15 de julho de 2017

O significado da condenação de Lula

A condenação de Lula poderia reforçar as quezílias da classe dominante do Brasil enquanto fragmentaria ainda mais a esquerda.

Benjamin Fogel e Alex Hochuli

Jacobin

O jovem Lula no Rio de Janeiro. Clóvis Ferreira / Flickr

Após quase trinta anos de tentativas, as forças da reação brasileiras condenaram o líder do Partido dos Trabalhadores (PT) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula é o principal candidato para as eleições gerais de 2018, e se a sua condenação estiver em pé, ela deixa a disputa aberta, forçando o PT - e a esquerda mais larga - a reconsiderar seriamente sua estratégia. O PT sem Lula é como o time de futebol brasileiro de 2014 sem o seu jogador estrela Neymar, que culminou no dia mais sombrio da história esportiva brasileira: a derrota histórica de 7-1 pela Alemanha.

O golpe parlamentar de 2016 foi realizado na esteira dos protestos contra a corrupção que visavam o PT. Estes foram alimentados pelo vazamento regular de revelações de corrupção para a mídia pelas investigações de Lava Jato. Mas se o impeachment de Dilma Rousseff no ano passado foi a principal manobra do golpe, a convicção de Lula agora parece ser sua conclusão.

Mas, como acontece com tudo o mais na crise interminável e acelerada do Brasil, nada é garantido. O futuro será determinado tanto pela mobilização popular contra as reformas neoliberais como pelo conflito em curso dentro de uma classe dominante fraturada.

Voltas e mais voltas

A condenação de Lula vem em um momento estranho para a esquerda brasileira, que, há apenas dois meses, parecia estar de volta ao auge, montando uma greve geral histórica em que participaram mais de quarenta milhões de trabalhadores e grandes protestos na capital, Brasília, em que três edifícios governamentais foram incendiados.

Poucas semanas depois, os irmãos da liderança da JBS, a maior empresa de processamento de carne do mundo e com sede no Brasil, entraram em uma disputa em que revelaram os segredos do presidente Michel Temer - o presidente não eleito que lidera drásticas reformas neoliberais - e suas relações corruptas, ao expor uma conversa sobre impeachment. As mesas pareciam ter sido viradas.

No entanto, essa energia rapidamente se dissipou. Uma segunda greve geral convocada para 30 de junho teve pouca mobilização, com grandes sindicatos alinhados com o PT que se retiraram no último minuto, e foi imediatamente visto como um fracasso completo.

A explicação para este desastre está em parte no papel e nos cálculos do PT entre a esquerda mais ampla. O PT, que há muito tem um lado burocrático apesar da sua história radical e da imagem popular de esquerda, teme que a desestabilização e novas eleições possam prejudicar uma transição ordenada de volta a uma presidência lulista em 2018.

No nível local, o PT manteve sua antiga aliança com o PMDB, o mesmo partido que acusou Rousseff e instalou Temer na presidência, e espera retornar ao poder com essa aliança intacta. Isso desmoralizou a esquerda. Embora a condenação de Lula possa desencadear uma nova rodada de protesto em massa, seria apenas uma máscara da fragmentação da esquerda.

Frações e pactos

A condenação de Lula ocorre no meio das investigações anti-corrupção da Lava Jato, que começaram em 2014. Elas escalaram nos últimos três anos, atraindo cada vez mais quantidade de líderes políticos para a sua rede de arrasto. E, no entanto, parece que a maior parte delas se destina ao PT enquanto deixa outros partidos fora do alcance. O processo foi amplamente denunciado por sua parcialidade, excesso de alcance e espetáculo por meio da mídia.

Lula foi primeiro preso - sem acusação, resultado de uma espécie de "ordem de prisão" - em março de 2016, um golpe de mídia para aqueles que se moviam para acusar sua correligionária à frente do PT, Rousseff, usando acusações infligidas de corrupção. Muitos alegaram que a Lava Jato estava avançando um domínio pelo poder judiciário que reverteria ao invés de aprofundar a democracia no Brasil.

Em nome da luta contra a corrupção, um poder judiciário independente e poderoso pode ser responsabilizado por interesses corporativos ou setoriais. Como instituição contra-majoritária, poderia, adicionalmente, através de uma ação judicial seletiva, procurar desestabilizar os representantes eleitos. Ao invés de cidadãos cobrando a conta de seus representantes, juízes não eleitos é que estão.

No entanto, nas últimas semanas, a força-tarefa da Lava Jato - a querida da classe média alta - foi encerrada, com muitas de suas responsabilidades dispersas entre a Polícia Federal em todo o país. Embora o governo tenha argumentado que isso era para diminuir sua carga de trabalho, os próprios investigadores protestaram que isso estava realmente cortando as asas da unidade anticorrupção mais dinâmica do país.

A suspeita é que o governo Temer esteja buscando restringir as ações da Polícia Federal. Por exemplo, a força no mês passado se recusou a emitir passaportes devido a uma "falta de orçamento" em uma manifestação aparente contra os cortes do governo federal no financiamento à polícia. O término da Lava Jato também marca uma derrota para a tentativa de uma seção mais jovem da elite de renovar o establishment brasileiro através da vanguarda do judiciário radical.

Tudo isso fala de um ambiente turbulento dentro do establishment brasileiro. Mas não é apenas o PT que foi lançado na crise pelas investigações de corrupção. A elite brasileira historicamente mostrou um extraordinário grau de solidariedade intra-classe; recentes investigações de corrupção destruíram essa unidade.

A classe política brasileira, o judiciário e as principais empresas - em particular o enorme conglomerado de mídia Globo - estão agora em desacordo um com o outro. A Globo quer resolver a crise ao restaurar a credibilidade do sistema político através do apoio à investigação da Lava Jato.

Os capitalistas astutos como Joesley Batista, da JBS, que entregaram as fitas que poderiam servir de base para o julgamento de Temer, estão mais do que dispostos a jogar seus aliados políticos aos crocodilos se os mantiverem fora da prisão. Nesses casos, a classe política brasileira ameaçada reclama de "excessos do judiciário" em uma tentativa desesperada de evitar a prisão.

Isso teve o efeito desagradável de sobrepor os interesses da liderança do PT com os dos mesmos gangsters que o removeram do poder. Até mesmo houve relatos de encontros entre Lula, Temer e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sugerindo um iminente pacto da elite contra as investigações. Esse pacto também suprimiria as demandas das ruas para remover Temer do poder, finalizaria as reformas neoliberais que ele e o PMDB estão empurrando e significar um revés para a conclamação por "Diretas Já!".

Mas, mesmo que Lula conseguisse atrapalhar com sucesso sua condenação e disputar as eleições de 2018 - uma disputa que ele provavelmente venceria, de acordo com a maioria das pesquisas - não está claro se um governo do PT divergirá do caminho estabelecido por Temer. O programa do partido reverteu simplesmente a uma afirmação das habilidades e do carisma da liderança de Lula, e nem o partido nem Lula se comprometeram a derrubar o desprezível conjunto de medidas de austeridade e reformas trabalhistas implementadas por Temer e seus amigos.

É difícil identificar qualquer sucessor potencial entre as fileiras do PT; com seus líderes mais jovens sendo burocratas, tecnocratas ou presos na Lava Jato, o partido simplesmente não tem o talento político que teve depois de mais de uma década e meia no poder e não pode mais contar com o movimento sindical ou seus aliados do movimento social para produzir a próxima geração de quadros petista.

O PT de base e a esquerda fora do PT, enquanto isso, ao invés de montar uma alternativa às medidas de austeridade que foram aprovadas pelo congresso nos últimos meses, enfrentam a perspectiva de a agenda nacional ser novamente dominada por Lula e hesitam em como responder. Em vez de substituir a abordagem conciliadora iniciada pelo PT - um estágio necessário para a revitalização da esquerda - o PT e seus aliados podem gastar seu tempo mobilizando-se em defesa de Lula. Eles fazem isso com o medo de que sem Lula na disputa, os candidatos "anti-establishment" mais antiquados, como o proto-fascista Jair Bolsonaro, poderiam ter uma chance de chegar à presidência.

Rouba mas reforma

A economista e colunista de esquerda brasileira, Laura Carvalho, recentemente descreveu a filosofia governante de Temer como "rouba mas reforma", um jogo de palavras com o slogan tradicional dos políticos da máquina brasileira, "rouba mas faz". Temer, que está impedido de se candidatar de novo, pode se dar ao luxo de ser impopular ao passar "medidas necessárias" destruindo benefícios de aposentadoria e criando um mercado de trabalho permanentemente precário.

Certamente, não é acidental que a sentença de Lula tenha chegado menos de vinte e quatro horas depois que o Senado aprovou essas desastrosas reformas trabalhistas. Mais cedo e poderia ter levado a uma resposta mais forte do PT.

Em vez disso, com o PT atrapalhado em sua luta contra as acusações de corrupção, as reformas neoliberais passaram - entregando ao judiciário radical seu golpe de misericórdia final.

Claro, muitos no centro e na direita permanecem livres. O senador e candidato presidencial derrotado em 2014 Aécio Neves - o AJ Soprano da política brasileira e um homem previamente pego com mais de 445 quilos de pasta de cocaína em um helicóptero - está novamente posicionado no Senado depois de ter sido brevemente ameaçado de prisão.

A classe política do Brasil é composta principalmente por rebentos degenerados. As poderosas famílias de negócios do Brasil tradicionalmente enviaram seus filhos com menos talentos para a política, de modo a mantê-los longe do negócio familiar. A elite raramente mostrou-se capaz de avançar o desenvolvimento brasileiro.

Os arquitetos do golpe não são os conspiradores maquiavélicos como retratados por alguns da esquerda, mas uma gangue oportunista que derrubou um presidente democraticamente eleito com uma birra destinada a evitar a acusação. Isso torna ainda mais importante o movimento progressista para demolir as estruturas da corrupção.

Um movimento popular anticorrupção se basearia, assim, nas fortes tradições brasileiras da democracia popular e da luta de massas ao avançar a reforma política e midiática. O objetivo seria confrontar o domínio da elite sobre o sistema político brasileiro em vez de confiar em juízes não eleitos ou um líder messiânico. Construir um movimento contra ataques reacionários e tecnocráticos contra a democracia agora requer uma visão ousada, disposta a desafiar as próprias estruturas da República do Brasil.

13 de julho de 2017

Razões para Corbyn

A coincidência da onda de Corbyn com o horror da Grenfell Tower criou as condições - e a demanda - para uma espécie de comissão de verdade e reconciliação sobre 40 anos de neoliberalismo.

William Davies

London Review of Books

Vol. 39 No. 14 · 13 July 2017

Tradução / Quando a internet se tornou parte da vida quotidiana no final dos anos 1990, ela foi celebrada como uma nova e maravilhosa máquina de publicação, uma amálgama de imprensa impressa e de emissora de rádio e televisão que democratizaria radicalmente os meios de comunicação a custo praticamente zero. Como qualquer blogueiro ou estrela do YouTube pode confirmar, esse sonho não morreu por completo, mas também não captou o que viria a ser uma característica mais distintiva da tecnologia emergente. Vinte anos depois, ficou claro que a internet é menos significativa como meio de publicação do que como meio de arquivo. Cada vez mais o nosso comportamento está a ser capturado e armazenado, desde o traço que deixamos nas pesquisas online, às fotografias que partilhamos e ‘gostamos’ em plataformas de redes sociais até ao vasto arquivo de e-mails e tweets para os quais contribuímos dia após dia. Esta enorme quantidade de informação fica ali, pronta para ser interpretada, se apenas algo coerente puder ser extraído do nevoeiro. Torna possível uma nova forma panorâmica de avaliar as pessoas, agora que a evidência de seu caráter pode ser recuperada do passado – um facto que não escapou às empresas de classificação ou notação de crédito ao consumidor ou às agências governamentais sobre as fronteiras.

YouTube, Spotify, Google Books, etc., colocaram décadas, por vezes séculos, de “conteúdo” ao alcance da ponta dos nossos dedos. Um dos seus efeitos é a compressão do tempo histórico. Será que faz realmente cinquenta anos que o Sargent Pepper foi editado? Mas o lapso de tempo parece imaterial. A internet transforma uma série perpétua de aniversários, momentos díspares de épocas díspares, e apresenta-os todos como equivalentes e acessíveis no aqui e agora. “Em 1981”, escreveu o teórico cultural tardio Mark Fisher em Ghosts of My Life (2014), “a década de 1960 parecia muito mais distante do que é hoje”. O Facebook estende essa lógica à própria história pessoal das pessoas, informando-as em que atividade banal elas estavam envolvidas nessa época no ano passado, ou oito anos atrás. O arquivo não está apenas disponível para nós; ele persegue-nos ativamente.

Esses fenómenos estenderam-se muito para além dos limites de qualquer plataforma digital em particular, produzindo uma lógica cultural mais difusa. Isso manifesta-se nos romances de Karl Ove Knausgaard, ou no filme Boyhood, de Richard Linklater, onde a mentalidade de ‘big data’ de capturar cada detalhe biográfico ao longo do tempo é elevada a uma forma de arte. Esta época cultural introduz um conjunto distinto de problemas. Que evento do passado é que nos vai aparecer a seguir? Como se pode extrair uma narrativa clara do dilúvio de mensagens e números? O que é que a minha ficha de dados diz sobre mim? Os julgamentos passados de si mesmo ou dos outros podem ser revistos ou revogados? Pode parecer que há apenas duas opções: imergir-se completamente, ou não dar a mínima hipótese de se importar com isso. As figuras que têm sucesso na política populista de hoje são as que não se importam. Os políticos do passado podem ter procurado a ‘autenticidade’, mas esse uso do termo sempre foi um oximoro. Se alguém se está a esforçar demais, esse alguém não é então autêntico. Quando a política ainda estava orientada em torno da televisão e dos jornais analógicos, havia audiências específicas para as performances dos políticos e oportunidades bem definidas para eles exercerem o seu poder de atratividade: o debate televisivo, a entrevista, a conferência de imprensa, as suas relações com os editores de jornais. Mas agora que os políticos (como todos nós, aliás) estão sujeitos a um monitorização incessante e abrangente, e deixam um arquivo montanhoso de evidências atrás de si, os pontos centrais do tipo tradicional não importam tanto. De qualquer forma, tudo sairá na mesma.

Também é revelador o facto de estes populistas bem-sucedidos serem significativamente mais velhos do que a média dos políticos da “terceira via” dos anos 90. Onde estes últimos eram homem de quarenta e poucos anos (agora representado pelo ainda mais jovem Emmanuel Macron), nos últimos dois anos assistimos à ascensão imprevista de Bernie Sanders (75), Jeremy Corbyn (68) e Donald Trump (71), o homem mais velho que já se tornou presidente. Esses homens situavam-se à espreita e à margem da vida pública há décadas, e em torno deles se acumula um arsenal de imagens e histórias. Tanto Corbyn quanto Sanders têm um arquivo impressionante, aparecendo em fotografias como jovens homens sendo manietados pela polícia enquanto protestavam contra a segregação racial. Não são apenas as suas palavras que persuadem as pessoas que elas oferecem uma rutura com o status quo, as suas biografias também o fazem. Acrescentaram o equivalente político das historias para o cálculo dos riscos de crédito.

Um evento que fez muito para empurrar a sensibilidade do ‘big data’ para a política do Reino Unido, mas que teve pouco a ver com a internet (foi desencadeado por um pedido de liberdade de informação dos jornais), foi o escândalo das despesas dos deputados em 2009. A sua importância para as nossas convulsões democráticas subsequentes não foi totalmente apreciada. A capacidade de perscrutar a vida dos nossos representantes, descobrir que cortinas compraram, se apanhavam táxis ou o metro, onde iam almoçar, contornou as atuações encenadas sobre as quais os políticos preferem ser julgados. Isto revelou diferenças de caráter e gosto, o tipo de coisa que agora estamos acostumados a vislumbrar via Facebook ou Instagram.

Graças aos tabloides, há muito que estamos habituados à interrupção da política por escândalos, incluindo histórias concebidas para causar o maior embaraço pessoal possível. Mas aqui estava algo diferente. Em vez da revelação do traje do quarto de David Mellor há uma espécie de conta-gotas de inépcias, mas contando detalhes de compras de John Lewis, o que não interrompeu a política como de costume, mas a reconfigurou completamente. Que Ed Miliband seja revelado como o membro mais frugal do gabinete, e o seu irmão um dos mais extravagantes, diz algo de mais importante do que as suas opiniões sobre política orçamental , e o que quer que tenha sido colocado na corrida à liderança trabalhista no ano seguinte.

Um dos resultados impressionantes desta nova ecologia dos meios de comunicação social é que os esfreganços tradicionais já não parecem funcionar tão eficazmente como funcionavam. Tanto Hillary Clinton, em 2016, quanto Theresa May, em 2017, procuraram derrubar os seus adversários chamando a atenção para o seu comportamento no passado. Uma fita de Trump gabando-se de agarrar as mulheres “pelo rabo” foi tornada pública, presumivelmente na suposição de que acabaria com a sua campanha de uma vez por todas. Corbyn foi martelado uma e outra vez pelas suas simpatias passadas com o IRA, com o efeito de que o manifesto trabalhista (e suas vulnerabilidades no Brexit) ter ficado relativamente intocado.

A estratégia fracassou porque, neste novo ambiente, há algo pior do que errar, e isso deve ter duas faces. O comportamento de Trump foi chocante, mas pouco fora de caráter. Foi a agressão e uma subversão do “politicamente correto” que alimentaram a sua campanha em primeiro lugar. Quanto a Corbyn, toda a sua carreira política foi passada a desafiar o imperialismo ocidental e o regime militar. Estas difamações não diziam muito ao público que as pessoas não tivessem já sentido – e que podiam descobrir através do Google – sobre os personagens e as prioridades dos candidatos. Em contraste, as “elites liberais” são vulneráveis à acusação de que as suas vidas públicas e privadas não coincidem: elas pregam o serviço público e o altruísmo, enquanto têm duas cozinhas (Ed Miliband), ganhando $675.000 por discurso para Goldman Sachs (Clinton) ou não sabendo exatamente quantas propriedades possuem (David Cameron).

Hannah Arendt comentou em On Violence que a raiva é menos comumente provocada pela injustiça do que pela hipocrisia. A dificuldade é que a política deve envolver algum grau de hipocrisia, para que as vidas pública e privada não se dissolvam uma na outra. Ser a mudança que cada um de nós deseja ver no mundo” é uma heurística ética útil, mas não ajuda juízes, funcionários públicos ou ministros na tomada de decisões em nome do público. Também não vai ajudar Corbyn se ele se tornar primeiro-ministro, apesar dos seus protestos de que continuaria a manter o mesmo comportamento se chegar a Downing Street. No entanto, em muitos aspetos, os media digitais servem para dissolver a divisão entre público e privado, permitindo que um olhar implacável e inesquecível seja lançado sobre cada discrepância entre palavras e ações, palavras passadas e palavras presentes. No mundo gladiatorial do Twitter, o maior erro que se pode cometer não é ser ofensivo (isso pode ser uma virtude), mas contradizer um tweet anterior, às vezes até de anos atrás, que pode então ser alegremente desenterrado novamente por “vir ver atrás” . Nessas condições, a credibilidade pública depende de uma sinceridade sem limites e de uma consistência obsessiva, bem como de um desrespeito pela forma como os outros vêem uma pessoa. O arquivo de Trump faz-lhe aqui poucos favores: o seu catálogo anterior de tweets fornece uma fonte constante de entretenimento ao expor a hipocrisia do seu comportamento como presidente, embora principalmente para aqueles que nunca acreditaram nele. Isto contraria os princípios maquiavélicos sobre as proezas políticas, o que ajuda a explicar porque é que os não políticos, os políticos marginais e os não-partidos (En Marche!) estão agora a colher os benefícios eleitorais.

Dado o grau em que as noções convencionais de liderança foram moldadas para se adequar à televisão e aos jornais, o desafio a essas noções é de há muito esperado. Por agora, as encenações estúpidas sobre a normalidade devem ser terminadas. O que era animador sobre a eleição geral foi que esta sugeriu um novo estatuto simbólico para a política do tipo que a política tecnocrática foi incapaz de fabricar. No meio de toda a algazarra, slogans e maledicência da campanha eleitoral, parece que as políticas simples e apelativas do Partido Trabalhista (fim das propinas universitárias, mais dias feriados (por referência aos bank holydays no Reino Unido), refeições escolares grátis para todos, mais elevado financiamento do Serviço Nacional de Saúde, não aumento dos impostos para 95% dos trabalhadores) tinham possibilidade de singrar. Estas políticas foram concebidas para produzir uma plataforma populista de esquerda, com a ideia em mente de que as políticas podem influenciar os eleitores, mas apenas se forem suficientemente simples para poderem manter a sua forma enquanto viajam numa esfera pública cada vez mais complexa e caótica. O New Labour tinha dois conjuntos de especialistas: um grupo para operar com a sua máquina tecnocrática de formulação de políticas, e o outro para lidar com os media em que os peritos do New Labour acreditavam que os poderiam domesticar. Mas uma vez que os estrangulamentos editoriais já não determinam o fluxo de notícias e que o controlo neurótico da imagem já não é realista, as políticas devem ser concebidas para se espalharem por si próprias, como os fluxos de informações da Internet. É isso que fez a frase de Trump, “Construir um muro”. Menos propícia, uma vez que a frase “imposto sobre a demência” se tinha ligado à campanha dos Conservadores, esta a não poderia ser daí desalojada.

Isto não quer dizer que o próprio Corbyn não tenha sido instrumental. Dado o aumento do comparecimento dos jovens, o “ensino universitário gratuito” pode ter sido decisivo para arruinar as esperanças da maioria de May, especialmente dada a promessa de Corbyn de explorar maneiras de aliviar o ónus da dívida existente. Mas não poderia ser um qualquer líder a fazer esta promessa de forma credível: Nick Clegg renegou-a em 2010, e ninguém como Clegg se poderia ter safado em 2017 a dizer o que disse Corbyn sobre o assunto. As figuras centristas do Partido Trabalhista e os seus amigos na imprensa continuam a acreditar que se trata de uma má política, alegando que ela usa a tributação geral para subsidiar os privilégios da classe média. Corbyn é diferente, não porque tenha uma visão diferente da economia, mas porque tem uma biografia política diferente. Além disso, tornou-se um ativo valioso na “economia da atenção” da paisagem digital, uma vez que os olhos são inexoravelmente atraídos para as peculiaridades pessoais e emocionais. Assim como Trump durante a sua campanha eleitoral, Corbyn converte fraquezas em força. A combinação de seu comportamento com um ar de um bom tio com o documento sério e pesado em termos de políticas do manifesto trabalhista provou ter um sucesso inesperado.

Os blairitas queixam-se de que Corbyn oferece soluções simples para problemas complexos. (Eles costumavam queixar-se de que ele tinha algumas políticas plausíveis, mas que eram inelegíveis: parece que a folha de acusação foi agora invertida). Mas uma das soluções de Corbyn é difícil de contestar – nomeadamente, a ressurreição da política fiscal como instrumento central de transformação social e económica, após 25 anos em que ambas as partes estavam paranoicas por terem sido rotuladas de fanáticas por “impostos e despesas”. Nos últimos dez anos, os banqueiros centrais defenderam junto dos políticos uma política orçamental menos austeritária para aliviar a carga macroeconómica sobre a política monetária, mas o seu apelo caiu em saco roto, especialmente na Europa. Na sequência da flexibilização quantitativa, uma das políticas económicas mais obscuras do ponto de vista técnico alguma vez concebidas, o regresso da política orçamental é bem-vindo, tanto do ponto de vista económico como político. Corbyn forçou os Conservadores a fazê-lo, transformando a austeridade numa questão política tóxica.


Durante as décadas de 1980 e 1990, teóricos como Fredric Jameson argumentaram que o capitalismo tinha provocado uma mudança fundamental na forma como a história cultural e política é vivida. O sentido distintamente moderno da cronologia, que surgiu na segunda metade do século XIX, via o passado como um desdobramento progressivo para o presente, e o futuro como um espaço de novas possibilidades políticas e culturais a ser apreendido por qualquer artista, planeador ou movimento político que fosse suficientemente ousado. A pós-modernidade, pelo contrário, envolveu um colapso do progresso histórico num presente perpétuo, uma constante repetição e recombinação de estilos e ideias existentes, que puseram fim a qualquer esperança (ou medo) de que o futuro pudesse ser radicalmente diferente.

O corolário económico disso foi o entrincheiramento de uma ordem neoliberal em que o capitalismo liberal foi tratado como a fase final da história humana: os únicos planos plausíveis eram os planos de negócios, a única fonte de inovação era o empreendedorismo. Essa visão ainda se mantinha com alguma noção de progresso, mas agora está estreitamente ligada a melhorias na eficiência económica e nos sentimentos dos consumidores enquanto tal. Quando Tony Blair utilizou a palavra “modernização”, referia-se à promoção da concorrência nos serviços públicos. A ideia de “moderno” foi esvaziada das suas implicações utópicas ou politicamente perturbadoras, provocando a sugestão de que o futuro já não existia, pelo menos não como algo diferente do presente.

Os anos de austeridade desde a crise financeira global seguiram o roteiro pós-moderno, mas com uma diferença crucial. A pós-modernidade é tipicamente concebida como repetitiva, mas também de forma lúdica. Em contraste, a austeridade passou a ser vista como uma repetição sem fim e inútil da dor (Yanis Varoufakis descreveu as condições de resgate da Grécia como “suplício da banheira pelo orçamento “). A cada anúncio de que a austeridade terá de ser prolongada porque os cortes nas despesas públicas falharam mais uma vez em reduzir o défice público (tal como a maioria dos economistas sempre avisou que assim aconteceria), o sentimento de descrença aumentou. Nos piores casos, como o da Grécia, os esquemas de redução do défice estendem-se por décadas no futuro. A precariedade e os custos crescentes da habitação aprisionam os jovens num estado de perpétua situação de pré-adulto, incapazes de se separarem dos seus pais. A necessidade de escapar a este ciclo é cada vez mais premente, mas tudo o que os governos têm vindo a prometer é cada vez mais, do mesmo

Nessas circunstâncias, a esperança é encontrada numa forma de revisionismo histórico. Os sucessos de Corbyn e Sanders (e, de uma forma diferente, de Trump) permitem-nos sentir que é possível restaurar e reavaliar elementos de um passado anterior ao neoliberalismo. Onde a visão modernista da história trataria a marcha de Reagan, Thatcher, Blair e Clinton como uma etapa necessária no caminho para algo melhor, o sentido atual parece ser o de que estes tomaram o caminho errado. Em vez disso, temos de voltar atrás para avançar. No caso de Trump, o erro percebido remonta muito mais atrás, à Lei dos Direitos Civis de 1964 e até antes. O que é notável sobre a marca de conservadorismo de Trump é que ele mostra pouca devoção a Reagan ou à história conservadora recente, procurando em vez disso imaginar muito da história do pós-guerra dos EUA em favor de um holograma de uma nação onde os homens fabricam os bens do mundo e as mulheres engomam as suas camisas.

Uma grande parte da razão pela qual Corbyn causa tanta angústia aos blairitas – quer eles gostem ou não das suas políticas ou estilo de liderança – é que ele ameaça destruir a sua narrativa das décadas de 1980 e 1990. Nessa versão da história, a esquerda dura foi heroicamente derrotada por Neil Kinnock, preparando o terreno para o mais bem-sucedido governo trabalhista de sempre. E se Corbyn vencesse uma eleição geral? Como é que isso reformularia o significado dessas batalhas? A coincidência do crescimento de popularidade de Corbyn com o horror da Torre Grenfell criou as condições – e a exigência – de uma espécie de comissão de verdade e reconciliação sobre quarenta anos de neoliberalismo. É muito simples acusar Corbyn como sendo um retrocesso na história, mas é inegável que a sua capacidade de atração e a sua autoridade derivam em parte da sua disposição de lançar uma luz diferente e menos tolerante sobre a história recente, para que não tenhamos que continuar a repeti-la.

Reagindo ao fracasso da votação de 8 de Junho, os dirigentes empresariais e comentadores conservadores manifestaram a sua inquietação pelo facto de os jovens estarem tão entusiasmados com um programa de esquerda aparentemente retrógrado. Memorando para gente com menos de 45 anos,” Digby Jones, o antigo diretor-geral de CBI, Confederação Britânica da Indústria, tweeted: Você não se lembra da última vez que os socialistas tomaram o controle do frasco dos biscoitos: tudo se nacionalizou e nada funcionou? Para a qual a resposta agora pode ser esta : e você não se lembra como as coisas eram boas comparadas com as de hoje?. Fale com os meus alunos de licenciatura (muitos deles nascidos durante o primeiro mandato de Blair) sobre os anos 1970 e início dos anos 1980, e você verá o olhar melancólico nos seus rostos ao imaginar uma sociedade em que artistas, escritores e recém-formados pudessem viver independentemente no centro de Londres, sem serem incomodados por empresas de empréstimos estudantis, empresas de mão-de-obra a tempo parcial ou cobradores de dívidas. Esta pode ser uma visão histórica parcial, mas responde ao que as enganadas gerações mais jovens atualmente desejam: a oportunidade de crescer na vida adulta sem ter todo o seu futuro mapeado como uma estratégia financeira. Um líder que pode construir uma ponte para esse passado oferece a esperança de um futuro diferente.

William Davies, sociólogo e economista político, leciona na Goldsmiths e tem escrito extensivamente sobre assuntos como neoliberalismo e a “indústria da felicidade”. This Is Not Normal: The Collapse of Liberal Britain inclui vários de seus ensaios para o LRB.

11 de julho de 2017

Outubro e sua importância: uma conversa com China Miéville

Uma brilhante entrevista realizada pelo historiador estadunidense Eric Blanc com escritor britânico China Miéville a respeito de seu novo livro "Outubro: história da Revolução Russa".

Eric Blanc entrevista China Miéville



Tradução / Para aqueles interessados em compreender a história da Revolução Russa na esperança de confrontar mais efetivamente o capitalismo, a tensão entre universal e particular se revela fundamental. A dificuldade que inevitavelmente surge é a de como discernir o que foi historicamente específico da Rússia de 1917 e o Bolchevismo daquilo que talvez reflita uma tendência mais generalizada. Para citar a obra mais recente do premiado autor China Miéville, Outubro: história da Revolução Russa (Verso): "Tratou-se certamente da revolução da Rússia, mas pertenceu e pertence a outros também. Poderia igualmente ser nossa. Se suas frases ainda estão inacabadas, cabe a nós acabá-las".

Imbuído desse espírito, Miéville sentou recentemente para discutir a Revolução Russa e sua relevância atual com Eric Blanc, sociólogo da história e autor da monografia no prelo, Anti-Colonial Marxism: Oppression and Revolution in the Tstarist Boderlands (Brill Publishers, série da Historical Materialism).

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Eric Blanc

Um dos aspectos-chave de 1917 foi o modo abrupto com que a história e a consciência das massas mudaram de curso – a metáfora com que mais me deparo na literatura é a revolução como um turbilhão. Em Outubro você argumenta que uma das mais importantes características de Lênin era a habilidade de orientação em face dessas mudanças rápidas e das contingências políticas. Como você enxerga os diferentes atores em 1917 confrontando esse turbilhão de condições? E o que daí poderia ainda ser relevante? Por exemplo, fiquei impressionado com um editorial recente do Salvage, um jornal do qual você é um dos editores, em apoio à nova onda Corbyn: "nós não leváramos em conta a rapidez com que as coisas podem mudar".

China Miéville

Formalmente eu sempre soube que as coisas podem mudar vertiginosamente rápido; razão pela qual eu nunca fui tentado a me render perante algum tipo de engano dos “Novos Tempos”, segundo o qual uma mudança fundamental nunca pode ocorrer. Entretanto, como você notou, em um certo nível, nem sempre “processei” essa consciência formal.

Para mim, Corbyn não foi uma surpresa completa: pensei que ele se sairia melhor do que muita gente dizia. Mas não vou mentir: o alcance me impressionou. Nunca senti tanto prazer em estar errado. Estamos agora no que pensei ser, aproximadamente, o melhor cenário em quatro anos caso Corbyn se saísse bem. Não que eu acreditasse que fosse impossível, mas chagamos lá muito mais rápido do que eu previa.

É um humilde e bom lembrete do que todos nós formalmente sabemos. E, não acho tendencioso fazer essa conexão, mas se há alguma lição de 1917 que cisma em reaparecer é essa, de quão rápido as coisas podem mudar. É ótimo ser lembrado disso – quase citando “Estado e Revolução”, é mais agradável e proveitoso passar pela experiência de mudança abrupta que ler ou escrever sobre ela.

Em relação a 1917 propriamente, com exceções, tenho com frequência a impressão de que uma das coisas que distinguiam os intelectuais Mencheviques, incluindo pessoas brilhantes, era a tendência a lidar com modelos teóricos de modo arbitrário, no qual forçavam o que estava diante deles em vez de iniciar a análise a partir da complexidade da realidade.

No seu melhor, penso que foi isso, dentre outras coisas, que distinguiu Trotski e foi bastante notável em Lênin – este de uma maneria talvez menos suculenta na teoria, mas de incrível rapidez. Todos comentaram a antena de Lênin para essas mudanças rápidas. O que não quer dizer que nunca errasse – ele errou muitas vezes: em Julho, sobre Kornilov, certamente sobre alguns aspectos de Outubro. Não só seu senso para captar tais mudanças, mas também a disposição para alterar completamente a linha eram muito incomum. Pode-se dizer de maneira admirável que ele não era sentimental com relação a suas próprias posições.

Eu realmente gostei das vinhetas do livro nas quais você se sente quase solidário aos Bolcheviques, que tiveram de lidar com um líder como aquele em sua própria organização.

É notável: enquanto Lênin se esconde na Queda de 1917, seus camaradas invocam sua ira quase bíblica para o pecado absoluto de publicar o que ele escreveu duas semanas antes. Poucos de nós o faríamos, sob o risco de sermos completamente mal interpretados. Não à toa, o caso de Lênin foi extremamente deturpado.

Também vale a pena pensar em que medida isso foi possível graças à existência de um Partido Bolchevique. Lênin não era mero leitor de jornais; em sua posição de organizador, ele podia receber informações diretas dos eventos de seus camaradas, que estavam eles mesmos intervindo independentemente e tentando chegar a uma avaliação dos acontecimentos. Isso geralmente é esquecido – a não ser que se creia em Lênin como a um Gênio. E de certa forma é o que acaba mais tarde, depois de 1917, quando essa dinâmica entre os quadros médios e a direção desmorona, inclusive com Lênin.

Você entendeu muito bem que, em 1917, Lênin estava prestando muita atenção às informações e posições dessa camada média, mesmo quando aquilo que ouvia o desagradava. Isso foi o mais proveitoso das memórias de Eduard Dune, “Notas da Guarda Vermelha”, donde se entende essa camada dos quadros que intervinha politicamente com muita sensibilidade, debatia, aprendia e por aí vai. Penso que você está certo sobre essa ser a fonte da “antena”. Dito isso, há ainda algo bastante notável sobre o próprio Lênin. Outros que tiveram acesso a essa rede de informações não agiram do mesmo jeito, por exemplo.

Um dos acontecimentos mais promissores dos últimos anos tem sido o ressurgimento da política socialista entre os jovens, o qual tem assumido largamente a forma de um crescimento na social-democracia de esquerda, como se expressou (de diferentes modos) na ascensão de Corbyn no Reino Unido e Bernie Sanders nos Estados Unidos. Por um lado é emocionante, inspirador e abre grandes brechas para políticas radicais. Por outro lado, também significa que um balanço sério do papel histórico dos sociais-democratas pode ser mais crítico que nunca.

Na Rússia de 1917, o real debate ao longo dos anos se deu entre radicais (por falta de um termo melhor) e socialistas moderados – Mencheviques e os SRs na Rússia Central. Destes, muitos acabaram se juntando ao governo em maio, e rapidamente abandonaram seus próprios programas e objetivos. As pessoas hoje frequentemente esquecem quão militante era a plataforma desses partidos no início de 1917. Você ressaltou particularmente em Outubro o histórico descomparecimento dos Mencheviques de esquerda liderados por Martov, sobretudo o momento em que se retiram do Segundo Congresso de Sovietes em outubro. Você acha que os socialistas moderados poderiam ter cumprido um papel diferente em 1917? E podemos esperar dos sociais-democratas de hoje que ajam de modo diferente de seu equivalente de cem anos atrás?

Como você disse, o adjetivo “moderado” é na verdade um tanto enganoso e de pouca ajuda aqui, uma vez que, de certo modo, agrupa uma ampla gama de diferentes tendências, muitas das quais bastante radicais. Então penso que o termo deve sempre ser empregado entre aspas.

Quanto à simples questão “poderia ter sido de outro jeito?”, parece-me não ser tão controverso assim responder que sim. Não à toa muitos dos envolvidos lamentaram muito por não ter sido. Sukhanov, dos Mencheviques de esquerda, penso, arrependeu-se até sua morte de ter se retirado do Segundo Congresso dos Sovietes. Chamou de “o maior e mais perene crime” o fato de não ter rompido com Martov e permanecido no salão.

E às vezes se esquece que poucas horas antes naquela noite havia sido acordado (inclusive com Trotski) que o governo deveria ser socialista geral, isto é, um governo socialista não exclusivamente composto pelos Bolcheviques. Isso é incrível, de imensa importância. Os jornalistas, testemunhas oculares, sabiam disso. Para mim se trata de um momento angustiante porque a dinâmica poderia ter sido muito diferente. Mesmo com a saída certa dos socialistas de direita, havia uma variedade de agentes que não eram da direita, nem Bolcheviques, cuja presença poderia ter mudado substancialmente a inflexão e a metodologia do governo Soviético.

Nesse sentido, vale notar que as coisas se desenrolaram de diferentes formas em outras partes do Império Russo. Na Finlândia, por exemplo, a maioria dos líderes socialistas que estiveram tartamudeando durante 1917 acabaram por se colocar ao lado da revolução em janeiro de 1918 quando chega o momento. Encontrei uma carta realmente emocionante de um líder socialista finlandês de centro para sua filha, logo após a insurreição finlandesa de janeiro, explicando que mesmo tendo se oposto a uma revolução violenta, sentia que era seu dever não abandonar o partido e os trabalhadores depois do desenlace da revolta.

Absolutamente. Isso revela a extensão daquilo que poderia ter sido diferente. Embora seria completamente utópico e ridículo dizer que por conseguinte tudo teria ficado bem, penso que poderia teria havido um impacto real. Tendo uma voz alternativa camarada, sem abrir mão da crítica e do rigor, no interior da revolução.

Até hoje eu vejo uma tendência ruim entre aqueles de extrema esquerda de descrever todos aqueles com que se discorda, por predefinição, como renegado, ou que capitulou, ou o que seja. Alguns podem até ser mesmo, mas com certeza não todos. Se você é um social-democrata porque acredita que qualquer tentativa de derrubar o capitalismo com revolução é algo a se estar fundamentalmente contra, então eu nunca serei seu companheiro. Se você é um social-democrata porque por mais que ame a ideia de derrubar o capitalismo, não vê isso na agenda do momento, a história é outra – e você pode muito bem ser um ativista mais sério que muitos supostos revolucionários. E quando o sentido de mudanças possíveis, e algo mais radical, despontar abruptamente na sua agenda?

Com efeito, acho errôneo fazer generalizações a respeito dos sociais-democratas, ou sociais-democratas de esquerda (e eventualmente liberais – sempre cito a observação de Richard Seymour que diz existir politicamente uma oposição rígida entre um liberalismo fiel aos ideais liberais versus aquele fiel ao Estado liberal). Você não saberá quem são seus amigos, camaradas e inimigos até que o horizonte de mudanças radicais se aproxime, esteja mais visível.

Concordo com o que você expôs, mas o reverso disso é a pressão incrível contra todos os socialistas imposta pela classe dominante. Por exemplo, em abril de 1917, precisamente porque o Governo Provisório não teria sobrevivido sem a incorporação dos socialistas, havia um imperativo estrutural de integrar determinados socialistas moderados. Logo, não se trata apenas de política de um indivíduo, mas da necessidade de introduzir e contar com forças que tivessem alguma credibilidade junto à classe trabalhadora, a fim de alicerçar o sistema. Ademais, também vemos isso em outras partes do império e durante a onda revolucionária do pós-guerra na Europa.

Você está certo. Estou aqui usando ideias (sempre multifacetadas e flexíveis) e “crenças” à guisa de uma estenografia. Estamos tomando pessoas pelas suas funções políticas. Imagino que se você é um ativista disposto, sob certas circunstâncias, a entrar num aparato estatal burocrático capitalista, então se assoma a questão: qual é seu compromisso com a ruptura? É inquestionável que existe uma tendência lógica muito forte a cerca da social-democracia, incluindo aí sua esquerda, a rejeitar tal ruptura. Mas não acho que seja inevitável, em todos os casos. Uma vez que o horizonte de possibilidades se abra, mesmo alguns dos que estão dentro da máquina podem encontrar (possivelmente para surpresa deles e nossa) lealdade a um projeto de emancipação.

Contra tal abordagem, há uma alternativa exibicionista, uma espécie de estratégia ostensiva de tensão. Se pensarmos numa oposição grosseira entre tal estratégia de tensão de extrema-esquerda e a estratégia social-democrata de melhoramentos no interior do sistema, por vezes me questiono se o sonho de alguma “negação dialética” entre os dois não seria de fato possível. Talvez o melhor que se possa fazer seja oscilar em sobreposição entre elas, em vários grau e por diversas vezes.

Talvez o ponto seja manter em mente a tensão...

Certo. E que um movimento sadio de ruptura deve incluir representantes de ambas as correntes.

Na "Salvage", você tem lutado bastante com os temas esperança e desespero. A publicação tem defendido um “pessimismo austero revolucionário”; uma de seus slogans é “a esperança é preciosa, precisa ser racionada”. Isso levanta muitas questões para mim, talvez porque boa parte da minha pesquisa seja sobre revolucionários da Segunda Internacional. E muito do êxito político deles – e da mensagem política – se deve a uma abordagem extremamente esperançosa. Hoje a postura dessas correntes muitas vezes não correspondem mais nem ao fatalismo do progresso, nem ao superotimismo em relação à vitória final do socialismo. Mas eu penso que o núcleo racional do que faziam era a projeção de esperança enquanto intervenção política na luta de classes, para fazer os trabalhadores terem confiança neles mesmos e na sua capacidade de vencer. Nesse sentido, a esperança se torna até certo ponto uma profecia autorrealizável – se os trabalhadores pensam que podem vencer, é mais provável que lutem, tornando assim mais provável a vitória.

Na Rússia, uma das maiores diferenças entre Bolcheviques e Mencheviques era precisamente essa questão: estes acusavam constantemente Lênin e seus camaradas de terem uma confiança demasiadamente esperançosa na classe trabalhadora. Assim sendo, como você enxerga as políticas de esperança e desespero em 1917? E quais aspectos dessas abordagens distintas podem ter relevância hoje, precisamente quando há um semi-ressurgimento da esperança no que concerne a Corbyn, em particular?

Nadiejda Larrvítskaia – "Teffi" – provocou Lênin dizendo que se ele se encontrasse com Zinoviev e Kamenev e cinco cavalos estivessem presente, diria “éramos oito”. Qualquer um que esteve politicamente ativo, tendo visto a constante tendência da esquerda para aumentar qualquer coisa, ao ler a caçoada vai rir. Quanto mais as coisas mudam, mais permanecem iguais.*

Há um nível simples e óbvio ao qual a esperança é necessária: Se você não acredita que exista qualquer possibilidade de mudança fundamental, não há razão para lutar por ela. Esse é um exemplo de como a esperança é chave para um projeto transformador.

Mas há uma versão banalizada de esperança, muito frequentemente (esse é um ponto levantado por Terry Eagleton em seu recente livro) indiferenciável do otimismo. Se você começa com uma posição padrão de otimismo, não há lógica nela. Trata-se essencialmente de uma posição de fé (e eu acrescentaria pouco convincente, evocando para mim um desespero não admitido, na maioria das vezes). Se otimismo ou pessimismo significam algo, precisam ser resultados de uma análise das condições concretas. Pode-se ser pessimista em uma situação, otimista em outra.

Você mencionou o uso político da esperança: não o que tem a esperança como referência de “norma fundamental”, com o qual não tenho problemas. Já aquele de uma performatividade necessária de esperança, é outra história; não serve nem como ponto de partida. A ideia de que temos de representar otimismo (muitas vezes freneticamente), ainda por cima porque é assim que se inspiraria a classe trabalhadora e se alimentaria sua agência, e assim por diante. São muitas as dificuldades que tenho com essa abordagem. Uma delas é, pelo menos potencialmente, intelectual e politicamente desonesto porquanto a injunção suplanta a análise concreta. (Isso, claro, acontece o tempo todo: basta pensarmos em picaretas jurando cegamente que certa tática será exitosa, nos convencendo a um só tempo de que não é verdade, e de que sabem muito bem disso). Ademais, para uma abordagem que intenta manter as pessoas ativas, acho que sequer atinamos para os custos disso. Em termos anedóticos, posso dizer a partir de minha própria experiência política que vi mais gente sendo perdida para o vácuo do otimismo, como eu o penso, que para o pessimismo: pessoas esgotadas depois de ouvirem uma vez de tantas que só falta mais um grande impulso para a mudança, que tudo está em aberto, que há imensas oportunidades nisso e naquilo; e ainda por cima, as pessoas induzidas a se sentirem culpadas e politicamente envergonhadas por se sentirem assim, torna a situação muito difícil, de fato. Sem mencionar a vergonha quando as coisas não vão bem diante da expectativa e da cobrança – afinal, a que mais de deve seu fracasso?

Óbvio, coisas boas acontecem, mas quando é assim isso não justifica o tipo banal de otimismo. Insisto, estou totalmente encantado com a rapidez do fenômeno Corbyn. Algumas pessoas de fato entenderam concretamente o que estava acontecendo, e eu as respeito. Contudo, essa virada política não serve de justificativa àqueles entusiásticos que passaram os últimos trinta anos dando lição de moral. Essas pessoas são como um relógio quebrado que ocasionalmente mostra a hora certa.

Por essas razões, tenho tendido recentemente a não usar essa palavra, “esperança”. Não por insensibilidade àquele sentido profundo e honrável de que falamos – a inestimável “esperança sem otimismo” de Eagleton – mas por revelia à Esquerda Britânica, em meio a qual o outro sentido de “esperança” se tornou tão hegemônico que mal aguento ouvi-lo. Estou muito contente de dizer que, após Corbyn, eu encontrei essa mudança na sociedade e em mim. Estou agora considerável e concretamente mais esperançoso – até otimista – que estive recentemente. O que não significa para mim que o realismo da dimensão do que nos encara agora, mesmo agora, mesmo depois de Corbyn – talvez especialmente – não seja absolutamente crucial. E, não menos relevante, porque vai nos custar alguns ativistas – enquanto que para muitas pessoas será tão motivador quando qualquer otimismo banal.

Os Bolcheviques e os revolucionários da Segunda Internacional geralmente eram genuinamente esperançosos e otimistas, eles realmente acreditavam.

Não tenho questões, claro, quando análises particulares levam ao entendimento de que uma situação particular é positiva – com boa-fé, otimismo concreto, você poderia dizer. Eu posso ou não concordar, mas é um debate razoável entre os camaradas. No entanto, em se tratando da esperança dos Bolcheviques e seu êxito político, estou cordialmente cético quanto a qualquer implicação de que seja necessariamente causalidade, em vez de uma correlação particular. Possivelmente o sucesso tenha se dado mais em função de políticas amplas e tendências, do que do peso relativo infinitesimal do “otimismo ou pessimismo” dos Bolcheviques, em termos atinentes ao movimento da História. (Houve, claro, Bolcheviques pessimistas, e isso não implicou necessariamente que os oponentes tomassem o poder. Não há nada particularmente incomum em pessoas lutando pelo que acreditam ser o correto, o necessário ou o possível; mas o fazem sem essa confiança absoluta de que vencerão). Talvez essa seja uma questão para uma próxima discussão honesta.

Um grande legado da Revolução Russa foi uma nova orientação internacionalista sobre a construção dos partidos marxistas, abordagem que ficou conhecida por Leninismo. Desde então se instaurou um debate sobre a natureza histórica do Partido Bolchevique, e o que dessa experiência é generalizável. Das coisas que mais apreciei no seu livro estão as descrições que você elabora das complicações, tensões e erros do Partido Bolchevique, bem como de sua força política e a importância que assumiu em tornar Outubro possível. Como você enxerga a relevância desse legado de construção partidária para o presente?

Assumindo a ressalva importante de que seria absurdo simplesmente replicar estruturas particulares do passado, porquanto parecem ter funcionado para os Bolcheviques (o kitsch tem sido um problema para a Esquerda), não tenho objeções sobre o partido enquanto forma de projeto político. Não sou horizontalista. Do Leninismo, um de seus aspectos fundamentais que ainda acho muito potente é que podemos pensá-lo como uma teoria da consciência, da maneira como a consciência opera nas pessoas, e muda.

Particularmente os desníveis de consciência...

Incluindo o interior do partido e da liderança, para deixar claro. Por vezes os anarquistas (ou democratas espúrios de direita) atacam essas noções atinente à forma do partido – para não falar de certa “vanguarda”; não passam de elitistas, escarnecedores da classe trabalhadora. Muitos desses ataques são de má-fé, mas aos mais sérios eu responderia: acredito que as pessoas mudam o jeito de pensar. Eu mesmo mudei várias vezes, inclusive enquanto estava num partido político. Logo, a questão é: como a subjetividade política se altera? Os desníveis de que você falou mudam com o tempo. Parece-me que o partido – contanto que não haja uma pedra de toque – está longe de ser a pior maneira de se relacionar com um projeto político, pelo simples fato de que a consciência existe, muda e é assimétrica.

Trotski, em sua História da Revolução Russa, afirma que apesar de todos os graves pontos fracos, o Partido Bolchevique era um "instrumento bastante adequado à revolução".

Exato, o partido é uma ferramenta e eu tento não ser sentimental com ele. É importante também salientar que o partido não é um emissor de instrução de cima para baixo; no entanto, com frequência opera como um breque, um moderador. Acho muito notável e impressionante que a alçada do partido durante momentos-chave de altos dramas políticos (não só na Revolução Russa) tenha sido menos a de uma “vanguarda” dizendo às pessoas o que elas devem fazer, e mais frequentemente a de dizer “parem”, pedir moderação, tentar controlar o ímpeto da compreensível violência da classe, da vingança da classe.

Os ataques da direita são intermináveis. Mas é fato que a esquerda nem sempre tem sido sua melhor aliada nessa questão, pois sua relação com o partido, enquanto projeto, é por vezes sentimental e kitsch.

Nesse sentido, uma das coisas com que mais se depara quando se mergulha seriamente na História, é o quanto os Bolcheviques mudaram ao longo de muitos anos, à medida que cometiam erros – e associadamente a variedade de questões políticas abertas que perduram até hoje aos socialistas. O marxismo geralmente não nega tais pontos, ainda que as histórias que escrevemos atualmente tendam à falta de crítica. Daí as lições a tirar dessa experiência podem ser um tanto estereotipadas…

Fico frustrado com a inabilidade de muitos da esquerda, incluindo os Bolcheviques, de reconhecer um erro. É por isso que provoco Lênin no livro em relação a Kornilov, por ser esse o caso mais próximo de reconhecimento de erro que vi dele. E mesmo assim, quando ele descreve a “incrível reviravolta” dos eventos, é quase como se a realidade é que tivesse cometido o erro. Penso que devemos superar essa alergia de admitir os erros, na ação, na teoria, ou em ambas. É ainda muito comum.

Lendo Outubro fiquei realmente impressionado com o valor de pesquisa levada a cabo, e a seriedade com que você enfrentou a faceta historiográfica do projeto. Meu palpite é de que muitos leitores recém-introduzidos nessa história deixem passar essa dimensão do livro. Pesquisando e escrevendo Outubro, você acabou desenvolvendo um olhar para a Revolução Russa diferente daquele do início da investigação?

Agradeço-te por dizer isso – que muito se deve a você e a outros acadêmicos especialistas que foram tão generosos ao trabalhar comigo no primeiro esboço. Apesar de ter primordialmente em mente um leitor leigo, era muito importante para mim a aprovação de especialistas que diriam “concordando ou não com ele, certamente fez a lição de casa”.

Antes de iniciar as leituras, eu não era novo no assunto, mas não tinha um conhecimento minucioso. Assim, numa visada ampla, eu não acredito que tenha alterado radicalmente minha posição. O que a pesquisa causou foi um fortalecimento de certas intuições e noções superficiais que tinha, trazendo a tona a real dimensão delas. Por exemplo, dessas coisas que a esquerda afirma: “havia muito dissenso interno entre os Bolcheviques”. Afirma-se isso quase à guisa de prova, para dizer que não se tratava de um partido monolítico.

Marxistas têm a tendência a falar isso – e daí com frequência passam ao arrazoado sobre Lênin ter acertado em praticamente tudo.

Exatamente, queremos ambos ao mesmo tempo. Para mim a grande importância do debate interno foi realmente notável, era algo como uma pulsão constante no partido. Da mesma forma fui tomado pela percepção de que todos tinham clareza de que algo aconteceria, mesmo antes de Outubro propriamente se tornar historicamente inevitável. O país estava caótico, correndo desordenadamente em direção a algo – quase como um apocalipse. E a magnitude dessa inevitabilidade era extrema. Esses elementos são extrapolações das impressões vagas que eu tinha.

Em contraste, num nível um tanto granular, tive verdadeiras revelações. Por exemplo, nem sempre interpreto tudo na chave da linha contínua; acho que há mais descontinuidades entre o velho Bolchevismo e o novo Leninismo do que Lênin às vezes insinua. Com efeito, o trabalho de Lars Lih é indispensável e, no que concerne às “Cartas de Afar” anteriores ao retorno de Lênin à Rússia, sua posição me convenceu. Lih, pelo que eu saiba, discorda da versão que muitas vezes se lê (inclusive, por exemplo, em Trotski) de que as “Cartas de Afar” eram tão chocantes que foram censuradas por seus camaradas perplexos com suas posições políticas.

Uma última questão que tinha de início, que não foi exatamente uma mudança de opinião, mas uma revelação e tanto, diz respeito a quão extraordinário foi o grupo Mejraionka. Ao me deparar com ele inicialmente, tomei-o por um pequeno grupo radical associado a Trotski. Contudo, embrenhando-me mais nas leituras, compreendi sua espantosa independência de pensamento, sua política e seu desproporcional número de intelectos verdadeiramente fascinantes, cintilantes.

Eles exerceram um papel fundamental em ambas as revoluções, de Fevereiro e Outubro.

Acho-os absolutamente fascinantes. Penso que há um grande livro a ser escrito – não por mim, infelizmente – sobre os Mejraiontsi.

Para concluir, você poderia falar um pouco sobre a contribuição política que você pretendeu dar com o livro? Como foi a recepção até agora, e o que ela indica sobre o estado atual de engajamento com a Revolução Russa?

Estou cada vez mais atraído pela ideia de que estamos num momento global de decadência esclerótica do capitalismo, e todas as excrescências a ele associadas. Sinto que não é mero epifenômeno, que estamos particularmente cercados por um mar de mentiras e má-fé neste instante. Um efeito interessante para mim é que a boa-fé está cada vez mais importante; estimo muito a habilidade de se debater com quem não se tem acordo. E não digo só na esquerda. Estou realmente aberto a discutir com liberais sérios e até conservadores sobre esses tópicos; o que não suporto são as panaceias liberais tergiversantes ao estilo “as revoluções comem suas crianças”, ou “ideia adorável, mas que jamais funcionaria”. Análise por aforismo.

A maioria das resenhas tem sido positiva, incluindo aquelas para além da esquerda. Isso é muito significativo. Fiquei particularmente contente e grato pela resenha da historiadora Sheila Fitzpatrick, de posição política muito diferente da minha e que enxerga a revolução de outra maneira. Ela fez um apanhado da literatura sobre o tema, e foi muito séria, academicamente ponderada e generosa com Outubro. Não menos importante também pelo livro dela ter sido o primeiro que li sobre a revolução, décadas atrás, o que me afeta. Quanto mais envelheço, mais me esforço para ler com generosidade heurística, ver o que posso tirar dos livros – e fico agradecido por ver essa disposição de leitura para com Outubro.

Tive outras surpresas. Entre os exageros, o livro entrou para a lista “Summer Reading List” de 2017 da revista de negócios Forbes, que o descreveu como a história de quando “um grupo de desordeiros mudou uma instituição de centenas de anos” – você sabe, a Rússia Tsarista.

O primeiro propósito do livro é contar a história para leitores que não necessariamente sabem algo sobre a Revolução Russa e querem saber o que aconteceu, quando, quem eram os participantes, os ritmos, os eventos. Não é uma história da Revolução Russa para gente de esquerda, mas para todos; entretanto, é uma história da Revolução Russa para todos escrita por alguém de esquerda.

Logo, se há o intento de contribuição política, que seja simplesmente o de despertar o interesse das pessoas pela história. Melhor dizendo: nós precisamos falar sobre a Revolução Russa. É um fato. Honestamente, estou um tanto melancólico em relação ao enorme silêncio sobre ela, de modo geral. Estou feliz com a recepção do livro, mas acho que há menos conversa sobre 1917 do que eu gostaria no ano do centenário.

Existiu uma época em que se faziam denúncias contra 1917 para enfraquecê-lo. Hoje, suspeito que para tanto, basta simplesmente não falar sobre ele. Se o livro provocar um pouco mais de discussões sobre esse ano que impôs liberdade e dignidade, histórico para o mundo, então estarei muito contente.

Pode ser o otimismo falando, mas espero que a atual radicalização da juventude possa levar relativamente em breve à retomada de um engajamento com 1917. Talvez seu centenário tenha se adiantado em um ou dois anos?

A boa notícia é que certamente há alguma curiosidade – como ficou evidente, em parte, graças àquelas resenhas improváveis, o fato do livro ter despertado interesses mais amplos do que eu esperaria. A melhor notícia é que a defensividade da esquerda para o tema agora baixou a guarda. Pessoas que tem pensado e escrito sobre isso por tantos anos, saíram da compreensível posição de meros advogados de defesa. Mais pessoas fiéis à revolução têm discutido com cuidado, e de modo mais aberto do que vi em outros momentos, os problemas internos do Partido Bolchevique, por exemplo, em vez de só se centrarem nos problemas externos, tão cruciais quanto estes. Isso é saudável.

Então, talvez em geral não haja tanto debate sobre a revolução quanto eu esperaria que houvesse, todavia o debate que se desenrola na esquerda e além parece no todo menos maquinal, menos envenenado do que eu poderia temer.

[Miéville e Blanc gostariam de agradecer Tithi Bhattacharya por armar os preparativos dessa discussão.]

9 de julho de 2017

As armadilhas do feminismo radical

O combate ao capitalismo continua sendo o único caminho para a plena libertação das mulheres.

Erica West

Jacobin

Membros da Liga de Organização Sindical das Mulheres de Nova York posam com um estandarte convocando para a jornada de oito horas em 1910. Kheel Center / Flickr.

Tradução / Para muitas feministas socialistas, é fácil criticar o feminismo liberal. Muitas de nós chegaram ao socialismo a partir do liberalismo e tiveram uma compreensão clara dos seus limites e falhas.

No entanto, a história e a essência do feminismo radical não é assim tão conhecida. Se o “radical” do feminismo radical sugere uma política que os socialistas poderiam adotar, um olhar mais cuidadoso revela uma ideologia incompatível com o feminismo socialista. Marcado por uma estreita compreensão sobre opressão de gênero e tendo uma estratégia equivocada de mudança, o feminismo radical — em última instância — falha ao não conseguir oferecer às mulheres um caminho para sua libertação.

O feminismo radical surgiu do feminismo da segunda onda na década de 1970, ao lado, mas mutuamente exclusivo, do feminismo socialista e marxista. No entanto, eles compartilham alguns pontos em comuns. Como as feministas socialistas, as feministas radicais problematizam o individualismo do liberalismo e argumentam que as escolhas pessoais e as conquistas individuais não são suficientes para transformar a sociedade. E localizam a opressão das mulheres em um contexto mais amplo e referente à sociedade.

Desde o seu princípio, o feminismo radical elencou como questões essenciais a violência sexual e a violência doméstica, considerando-as fundamentais para sustentar a opressão contra as mulheres. Andrea Dworkin, uma das feministas radicais mais proeminentes da década de 1980, se distinguiu em sua trajetória contra a violência sexual. Em um de seus discursos mais famosos, ela pediu uma trégua de 24 horas durante a qual não haveria um único caso de estupro. Dworkin implorou aos homens na platéia para tentar entender o profundo medo da violência sexual que as mulheres vivem todos os dias.

Esse compromisso de combater a violência sexual — um flagelo que dificulta todos os aspectos da vida das mulheres — é admirável. Assim como a ênfase das feministas radicais na reforma em larga escala ao invés de vitórias parciais.

Mas o modo como as feministas radicais lidaram com a concretização de mudanças é preocupante e sintomática de falhas mais profundas em sua ideologia.

O trabalho anti-pornografia é emblemático. Na década de 1980, muitas feministas radicais trabalharam para proibir a pornografia, observando-a como inerentemente misógina e violenta. Algumas, como Dworkin e Catherine MacKinnon — uma feminista radical acadêmica, advogada e professora — foram ainda mais longe. Aliadas a reacionários cristãos como Edwin Meese, elas pressionaram por uma série de decretos locais para acabar com a pornografia. “Entre os muitos legisladores com quem trabalhamos”, MacKinnon disse entusiasmada em uma edição de 1990 do New York Times, “uma delas é uma política conservadora. Tivemos a honra de trabalhar com ela”.

Alguns aspectos da pornografia são, sem dúvida, desprezíveis, racistas e violentos. Mas a proibição da pornografia faria pouco para abordar as preocupações materiais imediatas das mulheres envolvidas no setor. E não faz sentido se aliar aos conservadores para combater a opressão contra as mulheres. Estas são as mesmas pessoas que querem restringir os direitos reprodutivos das mulheres e tornar ainda pior o já precário Estado de Bem-Estar social.

O trabalho anti-pornografia das feministas radicais lança uma luz aos perigos de identificar erroneamente as raízes da opressão contra as mulheres. Baseando-se na censura, encorajando o aparelho carcerário, fazendo alianças com os inimigos da mudança progressiva — é aí que a análise do feminismo radical nos conduz.

Classe e a origem da opressão contra a mulher


No centro dos erros teóricos do feminismo radical está a concepção de classe.

Para as feministas radicais, as duas classes principais da sociedade não são a classe trabalhadora (que vende sua força de trabalho) e os capitalistas (que os exploram), mas os homens (os opressores) e as mulheres (as oprimidas). Esta é a teoria do patriarcado.

As feministas radicais nem sempre reconhecem o capitalismo, e mesmo quando o fazem, o consideram como uma esfera completamente separada, afastada da opressão feminina. Seu objetivo final é abolir o gênero, que elas consideram inerentemente hierárquico e opressivo em relação às mulheres.

Enquanto as marxistas compartilham dessa antipatia em relação ao patriarcado, nós temos uma concepção diferente da classe e das raízes da opressão das mulheres. Definimos a classe não em gênero, mas em termos econômicos: a classe de uma pessoa é determinada pela relação com os meios de produção e o Estado. Hillary Clinton e Sheryl Sandberg, por exemplo, pertencem a uma classe diferente a de uma estudante de pós-graduação feminina que luta em um sindicato ou a mãe de quatro filhos que trabalha em um restaurante de fast food em troca de salário mínimo.

As socialistas se opõem a todos os comentários machistas lançados contra Clinton, Sandberg e outras mulheres da elite. Mas o fato é que seus interesses como capitalistas e políticas bem colocadas estão fundamentalmente em desacordo com os interesses da grande maioria da sociedade.

Eis um exemplo recente: quando as trabalhadoras de um hotel feminino tentaram se sindicalizar em Cambridge, Massachusetts há alguns anos, elas pediram explicitamente o apoio de Sandberg, afirmando que elas estavam tomando seu conselho de “fazer acontecer”. Sandberg recusou-se a apoiá-las. E não é de admirar. A “irmandade” universal corria contra os interesses concretos do capital. As verdadeiras lealdades de Sandberg vieram à tona, de forma alta e evidente.

Como marxistas, sabemos que o inimigo não é homem, mas a classe capitalista — que é plural nos quesitos de gênero e raça — e a nossa estratégia deve refletir isso. A opressão contra as mulheres não é inata aos seres humanos, mas ocorreu em um momento histórico e político particular, ao lado do desenvolvimento da sociedade de classes e do núcleo familiar.

A opressão contra as mulheres persiste não apenas porque os homens nos odeiam, mas por conta do papel que desempenhamos historicamente no núcleo familiar. Enquanto os homens iam trabalhar todas as manhãs para participar da produção capitalista — fazendo carros na fábrica, escrevendo documentos no escritório — as mulheres estavam tipicamente envolvidas naquilo que é conhecido como reprodução social: a reprodução biológica de novos trabalhadores (ou seja, ter filhos) e a reprodução do dia-a-dia dos trabalhadores — lavar roupa, alimentar a família, preparar os filhos para a escola, e assim por diante.

Mesmo nas últimas décadas, quando as mulheres entram na força de trabalho remunerada em massa, elas ainda tendem a arcar com a “dupla jornada”, realizando a reprodução social em casa ao retornarem do trabalho.

Essas tarefas são vitais para o capitalismo. Os trabalhadores devem ser alimentados, vestidos e preparados todos os dias para que o capitalismo funcione. Mas é do interesse do capitalismo que este trabalho seja feito de graça e na esfera privada.

Como resultado, as feministas socialistas argumentam que a única maneira de libertar as mulheres é acabar com a sociedade de classes, de uma vez por todas.

Ao longo do caminho, existem reformas pelas quais podemos e devemos lutar, como aumentar o salário mínimo, introduzir a licença-maternidade remunerada e implementar a creche universal. Feministas socialistas como Sylvia Federici também defendeu “salários para tarefas domésticas“, a fim de proporcionar às mulheres a independência financeira e reconhecer seu trabalho na esfera doméstica como trabalho. Outros, como Angela Davis, propuseram socializar essas tarefas domésticas para eliminar o ônus desigual e de gênero das mulheres.

Mas nenhuma dessas reformas — e muito menos a derrubada do capitalismo — será conquistada sem movimentos unitários e de massas. E é aí que entra a classe trabalhadora. Devido à sua posição na sociedade, a classe trabalhadora como um todo — em toda sua pluralidade de gênero, raça e gerações — é o agente social que pode lutar para reformar radicalmente o capitalismo — e ir além.

Esse objetivo final inclui a abolição do gênero? Provavelmente! Citando Engels:

“Isso será respondido quando uma nova geração surgir: uma geração de homens que nunca em suas vidas souberam o que é comprar a rendição de uma mulher com dinheiro ou qualquer outro instrumento social de poder; uma geração de mulheres que nunca souberam o que é entregar-se a um homem de qualquer outra forma que não o amor real ou se recusar a se entregar ao seu amante pelo medo das conseqüências econômicas. Quando essas pessoas estiverem no mundo, eles vão se importar muito pouco com o que alguém acha que deveria fazer hoje; eles vão fazer sua própria prática e sua opinião pública correspondente sobre a prática de cada indivíduo — e esse será o fim disso.”

O feminismo radical e suas exclusões


Nos últimos anos, a visão de muitas pessoas sobre o feminismo radical tem sido influenciada por suas opiniões de TERFs, ou feministas radicais trans-excludentes. Nem todas as feministas radicais são TERFs. MacKinnon tem sido uma honesta defensora dos direitos das trans durante décadas, e criticou as TERFs por seu fanatismo. “Qualquer um que se identifica como uma mulher, quer ser uma mulher, se sente como uma mulher, no que me diz respeito, é uma mulher”, disse ela em uma entrevista em 2015.

Mas, embora não seja sinônimo, o feminismo radical contém muitas TERFs em suas fileiras, e suas idéias centrais se prestam a uma exclusão das pessoas trans, especialmente as mulheres trans.

Para muitas feministas radicais, não importa o gênero com que alguém se identifica e se apresenta — só importa o sexo que foi atribuído no nascimento. Se os homens são os opressores e a fonte da opressão contra as mulheres, por consequência esses homens mantêm esse poder de oprimir, mesmo após a transição. A sua socialização como homem, não importa quão pouco vivida ou atormentada pela violência de gênero, os torna agentes da opressão feminina. Assim, muitas feministas radicais proíbem as pessoas trans, e particularmente as mulheres trans, de seus espaços políticos e organizacionais.

Essa exclusão não é apenas uma intolerância — é hipócrita: enquanto as feministas radicais lutam vigorosamente contra a violência sexual, as mulheres trans são as maiores vítimas de violência física e sexual, especialmente as mulheres trans negras.

As TERFs podem argumentar que as mulheres trans não têm o mesmo sistema reprodutivo que as mulheres cis e, portanto, não podem entender as lutas das mulheres em relação ao controle de natalidade e contra a esterilização forçada. Mas, então, o que elas têm a dizer a respeito de solidariedade com as mulheres lésbicas, ou mulheres cis que não podem ou escolhem não ter filhos? Os argumentos que as TERFs apresentam são fracos.

O feminismo radical também se mantém em silêncio sobre a questão do racismo e está imerso em uma estratégia politicamente suspeita de lutar contra isso.

Os homens negros perpetuam o machismo exatamente da mesma forma que os homens brancos. Mas sua experiência de racismo também os vinculam com as mulheres negras em suas comunidades. Como Sharon Smith escreve, “a necessidade de lutar ao lado dos homens na luta contra o racismo ou na luta de classes [fez] as idéias individuais não parecerem atraentes” para mulheres negras.

Na verdade, para muitas mulheres, a luta contra o racismo está intrinsecamente ligada à luta contra o machismo (ambos enraizados no capitalismo).

O coletivo do rio Combahee, um grupo lendário de socialistas feministas negras, incorporou esse entendimento, escrevendo em sua declaração de 1979: “Precisamos articular a verdadeira situação de classe de pessoas que não são apenas trabalhadores sem raça e sem sexo, mas para quem a opressão racial e de gênero são determinantes em suas vidas econômicas”.

As mulheres não podem reduzir suas experiências de opressão apenas ao seu gênero. A maioria de nós são trabalhadoras. Muitas de nós são mães, negras, LGBTs e muito mais. Precisamos entender como todas essas coisas estão unidas para combater a dominação em todas as esferas — e ganhar.

Como lutar contra a opressão contra a mulher


Enquanto as feministas radicais tentam postular a ação individual como uma estratégia política — sendo, para algumas, o objetivo –, as feministas socialistas entendem que a nossa força está em nossa quantidade. A separação entre trabalhadoras e trabalhadores, entre pessoas cis e trans, são prejudiciais para nossos objetivos gerais. Ela apenas nos enfraquece e torna a luta contra o capitalismo mais difícil.

O objetivo das feministas socialistas é construir solidariedade em toda a classe trabalhadora. O nosso futuro é um só e a luta contra a opressão de gênero é inseparável da luta contra a transfobia, o racismo, e o capitalismo de forma mais ampla. Todo e qualquer movimento ou teoria feminista que exclui as pessoas trans, seja de forma implícita ou explícita, intencionalmente induz que a transfobia não é uma questão que deve ser debatida pela esquerda.

Recentemente, um fórum da esquerda gerou polêmica ao incluir um painel que questionava a legitimidade das pessoas trans e sua necessidade de ter cuidado médico. Após muita controvérsia, o painel foi cancelado — de forma correta. Com o movimento trans ganhando fôlego, a esquerda deve ser solidária às pessoas trans e não binárias.

Se por um lado há coisas nas quais podemos encontrar inspiração dentro do Feminismo Radical — por exemplo, a ênfase na luta contra a violência sexual –, sua análise sobre a raiz da opressão contra as mulheres e seus reflexos sobre como podemos nos organizar politicamente são um fracasso.

A raiz da opressão contra a mulher não é o homem, mas a sociedade de classes. Lutar contra o capitalismo continua sendo o único caminho para lutar pela total emancipação da mulher.

8 de julho de 2017

Um cinturão da ferrugem inglês?

Para ganhar poder, o corbynismo precisa desafiar a presença conservadora rastejante no antigo centro industrial da Inglaterra

Alex Niven


Estandartes dos sindicatos reunidos para a Festa dos Mineiros de Durham em 2008.

Tradução / De repente, estamos no meio de um momento populista, com toda a vertigem que isso implica. A exibição inesperadamente boa dos trabalhistas nas eleições gerais britânicas levou a um abrandamento abrupto e dramático dos horizontes, no meio do qual Gramsci é citado casualmente por jornalistas de folhetim e a possibilidade de um primeiro-ministro socialista parece tentadoramente ao alcance.

Os esquerdistas no Reino Unido e em todo o mundo devem permitir-se um momento de sonhos perigosos neste momento. O "trabalhismo sensível" teve seu dia. Durante o último mês, a crença antiga de que devemos valorizar o pragmatismo acima de tudo diminuiu rapidamente. Na verdade, uma ironia trágica de 2017 é que o falecido Mark Fisher - que argumentou tão apaixonadamente que a mudança radical no século XXI seria provocada por uma rejeição decisiva do "realismo capitalista" - não está prestes a testemunhar a rapidez com que a cautela estratégica está dando lugar a surtos de idealismo efusivo.

O levante Corbyn sem dúvida marca o ponto de maturação de uma nova e notável forma de esquerda popular. Mas não suficientemente popular para avançar sobre o poder dia 8 de junho. A força estará agora com Corbyn para fazer precisamente isso nas próximas eleições, como mostram hoje as pesquisas de opinião? Ou há fragilidades estratégicas mais profundas na estratégia do Trabalhismo britânico?

No próximo fim de semana, a Festa dos Mineiros de Durham reunirá milhares de socialistas de todo o país, no nordeste da Inglaterra. Pela primeira vez em muitos anos há crença genuína de que seja iminente na Grã Bretanha um governo chefiado pela esquerda. Mas a reunião acontecerá numa parte do país onde a eclosão do corbynismo foi muito irregular e instável – e o futuro daquela eclosão parece muito incerto.

Um dos resultados mais satisfatórios das consequências da eleição foi o espetáculo de corbyncéticos engolindo suas palavras, às vezes, literalmente. Mas, ao lado de uma série de mea culpas, desde admissões aparentemente genuínas até estranhos apelos à responsabilidade coletiva, também houve algumas respostas do tipo "lamento, mas nem tanto", que, apesar de serem espirituosas, fornecem ressalvas interessantes para a história do sucesso trabalhista de 2017.

Entre estes, destacou-se uma diatribe do deputado trabalhista corbyncético de longa data John Mann, publicada no site da Política Home. Depois de um pouco debruçar o capim para a conquista notável de Corbyn em "detonar" os lugares comuns monetaristas das últimas décadas, Mann exigiu que o Trabalhista agora abordasse o que ele chama de "pergunta Bolsover".

A frase de Mann encarna o que o deputado vê como um problema residual na fórmula corbynista. Bolsover é um distrito eleitoral no leste da Inglaterra, que assistiu a uma mudança de 7,75% de eleitores do Partido Trabalhista para o Partido Conservador (Tories), a segunda maior mudança desse tipo na eleição em todo o país. Embora nesse caso a mudança não tenha sido suficiente para deixar fora do Parlamento o deputado Trabalhista Denis Skinner (veterano militante da esquerda, muito eloquente, famoso pelos ditos anti-Tory cortantes), mudanças similares em distritos eleitorais vizinhos, de Mansfield e North Derbyshire elegeram candidatos Tories em conhecidos tradicionais redutos dos trabalhistas, dois dos raros avanços contra os trabalhistas, da eleição de junho.

Para Mann, essa mudança de vermelho para azul no leste é sinal de que, embora Corbyn talvez tenha vencido a discussão ao se opor à austeridade e ao pregar a "equidade" (conceito nebuloso bem-amado dos centristas de 2010), ele ainda resiste contra as "aspirações da classe trabalhadora branca em áreas industriais." Para Mann, ao deixar de lado esse grupo demográfico, "nos arriscamos a cair na política de Trump e do cinturão de fábricas enferrujadas, ou ainda pior."

Os termos de Mann mais confundem do que esclarecem, fazendo lembrar o jargão silogístico do blairismo (felizmente, forma artística já ultrapassada). Mann diz que os problemas de Corbyn com eleitores trabalhistas tradicionais brotariam da posição dele sobre armas nucleares e terrorismo, e cita a dificuldade de Corbyn, que não "condena sem meias palavras toda e qualquer violência do IRA."

Há furos enormes na teoria social de Mann. Depois de anos de floreios e flertes centristas com o conservadorismo social, a ideia de "classe trabalhadora branca" tem sido recentemente muito mais profundamente examinada, revelando o quanto se deve suspeitar dessa mistura de raça e classe. Ainda que essa demografia existisse, deveríamos por isso acreditar que ela se oporia, em bloco, oposição militarista, ao Republicanismo Irlandês e à preservação do arsenal nuclear?

Contudo, por mais que a "questão Bolsover" de Mann esteja mal proposta e tenha raízes em clichês do Blue Labour, não é necessariamente a pergunta mais errada a propor. Pode-se dizer, tomando emprestado um axioma de Ian Brown, vocalista da banda Stone Roses, que Mann parece ter pegado o porrete certo, mas pela ponta errada. Será que o apoio hoje reduzido de certa ala da classe trabalhadora mais tradicional poderia ser mesmo um obstáculo na trilha até a hegemonia eleitoral de Corbyn?

Pouco nos ajuda, nesse contexto, qualquer comparação acovardada com o trumpismo e a base de apoio que encontrou no "Cinturão da Ferrugem" (apoio o qual, ele mesmo, é altamente discutível). Mas não pode haver dúvida de que, em algumas partes da Inglaterra e em anos recentes, comunidades da classe trabalhadora industrial foram arrastadas – embora de forma não conclusiva até agora – para a direita, mesmo numa eleição em 2017 que, sob incontáveis outros aspectos, foi fracasso retumbante para o conservadorismo inglês.

No nordeste da Inglaterra, onde eu vivo e fiz campanha para os trabalhistas este ano, a maioria dos assentos testemunhou uma oscilação dos trabalhistas para os conservadores. Isto aponta para uma fraqueza neste longo período de trabalhismo do coração do país, uma região que ainda não se recuperou completamente da remoção cirúrgica de sua base de fabricação (carvão, aço, construção naval) no período neoliberal.

A verdade é que a oscilação de Trabalhistas para Conservadores no nordeste da Inglaterra em 2017 foi relativamente modesta. Só em um distrito eleitoral, Middlesbrough South & East Cleveland (área praticamente de classe média, vizinha do distrito de North Yorkshire, rural e conservador) e que realmente votou com os conservadores. No restante do país, nos ex-campos de carvão, hoje em depressão profunda, de Northumberland e Condado de Durham, a oscilação não ultrapassou 4% (usualmente menos) e não foi suficiente para inverter as maiorias trabalhistas. O Partido Trabalhista venceu os Conservadores no distrito eleitoral de Stockton South, com oscilação de quase 6%, e mudanças de azul para vermelho em quase 1/3 dos assentos parlamentares do nordeste resultaram em aumento dramático das maiorias trabalhistas em grandes centros urbanos, como Newcastle.

Como essas nuanças reforçam, temos de desconfiar muito desse tipo de estereotipo regional que se tornou frequente em todo o comentário político londrino em anos recentes – sobretudo depois que o Brexit e o "levante do UKIP" ofereceram incontáveis desculpas para pintar os eventos no norte como ressaca racista.

Deve-se esperar que a energia atual da campanha pós-eleitoral corbynista, que agora, quase miraculosamente, está invocando uma revolução permanente, seja suficiente para cancelar os ganhos embora moderados e análogos dos Conservadores no nordeste e East Midlands. Houve uma diferença de ritmo na campanha eleitoral: algumas áreas do país demoraram a aderir ao "levante Corbyn", mas podem bem fazê-lo agora, quando o humor popular já mudou decisivamente.

Mesmo assim, há provas de sobra de uma intimidante presença conservadora no "Cinturão Inglês da Ferrugem", especialmente em cidades pós-industriais menores como Stoke-on-Trent e Sunderland, para sublinhar que essa oscilação à direita é um dos desafios, e terá de ser enfrentado como tal, no caminho de um Partido Trabalhista em ascensão recentemente radicalizado.

A Direita do Partido Trabalhista fez dessa a sua principal linha de ataque contra a liderança de Corbyn no início da eleição, produzindo pesquisa que mostrava o partido como o último, na preferência dos trabalhadores de mais alta qualificação. O deputado Graham Jones resumiu as preocupações de eleitores da classe trabalhadora tradicional como "contraterrorismo, nacionalismo, defesa e comunidade, contenção de ameaças nucleares e patriotismo." Se essa linha predominar, significará considerável neutralização do potencial de radicalismo do corbynismo.

Mas isso não significa que não haja um problema a ser abordado. Então, o que deve fazer o Partido Trabalhista de Corbyn para fortalecer o apoio nesses redutos do trabalhismo que se tornaram agnósticos como resultado de anos de negligência por sucessivos governos neoliberais, de Thatcher e Blair a Cameron e May?

Dado que locais como Derbyshire & o Condado de Durham foram crucialmente decisivos também nos séculos XIX e XX, parece óbvio que seriam bom local para começar uma campanha dinâmica de ressindicalização. Com o número de filiados sindicalizados ainda em queda livre, há alguma urgência para que se organize a força de trabalho que subsiste fora dos grandes centros urbanos.

Em todas as áreas do norte e terras médias, a grande maioria dos trabalhadores são apanhados entre o setor público desempoderado, os salários congelados da indústria sufocada de serviços, e o submundo obscuro da economia de Sports Direct (caso da fábrica central do império de roupa esportiva de Mike Ashley, que se tornou sinônimo de exploração em tempo integral na Grã-Bretanha moderna, instalada no distrito eleitoral de Bolsover). Nesse contexto, o número de novos sindicalizados deveria estar subindo sem parar, não despencando como se vê hoje.

Não será suficiente para as lideranças sindicais de esquerda que apoiam Corbyn discutir as políticas corbynistas. Aquelas lideranças terão necessariamente de renovar o foco, e reorientar-se para construir poder nos locais de trabalho e aumentar a participação nos sindicatos. Essa mensagem já começa a circular entre os trabalhadores corbynistas, com apoio de secretários-gerais como Dave Ward, do Sindicato dos Trabalhadores em Comunicação da Grã-Bretanha, que reconheceu que "vemos a política quase como uma desculpa para não estar nas fábricas e não influenciar mudança alguma, porque a mudança tornou-se muito difícil."

Também crucial nesta conjuntura, à medida que as possibilidades se multiplicam, é uma contrapartida trabalhista convincente do antigo ao esquema de "Northern Powerhouse" do ex-chanceler do Tory George Osborne, cada vez mais desacreditado. Talvez a última grande paixão neoliberal, Osborne procurou abordar a disparidade econômica entre o norte e o sul, construindo Manchester como uma capital financeira de segundo nível e apelando para a introdução de prefeituras promocionais nas maiores cidades do norte (Manchester, Liverpool, Leeds, Sheffield, Hull, Newcastle).

Como aconteceu a tantas quimeras conservadoras dos anos 2010, o projeto de Osborne parece hoje absurdamente ultrapassado. O Partido Trabalhista deve colher essa oportunidade e expandir uma estratégia industrial de John McDonnell e dar-lhe foco popular e regionalista. O Partido Trabalhista sob Corbyn chegou a flertar com essa ideia – quando anunciaram um banco e um conselho do Norte. Mas, embora o manifesto, sim, incluísse referência a iniciativas financeiras locais e à democracia, omitiu as ênfases específicas.

Essas políticas tinham por base o documento da "Northern Future", que prometia "rompimento declarado com uma economia que só se foca no que interessa à City de Londres." Aquelas propostas – que iam de indústria e democracia até cultura e educação – seriam desenvolvidas para gerar oferta que interessasse, e que proveria um caminho para encerrar o capítulo de décadas de decadência planejada imposta pelo norte por governos sucessivos.

A eleição de 2017 viu uma recalibração de tradicionais noções de classe na Grã-Bretanha, com a emergência de um novo proletariado que apoia Corbyn, dos jovens trabalhadores precários, de minorias étnicas, profissionais espremidos, e as massas mal sucedidas. De repente, parafraseando Henry James, nos pomos a supor coisas incontáveis e maravilhosas. Mas, para consolidar completamente a ocupação da paisagem eleitoral britânica, o Partido Trabalhista de Corbyn tem de deter o movimento pelo qual os Conservadores estão vazando de cima para baixo da pirâmide econômica na direção das cidades e vilas mineiras e do aço abandonadas na Inglaterra, e recuperar aquelas vozes marginais, para uma releitura renovada e estimulante do socialismo do século 21.

Sobre o autor

Alex Niven é professor conferencista de Literatura Inglesa na Newcastle University e editor de Repeater Books. Seu primeiro livro, Folk Opposition, foi publicado pela Editora Zero Books em 2011.

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