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20 de agosto de 2026

Immanuel Wallerstein previu a queda do império dos EUA

Logo após o 11 de Setembro, o teórico do sistema-mundo Immanuel Wallerstein alertou que o declínio imperial dos EUA era inevitável. No entanto, os líderes americanos não queriam ouvir que seus dias de glória haviam ficado para trás, e geriram esse declínio da pior maneira possível.

Gregory P. Williams

Jacobin

Immanuel Wallerstein acreditava que os EUA poderiam reagir ao declínio imperial de duas maneiras: tornando-se uma sociedade mais progressista e igualitária ou caminhando abruptamente em direção ao neofascismo. Infelizmente, está claro qual dessas tendências é a mais forte atualmente. (Semaanurbulbul / CC BY-SA 4.0 [cortada])

Em julho de 2002, Immanuel Wallerstein participou de um programa matinal de entrevistas com participação do público na emissora C-SPAN. Ele havia acabado de escrever um artigo para a revista Foreign Policy com um título provocativo: The Eagle Has Crash Landed. Wallerstein argumentava que a posição de domínio dos EUA no cenário mundial estava em declínio.

Naquele momento, havia passado menos de um ano desde os ataques terroristas de 11 de setembro e a subsequente invasão do Afeganistão pelos EUA. O governo Bush preparava suas forças armadas e a opinião pública americana para a invasão do Iraque, que começaria em março de 2003.

Vale lembrar que George W. Bush era uma figura popular na época. O índice de aprovação do presidente atingira o recorde de 90% em setembro do ano anterior e permanecia acima de 70% quando Wallerstein veio a público com sua mensagem sobre o declínio.

No entanto, para Wallerstein, aquele devia parecer o momento exato para intervir. Ele escrevia sobre o declínio da hegemonia dos EUA desde o início da década de 1980. Ainda assim, no intervalo entre as invasões do Afeganistão e do Iraque, ele acreditava que a América tinha a oportunidade de gerir de forma eficaz o seu declínio.

Wallerstein não acreditava ser possível prolongar indefinidamente o domínio global de uma grande potência. Ele observava que as grandes potências se tornam hegemônicas — termo que se refere a um domínio global inigualável — devido a fatores econômicos, políticos e militares que, em última análise, também provocam a erosão dessa hegemonia. O declínio da hegemonia dos EUA começou muito antes do 11 de setembro, com a desaceleração econômica da década de 1970 e a Guerra do Vietnã.

Para Wallerstein, os Estados Unidos enfrentavam a escolha comum a todas as potências hegemônicas em declínio: declinar com elegância ou declinar de forma precipitada. George W. Bush escolheu a segunda opção. Hoje, Donald Trump acelerou ainda mais o declínio dos EUA ao empregar agressivamente uma das poucas armas que restam a uma potência hegemônica em declínio: seu poderio militar extremamente forte.

Ciclos de hegemonia

Por que a hegemonia dos EUA estava em declínio? Para Wallerstein, a hegemonia americana do século XX pouco diferia da hegemonia holandesa do século XVII ou da hegemonia britânica do século XIX. Essas três potências (e apenas essas três, em sua visão) alcançaram a hegemonia ao aproveitar uma onda de forças econômicas que não conseguiam controlar plenamente e ao prevalecer militarmente sobre um rival. Após triunfar, a potência hegemônica passava a criar organizações à sua imagem. Os britânicos, por exemplo, prevaleceram sobre a França e, em seguida, criaram o Concerto da Europa em 1815.

Wallerstein não pensava que fosse possível prolongar indefinidamente o domínio global de uma grande potência.

A ascensão dos Estados Unidos à hegemonia teve início após a recessão global de 1873. Segundo a análise de Wallerstein, a perda de participação da Grã-Bretanha nos mercados mundiais devia-se à ascensão dos Estados Unidos e de sua principal rival, a Alemanha. Os Estados Unidos tornaram-se grandes produtores de aço e, posteriormente, de automóveis, enquanto a Alemanha se destacava na produção de produtos químicos industriais. A ascensão econômica de cada um desses Estados ocorreu após uma crise política interna seguida de uma estabilização (relativa): no caso dos EUA, a vitória da União na Guerra Civil; no caso da Alemanha, a unificação sob liderança prussiana após a guerra contra a França.

Wallerstein interpretava as duas guerras mundiais como uma prolongada "Guerra dos Trinta Anos" entre essas potências rivais. Ele observou que as Províncias Unidas dos Países Baixos e a Grã-Bretanha também haviam alcançado a hegemonia após conflitos que duraram cerca de três décadas (no caso holandês, isso ocorreu na sequência da Guerra dos Trinta Anos original, travada entre 1618 e 1648).

Após triunfarem sobre a Alemanha e as potências do Eixo em 1945, os líderes norte-americanos acreditavam que três elementos eram necessários para sustentar a prosperidade do país: primeiro, clientes internacionais para sua produção industrial; segundo, uma ordem mundial que garantisse o comércio a baixo custo; e terceiro, uma espécie de pacto que assegurasse o fluxo desimpedido da produção.

Washington alcançou esses objetivos reconstruindo a Europa Ocidental e o Japão, criando importantes instituições internacionais — como a Organização das Nações Unidas (ONU) — e estabelecendo uma espécie de acordo com a União Soviética. Para Wallerstein, essa última medida — simbolizada pela Conferência de Ialta, em fevereiro de 1945 — foi muito mais significativa do que a fundação da ONU, ocorrida dois meses depois.

Na visão convencional, a Guerra Fria — que durou aproximadamente de 1945 a 1991, considerando-se o período mais extenso possível — foi uma disputa entre adversários norte-americanos e soviéticos. Para Wallerstein, contudo, esse período estruturou-se, na verdade, em torno de um pacto implícito entre as grandes potências. A esfera de influência norte-americana abrangia cerca de dois terços do globo, cabendo à esfera soviética o restante. Cada potência podia dominar sua zona de influência e utilizar a ameaça representada pela outra para enquadrar aliados relutantes. A ordem estabelecida em Ialta sustentava-se em um "equilíbrio do terror" entre as nações. O auge da hegemonia americana estendeu-se, aproximadamente, de 1945 a 1970. Como todas as potências hegemônicas, os EUA tornaram-se vítimas do seu próprio sucesso. Por volta de 1970, a Europa Ocidental e o Japão eram, na visão de Wallerstein, pares econômicos dos Estados Unidos. Ao desenvolver parceiros comerciais — algo crucial para o sucesso americano no pós-guerra —, os EUA também criaram rivais.

Como todas as potências hegemônicas, os Estados Unidos começaram a perder sua vantagem econômica seguindo a mesma sequência pela qual ela havia sido originalmente construída. Primeiro, a potência hegemônica perde sua vantagem na agricultura e na indústria. Depois, perde a vantagem no comércio. Por fim, perde a vantagem nas finanças.

Também na década de 1970, a derrota de Washington no Vietnã expôs a fraqueza militar dos EUA e revelou sua incapacidade de impor sua vontade ao mundo. O Vietnã, escreveu Wallerstein, simbolizava uma rejeição à ordem mundial americana por parte dos povos esquecidos do mundo — por vezes chamados de Terceiro Mundo, por vezes de Sul Global. O movimento de independência no Vietnã contra potências coloniais (França, Japão e Estados Unidos) foi uma extensão do movimento global de protesto que atingiu seu auge em 1968. Segundo Wallerstein, "aqueles de 1968 não apenas condenavam a hegemonia dos EUA; condenavam o conluio soviético com os EUA, condenavam Yalta" e viam apenas "dois campos: as duas superpotências e o resto do mundo".

O colapso da União Soviética em 1991, contrariando mais uma vez o senso comum, representou para Wallerstein um desastre para os Estados Unidos, pois o país perdeu seu grande "Outro". Em um ensaio de 1992, Wallerstein insistiu que a Guerra Fria "não era um jogo a ser vencido, mas sim um minueto a ser dançado... O fim da Guerra Fria, na prática, eliminou o último grande pilar da hegemonia e da prosperidade dos EUA: o escudo soviético".

A resposta de Washington ao declínio hegemônico tem sido afirmar sua grandeza, tanto em palavras quanto em atos, buscando recuperar sua posição no mundo. Mas, como Wallerstein explicou na C-SPAN: “Se você é o número um, não precisa gritar que é o número um. As pessoas sabem que você é o número um. Se você precisa gritar, há algo errado. Há algo acontecendo”.

Atirando no mensageiro

Muitos participantes que ligaram para o programa da C-SPAN não ficaram satisfeitos com a mensagem de declínio transmitida por Wallerstein. Um deles perguntou se bandeiras eram hasteadas no campus de Yale, dada a aparente postura antiamericana de Wallerstein. Outro o acusou de ter se esquivado do recrutamento militar na Guerra do Vietnã, sem saber que Wallerstein havia sido convocado anteriormente, durante a Guerra da Coreia. Um terceiro estremeceu ao imaginar Wallerstein na presidência: "Se um sujeito como ele estivesse governando os Estados Unidos, o país acabaria como um tatu: enrolado em uma bola, esperando levar um chute".

Essas manifestações de indignação eram comuns para Wallerstein, que já havia escrito sobre o impacto psicológico nacional que o declínio hegemônico exerce sobre aqueles que o vivenciam. Era um período potencialmente perigoso para a política interna e para os líderes aos quais o público poderia recorrer.

No programa, Wallerstein explicou que era apenas o mensageiro e que os Estados Unidos estavam se isolando do mundo — não apenas de nações que precisavam ser cortejadas, mas também de seus aliados mais próximos. "Se você superestima seu poder e sai por aí agindo como um valentão", disse ele, "você perde mais do que se estabelecesse um diálogo básico".

O declínio não significava catástrofe. Historicamente, potências hegemônicas não caem muito.

Alguns interlocutores viam Wallerstein como alguém empenhado em reformar a política externa dos EUA. Um deles perguntou como responder a acusações de antiamericanismo. Wallerstein explicou que tentava usar a razão. Ele argumentava que a política externa dos EUA contrariava os interesses individuais:

Não estou apelando ao seu altruísmo. Estou apelando ao seu egoísmo. Vocês estão provocando um impacto negativo muito mais rápido sobre os EUA e sobre as suas próprias vidas. Em termos de padrão de vida, de risco de morte e de tudo o que vocês defendem, estarão em pior situação ao manter essas políticas do que se as mudassem.

O declínio não significava catástrofe. Historicamente, potências hegemônicas não sofrem quedas drásticas. Elas se estabilizam entre as outras grandes potências, embora desfrutem de maior conforto material do que a maioria (basta olhar para a Holanda ou o Reino Unido hoje).

Além disso, como Wallerstein escreveu naquele ensaio de 1992, o declínio poderia ser “a maior de todas as bênçãos”. Os Estados Unidos tinham a oportunidade de abraçar a moralidade. Foi “Abraham Lincoln quem deu o tom moral: ‘Assim como não gostaria de ser escravo, também não gostaria de ser senhor’”.

No início da década de 1990, Wallerstein via dois futuros possíveis para a América. Um envolveria o neofascismo, caracterizado por conflitos sociais, com as camadas mais baixas sujeitas à brutalidade e ao preconceito. O segundo cenário, mais esperançoso, seria uma forma de solidariedade nacional por meio da social-democracia e de um movimento em direção ao igualitarismo.

Embora Wallerstein não fosse propenso a previsões excessivamente otimistas, ele considerava o caminho igualitário mais provável do que o neofascista. Ele vislumbrava uma catarse resultante de uma “tensão social compartilhada” — combinada com a prosperidade econômica americana e as noções populares de liberdade — que geraria um movimento contra os principais aspectos da “distribuição desigual”: gênero, raça e etnia, idade e classe social. Ele acreditava que o ímpeto de 1968, ao abalar a hegemonia americana e destronar a ideologia do liberalismo de centro, levaria a um movimento de massa em prol do progresso.

Wallerstein também tinha a história como guia. Nos dois primeiros casos de hegemonia na economia-mundo capitalista — a holandesa e a britânica —, o declínio hegemônico foi seguido, com o tempo, por um movimento em direção ao bem-estar social e à igualdade. Por que os Estados Unidos deveriam ser tão diferentes?

No entanto, Wallerstein também deixou em aberto a possibilidade do neofascismo. Se o fim da Guerra Fria significou o fim da hegemonia dos EUA sobre dois terços do mundo, significou também o fim do liberalismo centrista como garantidor cultural da economia-mundo capitalista. Pelo menos desde as revoluções de 1848, o liberalismo centrista havia sido a força gravitacional que mantinha a esquerda radical e a direita conservadora sob controle.

O liberalismo centrista prometia a concretização de direitos democráticos e bem-estar econômico — não imediatamente para todos os povos, mas por meio de um processo lento e ordenado, a ser gerido pelo Estado ao longo de gerações. O liberalismo centrista, como Wallerstein descreveu em seu livro O Sistema-Mundo Moderno IV, era utilizado pelos "fortes [para] atenuar o descontentamento dos fracos". Indivíduos fortes atenuavam o descontentamento das massas fracas, e Estados fortes atenuavam o descontentamento de Estados fracos.

Contudo, a vantagem econômica dos EUA vacilou à medida que o Sul Global começou a rejeitar a estrutura de poder de Yalta. Após o colapso de um dos principais atores, a União Soviética, as massas e os Estados fracos mostraram não ser tão fracos, afinal. Nessa conjuntura, para Wallerstein, "os conservadores voltariam a ser conservadores, e os radicais, radicais. Os liberais centristas não desapareceram, mas viram sua influência reduzida". As possibilidades ideológicas eram, agora, infinitas.

Após a Guerra Fria, Wallerstein vislumbrou um grande potencial para que o declínio da hegemonia americana fosse acompanhado por uma redistribuição econômica interna.

Após a Guerra Fria, Wallerstein vislumbrou um grande potencial para que o declínio da hegemonia americana fosse acompanhado por uma redistribuição econômica interna. Dez anos mais tarde, aquele movimento radical não havia se concretizado, ao passo que os conservadores adeptos de uma postura agressiva (hawks) estavam firmemente estabelecidos no poder. Eles buscavam projetar poderio militar porque, em sua visão, "se Washington não exercer sua força, os Estados Unidos ficarão cada vez mais marginalizados".

No entanto, Wallerstein via as ações deles como algo que produziria o efeito oposto. Dada a inevitabilidade do declínio, a política externa assertiva e agressiva da administração Bush "apenas contribuiria para o declínio dos Estados Unidos, transformando uma descida gradual em uma queda muito mais rápida e turbulenta".

Em retrospecto, o ensaio e a participação televisiva de Wallerstein em 2002 representaram uma tentativa de desviar os Estados Unidos de sua trajetória. Ele havia, evidentemente, abandonado a esperança de um movimento social-democrata e voltado sua atenção para a própria potência hegemônica em declínio.

No verão de 2002, mais de seis em cada dez americanos apoiavam a abertura de uma segunda frente de guerra no Iraque. A opinião de Wallerstein alinhava-se à de um grupo de críticos que, embora impopular, mantinha-se persistente. Diante de tais críticas, o presidente Bush limitava-se a dizer que a história julgaria suas ações.

Hoje, fica claro que os defensores da linha dura não conseguiram preservar a hegemonia americana nem remodelar o mundo de uma maneira mais favorável aos interesses dos EUA. O que aconteceu nesse intervalo?

Declínio e negação

O século XXI não tem sido favorável aos Estados Unidos. Os líderes americanos têm se empenhado em recuperar a hegemonia perdida. À medida que o poder econômico dos EUA diminui em relação ao restante do mundo, Washington tem recorrido ao seu poderio militar para demonstrar força e alcançar ambições políticas.

À medida que o poder econômico dos EUA diminuiu em comparação com o resto do mundo, Washington tem utilizado suas forças armadas para demonstrar força.

De fato, os Estados Unidos empreenderam mais intervenções militares desde 1991 do que entre 1798 e 1990. Essa escolha refletiu a estratégia clássica de uma potência hegemônica em declínio que se recusava a encarar a realidade: ciente de sua decadência, mas inconsciente de que sua melhor opção viável seria gerir adequadamente esse declínio.

Os Estados Unidos não tornaram o mundo mais pacífico ou próspero, nem melhoraram as nações que invadiram. Em European Universalism: The Rhetoric of Power (2006), Wallerstein questionou a lógica do intervencionismo. A potência invasora raramente deixa o local invadido em melhor situação do que se não tivesse intervindo — uma conclusão confirmada pelas aventuras militares dos EUA no Oriente Médio.

O veredito de Wallerstein, de 2002, poderia ter sido escrito este ano (ou mesmo nesta semana). Ele escreveu que os Estados Unidos se encontram como "uma superpotência solitária desprovida de poder real, um líder mundial que ninguém segue e poucos respeitam, e uma nação à deriva perigosamente em meio a um caos global que não consegue controlar". A reação da geração de 1968, descrita por ele, partiu tanto do Sul Global não alinhado quanto das massas insatisfeitas internamente. No século XXI, essa dinâmica — iniciada no nível do sistema-mundo — rapidamente se deslocou para a política interna americana e, em seguida, expandiu-se novamente para o exterior.

O fim da Guerra Fria desvinculou o radicalismo e o conservadorismo do liberalismo centrista. Os efeitos foram drásticos. Décadas de consenso neoliberal foram desafiadas por figuras como Donald Trump e Bernie Sanders. Quando Trump assumiu a presidência — primeiro em 2017 e novamente em 2025 —, fê-lo na condição de crítico da ordem liberal americana.

No entanto, o lema "América em primeiro lugar" não resultou na retomada da produção interna, na melhoria do bem-estar social ou na proteção dos trabalhadores. Em vez disso, o trumpismo caracteriza-se por uma corrupção desenfreada e descarada (tanto internamente quanto no exterior), pelo militarismo externo e por políticas internas de deportação em massa. Os Estados Unidos continuaram a ampliar seus compromissos e gastos militares, mas sem um compromisso correspondente com o bem-estar social interno. Enquanto isso, o otimismo dos americanos em relação ao futuro tem diminuído, de modo geral, desde 2013.

Em suma, os Estados Unidos escolheram o caminho neofascista que Wallerstein inicialmente considerava o menos provável: conflito social, brutalidade e preconceito. Membros das camadas mais altas têm buscado preservar seus privilégios e recompensas extraordinários. Consequentemente, os americanos levam vidas mais precárias, vivendo de salário em salário, com menos proteção contra os riscos de doenças, envelhecimento e instabilidade no emprego.

Em 2026, a guerra dos EUA no Irã sintetiza duas tendências do declínio da hegemonia americana. Uma é a incapacidade dos Estados Unidos de impor sua vontade, apesar de possuírem um poderio militar extremamente forte. A outra é o descontentamento do público americano com a queda do padrão de vida e com uma classe dirigente na qual já não confia.

Tais sentimentos de descontentamento, como observou Wallerstein, podem ser poderosos catalisadores de ação política. Washington pode ser surpreendida, mais uma vez, por eventos caóticos — tanto globais quanto internos — que não consegue controlar.

Colaborador

Gregory P. Williams é professor associado de ciência política e relações internacionais na Simmons University, em Boston. Seu livro, Contesting the Global Order: The Radical Political Economy of Perry Anderson and Immanuel Wallerstein, foi reconhecido pela American Library Association como uma "Obra Acadêmica de Destaque" (Outstanding Academic Title).

22 de setembro de 2025

Perry Anderson escreve a história marxista em grande escala

O historiador britânico e editor da New Left Review, Perry Anderson, propôs-se a traçar a história das sociedades de classes europeias, desde a Antiguidade até os dias atuais. O projeto inacabado de Anderson é um marco no desenvolvimento da historiografia marxista.

Gregory P. Williams


Perry Anderson argumentou que o Estado capitalista moderno foi o resultado de uma sequência historicamente determinada que começou com a queda de Roma. Ele comparou dois aspectos da complexa totalidade da Europa, o Oriente e o Ocidente, ao longo de dois milênios. (Arquivo Hulton / Getty Images)

Em suas memórias, A Life Beyond Boundaries, o cientista político Benedict Anderson se referiu ao seu irmão "mais inteligente e um pouco mais novo". Ele também tinha motivos para se orgulhar. Perry Anderson era conhecido por seus escritos sobre o Estado moderno, enquanto Benedict era celebrado por seus escritos sobre nacionalismo.

As áreas de estudo que escolheram refletiam suas experiências de vida. Quando crianças, suas vidas foram constantemente desenraizadas, mudando-se da China para a Califórnia, Colorado e Irlanda, antes de ganharem bolsas de estudo para Eton, o famoso internato inglês. Sentiam-se como estranhos. Como adultos, o distanciamento lhes serviu bem no estudo daquelas construções políticas — Estados e nações — que geralmente incutem sentimentos de devoção e pertencimento em seus povos.

Em Eton, os irmãos Anderson eram desprezados por seus contemporâneos ricos. No entanto, eles e outros estudantes financiados por bolsas de estudo também desprezavam seus pares ricos. Ambos os grupos eram "esnobes", como disse Benedict, embora talvez não em igual medida, dadas as liberdades sociais concedidas aos ultra-ricos.

Em casa, durante os intervalos e no verão, Perry Anderson lia hora após hora. Havia tempo suficiente para todos os seis volumes de "A História do Declínio e Queda do Império Romano", de Edward Gibbon. Mais tarde, os próprios escritos de Anderson assumiriam uma escala igualmente ambiciosa. Ele estudou grandes ideias ao longo de séculos e continentes.

Comentários sobre Anderson às vezes descrevem seu estilo de escrita como "olímpico". Ele usava os termos "totalidade complexa" e "totalização" para caracterizar o que buscava fazer. Seja como for, fica claro que Anderson, desde jovem, buscou compreender a história em termos das interconexões, harmoniosas ou conflitantes, entre as várias partes do todo. Além disso, Anderson acreditava que a história deveria ser útil para ativistas em sua época.

Nova Esquerda e estratégia socialista

No outono de 1956, Anderson iniciou seus estudos na Universidade de Oxford. Em poucas semanas, dois eventos criaram um clima tenso no campus entre um corpo estudantil já dividido em questões políticas como o colonialismo e o comunismo europeu. A União Soviética reprimiu uma revolução na Hungria, enquanto a Grã-Bretanha e a França ocupavam o Canal de Suez.

Comentários sobre Perry Anderson às vezes descrevem seu estilo de escrita como "olímpico".

"Era virtualmente impossível", disse Anderson mais tarde, "para qualquer jovem ativo não ser rápida e profundamente politizado por aquela experiência". Anderson e seus amigos se autodenominavam "Nova Esquerda" devido à sua postura adversária em relação às correntes de esquerda estabelecidas, social-democratas e comunistas. Eles não defendiam nenhum governo de esquerda existente — certamente não o de Guy Mollet, o primeiro-ministro socialista da França, que se aliou à Grã-Bretanha em detrimento do Suez. Tampouco se espelhavam em Nikita Khrushchev, que havia reformado apenas parcialmente a União Soviética três anos após a morte de Joseph Stalin.

Para Anderson, politização significava ser ativo na publicação acadêmica de esquerda. Em 1960, dois periódicos notáveis, Universities and Left Review e New Reasoner, fundiram-se e passaram a ser publicados como New Left Review (NLR). Anderson foi nomeado editor dois anos depois e permaneceu no cargo até 1983.

Sua gestão representou uma ruptura significativa com a formação inicial da NLR. A nova NLR refletia o temperamento de seu editor e o fato de o movimento antinuclear britânico ter estagnado (e, com ele, o ímpeto da Nova Esquerda). Para Anderson, os intelectuais de esquerda poderiam proporcionar uma melhor compreensão das origens históricas do mundo capitalista contemporâneo. Munidos desse conhecimento, os socialistas poderiam confrontar melhor os capitalistas e sua retórica.

A NLR buscava publicar trabalhos originais e traduzir ideias europeias para o mundo anglófono. Anderson e Tom Nairn também adotaram um ponto de vista estrangeiro em uma série de artigos (ou "teses", como os chamavam) sobre a Grã-Bretanha. Eles escreveram sobre seu país como se fosse uma nação estrangeira. Tal atitude pode ter sido fácil para Anderson, que mantinha uma curiosidade distante sobre estados e orgulho nacional.

Grande história

O fascínio de Anderson pelo Estado moderno levou ao seu estudo mais conhecido, publicado em dois volumes em 1974, Passagens da Antiguidade ao Feudalismo e Linhagens do Estado Absolutista (doravante, Passagens-Linhagens). Fazia parte de uma obra planejada de quatro volumes que retomava o trabalho de Gibbon, abrangendo desde o mundo greco-romano até o sistema moderno de Estados capitalistas europeus e a era da revolução socialista.

Anderson buscava munir os socialistas com uma história necessária do Estado capitalista moderno, nascido na Europa Ocidental, que finalmente conquistou o mundo.

O ambicioso projeto de Anderson era, portanto, uma obra de grande história. Isso era mais comum na época do que hoje — outro historiador marxista, Eric Hobsbawm, já havia iniciado sua influente trilogia sobre o "longo século XIX" —, mas a abordagem em Passagens-Linhagens ainda era rara no sentido de que buscava sustentar uma narrativa ao longo de milênios.

Seus objetivos eram igualmente grandiosos. Anderson buscou munir os socialistas com uma história necessária do Estado capitalista moderno, nascido na Europa Ocidental, que finalmente conquistou o mundo. Os socialistas precisariam dessa história, acreditava ele, se quisessem tomar o poder estatal e criar uma economia socialista e uma sociedade livre.

Anderson argumentou que o Estado capitalista moderno era o resultado de uma sequência historicamente determinada que começou com a queda de Roma. Ele comparou dois aspectos da complexa totalidade da Europa, o Oriente e o Ocidente, ao longo de dois milênios. Por totalidade, Anderson se referia à combinação de base econômica e superestrutura política e, em menor grau, práticas culturais.

Sua abordagem era a antítese do que poderia ser melhor chamado de ciência social oficial, uma orientação acadêmica que prioriza o isolamento de variáveis. Mesmo o estudo da história — a área profissional de Anderson — havia, no século XX, privilegiado tópicos de interpretação restrita em detrimento de curtos períodos de tempo. No entanto, para Anderson, a totalização era essencial para compreender como o passado deu lugar ao presente.

Em vez de tentar estabelecer o impacto de fatores individuais no todo maior, Anderson via sua interação como algo que produzia algo além de sua simples adição. “Uma totalidade”, escreveu ele em seu ensaio “Componentes da Cultura Nacional”, “é uma entidade cujas estruturas estão interligadas de tal forma que qualquer uma delas, considerada separadamente, é uma abstração”. No entanto, existem inúmeras maneiras de aplicar esse princípio. Cabe ao escritor extrair o significativo das partes insignificantes.

Como explicado em Passagens-Linhagens, uma divisão precoce entre o Leste e o Oeste da Europa colocou cada região em uma trajetória que teve ramificações para o desenvolvimento do feudalismo e do capitalismo. Esses modos de produção (termo que se refere a como as sociedades produzem os bens essenciais à vida) ocorreram em uma ordem histórica necessária.

Soberania parcelada

Na Antiguidade, a diferença entre o Oriente e o Ocidente da Europa tinha a ver com a estrutura política e econômica mais complexa do Império Romano do Oriente, construído sobre instituições helenísticas anteriores. Essa formação anterior tornou o Oriente mais complexo, durável e, de certa forma, mais avançado do que o Ocidente. Foi o atraso do Ocidente que permitiu sua dependência da escravidão em larga escala, definida pela propriedade da mão de obra humana.

O feudalismo europeu no Ocidente, que atingiu seu auge nos séculos XII e XIII, foi para Anderson o resultado de uma "colisão catastrófica" entre as formações sociais romana e germânica após as invasões que fragmentaram a parte ocidental do império nos séculos IV e V. Ele via o feudalismo como uma verdadeira síntese dessas formas anteriores.

Os que trabalhavam eram servos, não livres, tendo sido coagidos a assumir suas posições por meios extraeconômicos, como códigos legais, força bruta ou outros instrumentos políticos. Eles eram obrigados a trabalhar a terra de outra pessoa em troca de proteção.

Uma divisão precoce entre o Leste e o Oeste da Europa colocou cada um deles em uma trajetória que teve ramificações para o desenvolvimento do feudalismo e do capitalismo.

A estrutura política do feudalismo era sua própria espécie de autoridade. A Europa medieval foi caracterizada pelo que Anderson chamou de "parcelização da soberania". Embora as autoridades políticas e econômicas estivessem fundidas, elas nunca estiveram sujeitas a um único poder abrangente. Em vez disso, as relações sociais eram administradas separadamente em cada nível da hierarquia feudal.

No topo, o monarca estava subordinado aos seus subordinados imediatos (vassalos), enquanto a Igreja exercia poder independente sobre a cultura medieval. Além disso, a governança fragmentada significava que algumas áreas permaneciam autônomas, como as terras comunais (de bosques, campos e pastagens, controladas por camponeses) e a cidade medieval (onde viviam muitos artesãos qualificados). Anderson revelou um complexo político-econômico duradouro. Embora sua configuração diferisse daquela do capitalismo internacional moderno, o feudalismo acabaria por dar lugar a este último.

Absolutismo

No século XIV, tudo mudou. Primeiro, a escassez agrícola levou à fome e a terra ociosa tornou-se escassa. Depois, a chegada da Peste Negra em 1348 fez com que a população diminuísse em talvez 40%. Os senhores feudais conseguiram reprimir as revoltas camponesas subsequentes, mas essas rebeliões acabaram levando a mudanças sociais.

De acordo com Anderson, o desenvolvimento de cidades independentes e do trabalho assalariado não levou automaticamente ao Estado capitalista moderno. Não houve um choque catastrófico de forças. Em vez disso, uma construção intermediária, chamada absolutismo, se consolidou. Nem medieval nem moderno, o absolutismo foi uma tentativa dos monarcas europeus de se manterem no poder diante do fim da servidão e de uma classe mercantil fortalecida.

O desenvolvimento de cidades independentes e do trabalho assalariado não levou automaticamente ao Estado capitalista moderno.

O absolutismo equivalia à centralização do poder dentro de um sistema feudal. Isso não significava que os monarcas fossem capazes de exercer autoridade total. Em vez disso, como Anderson descreveu, o conceito de absolutismo descrevia o "peso do novo complexo monárquico sobre a própria ordem aristocrática".

As cidades relativamente independentes forneciam cobertura para a crescente classe mercantil e o desenvolvimento de uma economia protocapitalista, enquanto o capitalismo nascente coexistia com o feudalismo por um tempo. No Oriente, as mesmas crises levaram ao resultado oposto: a consolidação do feudalismo.

Anderson distinguiu duas ondas de servidão: a primeira no Ocidente, do século IX ao XIV, e a segunda no Oriente, do século XV ao XVIII. Embora os estudiosos comumente se referissem a este último fenômeno como uma "segunda servidão" na Europa, na realidade a servidão nunca havia se consolidado no Oriente.

O vasto Oriente não tinha a mesma oferta de mão de obra que o Ocidente. Os monarcas impunham sua vontade às cidades e pressionavam os camponeses à servidão:

O Estado Absolutista no Ocidente era o aparato político redistribuído de uma classe feudal que havia aceitado a comutação de impostos. Foi uma compensação pelo desaparecimento da servidão, no contexto de uma economia cada vez mais urbana, que não controlava completamente e à qual teve de se adaptar. O Estado Absolutista no Oriente, por outro lado, era a máquina repressiva de uma classe feudal que acabara de apagar as tradicionais liberdades comunais dos pobres. Era um dispositivo para a consolidação da servidão, em uma paisagem despojada de vida urbana autônoma ou resistência.

Talvez o desenvolvimento mais significativo no Oriente tenha sido a constante ameaça de guerra. À medida que os Estados absolutistas no Ocidente buscavam exercer maior poder internacional nos séculos XVI e XVII, os Estados no Oriente desenvolveram estruturas semelhantes como forma de autodefesa.

A narrativa de Anderson sobre o Ocidente mostrou uma visão mais complexa da soberania do que a comumente encontrada no campo das relações internacionais. Sua narrativa sobre o Oriente mostrou uma visão mais complexa da transição para o capitalismo. Em ambos os casos, o resultado do início do mundo moderno foi moldado por suas economias políticas de mil anos antes.

As revoluções perdidas

No meio século desde Passagens-Linhagens, Anderson não publicou seus planejados terceiro e quarto volumes sobre a era das revoluções burguesas e socialistas. Gregory Elliott sugeriu certa vez que a lacuna “constitui o fato mais importante sobre a carreira intelectual de Anderson — o ‘centro ausente’ de sua obra”.

Anderson não publicou seus planejados terceiro e quarto volumes sobre a era das revoluções burguesas e socialistas.

Ele escreveu extensivamente sobre a história europeia moderna, notadamente em livros como O Novo Velho Mundo (2009) e União Cada Vez Mais Próxima? (2021). Essas obras estenderam sua avaliação do capitalismo europeu para o século XXI. No entanto, Anderson não escreveu tanto sobre o tema proposto para o terceiro volume ausente: as revoluções burguesas. Essa ideia popular, porém contestada, refere-se ao fim do feudalismo que supostamente teria ocorrido em países como Inglaterra e França pelas mãos da burguesia em ascensão.

Estudiosos há muito se perguntam por que Anderson não concluiu seu projeto. Muitos presumiram que ele se convenceu da explicação alternativa de Robert Brenner sobre a transição do feudalismo para o capitalismo em seu ensaio de 1976, "Estrutura de Classe Agrária e Desenvolvimento Econômico na Europa Pré-Industrial". Este ensaio lançou uma ampla controvérsia sobre as origens do capitalismo entre os historiadores, conhecida simplesmente como o debate Brenner.

Nessa narrativa, o papel da burguesia era menos significativo do que os marxistas frequentemente presumiam. A verdadeira fonte de mudança, segundo o argumento de Brenner, residia nas lutas entre senhores feudais e camponeses no campo inglês a partir do final da Idade Média. Não havia necessidade, nesse esquema, de uma burguesia revolucionária capaz de se mobilizar contra a ordem feudal — de fato, historiadores revisionistas das revoluções inglesa e francesa começaram a questionar se tal classe realmente existiu.

Apesar de sua admiração por Brenner, Anderson não parecia ter mudado de ideia diante desse debate. Ele expressou dúvidas sobre a tese de Brenner em uma carta a Immanuel Wallerstein (que, por sua vez, era cético em relação ao relato de Brenner, mas também ao de Anderson, sobre a transição). Quando Brenner publicou sua história da Guerra Civil Inglesa, Merchants and Revolution, em 1993, uma resenha de Anderson elogiou calorosamente a obra. Mas ele argumentou que ela fornecia fortes evidências para refutar alguns dos argumentos anteriores de Brenner:

O que converteu uma revolta parlamentar em uma revolução armada foi, segundo Brenner, o papel catalisador dos novos comerciantes em Londres. Ali, se é que alguma vez estiveram, estavam burgueses revolucionários. A espécie declarada ficção na França era bel et bien uma realidade na Inglaterra, cento e cinquenta anos antes da Convenção. Há uma ironia interessante que se trate de uma evidência histórica maciça, indo contra — e não a favor — de uma convicção teórica que levou um estudioso marxista a essa conclusão.

Enquanto trabalhava em suas histórias milenares da formação social europeia, Anderson também publicou vários livros sobre o desenvolvimento intelectual e os desafios da teoria marxista: Considerações sobre o Marxismo Ocidental (1976), Argumentos no Marxismo Inglês (1980) e Nas Trilhas do Materialismo Histórico (1983). No entanto, na década de 1980, ele viu o espectro ideológico se mover decisivamente para a direita, em quase todas as partes do globo.

Politicamente, a década levou os governos de direita de Margaret Thatcher e Ronald Reagan ao poder. Sua ideologia neoliberal prometia paz e prosperidade duradouras por meio da reversão do Estado de bem-estar social do pós-guerra. Em vez de produzir uma reação ideológica negativa, o neoliberalismo conquistou partidos de centro e de esquerda há muito estabelecidos. Tony Blair e Bill Clinton adotaram seus princípios como seus, implementando cortes de bem-estar social que nem mesmo seus colegas conservadores teriam tentado vinte anos antes.

Após o colapso da União Soviética em 1991, o capitalismo de livre mercado se espalhou pelo antigo Bloco de Leste como um incêndio. Francis Fukuyama celebrou esse período como o "fim da história" em um artigo e livro de mesmo nome. Anderson, por sua vez, respondeu ao avanço ideológico da direita publicando análises de países e regiões, bem como ensaios sobre intelectuais notáveis ​​de todo o espectro.

Novas direções

Já em 1983, no último volume de sua "trilogia não premeditada" sobre o marxismo ocidental, Anderson escreveu que o "fluxo da teoria" na última década não havia "corrido na direção que eu imaginava". Em 2000, em um editorial para a NLR, ele descreveu o encerramento do século XX como um "grand slam neoliberal".

O mesmo ensaio, "Renovações", marcou o retorno de Anderson como editor da NLR (até 2003). Ele argumentou que a direita havia vencido o século XX, descrevendo o neoliberalismo como "a ideologia mais bem-sucedida da história mundial" e instou a esquerda a reconhecer a escala de sua derrota, mantendo, ao mesmo tempo, sua oposição ao capitalismo. Derrota política não significou mudança de crenças.

Passagens-Linhagens e a trilogia que começou com Considerações sobre o Marxismo Ocidental pretendiam ser úteis para os revolucionários socialistas, enquanto o otimismo de esquerda perdurava. Os escritos posteriores de Anderson abordaram uma conjuntura política muito diferente. Nesse contexto, os socialistas não precisavam de um guia para tomar o poder — eles precisavam de um guia para sobreviver. Esse guia também deveria estar enraizado na teoria e na história e, talvez o mais importante, em sua atitude intransigente.

Ocasionalmente, Anderson refletiu sobre mundos melhores, tanto possíveis quanto utópicos. Em um ensaio de 2004 sobre a obra de Fredric Jameson, "O Rio do Tempo", ele citou uma passagem de Brecht e o Método de Jameson que descrevia "o movimento deste grande rio do tempo ou o Tao que lentamente nos levará rio abaixo novamente para o momento da práxis".

A água flui e traz consigo a mudança. Continua sendo importante hoje contestar a retórica da inevitabilidade frequentemente encontrada nos escritos neoliberais. No entanto, o grande perigo que a humanidade enfrenta é que o rio do tempo parece estar fluindo ao contrário.

Colaborador

Gregory P. Williams é professor associado de ciência política e relações internacionais na Universidade Simmons, em Boston. Seu livro, Contestando a Ordem Global: A Economia Política Radical de Perry Anderson e Immanuel Wallerstein, é um Título Acadêmico de Destaque da American Library Association.

11 de fevereiro de 2025

Immanuel Wallerstein e a vida e a morte do capitalismo

Immanuel Wallerstein estava convencido de que o sistema capitalista acabaria nas próximas décadas e seria substituído por um sistema-mundo mais regressivo ou mais democrático e igualitário. Em sua opinião, as chances eram de 50-50 para cada lado.

Uma entrevista com
Gregory P. Williams


Immanuel Wallerstein em fevereiro de 1997 na França. (Louis Monier / Gamma-Rapho via Getty Images)

Entrevista por
Daniel Finn

Quando Immanuel Wallerstein morreu em 2019, ele era um dos pensadores mais influentes sobre o desenvolvimento do capitalismo global em crise. Pessoas que talvez nunca tenham lido um de seus livros ainda se verão referindo-se ao "núcleo" e à "periferia" do sistema-mundo capitalista.

Wallerstein estava convencido de que o capitalismo acabaria nas próximas décadas. Mas ele pensou que poderia ser substituído por um sistema mais regressivo ou mais igualitário, dependendo do resultado das lutas populares pela democracia.

Gregory Williams é professor de ciência política e relações internacionais na Simmons University em Boston e autor de Contesting the Global Order: The Radical Political Economy of Perry Anderson and Immanuel Wallerstein. Esta é uma transcrição editada do podcast Long Reads da Jacobin Radio. Você pode ouvir a entrevista aqui.

Daniel Finn

Para começar, você poderia nos contar algo sobre a formação de Immanuel Wallerstein e seu caminho para se tornar um acadêmico?

Gregory P. Williams

Como o próprio Wallerstein disse mais tarde, ele era um completo "nova-iorquino por gosto e temperamento". Ele era extrovertido e opinativo. Ele podia ser muito charmoso, mesmo quando discordava das pessoas. De muitas maneiras, ele personificava a cidade onde nasceu em 1930.

Ele também amava línguas e a diversidade cultural da cidade. Sua família não era originalmente de Nova York — eles vieram de vários lugares do antigo Império Austro-Húngaro. Seus pais se conheceram em Berlim, onde tiveram um filho no início dos anos 1920. Eles então se mudaram para Nova York, onde Immanuel nasceu.

Ele passou a pensar que essa infância em Nova York foi essencial para seu desenvolvimento. Mais tarde, ele viajaria pelo mundo, mas, quando jovem, o mundo realmente veio até ele. Ele também foi educado em Nova York.

Ele foi para a Universidade de Columbia e, eventualmente, se juntou ao corpo docente na primeira parte de sua carreira. Na década de 1950, como um jovem estudante de pós-graduação lá, ele fez parte de uma disciplina emergente chamada sociologia política. Hoje é um campo acadêmico muito comum, mas era de ponta na época.

Assim como C. Wright Mills, que também estava lá na época, Wallerstein não se preocupava muito com a singularidade das disciplinas acadêmicas. A sociologia era seu lar, e acho que a sociologia pode tê-lo afetado ainda mais do que ele imaginava. Mas ele sempre se considerou muito mais um cientista social do que um sociólogo.

Sua tese de mestrado de 1954, que não é muito conhecida, foi sobre o macartismo. Correspondeu ao auge do poder de Joseph McCarthy e a vários outros escritos da Columbia sobre o assunto, como os de Mills ou Richard Hofstadter, que mais tarde citaram a tese de Wallerstein.

Isso foi muito antes da era da internet, então, para obter cópias dos discursos de McCarthy, Wallerstein escreveu ao senador, fingindo ser um seguidor que queria ajudar McCarthy a "expor a bagunça em Washington". Não sei se o gabinete de McCarthy chegou a Wallerstein, mas foi Daniel Bell quem finalmente lhe forneceu as informações de que ele precisava. Para mim, essa história ilustrou a devoção de Wallerstein em entender o que estava acontecendo, mas também seu senso de humor.

Ele se preocupava com o macartismo na época e em um estágio posterior, porque o via como parte da luta pelo que era então um cenário mundial emergente: uma luta entre forças regressivas que queriam suprimir os movimentos nacionalistas e anticoloniais versus os socialistas que queriam criar um mundo melhor. De muitas maneiras, essas são as divisões que ainda estão conosco hoje.

Wallerstein não enfatizou a rivalidade Washington-Moscou da Guerra Fria. Ele esperaria várias décadas antes de escrever um artigo que descrevesse o que ele via como a natureza fundamentalmente simbiótica desse relacionamento nos anos do pós-guerra. Wallerstein achava que a divisão fundamental era entre o que hoje chamaríamos de Norte Global versus Sul Global; na época, eram os colonizadores versus os movimentos nacionalistas.

Ele viu isso como a questão mais significativa do mundo, e então ele deixaria de estudar o Macartismo. Mas ele nunca deixou de tentar entender como as crenças políticas poderiam ser mobilizadas, seja por um líder ou por pessoas comuns.

Daniel Finn

Como Wallerstein se relacionou com a abordagem conhecida como teoria da modernização, que era muito prevalente nas ciências sociais na época?

Gregory P. Williams

Ele se relacionou com a teoria da modernização com grande dificuldade. A teoria da modernização virou moda na década de 1950. É um corpo diverso de pensamento com diferentes contribuições e ramificações, então não quero generalizar demais. Mas, em geral, aqueles que aderem à teoria da modernização compartilham pelo menos três crenças.

A primeira é uma crença no desenvolvimento, um termo para a crescente sofisticação política e econômica que surge no nível do estado-nação. A segunda é a ideia de que o desenvolvimento passa por estágios — fases unidirecionais que não podem ser revertidas ou puladas. A terceira é uma visão do desenvolvimento como um processo homogeneizador e ocidentalizante, no sentido de que as nações adotam valores e tradições americanas por meio do crescimento capitalista. Esses estudos frequentemente concluíram que nações recém-independentes ou descolonizadoras deveriam forjar laços mais estreitos com seus antigos colonizadores para atrair investimentos estrangeiros e se abrir ao comércio — em suma, para se tornarem modernas.

A essa altura, no final da década de 1950, Wallerstein havia se tornado um especialista em África e não conseguia escapar da teoria da modernização. Ele nunca aceitou a implicação da superioridade europeia ou a mesquinharia da teoria da modernização, limitando nossa noção de progresso social a ideias tecnocráticas ou minimalistas sobre crescimento. Ele preferia pensar em termos de igualdade: igualdade política, igualdade econômica, igualdade cultural.

Ele rejeitou a noção de que os líderes nacionais eram os culpados pelo sucesso ou fracasso de uma nação. Essa ideia em si era perigosa, porque colocava em questão todo o relacionamento das grandes potências com seus antigos colonizadores. Mas Wallerstein estava disposto a aceitar na época as ideias de que o desenvolvimento acontecia no nível do estado-nação e que o desenvolvimento era um processo irreversível, passando por estágios.

Ele nem sempre teria essas opiniões, mas nas décadas de 1950 e 1960, ele tinha. No final da década de 1960, no entanto, ele achou toda a tradição impraticável. Nesse ínterim, ele passou um bom tempo revisando ideias europeias sobre desenvolvimento político em sociedades divididas. Ele se baseou em Karl Polanyi, Fernand Braudel, Amílcar Cabral e Frantz Fanon. Fanon foi especialmente útil, pensou Wallerstein, ao traduzir essas ideias para o contexto colonial.

No final das contas, essas ideias e suas experiências na região lhe ensinaram que ele precisava de uma nova maneira de pensar completamente. Em poucas palavras, o problema era que o desenvolvimento não acontecia no nível do estado-nação, como ele eventualmente percebeu. Havia vários termos críticos de troca entre o que eram então as nações recém-independentes e seus antigos colonizadores: não podemos fingir que tudo está acontecendo internamente.

Wallerstein havia planejado inicialmente um estudo das chamadas nações antigas da Europa em uma tentativa de tirar lições para as chamadas nações novas da África. Mas ele eventualmente pensou que era a relação entre as nações "antigas" e "novas" que era tão importante, e assim ele mudou sua atenção para descrever e articular a natureza dessa relação.

Daniel Finn

O que Wallerstein tinha em mente quando falou sobre "movimentos antissistêmicos"?

Gregory P. Williams

Esta é outra peça crucial do quebra-cabeça, porque o assunto das relações internacionais é sobre estados ou países, mas também é sobre as pessoas que vivem nesses países. O termo "movimento antissistêmico" é um que ele criou muito mais tarde, após alguma reflexão sobre o que aconteceu na década de 1960. Mas a ideia é que pessoas de todo o mundo ocasionalmente se envolvem em lutas sociais e nacionais separadas. Na superfície, essas lutas parecem ser bem diferentes, mas em um nível mais profundo, elas estão interconectadas. Elas constituem rejeições da ordem estabelecida em todo o sistema mundial.

Em seus escritos, como o livro Anti-Systemic Movements, os movimentos são simbolizados por anos, mas eles sempre constituem uma fase com alguns anos de cada lado: 1789, 1848, 1917, 1968, 1989, por exemplo. Muitos acadêmicos adicionaram a Primavera Árabe de 2011 como uma referência contemporânea.

Para Wallerstein, o ano de 1968 foi crucialmente importante. Foi nesse ponto que ele ajudou a negociar um impasse entre estudantes e funcionários da administração na Universidade de Columbia. Ele propôs várias soluções, trabalhando, como uma pessoa disse na época, quase à exaustão. Toda a experiência de 1968, que foi um movimento de protesto global de esquerda contra a ordem internacional ocidental ou dos EUA, ajudou Wallerstein a cristalizar muitas de suas visões sobre política mundial.

Na verdade, ele mais tarde até disse que foi o evento histórico mais importante do século XX — mais do que a Revolução Russa. Politicamente, Wallerstein se convenceu de que os escritos de intelectuais de esquerda poderiam encorajar a mudança para o socialismo e que os ativistas poderiam ser armados com as ferramentas certas para a revolução. Ele pensava em seu trabalho e no de outros como sendo essenciais nessa luta mais ampla.

Daniel Finn

Wallerstein é associado à ideia de análise de sistemas mundiais (com um hífen, é importante observar). Que significado particular o termo “sistema-mundo” tinha para ele, e que diferentes tipos de sistema-mundo ele identificou?

Gregory P. Williams

Sim, o hífen importantíssimo! A noção de sistema-mundo era a maneira de Wallerstein repensar a política mundial além das perspectivas da teoria da modernização. Ele já havia rejeitado a suposição de superioridade europeia. Ele então escolheu rejeitar a suposição de desenvolvimento nacional.

Se as nações não estão se desenvolvendo isoladamente, o que está se desenvolvendo? É o sistema inteiro: o que Wallerstein chamou de sistema-mundo, com o hífen entre "mundo" e "sistema". Este sistema é composto pelo relacionamento entre as nações antigas e as novas. Curiosamente, Washington continuou neste ponto a aceitar a ideia de estágios ou fases que não poderiam ser pulados, embora com algumas limitações importantes.

Mas depois de 1968, ele pensou que era todo o sistema que passava por estágios, não os estados-nação individuais. Na minha opinião, essa mudança foi talvez a mudança mais essencial no pensamento de Wallerstein ao longo de sua vida profissional. No final da década de 1960 e início da década de 1970, Wallerstein começou a pensar em termos de sistemas — aquela relação entre sociedades, em termos diádicos, ou entre nações.

Os próprios sistemas têm um começo, um meio e um fim. Em outras palavras, como ele diria, os sistemas têm vidas. O sistema-mundo é a ideia de que há um sistema que também é um mundo. Não é "o sistema do mundo". Não precisa ser global, embora hoje seja. Em vez disso, o conceito de mundo é a ideia de que este (ou qualquer) sistema social é autocontido.

Wallerstein concebeu vários tipos de sistema-mundo. Os dois mais importantes deles eram o império-mundo e a economia-mundo. Os impérios-mundo eram civilizações em larga escala com uma única instituição governante e um único sistema econômico, como a Roma antiga. A entidade governante conquistava e ocupava vastas extensões de território e recebia tributos de várias partes constituintes do império-mundo. Este tem sido, historicamente falando, um tipo muito comum de sistema-mundo.

Uma economia-mundo é muito diferente e também muito incomum de uma perspectiva histórica. Uma economia-mundo consiste em várias instituições governamentais distintas dentro de um sistema econômico abrangente. No caso do nosso sistema-mundo moderno, o que Wallerstein chamou de economia-mundo capitalista, os estados estavam unidos por um sistema econômico capitalista. Isso é familiar para nós hoje, porque é o que sabemos e o que esperamos, mas na verdade é uma relação incomum.

Além disso, Wallerstein não definiu o capitalismo em termos de propriedade privada ou trabalho assalariado. Sobre a questão da propriedade privada, ele viu governos promovendo e sustentando a indústria. Sobre a questão do trabalho assalariado, ele viu muitos casos de trabalho forçado, incluindo escravidão, dentro de uma economia capitalista abrangente. Portanto, ele definiu o capitalismo de acordo com seus processos. O capitalismo para ele é um sistema baseado na acumulação infinita de capital, com o qual ele quis dizer valor armazenado.

Para Wallerstein, o capitalismo se formou na Europa Ocidental e em partes das Américas ao longo do que os historiadores gostam de chamar de longo século XVI, abrangendo aproximadamente os anos de 1450 a 1640. Este foi um período de fragilidade. Ao longo dos séculos, no entanto, o sistema se tornou bastante forte, e nenhuma potência conseguiu colocar o sistema sob seu controle, embora alguns tenham tentado.

Mas nenhum sistema pode durar para sempre. O elemento central da análise de sistemas-mundo é a ideia de que todos os sistemas são impermanentes. Wallerstein ficou ainda mais convencido desse ponto de vista quando conheceu o químico ganhador do Prêmio Nobel Ilya Prigogine em 1980. Ele percebeu que eles estavam falando sobre coisas semelhantes. Prigogine ensinou a Wallerstein que a mesma conclusão vale para sistemas naturais: mais cedo ou mais tarde, as operações de rotina de um sistema se tornam impossíveis de sustentar, seja um furacão ou a economia mundial capitalista. Até o universo tem uma vida útil.

Daniel Finn

Wallerstein falou sobre o núcleo, a periferia e a semiperiferia do sistema-mundo. Esses são termos que as pessoas podem muito bem ter visto no jornalismo e na análise econômica. Mas quando o próprio Wallerstein usou esses termos, que distinções ele estava tentando fazer na geografia do capitalismo global?

Gregory P. Williams

Para Wallerstein, esses termos se referem à divisão do trabalho dentro do sistema-mundo. As distinções entre núcleo, semiperiferia e periferia refletem mais ou menos as divisões de classe dentro de uma sociedade em escala mundial. Por algum tempo, teóricos da dependência como Andre Gunder Frank pensaram em termos de uma zona central abastada que lucrava com a periferia pobre.

O núcleo se refere às grandes potências que têm riqueza e forças armadas formidáveis. Elas são as nações no topo, e há relativamente poucas delas. A periferia, por outro lado, é composta por nações que se integram à economia mundial pela força, geralmente por meio do imperialismo durante os séculos XVIII e XIX, embora certamente não tenha terminado no século XX. A periferia foi mantida em sua posição reduzida após o fim do império formal por meio da política de dívida e comércio.

Wallerstein não achava que essas categorias eram suficientes, então ele criou uma terceira categoria, que ele chamou de semiperiferia. Ele achava que a semiperiferia servia como uma garantia da economia mundial capitalista. É uma correia transportadora de comércio e pode inovar de muitas maneiras em termos da evolução do sistema. No entanto, os estados-membros da semiperiferia são de nível médio, parcialmente explorados e parcialmente beneficiados pelos termos desiguais de troca.

Politicamente, eles ajudam a bloquear a atividade revolucionária na periferia, cujos membros podem sentir que não têm, digamos, nada a perder além de suas correntes. Assim, a semiperiferia em um sentido político também serve como um freio à ação política transformadora. Em suma, esses termos ajudaram Wallerstein a dar sentido às experiências muito diferentes entre os estados no sistema-mundo.

Daniel Finn

Quais tendências ou tendências de longo prazo Wallerstein identificou como estando em ação no sistema capitalista?

Gregory P. Williams

Dada a imagem de um sistema-mundo tendo uma vida útil, também é lógico que há padrões de comportamento dentro do sistema. Assim como com outros seres vivos, há tendências duradouras. Assim como os humanos desenvolvem certas tendências à medida que envelhecem, o mesmo acontece com os sistemas-mundo. Wallerstein se referiu ao comportamento repetido do sistema como seus ritmos cíclicos.

Um exemplo desses ritmos foi o fenômeno que ele chamou de onda econômica longa. Esses eram períodos de longo prazo de crescimento mais rápido ou mais lento. Alguns duravam várias décadas, enquanto outros podiam durar séculos. Essas ondas econômicas longas são como um sistema mundial inspirando e depois expirando. Essa foi a imagem que Wallerstein usou para descrevê-lo.

Ele nunca entendeu por que a ideia de ondas longas — especialmente a onda Kondratiev de aproximadamente quarenta e cinco a sessenta anos — deveria ser recebida com tanta resistência entre os cientistas sociais ocidentais. Se as pessoas estavam dispostas a aceitar a ideia de tendências de curto prazo, como as preferências dos eleitores ou o preço do leite, por que não tendências de longo prazo? A resposta, é claro, é política. Não é acadêmica.

Há outro ritmo cíclico que é muito importante: a ascensão e queda das potências hegemônicas. Por hegemonia, Wallerstein quis dizer o período muito breve de domínio inigualável de uma grande potência — estamos falando do espaço de uma geração. Você teve os holandeses no século XVII, os britânicos no século XIX e os americanos no século XX. É isso, no que diz respeito a Wallerstein — é um clube muito exclusivo.

Cada potência hegemônica essencialmente escreve as regras para a era — regras que se estendem até além de seus vinte e cinco anos ou mais de hegemonia. Estamos vivendo agora em um período de declínio hegemônico dos EUA, mas ainda estamos em uma época de ordem liberal da América, com as instituições criadas em Bretton Woods e São Francisco no final da Segunda Guerra Mundial, como as Nações Unidas e grandes organizações de empréstimos internacionais como o Fundo Monetário Internacional.

É claro que a potência hegemônica está surfando em uma onda de forças que não pode determinar completamente. Ela sempre descreve sua própria ascensão como sendo devido a seus esforços e talentos individuais. Mas a razão pela qual a hegemonia é tão rara é o fato de que algumas coisas bastante incomuns precisam se alinhar em termos da natureza das ondas econômicas longas.

Uma maneira pela qual Wallerstein inovou foi mostrando como havia uma espécie de caminho normal — uma linha normal de comportamento — para a economia-mundo capitalista que ele chamou de linha de equilíbrio. Esses ritmos cíclicos partem dessa linha e depois retornam. Mas com o passar do tempo, conforme um sistema envelhece, esses ritmos cíclicos também causam tendências seculares que aumentam ao longo da vida do sistema. Por definição, elas não podem ser desfeitas.

Algumas das tendências seculares do capitalismo incluem a tendência do sistema para revoltas políticas, a proletarização das forças de trabalho, amplamente definida, e a expansão geográfica do sistema-mundo. A última dessas tendências é talvez a mais útil para entender o que Wallerstein estava falando.

Por grande parte da história do capitalismo, o sistema confiou na expansão para sobreviver. A economia-mundo capitalista inicialmente ocupou apenas uma pequena parte do mundo real, pois consumiu recursos ambientais como madeira. À medida que os trabalhadores começaram a exigir melhor tratamento, o sistema incorporaria áreas externas.

Lentamente, o sistema-mundo cresceu. Ele realmente cresceu em duas fases principais, mas foi um processo lento no geral. No final do século XIX, o sistema-mundo se tornou um sistema verdadeiramente global. Hoje, a menos que conquistemos Marte ou alguma outra coisa estranha dessa natureza, o sistema não tem mais espaço para ceder, e estamos vendo os efeitos de um sistema capitalista que não consegue liberar suas pressões internas. Essas são algumas das principais tendências dentro do capitalismo, de acordo com Wallerstein.

Daniel Finn

Como você diria que as ideias de Wallerstein podem nos ajudar a entender os vários problemas e crises que afligem o capitalismo global hoje?

Gregory P. Williams

O próprio Wallerstein não era nem pessimista nem otimista sobre o cenário mundial. Ele estava convencido de que o sistema capitalista acabaria nas próximas décadas. Mas a verdadeira questão para ele era: o que acontece depois? Hoje, o sistema é muito caótico, movendo-se abruptamente de uma posição para outra. Ele não consegue, como ele diria, manter o equilíbrio.

Wallerstein viu o aumento dos protestos políticos e a turbulência geopolítica como indicativos de que o sistema está em crise. Temos volatilidade em ações, moedas, petróleo e suprimentos minerais, tudo isso além do que poderíamos dizer ser a volatilidade muito previsível de instrumentos financeiros complexos inventados pelos bancos tradicionais, bem como as criptomoedas. Além disso, os conflitos no Oriente Médio e na Europa Oriental, que têm o potencial real de se ampliar consideravelmente, mostram o declínio da ordem liderada pelos americanos.

No geral, as ideias de Wallerstein nos dizem que as pessoas não acreditam mais na promessa liberal tradicional, uma promessa que dizia que haveria recompensas lentas, mas constantes, a serem realizadas ao longo das gerações. Em vez disso, a turbulência do capitalismo levou a classes inquietas, armadas com ideias perigosas (pelo menos da perspectiva do establishment) sobre a democratização do poder político.

Wallerstein achava que o sistema poderia ir em qualquer direção: você poderia criar um novo sistema-mundo pós-capitalista mais regressivo, ou você poderia criar um novo sistema-mundo pós-capitalista mais igualitário. Wallerstein achava que cada uma dessas opções era aproximadamente igual em suas chances de sucesso, mas ele sempre buscou despertar as tropas, por assim dizer — para dar às pessoas a fortaleza moral para continuar lutando. Na minha opinião, com suas ideias, estamos bem armados para a luta atual.

Colaboradores

Gregory P. Williams é professor associado de ciência política e relações internacionais na Simmons University em Boston. Seu livro, Contesting the Global Order: The Radical Political Economy of Perry Anderson and Immanuel Wallerstein, é um título acadêmico de destaque da American Library Association.

Daniel Finn é o editor de destaques da Jacobin. Ele é o autor de One Man’s Terrorist: A Political History of the IRA.

12 de maio de 2023

O trabalho de Immanuel Wallerstein pode nos ajudar a compreender o aprofundamento das crises do capitalismo

Immanuel Wallerstein desenvolveu uma análise convincente do capitalismo como um sistema mundial que minou o triunfalismo da era neoliberal. O trabalho de Wallerstein está repleto de informações valiosas sobre as forças que estão desestabilizando o capitalismo global.

Gregory P. Williams

Jacobin

Immanuel Wallerstein na França, fevereiro de 1997. (Louis Monier / Gamma-Rapho via Getty Images)

Tradução / Pensador criativo, Immanuel Wallerstein acreditava que as ciências sociais convencionais representavam os interesses dos poderosos. Nascido em Nova York em 1930, local que mais tarde identificaria como a capital da economia mundial, passou a vida desafiando as visões sociocientíficas e culturais dominantes do capitalismo global. Quando morreu em 2019, via o sistema capitalista em crise estrutural, fadado ao colapso. Contudo, para ele o fim do capitalismo não significava necessariamente a ascensão do socialismo.

Wallerstein via a luta contemporânea como uma batalha entre forças regressivas que pressionam por outro sistema ainda mais desigual e forças progressistas que lutam por alguma forma de igualitarismo. Ele chamou essas forças em conflito de “espírito de Davos” e “espírito de Porto Alegre”, respectivamente. Na sua opinião, cada força tinha aproximadamente a mesma chance de sucesso.

Como Wallerstein chegou a esta conclusão aparentemente desastrosa? Na verdade, ele não considerava sua previsão sombria. “As probabilidades”, como gostava de dizer, “são de cinquenta por cento. Mas cinquenta por cento não é pouco; é muito”.

Crise e colapso

Ao contrário de muitos intelectuais de esquerda do século XX, Wallerstein não trocou seu otimismo juvenil pelo pessimismo ou aquiescência dos idosos. À medida que o neoliberalismo se consolidava na era de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, sua perspectiva transformou-se em algo completamente alheio aos sentimentos de otimismo e pessimismo. Adotou uma segurança serena no seu diagnóstico das crises cada vez mais profundas do sistema-mundo moderno e do seu colapso iminente.

Na década de 1990, quando o neoliberalismo conquistou os partidos que, nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, haviam representado os interesses dos trabalhadores, Wallerstein permaneceu inabalável. Entre os governos de Bill Clinton e Tony Blair, que defendiam o potencial aparentemente ilimitado do capitalismo de livre mercado, Wallerstein continuou sustentando que o sistema era profundamente instável e seu domínio diminuía.

O neoliberalismo associou a liberdade humana e o desenvolvimento a mercados não regulamentados. Wallerstein, por outro lado, associou estes conceitos à igualdade na política, na economia, no direito e na cultura.

Hoje está claro que História se desenvolveu mais de acordo com as previsões de Wallerstein do que com as dos neoliberais que prometeram prosperidade econômica e paz duradoura. As guerras dos EUA no Afeganistão e no Iraque não conduziram a um cenário mundial mais pacífico ou estável. Os líderes estadunidenses que promoveram mercados sem regras, em vez de alcançarem o seu objetivo de pacificação através da prosperidade apenas desencadearam protestos sociais globais.

A análise dos sistemas-mundo de Wallerstein pode ajudar a compreender nosso tempo caótico. Fenômenos aparentemente desconexos, como crises financeiras, protestos populares e guerras, revelam um sistema em crise estrutural.

Independência africana e teoria da modernização

Wallerstein sempre teve curiosidade pela política e pelas ideias que norteiam nossas ações, bem como pelas interligações entre a política internacional e a nacional Era um jovem defensor do movimento a favor do federalismo mundial. Em 1954, escreveu uma tese sobre o macarthismo que mais tarde foi retomada pelo historiador Richard Hofstadter.

Wallerstein foi convocado para o Exército estadunidense durante a Guerra da Coreia e enviado para defender o Canal do Panamá. Depois, debruçou-se sobre os movimentos de independência africanos no contexto do mudanças no cenário mundial. Com a experiência percebeu que as ciências sociais existentes não conseguiam explicar os problemas enfrentados pelos novos Estados independentes do continente.

Os governos pós-coloniais caíram quase imediatamente em problemas de dívida e instabilidade política. A visão predominante entre os estudiosos dedicados ao estudo do desenvolvimento político – um termo para a crescente sofisticação e resiliência dos órgãos governamentais – era que as nações pobres e instáveis eram pobres e instáveis devido às decisões tomadas pelos seus dirigentes. Supunha-se que a maior parte da política era nacional, com apenas interação incidental com o mundo exterior.

Essa perspectiva, que ainda persiste, ficou conhecida como “teoria da modernização”. Os seus defensores recomendaram que os Estados-nação em dificuldades eliminassem as barreiras ao comércio e se abrissem ao investimento estrangeiro.

Wallerstein nunca aceitou que os novos governos pós-coloniais de África fossem os culpados pelos seus problemas. Ele acreditava que a política da dívida e as condições comerciais injustas eram, como disse o presidente da Tanzânia, Julius Nyerere, a “segunda corrida” pela África. Considerou que o impacto do imperialismo ocidental tinha sobrevivido à descolonização formal.

Movimentos antissistêmicos

Wallerstein inicialmente procurou alterar a teoria da modernização em vez de substituí-la. Assim, no final da década de 1960 ele planejou um importante estudo. Ele queria tirar lições para as “novas” nações do mundo com base nas experiências das “velhas” nações, os Estados europeus que se formaram no século XVII.

No entanto, logo rejeitou a premissa de seu projeto. Foi “uma má ideia”, escreveu décadas mais tarde: os novos Estados-nação independentes criaram governos e exerceram a diplomacia em circunstâncias radicalmente diferentes daquelas das antigas nações da Europa. O importante era a relação entre o antigo e o novo, raciocinou.

A nova perspectiva de Wallerstein surgiu pouco depois dos protestos globais de 1968, que ele viveu diretamente em Nova York (na verdade, ele gostava de lembrar aos seus amigos franceses que o motim da Universidade de Columbia precedeu em várias semanas os protestos de Paris). Wallerstein considerou que os protestos globais estavam interligados. Na sua opinião, todos lutavam contra a ordem estabelecida e procuravam criar melhores condições de vida. Ele diria mais tarde que 1968 “cristalizou” muitas de suas opiniões, crenças que ele havia anteriormente defendido “de uma forma mais confusa”.

Mais tarde, descreveria 1968 como um “movimento antissistêmico”, parte de uma longa série de movimentos sociais e nacionalistas modernos simbolizados por seus anos, como 1789, 1848, 1917, 1968 e 1989. O termo descreve a maneira como as pessoas desafiam de tempos em tempos a ordem estabelecida e altamente desigual, caracterizada pela hierarquia e pela exploração. Por vezes alcançam os seus objetivos (ou alguns deles o fazem), como os revolucionários franceses em 1789. Por vezes, os resultados são mais desiguais, como nas revoltas europeias de 1848.

Após a sua tentativa inicial de rever a teoria da modernização numa direção mais internacional e histórica, Wallerstein regressou à mesa de trabalho. Formulou então uma nova forma de conceber a política mundial, inspirada nas revoluções de 1968, que levava em conta a relação entre colonizador e colonizado, rentista e devedor.

O sistema mundial

Baseando-se em pensadores como Fernand Braudel, Amílcar Cabral, Frantz Fanon e Karl Polanyi, Wallerstein concebeu uma forma de especificar a relação entre grandes e pequenas potências. Ele chamou a sua abordagem de “análise de sistemas-mundo”, preferindo o termo “análise” a “teoria”, que ele acreditava que implicaria uma sensação prematura de encerramento, de ter tudo resolvido. Usou o hífen “sistema-mundo” para indicar que as duas ideias eram inseparáveis. O roteiro mostrava que ele estava escrevendo sobre um sistema que era um mundo, e não apenas o sistema do mundo. Portanto, ele sustentou que um sistema-mundo poderia ocupar um espaço menor que o da Terra.

Wallerstein concebeu vários tipos principais de sistemas-mundo, entre os quais se destacaram o império mundial e a economia mundial. Um império mundial era uma civilização em grande escala com uma única instituição governamental e um único sistema econômico, como o da Roma antiga. Conquistara e ocupara vastas áreas de território e recebia tributos das diversas partes que o compunham.

Uma economia-mundo, pelo contrário, era para Wallerstein uma criatura invulgar, composta por diversas instituições governamentais distintas dentro de um sistema econômico global. No caso da economia-mundo capitalista, os Estados (ou seja, países ou nações) estavam unidos por um sistema econômico capitalista.

De acordo com Wallerstein, o capitalismo formou-se na Europa Ocidental e na América ao longo do “longo século XVI”, abrangendo aproximadamente o período entre 1450 e 1640. Dada a prevalência da escravidão, da servidão por contrato e de outras formas de trabalho forçado, ele evitou definir o capitalismo como um sistema baseado no trabalho assalariado e na propriedade privada para caracterizá-lo, em vez disso, como baseado na acumulação incessante de capital, entendido como valor acumulado.

Rapidamente surgiu uma divisão do trabalho que refletia as divisões de classe dentro dos Estados. O “núcleo” rico e poderoso (inicialmente limitado à Europa Ocidental) explorava e se beneficiava da “periferia” empobrecida (grande parte do resto do sistema-mundo). Entretanto, Wallerstein viu uma categoria de correia de transmissão chamada semiperiferia, composta por Estados explorados com pouco direito às recompensas geradas pela periferia.

Contudo, central na análise dos sistemas-mundo é a afirmação de que todos os sistemas são transitórios. Um sistema nasce, passa por um período de fragilidade e depois de força, antes de finalmente entrar num período de crise terminal. Wallerstein sustentou que o capitalismo tem uma vida finita e que o seu funcionamento normal acabará por provocar o seu fim. E, depois de conhecer o vencedor do Prêmio Nobel da Química, Ilya Prigogine, Wallerstein percebeu que esta lógica também era válida para os sistemas naturais, incluindo o universo como um todo.

Ao enfatizar a relação entre as sociedades, Wallerstein encontrou uma forma de descrever o modo de produção capitalista tal como ele realmente existia. Anteriormente, os cientistas sociais utilizavam o Estado como unidade de análise. Para Wallerstein, os Estados são componentes de um sistema mais amplo.

Ritmos cíclicos

Nas décadas de 1970 e 1980, Wallerstein escreveu extensivamente sobre a história do capitalismo numa série de livros intitulada O sistema mundial moderno, cujo último volume apareceu em 2011. Ele explicou a frágil formação do sistema, seus períodos de expansão e crescimento, e suas contradições cada vez mais profundas. Política e culturalmente, este período foi caracterizado pelo triunfo do neoliberalismo. No entanto, Wallerstein nadou contra a maré neoliberal ao descrever as origens e a expansão do capitalismo, o seu comportamento episódico e as suas tendências duradouras.

Wallerstein referiu-se aos altos e baixos do capitalismo como “ritmos cíclicos”. Um desses ritmos foi a “onda longa” econômica: períodos de longo prazo de crescimento mais rápido e mais lento. Algumas ondas duraram várias décadas, enquanto outras duraram séculos. Ele estava especialmente interessado em saber como os Estados e outros atores respondiam a períodos de expansão e consolidação a longo prazo.

Outro ritmo cíclico identificado por Wallerstein foi a ascensão e queda do domínio internacional. Ocasionalmente, uma nação converte as suas vantagens econômicas numa posição de poder incomparável, uma posição que ele chamou de “hegemonia”. Considerando as lições dos exemplos holandês, britânico e estadunidense, Wallerstein descobriu um padrão comum: a hegemonia em ascensão defende-se contra um rival. Ao fazê-lo, as suas vantagens nos campos da produção agroindustrial, do comércio e das finanças são convertidas em superioridade militar. Depois de um grande conflito, como a Segunda Guerra Mundial, a nova nação dominante estabelece as regras de uma ordem internacional duradoura.

A partir desse momento, declina lentamente à medida que perde suas vantagens econômicas na mesma ordem em que as obteve, começando pela produção agroindustrial e concluindo pelas finanças. Wallerstein acreditava que os Estados Unidos começaram a declinar na década de 1970.

Tendências seculares

Poderíamos imaginar ritmos cíclicos em termos metafóricos, como o sistema mundial moderno que inspira e volta a soltar ar. Normalmente, eles retornam algum tipo de normalidade, um equilíbrio, mas também causam novos desenvolvimentos ao sistema. Estas “tendências seculares” aumentam ao longo da vida do sistema. Por definição, eles não podem ser desfeitos.

Wallerstein concebeu várias tendências seculares, incluindo revoltas políticas, o desenvolvimento de uma força de trabalho proletarizada (no sentido amplo) e a expansão geográfica do sistema-mundo. Este último é útil para refletir sobre o capitalismo global atual.

Segundo Wallerstein, um sinal da crise estrutural do capitalismo é a sua incapacidade de se expandir geograficamente. Durante quatro séculos, até aproximadamente ao final do século XIX, o capitalismo foi capaz de aliviar as suas pressões internas através do expansionismo. Numa determinada zona, à medida que os trabalhadores exigiam salários mais elevados e condições de trabalho mais seguras, enquanto os recursos se tornavam escassos, os proprietários-produtores “fugiram” para novas zonas.

Em muitos casos, esta fuga levou à incorporação de zonas externas na economia global. O sistema começou na Europa e na América, mas houve ocasiões que se espalhou rapidamente. Por exemplo, na era do império, entre 1750 e 1850, as potências europeias empurraram grande parte do Sul da Ásia, da África Ocidental e do Império Otomano para a periferia do sistema mundial.

No momento em que a ideologia do capitalismo de mercado sem restrições se consolidava no Ocidente, a análise histórica de Wallerstein mostrava um sistema em apuros. Sem espaço para crescer, argumentava ele, o sistema dependia mais da criação de novas tecnologias, novos bens e novos contratos, como aqueles que protegiam lucros futuros em acordos comerciais internacionais.

Ao enfatizar as crescentes contradições do sistema, Wallerstein tornou-se imune à atitude cultural do capitalismo tardio que tanto frustrou os seus colegas radicais: a saber, a ideia de que a liberdade corporativa ilimitada era de alguma forma a condição natural do mundo e a melhor de todas as opções possíveis. Se pudéssemos resumir a filosofia do neoliberalismo com aquela velha frase “não há alternativa”, Wallerstein resumiu a sua própria atitude com uma réplica muito utilizada: “há milhares de alternativas!”.

Classes perigosas

As turbulências selvagens do capitalismo na década de 2020 têm muitas causas de curto prazo, incluindo a pandemia e as as interrupções na cadeia de abastecimento just-in-time, a escassez de petróleo, a natureza imprevisível das ações tradicionais e a previsível volatilidade das criptomoedas. Contudo, as ideias de Wallerstein dizem-nos que devemos olhar para a sequência das crises recentes num período de tempo mais longo. Representam um sistema-mundo incapaz de regressar ao equilíbrio. Em vez disso, o sistema continua a oscilar caoticamente numa direção e em outra.

A crise do capitalismo também encorajou as pessoas comuns a exigirem mais dos seus Estados. Durante muito tempo, a promessa do liberalismo de reformas lentas mas constantes conseguiu apaziguar as populações, ou pelo parte importante delas, para manter as estruturas de poder existentes. As declarações da elite sobre as liberdades políticas – e, na verdade, a própria liberdade – eram para Wallerstein realmente justificativas para a desigualdade. Os Estados centrais estavam tentando “domar as classes perigosas”, escreveu, “incorporando-as na cidadania e oferecendo-lhes uma parte, ainda que pequena, do bolo econômico imperial”.

No entanto, ao longo do tempo, potências centrais como os Estados Unidos tiveram mais dificuldade em justificar as suas aventuras imperiais e a perpetuação da desigualdade econômica. À medida que a hegemonia estadunidense diminuía, também se revelou incapaz de manter a ordem que tinha criado décadas antes. Outras nações já não se sentem limitadas pelas suas diretrizes.

De acordo com Wallerstein, os poderes hegemônicos podem declinar elegante ou precipitadamente, mas não podem evitar o declínio. Na sua opinião, a invasão do Iraque em 2003 foi um caso em que os Estados Unidos tentaram convencer outras nações da sua grandeza. Como ele escreveu dois meses antes do início da invasão:

Com o colapso da União Soviética, os Estados Unidos perderam o principal argumento político que tinham para persuadir a Europa Ocidental e o Japão a seguirem as suas iniciativas políticas. A única coisa que lhe resta é um exército extremamente forte.

O início do século XXI é caracterizado pela desestabilização cíclica da ordem hegemônica estadunidense. Mas também parece marcado pela desestabilização secular do próprio sistema-mundo. Para Wallerstein, o sistema não pode voltar à normalidade.

Curiosamente, muitos dos cenários que inspiraram o conceito de análise de sistemas-mundo de Wallerstein também poderiam se beneficiar das suas ideias. As nações pós-coloniais continuam em crise, lutando contra a dívida e a instabilidade política. No entanto, os seus antigos colonizadores também têm problemas, com cidadãos inquietos exigindo melhor tratamento aos seus patrões e governos.

Wallerstein estava convencido de que a luta pela igualdade teria mais hipóteses de sucesso se estivesse munida das ideias adequadas. Definitivamente, suas reflexões contribuíram para isso.

Colaborador

Gregory P. Williams é professor associado de ciência política e relações internacionais na Simmons University em Boston. Seu livro, Contesting the Global Order: The Radical Political Economy of Perry Anderson and Immanuel Wallerstein, é um título acadêmico de destaque da American Library Association.

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