre Bengala para melhorar os direitos dos trabalhadores, incluindo o direito à sindicalização nas Zonas de Processamento de Exportação. Essa pressão, por vezes, surtiu efeito onde os movimentos de esquerda internos tiveram dificuldades em obter impacto, forçando concessões de um Estado estreitamente alinhado com o capital industrial.
Essa contradição expõe um problema mais profundo: a incapacidade da esquerda bengalesa de traduzir seu compromisso moral com os trabalhadores em influência política efetiva. Quando atores externos conseguem obter ganhos incrementais para os trabalhadores de forma mais eficiente do que os partidos de esquerda locais, a credibilidade desses partidos inevitavelmente se deteriora.
Parte da dificuldade reside na relação conflituosa da esquerda com a própria globalização. O slogan “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” outrora apontava para um horizonte universalista, um reconhecimento de que as lutas trabalhistas transcendiam as fronteiras nacionais. Mas, na prática, à medida que a globalização neoliberal avançava, infelizmente foi o capital, e não o trabalho, que alcançou a integração transnacional.
À medida que a globalização neoliberal avançava, infelizmente foi o capital, e não o trabalho, que alcançou a integração transnacional.
As cadeias de suprimentos estendiam-se por todos os continentes e os investimentos fluíam com uma velocidade sem precedentes. Como resultado, os acordos de livre comércio reconfiguraram a economia global. Diante dessa realidade, muitos movimentos de esquerda refugiaram-se em formas de nacionalismo econômico que, embora retoricamente anti-imperialistas, muitas vezes refletiam os instintos protecionistas das próprias forças que combatiam. Em Bengala, esse recuo assumiu um caráter particularmente insular.
As críticas de esquerda ao comércio global frequentemente enfatizam a exploração e a dependência, mas raramente abordam as maneiras pelas quais a integração na economia global também criou oportunidades de desenvolvimento. Tampouco oferecem uma alternativa coerente que atenda às aspirações de uma população cada vez mais atenta às possibilidades de mobilidade econômica. O resultado é uma forma de política que não consegue articular uma visão voltada para o futuro nem competir com o desenvolvimentismo pragmático dos partidos tradicionais.
Variedades de nacionalismo
A esquerda em Bengala também falhou em adaptar sua mensagem às mudanças na identidade nacional. O nacionalismo, tal como surgiu no mundo pós-colonial, não era inerentemente reacionário. Em sua forma original, era um veículo de libertação — uma maneira de afirmar a existência política diante da dominação imperial.
A esquerda em Bengala também falhou em adaptar sua mensagem às mudanças na identidade nacional.
As críticas de esquerda ao comércio global frequentemente enfatizam a exploração e a dependência, mas raramente abordam as maneiras pelas quais a integração na economia global também criou oportunidades de desenvolvimento. Tampouco oferecem uma alternativa coerente que atenda às aspirações de uma população cada vez mais atenta às possibilidades de mobilidade econômica. O resultado é uma forma de política que não consegue articular uma visão voltada para o futuro nem competir com o desenvolvimentismo pragmático dos partidos tradicionais.
Variedades de nacionalismo
A esquerda em Bengala também falhou em adaptar sua mensagem às mudanças na identidade nacional. O nacionalismo, tal como surgiu no mundo pós-colonial, não era inerentemente reacionário. Em sua forma original, era um veículo de libertação — uma maneira de afirmar a existência política diante da dominação imperial.
A esquerda em Bengala também falhou em adaptar sua mensagem às mudanças na identidade nacional.
O nacionalismo que fomentou a independência bengalesa era inclusivo, laico e orientado para a justiça social. Buscava criar uma identidade cívica que pudesse acolher a diversidade em vez de suprimi-la, e abraçava muitos dos mesmos valores que os partidos de esquerda alegavam defender.
Com o tempo, porém, a relação entre o nacionalismo e a esquerda tornou-se cada vez mais tensa. À medida que o nacionalismo se institucionalizava no Estado, evoluiu de maneiras que nem sempre se alinhavam com seus ideais originais. A competição política, as pressões econômicas e as influências globais contribuíram para essa transformação.
Mesmo com as mudanças no nacionalismo, ele manteve sua capacidade de mobilizar grandes segmentos da população, oferecendo um senso de pertencimento e propósito que a esquerda teve dificuldade em igualar. Uma das razões para essa discrepância reside na tendência da esquerda de enxergar o nacionalismo através de lentes emprestadas. Influenciados por críticas ao nacionalismo de direita ocidental, onde ele é frequentemente associado à exclusão e à ansiedade cultural, os militantes de esquerda bengaleses por vezes trataram todas as formas de nacionalismo com suspeita.
Essa interpretação equivocada teve consequências práticas. Ao se distanciarem das narrativas nacionalistas, os partidos de esquerda cederam uma linguagem política poderosa aos seus rivais. Enquanto isso, esses rivais incorporaram seletivamente temas de esquerda, como bem-estar social, justiça econômica e inclusão cultural, em suas próprias plataformas, frequentemente de forma diluída ou instrumentalizada.
Existe também uma dimensão institucional nesse declínio. Muitos partidos de esquerda em Bengala têm sido assolados por fragmentação interna e relutância em formar coligações. As estruturas de liderança muitas vezes permaneceram estáticas, dominadas por figuras cujas sensibilidades políticas foram moldadas em uma era muito diferente.
Os ativistas mais jovens, embora por vezes atraídos pela clareza moral dos argumentos de esquerda, frequentemente sentem-se alienados por culturas organizacionais que resistem à mudança. Num ambiente político que recompensa a adaptabilidade e a flexibilidade estratégica, essas fragilidades têm cobrado um preço alto.
Um caminho a seguir
No entanto, seria um erro atribuir a marginalização da esquerda unicamente às suas próprias deficiências. O contexto político mais amplo em Bengala tem sido inóspito para movimentos de oposição de todos os tipos, com restrições à expressão e organização política que afetaram os partidos de esquerda, assim como outros.
O principal problema é que a esquerda bengalesa se encontra em descompasso com as realidades do presente, com seus arcabouços intelectuais moldados por um mundo que já não existe. Ela continua a se insurgir contra uma ordem mundial liberal que foi corroída, mesmo enquanto novas formas de poder — mais abertamente transacionais, mais coercitivas — tomam o seu lugar.
Se existe um caminho a seguir para a esquerda, ele exigirá mais do que uma mera ressurreição de slogans antigos. Exigirá uma disposição para lidar com as contradições do presente, reconhecer que a integração econômica e a justiça social não são mutuamente excludentes e articular uma visão que contemple tanto as aspirações materiais quanto as preocupações morais de uma sociedade em transformação. Exigirá também uma reflexão sobre o nacionalismo como um terreno no qual os valores progressistas podem ser contestados e redefinidos.
Se tal transformação é possível, permanece uma questão em aberto. O que está claro, no entanto, é que as condições que outrora sustentaram a esquerda em Bengala mudaram fundamentalmente. Para se manter relevante, ela precisa mudar com essas mudanças. Caso contrário, corre o risco de se tornar o que já parece ser, em muitos aspectos: um repositório de ideias sem base eleitoral, uma voz que fala de maneira eloquente, mas que já não é ouvida.
Colaborador
Faisal Mahmud é um jornalista radicado em Dhaka que já fez reportagens sobre Bangladesh e o Sul da Ásia para veículos internacionais como Al Jazeera, Asia Times e Nikkei Asia, entre outros.

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