26 de dezembro de 2020

Mais uma década perdida

Crescimento de desigualdade e concentração de riqueza alimentou conflitos e geraram onda populista de extrema direita

Guido Mantega

Folha de S.Paulo

A crise do coronavírus reflete o triste fim de uma década infame, que começou mal em 2011, sob o impacto da grande crise financeira de 2008. Nesse período, o comércio mundial encolheu e a maioria dos países não cresceu, ou o fez a um ritmo muito lento, o “novo normal”.

No Brasil, caso se confirme a previsão de um PIB negativo de 5% neste ano, a economia do país terá ficado estagnada nesses dez anos, com crescimento anual de no máximo 0,2%. Não se trata só de mais uma década perdida, mas a de pior desempenho desde a que inaugurou o século passado, segundo o IBGE.

O capitalismo mundial vem perdendo dinamismo desde o fim das políticas de bem-estar social, nos anos 70. Desde então, a cada década o investimento no mundo fica mais fraco —no Brasil caiu de 20,5% do PIB em 2014 para 15,4% em 2019.

Guido Mantega foi ministro do Planejamento de 2003 a 2004, presidente do BNDES em 2005 e ministro da Fazenda de 2006 a 2014 - Ilustração Luciano Veronezi

Depois da crise de 2008, a produtividade dos países avançados e do Brasil cresceu em média de 0,5% a 1% ao ano. Foi a menor alta das últimas cinco décadas. Com a desregulação dos mercados estabeleceu-se o império do capital financeiro.

Os lucros apropriados pelo setor financeiro, que representavam 10% do lucro das corporações em 1950, passaram para mais de 30% em meados da década de 2010. No Brasil os juros e os lucros do setor financeiro continuaram elevados nos anos 2010, conforme pode ser constatado pelos lucros dos grandes bancos.

A outra face dessa moeda é a precarização do trabalho e o aumento da desigualdade e da concentração de renda em escala mundial. Agora, com a Covid-19, o desemprego vai bater recorde na maioria dos países. No Brasil já está em 14%, e tende a aumentar no ano que vem.

De acordo com o IBGE, os 10% mais ricos da população brasileira concentravam 43% da massa de rendimentos em 2018, enquanto os 10% mais pobres ficavam com apenas 0,8%. O aumento da desigualdade da concentração de renda é uma característica marcante da década de 2010, com perda de direitos dos mais pobres e a consequente deterioração da democracia.

Martin Wolf escreveu no Financial Times que a ascensão do capitalismo rentista poderá significar a morte da democracia liberal.

O Brasil começou a década perdida com expansão razoável de 3% ao ano e chegou a 2014 com a economia desacelerada, mas com uma dívida líquida baixa (36,7% do PIB) e com abundantes reservas financeiras (US$ 376 bilhões). No final de 2014 o desemprego era de 4,7%, o menor da séria histórica, assim como a pobreza e a miséria estavam nos mais baixos patamares.

Logo depois da reeleição de Dilma Rousseff o país mergulhou numa forte crise política que deixou o governo acuado. A Operação Lava Jato paralisou a Petrobras e a cadeia produtiva de gás e petróleo, e as grandes construtoras, responsáveis por boa parte do investimento.

Essa crise foi amplificada pelo abandono da estratégia desenvolvimentista praticada até 2014. Com a nomeação de Joaquim Levy para o ministério da Fazenda em 2015 foi inaugurada uma nova fase neoliberal que vigora até hoje.

O crescimento da desigualdade social e da concentração de riqueza alimentou fortes conflitos, que desembocaram em mobilizações sociais e geraram uma onda populista de extrema direita, que fomentou o ódio e a radicalização. Foi assim que surgiram Donald Trump, nos EUA, e Bolsonaro, no Brasil. Grã-Bretanha, Polônia e Hungria são outros exemplos.

O esgarçamento do tecido social e o desespero da população nos EUA foi muito bem retratado por A. Deaton e A. Case no livro “Deaths of Despair” (2019). O livro registra a proliferação de suicídios e mortes por overdose devido ao consumo excessivo de álcool e opioides. No Brasil a situação não é diferente. O país é o quinto em número de pessoas com depressão —cerca de 12 milhões, segundo a Organização Mundial da Saúde.

O cenário não é animador. Mas já apareceu uma luz no fim do túnel: a recusa do eleitor americano em renovar o mandato de Trump, o símbolo do novo autoritarismo. Pode ser o primeiro passo para a queda de outros líderes truculentos e incompetentes.

Sobre o autor

Foi ministro do Planejamento (2003 a 2004), presidente do BNDES (2005) e ministro da Fazenda (2006 a 2014). É professor da FGV desde 1980.

24 de dezembro de 2020

A Pfizer está usando regras de patentes para reduzir o acesso global à vacina da COVID-19

Se já houve um momento para suspender as regras globais de patentes para garantir a distribuição generalizada de uma vacina, o momento é esse. No entanto, a gigante farmacêutica Pfizer está atualmente se opondo a uma proposta da Organização Mundial do Comércio de expandir o acesso à vacina aos países pobres, na esperança de acumular distribuição - e lucros - em vez de salvar vidas.

Sarah Lazare

Jacobin

A Pfizer desempenhou um papel fundamental no estabelecimento das próprias regras de propriedade intelectual da OMC que agora está invocando para argumentar contra a liberação de suprimentos de vacinas para os países pobres. (Marco Verch / Flickr)

Tradução / A gigante farmacêutica Pfizer, cuja vacina COVID-19 com o parceiro alemão BioNTech foi aprovada em 11 de dezembro para uso emergencial nos Estados Unidos, surgiu como opositora protagonista no esforço global para garantir que os países pobres tenham acesso à vacina.

Em outubro, a Índia e a África do Sul apresentaram uma proposta para que a Organização Mundial do Comércio (OMC) interrompa as patentes para tratamentos de Covid-19 no acordo de propriedade intelectual da organização: “Aspectos Relacionados ao Comércio dos Direitos de Propriedade Intelectual” ou TRIPS . Agora, apoiada por quase uma centena de países, a proposta permitiria uma produção mais acessível de tratamentos genéricos durante a pandemia.

Como os países ricos acumulam estoques de vacinas e um estudo avisa que um quarto da população mundial não receberá a vacina até 2022, a proposta – se aprovada – poderia potencialmente salvar inúmeras vidas no Sul Global.

Mas, até agora, os Estados Unidos, a União Europeia, a Grã-Bretanha, a Noruega, a Suíça, o Japão e o Canadá bloquearam com sucesso essa proposta, em um contexto em que o atraso certamente trará mais mortes.

A indústria farmacêutica, preocupada em proteger seus lucros, é uma parceira poderosa nessa oposição, tendo a Pfizer entre seus líderes. “A propriedade intelectual, que é o sangue do setor privado, é o que trouxe uma solução para essa pandemia e não é uma barreira agora”, declarou Albert Bourla, presidente-executivo da Pfizer, na semana passada. Em um artigo de 5 de dezembro no Lancet, a Pfizer registrou sua oposição à proposta, dizendo: “um modelo único que serve para todos desconsidera as circunstâncias específicas de cada situação, cada produto e cada país”.

Os apelos da Pfizer fazem parecer que as regras de propriedade intelectual e eas estruturas dos monopólios farmacêuticos é um senso comum na ordem global cujos os benefícios para a sociedade são aparentes. Mas, na realidade, essas normas internacionais são relativamente recentes e foram moldadas, em parte, pela própria Pfizer.

De meados dos anos 1980 ao início dos anos 1990, a empresa desempenhou um papel crítico no estabelecimento das próprias regras de propriedade intelectual da OMC que agora está invocando em seu argumento contra a liberação de suprimentos para fazer vacinas em países pobres. O “sangue do setor privado” a que Bourla apela não é um estado natural das coisas, mas reflete uma estrutura comercial global que a empresa ajudou a criar – em detrimento das pessoas pobres em todo o mundo que buscam acesso a medicamentos que salvam vidas.

Uma campanha corporativa

Em meados da década de 1980, Edmund Pratt, então presidente da Pfizer, tinha uma missão: garantir que fortes proteções de propriedade intelectual (PI) fossem incluídas na Rodada Uruguai do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) – o comércio de negociações multinacionais que resultariam no estabelecimento da OMC em 1995. Seu cálculo era simples: as proteções eram vitais para proteger a “competitividade” global – ou resultado financeiro – de sua empresa e de outras indústrias norte-americanas.

Para sua grande vantagem, Pratt tinha considerável poder institucional além de sua alta posição corporativa. Como os autores Charan Devereaux, Robert Z. Lawrence e Michael D. Watkins observam em seu livro Case Studies in US Trade Negotiation, Pratt serviu no Comitê Consultivo em Negociações Comerciais para os governos Carter e Reagan.

Em 1986, ele foi co-fundador do Comitê de Propriedade Intelectual (IPC), que iria construir relacionamentos com indústrias em toda a Europa e Japão, reunir-se com funcionários da Organização Mundial de Propriedade Intelectual das Nações Unidas e fazer um lobby agressivo – tudo com o propósito de garantir que a PI sempre fosse incluída nas negociações comerciais.

Tanto global quanto domesticamente, a Pfizer desempenhou um papel importante na promoção da ideia de que o comércio internacional deve ter fortes regras de propriedade intelectual, enquanto classifica os países que não seguem as regras de propriedade intelectual dos EUA como praticantes de “pirataria”.

Como Peter Drahos e John Braithwaite observam em seu livro Information Feudalism: “Como a batuque de um tambor, a mensagem sobre propriedade intelectual foi transmitida pelas redes de negócios às câmaras de comércio, conselhos empresariais, comitês empresariais, associações comerciais e grupos empresariais. Progressivamente, os executivos da Pfizer que ocuparam cargos importantes em organizações empresariais estratégicas foram capazes de registrar seu apoio para uma abordagem baseada no comércio da propriedade intelectual”.

Não se sabia, na época, que a propriedade intelectual seria incluída nas negociações comerciais. Muitos países do Terceiro Mundo resistiram a tal inclusão, alegando que regras de propriedade intelectual mais rígidas protegem o poder do monopólio das grandes corporações e minam os controles de preços internos, conforme explica o livro Case Stud­ies in US Trade Nego­ti­a­tion.

Em 1982, a primeira-ministra indiana Indira Gandhi disse à Assembleia Mundial da Saúde: “A ideia de um mundo mais organizado é aquele em que a descoberta médica estará livre de todas as patentes e não haverá lucro com a vida ou a morte das pessoas”. O Christian Science Monitor relatou em 1986: “O Brasil e a Argentina lideraram um grupo que bloqueou as tentativas dos EUA de incluir a proteção à propriedade intelectual na nova rodada de negociações”.

Mas Pratt tinha aliados poderosos, incluindo o presidente da IBM, John Opel, e seus esforços desempenharam um papel importante em garantir a inclusão do TRIPS – que define as regras de propriedade intelectual – nas negociações do GATT.

Pratt, por sua vez, recebeu crédito pelo resultado. “A atual vitória do GATT, que estabeleceu dispositivos de propriedade intelectual, é resultado dos árduos esforços do governo dos EUA e de empresas norte-americanas, incluindo a Pfizer, nas últimas três décadas. Estamos nisso desde o início, assumindo um papel de liderança”, declarou Pratt, de acordo com o livro Whose Trade Orga­ni­za­tion? A Com­pre­hen­sive Guide to the WTO.

Durante as negociações do TRIPS, o IPC desempenhou um papel ativo na organização de líderes empresariais nos Estados Unidos, bem como na Europa e no Japão, para apoiar regras rígidas de propriedade intelectual. Quando a OMC foi formalmente estabelecida e o Acordo TRIPs concluído, Pratt não era mais presidente da Pfizer. Mas sua contribuição e o papel da Pfizer ainda eram fortemente reconhecidos.

Como Devereaux, Lawrence e Watkins observam, um negociador norte-americano disse que foram Pratt e Opel que “basicamente arquitetaram, pressionaram e persuadiram o governo a incluir a PI como uma das prioridades de negociação” em primeiro lugar.

O Acordo TRIPS da OMC, que entrou em vigor em 1995, viria a ser o “acordo mais importante sobre propriedade intelectual do século 20”, escrevem Drahos e Braithwaite. O acordo colocou a maior parte do mundo sob padrões mínimos de propriedade intelectual, incluindo monopólios de patentes para empresas farmacêuticas, com algumas salvaguardas e flexibilidade limitadas.

Dean Baker, economista e cofundador do Center for Economic and Policy Research (CEPR), um think tank de esquerda, disse ao In These Times: “O TRIPS exigia que os países em desenvolvimento e países em todo o mundo adotassem uma patente do tipo norte-americano e regra de direitos autorais. Anteriormente, ambos estavam fora dos acordos comerciais, então os países podiam ter as regras que quisessem. A Índia já tinha uma indústria farmacêutica bem desenvolvida na década de 1990. Antes do TRIPS, a Índia não permitia que as empresas farmacêuticas patenteassem medicamentos. Eles podiam patentear processos, mas não medicamentos”.

Cortando o acesso aos medicamentos

OTRIPS trouxe lucros para as empresas farmacêuticas e “aumentou os custos dos remédios nos Estados Unidos e restringiu ainda mais a disponibilidade de medicamentos que salvam vidas nos países em desenvolvimento da OMC”, de acordo com o grupo de vigilância corporativa Public Citizen.

Essa dinâmica se desenrolou impiedosamente durante a crise da AIDS, que estava em pleno andamento quando a OMC foi criada. “O governo sul-africano levou quase uma década para quebrar os monopólios mantidos por empresas farmacêuticas estrangeiras que mantinham o país refém e mantinham pessoas morrendo”, escreveram Achal Prabhala, Arjun Jayadev e Dean Baker em um artigo recente no New York Times.

É difícil pensar em um caso mais claro para suspender as leis de propriedade intelectual do que uma pandemia global, uma posição que certamente não é marginal no contexto político de hoje. Além de uma série de ativistas globais, os principais grupos de direitos humanos e especialistas em direitos da ONU acrescentaram suas vozes à demanda pela suspensão das leis de patentes.

Seus apelos seguem o movimento por justiça global da década de 1990 e início de 2000, que se protestou contra o papel da OMC, juntamente com outras instituições globais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, na expansão do poder das corporações para minar as proteções internas, de trabalho ao meio ambiente à saúde pública. O poder descomunal dos Estados Unidos e das corporações norte-americanas na OMC – em evidência ao bloquear a proposta de renúncia de patente – tem sido um ponto-chave na crítica.

A Pfizer não está sozinha em estabelecer sua oposição à suspensão das regras de propriedade intelectual. Grupos comerciais da indústria farmacêutica e empresas individuais – incluindo a Moderna, que está por trás de outra vacina líder contra Covid-19 – se manifestaram com força total contra a proposta para suspender as rígidas regras de propriedade intelectual.

“A influência da indústria farmacêutica é enorme”, disse Baker ao In These Times. “Não é preciso dizer que Trump fortaleceu a indústria farmacêutica. Até mesmo Biden será muito pressionado para fazer algo de que não gosta. Ninguém, além da indústria farmacêutica, vai se levantar contra isso. São eles que estão empurrando isso.”

A indústria farmacêutica está lutando para acumular informações que salvam vidas sobre vacinas e tratamentos para Covid-19, apesar do enorme papel dos fundos públicos em permitir seu desenvolvimento. O parceiro da Pfizer, BioNTech, por exemplo, recebeu financiamento público significativo da Alemanha. Mas com um custo estimado de US$ 19,50 por dose para as primeiras 100 milhões de doses, a vacina é muito cara para muitos países pobres, especialmente à luz de seus altos requisitos de armazenamento.

A empresa farmacêutica AstraZeneca, que produziu uma vacina com Oxford, assumiu alguns compromissos para aumentar o acesso aos países pobres e diz que não terá lucro com a vacina durante a pandemia. Mas “manteve o direito de declarar o fim da pandemia já em julho de 2021”, observam Prabhala, Jayadev e Baker.

Os últimos dados indicam o que poderia ter sido previsto meses atrás: alguém poderia fazer um mapa da pobreza global, colocá-lo sobre um mapa de acesso à vacina e seria uma correspondência virtual um para um. “Os EUA, Grã-Bretanha, Canadá e outros estão protegendo suas apostas, reservando doses que superam em muito suas populações”, relata o New York Times, “enquanto muitas nações mais pobres lutam para garantir o mínimo suficiente”.

Este é um resultado lógico para um sistema projetado desde o início para reforçar as estruturas de poder existentes há muito tempo, municiadas por um legado entrincheirado no colonialismo. Independentemente da “intenção”, mais uma vez os países negros e pardos, em geral, são deixados para sofrer e morrer enquanto os países ricos do Norte Global excedem em muito sua capacidade necessária (embora isso não seja garantia de distribuição equitativa dentro dos países do Norte Global).

Dado o risco de vermos um apartheid global de distribuição de vacinas, no qual os países pobres continuam a enfrentar perdas devastadoras enquanto os países ricos buscam imunidade coletiva, garantias vagas de benevolência corporativa não são suficientes. Como Baker diz: “por que você não iria querer que todas as vacinas fossem disponíveis o mais amplamente possível?”

Reproduzido do In These Times.

Frank Carber e Hannah Faris contribuíram com pesquisas para este artigo.

Sobre o autor

Sarah Lazare é editora web do In These Times. Ela tem experiência em jornalismo independente e publica artigos no The Intercept, The Nation e Tom Dispatch.

Cristo foi um colaborador?

Análise política clássica do Jesus histórico, por um antigo camarada da Review.

Peter Wollen

Sidecar


Jesus de Nazaré viveu em uma época de turbulência política. Entre as linhas dos Evangelhos, que são nossa principal fonte de informação sobre ele, isso vem alto e claro. Mas nunca é trazido à tona. A última coisa que os escritores dos Evangelhos queriam era arrastar a política para dentro. Eles queriam extrair Jesus de sua situação histórica real e transmitir uma mensagem universal, que pudesse ser aplicada a qualquer um. Acima de tudo, eles não queriam vincular Jesus ao destino do povo judeu que, no momento em que escrevia, tinha acabado de ser esmagado pelas legiões romanas após uma amarga guerra de resistência.

No entanto, a situação real em que Jesus viveu é bastante clara. Em 63 a.C., a Palestina foi conquistada por um exército romano, liderado por Pompeu, e tornou-se parte da província romana da Síria. Pompeu, acompanhado por sua equipe militar, entrou no Santo dos Santos do Templo de Jerusalém, que havia sido defendido por seus sacerdotes depois que o rei reinante abriu os portões da cidade para os invasores. Daquele momento em diante, até o confronto final 133 anos depois, em 70 d.C., a história da Palestina é principalmente uma história de resistência judaica ao domínio romano. Foi uma resistência sem esperança que ocorreu durante um tempo que fundamentalmente foi de expansão romana. Jesus de Nazaré viveu bem no meio desse período e, apesar de seu conhecido apego ao outro mundo, ele dificilmente poderia estar cego ao que estava acontecendo.

O papel estratégico da Palestina

A situação não era fácil para os romanos. A Palestina — Judeia, como a parte judaica dela era chamada — era um de uma cadeia de pequenos estados, que se estendia da Armênia até o Egito, que formava uma zona-tampão entre Roma e o Império Parta a leste, com sede na Pérsia. A Palestina era um elo crucial na cadeia porque fazia fronteira com o Egito, celeiro de Roma. A Pártia era a segunda maior potência da região e nunca foi conquistada por Roma. De fato, várias vezes infligiu derrotas às legiões romanas, derrotou-as e capturou as águias que eram seus estandartes de batalha. Então a Palestina era uma área sensível. Uma revolta judaica podia contar com o apoio parta. De fato, em 40 a.C., apenas cerca de vinte anos após a invasão de Pompeu e não muito antes do nascimento de Jesus, foi exatamente isso que aconteceu. O regime fantoche romano foi derrubado e um novo rei instalado, com apoio parta. Os partas, além disso, diferentemente dos romanos, tomaram cuidado para não profanar o Templo. Sua posição era mais ou menos como a dos indianos em Bangladesh, uma potência estrangeira auxiliando um movimento nacional para seus próprios propósitos.

Os romanos reagiram rapidamente. Eles abandonaram o antigo grupo de fantoches e trouxeram um novo candidato, Herodes, que tinha cerca de 30 anos na época. O pai de Herodes tinha sido o homem forte, o principal pró-romano no antigo regime. O próprio Herodes tinha sido governador militar da Galileia, a parte norte da Palestina. Quando os partas chegaram, ele conseguiu escapar para o Egito e, eventualmente, chegou a Roma. Lá, ele foi coroado rei da Judeia. Com total apoio romano, ele retornou, tomando Jerusalém com a ajuda das legiões em 37 a.C., e prontamente executou os líderes rebeldes. O rei anti-romano, Antígono, foi crucificado, o primeiro de dezenas de milhares que seriam executados dessa forma pelos romanos ou seus fantoches. Uma vez no trono, Herodes se apegou a ele até sua morte em 4 a.C.

Não se sabe exatamente quando Jesus nasceu. Tudo o que podemos dizer é que foi durante o reinado do Imperador Augusto, que morreu em 14 d.C., e que durante a vida adulta de Jesus, o sucessor de Augusto, Tibério, estava no trono. Jesus pode ter visto o fim do reinado de Herodes, quando criança. Certamente os eventos que se seguiram à morte de Herodes devem tê-lo impressionado, seja como memórias de infância ou como histórias que lhe foram contadas enquanto ele crescia.

A morte de Herodes

A morte de Herodes produziu uma crise. Herodes tinha sido servil aos romanos e cruel e extorsivo com seu próprio povo. Ele era odiado e detestado. Naturalmente, quando ele morreu, houve alegria geral e o movimento nacional veio à tona novamente. Já havia rumores pouco antes do fim de seu reinado. Uma manifestação estudantil, mais ou menos liderada por dois fariseus, Judas e Matias, culminou na derrubada da águia romana que Herodes havia exibido no Templo para agradar seus mestres. Os líderes foram queimados vivos. Quando Herodes finalmente morreu, houve uma revolta em Jerusalém. O procurador, Sabino, o principal oficial romano na Palestina, imediatamente moveu tropas para a capital para manter a lei e a ordem e também para apreender o tesouro de Herodes. Durante o festival de Pentecostes, uma luta eclodiu entre os peregrinos ao Templo e essas tropas romanas. Sabino foi encurralado na guarnição.

Ao mesmo tempo, houve outra revolta armada na Galileia, liderada por um líder partidário chamado Judas, conhecido como o Galileu, cujo pai havia sido executado por Herodes por insurgência. Esta foi uma revolta em larga escala na qual os partidários tomaram o palácio de Herodes em Séforis e apreenderam as armas que estavam armazenadas lá. Séforis ficava a apenas alguns quilômetros de Nazaré, onde Jesus passou sua infância. Cerca de uma hora de caminhada, na verdade. Os romanos tiveram que enviar duas legiões, ou seja, doze mil soldados, da Síria para suprimir essas revoltas e resgatar Sabino. Durante a luta, o Templo foi seriamente danificado e Séforis foi completamente destruída. Quando os romanos restauraram a ordem, eles crucificaram 2.000 rebeldes.

Duas vezes o tamanho da Irlanda do Norte

A Palestina é um país comparativamente pequeno. O reino da Judeia de Herodes não era muito maior que o País de Gales, cerca de duas vezes o tamanho da Irlanda do Norte. Não se estendia tanto para o sul quanto Israel hoje, mas cobria uma franja do que hoje é a Síria e a Jordânia. A população, cerca de cinco milhões provavelmente, não era homogeneamente judaica. Os judeus estavam concentrados na área de Jerusalém - a Judeia propriamente dita - e na Galileia, ao norte, onde eram colonos relativamente recentes. No meio estava Samaria, onde os samaritanos viviam. Os samaritanos tinham sua própria religião, que era uma variante do judaísmo. Por exemplo, eles não reconheciam o Templo, mas tinham seu próprio lugar sagrado em uma montanha em Samaria. Nas cidades havia vários gregos e sírios ou fenícios helenizados, que tinham vindo primeiro na esteira dos exércitos de Alexandre e agora se identificavam com os romanos. Herodes havia encorajado mais imigração de gregos e havia construído várias cidades novas para eles, incluindo um novo porto e capital, Cesareia, onde judeus nacionalistas e piedosos não viveriam porque era dominado por monumentos irreligiosos, como um teatro e uma pista de corrida.

O país dividido, dividido por diferenças nacionais e religiosas, tinha algumas das características da Irlanda do Norte ou Chipre. O movimento nacional judaico assumiu uma forma religiosa; era a religião que unia a nação. Os líderes dos zelotes, como os guerrilheiros eram conhecidos, eram frequentemente ultrarreligiosos e a religião era uma das duas principais questões em torno das quais a oposição à ocupação romana se cristalizou. Houve tumultos sobre a águia pagã profanando o Templo, conforme descrito acima: mais tarde, depois que os romanos adotaram o governo direto, houve mais tumultos sob Pôncio Pilatos sobre a mesma questão. Houve revoltas no final dos anos trinta, apenas alguns anos após a crucificação de Jesus, quando o Imperador Calígula quis colocar uma estátua de si mesmo no Templo. Dez anos depois, houve um grande tumulto quando um soldado romano de guarda em um telhado com vista para o Templo fez um gesto obsceno para os peregrinos.

Impostos imperialistas

A segunda questão era econômica: as dotações fiscais romanas. Roma não cobrava impostos de seus próprios cidadãos, mas dependia de arrancar o que podia dos povos súditos. O sistema foi estabelecido oficialmente e então a coleta de impostos real foi deixada para a iniciativa privada, em algo como uma base de licitação. As tropas romanas apoiaram os cobradores de impostos. Naturalmente, os cobradores de impostos eram considerados colaboradores dos romanos e havia tentativas frequentes de sabotar o sistema e boicotá-lo. O censo de Quirino em 6 d.C. foi projetado pelos romanos para ajudar a implementar a coleta de impostos e provocou resistência generalizada e luta armada, que não foi subjugada por algum tempo, logo durante a infância de Jesus. Mais uma vez, a Galileia foi o foco da revolta, mas desta vez houve uma luta pesada no sul também, liderada por um pastor chamado Athronges. Milhares foram mortos pelos romanos durante este período.

Início do governo direto

O censo foi particularmente ressentido porque marcou o início do governo direto de Roma. O regime fantoche foi abandonado pelos romanos logo após a morte de Herodes. Seu filho foi exilado depois que o Procurador recebeu plenos poderes, pelo menos na Judeia. Na Galileia e no sudeste da Síria, na área das Colinas de Golã, dois outros filhos de Herodes foram autorizados a permanecer como governantes autônomos. Em termos gerais, os romanos mudaram de Procuradores muito rapidamente. Pôncio Pilatos, que durou nove anos, de 27 a 36 d.C., foi uma exceção à regra. Pilatos era intensamente odiado e essa aversão transparece em todos os documentos de fontes judaicas que permanecem. Ele era duro e corrupto. Quando ele tirou dinheiro do tesouro do Templo, houve grandes manifestações contra ele. Ele as reprimiu colocando tropas na multidão à paisana e com armas escondidas, que de repente entraram em ação a um dado sinal. Nos Evangelhos, há referências à matança de galileus, sempre encrenqueiros, e a tumultos em Jerusalém na época da morte de Jesus, enquanto a palavra usada para descrever os dois ‘ladrões’ crucificados com Jesus é a mesma geralmente usada para descrever guerrilheiros, mais como ‘bandidos’.

Os fariseus e a luta armada

No entanto, a luta real se desenvolveu a partir dos anos quarenta em diante, culminando na revolta nacional em grande escala nos anos sessenta. Ao mesmo tempo, a luta nacional começou a cruzar com uma luta de classes cada vez mais aberta. A classe dominante tradicional na Judeia consistia em um bloco interligado formado por grandes proprietários de terras e as famílias hereditárias de sumos sacerdotes que controlavam o Templo. Os saduceus eram membros desse bloco. Eles foram desafiados como autoridades religiosas pelos fariseus, que eram rigorosos, organizados em uma base de entrada estrita em células, liderados por escribas, graduados em teologia, mas também incluindo elementos de origens artesanais e até mesmo trabalhadoras. Foram os fariseus que uniram a nação judaica em uma força político-religiosa. Muitos dos líderes zelotes eram fariseus que decidiram passar para uma fase de luta armada.

A massa de zelotes, no entanto, veio do povo, de pequenas cidades e vilas. Este período foi um de um movimento geral no campo em direção a grandes propriedades, expulsando pequenos camponeses, muitos deles endividados, da terra. Havia um grande número de escravos na Judeia na época e estes faziam parte dos exércitos de guerrilha. Havia também um número crescente de trabalhadores contratados, que são frequentemente mencionados em parábolas no Evangelho. O excedente de mão de obra significava que eles geralmente eram empregados em uma base casual. Houve naturalmente uma deriva do campo para as cidades e uma quantidade crescente de empregos em pequenas indústrias artesanais.

Jesus e os apóstolos vieram de famílias de artesãos; Jesus era um carpinteiro, trabalhando com madeira importada do Líbano e muitos dos apóstolos eram pescadores, possuindo seus próprios barcos. Sabemos de outras fontes que a indústria pesqueira estava prosperando na Galileia na época e havia investimento em picles para uso na exportação de peixes. Jesus não veio das massas, que estavam vivendo de caridade - havia um sistema de subsídios eficiente em operação - ou então eram trabalhadores diaristas ou escravos. Nem, é claro, ele veio da casta sacerdotal ou de um rico negócio ou histórico de proprietários de terras. Ele era um pequeno-burguês.

Sequestro e assassinato

A classe dominante ao longo deste período tornou-se cada vez mais comprometida com os romanos. Era o procurador romano que nomeava o sumo sacerdote, geralmente uma questão de suborno. Em troca, o sumo sacerdote agia como um Quisling, mantendo a lei e a ordem em Jerusalém, uma área sensível para os romanos, com sua própria polícia do Templo e entregando encrenqueiros para julgamento. No entanto, ao mesmo tempo, o Templo e seu Sumo Sacerdote eram os principais símbolos da consciência nacional. No final, os sentimentos de classe vieram à tona. Zelotes sequestraram um oficial do Templo e, como Tupamaros, o mantiveram como resgate pela libertação de prisioneiros políticos. O assassinato de colaboradores foi intensificado, até que um sumo sacerdote também foi abatido.

Quando, nos anos 60, a resistência ganhou força, houve circunstâncias econômicas particularmente problemáticas. Durante anos, as extensões do Templo forneceram empregos em Jerusalém e estas pararam de repente. Após os tumultos, o programa foi posto em movimento novamente na forma de pavimentação das ruas da cidade. Ao mesmo tempo, houve reclamações de que as famílias dos sumos sacerdotes, que se equiparam com gangues armadas, estavam saqueando o campo extorquindo "dízimos" sobre os quais não tinham direito. As coisas chegaram ao auge em 66 d.C. quando, após um enorme boicote fiscal, o procurador romano saqueou o tesouro do Templo para compensar o déficit. Houve uma revolta zelote imediata. A principal força romana se retirou e os remanescentes deixados para trás foram massacrados. Um dos primeiros atos do regime zelote foi destruir o registro de dívidas - libertando as massas das garras dos agiotas e proprietários de terras. Um novo Sumo Sacerdote foi eleito por sorteio, que coube a um camponês, um membro empobrecido da casta sacerdotal, um ato considerado ultrajante pela opinião da classe dominante.

A esquerda está isolada

Durante os quatro anos entre 66 e 70 d.C. houve uma guerra total. Uma força expedicionária romana inteira, composta por duas legiões e vários milhares de auxiliares, foi exterminada. Os romanos perderam mais de 5.000 infantaria e 480 cavalaria. Esta vitória levou à criação de um governo nacional, representando todos os aspectos da opinião religiosa, tanto saduceus quanto fariseus, e até mesmo essênios, o grupo monástico que produziu os Manuscritos do Mar Morto. Os zelotes se opuseram a este governo, que eles consideravam baseado em classes e potencialmente colaboracionista. Eles estavam certos.

O comandante judeu na Galileia, Josefo, que era fariseu, passou mais tempo assediando os zelotes do que preparando defesas contra Roma. Quando os romanos chegaram, sob Vespasiano, ele capitulou na hora e se tornou um colaborador aberto. Mais tarde, ele escreveu uma história dos eventos para justificar seu papel completamente traiçoeiro. A espinha dorsal da resistência foi liderada pelos zelotes que lutaram até o fim em Jerusalém e depois na fortaleza da montanha em Massada. Quando os romanos tomaram Jerusalém em 70 d.C., sob Tito, centenas de milhares foram massacrados e a cidade arrasada. Josefo conta como em um ponto os romanos ficaram sem madeira para cruzes e, quando tiveram o suficiente, tiveram que procurar espaços vazios para colocar mais cruzes. É neste contexto que a crucificação de Jesus e a escrita dos Evangelhos devem ser vistas.

Onde Jesus estava?

Dificilmente se pode acreditar que ele estava tão alheio ao que estava acontecendo ao seu redor quanto os escritores dos Evangelhos fazem parecer. As represálias romanas devem ter atingido as famílias de judeus que ele conhecia na área. Um dos próprios discípulos de Jesus, um dos Doze, foi Simão, o Zelote, que presumivelmente participou de uma das revoltas.

Lendo os Evangelhos, a imagem apresentada no geral é a de um colaborador passivo. Embora Jesus tenha sido condenado e executado por Pôncio Pilatos, todos os esforços são feitos para livrá-lo de qualquer responsabilidade real. A crucificação não era um método judaico de execução. Era a punição romana para crimes políticos. Espártaco foi crucificado, por exemplo. Enquanto os judeus tinham responsabilidade por crimes comuns e por ofensas religiosas, os crimes políticos foram para Pilatos. No entanto, os Evangelhos afirmam que Pilatos lavou as mãos do caso, protestou a inocência de Jesus, não viu nada de errado nele e foi pressionado a crucificá-lo apenas pelo Sumo Sacerdote e seu lobby.

O próprio Jesus é representado sob uma luz pró-romana. Por exemplo, ele é descrito como amigável com cobradores de impostos e colaboracionistas. Ele cura o filho de um centurião romano. Ele aconselha, não simplesmente seguir a autoridade de Roma sob coação, mas ir duas vezes mais longe do que o necessário. E, claro, o incidente mais importante relatado diz respeito ao pagamento de impostos. "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Nos Evangelhos, isso é apresentado como uma resposta particularmente astuta que enganou os fariseus que a perguntaram. Na verdade, não é nem um pouco equívoca. Ela apoia claramente o pagamento de impostos a Roma. Toda a questão da tributação era o assunto candente do dia. Sobre essa questão, Jesus assumiu uma posição pró-romana e apoiou as reivindicações do poder imperial.

Mantendo Jesus longe do judaísmo

A contrapartida dessa atitude pró-romana dos Evangelhos é a difamação persistente dos fariseus. Os zelotes, como tais, não desempenham nenhum papel na história do Evangelho. Eles são simplesmente suprimidos verbalmente, assim como os romanos os reprimiram militarmente. Mas os fariseus estão muito na vanguarda. Eles são usados ​​como espantalhos que alimentam Jesus com as linhas retas que o permitem marcá-los. O propósito disso, no que diz respeito aos Evangelhos, é claramente distinguir Jesus e a comunidade cristã dos judeus e da causa judaica. Em quase todos os casos, é um desacordo com o judaísmo que é enfatizado, para que Jesus possa ser distanciado de seu próprio povo. Histórias como a do Bom Samaritano são fortemente promovidas para o mesmo fim.

Vários estudiosos tentaram resgatar Jesus dessa apresentação pró-romana, especialmente nos últimos anos quando, depois de Auschwitz e Belsen, os comentaristas do Evangelho finalmente se tornaram sensíveis ao seu viés antijudaico. Em particular, o episódio do julgamento de Jesus foi analisado em detalhes e foi admitido que Roma e não o Sumo Sacerdote foi responsável por sua execução – como um criminoso político.

Pilatos não era um administrador fraco que provavelmente permitiria que o lobby do Sumo Sacerdote o pressionasse contra seu melhor julgamento.

Sentimento pacifista

Essa linha de raciocínio levou alguns escritores a chegarem ao ponto de afirmar que Jesus era, na verdade, pró-zelote e simpático à luta armada. Essa interpretação significa descontar as grandes lajes de sentimento pacifista que preenchem os Evangelhos como nada mais do que relações públicas pós-queda de Jerusalém, colocadas pelos evangelistas bajuladores, ansiosos para não irritar Roma. Em contraste, episódios como expulsar os cambistas do Templo são enfatizados e o fato de que Jesus foi preso por uma patrulha armada e um de seus discípulos sacou sua espada e resistiu à prisão. De fato, Lucas descreve como Jesus aparentemente instruiu seus discípulos a comprar espadas pouco antes da prisão, embora ele rapidamente acrescente que duas seriam suficientes.

É certamente verdade que há trechos de material antirromano nos Evangelhos que podem se aproximar mais da atitude de Jesus, ou pelo menos dos primeiros seguidores, do que os escritores dos Evangelhos. Por exemplo, a história dos porcos gadarenos parece ter uma zombaria anti-imperialista escondida nela. Jesus exorciza um demônio maligno, que é chamado de "Legião", e o demônio então entra em um rebanho de porcos que se jogam de um penhasco. As tropas de ocupação romanas eram conhecidas como "porcos" pelos judeus, então a moral é bem clara. Mas, inversamente, há uma tensão definitiva de sentimento anti-Templo na pregação de Jesus. Ele critica várias instituições do Templo, particularmente as instituições financeiras, e mais de uma vez critica as várias maneiras pelas quais o Templo ganhava dinheiro: doações, impostos, transações comerciais e assim por diante.

Acima de tudo, Jesus não defendeu de forma alguma a resistência violenta aos romanos, mas acreditava que era necessário passar por uma mudança espiritual em prontidão para a vinda do Reino. Ele concebeu essa mudança de uma forma que o colocou contra os fariseus, porque ele era um antitradicionalista em sua atitude para com a Lei religiosa judaica. Eticamente, ele era um purista, mas não de uma forma legalista. A julgar por suas numerosas parábolas sobre vinhas, trabalhadores e lavradores, ele estava totalmente satisfeito com as relações de produção existentes, incluindo a escravidão, e a estrutura econômica geral, embora desconfiasse dos ricos. Ele parece ter sentido que o Templo não deveria ser de forma alguma uma instituição secular, seja comercial ou politicamente.

Jesus não é subversivo

Por si só, havia pouco de subversivo na pregação de Jesus e, nesse sentido, os escritores dos Evangelhos estavam certos em retratá-lo como um colaborador passivo. Mas seu destino foi selado quando ele começou a atrair multidões, em parte por causa de seus feitos de cura, em parte porque ele era um orador convincente. Os Evangelhos contam várias vezes como ele tentou fugir das multidões e escapar delas, ansioso sobre o resultado, como ele poderia estar.

O último ato oficial de Pôncio Pilatos, por exemplo, em 36 d.C., apenas dois ou três anos após a execução de Jesus, foi massacrar uma multidão de samaritanos que esperavam uma revelação em sua Montanha Sagrada. Qualquer um que reunisse grandes multidões corria o risco de ser interrompido por razões políticas. Em Roma, as carreiras de estrelas do esporte e do teatro foram abruptamente interrompidas quando começaram a adquirir apoiadores que eram muito vocais ou demonstrativos.

Religiões dos oprimidos

É bastante comum que movimentos religiosos messiânicos e proféticos surjam em tempos de agitação política. Jesus pode ser comparado aos novos movimentos que surgiram como parte da resposta ao avanço do imperialismo europeu: Peyotismo e Ghost-dancing entre os índios americanos, Ringatū entre os maoris, Hòa Hảo no Vietnã. Esses movimentos tentam escapar dos limites de uma situação histórica aparentemente sem esperança, enfatizando um glorioso papel sobrenatural para os seguidores de seu profeta. Em um momento de turbulência política, eles parecem perigosos para as autoridades, ansiosos para suprimir qualquer coisa que possa se tornar uma ameaça, geralmente cínicos e ignorantes, e inclinados a errar do lado da crueldade em vez da misericórdia. Eles são reprimidos e, se as circunstâncias forem adequadas, um novo culto baseado no prestígio do martírio surge.

O homem no meio

A verdadeira força da pregação de Jesus estava em sua capacidade de responder ao conflito sem ser sugado para ele. Ele era o homem no meio. Ele não estava apenas no meio de um conflito de classes, mas de uma luta de libertação nacional. Ele era capaz de encontrar algo para dizer que fizesse sentido para todos os tipos de pessoas sem nunca ficar de um lado ou de outro. Esta ainda é sua força. Os descontentes, os descontentes, os miseráveis ​​da terra podiam responder a ele. Assim como os cobradores de impostos e os soldados romanos. Em parte, isso se devia ao fato de ele ter escolhido, por preferência, falar em enigmas e parábolas, contar histórias em vez de fazer declarações. Mas em parte também era porque ele tinha um talento para o som da verdade, para palavras que soavam certas, que empurravam todos um pouco mais juntos. Ele andava em uma corda bamba verbal que ele tecia à medida que avançava. E ele podia apoiá-la com uma citação todas as vezes. É precisamente porque ele tinha essa capacidade de reconciliar aspirações conflitantes que ele às vezes parecia subversivo. Mas, a longo prazo, qualquer coisa que cubra contradições apelando para ambos os lados sempre favorece aqueles no poder, e o cristianismo ainda o faz.

Publicado pela primeira vez no semanário de esquerda 7 Days, em 22 de dezembro de 1971. Um desdobramento do Black Dwarf, o jornal foi publicado de outubro de 1971 a março de 1971; está disponível no arquivo da internet Amiel Melburn Trust sob licença Creative Commons.

O lobisomem

Uma versão inicial raramente vista de um conto clássico – a assombrosa releitura de Carter da fábula da Chapeuzinho Vermelho.

Angela Carter

Sidecar


É um país do norte; eles têm clima frio. O frio entra em seus ossos, seus cérebros, seus corações.

Frio; tempestade; animais selvagens na floresta. É uma vida difícil. Suas casas são construídas de troncos, escuras e enfumaçadas por dentro; haverá um ícone bruto da virgem atrás de uma vela que está pingando, a perna de um porco pendurada para curar, uma fileira de cogumelos secando. Uma cama, um banco, uma mesa. Nada mais.

O diabo é uma presença viva para os homens da floresta das terras altas. Ele é frequentemente avistado nos cemitérios, aquelas cidades sombrias e tocantes dos mortos onde os túmulos são marcados com retratos dos falecidos no estilo naïf e não há flores para colocar na frente deles, nenhuma flor cresce lá, então eles colocam pequenas oferendas, pães, às vezes um bolo que os ursos vêm pesadamente das margens da floresta para roubar.

Coroas de alho nas portas mantêm os vampiros longe. Uma criança de olhos azuis nascida com os pés primeiro na noite de São João terá uma segunda visão. Quando descobrem uma bruxa — uma velha cujos queijos amadurecem quando os de seus vizinhos não, outra velha cujo gato preto, oh, sinistro! a segue, eles despojam a velha, procuram marcas, o mamilo supranumerário que seu familiar suga. Eles logo o encontram. Então a apedrejam até a morte.

Inverno, o tempo frio.

Vá visitar a avó, que está doente. Leve para ela os bolos de aveia que assei na lareira para ela e um pequeno pote de manteiga.

A boa criança faz o que sua mãe manda. Cinco milhas de caminhada pela floresta; não saia do caminho por causa dos ursos, do javali, dos lobos famintos. Aqui, pegue a faca de caça do seu pai — você sabe como usá-la.

A criança tinha um casaco de pele de carneiro verminoso para se proteger do frio. Ela conhecia a floresta muito bem para temê-la, mas ela sempre deveria estar em guarda. Quando ouviu aquele uivo congelante de um lobo, ela agarrou sua faca, largou sua cesta e se virou para a fera.

Ela era enorme, seus olhos estavam vermelhos, suas costeletas grisalhas, qualquer um, exceto uma criança de montanhista, teria desmaiado de puro terror ao vê-la, mas ela não desmaiou. Ela foi para sua garganta imediatamente, como os lobos fazem, mas ela deu um grande golpe com a faca de seu pai e cortou sua pata dianteira direita.

O lobo emitiu um soluço engolido, quase soluçando quando viu o que tinha acontecido com ele; lobos são covardes de coração. Então ele saiu cambaleando desconsoladamente entre as árvores o melhor que pôde em três pernas, deixando um rastro de sangue para trás. A criança limpou a lâmina de sua faca em seu avental, enrolou a pata do lobo no pano em que sua mãe havia embalado os bolos de aveia e foi em direção à casa de sua avó. Logo começou a nevar tão densamente no caminho e quaisquer passos, rastros ou rastros que pudessem estar nele foram obscurecidos.

Ela encontrou sua avó tão doente que a levou para a cama, as cobertas puxadas até seu queixo. A velha caiu em um sono agitado, gemendo e tremendo tão terrivelmente que a criança imaginou que ela estava com febre. Ela sentiu sua testa, que queimava. Ela sacudiu o pano de sua cesta, para usá-lo para fazer uma compressa fria para a velha, e a pata do lobo caiu no chão.

Mas não era mais uma pata de lobo. Era uma mão, cortada no pulso, uma mão nodosa pelo trabalho e sardenta pela velhice. Havia uma aliança no terceiro dedo e uma verruga no indicador. Pela guerra, ela sabia que era a mão da avó.

Ela puxou o lençol, mas a velha acordou, e começou a lutar, gritando e gritando como uma coisa possuída. Mas a criança era uma criança forte e a segurou por tempo suficiente para ver a causa da febre — havia um coto sangrento onde sua mão direita deveria estar, já purulenta, escorrendo pus.

A criança benzeu-se e gritou tão alto que os vizinhos a ouviram e entraram correndo. Eles reconheceram imediatamente a verruga em sua mão como um mamilo de bruxa, eles levaram a velha, toda de camisola, para a neve com paus, batendo em sua velha carcaça até a orla da floresta, e atiraram pedras nela até que ela caísse morta. A criança limpou a bagunça na casa de sua avó e viveu lá feliz.

Publicado pela primeira vez no semanário de esquerda Socialist Challenge, 15 de dezembro de 1977; Angela Carter era assinante e apoiadora do jornal. Republicado com a gentil permissão de Mark Pearce e Alexander Pearce. Um rascunho posterior deste conto aparece em The Bloody Chamber and Other Stories (1979).

Há luz no fim do túnel

Apesar dos desafios econômicos e políticos pela frente, houve grandes avanços na última década

Nelson Barbosa



É natal e resolvi escrever um texto positivo para encerrar 2020.

Tivemos e temos vários desafios econômicos e políticos pela frente, mas também houve grandes avanços na última década, fruto de investimentos e trabalho de várias pessoas, no governo e no setor privado.

Para dar um exemplo de avanços de governo, nesta semana a Folha reconheceu (do seu jeito) a inclusão social promovida pelos governos do PT em nossas universidades. Falo da matéria: “Negros estão na faculdade, e não (só) para fazer faxina”, que menciona a Lei 12.711 de 2012 (Governo Dilma).

Segundo o texto da lei: “As instituições federais de educação superior vinculadas ao Ministério da Educação reservarão, em cada concurso seletivo para ingresso nos cursos de graduação, por curso e turno, no mínimo 50% (cinquenta por cento) de suas vagas para estudantes que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas.”

A Lei 12.711 diz, ainda, que dos 50% destinados a estudantes de escola pública, metade deve ser reservada para “estudantes oriundos de famílias com renda igual ou inferior a 1,5 salário-mínimo per capita”.

Seis anos depois, segundo outra matéria da Folha: “Pela primeira vez, há mais pretos e pardos no ensino superior público no Brasil do que brancos, (...) Os dados, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), são de 2018 e apontam 50,3% de pretos e pardos nas universidades públicas brasileiras. Apesar do aumento, ainda havia subrepresentação do primeiro grupo —na população em geral, 55,8% são negros (pretos e pardos, pelo critério do IBGE).”

Outra boa notícia da década 2011-20 veio do setor de energia, fruto de investimentos de empresas com incentivo governamental. Falo da queda do custo de fontes de energia renovável, sobretudo de energia solar e eólica nos últimos 10 anos.

Em texto no site “Our World in Data”, Max Roser relata que, de 2009 a 2019, houve queda de 89% do custo de geração de energia solar, e de 70% de energia eólica. As estatísticas consideram o valor do investimento (Capex) e despesas correntes (Opex) para construir novas usinas sem subsídio.

Para os leitores interessados, o texto de Rose detalha como foi possível reduzir o custo de geração solar e eólica tão rapidamente, mas isto não é novidade na história humana.

Novas tecnologias tendem a começar caras (lembrem dos primeiros telefones celulares) e depois se tornar baratas devido a economias de escala (aumento do volume de produção) e de aprendizado (aperfeiçoamento do processo produtivo), além de novas inovações ao longo do processo.

No caso da energia, chegamos ao final desta década com usinas solares e eólicas tendo implantação mais barata do que usinas que queimam combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás). O mercado já reagiu à mudança de custo. Segundo Roser, fontes renováveis responderam por 72% da expansão de capacidade de geração elétrica no mundo em 2019.

A queda dos preços de fontes renováveis de energia cria esperança de um desenvolvimento mais sustentável. Além disso, a reconversão da matriz energética do mundo para fontes mais renováveis também oferece oportunidades de investimento e geração de emprego aos países que souberem aproveitar seu potencial na nova tecnologia.

O Brasil tem grande potencial para avançar nas duas frentes, eólica e solar, fornecendo energia barata para a agricultura, indústria e serviços, e gerando milhões de empregos na transição entre tecnologias com, espero, com inclusão social.

Feliz natal a todos!

Sobre o autor

Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

22 de dezembro de 2020

O Söderweg Alemão

Pistas para as restrições estruturais da política alemã, buscadas nas manobras do possível sucessor de Merkel, Markus Söder.

Thomas Meaney



Como o corante do biólogo que tinge o tecido corporal e ilumina sua estrutura celular, o oportunismo de nível laboratorial de Markus Söder é um recurso útil para entender a política alemã. Como Ministro Presidente da Baviera e líder da União Social Cristã, Söder atualmente é o principal candidato para substituir Angela Merkel como Chanceler no ano que vem, apesar de não ter declarado sua candidatura. O cálculo não é forçado: os próprios três pretendentes da CDU – Norbert Röttgen, Armin Laschet, Friedrich Merz – poderiam todos se anular. Apesar de toda a relutância imputada do norte da Alemanha em ser governado por um bávaro, a eleição mais acirrada na história alemã do pós-guerra foi entre o mentor político de Söder, o líder da CSU fetichista do marco alemão Edmund Stoiber, e Gerhard Schröder, que venceu por pouco depois de canalizar habilmente o descontentamento popular sobre o plano dos EUA de invadir o Iraque. Mais decisivamente, Söder é um Nürnberger da região relativamente industrializada da Francônia, não um primitivo yodeler de montanha da caricatura de Berlim.

Desde seus primeiros dias, a imprensa alemã identificou Söder como um formidável animal político. Após um pequeno desvio na infância, quando Söder, de cinco anos, trouxe para casa um adesivo "Vote em Willy" e seu pai o ordenou a rezar por seus pecados, Söder ascendeu habilmente nas fileiras da União Social Cristã: presidente da ala jovem da CSU aos 28; líder da associação da CSU para Nürnberg-West aos 30; comissário de mídia da CSU aos 33; secretário-geral da CSU aos 36; presidente da CSU para Nürnberg-Fürth-Schwabach aos 41; Ministro-presidente da Baviera aos 52; e, desde o ano passado, presidente do partido da CSU aos 53, com uma maioria padrão da CSU de 87,4% dos votos do partido atrás dele. No que é essencialmente uma aristocracia política católica – a CSU agora tem uma sala própria no Museu Histórico da Baviera em Regensburg que segue as suítes dedicadas aos reinados de Ludwig I e Ludwig II – Söder é talvez apenas incomum por ser um protestante. Há muito conhecido como o cão de ataque da CSU – uma reputação apenas auxiliada por sua figura robusta e corte de cabelo levemente ameaçador, e possivelmente autoadministrado – Söder é conhecido por escolher brigas gratuitas com oponentes. Sua habilidade de mudar de posição agilmente com convicção plausível, e seu puro prazer pela batalha política, consistentemente lhe renderam comparações com Schröder. Em sua biografia do "Chanceler Sombra", Roman Deininger e Uwe Ritzer observam que Söder, que tinha um pôster de Franz Josef Strauß, o Barry Goldwater da política alemã, acima de sua cama de adolescente, também ficou impressionado com a pompa do "conservadorismo compassivo" de George W. Bush, que ele testemunhou de perto como emissário da CSU na Convenção Republicana de 2004 em Nova York (Curiosamente, Armin Laschet apresentou esta biografia bastante crítica de Söder em um evento online em Berlim outro dia, em parte, ao que parece, como uma jogada para restringir a disputa pela Chancelaria aos dois.)

Como esse imaculado defensor da CSU se tornou, no último ano e meio, um progressista fervoroso, posando como Merkelite Landesvater? É um dos enigmas da política alemã contemporânea. A resposta tem raízes mais profundas do que simplesmente o fato de que Söder, de olho no trabalho de Merkel, agora tem alguma apreciação por como ela o faz. Para começar, vale a pena lembrar o quão drasticamente ele e o atual Ministro do Interior (e anterior Ministro Presidente e presidente da CSU) Horst Seehofer interpretaram mal as consequências da decisão de Merkel em 2015 de manter a fronteira alemã aberta para requerentes de asilo. Em sua interpretação dos eventos, a crise política sobre refugiados foi o desarrolhar de uma garrafa que liberaria todos os espíritos conservadores que Merkel havia suprimido. Enquanto Merkel parecia revelar suas verdadeiras cores — a de uma humanitária delirante — Söder e Seehofer finalmente pensaram que a tinham encurralado. 2015–18 foi o período em que tentaram acabar com ela surfando no vento da reação da direita contra ela e suas políticas (desnecessário dizer que não havia princípio em nada disso: em seus dias como Ministro da Saúde sob Kohl, era Seehofer quem era regularmente criticado dentro de seu próprio partido por ser "comunista" quando se tratava dos destituídos). Não vendo nenhuma ameaça da AfD, Seehofer e Söder decidiram relaxar a doutrina Strauß da CSU ('Nunca permita um direito partidário democraticamente legitimado da CSU') e pareceram pensar que a promoção do partido incipiente de um euroceticismo mais direto poderia ser útil. Então vem o romance austríaco da CSU. Vamos revisitar aqueles dias felizes:Meados de dezembro de 2017: O chanceler austríaco, Sebastian Kurz do ÖVP, e seu parceiro de coalizão, Heinz-Christian Strache do FPÖ de extrema direita, apresentaram sua agenda de coalizão retirando proteções para refugiados em Kahlenberg, local de uma batalha decisiva em 1683 contra os turcos.Início de janeiro de 2018: Alexander Dobrindt, chefe do grupo parlamentar da CSU, publicou seu apelo por uma "virada conservadora da classe média" no Die Welt (jornal de "prestígio" de Springer). Partes dele parecem uma versão menos erudita do manifesto de Anders Breivik. Início de janeiro de 2018: Viktor Orbán foi o convidado de honra na CSU-Klausur e deu uma entrevista ao Bild-Zeitung (que vinha liderando uma campanha pró-Kurz por semanas): "Não estamos falando de imigrantes ou refugiados, estamos falando de uma invasão".

E assim a CSU com Söder no banco do motorista parecia preparada para seguir o caminho austríaco: crítica à UE, curiosa sobre Putin, agrária-tradicional, animada por guerras culturais, neoliberal maximamente islamofóbica.

Então veio a reviravolta impressionante. A CSU foi humilhada nas eleições regionais de outubro de 2018. Söder perdeu 10% dos votos, muitos dos quais pareciam ter sido recuperados pelos Verdes, que oferecem a um eleitorado cada vez mais urbano e online as credenciais procuradas de antirracismo e cosmopolitismo. Com 16 cadeiras perdidas no parlamento, a maioria de Söder desapareceu. Ele teve que construir uma coalizão humilhante, se não sem precedentes, com os Eleitores Livres da Baviera, um partido "não ideológico" de centro. Agora estava claro que a virada para a direita tinha sido um erro. Como Söder respondeu? Conduzindo uma das reviravoltas mais dramáticas da história alemã recente. Da noite para o dia, ele se tornou um amante de abelhas e árvores - pedindo novas regulamentações para sua proteção. Ele declarou que os motores de combustão seriam proibidos até 2030. Seu progressismo até ultrapassou o que seu partido estava preparado para engolir. Na conferência da CSU no ano passado, a proposta de Söder para uma cota de 40% de mulheres em todos os níveis da CSU foi rejeitada pelos delegados do partido. A CSU ainda tem a melhor disciplina de qualquer partido no país, mas há resmungos audíveis de setores mais baixos. O presidente do CSU Landtag, Thomas Kreuzer, tem ultimamente acrescentado lembretes pontuais sobre ‘os fazendeiros’ aos juramentos de lealdade de Söder.

O que tudo isso revela não é simplesmente que Söder está agora, tardiamente, reformando a CSU da mesma forma que Merkel fez com a CDU. Mostra que, com seu olho na Chancelaria, Söder sabe que não tem escolha a não ser forjar uma aliança funcional entre as principais seções da indústria voltada para a exportação e as classes médias progressistas. Ele entende a pressão objetiva que Merkel está sofrendo para equilibrar a aliança hegemônica de grandes corporações multinacionais (em oposição a empresas familiares menores e mais conservadoras), conservadores moderados e liberais urbanos. A urbanização e a orientação para a exportação são duas das forças dominantes que moldam a vida social alemã: e elas estão movendo o país em uma direção progressista e liberalizante. (A AfD, presa em lutas internas faccionais e experimentando retornos decrescentes em sua novidade, tornou-se, entretanto, um partido de último recurso para membros desencantados do aparato de segurança do estado e da Bundeswehr). Söder sabe que deve desviar parte do voto Verde ou pelo menos tornar a perspectiva de governar com eles mais plausível. O exemplo austríaco sempre foi uma fantasia impraticável na Alemanha, mesmo na Baviera, onde há menos católicos tradicionais, a população está se urbanizando e há uma forte ideologia neoliberal "progressista" que emana da BMW (Munique), Siemens (Munique), Adidas (Herzogenaurach), Audi (Ingolstadt), etc. Empresas como essa não existem na mesma escala na Áustria; o país é 20% menos urbano que a Alemanha; e os austríacos nunca passaram por nenhuma "Vergangenheitsbewältigung" comparável, pois ainda preferem pensar que não foram responsáveis ​​pelos crimes cometidos pela Alemanha nazista. Apesar da popularidade relativa de Kurz entre as classes profissionais de Viena e da posição mais próxima de sua ala do ÖVP da Federação das Indústrias Austríacas (Industriellenvereinigung), que representa grandes grupos de capital, os conservadores austríacos ainda podem reunir uma maioria sem o tipo de progressistas urbanos em que Merkel passou a confiar cada vez mais.

Quais são as chances de Söder para a chancelaria? Ainda é muito cedo para dizer. Ele adquiriu inimigos por todo o país, mas também apoiadores fervorosos em lugares improváveis. À medida que se aproxima da sede do poder em Berlim, ele será submetido a muito mais escrutínio. É praticamente um rito de passagem político alemão neste momento plagiar sua dissertação de doutorado, mas, se alguma coisa, é um sinal da inteligência de Söder que ele não recorreu ao método de copiar e colar de seus pares, mas sim parece ter encomendado a coisa no atacado, a menos que alguém seja persuadido pela imagem de um dos agentes políticos mais ocupados do país examinando centenas de documentos escritos em Kurrentschrift em um arquivo estadual para produzir a tese de 263 páginas, 'Das antigas tradições jurídicas alemãs a um decreto comunitário moderno: O desenvolvimento da legislação municipal no Reino da Baviera entre 1802 e 1818'. Dito isso, Söder teve uma pandemia muito boa, que se adequava aos instintos autoritários dele e da CSU. Ele trancou a Baviera mais rápido, mais forte e mais coerentemente do que qualquer outro ministro de estado, e suas resolutas performances na mídia tiveram bom desempenho na imprensa liberal. Ao considerar as dimensões dos sapatos de Merkel, Söder está vendo como o estado alemão: não mais a ótica do empresário Mittelstand ou do fazendeiro na barraca de cerveja, mas algo mais total e onisciente: Der ideelle Gesamtkapitalist.

Agradeça ao socialismo pela vacina. Culpe o capitalismo por sua distribuição.

A velocidade do desenvolvimento da vacina para Covid-19 é uma gloriosa maravilha da ciência, cooperação e planejamento econômico – um vislumbre do que um mundo mais igualitário poderia produzir e alcançar. Mas a ética do “salve-se quem puder” na vacinação é uma demonstração horrível da ineficiência e crueldade do capitalismo.

Leigh Phillips


Um profissional médico se prepara para administrar uma vacina. (Wikipedia Commons)

Tradução / Quando a enfermeira May Parsons fez a primeira injeção mundial da vacina Pfizer-BioNTech COVID-19 à avó britânica Margaret Keenan, de 90 anos, ela foi aplaudida por dezenas de médicos lagrimejando no Hospital Universitário de Coventry. Foi um momento glorioso e comovente, nunca antes visto pela humanidade.

Uma maravilha da ciência de cair o queixo. Graças ao planejamento econômico e a cooperação humanista e altruísta de milhares de pesquisadores em todo o mundo, o desenvolvimento desta e de outras vacinas na cola da Pfizer demorou apenas nove meses desde a descoberta da doença, em vez dos anos ou mesmo décadas que a pesquisa e o desenvolvimento de médicos (P&D) normalmente levam. Elas oferecem um vislumbre de quanto mais um mundo igualitário e racionalista poderia produzir e realizar, se fosse livre das amarras do lucro.

Embora a gigante farmacêutica privada estadunidense e sua startup parceira de biotecnologia alemã possam carregar o nome da primeira vacina, isso não é um triunfo para o capitalismo. A Pfizer-BioNTech, junto com a segunda colocada, Moderna, entre outros laboratórios, dependeram de anos de financiamento do setor público para seu sucesso e, em muitos casos, de pesquisas realizadas por laboratórios do governo ou de universidades públicas muito antes de 2020. E, novamente, durante este ano de pandemia, essas empresas privadas contaram com o acompanhamento e financiamento do processo de desenvolvimento de vacinas ou, no caso da Pfizer, com a compra garantida antecipada pelo Estado de milhões de doses.

Em muitos casos, os governos nacionais firmaram acordos de compra e suporte de fabricação antes dos resultados dos testes clínicos para que a implementação pudesse começar assim que a aprovação regulatória fosse concedida, em vez de ter que esperar pela aprovação antes que a fabricação pudesse começar. Washington, por exemplo, prometeu comprar cerca de US$ 2 bilhões da vacina Pfizer e garantiu cerca de US$ 2,5 bilhões da Moderna para o desenvolvimento e fabricação de sua opção.

A incrível velocidade de desenvolvimento de vacinas quase compensa a notícia previsível de que o chefe da Pfizer vendeu 62% de suas ações no mesmo dia em que a empresa divulgou os resultados do estudando comprovando que as vacinas mostravam 90% de eficácia, e que os executivos da Moderna fizeram movimentos semelhantes após seu próprio anúncio. Em ambos os casos, a venda de ações ocorreu por meio do que as empresas insistem dizer que era uma aplicação inteiramente de acordo com a norma da Regra 10b5-1: a lei de informações privilegiadas. Mas, como reportou a NPR, especialistas em ética de negociação com dizem que esta é a mais manjada das defesas e um comportamento “muito suspeito” ou mesmo “totalmente impróprio”. Mesmo que sejamos crédulos em nossa avaliação da ética diante desses movimentos, estrategicamente, eles permanecem profundamente estúpidos, dada a escala da hesitação da vacina.

A mera violação das regras comerciais em relação ao desenvolvimento de vacinas é um presente para campanhas anti-vacinas e teóricos de conspiração sobre Covid.

Deixando de lado os fiascos éticos da troca de informações privilegiadas, o rápido desenvolvimento da vacina surpreendeu os especialistas. Eles sabiam mais do que ninguém quanto tempo normalmente leva para o desenvolvimento de uma vacina. Durante anos, esses mesmos pesquisadores de doenças infecciosas, médicos e funcionários da saúde pública condenaram os gigantes farmacêuticos por evitarem o desenvolvimento de vacinas há várias décadas. Ao contrário da lenda anti-vacina, as empresas farmacêuticas, na realidade, relutam em se envolver na produção de vacinas por causa do risco financeiro envolvido e de sua simples falta de lucratividade. Agora, de repente, diante de uma ameaça existencial que se aproxima, quando o Estado toma o lugar dos CEOs e assume todos os riscos financeiros, vacinas de eficácia impressionante aparecem após alguns meses.

É quase idêntico ao que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, quando o governo dos Estados Unidos, frustrado com a intransigência das novas empresas químicas e farmacêuticas, temendo novamente a falta de lucratividade, simplesmente ordenou a cooperação entre as empresas e tomou decisões de investimento no lugar do setor privado, cobrindo os custos de pesquisa, desenvolvimento e fabricação. O resultado foi o desenvolvimento ou aprimoramento de 10 vacinas de importância militar. Os mesmos esforços de planejamento durante a guerra produziram o lançamento em massa do primeiro antibiótico, a penicilina.

Essas lições mostram que as ineficiências do mercado devem agora ser eliminadas permanentemente para o desenvolvimento de vacinas relacionadas a todas as outras doenças infecciosas que sofrem com a escassez de P&D privado. Para a tuberculose, por exemplo, temos apenas uma vacina centenária fraca que ameniza o problema, mas é insuficiente para prevenir mortes por tuberculose a cada ano que equivalem às mortas por Covid-19. Em 2020, a Covid matou 1,7 milhão em todo o mundo; em 2019, a tuberculose matou 1,4 milhão.

Mas antes de pegarmos o champanhe e brindarmos nossos heróicos cientistas e médicos, temos que reconhecer que, embora essas vacinas sejam realmente uma luz no fim de um túnel muito longo, esse mesmo túnel será ainda mais longo do que o necessário, graças mais uma vez à irracionalidade, ineficiência e injustiça do capitalismo.

Será especialmente injusto para aqueles que habitam em países subdesenvolvidos – e mesmo em muitas partes mais pobres e menos populosas do Ocidente desenvolvido, haverá crueldades para aqueles que vivem fora do centro metropolitano, como já aconteceu ao longo de 2020. Na primavera, abundaram as histórias de máquinas de teste, EPI e ventilação sendo distribuídas com base em quem poderia pagar mais, e não em quem mais precisava. Nos EUA, até mesmo governadores republicanos conservadores de pequenos estados estavam furiosos com a forma como os pedidos, pagos integralmente, de equipamentos essenciais eram cancelados – às vezes no meio do embarque – para ganhar mais dinheiro atendendo jurisdições mais ricas. Um crime quase idêntico já está em andamento mais uma vez, mas dessa vez no que diz respeito à logística de fabricação e distribuição das vacinas.

Revolução do MRNA

Para explicar a profunda injustiça e ineficiências de arrancar os cabelos do que está prestes a acontecer com respeito à distribuição nacional e mundial das vacinas para combater a Covid-19, precisamos fazer um breve resgate histórico para explicar como essas vacinas funcionam – em particular, como as primeiras a serem lançadas são muito diferentes, até mesmo revolucionárias, em comparação com outras vacinas.

As vacinas convencionais funcionam essencialmente da mesma forma que funcionavam quando foram descobertas nos dias de Louis Pasteur. A inoculação envolve a exposição a um vírus enfraquecido ou morto, que apresenta ao sistema imunológico um antígeno – uma estrutura molecular que faz parte de um patógeno que estimula uma resposta do sistema imunológico. O antígeno em que nos concentramos, em relação ao vírus SARS-CoV-2, que causa o Covid-19, é a infame proteína de “Spike” que cobre sua superfície. O sistema imunológico, então, é capaz de lembrar e reconhecer qualquer versão “viva” do patógeno se, no futuro, ele tentar invadir o corpo. Agora, o sistema imunológico tem uma capacidade já preparada de combatê-lo e derrotá-lo. Dependendo do vírus, essa proteção pode durar por toda a vida, alguns anos ou mesmo alguns meses – daí a necessidade de vacinas de reforço para algumas vacinas.

As vacinas tradicionais já existem há mais de um século e, portanto, a tecnologia está madura e o processo de fabricação está bem estabelecido – mesmo que a cadeia de abastecimento esteja um pouco enfraquecida devido ao recuo de décadas da indústria farmacêutica não apenas no estudo P&D de vacinas, mas também na produção de vacinas. O principal desafio com relação à implementação rápida de vacinas tradicionais é que elas precisam ser “cultivadas” em ovos de galinha ou células de inseto. Cada lote leva várias semanas.

Existem oito técnicas de vacina principais, incluindo um punhado de versões tradicionais de vírus enfraquecidos, entre as cerca de duzentas vacinas de Covid candidatas atualmente em vários estágios de desenvolvimento (há 57 atualmente em testes clínicos). No momento, as vacinas Pfizer-BioNTech e Moderna são de interesse imediato e são as mais interessantes em termos da possibilidade de revolucionar a produção de vacinas. São vacinas de RNA mensageiro, ou mRNA, cujo conceito está em desenvolvimento há muitos anos – financiado principalmente, você não ficará surpreso em ouvir, o setor público. (A vacina Oxford-AstraZeneca usa um método diferente, ou “plataforma molecular” – mais sobre isso em breve.)

O primeiro dia de imunizações de COVID-19 em toda a província de British Columbia. (Flickr)

O RNA mensageiro, como você deve se lembrar da biologia do ensino médio, é a molécula que transcreve as instruções em seu DNA. Essa transcrição é então lida pelos ribossomos, as pequenas máquinas em suas células que usam essas instruções transcritas para fabricar as proteínas que constituem quase tudo em seu corpo. Com as vacinas de mRNA, em vez de apresentar ao sistema imunológico um vírus inteiro, que levou semanas para crescer em ovos de galinha, apenas este pedaço de mRNA, embutido em uma nanopartícula de lipídeo (uma molécula de gordura que o ajuda a entrar na célula) com instruções sobre como fabricar um antígeno viral, é injetado no corpo. O mRNA então direciona as fábricas de proteína ribossômica da célula para produzir cópias do antígeno (a proteína Spike, neste caso), sem vírus. O sistema imunológico reconhece como estranhos e os ataca e depois se lembra de como atacar quando confrontado com a coisa real.

É muito inteligente em vários níveis. Doses muito menores são necessárias para provocar uma resposta imunológica, o que significa que quantidades maiores podem ser produzidas muito mais rapidamente do que as vacinas tradicionais. Além disso, uma vez que a sequência genética de uma proteína do antígeno é conhecida, você pode rapidamente redirecionar o mesmo equipamento de fabricação – biorreatores – para esse novo antígeno. A fabricação de vacinas convencionais, por sua vez, requer equipamentos personalizados ligeiramente diferentes a cada vez. A plataforma molecular do mRNA já havia sido desenvolvida bem antes da pandemia da Covid-19, o que significava que assim que a sequência do gene da proteína Spike seja identificada, o que aconteceu poucos dias após a descoberta da doença, a vacina poderia começar a ser produzida imediatamente. O que demorou foram os ensaios clínicos e, para os acelerar, diferentes fases dos ensaios foram realizadas em paralelo em vez de sequencialmente, como é prática normal.

Esta é a razão pela qual o desenvolvimento da vacina tem sido tão rápido.

No futuro, quando formos confrontados com outros surtos de novos vírus, contanto que tenhamos configurado o equipamento de produção de mRNA com antecedência, pronto para funcionar, podemos simplesmente acioná-los com a nova sequência genética do antígeno. Como pode haver um longo período entre os surtos, sem qualquer oportunidade de lucro, essas instalações precisarão do Estado para serem mantidas ou pelo menos financiadas dentro do serviço público, como sistemas de esgoto ou, mais analogamente, como bombeiros, pagos principalmente para estar lá, pronto para quando a emergência vier.

Freezers de dez mil dólares e duas mil garrafas térmicas

Adesvantagem é que enquanto alguns outros tipos de vacina podem ser mantidos estáveis ​​em refrigeradores regulares, os veículos de nanopartículas de lipídios para o mRNA precisam ser mantidos em temperatura muito fria para não quebrar. A molécula de mRNA da mesma forma começa a se desfazer em temperatura ambiente. A vacina Pfizer-BioNTech requer refrigeradores que possam manter uma temperatura aconchegante de -70ºC (-94ºF).

E isso, o que é chamado de “cadeia de frio” – uma cadeia de abastecimento sensível a baixa temperatura – é onde enfrentamos apenas o primeiro de uma série de obstáculos para a implementação eficiente e justa das vacinas que são causadas ou exacerbadas pela irracionalidade do mercado.

A distribuição de alimentos em todo o mundo já depende de uma cadeia de frio altamente desenvolvida, mas uma cadeia ultra fria, com o tipo de temperatura que a vacina Pfizer exige, é um passo além disso.

A Pfizer está enviando a vacina em caixas de gelo seco. Depois de recebido, o gelo seco precisa ser reabastecido durante um dia. Uma vez retirada das caixas de gelo seco, a vacina pode ser mantida em temperatura normal de geladeira por 24 horas, ou no máximo 2 horas, uma vez descongelada em temperatura ambiente. Os freezers Ultracold podem estender a vida útil em seis meses e, em princípio, estão disponíveis comercialmente.

Os principais hospitais das áreas metropolitanas estão tentando colocar as mãos nesses freezers muito frios, mas também muito caros (que custam US$ 10-15.000 a unidade). E assim como a busca por equipamentos de proteção individual (EPI) e máquinas de ventilação na começo da pandemia, uma abordagem desorganizada de cada um por si voltou no final dela. Áreas rurais e cidades com populações menores estão sendo pisoteadas pela debandada. A pandemia atingiu as finanças de hospitais menos abastados, e essas são despesas com as quais muitas vezes eles não podem arcar. Mesmo os hospitais que podiam pagar um ou dois freezers estão sendo informados pelos fabricantes que a entrega levará meses; hospitais maiores e mais ricos que podem comprar em grandes quantidades têm prioridade.

Isso não é apenas injusto: é irracional. As regiões e hospitais que podem oferecer os maiores lances não são necessariamente os mais necessitados. As áreas rurais e as pequenas cidades tendem a ter um maior percentual de idosos, bem como um maior número de residentes mais pobres, que, por sua vez, apresentam maior incidência de doenças de base. Esse descompasso entre necessidade e suprimento estende a duração da pandemia além do que poderia ser, o que coloca em risco algumas regiões mais do que o necessário, porque nenhum de nós está seguro até que todos estejam seguros.

Em um artigo essencial no serviço de notícias biomédicas da STAT sobre o escândalo da desigualdade da cadeia de conservação ultra fria, Olivia Goldhill citou um diretor da Vizient, um comprador em grupo para hospitais, dizendo: “É outro bom exemplo de como todas as nossas áreas rurais de hospitais estão no fim de uma cadeia de suprimentos com menos poder para fazer compras importantes. É uma selvageria da cadeia de abastecimento; não é assim que você luta contra uma pandemia.”

E os EUA são o país mais rico do mundo. Se a administração de cadeias freezers está fora do alcance das pequenas cidades norte-americanas, a situação é ainda mais terrível no mundo subdesenvolvido. Nos países menos desenvolvidos, a barreira não é apenas o acesso ao tipo certo de freezers, mas a eletricidade confiável para abastecer qualquer tipo de geladeira.

As vacinas contra o ebola puderam ser distribuídas em diferentes locais na República Democrática do Congo durante o auge da epidemia regional, usando garrafas térmicas Arktek especiais de alta tecnologia que podem manter seu conteúdo nas temperaturas exigidas. Mas as garrafas térmicas custam US$ 2.000 cada. Bill Gates está no caso aqui, prometendo pagar a conta por garrafas térmicas Arktek para vacinas da Covid em regiões como esta. Mas a humanidade não deveria depender da boa vontade dos bilionários para lidar com uma pandemia.

Outras vacinas que estão sendo lançadas são menos exigentes. A da Moderna, com eficácia semelhante à da Pfizer, pode ser armazenado com apenas -20ºC (-4ºF) – dentro da faixa de temperatura de um freezer comum.

A esperança é que outras vacinas candidatas usando abordagens diferentes sejam menos sensíveis à temperatura. A vacina desenvolvida por pesquisadores da Universidade de Oxford que posteriormente fizeram parceria com a empresa farmacêutica sueco-britânica AstraZeneca também emprega uma nova plataforma molecular, desta vez um “vetor viral” – um adenovírus que causa resfriados em chimpanzés, mas não em humanos, cujos genes são modificados para produzir a proteína Spike da COVID em sua casca – e ela pode ser armazenada em temperaturas normais de geladeira. A vacina Novavax, cujos ensaios clínicos de terceira fase devem ser concluídos no final de janeiro, é igualmente estável na geladeira, assim como a vacina desenvolvida pela parceria Sanofi-GlaxoSmithKline (embora seus resultados até agora tenham sido decepcionantes, e uma reformulação da vacina significa que a aprovação provavelmente não será dada antes do quarto trimestre de 2021).

Mas sob essas circunstâncias, mais uma vez, no mundo em desenvolvimento, ou mesmo em um território dos EUA como Porto Rico, que sofreu blecautes prolongados na esteira do furacão Maria, uma geladeira velha não adianta nada se a eletricidade for cortada por horas ou dias a fio.

E se a eficácia para essas opções de vacinas tiver uma distribuição mais fácil do que as vacinas de mRNA? Os resultados da vacina Oxford-AstraZeneca sugerem inicialmente que ela é entre 70-90% eficaz (em comparação com 95% para as opções da Pfizer e da Moderna). Isso ainda é excelente e muito superior às taxas de eficácia de 40–60% da vacina atual contra a gripe. Mas aqueles que vivem em áreas rurais e no mundo em desenvolvimento ainda tendem a sentir que são de alguma forma de segunda classe, o que, é claro, do ponto de vista do mercado, eles são. E, novamente, isso é irracional, mesmo para os ricos: o descompasso entre a necessidade e o suprimento, fornecendo vacinas potencialmente menos eficazes não para aqueles que precisam, mas para aqueles com menos riqueza, estende desnecessariamente a duração da pandemia que ameaça a todos nós.

Prioridade para Hollywood

Mesmo se todas as opções de vacina não tivessem problemas com a sensibilidade à temperatura, há outros desafios relacionadas à produção e distribuição. Dada a taxa de proliferação da Covid observada em países antes da quarentena, e tendo uma vacina com 100% de eficácia, cerca de 60-70% da população global precisaria ser vacinada para atingir imunidade de rebanho e bloquear a transmissão do SARS-CoV-2. As vacinas para Covid não são 100% eficazes, então o número real será maior, mas isso nos dá uma boa noção de meta que precisa ser alcançado.

As vacinas Pfizer e Moderna são 50% eficazes após uma dose e só alcançam suas taxas de eficácia mais altas com duas doses. Isso significaria que, no mínimo, um total de mais de 8 bilhões de doses precisa ser fabricado para cobrir 60% dos 7 bilhões de pessoas no mundo. Para efeito de comparação, na última década, 1 bilhão de crianças em todo o mundo foram vacinadas contra doenças como a caxumba, sarampo, rubéola, poliomielite, tétano e febre amarela. É por isso que há grande esperança na vacina de dose única da Johnson & Johnson.

Enquanto isso, a Pfizer prevê que será capaz de produzir 1,3 bilhão de doses até o final de 2021. A Moderna afirma que pode produzir outro bilhão no mesmo período. Mas isso resulta em cerca de 2 bilhões? Não necessariamente. Uma empresa fará essas estimativas com base no que seus próprios fornecedores – de biorreatores, dispositivos de filtração, frascos, nucleotídeos, enzimas e outros insumos e equipamentos – estimam que podem fornecer.

Mesmo que tudo ocorresse sem problemas, desde a fabricação até a distribuição local, no ponto de atendimento – o local de injetar a vacina nos braços das pessoas – não haverá trabalhadores suficientes nos EUA para realizar a inoculação, bem como manusear a divulgação para explicar onde e como obter uma injeção (e para combater a hesitação da vacina), programação de software e tarefas associadas. A Associação de Funcionários de Saúde Territoriais e Estaduais e a Associação de Gerentes de Imunização solicitaram que o Congresso entregue pouco mais de US$ 8 bilhões para cobrir o custo estadual de recrutamento e treinamento de pessoal extra. Cerca de US$ 200 milhões é tudo o que receberam até agora.

Enquanto isso, já estamos vendo exemplos de tentativas descaradas de trapaças. O médico que é subornado por um paciente rico para classificá-lo como asmático, não é tanto o problema, por mais grotesco que seja. Numericamente, essas fraudes não devem significar muito. E quanto mais rígidos os controles sobre essas fraudes, maior a probabilidade de aumentar as barreiras burocráticas à implementação. Até certo ponto, é preciso simplesmente aceitar um certo nível de vilania egoísta, mais mesquinha. O que realmente mina a possibilidade de vacinar quem mais precisa é a corrupção corporativa, lubrificada pelas estruturas existentes dos diferentes grupos de interesses profissionais.

Na primavera, os estúdios de Hollywood gastaram centenas de milhares de dólares em lobby e tiveram sucesso para classificar seus trabalhadores como essenciais na Califórnia, e a World Wrestling Entertainment fez o mesmo na Flórida. Hoje, conforme as primeiras vacinas são lançadas, a American Bankers Association está fazendo lobby que os bancários sejam priorizados na vacinação como “trabalhadores essenciais”, como está fazendo a National Hockey League para seus jogadores e Uber e DoorDash para seus motoristas.

Um verdadeiro faroeste selvagem. O que é necessário é que o governo intervenha em um grau maior do que o experimentado sob Donald Trump para planejar, ou pelo menos conduzir com pulso firme, partes da produção de vacinas e da cadeia de abastecimento de distribuição, como ocorreu no começo da pandemia em muitos países na compra de EPI, ventiladores e fabricação de leitos hospitalares. Quanto maior o fluxo de fabricação e distribuição de vacinas, menos os desvios e a corrupção corporativa importam.

Especialistas em cadeias de suprimentos argumentam que, no caso da Covid-19, o planejamento da demanda é de uma magnitude tão diferente em comparação com a distribuição histórica de vacinas que exigirá que os governos normalizem e otimizem as cadeias de suprimentos de vacinas, assim como foi necessário com os EPIs. Apesar do ex-presidente Trump invocar a Lei de Produção de Defesa (DPA) para forçar as empresas a produzir EPIs e usar uma autorizações emergencial para permitir que novos fornecedores de EPIs entrassem no mercado, a crise do EPI só aumentou porque ficou na mão do mercado privado por falta de supervisão governamental. Surgiu um mercado suspeito de “corretores” de EPI, no qual figuras duvidosas disseram que ajudariam a localizar e adquirir esse equipamento para hospitais, clínicas e outras organizações de linha de frente. Embora algumas delas fossem legítimas e explorassem uma situação de crise, muitas eram fraudes ou sem experiência em cadeias de suprimentos médicos. De qualquer maneira, legítima ou criminosa, os corretores regularmente deixavam de garantir o que haviam prometido.

Para evitar que isso ocorra novamente, Joe Biden poderia usar uma aplicação mais agressiva do DPA, que permite ao governo incentivar as empresas a expandir a produção dentro da capacidade de fabricação doméstica existente de insumos essenciais para a cadeia de abastecimento de vacinas, incentivando a expansão de nova capacidade de fabricação e empregando pessoas com a experiência necessária para supervisionar e planejar essa produção. Segundo a lei, o governo poderia comandar os recursos necessários, incluindo a requisição de especialistas em cadeia de suprimentos e logística e fornecedores para construir um processo centralizado de aquisição e entrega. Se houver gargalos ou escassez de transporte, o DPA também permite a ativação da Frota Aérea da Reserva Civil – recrutando companhias aéreas privadas como a Delta ou a United.

É ineficiente que cada um dos Estados elaborem e implementem seus próprios planos distintos de distribuição de vacinas. Em vez disso, o governo está mais bem posicionado para organizar a coleta de informações em todo o sistema, em assistência aos governos locais e estaduais e provedores de saúde, e então alimentar esses dados de volta na cadeia a fim de alterar os planos de produção e distribuição conforme o consumo de vacinas se modifica. É exatamente por ser uma logística tão complicada que o Estado precisa se livrar do caos do mercado.

Vacinacionalismo

Uma reviravolta agressiva do novo governo Biden apenas amenizaria as restrições da cadeia de suprimentos doméstica e as irracionalidades do mercado. Não faria nada para deter a injustiça global e a falta de lógica das vacinas.

Em junho, escrevi na Jacobin como empresas farmacêuticas como Gilead Sciences, AstraZeneca e Sanofi estavam buscando extensões de suas patentes de medicamentos com possíveis aplicações à Covid-19, como remdesivir – cujo preço Gilead aumentou para US$ 3.000 por paciente, embora o custo custa fosse de apenas US$ 9 – e, ao mesmo tempo, faz lobby para que um acordo seja removido de uma resolução da Organização Mundial da Saúde (OMS) que dá o direito aos países de anular patentes durante emergências de saúde a fim de fabricar versões genéricas dos mesmos medicamentos de maneira econômica e rápida. O esforço de lobby foi, por sua vez, apoiado por diplomatas norte-americanos, britânicos, japoneses e suíços.

A maioria desses mesmos vilões está de volta, mas dessa vez com relação às vacinas. Os países ricos estão tentando bloquear uma proposta da África do Sul e da Índia na OMC para livrar os países membros de cumprir as exigências de patentes às vacinas relacionadas a Covid.

Hilariante, o argumento apresentado pelo representante comercial dos EUA para barrar a proposta é que a perda dessas proteções de propriedade intelectual, mesmo temporariamente, ameaçaria os incentivos para a inovação de vacinas – como se quase cada centavo do custo da pesquisa, desenvolvimento e fabricação das vacinas não tivessem vindo do setor público. A inovação da vacina para Covid-19 é totalmente um produto do Estado.

Mas, independentemente da ousadia desses bandidos sem vergonhas, a retenção do monopólio dos medicamentos e vacinas da Covid restringe necessariamente o fornecimento. Novamente, o interesse dessas firmas inibe a produção e alocação racionais. A função objetiva da sociedade é derrotar o vírus o mais rápido possível e isso está em desacordo com a função objetivo dos atores do mercado: maximização do lucro. Mesmo os mais ricos, que têm lucrado com a aplicação de patentes, estão aumentando seu próprio risco de serem infectados e podem morrer pelo coronavírus.

Não é surpreendente, então, neste ambiente ético de cada um por si, que nos últimos dias, pesquisadores do Centro de Inovação em Saúde Global da Duke University tenham calculado que um punhado de países ricos já abocanhou, por meio de acordos de compra antecipada, cerca de 600 milhões de doses da vacina Pfizer – quase metade da quantidade que a empresa estima que poderá produzir até o final do próximo ano. O estudo concluiu que doses suficientes para cobrir apenas 250 milhões de pessoas foram compradas pela COVAX, uma plataforma global para garantir acesso igual às vacinas da Covid, independentemente da capacidade de pagamento de uma nação. O pacto COVAX visa entregar cerca de 2 bilhões de doses de vacina até o final do próximo ano, cobrindo 20% das pessoas em 91 países na África, Ásia e América Latina.

Muitos desses países ricos que assinaram acordos paralelos para garantir seu acesso doméstico a grandes remessas de vacinas também assinaram a COVAX. O próprio pacto foi uma iniciativa da França e da União Europeia. No entanto, esses mesmos países estão, na verdade, minando o próprio pacto que assinaram, ao tentarem furar a fila. Os pesquisadores estimam que, como resultado desse “vacinacionalismo”, a maioria das pessoas em países de baixa renda terá que esperar até 2024 para ser vacinada. O vacinacionalismo estenderá a pandemia por anos. Para piorar as coisas, documentos internos da secretaria da COVAX vazados para o The Guardian revelaram que seus gerentes acreditam que o plano está sob risco “muito alto” de fracasso, já que só conseguiu levantar US$ 2,1 bilhões dos US$ 4,9 bilhões que estima ser necessário para cumprir sua meta de 20% até 2021.

O que tudo isso nos indica é que o planejamento econômico a serviço da erradicação mais rápida da doença é insuficiente se esse planejamento permanece em nível nacional. Nesse caso, cada país está agindo no mesmo interesse que qualquer CEO da Pfizer ou Moderna, mas num mercado de competição nacional. Obviamente, a COVAX deveria ser o órgão supranacional desse planejamento global. Mas a COVAX não é um Estado global. Tal como a OMS, não possui recursos suficientes nem capacidade legal para fazer cumprir o seu plano da mesma forma que um Estado.

O melhor que a humanidade pode esperar no prazo imediato para derrotar esse vacinacionalismo e a selvageria do mercado na implantação de vacinas é a vergonha popular e internacionalista de sua injustiça e irracionalidade. Mas olhando para além do horizonte da Covid-19, a ameaça de futuras pandemias – e entre elas aquelas que não são nem de longe tão indulgentes quanto este coronavírus – requer em algum ponto uma discussão séria de como a democracia global pode ser construída de baixo para cima, como, em tal democracia, o planejamento econômico mundial pode domar as ineficiências, irracionalidades e injustiças dos mercados.

Porque ninguém está seguro até que estejamos todos seguros.

Sobre a autora

Leigh Phillips é articulista científico e jornalista especializado em questões sobre a União Europeia. É autor de "Austerity Ecology & the Collapse-Porn Addicts" ("Ecologia da austeridade e os viciados em pornô do colapso") e co-autor de República Democrática do Walmart (Autonomia Literária 2020).

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