18 de maio de 2026

As muitas vítimas da guerra de precisão

Em reportagem de Hawija, no Iraque, nosso correspondente descreve como os Estados Unidos construíram um sistema de guerra de coalizão vendido como preciso, no qual bombas caem, civis morrem e a responsabilidade é dispersa entre os estados aliados.

Jaclynn Ashly

Jacobin

Omar Ahmad Abdallah al-Jamili está em frente à sua casa em Hawija com seu pai, que se lembra de ter encontrado seu filho de quatro anos após o ataque de 2 de junho de 2015, “com o rosto em chamas e as roupas derretidas”. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

Em reportagem de Hawija, no Iraque, nosso correspondente descreve como os Estados Unidos construíram um sistema de guerra de coalizão propagandeado como mais preciso, no qual bombas caem, civis morrem e a responsabilidade é dispersa entre os países aliados.

Omar Ahmad Abdallah al-Jamili não consegue abrir a boca completamente. Sua orelha está deformada e seu rosto é uma topografia de cicatrizes cirúrgicas — pele enxertada e esticada sobre os ossos em operações realizadas em Amsterdã, a capital do país cuja força aérea o queimou.

Omar tinha quatro anos na noite de 2 de junho de 2015, quando caças F-16 holandeses — agindo com base em informações fornecidas pelos EUA no âmbito da coalizão liderada pelos estadunidenses contra o Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS) — bombardearam uma fábrica de armas do ISIS em Hawija, uma cidade no norte do Iraque. Uma explosão secundária, provocada por dezenas de milhares de quilos de explosivos caseiros nos galpões da fábrica, lançou uma onda de fogo sobre os bairros vizinhos.

O ataque matou pelo menos oitenta e cinco civis e feriu centenas, destruindo ou danificando seis mil edifícios num raio de cinco quilômetros e arrasando 1.200 negócios da noite para o dia.

“Parecia que tínhamos sido atingidos por uma bomba nuclear”, relata Ahmad Abdallah al-Jamili, de 46 anos, pai de Omar. “Era noite e, de repente, surgiu uma luz, como se fosse dia. Então ouvimos a explosão e tudo pegou fogo.”

A família tinha uma rotina moldada por anos de guerra: se ouvissem aviões, corriam para o jardim para que seus corpos pudessem ser resgatados em vez de serem esmagados sob os escombros. Mas, ao saírem correndo, ouviram gritos. Omar e seus irmãos haviam entrado no carro da família quando a explosão atingiu o veículo, incendiando-o.

“Encontrei Omar com o rosto em chamas, as roupas derretidas”, recorda o pai. Levaram-no às pressas para o principal hospital de Hawija — então sob controle do Estado Islâmico — e abriram caminho em meio a uma multidão de feridos. Após três dias, fugiram, temendo que a presença dos jihadistas provocasse outro ataque.

Mais de uma década depois, grande parte da destruição permanece — escombros, nenhuma recuperação ambiental, taxas crescentes de câncer e anomalias congênitas entre crianças nascidas após a explosão.

O avô materno de Omar, ferido por estilhaços naquela noite, morreu de leucemia meses depois — a família atribui a morte às toxinas da explosão. Seu avô paterno, devastado pelo que aconteceu com Omar e pela perda da loja de materiais elétricos da família — seu único meio de subsistência — tentou suicídio duas vezes. A família diz que ele está vivo, mas mentalmente morto.

Omar Ahmad Abdallah al-Jamili em sua casa em Hawija, com o rosto marcado por cicatrizes cirúrgicas de enxertos de pele realizados em Amsterdã, capital do país cuja força aérea o queimou quando ele tinha quatro anos de idade. (Jaclynn Ashly/Jacobin)

Omar tornou-se o rosto de um caso jurídico histórico e em curso, sendo um dos cerca de vinte e cinco demandantes iraquianos que representam mais de trezentas vítimas que processam o Estado holandês por ter assumido um risco injustificável ao bombardear Hawija. Nenhuma indenização individual foi paga.

Apenas os holandeses estão sujeitos a escrutínio legal. Os Estados Unidos — que identificaram o alvo, forneceram as informações, aprovaram a missão, conduziram a investigação sobre as vítimas civis e editaram suas conclusões antes de compartilhá-las com a Holanda — nunca enfrentaram uma única acusação legal relacionada a Hawija.

Os eventos de Hawija refletem um padrão mais amplo. A guerra de coalizão moderna é concebida para ser remota e é propagandeada como mais precisa. Mas analistas afirmam que ela produz mais destruição, não menos — enquanto estruturas de comando compartilhadas distribuem o poder, mas diluem a responsabilidade.

As bombas eram holandesas. A inteligência era estadunidense. Os mortos eram iraquianos — e ninguém foi responsabilizado.

A noite de 2 de junho

Desde 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos lançaram ou lideraram operações militares em pelo menos 85 países. Até 4,7 milhões de pessoas morreram como resultado direto ou indireto dessas guerras pós-11 de setembro, de acordo com o Projeto Custos da Guerra da Universidade Brown. Trinta e oito milhões foram deslocadas, a um custo financeiro superior a US$ 8 trilhões.

A invasão do Iraque pelos EUA em 2003 — lançada sob a falsa premissa de armas de destruição em massa — desmantelou o Estado iraquiano, dissolveu suas forças armadas e desencadeou uma guerra civil com consequências que se estenderam por décadas, entre as quais destaca-se a ascensão do Estado Islâmico. Em meados de 2014, o ISIS havia tomado o controle de grandes áreas do Iraque e da Síria, declarando um califado em um território aproximadamente do tamanho da Jordânia.

As bombas eram holandesas. A inteligência era estadunidense. Os mortos eram iraquianos — e ninguém foi responsabilizado.

Os Estados Unidos reuniram uma coalizão de pelo menos oitenta nações — a Operação Inherent Resolve — para destruir o chamado califado por meio de ataques aéreos, coordenando as operações a milhares de quilômetros de distância com jatos aliados, informações confidenciais e estimativas de danos geradas por computador.

Hawija, uma cidade tradicionalmente sunita, caiu nas mãos do Estado Islâmico em junho de 2014 e permaneceu sob seu controle até outubro de 2017. O alvo da coalizão — uma instalação do Estado Islâmico que montava veículos com dispositivos explosivos improvisados ​​— vinha sendo monitorado da Virgínia desde dezembro de 2014. Ela ficava no que os planejadores chamavam de “zona industrial”. No Iraque, isso não é um parque empresarial despovoado, mas sim uma área de uso misto: pessoas moram acima de oficinas, casas compartilham paredes com lojas e prédios governamentais ficam ao lado de pequenas fábricas.

“Havia uma falta básica de compreensão do contexto local”, diz Emily Tripp, diretora da Airwars, uma organização que monitora os danos causados ​​a civis por ataques aéreos e com drones. “Eles simplesmente presumiam que não havia civis lá.”

Os edifícios em Hawija permanecem marcados pela violência de anos de guerra, já que a cidade caiu sob o controle do Estado Islâmico em junho de 2014 e permaneceu assim até outubro de 2017. (Jaclynn Ashly/Jacobin)

Uma comissão de inquérito holandesa concluiu no ano passado que a coligação deveria ter tomado consciência da presença de civis — a Organização Internacional para as Migrações (OIM) havia documentado publicamente o fluxo de pessoas deslocadas para a zona industrial de Hawija já em fevereiro de 2015.

O direcionamento do ataque foi liderado e a inteligência controlada pelos EUA, passando pelo centro de operações da coalizão no Catar. As agências estadunidenses avaliaram o alvo, identificado como estando localizado em uma zona industrial urbana cercada por áreas residenciais. A CIA sinalizou especificamente a proximidade de uma dessas áreas. O ataque foi inicialmente classificado como CDE-5 Alto, a “Estimativa de Danos Colaterais”, indicando as baixas civis esperadas. Assim, os planejadores mudaram a carga bélica para bombas de pequeno diâmetro mais leves, reduzindo a classificação para CDE-5 Baixo.

Mas o modelo excluiu explosões secundárias, já que a quantidade de material armazenado era desconhecida. Todas as agências estadunidenses — incluindo a CIA — aprovaram o ataque, e a sinalização da CIA sobre o bairro residencial nunca foi repassada aos pilotos holandeses nem aos oficiais responsáveis ​​pela autorização.

A Holanda foi escolhida para o ataque por ser o único membro da coalizão, além dos Estados Unidos, a possuir bombas de pequeno diâmetro. Os detentores do “Cartão Vermelho” holandês — autoridades nacionais com poder de veto — perceberam que o alvo estava localizado em uma área populosa, com prédios residenciais próximos, além de uma mesquita. Incapazes de verificar de forma independente as informações da inteligência estadunidense, eles adiaram o ataque das 21h para a meia-noite, apostando que haveria menos civis nas ruas.

Paredes marcadas por balas servem como recordação dos conflitos multifacetados que moldaram Hawija, onde os moradores sofreram tanto com o domínio do Estado Islâmico quanto com a campanha aérea da coalizão para tirá-lo do poder. (Jaclynn Ashly/Jacobin)

Pouco depois da meia-noite, dois F-16 holandeses lançaram suas bombas. Uma enorme explosão secundária se seguiu — diferente de tudo o que se tinha visto em um ataque da coalizão. Presumiu-se imediatamente que haveria vítimas civis, mas o Ministério da Defesa holandês informou ao Parlamento que não havia indícios de danos à população local — posição que manteve por anos, apesar de informações internas da inteligência apontarem o contrário. Posteriormente, a inteligência militar holandesa estimou a presença de cinquenta mil a cem mil quilos de explosivos no local — até cinco vezes a estimativa inicial dos Estados Unidos logo após o ataque.

Ao passar por Hawija hoje, é possível ver que as cicatrizes permanecem — paredes crivadas de buracos, terrenos baldios, entulho espalhado pelo chão. Sentado no chão de sua casa, ainda com as janelas quebradas, cercado por seus filhos pequenos, Khaled Ahmad, de 47 anos, relembra o que aconteceu.

Khaled Ahmad sentado no chão de sua casa em Hawija, que ainda está com as janelas quebradas, ao lado de seus filhos, relembrando a noite de 2 de junho de 2015, quando estilhaços mataram seu irmão de vinte anos em poucos minutos e feriram sua mãe, que morreu de câncer de estômago um mês depois. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

Ele estava dormindo no andar superior com a família. As janelas se estilhaçaram, as portas foram arrombadas e parte da casa desabou. As pernas de sua esposa foram cortadas por estilhaços de vidro. Seu filho mais novo sofreu um traumatismo craniano. Estilhaços atingiram seu irmão de vinte anos, matando-o em poucos minutos. Sua mãe, de sessenta anos, também ficou ferida; nas semanas posteriores, ela desenvolveu câncer de estômago e morreu um mês depois.

Khaled Ahmad mostra as janelas de sua casa em Hawija, ainda estilhaçadas mais de uma década após a explosão de 2015 que destruiu sua oficina de peças elétricas automotivas — sua única fonte de renda — a um quilômetro de distância. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

Khaled Ahmad em pé do lado de onde ficava sua loja de peças elétricas automotivas — destruída no ataque de 2015 e nunca reconstruída. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

A oficina de peças elétricas automotivas de Ahmad — sua única fonte de renda, a um quilômetro do local da explosão — foi destruída. E continua assim. “Minha mãe era o coração da nossa família, e penso no meu irmão todos os dias”, diz ele. “As famílias em Hawija ainda estão devastadas por isso.”

O que se seguiu não foi um resgate, mas o caos sob o controle do Estado Islâmico. O grupo administrava os hospitais e controlava a circulação de pessoas.

“O uso de armas explosivas em áreas urbanas sob controle insurgente cria uma situação extremamente difícil para os civis”, afirma Lauren Gould, professora associada de estudos de conflitos na Universidade de Utrecht. “Não há tropas no terreno para garantir o acesso a cuidados médicos. O Estado Islâmico politizou o acesso a serviços médicos — pessoas com ferimentos graves foram negligenciadas.”

Outros juraram lealdade em troca de tratamento. Alguns foram suturados por farmacêuticos sem anestesia. Aqueles que podiam pagar contrabandistas driblavam postos de controle e estradas minadas até hospitais em Mosul, Kirkuk ou Bagdá. Lesões tratáveis ​​tornaram-se permanentes.

Em uma sala de estar ensolarada do outro lado da cidade, Hussein Ibrahim Hussein, de cinquenta e seis anos, anda lentamente. Ele morava a quinhentos metros do local da explosão. “Nossa casa foi completamente destruída”, lembra. Muitos vizinhos eram famílias deslocadas que tentavam chegar à cidade de Kirkuk, controlada pelos curdos. “Seus corpos ficaram espalhados pelas ruas.”

Hussein Ibrahim Hussein com seu filho, agora com vinte e dois anos, que ficou cego do olho direito por um estilhaço de vidro de quinze centímetros da explosão de 2015: “Sinto que roubaram meu futuro de mim.” (Jaclynn Ashly/Jacobin)

Seu irmão foi encontrado morto na estrada, atirado para fora de casa. O rosto do filho estava coberto de sangue — um estilhaço de vidro de quinze centímetros estava alojado em seu olho direito. Os médicos, sobrecarregados, só puderam prestar os primeiros socorros, então Hussein tirou o filho de lá às escondidas. “Vendi todas as joias da minha esposa — tudo”, diz ele.

Após fugir para a Turquia e o Irã e passar cinco anos buscando tratamento, todos os diagnósticos eram os mesmos: descolamento de retina irreversível e cegueira permanente. Seu filho, Hussein Ibrahim, agora com vinte e dois anos, sofre de problemas de equilíbrio e dores de cabeça que o impedem de trabalhar. “Sinto que roubaram meu futuro”, diz ele, com os olhos fixos no chão.

Como muitas vítimas dos ataques aéreos da coalizão, os moradores de Hawija não sabiam de quem eram os aviões que os atingiram. Somente quando a mídia holandesa noticiou o ataque em 2019, a comunidade soube que as bombas eram holandesas.

A arquitetura do desconhecimento sistemático

Hawija expõe uma característica estrutural da guerra de coalizão: a responsabilidade está espalhada por toda a cadeia de comando, tornando a responsabilização praticamente impossível.

“As estruturas de coalizão podem permitir que os Estados se escondam atrás da estrutura e evitem a responsabilidade”, afirma Annie Shiel, diretora de defesa de direitos nos EUA do Centro para Civis em Conflito (CIVIC). Os civis ficam sem saber quem causou o dano ou onde buscar reparação.

“Quando bombas são lançadas, não é como se cada uma estivesse envolta em uma bandeira holandesa”, diz Tripp, da Airwars. Nem mesmo as declarações da própria coalizão especificam qual país realizou o ataque.

A comissão holandesa concluiu que altos funcionários tentaram minimizar o ataque a Hawija, omitindo informações sobre as baixas conhecidas e enganando o Parlamento. Quando jornalistas expuseram o incidente, o governo alegou incerteza — embora os militares dos EUA já tivessem registrado cerca de setenta mortes de civis em seu próprio banco de dados.

Se o público visse os bairros destruídos e as vidas arruinadas em lugares como Hawija, o custo político dessas guerras "de precisão" poderia se tornar muito alto.

Para Gould, isso não é uma falha, mas sim parte de como funciona o sistema. “Trata-se de uma recusa sistemática e estratégica em reconhecer os danos causados ​​aos civis”, afirma. “E isso mina a supervisão democrática. O debate passa a girar em torno de quem sabia o quê e quando, em vez do impacto — mortes de civis, ferimentos, destruição de casas e meios de subsistência. Nada disso foi debatido de forma significativa no parlamento.”

A investigação holandesa também concluiu que os Países Baixos “dependeram inteiramente da inteligência dos EUA durante a guerra no Iraque” e “não conseguiram desenvolver a sua própria posição de inteligência” — uma dependência na qual o Estado se apoiou desde então para se eximir da responsabilidade. Essa dependência estendeu-se para além do próprio ataque — os Países Baixos também dependeram dos Estados Unidos para investigar se civis tinham sido feridos posteriormente. Mas o próprio histórico das forças armadas dos EUA na contabilização de baixas civis tem sido amplamente criticado.

“Os EUA dependem muito de suas próprias informações e subutilizam os relatórios externos”, explica Shiel. “Em guerras aéreas, informações em terra são essenciais — e os militares muitas vezes não as possuem.” Gould atribui isso ao caráter remoto da guerra: “Eles dependem das mesmas imagens aéreas usadas para estimar os danos a civis. Não há um sistema de avaliação.”

“Parecia que tínhamos sido atingidos por uma bomba nuclear”, recordou um morador sobre o ataque de junho de 2015, cujas cicatrizes permanecem visíveis em Hawija até hoje. (Jaclynn Ashly/Jacobin)

As forças da coalizão realizaram aproximadamente 35.000 ataques aéreos no Iraque e na Síria e lançaram 120.000 bombas, mas reconheceram apenas cerca de 10% das baixas civis documentadas pela sociedade civil. A França não reconheceu nenhuma. O Reino Unido reconheceu uma — um caso que não existia. Mosul e Raqqa, por sua vez, foram destruídas em taxas de 70% a 80%. Em Raqqa, a coalizão reconheceu 23 mortes de civis; a Anistia Internacional identificou posteriormente cerca de 1.600.

Segundo Gould, isso não é mera coincidência. Para que as campanhas aéreas em áreas remotas continuem, os danos precisam ser ocultados. “Se você destrói uma cidade inteira e aniquila a infraestrutura civil, isso não é um erro. É estratégia”, afirma. “A curto prazo, isso pode enfraquecer o oponente, perturbar a vida cotidiana e dificultar a sobrevivência.”

Mil e duzentas empresas foram arrasadas pela explosão de 2015, dizimando da noite para o dia o sustento de centenas de pessoas em Hawija. (Jaclynn Ashly/Jacobin)

“A negação e o sigilo em torno dos danos causados ​​a civis também não são acidentais — fazem parte da estratégia”, continua ela. “Se o público visse os bairros destruídos e as vidas arruinadas em lugares como Hawija, o custo político dessas guerras ‘de precisão’ poderia se tornar muito alto.”

Portanto, o desconhecimento sistemático é mantido: “Os dados são mantidos em sigilo, aponta-se o dedo para os parceiros da coligação e a violência permanece invisível para as pessoas em nome das quais é perpetrada.”

O acerto de contas que não aconteceu

Sob pressão parlamentar, o governo holandês destinou € 4,5 milhões (cerca de US$ 5,3 milhões) em 2020 como “compensação voluntária” à Hawija. Pagamentos individuais foram recusados. No ano passado, o ex-ministro da Defesa, Ruben Brekelmans, pediu desculpas pelas “baixas civis não intencionais”, mas manteve a posição de que o ataque foi legal.

Os fundos foram canalizados através do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e da OIM para reconstruir infraestruturas, incluindo redes elétricas e lojas de propriedade municipal. No entanto, os projetos funcionaram como ajuda geral ao desenvolvimento, e não como compensação direcionada: as vítimas do ataque de 2015 não foram identificadas nem priorizadas. A PAX, uma organização holandesa pela paz, constatou que apenas 5% a 15% dos beneficiários eram provavelmente vítimas. Muitas famílias afetadas já tinham deixado Hawija quando os projetos começaram, e a relação entre a ajuda e o bombardeio holandês nunca foi comunicada, deixando a maioria dos residentes alheia ao fato de os Países Baixos estarem tentando reparar os danos.

Em janeiro, Brekelmans viajou para Hawija para se desculpar novamente e anunciar financiamento adicional. Ele reiterou que não haveria compensação individual, argumentando ser impossível determinar exatamente quem foi afetado. Isso apesar das substanciais evidências disponíveis sobre as vítimas, incluindo um banco de dados detalhado compilado por uma organização iraquiana local em parceria com a Universidade de Utrecht e a PAX, que documenta as repercussões do bombardeio nas vidas de mais de trezentas pessoas — informações repetidamente oferecidas ao governo holandês, mas nunca utilizadas.

Rania, de sete anos, com seu pai, Hazem Muhammad, em Hawija; ela nasceu com uma grave deformidade no braço que os médicos atribuem à contaminação ambiental causada pela explosão de 2015. (Jaclynn Ashly/Jacobin)

De volta a Hawija, Hazem Muhammad, de 48 anos, segura sua filha de sete anos, Rania, que nasceu com uma grave deformidade no braço, atribuída pelos médicos à contaminação ambiental causada pela explosão. Eles são uma das muitas famílias que afirmam que os efeitos se estenderam por várias gerações.

“Meu braço não é normal”, diz Rania timidamente, agarrando-se ao pai. “Por isso, as outras crianças não gostam de brincar comigo.”

A explosão secundária registrou 4,3 na escala Richter e deixou uma cratera de onze metros. Até 2026, nenhum teste oficial foi realizado no solo ou nos depósitos subterrâneos de água para avaliar o impacto toxicológico a longo prazo.

Mas, mesmo enquanto a Holanda lida com os danos causados, o poder que desencadeou o bombardeio não sofreu qualquer tipo de responsabilização.

O réu invisível

Os Estados Unidos conceberam e controlaram o sistema por trás do ataque — identificando o alvo, fornecendo informações de inteligência, realizando a estimativa de danos e aprovando a missão.

Posteriormente, liderou a investigação sobre as baixas civis em nome dos Países Baixos e realizou sua própria revisão interna. Ela foi concluída em agosto de 2015, mas compartilhada com os Países Baixos apenas em janeiro de 2016, em versão editada, omitindo o alerta da CIA sobre o bairro residencial próximo. Jornalistas obtiveram posteriormente, por meio de pedidos de acesso à informação, uma versão mais completa do que o Ministério da Defesa holandês havia recebido de seu próprio aliado.

A Lei de Responsabilidade Civil por Atos Ilícitos contra Estrangeiros (Alien Tort Statute) — que antes permitia que vítimas estrangeiras apresentassem queixas de violação de direitos humanos em tribunais dos EUA — foi significativamente restringida por decisões da Suprema Corte.

O Estado no centro da operação se colocou atrás de uma fortaleza legal. Os Estados Unidos não ratificaram o Estatuto de Roma, sancionaram o Tribunal Penal Internacional (TPI) e autorizaram medidas extraordinárias para libertar qualquer funcionário estadunidense detido por ele. A Lei de Responsabilidade Civil por Atos Ilícitos contra Estrangeiros (Alien Tort Statute) — que antes permitia que vítimas estrangeiras apresentassem queixas de violação de direitos humanos em tribunais dos EUA — foi significativamente restringida por decisões da Suprema Corte.

Mesmo o seu limitado mecanismo de compensação civil — um fundo de condolências anual de 3 milhões de dólares — está fora do alcance dos sobreviventes de Hawija. Como o bombardeio foi realizado por aeronaves holandesas, os Estados Unidos não aceitam as reivindicações, embora a inteligência, o direcionamento e a aprovação tenham sido todos estadunidenses.

Kevin Jon Heller, professor de direito internacional e segurança no Centro de Estudos Militares da Universidade de Copenhague, explica o padrão jurídico: um Estado que auxilia conscientemente outro na prática de um ato ilícito é ele próprio responsável. “Se você está fornecendo as informações de alvo [...] se sua permissão for necessária, isso claramente configuraria assistência substancial.”

A explosão secundária desencadeada pelo ataque holandês registrou 4,3 na escala Richter e deixou uma cratera de onze metros, sem que nenhuma limpeza ambiental tenha sido realizada nos anos seguintes. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

Mas, na prática, “você não pode levar os EUA ao TPI”, Heller me disse. “E essencialmente não existem mecanismos internos nos EUA para responsabilizar o governo, e a maioria dos estados não tem poder para impor consequências — mesmo que quisessem.”

John Chappell, consultor jurídico e de defesa de direitos da CIVIC, salienta a ironia: “Os Países Baixos sediam o TPI, enquanto os Estados Unidos o sancionaram e ameaçaram implicitamente usar a força militar contra o tribunal na Lei de Proteção dos Militares Estadunidenses. Não se encontram dois países da OTAN com relações mais distintas em relação à justiça internacional.”

Essa disparidade raramente — ou nunca — é levada em consideração no planejamento operacional. “Os planejadores militares se concentram na interoperabilidade e na eficácia”, diz ele. “A responsabilização, caso algo dê errado, dificilmente será uma prioridade.”

A máquina de distanciamento

A Operação Inherent Resolve foi apresentada como a demonstração bélica mais precisa da história. Mas a guerra à distância não tornou a guerra menos destrutiva — tornou a destruição invisível para o público ocidental.

“Nos primeiros dez anos das guerras no Iraque e no Afeganistão, mais de 2.500 militares estadunidenses e da OTAN foram mortos em cada teatro de guerra”, diz Gould. “Na década seguinte, à medida que a guerra se tornou mais remota, cerca de vinte pessoas morreram em cada contexto. Mas isso não significa que a violência diminuiu para os civis locais. Significa que o público ocidental não a percebe mais.”

Hawija representa uma rara exceção — um caso em que a destruição não pôde ser contida e o sistema jurídico de um dos membros da coalizão permitiu que os sobreviventes buscassem respostas. “Para os moradores de Hawija, poder ir ao tribunal — ser reconhecido — fez toda a diferença”, diz Gould. “Isso rompeu essa distância, forçando uma conexão humana em um sistema projetado para permanecer frio e distante.”

Mais de uma década após o ataque de 2 de junho de 2015, os escombros ainda cobrem Hawija, onde 6.000 edifícios foram destruídos ou danificados num raio de cinco quilômetros. (Jaclynn Ashly/Jacobin)

Mas a lacuna entre capacidade e responsabilidade está aumentando. A guerra remota está dando lugar ao que Gould chama de guerra algorítmica — sistemas de IA gerando alvos mais rapidamente do que os humanos conseguem revisar, adicionando mais uma camada de distanciamento à cadeia de destruição. Em operações recentes em Gaza, soldados israelenses relataram ter apenas alguns segundos para aprovar alvos gerados por algoritmos.

“Os operadores se descrevem como meros instrumentos de manipulação”, explica Gould. “Isso desumaniza ainda mais aqueles que são alvos. Eles se tornam pontos de dados — não têm rosto. Mesmo com drones, havia alguma proximidade. Agora não há nenhuma, e isso altera fundamentalmente a relação entre aqueles que cometem a violência e aqueles que a sofrem.”

A responsabilidade fica ainda mais difusa nesses sistemas, observa Gould. “Quem é o responsável então — o engenheiro que construiu o sistema, o analista que o alimentou com dados ou o oficial que tem segundos para aprovar um alvo que não pode verificar?” Ao contrário de um soldado ou comandante, uma máquina não pode ser processada ou levada a um tribunal.

Alegações de precisão também se tornam um escudo. “Se os militares afirmam que esses sistemas de IA estão certos em 90% das vezes — independentemente de alguém verificar isso — então, mesmo quando os operadores veem erros, eles acreditam que têm as estatísticas a seu favor”, diz Gould. “E eles não precisam se sentir responsáveis ​​pela destruição.”

Estamos consolidando sistemas sociotécnicos que permitem tanto o encobrimento da responsabilidade quanto a rápida expansão da violência, de formas que horrorizariam muitas pessoas se elas entendessem como esses sistemas realmente funcionam.

Em 28 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel lançaram ataques em todo o Irã, atingindo mais de 1.700 alvos em setenta e duas horas, utilizando sistemas de mira baseados em inteligência artificial. Unidades de monitoramento foram reduzidas e bancos de dados foram descartados sob a promessa de precisão algorítmica.

Um ataque à escola feminina Shajareh Tayyebeh, em Minab, matou pelo menos 165 pessoas, a maioria crianças. Investigações posteriores indicaram que o alvo havia sido identificado com base em informações desatualizadas.

“Estamos consolidando sistemas sociotécnicos que permitem tanto o encobrimento da responsabilidade quanto a rápida expansão da violência”, diz Gould, “de formas que horrorizariam muitas pessoas se elas entendessem como esses sistemas realmente funcionam”.

Como uma borboleta

Kurdi Fadhal, de cinquenta e cinco anos, está sentado em sua casa em Hawija, onde a luz do final da tarde é filtrada através das cortinas fechadas para bloquear a poeira e o calor.

Suas netas — filhas de seu filho — estão reunidas ao seu redor, trazidas nos fins de semana para quebrar o silêncio. A seu pedido, elas entram em outro cômodo e retornam carregando um grande cartaz, que desdobram. É um memorial para Shaima, a filha de nove anos de Fadhal, morta na explosão de 2015.


As netas de Kurdi Fadhal seguram um cartaz em memória de Shaima, sua filha de nove anos que foi atingida na cabeça por estilhaços da explosão de 2015 e morreu quase dois anos depois, após o Estado Islâmico impedir que a família buscasse tratamento fora de Hawija. (Jaclynn Ashly / Jacobin)

“Meu filho traz as filhas dele aqui para me fazer companhia”, diz Fadhal em voz baixa. “A casa parece muito vazia sem Shaima.”

“Ela era tudo para mim”, diz ele. “Uma aluna brilhante — tão ativa, tão cheia de alegria. Todos os dias, quando eu chegava do trabalho, ela estava lá fora me esperando… como uma linda borboleta, sempre voando ao meu redor.”

Kurdi Fadhal segura uma fotografia de sua filha Shaima no quarto onde ela morreu, descrevendo-a como “uma aluna brilhante — tão ativa, tão cheia de alegria... como uma linda borboleta, sempre voando ao meu redor”. (Jaclynn Ashly/Jacobin)

Shaima estava dormindo perto da janela. A explosão estilhaçou a moldura de ferro e vidro, atingindo sua cabeça. O hospital em Hawija não pôde tratá-la. Durante meses, Fadhal tentou conseguir atendimento médico para ela, mas o Estado Islâmico não permitia que os moradores saíssem. Ele a viu definhar — seus braços e pernas ficaram paralisados.

Por fim, ele encontrou um contrabandista. Por US$ 2.300, eles atravessaram o território do Estado Islâmico até Bagdá. Os médicos disseram que era tarde demais. Ela entrou em coma. Quase dois anos depois, em 17 de março de 2017, ela faleceu.

“Minha esposa e eu tentamos nos esconder das crianças quando choramos”, diz ele. “Mas cada canto desta casa me lembra dela.”

“Quando o Estado Islâmico tomou Hawija, pensei que a coalizão nos salvaria”, continua ele. “Mas, em vez disso, eles mataram nossa preciosa filha. Nem mesmo o Estado Islâmico fez isso conosco.”

“Com toda essa tecnologia sofisticada e inteligência que esses países ocidentais possuem, como é possível que não soubessem que esta área estava repleta de civis?”

Colaborador

Jaclynn Ashly é uma jornalista independente que reside atualmente nos Estados Unidos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...