Mostrando postagens com marcador Marianna Teixeira Farias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marianna Teixeira Farias. Mostrar todas as postagens

13 de setembro de 2022

Conheça Maria Quitéria, baiana que se vestiu de homem para lutar na Independência

Mulher parda com traços indígenas comandou tropas e contribuiu para expulsão dos portugueses no Nordeste

Marianna Teixeira Farias

Bacharel em história pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) e mestranda em história social

Folha de S.Paulo

[RESUMO] Em 1822, Maria Quitéria de Jesus, uma mulher parda com traços indígenas, desobedeceu as ordens do pai e as convenções da sociedade e se alistou como soldado Medeiros para lutar na Guerra da Independência na província da Bahia. Mesmo descoberta, seguiu no batalhão e foi pessoalmente condecorada por dom Pedro 1° pelos seus feitos. Sua história hoje inspira a luta de mulheres por um país menos desigual.

Em 2 de julho de 1822, o governador das armas da província da Bahia, o general português Madeira de Mello, publicou no periódico Idade d´Ouro do Brazil:

"A facção que há muito se introduziu [...] tem trabalhado constantemente até hoje para revolucionar a província; e já fez desgraçada explosão na [cidade de] Cachoeira e outros lugares. Tem emigrado para a cidade alguns proprietários e negociantes, [que] julgam seus bens perdidos, [especialmente] aqueles que têm escravos de lavoura e gado".

Diante do acirramento crescente dos conflitos na Bahia, o então príncipe regente, Pedro Alcântara, escreveu um manifesto endereçado aos "brasileiros", em 1º de agosto de 1822.

Nele, o futuro imperador convocou "valentes mineiros, intrépidos pernambucanos defensores da liberdade brasílica [para irem] em socorro dos vossos vizinhos irmãos: não he a causa de uma província; he a causa do Brasil que se defende na primogênita de Cabral. [...] Habitantes do Ceará, Maranhão, do riquíssimo Pará, vós todos das bellas e amenas províncias do Norte, vinde exarar e assignar o Acto da nossa Emancipação".

Essas mensagens não deixam dúvida: conquistar a província da Bahia definiria os rumos do processo de Independência do Brasil, agravado em 19 fevereiro de 1822.

Na época, Salvador foi palco de lutas sangrentas. O general português Madeira de Mello, nomeado pelas cortes de Lisboa, invadiu o forte de São Pedro para prender e destituir o baiano Manuel Pedro de Freitas Guimarães, que havia sido nomeado governador das armas depois de ter sido brigadeiro e comandante interino da província desde 1821.

Outros fatores estavam em causa nessa disputa. Nas primeiras décadas do século 19, a Bahia ainda era a maior exportadora de cana-de-açúcar, algodão e tabaco, garantindo à cidade lugar de destaque ao lado do Rio de Janeiro no tráfico de africanas e africanos escravizados.

Assim, assegurar a permanência do escravismo foi determinante para a adesão do setor dominante da província da Bahia ao projeto político de dom Pedro 1º, que deixaria de correr risco com a abertura da Constituinte, em 3 de maio de 1823.

Até lá, a resistência que estava na cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, organizou batalhões com voluntários para as lutas contra as tropas portuguesas na Bahia. Homens negros e pardos, escravizados e livres, formaram o Batalhão dos Periquitos. O nome remete à farda que usavam, que continha um dolmã azul-escuro com gola e punho esverdeados (veja a pintura abaixo).

Nesse batalhão, uma mulher se alistou como soldado Medeiros e comandou ao menos três batalhas que foram decisivas para a vitória das tropas baianas. Seu nome era Maria Quitéria de Jesus.

O restaurador Raul Carvalho mostra detalhes do verniz antigo que foi removido do retrato de Maria Quitéria feito por Domenico Failutti; depois de restaurada, obra foi reinstalada no Salão Nobre do Museu do Ipiranga, onde está exposta - Eduardo Knapp - 03.nov.2021/ Folhapress

Nascida em 1792 no sítio do Licorizeiro (numa região chamada de São José das Itapororocas, no Recôncavo Baiano), ela aprendeu desde cedo a cavalgar e a atirar com armas de fogo, razão pela qual se recusava a bordar, tecer, fiar e cuidar da casa, atividades costumeiramente destinadas às mulheres da época.

Por infortúnio do destino, viu sua mãe morrer quando ainda era muito jovem. Por conta disso, ela e a família se mudaram para outra fazenda, chamada Serra de Agulha. Por lá, seu pai, Gonçalo, se casou mais uma vez.

A nova esposa, Maria Rosa, fez com que a vida não fosse fácil para Quitéria já que a repreendia em tudo que gostava de fazer. Mesmo assim, à medida que os anos se passaram, a primogênita continuou sem medo de ser quem era. Gastava horas aprimorando as suas habilidades com as armas, a cavalaria e a caça.

Em 1822, ano em que as lutas estavam se instalando no Recôncavo Baiano, Maria Quitéria já era adulta e, muito provavelmente, enamorada do lavrador Gabriel Pereira de Brito, que morava pelas redondezas. Foi quando surgiu uma visita inesperada. Um dos emissários que convocavam voluntários para fazer parte dos batalhões de guerra chegou à fazenda de seu pai.

Ao ouvi-lo falar sobre as lutas pela Independência, ela se levantou e afirmou que gostaria de ir. Seu pai a repreendeu, afirmando que um campo de batalha não era lugar para mulher.

Ainda assim, não se deteve. No dia seguinte, fugiu escondida para a casa de sua irmã Tereza, a quem contou seu plano. Iria se disfarçar de homem para lutar na guerra, visto que o alistamento não era permitido para mulheres. Cortou os cabelos e pegou emprestado a farda e o nome de seu cunhado, Medeiros.

A partir daquele momento, Maria Quitéria viajou para Cachoeira como soldado Medeiros e por lá se alistou. Da artilharia à infantaria, ninguém suspeitou do seu disfarce.

Após algumas semanas, seu pai, que estava a sua procura, conseguiu reconhecê-la entre os soldados e solicitou ao comandante do batalhão a sua retirada.

Para a surpresa do pai e da própria Maria Quitéria, o chefe militar falou sobre o talento dela como atiradora e sua notável habilidade com os cavalos, e pediu que ela escolhesse entre voltar para a fazenda ou seguir no batalhão por amor à pátria. Para o desgosto de seu pai, Maria Quitéria escolheu lutar como uma mulher.

Sua primeira missão se deu em 29 de outubro de 1822: coube a ela organizar a defesa da ilha de Maré. Logo depois, na Batalha de Pirajá, contribuiu para impedir que as tropas portuguesas chegassem ao Recôncavo Baiano por terra —a região era fundamental para garantir a alimentação das tropas. Em fevereiro de 1823, atacou uma trincheira das tropas portuguesas, prendendo e conduzindo os soldados ao acampamento brasileiro.

Após as batalhas vitoriosas comandadas por Maria Quitéria, o general Pierre Labatut lhe conferiu as honras de 1º cadete e autorizou que ela incorporasse ao uniforme do Batalhão dos Periquitos um saiote escocês e uma espada, ambos sobrepostos ao dólmã azul-escuro e às calças brancas.

Presença destacada entre os soldados das tropas baianas, a documentação demonstra que ela se apaixonou durante as lutas pela Independência do Brasil na Bahia, casando-se em março de 1821 com o furriel João José Luís, que morreu pouco tempo depois.

Na última batalha que comandou, Maria Quitéria e cerca de 40 mulheres entraram no rio Paraguaçu, nadaram até ficarem com água à altura dos seios e lutaram contra os portugueses para que as barcas inimigas não chegassem à Baía de Todos os Santos.

As notícias sobre seus feitos e a maneira como ela se alistou no Batalhão dos Periquitos foram além da província. Terminada a guerra na Bahia, uma multidão aguardava a passagem do Exército pacificador, e Maria Quitéria desfilou ao lado do comandante da tropa, sob um arco de louro e flores do campo ornamentado por freiras do Convento da Soledade.

Depois das festas, ela foi designada para ir ao encontro de dom Pedro 1º, chegando ao Rio de Janeiro em 17 de agosto de 1823 a bordo do navio Leal Português. Três dias depois, o imperador a recebeu junto ao corpo diplomático, além de ministros, deputados e a viajante e escritora inglesa Maria Graham.

Na cerimônia, ele a condecorou com a insígnia de cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro e a concedeu o soldo perpétuo de alferes de linha.

Despertando a curiosidade dos presentes na cerimônia, Maria Quitéria foi retratada nas páginas do diário de Maria Graham, que ficou encantada com sua desenvoltura e altivez em um ambiente predominantemente masculino: uma mulher parda e com traços indígenas, que usava as mãos para comer farinha com ovos ao almoço e peixe ao jantar.

Também uma mulher que fumava um charuto após as refeições enquanto conversava sobre os mais variados assuntos em uma sala reservada para homens.

O reconhecimento de seus feitos nas lutas pela independência política do Brasil na Bahia, no entanto, não diminuiu a preocupação por ter transgredido moral, estética e politicamente as ordens de seu pai e daquela sociedade que criminalizava e difamava as mulheres que se engajavam por uma causa na esfera pública.

Antes de retornar para a sua terra natal, Maria Quitéria pediu a dom Pedro 1º para escrever uma carta de próprio punho para o pai dela, Gonçalo, com o objetivo de convencê-lo a perdoá-la por meio do reconhecimento público de seu patriotismo. Mas nada foi capaz de abrandar a ira de Gonçalo, o que explica as escolhas da filha até o final de sua vida.

Ao voltar para a antiga casa da Serra de Agulha, foi recebida com festa por vizinhos, porém com hostilidade pelo pai. Ficou morando com a família até se casar em segunda núpcias com o primeiro pretendente, o lavrador Gabriel Pereira de Brito, com quem teve uma filha chamada Luísa.

Quando seu pai morreu, Maria Quitéria descobriu que ele nunca a perdoou, pois os bens a que tinha direito foram deixados para a madrasta. Lutou para reavê-los, sem sucesso, e ficou viúva novamente. Cega e vivendo apenas da pensão vitalícia de alferes, resolveu ir para Salvador com a filha, onde faleceu em 21 de agosto de 1853, aos 56 anos, em decorrência de uma inflamação do fígado.

Maria Quitéria de Jesus morreu no anonimato, mas sua fama em razão de suas transgressões, incluindo as condecorações de dom Pedro 1º, logrou um desafio para a escrita de sua história e memória: como retratar uma mulher parda e do sertão baiano que subverteu todas as opressões para ocupar a linha de frente de uma guerra depois de tomar emprestada as roupas e a identidade de um homem?

Nas iconografias, temos algumas pistas. A primeira delas, intitulada "A Female Soldier of South America", é uma aquarela que foi produzida pelo artista inglês Augustus Earle, provavelmente em 1824.

Nela, é possível ver Maria Quitéria trajando o uniforme militar que usou nas batalhas sem a insígnia da Ordem Imperial do Cruzeiro. Foi retratada com a pele branca, as maçãs do rosto rosadas, cabelos lisos e castanhos, com os traços tipicamente europeus.

A representação contrasta com o testemunho feito por Maria Graham, que destacou "os mais acentuados traços dos índios, especialmente os olhos e a testa". Além disso, a ausência de seios remete à figura de um soldado comum das tropas a favor de dom Pedro 1º.

Outra obra do mesmo autor, mas gravada pelo inglês Edward Finden, foi intitulada "Dona Maria de Jesus", feita sob encomenda para compor o diário de Maria Graham, em 1824. Nela, Maria Quitéria é retratada de corpo inteiro em um cenário tropical, com palmeiras, o mar ao longe e com personagens lutando.

Seu corpo está de frente, com o joelho virado para o lado e as pernas levemente relaxadas. Ela segura um rifle como quem segura uma bengala ou o transforma em adereço da vestimenta. O domínio da arma como uma característica tipicamente masculina fica em segundo plano enquanto o aspecto feminino é ressaltado com a marcação dos seios, o rosto ruborizado e um leve sorriso de quem está alheia à batalha que ocorre em seu entorno.

Já em 1922, por ocasião do centenário da Independência do Brasil, Affonso Taunay, diretor do Museu do Ipiranga, encomendou uma série de pinturas para compor a memória do evento. O italiano Domenico Failutti ficou responsável pelos retratos de três mulheres: a abadessa Sóror Joana Angélica, a imperatriz Leopoldina e Maria Quitéria de Jesus.

Fazendo uma releitura da gravura encomendada em 1824 pela inglesa Maria Graham, o pintor propôs algumas mudanças: retirou os personagens lutando, acentuou as cores do cenário tropical e retratou Maria Quitéria com a cor da pele mais escura e os traços do seu rosto mais delicados e femininos, inclusive com a boca pintada.

A opção por retratar Maria Quitéria como uma combatente de traços nativos tem como objetivo transformá-la na síntese da participação popular nas lutas pela Independência do Brasil, ainda que o ideal de mulher na Primeira República fosse mais afeito à imagem da imperatriz Leopoldina, mãe dedicada e esposa resiliente, fundamentalmente uma mulher da esfera privada.

A inclusão da imagem de Maria Quitéria no rol de retratos que compõem a memória sobre a Independência do Brasil do Museu Paulista está ligada a uma perspectiva histórica cara ao centenário, na qual os estados da federação passaram a reivindicar seus papéis no processo de construção do Estado Nacional.

Desse momento em diante, a trajetória política de Maria Quitéria foi cada vez mais incorporada na luta de diversos coletivos e movimentos sociais.

De 1977 a 1979, a advogada Therezinha Zerbini, fundadora do Movimento Feminino Pela Anistia, editou o boletim Maria Quitéria, voltado para a participação política e social das mulheres que reivindicavam a lei da anistia aos presos e exilados políticos durante a ditadura militar no Brasil.

Segundo a editora, a escolha de Maria Quitéria serviu para o movimento se legitimar e provocar a caserna por meio da trajetória de uma mulher iletrada que, ainda assim, "sabia por quais valores valia a pena lutar".

No mesmo ano, em 1979, a Câmara Municipal de Feira de Santana criou a comenda Maria Quitéria para homenagear personalidades políticas da cidade. Desde 1996, ela é também patronesse do quadro complementar de oficiais do Exército brasileiro, sendo por determinação ministerial obrigatória a reprodução do quadro de Domenico Failutti em todos os quartéis, estabelecimentos e repartições militares do país.

Além disso, há um distrito e algumas ruas que levam o seu nome, como o distrito Maria Quitéria, antes chamado de São José das Itapororocas, onde a heroína viveu.

Em 2016, a Câmara Municipal de Salvador criou uma medalha militar e uma comenda em sua homenagem, destacando a importância regional da combatente e da própria Bahia na história nacional. Por fim, em 2018, ela foi declarada Heroína da Pátria Brasileira pela Lei Federal nº 13.697 e incluída no "Livro de Aço das Heroínas e Heróis da Pátria".

A história da baiana Maria Quitéria de Jesus resgata o que há de melhor nesse país, em 2022. Ela nos convida a pensar a Independência do Brasil como um processo além do 7 de setembro e do eixo Rio-São Paulo.

Também nos oferece a possibilidade de conhecer a luta das mulheres que foram para a guerra por um mundo diferente daquele que as oprimia. Por fim, ela nos mostra que é possível derrotar a tirania de ontem e de hoje.

TEXTO INTEGRA SÉRIE PERFIS DA INDEPENDÊNCIA

Este texto da historiadora Marianna Teixeira Farias integra a série Perfis da Independência, que destaca nomes relevantes —muito conhecidos ou não— do período da emancipação do Brasil em relação a Portugal.

O texto sobre a imperatriz Leopoldina deu início à série em fevereiro de 2022, seguido dos artigos sobre o jornalista Hipólito da Costa, o navegador escocês Thomas Cochrane, Bárbara Pereira de Alencar, revolucionária e primeira presa política do Brasil, José Bonifácio, patriarca da Independência, e Urânia Vanério, autora de panfleto pró-Independência aos 10 anos, entre outros nomes.

5 de setembro de 2022

Maria Felipa liderou baianas na luta contra soldados portugueses

Marisqueira negra da ilha de Itaparica comandou grupo de mulheres que ateou fogo nas embarcações lusitanas

Patrícia Valim
Professora do Departamento de história da UFBA (Universidade Federal da Bahia) em cooperação técnica com a Ufop (Universidade Federal de Ouro Preto)

Marianna Teixeira Farias
Bacharel em história pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) e mestranda em história social

Combate entre rebeldes da Confederação do Equador e forças do Império na luta dos Afogados, no Recife, em 1824; a pintura é de Leandro Martins (data desconhecida) - Wikimedia Commons

Não há festa de largo, roda de capoeira e roda de samba na Bahia sem um canto que faça saudações às mulheres que tiveram participações decisivas nas lutas pela independência do Brasil na Bahia.

Em "Marias Capoeiras", um dos sambas que homenageiam Maria Felipa de Oliveira, Sara Abreu canta: "Solta a mandiga aê, angoleira/ solta a mandiga á, angolá/ na roda da capoeira/ volta e meia vamos dar/ negras, índias e caboclas/ anciãs e feiticeiras/ guerreiras e capoeiras [...] e a Maria Felipa/ da Ilha de Itaparica/ pela Bahia lutou".

Até chegar a esse lugar privilegiado da cultura do povo, Maria Felipa construiu uma das mais belas trajetórias entre as mulheres guerreiras da história do Brasil.

Segundo Oliveira Lima (1922), a Divisão Auxiliadora se posicionou no Rio de Janeiro no início de 1822 com 2.000 portugueses para obrigar dom Pedro 1º a retornar a Portugal, conforme determinações das Cortes de Lisboa.

O insucesso da operação fez com que Portugal concentrasse seus esforços na província da Bahia para tentar dividir o território do Brasil em duas partes —ocuparia Salvador para, dali, reocupar o Rio.

Para tanto, os portugueses derrotados da Divisão Auxiliadora foram enviados à Bahia para se somar aos quase 2.500 soldados mandados por Portugal. Para vencer a guerra em Salvador, as tropas portuguesas deveriam dominar dois lugares estratégicos da província: a ilha de Itaparica e o rio Paraguaçu.

Maria Felipa foi fundamental para impedir os planos das tropas portuguesas. Mulher negra, livre, marisqueira, capoeirista, moradora de Itaparica e conhecedora do rio Paraguaçu, principal via de comunicação entre Salvador e o Recôncavo Baiano, ela rapidamente se engajou nas lutas como voluntária.

Começou remando durante a madrugada no Paraguaçu para levar mantimentos e informações sobre a guerra obtidas nas rodas de capoeira para a resistência baiana que estava em Cachoeira. Voltava com munições para impedir que os portugueses tivessem acesso ao rio e cercassem o comando das tropas baianas.

Sem acesso ao rio, os portugueses decidiram invadir Itaparica para fechar o acesso à Baía de Todos os Santos e conquistar Salvador. Dominar a ilha era fundamental para que os portugueses obtivessem alimentos, pois as tropas baianas tinham feito uma barreira em Pirajá, única via de acesso ao Recôncavo por terra.

Diante do perigo, Maria Felipa não teve dúvida: organizou um Exército de mulheres insulanas, conhecidas como "vedetas", para vigiar a movimentação das embarcações portuguesas nas praias.

Quando os portugueses desembarcaram na ilha, elas formaram um cerco e lutaram com facas e folhas de cansanção, uma folha urticante que causa queimaduras na pele.

Surrados pelas vedetas, os portugueses correram de volta para suas embarcações com a intenção de ganhar tempo para um contra-ataque. Para garantir que eles não voltassem a pisar na ilha, o grupo liderado por Maria Felipa entrou no mar e ateou fogo nas embarcações, destruindo duas delas e obrigando os portugueses a recuar.

Com seu conhecimento de estratégia militar, ela fez mais: garantiu a vitória das tropas baianas. Quando ela e as vedetas bloquearam o acesso ao rio Paraguaçu e protegeram Itaparica, os portugueses foram derrotados e ficaram sitiados em Salvador sem alimentos até serem expulsos em 2 de julho de 1823.

A vitória baiana representou um momento de inflexão das lutas pela independência do Brasil a partir do qual a ruptura definitiva com Portugal era questão de tempo.

Nesse momento, ocorreu a adesão do setor dominante da província ao projeto de uma monarquia constitucional centralizadora de dom Pedro 1º, fortalecendo a abertura da Constituinte, em 3 de maio de 1823. Havia a promessa de que a centralização não comprometeria a autonomia política local e a preservação dos interesses há muito conquistados, como a manutenção do escravismo.

O início dos trabalhos constituintes, no entanto, não significou o fim das lutas sangrentas, que aconteceram nas chamadas províncias do norte e do nordeste até 1825.

As lutas pela independência contaram com a adesão dos setores populares dessas províncias —indígenas, homens e mulheres escravizados e livres. Eles viram nesses conflitos a possibilidade de construção de um Estado com viés republicano e conquistas de liberdade, participação política e melhores condições de vida.

Sentindo-se traídos pela monarquia, esses grupos continuaram lutando por direitos como na Revolta dos Periquitos, na Bahia, e na Confederação do Equador, ambas violentamente reprimidas pelas tropas de dom Pedro 1º, em 1824.

Abundam nos arquivos brasileiros relatos sobre o perigo da luta política por direitos das populações negras escravizadas e livres, cobrando ações para contê-las e fazê-las retornar ao trabalho.

Por isso, não bastou punir as lideranças dos movimentos que questionavam o projeto monarquista. Foi preciso apagar da história o rastro da experiência da luta de um contingente enorme por cidadania.

Isso explica em parte a ausência de relatos nas obras históricas durante o século 19 e boa parte do século 20 sobre a arguta estratégia de Maria Felipa, mulher negra e livre, e seu papel na derrota das tropas portuguesas na Bahia, bem como o papel central da província para a consolidação da independência do Brasil, após 1823.

Outra explicação para o apagamento é que, segundo os contemporâneos, ela continuou desafiando moral e politicamente os padrões da época ao liderar a luta por direitos da população insulana até a sua morte, em 1873.

Em 1921, o literato e deputado federal Xavier Marques publicou o romance "O Sargento Pedro". Nele, em meio às lutas pela Independência em Itaparica, uma "mulher agigantada, com a camisa descahida, as costas lavadas de suor, os cabelos revoltos, [que] agitava-se à frente da turba, com [um] homem preso pela gola da vestia, e sempre a gritar: – Canta! Senão te mato... Canta... 'Havemos de comer/Marotos com pão'".

Sua coragem e liderança começaram a ser valorizadas duas décadas depois, em 1942, nas obras de Ubaldo Osório Pimentel (1883-1974), nascido e criado em Itaparica, pai de uma menina de nome Maria Felipa e avô materno de João Ubaldo Ribeiro (1941-2014).

Em "A Ilha de Itaparica" e "A Ilha de Itaparica, História e Tradição", o autor descreve Maria Felipa como uma "creoula estabanada, alta e corpulenta que usava torço e saia rodada [...] gozava de uma grande popularidade entre os praieiros que admiravam o desassombro e a [sua] coragem".

João Ubaldo Ribeiro inverteu as características que criminalizaram Maria Felipa no início do século 20 para avançar no caminho aberto nas obras do seu avô e retratá-la, em 1986, como Maria da Fé, a protagonista do livro "Viva o Povo Brasileiro", pulsante, cheia de energia para as lutas travadas desde a infância.

Eny Kleyde Vasconcelos de Farias, em "Maria Felipa de Oliveira, Heroína da Independência da Bahia" (2010), retomou as trilhas abertas por Edith Mendes Gama e Abreu, que, em 1973, havia escrito sobre Maria Felipa em "Aspectos do 2 de Julho", destacando sua extraordinária coragem na batalha do rio Paraguaçu.

A inclusão da imagem de Maria Felipa em 2008 no cortejo do Dois de Julho, junto a outros heróis da Independência, aumentou a visibilidade da sua trajetória. Foi considerada matriarca da Independência de Itaparica, título que a colocou no panteão das heroínas brasileiras.

Em 2005, a professora Filomena Oge a desenhou, com base na tradição oral, nos documentos utilizados nas obras de Ubaldo Osório e nos traços de pessoas que se afirmam como descendentes. Para a professora, Maria Felipa provavelmente era filha de sudaneses, descritos como "altos, bem formados [...] robustos física e intelectualmente".

O resgate da história dela nas lutas pela independência do Brasil na Bahia e a construção dessa memória pela população nos levam a mobilizar discussões em torno de uma questão: qual independência estamos comemorando neste bicentenário?

A independência como uma repressão bem-sucedida de dom Pedro 1º e das elites locais, que se alinharam ao projeto de uma monarquia centralizadora ao preço da manutenção do escravismo como política do Estado que surgia e da brutal violência contra homens e mulheres que continuaram nas ruas, lutando por direitos?

Ou a independência como uma revolução abortada nas várias guerras com participação de um contingente enorme de indígenas, homens e mulheres, como Maria Felipa, que abandonaram a própria vida pela expectativa de um país com mais oportunidades?

Recordar a luta de mulheres como Maria Felipa significa convocar a força que as fez protagonistas de suas vidas para nos livrar da tirania em momentos cruciais da nossa história. Não será diferente em 2022, sabemos.

Este texto integra a série Perfis da Independência, que destaca nomes relevantes -muito conhecidos ou não- do período da emancipação do Brasil em relação a Portugal.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...