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24 de junho de 2024

A extrema-direita alemã está em guerra consigo mesma

A Alternativa para a Alemanha (AfD) de extrema-direita ficou em segundo lugar nas eleições europeias, mas ficou aquém das expectativas. Agora, a sua liderança está dividida por conflitos internos ao partido e no meio mais amplo da extrema-direita europeia.

Por Sebastian Friedrich

Jacobin

Tino Chrupalla (à direita) e Alice Weidel, coleaders da alternativa F7R Deutschland, e o candidato ao Parlamento Europeu da AfD René Aust falam aos meios de comunicação no dia seguinte às eleições parlamentares europeias de 10 de junho de 2024 em Berlim, Alemanha. (Sean Gallup / Getty Images)

Tradução / Há menos de seis meses, as bases do principal partido de extrema-direita da Alemanha, a Alternativa para a Alemanha (AfD), estavam eufóricas. Fundado há pouco mais de uma década como um partido de protesto eurocéptico, no início de 2024 a AfD obtinha segundo as sondagens 23% — e alimentava justificadas esperanças de se tornar o partido mais forte da Alemanha na votação de junho para o Parlamento da União Europeia.

O chamado Spitzenkandidat da AfD, ou cabeça-de-lista às eleições da UE, Maximilian Krah, enfatizou em todas as oportunidades que a AfD era o partido de direita mais empolgante da Europa. Ao contrário de Giorgia Meloni, em Itália, ou Marine Le Pen, em França, disse aos apoiantes que a AfD rejeitava a cooperação com o centro político. A AfD tinha, em vez disso, apostado numa posição clara de direita dura enquanto ainda ganhava nas sondagens. Os fiéis do partido antecipavam ansiosamente o ano de 2024 como o “super ano eleitoral”, incluindo não apenas as eleições da UE, mas três importantes eleições estaduais em Brandemburgo, Saxónia e Turíngia, que deveriam dominar.

No entanto, na sequência da votação para o parlamento europeu, pouco resta dessa euforia. A AfD obteve 15,9% – quase 5 pontos percentuais mais do que nas últimas eleições deste tipo em 2019 – e tornou-se o segundo partido mais forte atrás dos democratas-cristãos (CDU/CSU). Mas, no geral, este resultado foi decepcionante em comparação com as expectativas altíssimas de apenas alguns meses atrás.

Quatro retrocessos para a extrema-direita

Existem essencialmente quatro razões para o desempenho comparativamente fraco da AfD. O primeiro foi um relatório da plataforma de notícias Correctiv sobre uma reunião secreta entre funcionários da AfD e ativistas de extrema-direita que discutiram deportações em massa de estrangeiros. Este escândalo desencadeou manifestações a nível nacional, de longe as maiores da memória recente. Isto foi, sem dúvida, um golpe para a imagem pública do partido e para a do projecto de extrema-direita na Alemanha em geral.

Em segundo lugar, surgiram alegações de corrupção e espionagem contra Krah e Petr Bystron, um deputado da AfD. Bystron é suspeito de receber dinheiro de redes pró-russas em troca de fazer campanhas em nome do Kremlin na Alemanha. O Ministério Público Federal também acusou um dos associados mais próximos de Krah de espiar para a China e transmitir informações do Parlamento Europeu. Entretanto, Krah também foi acusado de receber dinheiro da Rússia e da China.

Em terceiro lugar, um novo partido está a competir fortemente com a AfD numa corrida que a AfD dava por ganha. A Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), com o nome da ex-líder parlamentar do Die Linke, foi fundada em janeiro. Em questões de política migratória, a BSW está enraizada na tradição da social-democracia de direita; na política laboral e social, inclina-se mais para as tradições social-democratas de esquerda do antigo partido de Wagenknecht. Em termos de política económica, situa-se algures entre o ordoliberalismo e o keynesianismo. Na sua publicidade e comunicações o BSW posiciona-se como um partido anti-establishment, ao mesmo tempo que aproveita o potencial eleitoral inexplorado dos eleitores alemães que querem uma solução negociada para a guerra da Ucrânia o mais rapidamente possível.

Análises eleitorais e estudos atuais sobre o potencial eleitoral do BSW mostram que, embora não atraia muito a clientela principal da AfD, ele obtém bons resultados entre os eleitores que se voltaram para a AfD nos últimos dois anos, dobrando os seus números de votação nas sondagens. Um estudo realizado no início de junho pelo Instituto de Investigação Económica e Social da Fundação Hans Böckler (um grupo de reflexão filiado nos sindicatos alemães) concluiu que o BSW compete com a AfD, em particular na Alemanha Oriental. Esta é uma zona em que o Partido para o Socialismo Democrático e o seu sucessor, Die Linke, já foram bem sucedidos: o BSW é forte em regiões com elevado desemprego e uma população em envelhecimento, e apela particularmente aos eleitores de baixos rendimentos que carecem de poupanças significativas, enfrentam ansiedade económica e desconfiam das instituições existentes.

Por último, a exclusão da AfD do Grupo identidade e Democracia (ID) no Parlamento Europeu provavelmente agravou a sua situação. Le Pen cortou os laços com a AfD pela primeira vez em maio, seguido pouco depois pela expulsão do grupo ID de todos os deputados da AfD. A expulsão ocorreu dias depois de Krah ter dito ao jornal italiano la Repubblica que “nem todos os que usavam um uniforme da SS eram automaticamente criminosos.”

Tem havido repetidos conflitos entre o Rassemblement National (RN) de Le Pen e Krah nos últimos anos, como quando contratou um activista francês do movimento identitário que o RN tinha despedido por fazer comentários anti-semitas. Krah foi mesmo parcialmente suspenso do Grupo Parlamentar do ID por instigação do RN porque apoiou Éric Zemmour — o concorrente ainda mais de direita de Le Pen – nas eleições presidenciais francesas de 2022. Outros partidos de extrema-direita europeus, como o italiano Lega e Fratelli d’Italia, o polaco Law and Justice (PiS) e o húngaro Fidesz, também se distanciaram da AfD. Das principais forças de direita da Europa, apenas o partido da Liberdade austríaco (FPÖ) se manteve leal.

O facto de a AfD ter-se tornado aparentemente demasiado de direita, mesmo para estes outros partidos, pode ser de pouco interesse para a maioria dos eleitores da AfD. Mas aprofundou as divergências internas dentro do partido. Com efeito, a ruptura com o grupo ID expõe duas linhas de conflito mais profundas e fundamentais que atravessam a AfD e a direita europeia no seu conjunto.

Política Realista ou Real Oposição?

Directamente ligada à ofensiva de Le Pen contra a AfD está um conflito crescente entre a realpolitik de direita e a oposição de extrema-direita.

Em toda a Europa, os partidos de centro-direita estabelecidos estão a definhar e os partidos de extrema-direita estão a ganhar terreno. O PiS, o Fratelli d’Italia e o Lega, bem como o FPÖ e o Partido dos finlandeses, já estiveram no governo, enquanto os Democratas Suecos dão o seu apoio externo a uma coligação de direita. O partido de Geert Wilders, nos Países Baixos, vai também participar pela primeira vez no governo.

Depois de décadas na oposição, Le Pen espera finalmente sair vitoriosa nas próximas eleições francesas. Ela tem como objetivo principal imitar a trajetória de Meloni, que leva ao centro político, pelo menos em algumas áreas. Mas para se tornar presidente francesa em 2027, ela precisa de uma maioria absoluta na segunda volta, para a qual terá que conquistar eleitores fora do seu próprio campo. Distanciar-se da AfD é outra manobra tática na estratégia de “des-demonização” de Le Pen.”

No que diz respeito à própria UE, muitos dos partidos de extrema-direita orientados para a realpolitik moderaram as suas posições por razões estratégicas: aqueles que se opuseram à UE durante anos e defenderam a sua saída total querem agora reformá-la. Quando a margem extremista da AfD fala em tons preocupantes sobre a “Melonização”, está a marcar como oportunismo o que vê como uma acomodação excessiva à realpolitik em Itália e em França.

Ainda há vozes dentro da AfD que querem orientar estrategicamente o seu partido mais para o centro e torná-lo capaz de governar como parceiro júnior no futuro, mas eles tornaram-se mais calmos nos últimos dois anos. Até ao início do ano, o aumento duradouro das sondagens do partido sobrepôs-se à divisão interna. À medida que esse aumento diminui, os conflitos parecem estar a chegar a um ponto crítico.

Virar para o Ocidente?

O mesmo se aplica à segunda linha de conflito no seio da direita europeia e da AfD: a orientação geopolítica. Os escândalos em torno de Krah, que pelo menos sugerem fortemente uma proximidade com os governos russo e chinês, já alimentaram a raiva entre aqueles na AfD que tendem a favorecer a aliança transatlântica e permanecem altamente céticos em relação a quaisquer projetos políticos “eurasianos”. Desde o início da guerra na Ucrânia, a maioria dos principais partidos de extrema-direita na Europa também se inclinou mais para a NATO. Até o RN está agora a abster-se de fazer avanços abertos em direcção a Moscovo.

Algumas semanas após os escândalos de Krah terem vindo à tona, o principal intelectual da extrema-direita alemã, Götz Kubitschek, escreveu que as atuais convulsões no campo da extrema-direita eram, na verdade, parte de uma batalha mais ampla sobre o alinhamento geoestratégico da Europa. Kubitschek vê a exclusão, forçada pelo RN, da AfD do grupo ID como Le Pen sinalizando a sua lealdade ao projeto europeu transatlântico de extrema-direita que se cristaliza em torno dos Fratelli d’Italia, Lega, PiS, Wilders e agora também Viktor Orbán. A AfD já não desempenha um papel neste projecto, que considera “anti-alemão”.

A composição de uma importante conferência em rede é reveladora aqui. Uma ramificação europeia da Conferência Conservadora de Acção Política (CPAC), a CPAC Hungria, teve lugar em Budapeste no final de abril pela terceira vez. A localização não é coincidência: o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, também é visto como uma inspiração para a direita dos EUA, particularmente pelos republicanos que procuram transformar o estado americano caso Donald Trump seja realmente reeleito. Muitas figuras importantes da direita europeia estiveram presentes no encontro húngaro: o ex-primeiro-ministro polaco Mateusz Morawiecki, Wilders, e representantes da Fratelli d’Italia, Lega, da Vlaams Belang da Bélgica, do FPÖ, do RN e do Vox de Espanha.

As tentativas de aproximar a direita europeia estão em curso há já algum tempo. Até agora, houve dois grandes grupos à direita do grupo moderado de centro-direita do Partido Popular Europeu (PPE) no Parlamento Europeu: os Conservadores e Reformistas Europeus (ECR), ao qual Meloni pertence, e o grupo ID em torno do Rassemblement National. Existe também o Fidesz, de Orbán, que pertencia ao Grupo PPE, mas não está afiliado desde 2021.

Meloni, Le Pen e Orbán – as três figuras de extrema-direita mais importantes da europa – marcharam separadamente até agora, mas aproximaram-se nos últimos meses e podem agora formar um grupo parlamentar conjunto no Parlamento Europeu pela primeira vez. Embora Orbán seja pró-Rússia, e o RN tenha sido cético ou mesmo hostil em relação a fortes laços com Washington, as mudanças na sequência da guerra da Ucrânia e de uma possível segunda presidência de Trump parecem estar a abalar as certezas geopolíticas da extrema-direita europeia.

A AfD — que, com pessoas como Krah, Bystron, o líder regional do partido Björn Höcke, e outros, está muito mais orientada para a Rússia e até para a China – interpõe-se no caminho desta convergência projectada pelos grandes da direita europeia. A liderança da AfD também está ciente deste facto e tenta desesperadamente acompanhar os seus homólogos europeus. Por exemplo, Krah foi excluído da delegação da AfD ao Parlamento Europeu na manhã seguinte às eleições. Era muito pouco provável que Le Pen voltasse a mudar de ideias — o desejo de alguns eurodeputados de eliminar Krah como concorrente era provavelmente mais forte. Espera-se que este passo lhes permita, talvez, fazer parte do grupo ID, depois de tudo não ter sido cumprido. A porta permanece fechada para a AfD, mesmo sem Krah, o que, por sua vez, é susceptível de prejudicar todos aqueles que fizeram campanha pela sua expulsão.

A AfD está actualmente a trabalhar nos bastidores num documento para clarificar a política externa do partido. De acordo com relatos da imprensa, é apoiado por alguns líderes estaduais, a porta-voz nacional Alice Wade, e o recém-nomeado líder da delegação da AfD no Parlamento Europeu, René Aust. Politicamente, distanciará o partido mais fortemente da China e da Rússia, mas sem se comprometer com a aliança ocidental e os Estados Unidos.

Velhas Lutas Explodem

A AfD tem algumas semanas difíceis pela frente. Na sequência da sua saída do grupo ID, enfrenta a difícil tarefa de forjar uma aliança de partidos de extrema-direita mais pequenos e radicais. Para formar um grupo parlamentar, tem de encontrar deputados dispostos de outros seis países. Existe ainda uma hipótese residual de voltar a juntar-se ao grupo ID se o RN aderir à ECR de Meloni. Também é possível que o “partido de direita mais excitante da Europa”, de que Krah falou uma vez, se torne em breve o mais solitário.

Como se isso não bastasse, mais lutas internas políticas eclodiram dentro da AfD imediatamente após a eleição — correndo diretamente pelos campos extremistas do partido. A exclusão de Krah desempenha aqui um papel especial, uma vez que a decisão suscitou um grande ressentimento no seio do partido. O seu chefe no Parlamento Europeu, Aust, que teria pressionado pela expulsão de Krah nos bastidores, foi objeto de uma “tempestade de merda” especial, como a imprensa alemã a apelidou. Ele é acusado de nada menos do que traição.

Aust provém do partido do estado da Turíngia e tem sido política e pessoalmente próximo de Höcke, em muitos aspectos a figura de proa da periferia extremista do partido. O facto de a Aust, juntamente com a liderança, estar agora a formar um contraponto a ele também está a causar dificuldades para o próprio Höcke. Höcke também está ligado ao amigo de Krah, Kubitschek. No entanto, isso não o impediu de se aliar a Aust e disparar contra Krah e os seus apoiantes. Num podcast recente, os intelectuais de extrema-direita Benedikt Kaiser e Philip Stein apelaram aos campos de Aust e Krah para chegarem a um compromisso. A extrema-direita no partido, argumentaram eles, deveria, em vez disso, fazer uma causa comum contra aqueles que querem alinhar a AfD com o Ocidente.

Embora as lutas internas anteriores fossem principalmente entre campos ideológicos, os conflitos atuais são menos sobre política do que uma questão de poder. A situação actual deixa claro que o grupo de extrema-direita em torno Höcke chamado “A ala”, que foi oficialmente dissolvido em 2020, não é apenas organizacionalmente, mas também passou efetivamente à história.

Os líderes do partido AfD, Weidel e Tino Chrupalla, também estão a ser cada vez mais criticados abertamente após uma fraca campanha eleitoral europeia. Dito isto, a liderança provavelmente sobreviverá ao próximo congresso do partido em Essen no final de junho — dada a falta de alternativas, se nada mais.

Krah anunciou que não pretende mais concorrer à liderança do Partido Nacional em Essen. Ainda assim, embora esteja no centro das actuais disputas e seja provavelmente um eurodeputado não afiliado em Bruxelas, o seu eventual regresso não está de modo algum fora de questão. É bem possível que ele volte ao jogo a médio ou longo prazo: ele poderia ser a voz da base mais jovem, particularmente da extrema-direita, entre os quais ele é muito popular, e um candidato anti-establishment contra uma liderança do partido potencialmente “Melonizante”, mais flexível. Não admira que tenha sido comparado a Trump.

Colaborador

Sebastian Friedrich é um autor e jornalista de Hamburgo.

14 de janeiro de 2024

O partido Sahra Wagenknecht é principalmente uma ameaça à direita

A ex-líder parlamentar alemã do Die Linke, Sahra Wagenknecht, fundou um novo partido. Ela afirma que é uma voz para as classes média e trabalhadora ignoradas - mas o partido está principalmente focado em conquistar os alemães que se viraram para a extrema direita.

Sebastian Friedrich e Ingar Solty

https://jacobin.com/2024/01/sahra-wagenknecht-die-linke-afd

Sahra Wagenknecht no congresso federal do partido Die Linke em 9 de junho de 2018, em Leipzig, Alemanha. (Jens Schlueter/Getty Images)

Tradução / À medida que entramos no novo ano, é praticamente impossível prever como será o cenário político da Alemanha daqui a doze meses. 2024 não apenas verá as eleições europeias de junho, mas também disputas decisivas neste outono nos estados orientais de Turíngia, Saxônia e Brandemburgo. Grande parte da incerteza se deve a Sahra Wagenknecht, ex-política do Die Linke (A Esquerda), e sua tentativa de construir um novo partido, que visa participar de todas as quatro eleições.

De acordo com pesquisas, sua auto-intitulada Aliança Sahra Wagenknecht (BSW) poderia receber mais de 10% dos votos, e até mesmo mais de 20% no antigo leste. A pesquisa sugere que ela atrai eleitores de todos os partidos e provavelmente também poderia mobilizar não votantes atuais. Mas, acima de tudo, ela atrai aqueles que recentemente optaram pela Alternativa para a Alemanha (AfD), um partido anti-imigração de extrema direita.

Claro, as pesquisas não substituem os resultados reais das eleições, e os números das pesquisas não são explicações por si mesmos. Para entender por que o novo partido de Wagenknecht poderia prejudicar a Direita em particular, é necessário uma análise mais profunda da situação política. O atual chamado momento populista na Alemanha, que chegou mais tarde do que em alguns outros países europeus, é caracterizado pela sobreposição de três principais desenvolvimentos: uma crise econômica, uma crise política e uma crescente desconfiança dos partidos estabelecidos em amplas seções da população. Quinze anos atrás, por exemplo, houve exatamente esse tipo de turbulência política em alguns países do sul da Europa na esteira da crise do Euro.

A crise política da Alemanha e a crescente desconfiança da população ao longo da última década muitas vezes foram diagnosticadas com termos como “desencanto” e “pós-democracia”. Recentemente, as avaliações de aprovação do chamado governo de coalizão “semáforo” (nomeado pelo vermelho do Partido Social-Democrata de Olaf Scholz, o amarelo dos ultraliberais Democratas Livres, e os Verdes) caíram para mínimos históricos. No entanto, as pesquisas também mostram que há pouca confiança de que os Cristãos Democratas – ainda o maior partido de oposição – possam oferecer alternativas melhores. A crise no sistema partidário se aprofunda, enquanto as atitudes antiestablishment estão em ascensão.

A crise econômica, que está apenas se desdobrando agora após anos de relativa estabilidade, é apenas mais um fator contribuinte para a crescente crise política. Como resultado de guerra, sanções, contrassanções e os efeitos posteriores da pandemia, há um empobrecimento gradual de amplas seções da população. Em 2022, os salários reais ajustados pela inflação caíram 4,1%. Mesmo entre os trabalhadores bem remunerados, o medo da desindustrialização, perda de empregos e declínio social é generalizado.

Antiestablishment?

Essa insatisfação beneficiou até agora principalmente a AfD de extrema-direita, cujo apoio mais que dobrou desde o verão de 2022. Seu sucesso atual também se deve ao fato de que muitas vezes parece ser a única ou a oposição mais consistente em crises recentes: na “crise dos refugiados”, quando explorou medos de declínio social direcionados aos migrantes; durante a pandemia de coronavírus, quando liderou o descontentamento contra os bloqueios e explorou a política muitas vezes acalorada em torno da vacinação obrigatória; e hoje, diante da guerra na Ucrânia, ao se apresentar como um “partido da paz” que se pronuncia contra entregas de armas a Kiev e a favor de negociações. Embora suas políticas econômicas e fiscais anti-bem-estar, de corte de orçamento, beneficiem principalmente o capital, a AfD utiliza repetidamente sua retórica de guerra cultural para se apresentar como uma força antiestablishment.

Este momento de crise, portanto, recebeu uma clara orientação de direita. E, de fato, quanto mais a AfD se torna alvo dos alertas de “populismo” de todos os outros partidos, mais eficazmente ela explora esse papel em seu próprio benefício. Se o estabelecimento e, acima de tudo, a coalizão governante “semáforo” são contra a AfD, então, para muitos cidadãos que veem a política prevalecente como dirigida contra eles, a AfD parece estar do lado deles. Muitas pessoas que se sentem impotentes sob o capitalismo e o sistema político vigente sentem um senso de empoderamento ao votar em um partido que a mídia e o establishment político claramente temem, assim como temiam a radicalmente esquerdista Die Linke no final dos anos 2000.

Muitos eleitores agora veem o Die Linke como parte do establishment, possivelmente porque agiu timidamente e adotou uma postura excessivamente pró-governo durante o auge de crises anteriores.
O problema para o Die Linke é que, nos dezesseis anos desde a sua fundação oficial em 2007, não conseguiu capitalizar efetivamente nas diversas crises econômicas e políticas da Alemanha. Embora seu programa seja de longe o mais crítico do sistema e sua estratégia eleitoral seja baseada na política de classe, muitas vezes é percebido como apenas uma versão um pouco mais à esquerda dos Verdes e Social-Democratas. Muitos eleitores agora veem o Die Linke como parte do establishment, possivelmente porque agiu timidamente e adotou uma postura excessivamente pró-governo durante o auge de crises anteriores.

Independentemente do que se pensa de Wagenknecht, deve-se reconhecer que essa timidez não se aplica à política inflamada, que consistentemente se estabeleceu como uma populista antiestablishment. No entanto, paradoxalmente, nenhum outro político do Die Linke (ex ou atual) faz parte da elite midiática – convidado na TV com tanta frequência – como ela. Isso não é uma contradição fundamental como parece à primeira vista. Sua perspicácia e alto perfil público não são as únicas razões pelas quais ela se destaca na pequena tela. É também que sua intensidade e propensão à exageração tornam os programas de entrevistas mais divertidos e ajudam a impulsionar a audiência.

Wagenknecht parece autêntica – e é uma voz inabalável nos debates sobre política de migração, a pandemia de coronavírus e a guerra na Ucrânia. Isso também pode ser uma das razões pelas quais, apesar de seu atual compromisso com “pequenos negócios”, corte na economia ordoliberal, ela continua sendo respeitada por alguns à esquerda do Die Linke. Os admiradores de Wagenknecht não se limitam aos descontentes apoiadores do partido de esquerda, pois o público está cansado de políticos que são apenas porta-vozes do partido e sempre ama dissidentes que se destacaram indo contra a maré prevalecente de seus próprios partidos – de Heiner Geißler, o crítico capitalista da União Democrata-Cristã, a Wolfgang Kubicki, que gosta de se apresentar como um rebelde dentro das fileiras do Democratas Livres.

Guerra cultural ou política de classe

A Alemanha está presa a uma polarização tóxica entre um establishment governamental aparentemente “progressista” e uma alternativa de extrema direita radical, com os Cristãos Democratas – magneticamente atraídos para o polo de extrema direita – oscilando entre os dois. Um partido de Wagenknecht tem o potencial de escapar dessa dinâmica. Se o estabelecimento do partido tiver sucesso, um projeto populista difuso poderia se formar em torno de Wagenknecht que não pode ser claramente categorizado como pertencente à esquerda ou direita do espectro político partidário. Pode até ser um projeto partidário com uma abordagem estruturalmente de esquerda, encontrando seu lugar na lacuna no sistema partidário para uma força política focada em políticas distributivas.

No entanto, há um sério perigo de que Wagenknecht se concentre em tentar conquistar o considerável número de eleitores da Direita, baseando-se em retórica nacionalista, antimigração e de guerra cultural. Se o BSW pode se tornar um projeto de esquerda dependerá de até que ponto as vozes sindicais são ouvidas no novo partido. Para conseguir isso, Wagenknecht terá que resolver a óbvia contradição entre ser a favor de salários mais altos, negociação coletiva e aposentadorias, e sua ênfase agora comum em melhores condições para pequenas e médias empresas. A questão é se ela está disposta a se posicionar claramente a favor dos trabalhadores, mesmo que signifique más notícias para os pequenos capitalistas. Ou, de fato, se a entrada de ativistas de esquerda no BSW a forçará a fazer isso – contra sua vontade, mas como o preço que ela paga por ter uma base de membros politicamente experiente.

A ala esquerda do Partido Social-Democrata, Die Linke, e a esquerda socialista como um todo poderiam se beneficiar se um movimento essencialmente político de classe pudesse se desenvolver em torno do projeto partidário BSW. O cenário ideal seria um partido que caminhasse para uma renovação necessária e se opusesse à “falta de imaginação do establishment”, como o historiador e cientista político Hans-Jürgen Puhle descreveu acertadamente. Mas precisamente porque Wagenknecht soa conservadora em termos de política social e está claramente tentando evitar ser percebida como uma esquerdista, ela representa uma ameaça eleitoral maior para a Direita do que para a Esquerda. As pesquisas sugerem que o Die Linke dificilmente perderia votos para o BSW, já que seus eleitorados são muito diferentes.

Muitas das declarações de Wagenknecht são difíceis de digerir, já que ela segue a cartilha da AfD e alimenta o ressentimento contra os migrantes. No entanto, um novo partido com ela à frente poderia ter um impacto significativo em nosso atual momento populista. O crescimento da AfD poderia ser desacelerado e talvez até mesmo interrompido. O debate poderia retornar das linhas divisórias culturais para as questões socioeconômicas estruturais onde a Esquerda é mais forte e onde a falta de ação do establishment está preparando o terreno para o fascismo. Desempenhar uma função antifascista desse tipo não seria a única contradição no projeto contraditório de Wagenknecht.

Colaboradores

Sebastian Friedrich é jornalista freelance em Berlim. Ele é o autor do livro Der Aufstieg der AfD. Neokonservative Mobilmachung in Deutschland (2015) e Die AfD. Analysen - Hintergründe - Kontroversen (2017).

Ingar Solty é pesquisadora no Instituto de Análise Social Crítica da Fundação Rosa Luxemburgo, em Berlim.

23 de abril de 2023

Como a Alternativa para a Alemanha (AfD) radicalizou a direita

Dez anos após a sua criação, a Alternativa para a Alemanha (AfD) estabeleceu-se como uma presença constante no Parlamento Alemão. Agora, está a desafiar os democratas-cristãos — e a procurar derrubar as barreiras históricas à extrema-direita.

Sebastian Friedrich

Traduzido por 
Loren Balhorn

Jacobin
Líderes da AfD na celebração do décimo aniversário do partido em 6 de fevereiro de 2023 em Koenigstein, Alemanha (Thomas Lohnes/Imagens Getty)


Tradução / Quando Friedrich Merz se lançou na batalha para suceder a Angela Merkel como presidente da União Democrata Cristã (CDU) em novembro de 2018, ele estabeleceu um objetivo ambicioso. Merz disse ao tablóide alemão Bild que queria “reduzir para metade” a pontuação da Alternativa para a Alemanha (AfD). Na altura, era cerca de 15% nas sondagens. Com efeito, ao longo dos últimos cinco anos, se o seu progresso nacional se manteve praticamente nulo durante muito tempo, o partido lidera hoje as sondagens em vários estados, conseguindo reunir grandes sectores da direita com sucesso.

Não era um resultado inevitável à partida. Em abril de 2013, mais de mil pessoas se aglomeraram na sala de conferências lotada de um hotel para participar no congresso de fundação da AfD. Eles aplaudiram um professor de economia, Bernd Lucke, que, decididamente visando a CDU, falou com desprezo dos “velhos partidos” e disse que a Alemanha deveria afastar-se da UE, deixar a gestão da economia para o setor privado e adotar uma abordagem mais conservadora da política social. Além de Lucke, Frauke Petry, uma química, e Konrad Adam, um antigo jornalista, também foram eleitos para a liderança da AfD. Desde então, os três deixaram o partido.

Dez anos após a sua fundação, a face da AfD mudou radicalmente: enquanto o euroceticismo conservador era o tema dominante nos seus primórdios, a AfD é hoje predominantemente um partido de extrema direita. No entanto, existe uma constante entre a AfD original e a atual AfD: desde o início, a AfD procurou unir o bloco político de direita da CDU e o seu parceiro de coligação tradicional, os neoliberais do Partido Liberal Democrático (FDP).

Inicialmente, o partido representava uma aliança entre uma corrente ordoliberal em torno de algumas dezenas de professores de economia e uma rede nacional-conservadora composta por aristocratas, fundamentalistas cristãos e antifeministas. Pouco depois da sua criação, no entanto, entrou em cena uma terceira corrente: uma ala volkisch [nacionalista], claramente etnonacionalista, intimamente ligada à autoproclamada “Nova direita” que surgiu primeiramente em França e na Alemanha Ocidental na década de 1960 e que remete para ideias mais tradicionais de extrema–direita. A sua ideologia básica é um etno-nacionalismo que concebe o Volk [“Povo”] como uma comunidade etnicamente homogénea. Ele considera que a sua principal tarefa é mudar a realidade para que ela corresponda a esse ideal.

Apesar de todas as disputas internas, divisões e lutas de poder, estas três correntes continuam a dar o tom dentro da AfD. Esta constelação implica necessariamente certas contradições internas, dadas as diferenças substanciais entre os ordoliberais, os conservadores e os etnonacionalistas.

Por exemplo, o partido apresenta posições muito divergentes em termos de política económica e social, bem como em geopolítica. Outro ponto de desacordo, em torno do qual a maior parte das lutas internas da AfD giraram desde a sua criação, é de natureza estratégica: enquanto a maioria das figuras-chave das correntes nacional-conservadoras e ordoliberais prefere a moderação tática e uma abordagem parlamentar, uma grande parte da ala etno-nacionalista favorece uma estratégia de mobilização baseada numa oposição fundamental ao sistema político como tal.

No entanto, apesar destas profundas diferenças, a AfD sempre conseguiu evitar o tipo de cisão que ameaçaria a sua existência, mantendo-se fiel ao projeto do partido e centrando-se nos pontos de unidade que o mantêm unido: a ideologia de rejeição da igualdade.

Vinho Velho em Garrafas Novas

Depois de anos de luta feroz pelo poder e controle, a ala etnonacionalista da AfD assumiu agora a liderança do movimento. O partido tornou-se, portanto, o braço parlamentar do radicalismo da extrema-direita alemã, embora de uma forma um tanto modernizada.

Esta modernização é, em primeiro lugar, de natureza substancial. Continua centrada na homogeneidade do Volk, mas já não define essa homogeneidade com base na genética – estando bem ciente que os conceitos pseudo-biológicos caíram em descrédito com a derrota do Nazismo. Existem, de facto, algumas tentativas discretas de reabilitar a categoria de “raça” na esfera pública alemã, mas elas são apoiadas por um conceito paralelo muito mais inteligente: “etno-pluralismo”. O etno-pluralismo tem em conta a crítica do racismo genético, mas chega a conclusões semelhantes com a ajuda de argumentos antropológicos, etnológicos e psicológicos: diferentes povos podem viver lado a lado, mas não devem misturar-se e devem permanecer “puros”.

O conceito de etno-pluralismo remonta à década de 1970. Na altura, Henning Eichberg, um dos arquitectos do nacionalismo radical na Alemanha Ocidental, desenvolveu o conceito de sociedades etnicamente homogéneas, rejeitando assim o universalismo de esquerda e reformulando ideias racistas de uma forma que parece mais inofensiva do que o etnocentrismo agressivo dos Nazis. O etno-pluralismo continua a moldar a direita radical em toda a Europa hoje. É fundamental para os intelectuais da nova direita, bem como para as correntes fascistas e de extrema-direita em França, Itália e Espanha.

O etno-pluralismo é popular na Alemanha, não apenas entre o chamado movimento identitário (um grupo de protesto neofascista ativo em toda a Europa Ocidental), mas também entre os políticos da AfD. Hans-Thomas Tillschneider, membro do Parlamento do estado da Alta Saxónia, evocou o termo de um ângulo positivo durante uma contribuição para o debate programático do partido em setembro de 2018, afirmando que o etno-pluralismo representava o “fio condutor do programa da AfD”. Segundo ele, o partido deve “comprometer-se a preservar a unidade etnocultural que se chama povo alemão em todas as áreas”.

A influência desta ideologia é também notória quando o presidente honorário da AfD, Alexander Gauland, referindo-se a jogadores de futebol de origem imigrante, declarou que a seleção alemã já não era alemã “no sentido clássico da palavra”, ou quando os oradores da AfD distinguem entre “alemães de passaporte” e “alemães de verdade”. Em termos tanto da sua retórica como da sua plataforma política, a ala etnonacionalista da AfD representa, em última análise, uma espécie de Estado de apartheid etnicamente segregado, no qual os direitos sociais e democráticos estão ligados à origem nacional.

Além desta modernização ideológica, podemos também observar uma modernização estratégica dentro da extrema-direita alemã ao longo dos dez anos de história da AfD. A AfD há muito deixou de funcionar como um mero partido, mas constitui um elemento entre muitos num projecto político de extrema-direita que inclui também iniciativas de cidadãos de direita, meios de comunicação social, fraternidades estudantis, grupos de reflexão e subculturas. Os estrategas da ala etnonacionalista, em particular, não só procuram ganhar votos, mas lutam por questões de linguagem e pelo controle das ruas.

A AfD ganhou claramente a competição eleitoral dentro da direita alemã, fazendo progressos em quase todas as classes e todos os círculos sociais. Entretanto, o seu concorrente anterior, o Partido Nacional Democrático (NPD), mais explicitamente neonazi, e outros partidos de extrema-direita perderam em grande parte a sua importância ou dissolveram-se completamente. Dito isto, a ala etnonacionalista da AfD, em particular, vê o parlamentarismo com muito maus olhos.

De acordo com Björn Höcke, o líder indiscutível dos etnonacionalistas, o papel da AfD é servir de “voz do movimento” no Parlamento, que é considerado acima de tudo como um palco para promover as posições do partido. Não se trata apenas de um trabalho parlamentar: numa entrevista gravada, o Sr. Hocke explicou a orientação estratégica do seu campo: “algumas pequenas correções e reformas menores não serão suficientes. Mas a incondicionalidade alemã será a garantia de que abordaremos a questão de forma profunda e fundamental. Uma vez atingido o ponto de viragem, nós, alemães, não faremos as coisas pela metade”.

A luta em torno da língua é uma luta pela hegemonia cultural, de natureza “metapolítica”. O conceito de metapolítica é inspirado em muitos aspetos pela estratégia da Nova Esquerda pós-1968 na França. Esta abordagem implica que a hegemonia política vai além do quadro das eleições e dos partidos enquanto tais, mas é conquistada no “espaço pré-político”, isto é, a batalha pelas interpretações e modos de pensamento. Götz Kubitschek, um dos fundadores do Institute for State Policy (IFS), um grupo de reflexão de extrema-direita e um quadro da Nova Direita, identifica três estratégias discursivas para a guerra cultural da extrema-direita:

Em primeiro lugar, a direita deve ultrapassar os limites do que pode ser dito através de provocações específicas. Para este fim, é necessário “empurrar provocativamente os limites do que pode ser dito e do que pode ser feito”. Desde o início, a AfD utilizou esta estratégia de transgressão calculada dos tabus, que lhe permitiu dominar os debates políticos, especialmente nos primeiros anos da sua existência.

Em segundo lugar, a direita deve seguir uma estratégia de “interligação” com o objetivo de “impedir que a artilharia inimiga dispare”. A direita deve interligar as suas próprias tropas com as do inimigo, para que este nunca saiba ao certo “se ele não atingirá o seu próprio povo quando disparar”. Em termos práticos, isto significa que temos de concordar com os políticos conservadores quando estes condenam a política do governo alemão em relação aos refugiados.

Em terceiro lugar e finalmente, Kubitschek recomenda uma estratégia conhecida como Selbstverharmlosung – que poderia ser traduzida grosseiramente como “auto-trivialização”. A direita deve procurar “repelir as acusações do opositor, demonstrando a nossa própria inofensividade e realçando que nenhuma das nossas exigências fica aquém das normas da sociedade civil”. Na realidade, de acordo com esta postura, a direita não é tão má; opõe-se à violência e apoia a Constituição e a democracia. No entanto, adverte, a direita deve ter cuidado para não se afundar demasiado na auto-trivialização.

Além da batalha pelos votos e da batalha pelas mentes, a Nova Direita está também a travar uma batalha pelas ruas. Nesta área, a AfD conseguiu repetidamente construir pontes para mobilizações de rua de extrema-direita, como o Pegida, um movimento extraparlamentar Islamofóbico. O ponto culminante da estratégia destinada a tornar a AfD a principal força do movimento de extrema-direita foi uma manifestação em Chemnitz em 1 de setembro de 2018, durante a qual altos quadros da AfD marcharam lado a lado com figuras de proa do Pégida, os ativistas identitários e os rufias neo-nazis. Esta manifestação marcou a primeira vez em que a AfD se apresentou abertamente como a força dirigente de uma frente de direita unida que combina a luta de rua com a atividade parlamentar.

O Mosaico de Direita sob Pressão

A ala etno-nacionalista da AfD e do partido como um todo passou por anos difíceis em 2020 e 2021. O partido estagnou em cerca de 10% nas sondagens, o Gabinete de proteção da Constituição começou oficialmente a controlar as suas atividades e os opositores da ala etnonacionalista ganharam terreno nas lutas internas do partido. Tudo isto foi motivo de preocupação e algumas personalidades de extrema-direita começaram a virar as costas ao partido. Para eles, parecia que a “lei de ferro da oligarquia” estava em vias de ser aplicada mesmo à frente dos seus olhos. Este termo foi cunhado pelo social-democrata que se tornou fascista Robert Michels, segundo o qual os partidos tendem a desenvolver burocracias e elites de poder e, portanto, perdem o seu ímpeto com o tempo.

Por vezes, a AfD quase perdeu o controlo dos movimentos de rua. Durante os protestos contra o confinamento e a vacinação que surgiram em torno da pandemia COVID, o partido perdeu o seu estatuto de vanguarda do movimento de direita em partes da Alemanha Oriental em favor de um grupo conhecido como “Saxónia livre”. Críticos de direita criticaram a AfD por investir muito pouco na consolidação da sua periferia e por prestar pouca atenção ao movimento.

Entretanto, os estrategas de extrema-direita estão a prestar mais atenção à interação entre o partido e os vários protagonistas do movimento, desenvolvendo o termo “mosaico de direita”, cunhado por Benedikt Kaiser, intelectual do IfS, em referência ao conceito de “mosaico de esquerda” do sindicalista alemão Hans-Jürgen Urban. A ideia básica deste termo é que todas as forças de direita devem trabalhar num projeto político comum, dando-se espaço suficiente para as suas respetivas esferas: o Partido, uma revista, um grupo de jovens, mulheres artistas, fraternidades universitárias e grupos de hooligans de extrema-direita. Numa sociedade moderna e diversificada como a Alemanha, a direita política também deve ser diversificada.

Uma base importante para a AfD e para a sua ala etnonacionalista é a do leste da Alemanha, onde o partido obteve entre 20 e 25% dos votos durante vários anos. Aqui, a AfD está a marcar pontos com a sua retórica anti-establishment. O menor nível de confiança dos alemães orientais nas instituições do Estado deve-se, em parte, ao facto de, com a adesão do leste à república Federal, muitas coisas terem mudado para pior num curto espaço de tempo: praticamente da noite para o dia, o antigo proletariado industrial foi confrontado com uma transformação estrutural forçada, uma desindustrialização fixada como grande objetivo e, consequentemente, um desemprego em massa.

O que levou décadas nas regiões industriais da Alemanha Ocidental a ser lentamente feito, como o Ruhr, e causou convulsões no tecido social, apesar das tentativas do Estado de mitigar o choque, ocorreu em poucas semanas no início dos anos 1990 no território da antiga Alemanha Oriental. Em vez das “paisagens florescentes” prometidas pelos políticos da Alemanha Ocidental, acabaram por ficar apenas com ruínas industriais. Em vez da esperança veio a desilusão.

Na Alemanha Oriental, os laços da população com as ideologias e as instituições da antiga República Federal não tiveram, portanto, de se enfraquecer ao longo do tempo – nunca foram particularmente fortes para começar. Ao contrário da Alemanha Ocidental, uma grande parte da antiga Alemanha Oriental mergulhou durante trinta anos numa crise de hegemonia permanente, na qual as elites políticas e económicas não conseguem chegar às massas e estabelecer um consenso social. A participação dos eleitores é significativamente menor no leste do que no oeste, assim como o número de cidadãos ativos em associações voluntárias ou organizações sem fins lucrativos.

Esta situação permitiu à AfD e aos seus apoiantes preencher o vazio, especialmente nas zonas rurais, até porque a direita conseguiu apresentar-se como defensora dos interesses dos alemães orientais. Ao fazê-lo, o partido liga-se conscientemente à experiência de 1989-1990: “completar o Wende“, o termo utilizado para descrever a viragem daquele período, é um slogan frequentemente utilizado pela AfD na Alemanha Oriental. A mensagem é clara: na altura, o povo levantou-se contra os figurões do partido no poder; hoje, ele está a fazê-lo contra o poder político estabelecido da república Federal.

O Braço Parlamentar da Violência nas Ruas

Como representação parlamentar de um radicalismo de extrema-direita modernizado, e como parte da sua estratégia de “auto-trivialização”, a AfD tentou distanciar-se da violência. No entanto, apesar de todas as suas tentativas, persistem ligações com grupos potencialmente violentos.

Um exemplo: entre as vinte e cinco pessoas detidas durante a chamada Operação “Reichsburger” em dezembro de 2022, quando a Polícia Federal prendeu uma rede de supostas milícias de extrema-direita, estava um juiz de Berlim que foi membro no Parlamento alemão pela AfD até 2021. A associação, que se autodenominava “União Patriótica”, planeava, alegadamente, invadir o Parlamento pela força das armas e instalar um autoproclamado governo.

Um segundo exemplo: em junho de 2019, Stephan Ernst, um extremista de direita, matou a tiros Walter Lübcke, um político da CDU e chefe da Administração Pública em Kassel. Ernst tinha sido um apoiante da AfD, participando nos seus eventos e doando dinheiro ao partido, e em 2018 ajudou na campanha eleitoral no estado de Hesse pendurando cartazes e trabalhando nos piquetes.

Um terceiro exemplo: em outubro de 2020, um membro da AfD acelerou com um 4×4 contra uma manifestação antifascista à margem de um evento do partido em Henstedt-Ulzburg, em Schleswig-Holstein. Algumas das vítimas ficaram gravemente feridas. O Ministério Público acusa o condutor de ter atingido os manifestantes “com a intenção de matar”.

Estes são os casos mais óbvios de ligações entre a AfD e a violência de extrema-direita. Há muitos outros casos que são difíceis de provar diretamente, mas em que a propaganda de extrema-direita encorajou os autores da violência a pôr em prática a alegada vontade do povo, tal como formulada pela AfD. No entanto, nem estas ligações, nem a persistente deriva de extrema-direita do partido, nem o seu acompanhamento pelo Gabinete de proteção da Constituição, causaram danos substanciais à AfD.

Dez anos após a sua criação, o partido impôs-se como uma presença política duradoura. Tem assento em quase todos os parlamentos estaduais, tem centenas de deputados e ainda mais colaboradores. As esperanças de ver a AfD dilacerada pelas suas contradições internas não se concretizaram, e é pouco provável que o sejam no futuro.

Ao contrário do Die Linke, que está atualmente à beira de uma cisão danosa, a AfD consegue ultrapassar as suas divergências internas fundamentais de opinião e, em alguns casos, utilizá-las de forma produtiva. Os conflitos estão agora a decorrer nos bastidores, de uma forma relativamente discreta.

A AfD também consegue esconder as suas diferenças internas em relação à guerra na Ucrânia. Tal como a esquerda, o campo de direita apresenta uma vasta gama de opiniões sobre o papel da Rússia e da NATO. As vozes (principalmente da Alemanha Ocidental) que apoiam a NATO são provavelmente minoria dentro do partido em comparação com aquelas que expressam um certo “entendimento” para com a invasão russa, em parte porque alguns consideram a Rússia de Putin como um modelo para a sua própria abordagem política. No entanto, é permitido um certo grau de pluralismo interno nesta questão.

Após o último congresso do partido federal em Riesa, em junho de 2022, o equilíbrio de poder foi esclarecido no momento: a ala etnonacionalista veio para ficar. A esquerda alemã deve agora preparar-se para pelo menos mais dez anos de AfD.

No entanto, a AfD enfrenta um dilema estratégico: com toda a probabilidade, os outros partidos não formarão uma coligação com ela num futuro próximo. Mesmo na Alemanha Oriental, onde a AfD é particularmente forte e onde a CDU está mais relutante em distanciar-se dos populistas de direita, é provável que nenhuma coligação seja prevista a médio prazo. Até agora, as forças de direita da CDU que procuram dar início a tal movimento foram severamente repreendidas. Após discussões entre os membros da CDU e a AfD no Parlamento do estado Alta da Saxónia, no final de 2020, que se concentraram na tolerância de um governo minoritário da CDU, Holger Stahlknecht, o Ministro do Interior da CDU que aparentemente estava aberto a tal proposta, foi forçado a deixar o seu posto.

O facto de uma coligação ser muito pouco provável nesta fase é adequado aos dirigentes da ala etnonacionalista, porque não aspiram a cooperar com a CDU. O seu modelo é a Itália, onde a extrema-direita conseguiu exercer uma pressão tão grande sobre os partidos conservadores estabelecidos que estes sofreram uma grande erosão. A destruição da CDU é a perspectiva a longo prazo dos etnonacionalistas. Na melhor das hipóteses, uma CDU purificada e muito enfraquecida, deslocando-se consideravelmente para a direita, estará pronta para aderir a um governo da AfD como sendo o seu parceiro júnior.

A AfD sabe que isso não acontecerá tão cedo. Mas os seus líderes estão a pensar numa escala maior e a longo prazo. Se se limitarem apenas aos etnonacionalistas, os primeiros dez anos da AfD serão apenas o primeiro passo.

Colaboradores

Sebastian Friedrich é um autor e jornalista de Hamburgo.

Loren Balhorn é um editor colaborador da Jacobin e coeditor, junto com Bhaskar Sunkara, da Jacobin: Die Anthologie (Suhrkamp, ​​2018).

29 de junho de 2017

Entre o capital e o "volk"

O AfD da Alemanha se apresenta como um defensor do "homem comum", mas busca impor uma forma autoritária de neoliberalismo.

Sebastian Friedrich e Gabriel Kuhn

Jacobin

Uma manifestação do partido AfD em Mainz, Alemanha, em 2015. Franz Ferdinand Photography

Tradução / O partido “Alternativa para a Alemanha” (Alternative für Deutschland, ou AfD) ganhou as manchetes desde sua fundação em 2013. Depois de enfrentar uma série de lutas ideológicas, conflitos interpessoais e deserções, o partido conseguiu em apenas alguns anos o que nenhum outro partido alemão conseguiu desde 1945: unir todas as principais correntes políticas à direita da chamada “União” – os democratas-cristãos (CDU) e seu aliado bávaro, a União Social Cristã ( CSU) – em uma organização. A AfD também atrai o apoio da periferia mais conservadora da Democracia Cristã, estabelecendo uma ligação orgânica entre o conservadorismo e a extrema direita.

O AfD está atualmente representado em quase todos os dezesseis parlamentos estaduais da Alemanha – um desenvolvimento aparentemente impensável alguns anos atrás – além de ter a maior bancada de oposição no parlamento nacional, o Bundestag. Mas que tipo de partido é a AfD? Por que foi capaz de sacudir a política alemã e quais são as razões por trás de sua ascensão?

O racha conservador

Desde 1945, a maioria dos conservadores da Alemanha se organizou na União, que sempre conteve uma forte ala nacional-conservadora. Esta ala tem sofrido pressão crescente devido a mudanças fundamentais na sociedade alemã nas últimas décadas, cujo início pode ser rastreado até a década de 1960: os imigrantes exigiam ser mais do que apenas hóspedes, as mulheres eram mais do que esposas e gays e lésbicas ser mais do que desviantes sexuais. As lutas sociais que se seguiram levaram a mudanças significativas nas atitudes e valores da população alemã.

Hoje, até mesmo a União reconhece a Alemanha como um “país de imigração”. Sua ala direita foi enfraquecida e posições totalmente reacionárias, como uma definição étnica da identidade alemã, foram marginalizadas. As mulheres não são mais vistas como servas naturais de seus maridos, e os direitos de gays e lésbicas a parcerias para a vida toda e à paternidade estão legalmente consagrados. A modernização das políticas de imigração, gênero e família da União é principalmente estratégica: particularmente desde que Angela Merkel se tornou líder do partido em 2000, o partido tem procurado cada vez mais atrair novos eleitores do centro, ao invés da direita.

Várias revoltas internas contra a “deriva liberal” da União realmente ocorreram, mas não só foram malsucedidas, como também ajudaram a fortalecer a posição de Merkel, à medida que numerosos direitistas desencantados deixaram o partido revoltados. Esses renegados se juntaram a um crescente movimento conservador popular acusando a União de trair a causa conservadora. Aqui, o que eventualmente se tornaria o AfD começou a se aglutinar.

Contradições dentro da capital alemã

A crise do conservadorismo coincidiu com uma crise do neoliberalismo, quando a destruição provocada pela crise financeira de 2008 tornou os perigos do neoliberalismo flagrantemente óbvios.

De modo geral, uma crise estrutural pode ter dois resultados possíveis: ou as classes dominantes fazem ajustes à ordem prevalecente que lhe permite sobreviver, ou o paradigma político passa por uma mudança mais fundamental. Embora uma mudança de paradigma na política europeia parecesse possível por um breve momento (a ascensão do Syriza na Grécia, por exemplo), logo ficou claro que uma versão ligeiramente modificada do neoliberalismo prevaleceria.

O governo alemão reagiu à crise aceitando déficits orçamentários, a fim de impulsionar a economia vacilante e compensar a queda da demanda. Em 2009, no entanto, foi aprovado o chamado Schuldenbremse (literalmente, um “freio da dívida“), uma emenda constitucional que exige orçamentos equilibrados no futuro do país. O aumento dos gastos do governo seria uma medida estritamente temporária.

A oferta continuou a ser o princípio orientador da política fiscal e econômica não apenas na Alemanha, mas em toda a União Europeia (UE), e as políticas de austeridade que varreram o continente foram sua consequência lógica. No entanto, surgiu um conflito entre o caminho neoliberal da UE e uma nova posição “nacional-neoliberal” que busca reforçar a soberania nacional. Essa corrente foi particularmente pronunciada na Alemanha, até porque o euro, moeda comum de 19 países da UE, também foi fortemente afetado pela crise econômica. A questão de saber se as dívidas individuais dos Estados membros da zona do euro deveriam ser cobertas por todos os Estados membros ou apenas os endividados abriu uma divisão entre a classe dominante alemã.

Por décadas, os capitalistas da Alemanha permaneceram unidos, articulando seus interesses em uma voz comum. Mas a Grande Recessão trouxe diferenças subjacentes à tona, mais notavelmente entre as empresas que produzem, principalmente, para os mercados internacionais e aquelas que produzem aos mercados domésticos. Esse conflito de interesses é a chave para entender por que certas facções do capital alemão se uniram em apoio à AfD.

As empresas orientadas para os mercados internacionais são relativamente flexíveis quando se trata de mudar locais de produção e metas de consumo. O capital voltado para a exportação lucra tanto com o mercado comum europeu quanto com um euro fraco, ao passo que, para as empresas que produzem para o mercado interno, não faz diferença se seus produtos são pagos em euros ou em moeda nacional como o antigo marco alemão. Para eles, mais integração europeia significa mais competição.

Muitas pequenas e médias empresas alemãs se ressentiram dos esforços do governo alemão para resgatar o euro, agindo assim no interesse do capital voltado para a exportação. Esses “eurocéticos” eram apoiados por economistas nacionalistas que exigiam um Estado-nação forte diante das instituições europeias para resolver a crise.

A nova corrente nacional-neoliberal inicialmente tentou ganhar uma posição nos principais partidos, a União e o Partido Democrático Livre (FDP), mas fracassou em grande parte. O euro facilitou novos laços em todo o continente que os partidos estabelecidos não conseguiam e não queriam romper. Diante dessa situação intratável, os céticos do euro se viram marginalizados e precisam de uma estrutura organizacional alternativa para fundir a economia neoliberal com o conservadorismo cultural e a soberania do Estado-nação. Essa estrutura foi fornecida pelo AfD, que se propôs a unir o campo conservador-nacional tradicional com o novo campo neoliberal nacional.

A ala “Völkisch”

Não demorou muito para que um terceiro campo, a ala etnacionalista ou “völkisch”, emergisse dentro do partido. O nacionalismo Völkisch, que tem suas raízes nos ideais românticos pan-germânicos do final do século XIX, equipara a identidade nacional a uma população exclusiva e homogênea. O Estado völkisch não é baseado em um contrato social, mas na herança comum de seu povo (Volk), onde a questão de quem pertence é determinada pela ancestralidade. Essa ancestralidade não é necessariamente de natureza exclusivamente étnica, mas estipula uma compreensão monolítica da cultura. O “outro” pode não ser excluído pelos traços físicos, mas é marcado por uma diferença cultural tida como essencial e irrevogável. Kulturkreis (literalmente, “círculo cultural”) é o termo alemão mais comumente usado para essas comunidades supostamente hegemônicas. As contradições dentro deles, bem como as trocas e sobreposições históricas entre eles são negadas ou banalizadas. Como uma categoria quase natural, o Kulturkreis define a identidade de qualquer indivíduo associado a ele.

Esse tipo de “racismo sem raças” cresceu consideravelmente na Alemanha desde o verão de 2015. Na época, o governo de Merkel decidiu abrir temporariamente as fronteiras para refugiados que chegavam em massa do Oriente Médio, Ásia Central e Norte da África. Os ultraconservadores e adeptos da ideologia völkisch foram rápidos em alertar sobre o chamado Überfremdung, a “dominação estrangeira” do povo alemão. Aos seus olhos, o governo havia perdido o controle da situação e abandonado seus súditos. Esta opinião foi generalizada mesmo entre as bases da União. Essa dinâmica encorajou o AfD, particularmente sua ala völkisch, que recebeu um novo impulso quando uma onda de políticos moderados renunciou ao partido.

Assim, o AfD começou a se concentrar nos eleitores “perdedores da globalização”. O apoio inicial do partido veio principalmente de profissionais e empresários dos escalões superiores da sociedade. Agora, o apoio entre os desempregados e desprivilegiados também cresceu, devido ao sucesso do AfD na vinculação da ideia de que desigualdade social aumentou devido à imigração. Enquanto os interesses materiais semelhantes dos refugiados e dos pobres alemães foram minimizados, as diferenças étnicas e culturais foram ampliadas.

Representantes da ala völkisch até falaram de uma “nova questão social” na Alemanha, dando a entender que a principal contradição não era mais entre a base e o topo da sociedade, mas entre dentro e fora. O AfD raramente visa os ricos em sua defesa do “homem comum”, mas em vez disso concentra sua ira nos imigrantes e refugiados, acusando-os de aceitar doações do governo sem contribuir para o Estado de bem-estar. De acordo com o AfD, são os migrantes e refugiados que roubam os frutos dos trabalhadores alemães, não seus patrões alemães.

A defesa do “homem comum” se tornou uma parte central das relações públicas do AfD. Mas a retórica do partido não deve ser confundida com seu programa, que favorece a desoneração fiscal que beneficia os ricos e defende uma versão autoritária da economia neoliberal.

Para realmente entender por que o AfD é capaz de ganhar apoio entre a classe trabalhadora alemã, precisamos considerar mais uma crise da qual ela tinha proveito: a crise do socialismo.

Como em muitas nações industrializadas, a desigualdade social aumentou na Alemanha desde os anos 1970. Com o apoio ideológico ao capitalismo diminuindo por causa da Grande Recessão, esta se tornou uma questão política importante. Embora a economia alemã tenha saído da recessão relativamente ilesa devido ao comércio exterior agressivo e aos baixos salários internos, a era de ouro do capitalismo alemão acabou.

A Alemanha do pós-guerra foi caracterizada pelo conservadorismo social, sindicatos fortes, baixo desemprego e apoio quase universal ao parlamentarismo democrático. Quando as tentativas neoliberais de abrir novos mercados e garantir o crescimento permanente através da desregulamentação e privatização falharam, a classe trabalhadora pagou o preço: os salários diminuíram, o trabalho tornou-se cada vez mais flexível, o emprego menos seguro e um setor com baixos salários precário foi estabelecido.

Uma crise social não beneficia automaticamente a esquerda. Embora o partido de esquerda Die Linke tenha conseguido atrair vários trabalhadores insatisfeitos, o apoio da classe trabalhadora ao Partido Social Democrata (SPD) despencou nos últimos 15 anos. Em sua tentativa de acompanhar o desenvolvimento econômico, o SPD ignorou os interesses da classe trabalhadora e se transformou em um agente político confiável do neoliberalismo. O AfD frequentemente aparece como o único partido que trata dos padrões de vida em declínio da classe trabalhadora, embora com falsas soluções nacionalistas.

Cem anos atrás, o escritor de esquerda Kurt Tucholsky comparou o alemão médio a um ciclista: olhando timidamente para cima e chutando violentamente para baixo. Todas as promessas da AfD são baseadas nesta imagem.

A nova direita

O AfD é o resultado de desenvolvimentos distintos, mas convergentes: a crise do conservadorismo, a crise do capital e a crise do socialismo. Este é o pano de fundo contra o qual uma nova direita, com o AfD no centro, emergiu. Engloba meios de comunicação, intelectuais, movimentos sociais, think tanks, fundamentalistas cristãos, entidades estudantis, organizações antifeministas, libertários de direita, aristocratas e certas facções do capital.

O AfD é o eixo desse desenvolvimento. Ele fornece uma plataforma para as diferentes correntes se fundirem e expressarem suas opiniões para um público maior. O AfD é tanto um reflexo da nova direita quanto seu motor – seu futuro mostrará se as diferentes correntes de direita da Alemanha são capazes de colaborar entre si a longo prazo e se alguma delas tem a capacidade de assumir um papel de liderança.

A maior ameaça do AfD é, de longe, o conflito interno dentro de suas próprias fileiras. Se o partido entrar em colapso em um futuro próximo, será apenas por esse motivo. A nova direita é extremamente heterogênea e pode haver conflito a qualquer momento. Os conservadores nacionais moderados e os neoliberais nacionais estão profundamente preocupados com a colaboração da ala völkisch com as forças da extrema direita extraparlamentar. O maior potencial de conflito, no entanto, está relacionado à política econômica, uma vez que o partido não conseguiu se unir em questões-chave como o livre comércio. Enquanto alguns membros do partido rejeitam a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP) categoricamente, outros estão dispostos a apoiá-la se certas condições forem atendidas. Propostas de políticas concretas que atendem aos interesses dos mais ricos da Alemanha estão ao lado de afirmações retóricas que finge representar os pobres e oprimidos. As tentativas da ala völkisch de introduzir políticas de bem-estar se chocam com o programa favorável ao capital do partido e com o forte apoio de que ainda goza entre os proprietários de pequenas e médias empresas e a pequena burguesia.

Unir todas as correntes do partido é uma ideologia da desigualdade. Não importa se o foco está no coletivo (como na ala völkisch) ou no individual (como na ala nacional-neoliberal). O lema é o mesmo: o mais forte dominará o mais fraco.

A resposta da esquerda

Para analistas políticos, o sucesso do AfD não é nenhuma surpresa. As pesquisas mostram que um partido à direita da União tem um grande potencial na Alemanha há muito tempo. Cerca de 20% da população declara regularmente sua disposição de votar no partido se um candidato sério surgir.

No passado, o sucesso dos partidos de direita durou pouco, principalmente devido a conflitos dentro do movimento mais amplo da direita. Nas décadas de 1980 e 1990, tanto os republicanos (Die Republikaner) quanto a União do Povo Alemão (Deutsche Volksunion, DVU) estavam representados em alguns parlamentos estaduais da Alemanha. O Partido Nacional Democrático (NPD), de extrema direita, teve membros eleitos para vários parlamentos estaduais mais recentemente, mas seu apelo aos eleitores conservadores permaneceu limitado devido às suas ligações claras com o passado nazista do país. Atualmente, o NPD desempenha um papel insignificante na política eleitoral, principalmente devido à ascensão do AfD.

Como afirmado acima, o AfD é o primeiro partido do pós-guerra capaz de unir as diferentes correntes da direita alemã. No entanto, é sustentado apenas por uma minoria da população alemã (embora significativa). As pesquisas estão entre 7% e 11% em todo o país, rivalizando com outros partidos de oposição menores, como os Verdes, FDP e Die Linke, mas não tem o poder de moldar a política governamental.

Sob este aspecto, parece que tanto os partidos quanto a mídia exageraram a ameaça representada pela AfD. A quebra de tabus políticos é uma ferramenta estratégica que lhe confere atenção desproporcional na mídia. Ao mesmo tempo, as ações do governo muitas vezes escapam ao escrutínio. Afinal, foram a União e o SPD que reduziram drasticamente a lei de asilo alemã nos últimos meses, não o AfD. Como consequência, os refugiados recebem menos apoio financeiro e serviços sociais, os pedidos de asilo são rejeitados sem investigação adequada, o Residenzpflicht (“residência obrigatória”) foi reintroduzido, limitando severamente a livre circulação de requerentes de asilo dentro da Alemanha, e países dilacerados pela guerra foram declarados seguros para viver, o que significa que os refugiados são devolvidos a eles em números cada vez maiores. Todas essas medidas refletem e ecoam as demandas do AfD.

Apesar disso, os partidos governantes continuam a se apresentar como a última linha de defesa contra a ascensão da extrema direita. Liberais, sociais-democratas, conservadores modernos e cosmopolitas neoliberais afirmam formar uma frente contra as forças ultraconservadoras e os völkisch. Muitos na esquerda ajudaram a estabelecer esta frente, mas é a frente errada para lutar.

Os principais neoliberais da Alemanha dão as boas-vindas à modernização da sociedade. Eles são socialmente progressistas, enquanto seu programa econômico se baseia exclusivamente no desempenho individual e na competição. Eles implementaram leis para proteger a diversidade social e cultural, mas também priorizaram os interesses do capital voltado para a exportação em detrimento a classe trabalhadora. O neoliberalismo progressista atingiu seu ápice na coalizão entre social-democratas e verdes, que governou a Alemanha de 1998 a 2005. Representando a ala esquerda do que Tariq Ali apelidou de “centro extremo“, conseguiu melhorar o status legal das minorias enquanto estava, ao mesmo tempo, desmantelando o Estado de bem-estar social em que muitos deles dependiam. Também aprovou uma série de incentivos fiscais para os ricos. Os governos liderados pela União seguiram o mesmo curso. A resposta do AfD é dupla: busca reverter as reformas dos direitos civis e reinterpretar o neoliberalismo em termos nacionalistas e protecionistas.

Parece que há apenas duas posições possíveis em relação à lei de asilo alemã: Merkel e AfD. A solidariedade com os refugiados demonstrada por grande parte da população alemã não foi conduzida a uma alternativa viável. A direita definiu rapidamente os termos do debate e muitos na esquerda se viram defendendo Angela Merkel e sua retórica humanitária. Padrões semelhantes caracterizam os debates sobre a União Europeia, a globalização e a intervenção militar estrangeira: a direita dá o tom, a esquerda fica em silêncio e os partidos do establishment se apresentam como os nobres defensores da sociedade civil.

Livrar-se dessa situação difícil é o maior desafio da esquerda alemã hoje. Qualquer projeto de esquerda deve ser baseado em princípios de solidariedade, justiça e igualdade social. Isso significa que ele não pode se limitar a uma crítica ao nacionalismo reacionário, deixando assim o neoliberalismo progressista fora do alvo – um projeto de esquerda incapaz de se posicionar em oposição a ambos está fadado ao fracasso.

Sobre os autores

Sebastian Friedrich é jornalista freelance em Berlim. Ele é o autor de Der Aufstieg der AfD. Neokonservative Mobilmachung in Deutschland (2015) e Die AfD. Analysen - Hintergründe - Kontroversen (2017).

Gabriel Kuhn é um escritor austríaco que publicou extensivamente sobre a esquerda de língua alemã. Sua última publicação é Antifascism, Sports, Sobriety: Forging a Militant Working-Class Culture. Selected Writings by Julius Deutsch (2017).

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A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...