Há um trecho no início de A garota da banda (2015), o aclamado livro de memórias de Kim Gordon, onde ela descreve sua primeira apresentação no palco com uma banda de curta duração chamada Introjection. O trio incluía Christine Hahn e Miranda Stanton, da banda The Static, e sua única apresentação foi no Massachusetts College of Art and Design. Novata na música, mas com a inteligência de uma estudante de artes, Gordon descreve suas letras como “textos publicitários que eu havia arrancado de revistas femininas”, com uma música intitulada “Soft polished separates” e outra “Cosmopolitan girl”.
Com algumas revisões, esse estilo improvisacional, baseado em objetos à mão, que deu início à sua carreira como musicista, ainda pode ser ouvido no novo álbum de Gordon, Play me (Matador Records). Um LP enxuto e conciso, com doze faixas e vinte e nove minutos de duração, ele expande a sonoridade hip-hop desenvolvida em seus dois lançamentos solo anteriores, No home record (2019) e The collective (2024), com a assistência do produtor Justin Raisen, que também trabalhou com Charli XCX, entre muitos outros. Assim como sua música, as letras do álbum são igualmente presentistas, abordando inteligência artificial, Elon Musk e o governo Trump: você sabe, os temas típicos da fase final da carreira de uma cantora e compositora consagrada.
Gordon tem setenta e três anos — para efeito de comparação, Bruce Springsteen tem setenta e seis e Bob Dylan, oitenta e quatro — embora Play me esteja longe de ser uma obra de reminiscências ou nostalgia. É, à maneira tipicamente experimental de Gordon, um álbum político. Ao contrário de Springsteen, cuja resposta aos assassinatos de Renée Good e Alex Pretti pela Imigração e Alfândega foi a familiar “Streets of Minneapolis”, ou de Dylan, cujo álbum recente, Rough and rowdy ways (2020), continha uma releitura de dezessete minutos do assassinato de John F. Kennedy (“Murder most foul”), Gordon não se inclina a revisitar seus trabalhos anteriores ou a divagar poeticamente sobre precedentes para o nosso momento atual.
Play Me questiona, em vez disso, como seria a composição política hoje, em um contexto em que a geração baby boomer está envelhecendo e artistas mais jovens, como Phoebe Bridgers, MJ Lenderman ou Cameron Winter, parecem mais preocupados em reivindicar uma genealogia com um som e uma cena anteriores do que em confrontar questões sobre a cultura em geral. Gordon reconhece a urgência de falar sobre o presente político, ao mesmo tempo que traz uma autoconsciência sobre os riscos de fazê-lo. O resultado é um disco revigorante que, musical e liricamente, encontra o momento através de elementos de atenção, subversão e recusa: características que há muito definem sua carreira artística.
I’ll be your mirror
Embora tenha formação em artes visuais — razão pela qual Gordon pode ser vista como sucessora de artistas-músicas como Yoko Ono e Laurie Anderson — grande parte de sua ética criativa deriva de sua trajetória como membra fundadora do Sonic Youth. Ao longo das três décadas de existência da banda, Gordon ganhou destaque com canções que articulavam uma visão feminista não apenas sobre a cena rock, mas da sociedade estadunidense em geral. Canções como “The Sprawl”, do álbum Daydream nation (1988), e “Swimsuit issue”, do álbum Dirty (1992), delineavam as conexões entre gênero e o mercado de trabalho, respectivamente, e a mercantilização da vida das mulheres de forma mais ampla. O projeto paralelo da banda, Ciccone Youth, expandiu essa abordagem crítica ao celebrar Madonna de forma irreverente. Antiga moradora do Lower East Side e da cena No Wave que deu origem ao Sonic Youth, Madonna era um símbolo perfeito para a desconstrução, com a banda oferecendo uma metacrítica da comercialização e da formação de opinião cultural que a cantora representava no final da década de 1980.
Com suas baterias eletrônicas desajeitadas, loops de fita e samples de músicas de Madonna, o único lançamento do Ciccone Youth, The whitey album (1989), também lançou mão de experimentações com técnicas de hip-hop. Faixas como “Into the Groovey” se aventuraram além da formação rock usual do Sonic Youth, mantendo ainda seu som baseado em guitarras. Esse novo interesse foi trabalhado em Goo (1990), com Chuck D. e Gordon dividindo o microfone no single de sucesso “Kool Thing” — “Fear of a female planet?” [Medo de um planeta feminino?], ela provoca em um momento —, resultado de Sonic Youth e Public Enemy compartilharem o estúdio no Greene St Recording, no SoHo. O peculiar vocal falado de Gordon, que lembra o de Nico, do Velvet Underground, se adaptou facilmente a esse gênero mais sofisticado.
Com algumas revisões, esse estilo improvisacional, baseado em objetos à mão, que deu início à sua carreira como musicista, ainda pode ser ouvido no novo álbum de Gordon, Play me (Matador Records). Um LP enxuto e conciso, com doze faixas e vinte e nove minutos de duração, ele expande a sonoridade hip-hop desenvolvida em seus dois lançamentos solo anteriores, No home record (2019) e The collective (2024), com a assistência do produtor Justin Raisen, que também trabalhou com Charli XCX, entre muitos outros. Assim como sua música, as letras do álbum são igualmente presentistas, abordando inteligência artificial, Elon Musk e o governo Trump: você sabe, os temas típicos da fase final da carreira de uma cantora e compositora consagrada.
Gordon tem setenta e três anos — para efeito de comparação, Bruce Springsteen tem setenta e seis e Bob Dylan, oitenta e quatro — embora Play me esteja longe de ser uma obra de reminiscências ou nostalgia. É, à maneira tipicamente experimental de Gordon, um álbum político. Ao contrário de Springsteen, cuja resposta aos assassinatos de Renée Good e Alex Pretti pela Imigração e Alfândega foi a familiar “Streets of Minneapolis”, ou de Dylan, cujo álbum recente, Rough and rowdy ways (2020), continha uma releitura de dezessete minutos do assassinato de John F. Kennedy (“Murder most foul”), Gordon não se inclina a revisitar seus trabalhos anteriores ou a divagar poeticamente sobre precedentes para o nosso momento atual.
Play Me questiona, em vez disso, como seria a composição política hoje, em um contexto em que a geração baby boomer está envelhecendo e artistas mais jovens, como Phoebe Bridgers, MJ Lenderman ou Cameron Winter, parecem mais preocupados em reivindicar uma genealogia com um som e uma cena anteriores do que em confrontar questões sobre a cultura em geral. Gordon reconhece a urgência de falar sobre o presente político, ao mesmo tempo que traz uma autoconsciência sobre os riscos de fazê-lo. O resultado é um disco revigorante que, musical e liricamente, encontra o momento através de elementos de atenção, subversão e recusa: características que há muito definem sua carreira artística.
I’ll be your mirror
Embora tenha formação em artes visuais — razão pela qual Gordon pode ser vista como sucessora de artistas-músicas como Yoko Ono e Laurie Anderson — grande parte de sua ética criativa deriva de sua trajetória como membra fundadora do Sonic Youth. Ao longo das três décadas de existência da banda, Gordon ganhou destaque com canções que articulavam uma visão feminista não apenas sobre a cena rock, mas da sociedade estadunidense em geral. Canções como “The Sprawl”, do álbum Daydream nation (1988), e “Swimsuit issue”, do álbum Dirty (1992), delineavam as conexões entre gênero e o mercado de trabalho, respectivamente, e a mercantilização da vida das mulheres de forma mais ampla. O projeto paralelo da banda, Ciccone Youth, expandiu essa abordagem crítica ao celebrar Madonna de forma irreverente. Antiga moradora do Lower East Side e da cena No Wave que deu origem ao Sonic Youth, Madonna era um símbolo perfeito para a desconstrução, com a banda oferecendo uma metacrítica da comercialização e da formação de opinião cultural que a cantora representava no final da década de 1980.
Com suas baterias eletrônicas desajeitadas, loops de fita e samples de músicas de Madonna, o único lançamento do Ciccone Youth, The whitey album (1989), também lançou mão de experimentações com técnicas de hip-hop. Faixas como “Into the Groovey” se aventuraram além da formação rock usual do Sonic Youth, mantendo ainda seu som baseado em guitarras. Esse novo interesse foi trabalhado em Goo (1990), com Chuck D. e Gordon dividindo o microfone no single de sucesso “Kool Thing” — “Fear of a female planet?” [Medo de um planeta feminino?], ela provoca em um momento —, resultado de Sonic Youth e Public Enemy compartilharem o estúdio no Greene St Recording, no SoHo. O peculiar vocal falado de Gordon, que lembra o de Nico, do Velvet Underground, se adaptou facilmente a esse gênero mais sofisticado.
Gordon reconhece a urgência de se pronunciar sobre o presente político, ao mesmo tempo que demonstra autoconsciência sobre os riscos envolvidos.
Em vez de uma virada conceitual radical, a arrogância descarada de Gordon em Play me e seu antecessor, The collective, soa, portanto, como um ápice de sua carreira. E parece mais do que apropriado. Seu primeiro trabalho solo, No home record, a colocou nessa direção, ainda que timidamente. Com seus contrastes tonais entre batidas fragmentadas e explosivas e interlúdios mais calmos, conduzidos pelo piano, a faixa de abertura daquele álbum, “Sketch artist”, equivale a uma declaração de intenções, com o próprio título sugerindo um primeiro esboço. No entanto, a faixa seguinte, “Air BnB”, retorna a um som mais voltado para o rock, sugerindo que ela não havia se desfeito completamente de seu passado com o Sonic Youth. O restante do LP é amplamente definido por essa dialética provisória entre os instintos de sua antiga banda e a atração por um horizonte artístico diferente.
A mudança musical presente em No home record refletiu ainda uma mudança na vida pessoal de Gordon. O fim do Sonic Youth ocorreu pouco depois do término de seu casamento de quase três décadas com o cofundador Thurston Moore, tema abordado em A garota da banda com detalhes comoventes. O relacionamento deles não só estabilizou o Sonic Youth, como também foi um exemplo emblemático da possibilidade de se ter uma carreira artística inovadora sem sacrificar uma vida pessoal estável.
No home record é, portanto, uma expressão de deslocamento emocional e da tarefa de recomeçar, de lidar com circunstâncias impostas além do nosso controle e de encontrar renovação na incerteza. Na sombria faixa final, “Get yr life back”, Gordon amplia esse tédio individual para um nível social. “O fim do capitalismo, vencedores e perdedores”, ela sussurra contra um pano de fundo de pesadelo de reverberação industrial e sons percussivos de fábrica, questionando qual a relevância do âmbito pessoal em tempos de polarização política e crise planetária. “Não existem mais verdades, e a chuva continua.”
A mudança musical presente em No home record refletiu ainda uma mudança na vida pessoal de Gordon. O fim do Sonic Youth ocorreu pouco depois do término de seu casamento de quase três décadas com o cofundador Thurston Moore, tema abordado em A garota da banda com detalhes comoventes. O relacionamento deles não só estabilizou o Sonic Youth, como também foi um exemplo emblemático da possibilidade de se ter uma carreira artística inovadora sem sacrificar uma vida pessoal estável.
No home record é, portanto, uma expressão de deslocamento emocional e da tarefa de recomeçar, de lidar com circunstâncias impostas além do nosso controle e de encontrar renovação na incerteza. Na sombria faixa final, “Get yr life back”, Gordon amplia esse tédio individual para um nível social. “O fim do capitalismo, vencedores e perdedores”, ela sussurra contra um pano de fundo de pesadelo de reverberação industrial e sons percussivos de fábrica, questionando qual a relevância do âmbito pessoal em tempos de polarização política e crise planetária. “Não existem mais verdades, e a chuva continua.”
Gordon coloca a si mesma em segundo plano para deixar que as questões sociais fluam através de sua música.
Desde então, o método de Gordon tem sido o de espelhar o presente, continuando a se afastar das convenções da narrativa lírica. Assim como o texto publicitário de seus primeiros trabalhos, as letras de The collective e Play me soam como emprestadas de outros lugares, em vez de escritas propositalmente. Elas se assemelham a anotações casuais, trechos de conversas ouvidas por acaso ou palavras-chave extraídas da mídia e de discursos públicos. Gordon coloca a si mesma em segundo plano para deixar que as questões sociais fluam através de sua música. Da mesma forma que o hip-hop frequentemente resgatou e remontou passagens e frases do soul e do R&B, Gordon assumiu o papel de bricoleur verbal.
Para ilustrar, o primeiro single de The collective, “Bye bye”, mostra Gordon revisando uma lista de tarefas antes de viajar, uma lista banal, mas com a qual nos identificamos, que se torna um comentário sobre as necessidades banais da vida contemporânea. Essa abordagem observacional que permeia The collective se estende a outras esferas de discussão e preocupação pública, incluindo masculinidade tóxica (“I’m a man”) ou o domínio da tecnologia e a perda do fator humano (“The candy house”).
O resultado não é tanto um LP de ecletismo temático ou uma tentativa de indexar males sociais, mas sim uma argumentação tácita sobre as conexões entre esses temas dispersos que florescem de forma maligna quando não são percebidos como parte de um todo cultural. Gordon não pretende ter respostas em The collective. Ainda assim, sua renovação de suas aspirações pós-casamento, pós-banda e pós-rock parece estar atrelada a essas questões mais amplas.
Hoje não
“Estamos postando, certo?” Gordon pergunta aos seus ouvintes com uma piscadela verbal na faixa “Post Empire” de Play me. Seu novo álbum é mais solto e tranquilo que o anterior, mas não menos político. Se The collective se inspirou no romance de ficção especulativa de Jennifer Egan, "Candy House" (2022), uma obra polifônica com múltiplos personagens que questionava os efeitos desestabilizadores da tecnologia na esfera pessoal, Play Me vai além, delineando as fronteiras entre esses dois aspectos. A faixa “Black out” transmite a claustrofobia sombria de um mundo com IA e Donald Trump, enquanto “Dirty tech” oferece uma visão mais lúdica (e irônica) sobre sexo, tecnologia e o ambiente de trabalho (“Eu gosto quando você fala de tecnologia suja comigo”). Em “Subcon”, Gordon pergunta retoricamente, em uma alfinetada velada em Musk: “Você quer ir para Marte, e depois?”
Gordon sempre teve interesse em ficção científica — “The sprawl”, mencionada anteriormente, revelou a influência de William Gibson — mas seu senso de futurismo em The collective e Play me é mais imediato. Seu envolvimento com figuras contemporâneas e a maneira como o mercado do capitalismo tardio molda o cotidiano demonstra sua abordagem não conformista ao contexto político, não alinhada a uma tradição que inclui figuras como Pete Seeger ou Joan Baez. Assim como em seus trabalhos anteriores, Gordon se preocupa com questões de autonomia e cumplicidade. Como artista musical, ela está consciente de sua participação na manutenção das condições sistêmicas do mercado capitalista e dos riscos inerentes, como o reforço de normas de gênero ou a priorização do lucro em detrimento da arte.
Enquanto as composições de Gordon com o Sonic Youth exploravam as fronteiras entre sexo e intelecto, arte e política, a serviço da criação de um espaço crítico de resistência e subversão, seus álbuns solo sugerem o abandono de tal projeto — não por resignação, mas pela impossibilidade de estabelecer um espaço assim sob as condições atuais de hiperpolítica e tecnocapitalismo. Não basta mais ser “transgressora”, seja lá o que isso signifique. A ansiedade de se vender, que definiu a cena musical independente durante os anos 1990, já está há muito tempo moribunda. Mesmo as canções de The collective e Play me, seja o sample de soul music em “Play me” ou a melodia pulsante e sinistra de “Bye bye”, carregam os rudimentos do clichê do hip-hop, sinalizando não tanto derivação, mas uma autoconsciência sobre um esgotamento cultural mais amplo. A expressão artística prospera no passado, mesmo quando trabalhos como os de Gordon tentam romper com esses reflexos habituais.
Para ilustrar, o primeiro single de The collective, “Bye bye”, mostra Gordon revisando uma lista de tarefas antes de viajar, uma lista banal, mas com a qual nos identificamos, que se torna um comentário sobre as necessidades banais da vida contemporânea. Essa abordagem observacional que permeia The collective se estende a outras esferas de discussão e preocupação pública, incluindo masculinidade tóxica (“I’m a man”) ou o domínio da tecnologia e a perda do fator humano (“The candy house”).
O resultado não é tanto um LP de ecletismo temático ou uma tentativa de indexar males sociais, mas sim uma argumentação tácita sobre as conexões entre esses temas dispersos que florescem de forma maligna quando não são percebidos como parte de um todo cultural. Gordon não pretende ter respostas em The collective. Ainda assim, sua renovação de suas aspirações pós-casamento, pós-banda e pós-rock parece estar atrelada a essas questões mais amplas.
Hoje não
“Estamos postando, certo?” Gordon pergunta aos seus ouvintes com uma piscadela verbal na faixa “Post Empire” de Play me. Seu novo álbum é mais solto e tranquilo que o anterior, mas não menos político. Se The collective se inspirou no romance de ficção especulativa de Jennifer Egan, "Candy House" (2022), uma obra polifônica com múltiplos personagens que questionava os efeitos desestabilizadores da tecnologia na esfera pessoal, Play Me vai além, delineando as fronteiras entre esses dois aspectos. A faixa “Black out” transmite a claustrofobia sombria de um mundo com IA e Donald Trump, enquanto “Dirty tech” oferece uma visão mais lúdica (e irônica) sobre sexo, tecnologia e o ambiente de trabalho (“Eu gosto quando você fala de tecnologia suja comigo”). Em “Subcon”, Gordon pergunta retoricamente, em uma alfinetada velada em Musk: “Você quer ir para Marte, e depois?”
Gordon sempre teve interesse em ficção científica — “The sprawl”, mencionada anteriormente, revelou a influência de William Gibson — mas seu senso de futurismo em The collective e Play me é mais imediato. Seu envolvimento com figuras contemporâneas e a maneira como o mercado do capitalismo tardio molda o cotidiano demonstra sua abordagem não conformista ao contexto político, não alinhada a uma tradição que inclui figuras como Pete Seeger ou Joan Baez. Assim como em seus trabalhos anteriores, Gordon se preocupa com questões de autonomia e cumplicidade. Como artista musical, ela está consciente de sua participação na manutenção das condições sistêmicas do mercado capitalista e dos riscos inerentes, como o reforço de normas de gênero ou a priorização do lucro em detrimento da arte.
Enquanto as composições de Gordon com o Sonic Youth exploravam as fronteiras entre sexo e intelecto, arte e política, a serviço da criação de um espaço crítico de resistência e subversão, seus álbuns solo sugerem o abandono de tal projeto — não por resignação, mas pela impossibilidade de estabelecer um espaço assim sob as condições atuais de hiperpolítica e tecnocapitalismo. Não basta mais ser “transgressora”, seja lá o que isso signifique. A ansiedade de se vender, que definiu a cena musical independente durante os anos 1990, já está há muito tempo moribunda. Mesmo as canções de The collective e Play me, seja o sample de soul music em “Play me” ou a melodia pulsante e sinistra de “Bye bye”, carregam os rudimentos do clichê do hip-hop, sinalizando não tanto derivação, mas uma autoconsciência sobre um esgotamento cultural mais amplo. A expressão artística prospera no passado, mesmo quando trabalhos como os de Gordon tentam romper com esses reflexos habituais.
Já não basta ser "transgressora", seja lá o que isso signifique.
Em Realismo capitalista (2009), Mark Fisher escreve sobre como o suicídio de Kurt Cobain marcou o fim de um certo utopismo no rock, que já estava sendo suplantado pelo hip-hop. Em ambos os casos, a autenticidade era parte integrante de sua criatividade — uma característica reconhecida e mercantilizada pela indústria fonográfica corporativa. Como argumenta Fisher, baseando-se nas observações do também crítico musical Simon Reynolds, as respectivas formas de “realismo” que artistas de hip-hop ou figuras como Cobain utilizavam, seja o racismo contra negros nos EUA urbanos ou o ressentimento da classe trabalhadora branca no noroeste do Pacífico, foram deslocadas por um “realismo capitalista” que transformou tais experiências em mero estilo e produto, esvaziadas das relações sociais que as fundamentavam.
A música solo de Gordon pode ser compreendida nesse contexto. Sem assumir uma posição de autenticidade nem ceder às exigências do mercado — contrariando todos os arquétipos, Gordon é, afinal, uma mulher branca de setenta e poucos anos gravando álbuns de hip-hop —, a política de seus três últimos LPs se concentra em trazer as relações sociais de volta ao foco, juntamente com a infraestrutura tecnológica que as sustenta e fragmenta. Com seu estilo contemporâneo e comentário social, ainda existe um aspecto publicitário na abordagem de Gordon, na medida em que Play me reflete o cenário cultural e de mercado aparentemente como ele é, abraçando seletivamente suas características de gosto musical enquanto denuncia suas práticas políticas e econômicas mais exploradoras.
Se as composições de Springsteen tendem a falar a partir de um lugar específico, os temas de deslocamento, transitoriedade e alienação de Gordon articulam os não-lugares do capitalismo global. Como escreveu o antropólogo Marc Augé, esses espaços modernos produzidos pelo capital — terminais de aeroporto, quartos de hotel, sistemas de rodovias interestaduais — parecem desprovidos de história ou precedentes culturais. Faixas como “Bye bye” infundem um lampejo de humanismo nesses locais e condições de despersonalização e abstração.
De fato, a interpretação impassível de Gordon em “Bye bye” — ela apresenta uma versão mais politicamente engajada em Play me — soa como uma atualização de “Subterranean homesick blues”, de Dylan, mas definida pelos itens prosaicos do capitalismo tardio, em vez das reflexões excêntricas de uma contracultura underground. Não existe mais underground ou contracultura, sugere Gordon. Não existe um exterior ao capitalismo global.
Se existe uma continuidade na obra de Gordon, é a sua voz inconfundível. Em meio aos samples, batidas trap e guitarras elétricas que permeiam Play me, há registros tonais conflitantes de desespero político, insinuações sexuais, contestação de gênero e um distanciamento crítico e diagnóstico, todos expressões da vida intelectual e emocional de Gordon através de sua interpretação vocal multifacetada.Há também o prazer. O mercado pode ser divertido. Embora Play me possa ser interpretado de diferentes maneiras, o título do LP é, em última análise, uma cantada sedutora. Em meio ao nosso mal-estar tecno-futurista, Kim Gordon não perdeu o contato com sua essência.
Colaborador
Christopher J. Lee atualmente leciona na Bard Prison Initiative. Ele é editor-chefe da revista Safundi.
A música solo de Gordon pode ser compreendida nesse contexto. Sem assumir uma posição de autenticidade nem ceder às exigências do mercado — contrariando todos os arquétipos, Gordon é, afinal, uma mulher branca de setenta e poucos anos gravando álbuns de hip-hop —, a política de seus três últimos LPs se concentra em trazer as relações sociais de volta ao foco, juntamente com a infraestrutura tecnológica que as sustenta e fragmenta. Com seu estilo contemporâneo e comentário social, ainda existe um aspecto publicitário na abordagem de Gordon, na medida em que Play me reflete o cenário cultural e de mercado aparentemente como ele é, abraçando seletivamente suas características de gosto musical enquanto denuncia suas práticas políticas e econômicas mais exploradoras.
Se as composições de Springsteen tendem a falar a partir de um lugar específico, os temas de deslocamento, transitoriedade e alienação de Gordon articulam os não-lugares do capitalismo global. Como escreveu o antropólogo Marc Augé, esses espaços modernos produzidos pelo capital — terminais de aeroporto, quartos de hotel, sistemas de rodovias interestaduais — parecem desprovidos de história ou precedentes culturais. Faixas como “Bye bye” infundem um lampejo de humanismo nesses locais e condições de despersonalização e abstração.
De fato, a interpretação impassível de Gordon em “Bye bye” — ela apresenta uma versão mais politicamente engajada em Play me — soa como uma atualização de “Subterranean homesick blues”, de Dylan, mas definida pelos itens prosaicos do capitalismo tardio, em vez das reflexões excêntricas de uma contracultura underground. Não existe mais underground ou contracultura, sugere Gordon. Não existe um exterior ao capitalismo global.
Se existe uma continuidade na obra de Gordon, é a sua voz inconfundível. Em meio aos samples, batidas trap e guitarras elétricas que permeiam Play me, há registros tonais conflitantes de desespero político, insinuações sexuais, contestação de gênero e um distanciamento crítico e diagnóstico, todos expressões da vida intelectual e emocional de Gordon através de sua interpretação vocal multifacetada.Há também o prazer. O mercado pode ser divertido. Embora Play me possa ser interpretado de diferentes maneiras, o título do LP é, em última análise, uma cantada sedutora. Em meio ao nosso mal-estar tecno-futurista, Kim Gordon não perdeu o contato com sua essência.
Colaborador
Christopher J. Lee atualmente leciona na Bard Prison Initiative. Ele é editor-chefe da revista Safundi.

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