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11 de julho de 2025

Insubmissão

Uma entrevista com Jean-Luc Mélenchon.

Jean-Luc Mélenchon e Tariq Ali

Sidecar


Tariq Ali

Vamos começar com Gaza. Estamos no que esperamos ser o estágio final desta guerra israelense. Seu número de vítimas será de centenas de milhares, talvez perto de meio milhão. Nenhum país ocidental fez qualquer tentativa significativa de impedi-la. No mês passado, Trump ordenou que os israelenses assinassem o acordo de cessar-fogo com o Irã e, quando Israel o quebrou, ficou furioso. Para usar suas palavras imortais: "Eles não sabem o que estão fazendo". Mas isso me leva à pergunta: você acha que os americanos sabem o que estão fazendo?

Jean-Luc Mélenchon

Precisamos tentar entender a lógica desses Estados ocidentais. Não é simplesmente que Trump seja louco ou que os europeus sejam covardes; talvez eles sejam essas coisas, mas o que estão fazendo se baseia em um plano de longo prazo, que fracassou no passado, mas agora está em processo de ser concretizado. O plano é, primeiro, reorganizar todo o Oriente Médio para garantir o acesso ao petróleo para os países do Norte Global; e, segundo, criar as condições para a guerra com a China.

O primeiro objetivo remonta à guerra Irã-Iraque, quando os EUA usaram o regime de Saddam Hussein como instrumento para conter a revolução iraniana. Após a queda da URSS, lançaram a Guerra do Golfo e Bush pai proclamou uma "nova ordem mundial". Minha visão, desde o início, foi que se tratava de uma tentativa de estabelecer o controle dos oleodutos e gasodutos e de proteger a independência energética dos EUA, mantendo os preços suficientemente altos, no limiar da lucratividade do petróleo extraído por fraturamento hidráulico. Quando entendemos isso como a principal ambição do Império, podemos entender vários outros eventos. Por exemplo, o que os EUA fizeram no Afeganistão após a invasão em 2001? Impediram a construção de um oleoduto que passaria pelo Irã. A guerra do Daesh contra a Síria também foi, em muitos aspectos, uma disputa pela rota de um oleoduto.

Então aí está: uma linha de raciocínio bastante consistente. Um império só é um império se puder manter o controle de certos recursos, e é precisamente isso que está acontecendo hoje. Os EUA decidiram redesenhar o mapa do Oriente Médio, usando Israel como instrumento e aliado. Sabem que devem recompensar Israel por esse trabalho, e isso se manifesta em apoio ao projeto político de um Grande Israel, sob o qual a população palestina em Gaza e em outros lugares deve desaparecer. Se a Europa e os EUA quisessem impedir essa guerra, ela teria se limitado a três ou quatro dias de retaliação israelense após 7 de outubro. Em vez disso, ela durou mais de vinte meses. Portanto, ninguém pode dizer que os americanos não sabem o que estão fazendo, como alguns já disseram. O que está acontecendo na região é deliberado, planejado e organizado em conjunto pelos EUA e Netanyahu.

Tariq Ali

Você mencionou que a segunda parte do plano dos Estados Unidos é o conflito com a China. Muitos liberais e liberais de esquerda estão finalmente se afastando dos eventos no Oriente Médio e dizendo que nosso verdadeiro alvo deveria ser a China. Mas o que eles não percebem é que o verdadeiro alvo é a China, porque, como você disse, se os Estados Unidos controlassem todo o petróleo da região – como aconteceria se o Irã caísse – então eles controlariam o fluxo dessa commodity básica. Eles poderiam forçar Pequim a mendigar por ele, o que ajudaria a mantê-la sob controle. Portanto, a estratégia dos EUA no Oriente Médio pode parecer completamente insana – e é insana em vários níveis – mas também há uma lógica profunda por trás dela: que é melhor lutar contra a China dessa maneira do que entrar em guerra com ela. Isso já começou a criar enormes problemas em todo o Oriente. Percebi que nem os líderes do Japão nem da Coreia do Sul, dois países que possuem importantes bases militares americanas, compareceram à cúpula da OTAN em junho – algo que nunca aconteceu antes.

Jean-Luc Mélenchon

O conflito entre os EUA e a China gira em torno de redes comerciais e de recursos, e, em alguns aspectos, os chineses já venceram, pois produzem quase tudo o que o mundo consome. Eles não têm interesse em travar uma guerra porque já estão satisfeitos com sua influência global. No entanto, isso é tanto um ponto forte quanto um ponto fraco. Quando 90% do petróleo iraniano vai para a China, por exemplo, bloquear o Estreito de Ormuz cortaria cadeias de suprimentos cruciais e paralisaria grande parte da produção chinesa. Portanto, a China é vulnerável nessa frente. Você tem razão ao dizer que alguns no Ocidente prefeririam uma guerra fria a uma guerra quente, cerco e contenção em vez de conflito direto. Mas essas são nuances e, na realidade, é fácil passar de uma para a outra. Um dos principais assessores econômicos de Biden disse que não há "solução comercial" para o problema da competição com a China, o que significa que só pode haver uma solução militar.

A questão sobre o Japão e a Coreia também é significativa. Não apenas eles, mas também muitas outras potências da região, estão agora fortalecendo laços com a China. O Vietnã deveria estar no bloco americano, mas assinou acordos com os chineses. A Índia também, apesar das tensões entre os dois países. O pano de fundo aqui é que, em grande parte da Ásia, o capitalismo ainda é definido por forças dinâmicas de comércio e produção, enquanto nos EUA assumiu um caráter predatório e tributário. Ou seja, Washington agora tenta usar seu poder para fazer o resto do mundo pagar tributos, como ficou claro na reunião da OTAN que você mencionou, onde decidiu que cada Estado deveria gastar 5% do PIB em defesa. Esse dinheiro não será usado para construir aviões ou submarinos internamente, é claro, mas sim para comprá-los dos Estados Unidos.

Certa vez, tive uma conversa interessante com um líder chinês. Quando lhe disse que a China estava inundando o mercado europeu com sua superprodução de carros elétricos, ele respondeu: "Sr. Mélenchon, o senhor acha que há carros elétricos demais no mundo?". É claro que tive que responder "não". Então ele disse: "Não estamos forçando você a comprar nossos produtos; "Depende de você se quer comprá-los." Ali estava um comunista me explicando os benefícios do livre comércio. Foi um lembrete de que, quando se trata dos EUA e da China, o que temos é uma competição entre duas formas diferentes de acumulação capitalista — mesmo que seja redutor descrever o modelo econômico chinês como simplesmente capitalista. Quando perguntei sobre o equilíbrio de forças militar, ele continuou me dizendo que a China estava em uma situação favorável, porque, como ele mesmo disse, "nosso front é o Mar da China. O front da América é o mundo inteiro".

Portanto, a batalha com a China já está em andamento, e ainda estamos em fase preparatória. Neste momento, existem navios de guerra e armas norte-americanas espalhados pelo mundo, nos quais Washington precisaria se concentrar antes de qualquer ataque. Portanto, ainda temos alguns anos pela frente, uma janela de oportunidade. A França continua sendo um país com recursos militares e materiais para intervir no equilíbrio de poder global. Acredito firmemente que um dia teremos um governo insubmisso que será capaz de afirmar a soberania sobre nossa própria produção interna e política externa: um governo que reconheça que, mesmo que a China seja uma ameaça sistêmica ao império, não é uma ameaça sistêmica para nós. É por isso que estou lutando.

A Alemanha é um assunto diferente. Sabe, na França costumamos dizer "nossos amigos alemães". Bem, os alemães não são amigos de ninguém. Eles são egoístas. Eles quebram acordos conosco o tempo todo. Agora, eles estão dispostos a investir US$ 46 bilhões em sua economia de guerra porque perderam a batalha pela indústria automobilística há mais de quinze anos. No entanto, até os alemães aprenderam uma dura lição com os EUA. Acabaram dependendo da Gazprom para obter energia. O Sr. Schroder foi trabalhar para a empresa e fechou um bom acordo com os russos. Então, os americanos disseram "Chega" e o Nord Stream foi destruído. Veja bem, o império atacará qualquer um que o desobedecer.

Tariq Ali

Como você acha que será o mundo em que vivemos no final do século?

Jean-Luc Mélenchon

A única coisa que podemos saber com certeza é que ou a civilização humana encontrará uma maneira de se unir contra as mudanças climáticas, ou entrará em colapso. Sempre haverá seres humanos que conseguirão sobreviver às tempestades, às secas, às inundações. Mas os tecnocratas não conseguirão manter a sociedade como um todo funcionando. Na França, temos alguns dos melhores tecnocratas do mundo, mas eles são estúpidos o suficiente para acreditar que tudo permanecerá fundamentalmente igual. Eles planejam construir ainda mais usinas nucleares como parte de sua estratégia climática; mas não se pode operar usinas nucleares sem resfriá-las, e resfriá-las requer água fria, que está cada vez mais escassa. Já fomos forçados a começar a fechar usinas nucleares porque o calor está muito extremo. Este é apenas um exemplo, mas há dezenas de outros em que decisões políticas são tomadas como se o mundo fosse permanecer como está hoje. Como materialistas, devemos pensar a ação política dentro dos parâmetros de um ecossistema ameaçado pela destruição. A menos que partamos dessa premissa, nossos argumentos não terão valor.

Hoje, 90% do comércio mundial é realizado por via marítima. Mas esta não é a maneira mais fácil de transportar mercadorias. Já existem alguns estudos que mostram que o transporte ferroviário é mais seguro, rápido e, muitas vezes, mais barato. Portanto, pode-se imaginar que, à medida que o clima piora, os chineses explorarão a possibilidade de encontrar rotas alternativas para seus produtos. A rota Pequim-Berlim será fundamental em termos de sua ligação com a Europa; lembre-se de que a China já escolheu a Alemanha como ponto final de uma das Rotas da Seda. E a outra rota importante passa por Teerã e entra no sul da Europa. A China terá uma vantagem global no desenvolvimento desses novos canais comerciais porque é a potência dominante em termos de eficiência técnica: um ativo essencial no capitalismo tradicional. Os EUA, por outro lado, não têm proezas técnicas. Os americanos são incapazes de sequer manter a estação espacial internacional em órbita da Terra, enquanto os chineses trocam a equipe em sua estação a cada seis meses. Os americanos mal conseguem enviar algo para o espaço, enquanto os chineses recentemente pousaram um robô no lado oculto da Lua. Os "ocidentais" – coloco o termo entre aspas porque não gosto; não me considero ocidental – são tão convencidos, tão arrogantes, tão pretensiosos, que não conseguem admitir esse desequilíbrio.

Em suma, se o capitalismo continuar a dominar, com os neoliberais no poder, a humanidade estará perdida, pela simples razão de que o capitalismo é um sistema suicida que lucra com os desastres que causa. Todos os sistemas anteriores foram forçados a parar quando criam muita desordem. Este, não. Se chove muito, vende guarda-chuvas. Se está muito quente, vende sorvete. Nas próximas décadas, os regimes coletivistas demonstrarão que o coletivismo é uma perspectiva mais satisfatória para os seres humanos do que a competição liberal.

Também quero fazer uma aposta. Acho que até o final do século, talvez até antes, os Estados Unidos da América não existirão. Por quê? Por não ser uma nação, é um país em guerra com todos os seus vizinhos desde o momento de seu nascimento. Samuel Huntington descreveu-o como uma estrutura fundamentalmente instável e previu que a língua que eventualmente se tornaria dominante lá seria o espanhol. Uma enorme proporção da população dos EUA agora fala espanhol em casa, e essa parte da população é majoritariamente católica, em contraste com os protestantes "iluminados" que fundaram o país. Essas dinâmicas linguísticas e culturais são muito importantes. As pessoas se importam profundamente com sua língua nativa: aquela que suas mães usavam para cantar para elas dormirem, aquela que usam para dizer ao parceiro que as amam. Na Califórnia – um estado que foi arrancado do México, com uma economia que é a quarta maior do mundo em termos de PIB – o espanhol é falado em todos os lugares, mais do que o inglês. Não é de se admirar que a campanha pela independência da Califórnia esteja ganhando força, com um referendo a ser realizado talvez já no próximo ano. Não sei se funcionará, mas é impressionante que um grande estado, entre as principais potências mundiais, já esteja considerando a possibilidade de secessão. Veremos mais disso. E a ideologia dominante no país – "cada um por si" – não vai se manter.

Tariq Ali

Você escreve em seu livro recente que o povo francês pode entrar em erupção sem aviso, como um vulcão, que há algo constantemente borbulhando sob a superfície da sociedade francesa. A última pessoa que ouvi fazer algo semelhante foi Nicolas Sarkozy. Quando ele era presidente, um jornalista bajulador lhe disse: "O senhor é tão popular, Sr. Sarkozy, seus índices de aprovação são tão altos, o senhor tem uma esposa tão linda", etc. E a resposta de Sarkozy, para minha surpresa, foi que as pessoas que fazem perguntas como essa não entendem a França, porque na França as mesmas pessoas que o elogiam hoje invadirão seu quarto e o matarão amanhã.

Jean-Luc Mélenchon

Esse aspecto da sociedade francesa vem, antes de tudo, da nossa história. Dois impérios e três monarcas em menos de um século. Cinco repúblicas em dois séculos e, claro, três revoluções. Isso produziu uma cultura coletiva de insubmissão. Escolhi essa palavra para o nosso movimento porque é exatamente o ethos que queremos incorporar: um instinto rebelde, uma capacidade sempre presente de rejeitar a ordem que nos está sendo imposta. Se quisermos desenvolver uma estratégia revolucionária, temos que construir sobre esses fundamentos culturais. As pessoas costumavam dizer, em voz baixa, "Sou comunista" ou "Sou socialista". Agora, dizem "Sou um insubmisso".

Mas isso não é tudo. Há também mudanças demográficas, a mistura de diferentes populações. Para se submeter à ordem estabelecida, é preciso estar integrado a ela em maior ou menor grau. O servo deve ser ensinado a aceitar sua posição como servo, porque seu pai foi um, seu avô foi um, e assim por diante. Mas se você acabou de chegar à França, se arriscou a vida para chegar aqui e está cheio de entusiasmo pela vida, então você quer ter sucesso em vez de se submeter. Você quer que seus filhos também tenham sucesso, que tenham uma boa educação. E isso cria uma dinâmica interna dentro dessas populações que as classes dominantes, com sua arrogância habitual, não conseguem compreender. Mitterrand foi eleito em maio de 1981 porque o Partido Comunista organizou a classe trabalhadora tradicional e o Partido Socialista organizou as classes sociais em ascensão. Mas hoje não existem mais classes sociais em ascensão na França, exceto nas comunidades de imigrantes.

Nós, da França subalterna, nunca acreditamos que os franceses se tornaram racistas, fechados, egoístas. Sim, existe um pouco disso. Mas também existem forças opostas, numerosas e fortes. É por isso que nos concentramos nos bairros da classe trabalhadora – incluindo os de imigrantes – e nos jovens, porque esses são dois setores que têm interesse em abrir a sociedade em vez de fechá-la. Não somos um povo como os anglo-saxões, que têm uma mentalidade muito voltada para os negócios. Este é o único país onde, quando você quer criticar alguém, usa uma expressão popular como "heureusement que tout le monde ne fait pas comme vous" – "ainda bem que todos não fazem o que você faz". Em outras palavras, o que é bom é o que todos fazem. Há um igualitarismo espontâneo na França que se infiltra em nossa fala cotidiana.

Esta é uma nação construída por meio de revoluções, organizada em torno do Estado e dos serviços sociais. Todas as nossas conquistas – técnicas, materiais, intelectuais – vêm do poder do Estado. Consequentemente, ao destruir o Estado, o neoliberalismo está destruindo a própria nação francesa. Quer um catálogo da destruição? Uma escola fechando por dia; uma maternidade por trimestre; 9.000 quilômetros de trilhos de trem desativados; dez refinarias destruídas. A guerra da oligarquia contra a sociedade significa a destruição da propriedade pública em benefício da propriedade privada. E, no entanto, como resultado desse empobrecimento do Estado, o investimento privado entrou em colapso. Todo o dinheiro fluiu para a esfera financeira. Os ricos não estão criando empregos. Eles não estão comprando máquinas para fabricar coisas. Eles estão lucrando sem fazer nada, simplesmente manipulando a maquinaria financeira especulativa.

Nossa estratégia política se baseia na combinação desse diagnóstico material com a análise cultural. Socioculturalmente, existem outros países onde as pessoas podem dizer: "Sim, isso é perfeitamente normal; o dinheiro é deles, eles podem fazer o que quiserem com ele". A França é diferente. Aqui, você tem que justificar o que faz. Você é responsável perante o coletivo. Isso não é algum tipo de nacionalismo abstrato. Não é que eu ache os franceses melhores do que qualquer outro; eles também podem ser pressionados a competir uns com os outros. Mas esse profundo impulso coletivo, ainda assim, me deixa otimista quando vejo os fascistas tentando impor sua visão sombria da existência. Eles não têm ambições para a sociedade, nem propostas para o futuro. Tudo o que sabem é que não gostam de árabes ou negros.

É muito fácil provocar os fascistas. Você agita uma bandeira vermelha e, de repente, todos vêm correndo. Recentemente, observei que a língua francesa não pertence aos franceses, mas àqueles que a falam. Isso causou enorme controvérsia. "O francês pertence aos franceses!", gritaram eles. Bem, na verdade, existem 29 países onde o francês é a língua oficial. Ao reconhecer isso, podemos iniciar uma discussão sobre a língua como um bem comum. Quando você diz a um fascista que há 100 milhões de congoleses que falam francês, eles desmaiam. Quando você lhes diz que, em média, os senegaleses são mais educados que os franceses, eles não suportam. Pior ainda aos seus olhos: os muçulmanos do Norte da África tendem a ter melhor desempenho escolar. Acredito que, ao confrontar o fascismo, precisamos provocar uma guerra cultural frontal, ao mesmo tempo em que travamos uma batalha econômica. Não devemos ter medo. Obviamente, pode ser desagradável, mas é assim que as pessoas chegam a compreender a realidade humana mais profundamente. Podemos ser trabalhadores, mas também somos amantes, poetas, músicos – e essas identidades também têm seu lugar na política. Não sei se isso soa muito romântico para você.

Tariq Ali

A França não ficou imune à ascensão global da extrema direita. A intelectualidade liberal tradicional e a intelectualidade liberal de esquerda têm sido incapazes de reagir, porque é o sistema que apoiam que permitiu que essas forças reacionárias crescessem tão rapidamente. Você acha possível que um partido liderado por uma figura como Le Pen ou Éric Zemmour possa vencer sozinho e formar um governo majoritário na França?

Jean-Luc Mélenchon

A ascensão da extrema direita tem sido uma catástrofe intelectual. Parte da razão pela qual ela é tão forte é que perdemos os pontos de referência coerentes do pensamento crítico. Os social-democratas não têm interesse nesse tipo de pensamento: em vez de oferecer explicações abrangentes, eles simplesmente repetem alguns princípios econômicos obsoletos que você e eu ouvimos há quarenta anos. Isso não é suficiente, especialmente para os jovens ou para aqueles que viveram uma vida difícil: que trabalharam duro, pagaram impostos, contribuíram e querem saber por que agora vivem em um mundo tão podre. A extrema direita lhes dá todo um arsenal de certezas: homens são homens, mulheres são mulheres, brancos são superiores. A maioria das pessoas está vigilante sobre essa propaganda, mas muitas outras a abraçam. O que significa que estamos diante de uma situação em que – sim – a extrema direita é capaz de vencer por conta própria, absorvendo a direita.

Stefano Palombarini escreve que existem três blocos na França: a esquerda, a direita e a extrema direita. A isso, acrescentaríamos uma quarta categoria: não um bloco, não um ator homogêneo, mas uma massa de pessoas desiludidas com tudo. São milhões, e estamos lutando para trazê-las de volta à família política da esquerda. Mas a extrema direita tem uma tarefa muito mais fácil. Isso se deve, em parte, ao declínio da direita, incluindo os macronistas. Eles estão começando a perceber que não conseguem mais convencer as pessoas; então, estão abraçando a ideologia, a retórica, a cultura da extrema direita.

O Ministro do Interior ordenou recentemente um dia de batidas de imigração em estações de trem para expulsar pessoas que não tinham os documentos corretos. Foi horrível. Eu disse aos meus camaradas que precisamos nos preparar para uma luta muito mais intensa contra essas batidas no futuro. À medida que a direita e a extrema direita convergem, esse tipo de racismo está se tornando a norma. Se você trabalhou na França por dez anos e as autoridades não lhe enviaram seus documentos de renovação, agora você pode ser pego na rua e deportado. Toda a sua vida pode ser jogada fora em questão de instantes. Não, não, não podemos aceitar isso. É insuportável.

Portanto, além de desempenhar um papel de liderança nas lutas sociais, também devemos lutar essa batalha de ideias. É por isso que criamos uma fundação, o Instituto La Boétie, para conectar intelectuais com a sociedade em geral. Realizamos palestras, organizamos painéis e publicamos livros. A maioria dos palestrantes é da França, mas alguns vieram de outros lugares também. David Harvey veio falar sobre geografia crítica; Nancy Fraser expôs sua visão do feminismo materialista e da reprodução social. O objetivo não é "recrutar" intelectuais, mas difundir suas ideias, que de repente estão alcançando públicos de milhares. Recebemos pedidos para esses encontros em todo o país; já foram mais de oitenta até agora.

Tariq Ali

Uma coalizão entre a extrema direita e a direita na França teria natureza diferente do governo de Meloni na Itália?

Jean-Luc Mélenchon

Na França, a retórica racista tornou-se extraordinariamente intensa e a violência é cada vez mais tolerada. Há apenas algumas semanas, um policial que atirou e matou uma jovem que viajava no banco do passageiro de um carro teve o caso contra ele arquivado. Indeferido. Sem processo. Há escândalos envolvendo brutalidade policial quase toda semana. A força policial é dominada por esses elementos. Como resultado, um regime de extrema direita na França seria ainda mais violento, ainda mais agressivo, do que na Itália.

A extrema direita pensa que está vivendo na França do início do século XX, onde os imigrantes se mantinham em silêncio. Eles não percebem que nossas populações se fundiram. Há 3,5 milhões de pessoas com dupla nacionalidade, francesa e argelina: pessoas que têm laços profundos com a França e pais que estão lá. E há 6 milhões de muçulmanos franceses. Mas a extrema direita desconhece isso, ou se recusa a acreditar. Eles veem os muçulmanos como invasores por causa de sua religião e tentam esquecer que este é um país que viveu três séculos de guerra civil religiosa entre católicos e protestantes.

Todo o aparato político e intelectual da classe dominante francesa está agora se movendo nessa direção. Isso inclui a miserável esquerdistazinha, liderada pelo Partido Socialista, que nos ataca de manhã à noite. Eles não percebem que estão participando de uma estratégia mais ampla do establishment: agir como auxiliar de esquerda da direita. Vivem em um mundo de sonhos, querendo que a França seja como a Alemanha, com uma grande coalizão do centro: sociais-democratas indistinguíveis dos liberais, verdes que estão sempre clamando por guerra. Essas pessoas estão fazendo o trabalho de nos dividir todos os dias enquanto fingem ser a favor da unidade.

É muito distorcido, muito cruel, mas, ei, essa é a luta. É difícil? E daí? Já foi fácil? Não quero dar a impressão de que acho que a extrema direita venceu. Costumo dizer aos meus camaradas mais jovens: vocês não conheciam a França naquela época em que a maioria das pessoas nas aldeias ia à igreja toda semana e o padre explicava que não deveriam ter nada a ver com os comunistas ou os socialistas. Eu bati de porta em porta quando era jovem, na década de 1980, e as pessoas diziam: "Vocês são aliados dos comunistas? Eles são contra Deus. E não podemos votar contra Deus". Tentei explicar que Deus não tinha nada a ver com as eleições francesas. A questão é a que tipo de mundo você quer pertencer. Se você não sabe a resposta, vai acabar com os liberais ou com os fascistas. Os liberais dizem que é cada um por si e os fascistas dizem que é todos contra os árabes. Eles têm suas visões de mundo, e nós, a esquerda, devemos oferecer outra maneira de ver o mundo. É isso que estamos tentando fazer. É por isso que às vezes as pessoas dizem que sou lírico e romântico. Sim, sou eu, e não há vergonha nenhuma nisso.

Tariq Ali

Boa sorte.

Traduzido por Rym Khadhraoui

12 de julho de 2024

Mélenchon: Macron está errado. A eleição da França teve um vencedor.

Emmanuel Macron afirma que "ninguém" ganhou as eleições francesas. Em um artigo de opinião, Jean-Luc Mélenchon insiste que a esquerda ficou em primeiro lugar - e tem o direito de governar.

Jean-Luc Mélenchon


Jean-Luc Mélenchon falando à mídia, em 10 de julho de 2024 em Bruxelas, Bélgica. (Thierry Monasse/Getty Images)

Tradução / Esperava-se que o segundo turno das eleições francesas no domingo produzissem uma vitória para o Rassemblement National, partido de extrema direita, de Marine Le Pen – mas o vencedor no final foi a Nova Frente Popular, coalizão de partidos de esquerda. Foi conquistado 182 cadeiras no parlamento, diante de 168 da coligação de Emmanuel Macron e 143 do partido e aliados de Le Pen.

Macron convocou eleições antecipadas em junho numa tentativa de “reorganização” – e acabou perdendo 77 assentos. No entanto, numa carta à imprensa francesa na quarta-feira, afirmou que “ninguém” ganhou. Ele procura agora manter os seus aliados no poder apesar da perda eleitoral, através de acordos com partidos mais pequenos de centro-esquerda e centro-direita.

Num artigo de opinião em seu blog, aqui traduzido para o português, o fundador da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, saudou a frente republicana que manteve a extrema direita afastada do poder, mas rechaça as tentativas do presidente de negar à Nova Frente Popular a oportunidade de se formar um governo.

Isso não é um evento como qualquer outro, e nenhum defensor da república pode minimizar nem o seu significado político, nem sua extrema gravidade. O presidente da República, em uma carta dirigida aos franceses, afirma que “ninguém ganhou as eleições”. Ele está errado. Todo mundo sabe disso. A Nova Frente Popular ficou em primeiro lugar nas eleições e cabe a ela formar o próximo governo.

Em todas as democracias do mundo, é assim que as eleições permitem designar o governo, com ou sem maioria absoluta na Assembleia Nacional, a Câmara dos Deputados da França. Essa é também a regra que Emmanuel Macron aplicou em 2022, quando nomeou um primeiro-ministro de uma coligação presidencial que ainda não tinha maioria absoluta na Assembleia Nacional. Aquela coalizão foi chamada de “maioria presidencial” apesar de não ser uma maioria de deputados. Desta vez, a coligação de partidos que apoia Emmanuel Macron ficou em segundo lugar. O presidente não pode recomendar que forme uma nova coligação antes de considerar o que está a acontecer com a coligação que, realmente, saiu vitoriosa. Agir como o presidente faz é, portanto, um golpe de Estado, um abuso de poder.

É também violência contra a própria Assembleia. Na verdade, Emmanuel Macron pede que a eleição da presidência da Assembleia defina os contornos de uma nova maioria governamental, independentemente do resultado da votação pelo sufrágio universal. Não é papel da eleição da presidência da Assembleia estabelecer os contornos de uma maioria governamental. Além disso, poderá o presidente da República ignorar que não se podem formar grupos parlamentares sem declarar se pertencem à maioria ou à oposição? É, portanto, impossível se a “maioria” do governo não for conhecida. Tudo isso é, portanto, assume um significado insuportável: o contido na frase na qual o presidente afirma que “ninguém ganhou”. Ele, portanto, nega o resultado da votação de domingo, 7 de julho. Quem poderia aceitar isso e endossar essa prevaricação? Isso não é tudo.

O presidente também viola o sentido político do que aconteceu entre os dois turnos das eleições legislativas. Porque faz da “frente republicana” uma aliança política que deveria produzir um governo ou uma maioria no parlamento. Não pode haver dúvida disso. A chamada “frente” não é uma aliança política. Nunca foi discutido. É até o seu significado profundo estar além dos partidos e das fronteiras partidárias para responder a um interesse comum maior. É um “cordão sanitário” contra a ascensão ao poder de um partido hostil ao caráter republicano do Estado como o Reagrupamento Nacional (RN), por todas as razões mil vezes expressas sobre o assunto. Quanto aos rebeldes, a decisão de retirar os nossos candidatos que ficaram em terceiro lugar, quando o RN ficou em primeiro lugar, foi tornada pública por mim às 20h15, sem qualquer tipo de negociação e sem qualquer pedido de indenização. Querer transformar uma decisão de “cordão sanitário” em uma aliança política é um abuso do poder político. Ele se junta aos que negam o resultado das eleições e a vitória da Nova Frente Popular. Os dois formam um todo inaceitável.

Portanto, a continuação das eleições de 7 de Julho, que garantiram a derrota do RN por meio da vitória da Nova Frente Popular, deve agora ser prolongada até a derrota do golpe político de Emmanuel Macron. Ele quer manter o poder que o voto francês lhe tirou. Não se pode aceitar este tipo de devolução do veto real imposto contra uma votação por sufrágio universal. Não se pode permitir o regresso de combinações indignas e de travessuras secretamente elaboradas que permitiriam impor-se por uma coligação diferente daquela designada pelo voto popular pelo sufrágio universal! O que é inaceitável não é cabível. E isso deve ser traduzido na prática, até que o presidente respeite a decisão do sufrágio universal.

Colaborador

Jean-Luc Mélenchon é o fundador da France Insoumise e três vezes candidato à presidência francesa.

17 de março de 2023

Jean-Luc Mélenchon: a batalha contra a reforma previdenciária da França ainda não acabou

O protesto de ontem no parlamento e nas ruas provou que Emmanuel Macron não tem maioria para aumentar a idade da aposentadoria. Em um discurso reproduzido aqui, o líder do France Insoumise, Jean-Luc Mélenchon, argumenta que a mobilização popular deve continuar para aumentar a pressão por um voto de desconfiança.

Jean-Luc Mélenchon


Jean-Luc Mélenchon participa de uma manifestação enquanto vários milhares de manifestantes se reuniram na Place de la Concorde, em frente à Assembleia Nacional em Paris, em 16 de março de 2023, para protestar contra a reforma previdenciária e o uso do artigo 49.3 da constituição francesa pelo governo para impor a medida sem o voto dos deputados. (Boivin / NurPhoto via Getty Images)

Ontem, quando a primeira-ministra francesa Élisabeth Borne se levantou para se dirigir aos membros da Assembleia Nacional, os parlamentares de esquerda vaiaram - e então começaram a cantar "La Marseillaise". O hino nacional tocou em protesto contra o anúncio de Borne de que seu governo forçaria seu plano de aumentar a idade de aposentadoria, sem permitir uma votação. Em vez disso, recorrerá a uma disposição controversa chamada 49.3, que agora provavelmente levará a uma moção de desconfiança ao seu governo.

Já nas eleições de junho passado, os partidos que apoiam o presidente neoliberal Emmanuel Macron perderam a maioria no parlamento. Um dos motivos foi seu plano de forçar os franceses a trabalhar mais dois anos antes da aposentadoria — uma medida fortemente contestada pelos partidos da Nouvelle Union Populaire Écologique et Sociale (NUPES), o maior grupo de oposição.

Nas últimas semanas, e em particular por meio de greves contínuas iniciadas em 7 de março em setores tão diversos como ferroviário e coleta de lixo, o povo francês mostrou oposição maciça ao projeto de lei. Embora Macron e seu primeiro-ministro Borne esperassem que os votos de membros do conservador Partido Republicano fossem suficientes para criar uma maioria ad hoc para o projeto de lei, até mesmo seus próprios parlamentares se mostraram frágeis diante da pressão popular. Apesar das reivindicações do governo, o aumento da idade de aposentadoria é amplamente criticado como desnecessário do ponto de vista orçamentário, e as pesquisas de opinião mostram que a grande maioria dos franceses se opõe.

O governo não conquistou a opinião pública e teve que recorrer a uma medida grosseira para forçar a aprovação de seu projeto de lei. No entanto, está longe de ser certo que isso seja suficiente para derrubá-lo ou mesmo forçar novas eleições. Os sindicatos convocaram mais mobilizações, com o próximo dia de ação planejado para quinta-feira, 23 de março.

Ontem à noite, Jean-Luc Mélenchon dirigiu-se aos apoiadores sobre as consequências dos acontecimentos do dia e as batalhas que se avizinham. Este texto é uma tradução levemente editada de seus comentários.

Enquanto falo, reuniões espontâneas estão ocorrendo em toda a França. Como vocês sabem, estamos vivendo um dia político histórico. Então o que aconteceu? Em particular desde 7 de março, uma mobilização incrivelmente intensa — como não víamos há cinquenta anos — está ocorrendo em todo o país. Ela continua dia após dia, a pedido das organizações sindicais, através de movimentos grevistas contínuos em quase todas as regiões e todas as profissões.

Vemos as pessoas se juntarem para lutar da forma mais eficaz contra a reforma das aposentadorias que as obriga a trabalhar mais dois anos, quando não há razão orçamental para tomar tal decisão. Não há déficit e não vai haver. Milhões de pessoas entendem isso e não veem por que deveriam fazer o sacrifício de dois anos a mais de trabalho dado à sociedade. E eles estão certos.

Porque esta mobilização aconteceu, porque se alastrou gradualmente, tem desafiado todas as organizações políticas — mesmo as mais distantes dela, ou as que estão dispostas a aceitar a ideia de que esta aposentadoria aos sessenta e quatro anos deva avançar. Estou pensando em certas organizações da direita tradicional. Este trabalho foi feito por milhões de pessoas, dispostas a fazer o sacrifício dos dias que não serão pagos em todos esses empregos — refinadores de petróleo, coletores de lixo, trabalhadores de energia e todos os outros que vocês me desculpem por ignorar. Estou pensando em todos aqueles que entraram na luta; é graças a eles que chegamos a este ponto.

Qual é o ponto? O presidente da República estava, ao que parece, determinado a aprovar a lei previdenciária. Assim, convocou uma reunião com os principais representantes de seu governo e das bancadas parlamentares para dizer-lhes: "Vocês vão fazer uma votação". E então, quando fizeram as somas, perceberam que não teriam maioria, então ele teve que tomar nota da realidade política do país. Não há maioria na Assembleia Nacional desde as últimas eleições parlamentares [em junho de 2022]. Eles esperavam que o partido republicano [conservador] lhe desse o apoio. Ele já havia começado a dividir essa organização. Mas depois de receber por duas vezes os representantes da minoria pró-presidencial na Assembleia Nacional, o primeiro-ministro e os presidentes dos grupos parlamentares, Macron teve que finalmente reconhecer que não havia maioria para o projeto de lei. Então, ele teve que fazer isso brutalmente, para usar o instrumento de nos roubar a democracia, que é o artigo 49.3 da Constituição, que declara que um texto é aprovado.

Unidade Popular

Sem dúvida, você verá imagens da incrível e histórica sessão na Assembleia Nacional, e o que os deputados do NUPES e da France Insoumise fizeram em particular. Seguindo um exemplo antigo que remonta à Libertação [no final da Segunda Guerra Mundial], ao longo do discurso da primeira-ministra Élisabeth Borne decidiram cantar "La Marseillaise" para mostrar que se oporiam até ao fim — até o último minuto, até o último segundo — o golpe de força que o governo estava realizando. Por tradição, quando se canta "La Marselhesa", sobretudo na Assembleia Nacional, bem, os outros calam-se e todos se levantam. Depois de um verso, isso não aconteceu. Mas deixe-me dizer o significado simbólico. Hoje, a maioria do povo francês, de todas as profissões, de todas as regiões, de todas as gerações, é 60, 70, 80 por cento hostil a esta lei. Tanto que podemos dizer que através da luta social se consegue a unidade popular do nosso povo.

Essa unidade popular tem um conteúdo social. Quando começamos a batalha para ter o direito de nos aposentar antes que estejamos esgotados física e moralmente, bem, quando o fazemos, não nos importamos mais com a religião, o gênero, a cor do próximo. Estamos ombro a ombro tentando tornar a vida melhor. É uma grande lição sobre o que significa unidade popular, sua capacidade de unir todo o povo, enquanto a ideologia neoliberal divide a todos e cria a bagunça e a desordem que vocês vêm diante de vocês hoje.

Mas qual é o resultado de tudo isso? Se a moção de censura ao governo que vai ser apresentada não for aprovada, a lei previdenciária será de fato aprovada. Em cada etapa, fomos informados de que perderíamos na próxima. Mas então, na próxima etapa, sempre encontramos o esforço extra, para fortalecer nossa unidade na luta.

Sem legitimidade

Então, vamos ver as coisas claramente. O que significa o resultado de hoje? Não há maioria parlamentar. Assim, o projeto de lei sobre pensões não tem legitimidade. Todos são contra: o Parlamento, os sindicatos, as associações e todas as pessoas que não pertencem a um determinado partido. Eles não querem essa reforma. Disseram-me que sim, mas o Senado aprovou. Isso é verdade. Sim, o Senado faz parte do processo democrático nesta Constituição. Claro, ninguém vai dizer o contrário. Mas a Constituição diz que o texto passa pelas duas assembleias e que a última palavra cabe à Assembleia Nacional. Mas a última palavra não será dita, porque o governo, por meio do 49.3, obteve seu silêncio temporário.

A Sra. Borne como primeira-ministra foi deixada sozinha na frente de um grupo de pessoas que não sabia se deveria se levantar ou permanecer sentada. Uns aplaudiram e outros resmungaram, dando a sensação da desorganização política do atual governo e da atual minoria pró-presidencialista. A reforma não tem legitimidade. É pura e simplesmente um golpe de força, porque havia outras formas de tomar uma decisão: antes de tudo, fixar um prazo que respeitasse a democracia parlamentar e permitir a discussão do projeto de lei no Parlamento. E então, uma vez que tudo estava bloqueado, poderíamos ter organizado um referendo para que, no final, o povo francês pudesse se expressar. Se as pessoas disseram que não queriam a conta — bem, isso já aconteceu antes. Outros presidentes da República aceitaram que tinham que entender a situação. Mas este está se fechando em um meio cada vez mais pessoal e violento de exercer o poder.

Você viu como o dia começou? Num depósito no Val-de-Marne, apareceu a presidente do nosso grupo parlamentar, Mathilde Panot, rodeada por vários deputados locais. Houve uma cobrança inaceitável [da polícia] contra eles, mesmo quando nossos amigos estavam lá com a faixa tricolor [como fazem os eleitos]. Houve violência desencadeada, contra os grevistas em greve e os PMs. Essas pessoas estão sempre tentando dar aulas de como devemos nos comportar, mas depois jogam gás lacrimogêneo nos parlamentares. Quando "La Marseillaise" está sendo cantada, o primeiro-ministro fala sobre ela, ou pelo menos tenta.

Frente social

Então o que fazer agora? Devemos, como temos feito até agora, avançar em ambas as frentes, a frente parlamentar e a frente social. Mas, obviamente, é a frente social que é decisiva, na convocação feita pelos sindicatos. Devemos agora juntar-nos à luta onde quer que ainda não o tenhamos feito. Você deve, como um povo apegado à sua liberdade, à sua democracia, mostrar sua rejeição aos métodos de Macron e suas formas de governar. Vocês começaram a fazer isso esta noite. Espontaneamente, em dezenas de cidades, formaram-se comícios, determinados e em grande número. Todos saberão como manter a calma e controlar a ação que está sendo tomada. Mas devemos voltar a esta ação novamente, a pedido dos sindicatos, amanhã e depois de amanhã.

Quanto a nós, e na parte que diz respeito ao Parlamento em particular, continuaremos a batalha lá, e estaremos presentes com os grevistas. Estaremos presentes entre os grevistas porque os rebeldes estão por toda parte. Mas também estaremos presentes na Assembleia Nacional para apresentar uma moção de censura o mais abrangente possível. É por isso que a France Insoumise decidiu participar de uma moção de censura comum. Fui informado disso anteriormente pelo presidente do nosso grupo na Assembleia Nacional. Isso significa que estamos prontos para usar todos os meios legais à nossa disposição para impedir o golpe de força do senhor Macron. Hoje, dizem-nos que a moção de censura não encontrará maioria. Pois bem, esta manhã disseram-nos que havia maioria para aprovar o texto sobre as pensões. E esta noite, é óbvio que não há. Assim, a batalha continua, até o voto de censura.

O nosso dever, passo a passo, dia após dia, é reunir toda a energia, toda a força que nos permite convencer as pessoas e ganhar este voto. ... inclusive ganhando os votos de todos os representantes eleitos, incluindo aqueles que podem mudar de ideia. ...

Cada hora que passa deve ser usada para esse fim. E então veremos que a batalha pode ser vencida não importa o que aconteça daqui para frente. A falta de maioria na Assembleia Nacional deve ser convertida de moção de censura negativa em moção de censura positiva. Isso é o que deve ser feito pelo bem da nossa democracia. ...

A todos aqueles que me concedem audiência ou autoridade, peço que se juntem imediatamente à luta onde puderem, organizando de todas as formas possíveis comícios pacíficos em frente à representação das administrações estatais chefiadas pelo senhor Macron. Nosso calendário de ação está todo traçado. Haverá iniciativas locais aqui e ali, com certeza. E há o apelo que as organizações sindicais estão fazendo em uníssono, que vos peço que sigam. Reúna-se neste fim de semana, como pedem os sindicatos. E no dia 23 de março haverá uma manifestação nacional em todas as cidades da França, convocada por este acordo sindical e pelas organizações de esquerda da Assembleia Nacional, notadamente os membros da France Insoumise. Então, vamos continuar na luta.

Colaborador

Jean-Luc Mélenchon é fundador da La France Insoumise.

20 de setembro de 2019

Lawfare: A guerra dos tecnocratas contra a democracia

A prisão do ex-presidente Lula mostra o poder do "lawfare" com a manipulação da Justiça para fins políticos. Nesta entrevista, o ex-presidente equatoriano, Rafael Correa, e Jean-Luc Mélenchon, do França Insubmissa, discutem como o assédio legal se tornou uma arma chave contra a esquerda ao redor do mundo.

Uma entrevista com
Rafael Correa e Jean-Luc Mélenchon

Entrevistados por
Denis Rogatyuk e Patricio Mery Bell

Jacobin

Fundador do França Insubmissa Jean-Luc Mélenchon e ex-presidente do Equador Rafael Correa compartilham café da manhã. (Foto: Denis Rogatyuk)

Tradução / Rafael Correa e Jean-Luc Mélenchon se tornaram sinônimos de “Revolução Cidadã” — um projeto alimentado pelo povo, com o objetivo de construir uma contra-hegemonia à ordem neoliberal. Essa abordagem é baseada em medidas como a formação de assembleias constituintes, a criação de programas sociais para combater a pobreza e a desigualdade, e uma política estrangeira antagônica ao imperialismo europeu e estadunidense.

Como presidente do Equador de 2007 a 2017, Correa não só trouxe uma redução massiva na pobreza e na desigualdade, mas também promoveu instituições como o Conselho para a Participação do Cidadão e Controle Social, assim como projetos de energia renovável em larga escala. Na França, a campanha presidencial de Jean-Luc Mélenchon eletrizou a esquerda, avançando as demandas de movimentos sociais como o Nuit Debout e representando um desafio robusto tanto para Emmanuel Macron quanto para Marine Le Pen.

Hoje, contudo, ambos enfrentam problemas nas cortes judiciais e são forçados a defender não só suas trajetórias políticas, mas também suas próprias vidas pessoais, enquanto são atacados por instituições judiciais cautelosamente alinhadas com os poderes neoliberais desafiados por eles.

No Equador, o procurador geral e a suprema corte — dominada por figuras alinhadas com o governo neoliberal de Lenín Moreno — instauraram mais de 25 processos criminais contra Correa desde julho de 2018.

Enquanto isso, Mélenchon enfrentou uma campanha constante de assassinato de reputação na mídia empresarial. Essa campanha atingiu o auge em outubro de 2019, com uma batida policial armada na casa de Mélenchon — orquestrada no mesmo dia em que o novo ministro do interior foi empossado — na qual ele foi acusado de dar declarações falsas sobre financiamento de campanha. Após o vazamento das filmagens da reação de Mélenchon, ele compareceu ao tribunal sob acusações de “intimidar” os policiais que destruíram suas posses.

Os dois se mantiveram firmes e se uniram à campanha em solidariedade com a maior vítima de "lawfare": o ex-presidente Lula, hoje definhando na cadeia. Em junho, foram vazados documentos mostrando que os promotores que indiciaram Lula faziam parte de uma conspiração para impedir o Partido dos Trabalhadores de vencer a eleição presidencial de 2018. Hoje, Correa e Mélenchon estão promovendo uma frente unida contra o “lawfare” — o uso de instituições jurídicas para fins estritamente políticos.

Os dois líderes sentaram com os jornalistas Denis Rogatyuk e Patricio Mery Bell em Bruxelas (onde hoje vive Correa) para discutir o ataque dos tribunais contra eles, a politização do sistema de justiça, e sua implantação específica por forças antidemocráticas e apoiadas pelos EUA na América Latina.

Patricio Mery Bell

Jean-Luc Mélenchon, nos conte suas opiniões sobre o “lawfare,” que tem mirado em você e no ex-presidente Correa. Essa perseguição política está sendo usada contra líderes progressistas e de esquerda ao redor do mundo?

Jean-Luc Mélenchon

Isso é, de fato, algo que vemos ao redor do mundo, porém, nós fomos alertados pelo caso equatoriano e até mesmo antes do que aconteceu com Lula... O que nós vemos é uma ofensiva mundial com temas semelhantes em todos os lugares. Existem acusações de laços com Venezuela e Cuba, de antissemitismo, de suposta corrupção, e agora um tratamento judicial e criminal de tudo que a oposição diz. Pegue o exemple das minhas contas de campanha — elas já tinham sido certificadas e aceitadas pelo tribunal especial, mas ainda sim eles continuam me perseguindo diariamente.

Primeiro, eu fiquei atordoado com tudo isso. Isso explica a raiva com a qual eu protestei a batida policial — eu estava sendo humilhado, tratado como um ladrão. Eles invadiram minha casa às sete da manhã, vasculhando tudo à procura de não sei o quê, meses depois do fim da campanha. Em seguida eles filmaram imagens horríveis de mim, com raiva e gritando. A mídia focou nessa parte da história — sobre se eu respondi adequadamente — mas nunca falou sobre a injustiça cometida contra mim.

Rafael Correa

Eles entraram em sua casa? Incrível!

Jean-Luc Mélenchon

E no diretório do partido também. Eles queriam entrar e pegar a lista de membros. E, na imprensa, foi publicado como se essa injustiça não tivesse acontecido. O poder da imprensa está totalmente apontado para esconder o que está acontecendo, não para informar o cidadão ou ajuda-lo a pensar. Ou melhor, ela funciona para garantir que você não saiba pensar por si mesmo. Eu não sei o que mais falar, foi uma surpresa total. Existem seis processos contra mim, eu não sei você, Sr. Presidente?

Rafael Correa

Vinte e cinco acusações criminais no tribunal de contas.

Denis Rogatyuk

O que está por trás disso, no entanto? Por que o sistema de justiça e a mídia perseguem líderes de esquerda?

Rafael Correa

Primeiro de tudo, eu gostaria de oferecer minha solidariedade a Jean-Luc — obrigado por sua preocupação constante com a América Latina. Aqui nós estamos vivendo uma ditadura, talvez uma sem sangue [pelo menos antes da repressão às manifestações dos últimos dias], mas uma ditadura mesmo assim. Eles te perseguem, eles destroem sua reputação, eles tiram sua liberdade, eles te seguem pelos tribunais, eles não respeitam seus direitos humanos. Ainda assim, o mundo vê as coisas pela perspective oposta. Imagine por um momento se eu tivesse prendido o vice-presidente — teria sido um escândalo ao redor do mundo. Mas o governo equatoriano está fazendo isso [hoje, com Jorge Glas], e não há resposta. Um homem inocente está indo para a cadeia por quase dois anos, em um caso que não deveria existir em nenhum estado de direito. Esse é o famoso lawfare.

É uma estratégia ao redor do mundo e também na América Latina; não é um acidente o que aconteceu com Lula, o que aconteceu com Cristina Kirchner, o que aconteceu conosco no Equador. Existem dois componentes: a imprensa — que na América Latina tem sempre sido a imprensa da burguesia — te condena através das manchetes, ao ponto de até as melhores pessoas aplaudirem os maiores absurdos e os juízes e advogados cooptados. Os Estados Unidos têm trabalhado muito nessa direção — por exemplo, o atual procurador-geral do Equador, ilegalmente nomeado, estava sendo pago pela USAID.

Patricio Mery Bell

Ele era o elo com a DEA também, não?

Rafael Correa

Dizem que ele é próximo da DEA, da CIA e da Embaixada dos EUA, também tem vários juízes nesse esquema. Eles dominam o sistema de justiça e as manchetes, te sujeitando à condenação pela mídia. Eles, portanto, tentam e conseguem efetuar aquilo que não puderam fazer nas urnas, onde eles não conseguiram nos derrotar. Após estarmos no poder por dez anos e alguém querer nos prejudicar, eles sempre podem transformar um processo civil em um assunto criminal, e dizer que se existisse algum funcionário subalterno corrupto, então o Presidente Correa deveria saber. Eles te emboscam repetidamente e convencem as pessoas de que tudo isso é verdade.

É por isso que essa estratégia é mais eficaz em países como Brasil, Equador e Argentina, onde projetos progressistas estiveram no poder com grande sucesso. É óbvio que em dez anos no poder, eles podem encontrar algum ponto ou vírgula fora do lugar. Mas se você capturou os advogados, os juízes e a mídia, então você é capaz de construir um escândalo. Eles não estão somente nos privando de nossa liberdade, como no caso de Lula. Eles conhecem a história da década de 1970 e sabem que eles não precisam de coturnos e de sangue.

Patricio Mery Bell

Eles ainda não precisam...

Rafael Correa

Mesmo agora, eles recorreriam a esses métodos se precisassem. Mas eles encontraram maneiras mais eficazes, notavelmente a mídia, para destruir a reputação de líderes de esquerda, a fim de fazer nosso próprio povo acreditar que esses governos foram corruptos. “Governo honesto” não sinônimo de que nunca houve casos de corrupção — isso é impossível. Mas um governo honesto é aquele que combate a corrupção. No esforço deles de travar uma guerra comigo, até contrataram uma firma internacional, a Berkeley Research Group, para investigar eu e Jorge Glas, para fazer uma inspeção em nossas contas e não sei mais o quê. Eles não encontraram nada, e não o farão, porque não há nada para ser encontrado.

Como eu disse, eles não estão só roubando nossa liberdade. Eles estão roubando a democracia em si. Pegue o caso de Lula — se ele não tivesse sido preso, teria sido presidente do Brasil, mas em vez disso, nós temos o fascista do Jair Bolsonaro como presidente, e o juiz que prendeu Lula como ministro. O mundo deve reagir as manipulações da democracia, mas como essas jogadas são contra a esquerda, a comunidade internacional desvia os olhos.

Denis Rogatyuk

Por que a Europa foca somente no que está acontecendo na Venezuela e não fala sobre o que está acontecendo no Equador ou na Argentina de Mauricio Macri? Existe uma agenda da mídia? Qual é a sua posição no que está acontecendo nesses países e, de fato, no Brasil?

Jean-Luc Mélenchon

Nós sabemos que existe uma campanha global sendo empreendida pelos Estados Unidos — só pode ser isso. Caso contrário, faria sentido que jornalistas estejam repetindo quase que palavra por palavra as mesmas histórias, atacando a Venezuela com o intuito de nos atacar? É incrível. Em todo lugar na Europa, estão atacando Venezuela e Cuba como se nós na Europa soubéssemos mais do que os cidadãos desses países o que eles devem fazer lá. Pode muito bem haver erros, por vezes enormes, mas por favor — primeiro parem com o embargo, depois podemos conversar. Não agarre as pessoas pelo pescoço e afirme querer diálogo.

É como o presidente Correa falou. Eles nos demonizam e nos difamam, tentando mostrar que nós é que somos os violentos — eles nos atacam a fim de provocar uma reação vil, para que pareçamos animais selvagens. No caso de Pablo Iglesias, até colocaram as mãos no ultrassom de sua esposa. Esse é o quão longe eles irão para nos tratar como animais; não há limites. Eles tornam até nossas vidas pessoais uma questão suspeita; no meu caso, perguntaram à mim e à minha companheira se eu já tive relações com outra mulher...

Rafael Correa

Sim, eles tentam romper sua família para que consigam te atingir.

Patricio Mery Bell

Presidente Correa, você poderia mencionar o caso dos jornalistas que vieram do Equador para a Bélgica para te assediar na frente de sua casa...

Rafael Correa

Eu disse ao povo equatoriano que me aposentaria em 2017. Aqui eu me rendi à minha própria vaidade, pensando que já tinha feito o suficiente. Mas eu deveria ter tido a experiência e a compreensão de saber que alguém que expulsou os gringos da base militar em Manta, que fechou mais de duzentas empresas bancárias corruptas, que enfrentou a imprensa e que triplicou as receitas dos impostos, não deve deixar todo o poder para trás.

No entanto, foi exatamente o que eu fiz, ao dizer ao povo equatoriano que iria viver na Bélgica. Nós vivemos vinte e cinco anos no Equador, mas minha esposa é belga e minhas filhas estão estudando na França. Minha família sacrificou muito por causa de uma escolha individual — uma escolha política, pelo país, mas que também implica a família e especialmente uma família como a minha, dado que minha esposa continuou sendo professora. Ela odiava a exposição pública.

Mas então, uma vez na Bélgica, nós começamos a ser assediados fora de nossa casa. No dia 30 de maio, minha filha teve um acidente, e no dia 3 ou 4 de julho, um cara começou a me insultar — eu não o reconheci a princípio, era um jornalista (ou alguém que pretendia ser um). Ele queria me provocar para que pudesse dizer “Correa me atacou”. Felizmente, minha filha, que estuda jornalismo, me falou para filmá-lo. Cada vez que ele me abordava, gesticulava como se estivesse pegando uma arma. Quando os vizinhos o pegaram no flagra, chamaram a polícia e ele não tinha nenhuma arma. Ele foi condenado aqui na Bélgica, embora a sentença de prisão tenha sido suspendida porque foi um primeiro delito. Mas ter que aguentar isso, o custo dos advogados, o que minha filha viu . . .  de qualquer forma, foi uma boa lição para ela, em seus estudos de jornalismo.

Jean-Luc Mélenchon

Nenhum de nós estava preparado para isso. Nós queremos acreditar que as pessoas agem de boa fé e que te fazem uma pergunta para que você possa respondê-la, não só para te dar um golpe.

Rafael Correa

Nós estamos vivendo em uma era de ódio — não há limites ou escrúpulos. Eles me acusaram de autoritarismo, dizendo que essa é a razão para os meus problemas com a imprensa ou com meus inimigos. Mas não é isso. Veja Lula e onde aquilo terminou, apesar de ele não ter sido autoritário em momento algum. O problema é que nós somos seus inimigos de classe. Pela primeira vez em um século, a balança de poder começou a se deslocar. Eles perderam o poder de verdade e não vão permitir isso novamente. Nada está fora de cogitação.

Jean-Luc Mélenchon

Eu sempre te vi como tendo um caráter calculado — muito calculado — e hoje te vejo sendo sujeitado às mesmas coisas pelas quais estou passando. Tampouco imaginei que eles entrariam na minha casa. Olha, eu posso ter muitos defeitos, e ficar com raiva, mas eu sou um homem honesto, não roubei ninguém.

Rafael Correa

Vou te contar uma história. Jean-Luc estava em uma delegação especial de membros do Parlamento Europeu que vieram para o Equador. Quando eu soube que eles viriam, falei para Jean-Luc, por favor, nos dê a honra de permanecer no palácio, tem uma residência muito boa que parece um hotel para o presidente morar. Eu nunca morei lá — em vez disso, permaneci morando na minha casinha no norte de Quito. Então Jean-Luc ficou por dois dias, e no terceiro dia, eu procurei por ele e me disseram que ele tinha ido ficar em um hotel. “O quê? Por que ele iria embora?” Eu perguntei. Nós o tratamos mal? Então o chamamos para perguntar o que tinha acontecido, e ele respondeu “Minha visita oficial durou dois dias, e agora devo pagar pelo meu próprio hotel, enquanto fico um pouco mais visitando o Equador.” Isso demonstra a honestidade de um homem como Jean-Luc Mélenchon.

Eu quero dizer outra coisa. Nos acusam de procurarmos o confronto. Mas é claro que você tem que confrontá-los, quando você quer mudar as coisas no continente mais desigual do mundo. Se Abraham Lincoln não tivesse sido de confronto, ele teria ficado do lado dos senhores de escravos, como o traidor que nós temos no Equador agora, que diz que não é de confronto. Claro que ele não é — ele está do lado do poder! Para ser de confronto, você tem que se posicionar contra o poder.

Patricio Mery Bell

O presidente equatoriano Lenín Moreno já fechou veículos de mídia, algo que você nunca fez...

Rafael Correa

Okay, mas permita-me terminar o que estava dizendo. Não precisamos cair na infantilidade de simplesmente sermos contra o poder, apenas por que sim. No entanto, se estamos falando de um poder que nos sujeitou ao subdesenvolvimento por duzentos anos e nos manteve como o continente mais desigual do mundo, então sim, nós temos de confrontá-lo. E esse outro grupo se orgulha de não fazê-lo.

Para mudar as coisas, sim, você precisa ser contra os poderes dominantes que aí estão. Mas, como você diz com razão, Lenín Moreno fechou veículos de mídia e prendeu dois jornalistas — eles ficaram na cadeia por setenta dias. Eles fecharam dezenas de páginas da web, incluindo até minha própria conta do Facebook. Todas as grandes corporações de notícias acobertam isso. Vamos ser claros — elas não estão interessadas em defender a liberdade de imprensa ou os direitos humanos. Elas tem seus próprios objetivos: podem brigar entre si, mas todas se unem para defender o sistema e todas se unem para enfrentar seus inimigos de classe, os líderes da esquerda. Por isso, a perseguição. Especialmente daqueles líderes comprometidos em derrotar o sistema.

Denis Rogatyuk

O que pode ser feito para acabar com essa situação? O que vocês, como líderes da esquerda global na América Latina e Europa respectivamente, oferecem como uma mensagem de esperança nesse momento crítico?

Rafael Correa

Você sempre tem que manter a esperança. Se perdermos a esperança, podemos muito bem ir para casa. Isso não significa que não estamos tristes em ver camaradas honestos na cadeia ou sendo perseguidos. Sou muito sortudo de estar na Bélgica ao invés da prisão, mas é doloroso ver a perseguição e ver esse país sendo destruído. Você não deve perder a esperança: nós deixamos uma marca, e agora estamos vendo que as pessoas já estão começando a reagir. Esse ano haverá três eleições presidenciais no Uruguai, na Argentina, e na Bolívia, e nós ganharemos provavelmente todas as três. Se eu pudesse ser candidato, também ganharia; e no Brasil, eles tiveram que prender Lula para impedi-lo de ganhar a eleição.

Não devemos ver as coisas em termos catastrofistas. Por exemplo, o PT ainda é a segunda maior força no Brasil, enquanto que nos anos 90, a esquerda estava em 3%. Ainda há esperança: nós deixamos uma marca, e tenho fé que nossos povos acordarão de novo. Nós temos que continuar trabalhando de uma maneira organizada. Então, cuidado com todos esses generais que chegam junto depois da batalha para nos criticar, dizendo que não deixamos organização ou consciência ou que não transmitimos nossos valores.

Mas esse foi o papel dos acadêmicos, por exemplo — e onde eles estão agora? Estão intimidados em silêncio ou estão na direita. Não estão protestando pela liberdade e democracia, como estavam antes. Eles se calaram, como cúmplices desonestos dessas atrocidades. Nos empurraram para uma posição mais visível, mas nós devemos entender que essa responsabilidade é de todo mundo: as pessoas mudam através de decisões coletivas. Eu tenho fé que as coisas mudarão. São tempos muito difíceis, mas como disse nosso grande herói equatoriano Eloy Alfaro, “Quanto mais escura a noite, mais próximo o alvorecer.”

Jean-Luc Mélenchon

Eu concordo com Rafael. O que está acontecendo aqui na Europa é terrível, com a emergência da nova — porém muito velha — extrema-direita. Na última vez isso terminou em guerra, e agora uma nova Guerra está sendo preparada contra a Rússia. Os americanos estão enfiando suas mãos na política europeia a fim de incitar confrontação com a Rússia, resultando em diversos tipos de terríveis ideias antirrussas.

Mas a coisa mais interessante aqui é a nova consciência entre o povo, especialmente a juventude, a respeito da questão ecológica e a necessidade da política — políticas de Estado — para resolvê-la. Nós precisamos de líderes comprometidos, recursos, dinheiro, determinação, e ação pública para lidar com a questão ambiental. Isso traz uma mentalidade coletiva, no bom sentido: não vamos escapar dessa crise individualmente, mas todos juntos.

Sobre os entrevistados

Rafael Correa foi presidente do Equador de 2007 a 2017.

Jean-Luc Mélenchon é um membro da Assembleia Nacional da França e é o fundador do França Insubmissa.

Sobre os entrevistadores

Denis Rogatyuk é um escritor, jornalista e pesquisador russo-australiano residente em Londres. Ele já escreveu para o Green Left Weekly, TeleSUR, LINKS, International Viewpoint e outras publicações.

Patricio Mery Bell é um jornalista, cineasta e consultor de comunicações chileno. Seus artigos têm sido publicados em RT, Panorama news, El Ciudadano, Kaosenlared, La República Ecuador, e outros.

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