19 de março de 2016

Crise do Estado no Brasil: Golpe frio

O Judiciário brasileiro está lançando uma caça às bruxas contra o ex-presidente Lula. Ela recebe apoio de extremistas de direita e manifestantes obstinados. Isso é perigoso para a democracia do país.

Jens Glüsing


Apoiadores de Lula no Brasil Foto: Nelson ALMEIDA/ AFP

O Poder Judiciário do Brasil infla a caça às bruxas sobre o Ex-Presidente Lula. O apoio é recebido por extremistas de direita e manifestantes de sempre. Eis o perigo para a democracia do País.
 
Os adversários de Lula alcançaram o que sua frágil sucessora não conseguiu desde a posse como Presidenta da República: unificaram a base do Partido dos Trabalhadores, de sindicatos e de movimento sociais.

Milhares de simpatizantes de Lula foram às ruas do País na noite da última sexta-feira contra a tentativa de remover a Presidenta da República de seu cargo por meio de um processo de crime de responsabilidade (impeachment). Na Avenida Paulista, o verdadeiro termômetro dos protestos, os manifestantes ocuparam onze quarteirões. Os manifestantes permaneceram pacíficos, Lula mostrou-se conciliador, não atacou a Justiça, e chamou ainda para o diálogo. Falas de ódio quase não foram ouvidas nas manifestações do Rio e de São Paulo.

Tudo muito diferente dos protestos em massa contra o governo do final de semana anterior, dos quais golpistas, radicais de direita e os manifestantes reacionários de sempre participaram ativamente. Ainda que estes grupos não sejam a maioria dos manifestantes, estes têm sido atraídos cada vez para os protestos contra o governo. Eis o que é preocupante para a ainda jovem democracia brasileira.

Pela primeira vez desde o fim da ditadura militar dos anos 80, uma autêntica crise de Estado ameaça o maior pais da América Latina; crise que pode comprometer todas as conquistas dos últimos trinta anos. Parte da oposição e do Poder Judiciário atiçam, em conjunto com o poderoso conglomerado de televisões TV Globo, uma verdadeira caça às bruxas contra o Ex-Presidente Lula.
 
Sérgio Moro, um ambicioso juiz de Curitiba, persegue claramente um único objetivo: por o Ex-Presidente atrás das grades. Moro dirige as investigações no escândalo de corrupção da estatal de petróleo, a Petrobras; investigações que resultaram no envolvimento de centenas de executivos, lobistas, políticos, entre os quais significativas figuras do Partido dos Trabalhadores.

Como um furacão, o juiz Moro varreu a elite política e econômica do Brasil, ao revelar desvios bilionários. Mais de cem suspeitos estão presos, a maioria sem julgamento. Muitos brasileiros celebram o juiz como um herói nacional.

Indícios frágeis

O sucesso subiu claramente à cabeça de Moro. O juiz faz política, que não é sua função. A divulgação de escutas telefônicas entre Lula e a Presidenta Dilma Rousseff poucas horas antes da nomeação de Lula como Ministro de Estado persegue apenas um objetivo político, e é extremamente contestada juridicamente, para dizer o mínimo.
 
Até o momento, Moro não conseguiu juntar uma acusação robusta contra Lula, apesar de dúzias de membros do Ministério Público e da Polícia Federal de Curitiba investigarem por meses as finanças e as relações pessoais do Ex-Presidente. Os indícios permanecem frágeis.

Lula não tem um centavo em contas na Suíça, como o poderoso Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Este é  acusado de corrupção e lavagem de dinheiro. Tal fato não o impede, porém, de manter o controle sobre a comissão que será responsável pelo impeachment da Presidenta.
 
Em tal nobre comissão, possui assento Paulo Maluf, ex-Governador de São Paulo, que foi condenado por corrupção na França,  sem ter sido extraditado, já que é brasileiro nato.
 
Que referidas figuras detenham voto sobre o destino do cargo da Presidente, contra a qual até o momento nada foi provado, é um aspecto a comprometer a legitimidade de todo o processo de impeachment.
 
Os partidários de Lula advertem sobre um golpe frio contra a democracia brasileira. E esta preocupação não vem do nada.

16 de março de 2016

E sobre o racismo? Os socialista não se importam só com classe

Na verdade acreditamos que a luta contra o racismo é central para desfazer o poder da classe dominante.

Keeanga-Yamahtta Taylor

Ilustração por Phil Wrigglesworth / Jacobin

Por mais de um ano, o movimento "Black Lives Matter" ("Vidas Negras Importam") tem tomado os Estados Unidos. O slogan central do movimento é um simples e declarativo reconhecimento de humanidade negra em uma sociedade assolada por desigualdades econômicas e sociais que são experimentadas desproporcionalmente por afro-estadunidenses.

O movimento é relativamente novo, mas o racismo que o gerou não é. Por cada barômetro na sociedade estadunidense – saúde, educação, emprego, pobreza – afro-estadunidenses estão em situação pior. Representantes eleitos de todo o espectro político muitas vezes culpam essas disparidades na ausência de “responsabilidade pessoal” ou as veem como um fenômeno cultural particular aos afro-estadunidenses.

Na realidade, a desigualdade racial tem sido produzida largamente por políticas de governo e instituições privadas que não apenas empobrecem afro-estadunidenses mas também os demonizam e criminalizam.

Ainda assim, o racismo não é simplesmente um produto de políticas públicas errantes ou mesmo de atitudes individuais de pessoas brancas racistas – e entender as raízes do racismo na sociedade estadunidense é crítico para erradicá-lo. Fazer políticas públicas melhores e banir comportamento discriminatório por indivíduos ou instituições não vai resolver. E enquanto existe uma necessidade séria por ação governamental para banir práticas que ameaçam grupos inteiros de pessoas, estas estratégias falham em compreender a escala e a profundidade da desigualdade racial nos Estados Unidos.

Para entender por que os EUA parecem tão resistentes à igualdade racial, temos de olhar além de representantes eleitos ou mesmo daqueles que prosperam à partir de discriminação racial no setor privado. Temos de dar uma olhada na forma com que a sociedade estadunidense está organizada sob o capitalismo.

Dividir e governar

O capitalismo é um sistema econômico baseado na exploração dos muitos pelos poucos. Por causa da brutal desigualdade que ele produz, o capitalismo depende de várias ferramentas políticas, sociais e ideológicas para racionalizar aquela desigualdade enquanto simultaneamente divide a maioria, que teria todo o interesse em se unir para resistir a isso.

Como o 1% mais rico mantém seu controle desproporcional da riqueza e dos recursos na sociedade americana? Por um processo de ‘dividir para governar’.

O racismo é apenas uma entre muitas opressões que pretendem servir a este propósito. Por exemplo, o racismo estadunidense se desenvolveu sob um regime de escravidão como uma justificação para a escravização de africanos em uma época em que o mundo estava celebrando os conceitos de isenção, liberdade e auto-determinação.

A desumanização e sujeição das pessoas negras tinha de ser racionalizada neste momento de novas possibilidades políticas. Mas o objetivo central era preservar a instituição da escravidão e as enormes riquezas que ela produzia.

Como Karl Marx reconheceu:

“Escravidão direta é tanto um pivô da indústria burguesa quanto maquinário, créditos, etc. Sem escravidão você não tem algodão; sem algodão você não tem a indústria moderna. É a escravidão que deu às colônias seu valor; são as colônias que criaram o comércio mundial e é o comércio mundial que é precondição para a indústria de larga-escala. Assim, escravidão é uma categoria econômica da maior importância.”

Marx também identificava a centralidade do trabalho escravo africano na gênese do capitalismo quando ele escreveu que

“a descoberta de ouro e prata na América, a extirpação, escravização e sepultamento em minas da população aborígene, o início da conquista e do saque das Índias Orientais, a transformação da África em um viveiro para caça comercial de peles negras, sinalizaram a rósea aurora da era de produção capitalista.”

As necessidades de mão-de-obra pelo capital apenas poderia explicar como o racismo funcionava sob o capitalismo. A desumanização literal de africanos por causa do trabalho era usada para justificar seu tratamento cruel e seu status depreciado nos EUA.

Sua desumanização não acabou simplesmente quando a escravidão foi abolida; ao invés disso, a marca de inferioridade estigmatizando a pele negra seguiu rumo a emancipação e estabeleceu as bases para a cidadania de segunda-classe que afro-americanos experienciaram por quase cem anos após a escravidão.

O rebaixamento de negros também tornou os afro-americanos mais vulneráveis à coerção e manipulação econômica – não apenas “anti-negrume.” Coerção e manipulação estavam baseadas nas demandas econômicas em evolução do capital, mas seu impacto agitava muito além do reino econômico. Pessoas negras estavam despojadas de seu direito ao voto, sujeitas a violência arbitrária, e travadas em trabalho servil e mal-pago. Esta era a economia política do racismo americano.

Havia outra consequência do racismo e da estigmatização de negros. Afro-americanos estavam tão completamente banidos da vida social, civil e política que era virtualmente impossível para a vasta maioria de brancos pobres e da classe trabalhadora mesmo conceber se unir com negros e desafiar o poder e a autoridade da camarilha branca dominante.

Marx reconheceu esta divisão básica dentro da classe trabalhadora quando observou que

“nos Estados Unidos da América, cada movimento independente de trabalhadores estava paralisado enquanto a escravidão desfigurava uma parte da república. Os trabalhadores não podem emancipar a si mesmos na pele branca enquanto a negra é marcada.”

Marx compreendeu a dinâmica moderna do racismo como um meio pelo qual trabalhadores que teriam interesses objetivos em comum podiam também se tornar inimigos mortais por causa de ideias nacionalistas e racistas subjetivas – mas mesmo assim, reais. Observando as tensões entre trabalhadores irlandeses e ingleses, Marx escreveu:

“Cada centro comercial e industrial na Inglaterra possui uma classe trabalhadora dividida em dois campos hostis, proletários ingleses e proletários irlandeses. 
O trabalhador inglês comum odeia o irlandês como um competidor que baixa seu padrão de vida. Em relação ao trabalhador irlandês ele sente a si mesmo como um membro de uma nação dominante e então transforma a si mesmo em uma ferramenta de aristocratas e capitalistas de seu país contra a Irlanda... 
Este antagonismo é mantido vivo artificialmente e intensificado pela imprensa, o púlpito, os jornais de piada, em resumo, por todos os meios à disposição das classes dominantes. Este antagonismo é o segredo da impotência da classe trabalhadora inglesa, apesar de sua organização. É o segredo pelo qual o capitalista mantém seu poder. E aquela classe está totalmente ciente disso.”

Para socialistas nos EUA, reconhecer a centralidade do racismo em dividir a classe que tem o poder real para desfazer o capitalismo tem tipicamente significado que socialistas têm estado pesadamente envolvidos em campanhas e movimentos sociais para acabar com o racismo.

Mas dentro da tradição socialista, muitos têm também argumentado que como os afro-americanos e a maioria de outros não-brancos são desproporcionalmente pobres e de classe-trabalhadora, campanhas que miram terminar com a desigualdade econômica iriam, sozinhas, encerrar a sua opressão.

Esta posição ignora como o racismo constitui sua própria base para a opressão de pessoas não-brancas. Negros comuns e outras minorias não-brancas são oprimidos não apenas por causa de sua pobreza mas também por causa de suas identidades raciais ou étnicas.

Também não há correlação direta entre expansão econômica ou condições econômicas melhoradas e uma queda na desigualdade racial. Na realidade, a descriminação racial muitas vezes previne afro-americanos e outros de acessar completamente os frutos da expansão econômica.

Afinal de contas, a insurgência negra dos anos 60 coincidiu com a economia robusta e pujante dos anos 60 – os negros estavam se rebelando por que estavam trancados fora da abundância americana. Olhar para o racismo como apenas um resultado secundário da desigualdade econômica ignora as formas com que o racismo existe como uma força independente que causa estragos nas vidas de todos os afro-americanos.

A luta contra o racismo regularmente intercepta lutas por igualdade econômica, mas o racismo não se expressa apenas sobre questões econômicas. Lutas anti-racistas também tomam lugar em resposta às crises sociais que comunidades negras experienciam, incluindo lutas contra a perseguição e discriminação; brutalidade policial; desigualdade educacional, de saúde e de moradia; encarceramento em massa e outros aspectos do sistema de “justiça criminal”.

Estas lutas contra a desigualdade racial são críticas, tanto para melhorar as vidas de afro-estadunidenses e outras minorias raciais e étnicas no aqui-e-agora, e para demonstrar para pessoas brancas comuns o impacto destrutivo do racismo nas vidas de pessoas não-brancas.

Conquistar brancos comuns para um programa antiracista é um componente chave para construir um movimento de massa genuíno e unificado capaz de desafiar o Capital. Unidade não pode ser atingida sugerindo que pessoas negras deveriam minimizar o papel do racismo em nossa sociedade para não alienar brancos – enquanto se focando apenas na luta “mais importante” contra a desigualdade econômica.

É por isso que agrupamentos multirraciais de socialistas têm sempre participado nas lutas contra o Racismo. Isso foi particularmente verdade ao longo do século XX, enquanto afro-estadunidenses se tornaram uma população mais urbana em constante conflito e competição com nativos e brancos imigrantes por empregos, moradia e escolas. Conflitos violentos entre negros e brancos de classe-trabalhadora sublinham o quanto a divisão racial destruiu os laços de solidariedade necessários para coletivamente desafiar patrões, senhores de terra e representantes eleitos.

Os socialistas desempenharam papéis chave nas campanhas contra o linchamento e o racismo no sistema judiciário e criminal, como na campanha dos “Garotos de Scottsboro” nos anos 30, quando nove jovens afro-estadunidenses foram acusados de estuprar duas mulheres brancas em Scottsboro, Alabama. A progressista “Associação Nacional para o Avanço das Pessoas ‘De Cor’” (NAACP) estava relutante em assumir o caso, mas os julgamentos de Scottsboro se tornaram uma prioridade para o Partido Comunista e sua afiliada Liga de Defesa Internacional.

Uma parte da campanha envolveu correr o país com as mães dos garotos e depois o mundo para chamar atenção e despertar apoio para seu caso. Ada Wright – mãe de dois dos garotos – viajou 16 países em 6 meses em 1932 para contar a história de seus filhos. Como ela estava viajando com conhecidos comunistas, ela foi frequentemente impedida de falar. Na Tchecoslováquia ela foi acusada de ser uma comunista e presa por 3 dias, antes de ser expulsa do país.

Socialistas estiveram envolvidos nos impulsos de sindicalização entre afro-estadunidenses e foram centrais para as campanhas de direitos civis no Norte, Sul e no Oeste para afro-estadunidenses e outras minorias oprimidas. Este engajamento explica por que muitos afro-estadunidenses gravitaram em torno de políticas socialistas ao longo de suas vidas – socialistas têm sempre articulado umas visão de sociedade que poderia garantir liberdade negra genuína.

No final dos anos 60, mesmo figuras como Martin Luther King Jr estavam descrevendo um tipo de visão socialista de futuro. Em uma apresentação de 1966 para um encontro de sua organização “Conferência de Liderança Cristã do Sul”, King comentou:

“Nós precisamos encarar honestamente o fato de que o movimento precisa lidar com a questão da reestruturação completa da sociedade americana. Existem 40 milhões de pessoas pobres aqui. E um dia nós devemos fazer a pergunta, ‘Por que existem 40 milhões de pessoas pobres nos Estados Unidos da América?’ E quando você começa a fazer essa pergunta, você está levantando questões sobre o sistema econômico, sobre uma distribuição mais ampla de riqueza. Quando você faz essa pergunta, você começa a questionar a economia capitalista. ...” 
‘A quem pertence o petróleo?’ Você começa a perguntar, ‘A quem pertence o minério de ferro?’ Você começa a perguntar, ‘Por que as pessoas precisam pagar contas de água em um mundo que é dois terços água?’ Estas são questões que precisam ser feitas.”

Enquanto os movimentos continuaram a se radicalizar, grupos como os Panteras Negras e a Liga de Trabalhadores Negros Revolucionários seguiram na tradição de Malcom X quando vincularam a opressão negra diretamente ao Capitalismo. Os Panteras e a Liga foram mais longe do que Malcom ao tentar construir organizações socialistas para o propósito específico de organizar negros da classe trabalhadora para lutar por um futuro socialista.

Hoje o desafio para Socialistas não é diferente: estar centralmente envolvidos nas lutas contra o racismo enquanto também lutando por um mundo baseado em necessidades humanas, não em lucro.

Colaborador

Keeanga-Yamahtta Taylor is an assistant professor in Princeton University's Department of African American Studies.

15 de março de 2016

O socialismo dos Panteras Negras

Um novo documentário sobre o Partido dos Panteras Negras ignora o núcleo socialista do grupo.

Robert Greene II


Tradução / Na memória moderna americana da década de 1960, o Partido dos Panteras Negras é apresentado em três imagens. Primeiro, e talvez o mais predominante, é a de uma organização violenta composta por homens e mulheres afro-americanos enfurecidos — as pessoas que marcharam no prédio do Capitólio do Estado da Califórnia em 1967 e empunhando armas durante encontros com a polícia. Essa percepção de afro-americanos armados e perigosos — um eco, de certa forma, do medo de rebeliões de escravos e, posteriormente, do governo político negro no Sul — provocou demandas por lei e ordem em todo o país.

A segunda imagem dos Panteras Negras foi cultivada tanto por ativistas quanto por historiadores modernos: uma organização dedicada ao ativismo comunitário local, construção de poder político e prestação de serviços sociais para aqueles que mais precisavam. Visto em livros como Body and Soul: The Black Panther Party and the Fight Against Medical Discrimination de Alondra Nelson, essa versão dos Panteras os apresenta armados, não apenas com rifles e balas, mas também com medicamentos e comida.

Um novo documentário intitulado Black Panthers: Vanguard of the Revolution se destaca ao discutir essas duas primeiras imagens. Ele é menos hábil em abordar a terceira: uma organização construída com base em princípios e ideologia socialista.

O Programa de Dez Pontos dos Panteras Negras, apresentado em 1967, delineou os preceitos básicos do partido para um amplo público. O progressismo econômico, há muito tempo uma parte importante da luta pela liberdade dos afro-americanos no século XX, permeou o documento.

Por exemplo, o segundo ponto defende o pleno emprego para os afro-americanos, e o ponto seguinte exige “um fim ao saqueamento dos capitalistas em nossas comunidades negras e oprimidas.” Apagar esse elemento da história do Partido dos Panteras Negras — ou mesmo minimizá-lo — distorce a realidade não apenas dos Panteras, mas também dos movimentos pela liberdade negra da época e da esquerda dos EUA de forma mais ampla.

Por volta de 1966-67, ativistas que haviam participado do Movimento pelos Direitos Civis estavam começando a pensar na melhor estratégia para adotar na América no pós-Lei dos Direitos Civis e Lei de Direitos de Voto. Já se percebia uma reação conservadora no ar. Ronald Reagan estava ganhando considerável apoio dos eleitores ao pedir “lei e ordem”, e George Wallace estava aperfeiçoando seus apelos de cunho racial aos eleitores brancos.

Ao mesmo tempo, a esquerda — preocupada com o Vietnã e a Guerra Fria no exterior, e com os limites esmagadores das reformas econômicas e de direitos civis em casa — foi galvanizada pela icônica imagem do BPP na mídia nacional. Algumas dessas atrações eram de natureza estilística, mas, mais importante, a afinidade surgiu da percepção de que os Panteras eram os críticos mais contundentes do racismo americano, do imperialismo e da exploração econômica. De fato, o BPP fazia parte de uma tradição radical mais ampla, começando com a esquerda negra, mas se estendendo muito além de seus limites.

Vanguard of the Revolution falha neste teste básico de história. Embora o documentário mencione brevemente a oposição do grupo ao capitalismo, isso não foi suficiente para explicar a importância do socialismo para o BPP.

O foco do documentário esteve nas figuras poderosas de Huey Newton, Eldridge Cleaver e Bobby Seale. Vanguard ao tratar a fissura que se desenvolveu entre Newton e Cleaver como algo pessoal e não ideológico, perdeu a oportunidade de explorar as falhas dos Panteras e da esquerda negra de forma mais ampla. Da mesma forma, o documentário diz pouco sobre as tendências ideológicas mais amplas entre os intelectuais afro-americanos no início dos anos 1970, quando os debates entre facções pan-africanistas e marxistas-leninistas prejudicaram as tentativas de solidariedade.

A inclusão de Fred Hampton no filme indica que os cineastas tinham alguma consciência da tonalidade anticapitalista do BPP. Como líder do capítulo de Chicago do BPP, Hampton tentou fomentar um movimento além da classe e multirracial contra o capitalismo. Seu slogan pessoal – “Sou um revolucionário!” — energizou milhares, e seus apelos aos residentes brancos pobres das favelas da cidade desafiaram a imagem dos Panteras como uma organização de “ódio aos brancos”.

O assassinato de Hampton em 1969 pelas mãos do Departamento de Polícia de Chicago marcou um ponto de virada não apenas para os Panteras Negras, mas também para o ainda em desenvolvimento Black Power Movemen (Movimento pelo Poder Negro). Sua morte, junto com as de Malcolm X e Martin Luther King Jr., estrangulou o potencial da luta pela liberdade dos afro-americanos no final dos anos 1960 e enfraqueceu a ação radical negra.

Esta tradição, abrangendo uma variedade de movimentos pela igualdade social e incluindo intelectuais desde W. E. B. Du Bois até Cornel West, testemunhou tanto seu maior triunfo nos anos 1960 quanto alguns dos seus reveses mais devastadores.

Vanguard of the Revolution capturou parte disso, mas sem uma compreensão adequada da ideologia e das tradições das quais o BPP surgiu. Ao omitir a base anticapitalista do BPP, o filme deixou os espectadores com uma imagem simplificada dos Panteras, criando uma linha desnecessária entre as questões de raça e classe.

Colaborador

Robert Greene II é professor assistente de história na Claflin University e editor de resenhas de livros do blog da Sociedade de Historiadores Intelectuais dos EUA.

13 de março de 2016

Por que a classe trabalhadora?

Os trabalhadores estão no coração do sistema capitalista - e é por isso que eles estão no centro da política socialista.

Vivek Chibber

Jacobin

Um funcionário dos correios na Universidade de Illinois em Chicago em 1947. Coleção Digital da Biblioteca UIC / Flickr

Tradução / A maioria das pessoas sabe que os socialistas colocam a classe trabalhadora no centro de sua visão política. Mas por que exatamente? Quando faço essa pergunta a estudantes ou mesmo a ativistas, recebo uma série de respostas, mas a resposta mais comum é moral – os socialistas pensam que os trabalhadores sofrem mais sob o capitalismo, tornando sua situação a questão mais importante a ser focada.

É verdade, obviamente, que os trabalhadores enfrentam todos os tipos de indignidades e privações materiais, e qualquer movimento por justiça social deve ter isso como uma questão central. Mas se isso é tudo, se esta é a única razão pela qual devemos nos concentrar na classe, o argumento desmorona facilmente.

Afinal, há muitos grupos que sofrem indignidades e injustiças – minorias raciais, mulheres, deficientes. Por que destacar os trabalhadores? Por que não dizer apenas que todo grupo marginal e oprimido deveria estar no centro da estratégia socialista?

No entanto, há mais foco na classe do que apenas o argumento moral. A razão pela qual os socialistas acreditam que a organização de classes deve estar no centro de uma estratégia política viável também tem a ver com dois outros fatores práticos: um diagnóstico de quais são as fontes de injustiça na sociedade moderna e um prognóstico de quais são as melhores alavancas para uma mudança radical em uma direção mais progressista.

O capitalismo não vai entregar

Há muitas coisas que as pessoas precisam para levar uma vida decente. Mas dois itens são absolutamente essenciais. A primeira é alguma garantia de segurança material – coisas como ter uma renda, moradia e cuidados básicos de saúde. A segunda é estar livre da dominação social – se você está sob o controle de outra pessoa, se ela toma muitas das decisões-chave por você, então você está constantemente vulnerável a qualquer tipo de abuso.

Então, em uma sociedade em que a maioria das pessoas não tem segurança no emprego, ou tem empregos, mas não pode pagar suas contas, na qual elas têm que se submeter ao controle de outras pessoas, na qual elas não têm voz sobre como as leis e regulamentações são feitas — é impossível alcançar a justiça social.

O capitalismo é um sistema econômico que depende da privação da grande maioria das pessoas de pré-condições essenciais para uma vida decente. Os trabalhadores chegam ao trabalho todos os dias sabendo que têm pouca segurança no emprego; eles recebem o que os empregadores consideram aceitável em sua principal prioridade, que é obter lucros, não o bem-estar dos funcionários; trabalham em ritmo e duração determinados por seus chefes; e se submetem a essas condições, não porque queiram, mas porque, para a maioria, a alternativa de aceitar essas condições é o desemprego. Este não é um aspecto acidental ou marginal do capitalismo. É a característica definidora do sistema.

O poder econômico e político está nas mãos dos capitalistas, cujo único objetivo é maximizar os lucros, o que significa que a condição dos trabalhadores é, na melhor das hipóteses, uma preocupação secundária para eles. E isso significa que o sistema é, em sua essência, injusto.

Segurando a alavanca

O primeiro passo para tornar nossa sociedade mais humana e justa é reduzir a insegurança e a privação material na vida de tantas pessoas e aumentar seu escopo de autodeterminação. Mas imediatamente nos deparamos com um problema – a resistência política das elites.

O poder não é distribuído igualmente no capitalismo. Os capitalistas decidem quem é contratado e demitido e quem trabalha por quanto tempo, não os trabalhadores. Os capitalistas também têm mais poder político, porque podem fazer coisas como fazer lobby, financiar campanhas e partidos.

E já que são eles que se beneficiam do sistema, por que deveriam encorajar mudanças nele, mudanças que inevitavelmente significam uma diminuição de seu poder? A resposta é: já que eles não aceitam muito bem os desafios e fazem o possível para manter o status quo, devemos conquistar as mudanças.

Os movimentos de reforma progressista constataram repetidas vezes que, sempre que tentam pressionar por mudanças na direção da justiça, esbarram no poder do capital.

Quaisquer reformas que exijam uma redistribuição de renda, ou que venham do governo como medida social – sejam cuidados de saúde, regulamentações ambientais, salários mínimos ou programas de emprego – são rotineiramente contestadas pelos ricos, porque tais medidas inevitavelmente significam uma redução na seus rendimentos (como impostos) ou seus lucros.

O que isso significa é que os esforços de reforma progressista precisam encontrar uma fonte de alavancagem, uma fonte de poder que lhes permita superar a resistência da classe capitalista e seus funcionários políticos.

A classe trabalhadora tem esse poder, por uma razão simples – os capitalistas só podem lucrar se os trabalhadores aparecerem para trabalhar todos os dias, e se eles se recusarem a jogar junto no mesmo time – caso contrário, os lucros secam da noite para o dia. E se tem uma coisa que chama a atenção dos empregadores é quando o dinheiro para de fluir.

Ações como greves não têm apenas o potencial de colocar capitalistas de joelhos, elas podem ter um impacto muito além em outras instituições que direta ou indiretamente dependem deles – incluindo o governo.

Essa capacidade de destruir todo o sistema, simplesmente recusando-se a trabalhar, dá aos trabalhadores uma espécie de poder que nenhum outro grupo da sociedade tem, exceto os próprios capitalistas.

É por isso que, se a mudança social progressista requer a superação da oposição capitalista – e aprendemos ao longo de três séculos que isso acontece – então é de central importância organizar os trabalhadores para que eles possam usar deste poder.

Os trabalhadores são, portanto, não apenas um grupo social sistematicamente oprimido e explorado na sociedade moderna, mas também o grupo mais bem posicionado para promover mudanças reais e extrair concessões do maior centro de poder – os banqueiros e industriais que administram o sistema.

Eles são o grupo que entra em contato com os capitalistas todos os dias e estão presos em um conflito perene com eles como parte de sua própria existência. Eles são o único grupo que tem que conquistar capital se quiserem melhorar suas vidas. Não há dependem de mais força para organizar um movimento político.

E isso não é apenas uma teoria. Se olharmos para as condições em que reformas de longo alcance foram aprovadas nos últimos cem anos, reformas que melhoraram as condições materiais dos pobres, ou que lhes deram mais direitos contra o mercado – elas eram invariavelmente baseadas em interesses da classe trabalhadora mobilizada. Isso é verdade não apenas com as medidas “daltônicas” do estado de bem-estar social, mas também com fenômenos como os direitos civis e a luta pelo voto.

Qualquer movimento que estendesse benefícios aos pobres, fossem eles negros ou brancos, homens ou mulheres, tinha que se basear na mobilização dos trabalhadores. Isso é uma verdade histórica na Europa e no Sul Global tanto quanto nos Estados Unidos.

É esse poder de extrair concessões reais do capital que torna a classe trabalhadora tão importante para a estratégia política. Claro que o fato dos trabalhadores também serem a maioria em todas as sociedades capitalistas e que eles são sistematicamente explorados só torna sua situação ainda mais premente. Essa combinação de urgência moral e força estratégica é o que coloca a classe trabalhadora no centro da política socialista.

Sobre o autor

Vivek Chibber é professor de sociologia na New York University. Seu livro mais recente, ‘Postcolonial Theory and the Specter of Capital’ [“Teoria Pós-colonial e o Espectro do Capital”] acaba de ser publicado pela editora Verso.

3 de março de 2016

O progresso de Corbyn

Jeremy Corbyn entra no palco de  à esquerda. Ele pode não ser uma figura carismática, mas nunca poderia ser confundido com uma confecção de relações públicas.

Tariq Ali

London Review of Books


Tradução / O Reino Unido enquanto Estado – a sua economia, a sua cultura, as suas identidades fraturadas e sistema partidário-está numa crise muito mais profunda do que muitos querem aceitar. Os seus governantes, pelo menos em público, permanecem em seminegação. Os políticos ingleses supõem que a ameaça à unidade do Estado tinha sido afastada depois de terem obtido os resultados que queriam no referendo da independência da Escócia. Os resultados das eleições gerais do ano passado sugerem o contrário. O SNP agora exerce um monopólio virtual da representação escocesa na Câmara dos Comuns e a maioria das sondagens de opinião indicam uma pequena maioria a favor da independência escocesa. O impacto disto na crise do Trabalhismo, do antigo e do novo, não deve ser subestimado. É a mudança mais importante e dramática no sistema partidário no Reino Unido desde a fundação do próprio Partido Trabalhista.

Acrescente-se a isto os seguintes factos: 11,3 milhões de votos deram 331 lugares para os conservadores; 9,3 milhões dos Trabalhistas deram-lhes 232 lugares no parlamento e os democratas liberais com 2,4 milhões desceram para oito lugares enquanto os verdes e UKIP ganharam um único lugar no Parlamento cada um, com mais de um milhão e de 3,8 milhões de votos, respetivamente. Um mecanismo eleitoral flagrantemente truncado não é motivo de celebração; seja qual seja, isto não é claramente uma democracia representativa. Ed Miliband demitiu-se imediatamente como líder após a sua derrota e o líder que o substituiu interinamente, Harriet Harman, decidiu não se opor aos Tories sobre os princípios básicos das suas políticas de austeridade: ela sabia que um governo trabalhista pós 2015 teria feito exatamente o mesmo. O Partido Trabalhista que perdeu a eleição era conformista e sem nenhuma visão política: tinha esquecido o que significava ser verdadeiramente oposição.

O novo sistema de eleições para a liderança no partido Trabalhista que Miliband introduziu em 2014 foi concebido como um gesto de conciliação. Ele tinha sido acusado de ganhar a liderança apenas com o apoio dos odiados sindicatos, por ter instituído o sistema de um membro, um voto, com um voto para qualquer eleitor trabalhista ou apoiante que – embora não seja um membro do partido- estava preparado para participar com uma contribuição de $3 (o partido socialista francês tinha usado um método semelhante para eleger Hollande). Foi um passo em frente para a democratização, mas as novas regras também tiveram o apoio avassalador do Partido Trabalhista parlamentar. A maioria dos parlamentares trabalhistas assumiu que, se os eleitores não membros do Partido teriam um qualquer efeito, esse efeito seria o de ajudar a selar o status quo. E assim poderia ter sido se o New Labour tivesse conseguido entretanto aparecer com um candidato credível. A fim de preservar a ficção de que o Partido Trabalhista Parlamentar permanecia uma ampla igreja que favorecia a diversidade e privilegiava os bons debates, alguns blairistas deram o seu voto a apoiar um candidato da minúscula esquerda parlamentar. Esta estratégia já tinha funcionado antes: foi, na última vez, quando David Miliband tinha nomeado Diane Abbott como candidata. Em 2015 eles esperavam que um candidato à esquerda acabasse por tirar o apoio de Andy Burnham, que se tinha feito passar por esquerdista, deixando-se assim a porta aberta para Liz Kendall ou Yvette Cooper.

Entra aqui Jeremy Corbyn à esquerda. Ele pode não ser uma figura carismática, mas ele nunca poderia ser confundido com um produto de relações públicas. Eu compartilhei numerosas plataformas com ele ao longo dos últimos 40 anos e nas questões-chave ele permaneceu sempre firme. Durante os debates pela liderança no Labour ele surgiu como desinteressado nos ratings que lhe eram atribuídos e alheio à imprensa hostil. O Guardian apoiava Yvette Cooper, o Mirror apoiava Andy Burnham. Absolutamente ninguém, incluindo o próprio Corbyn, pensaria que ele poderia ganhar. A sua campanha foi concebida apenas para mostrar que havia uma alternativa à liderança neoliberal que havia governado o país durante as últimas três décadas. Este tipo de campanha apelava aos jovens e aos muitos que tinham deixado o partido enojados pelos anos do par Blair/Brown -o que levou as pessoas a transformaram a sua campanha num verdadeiro movimento social- e isto foi precisamente o que perturbou as cliques dos políticos e dos media.

A campanha de Corbyn gerou um movimento em massa que renovou a base do Partido Trabalhista – quase 200.000 novos membros ou até mesmo mais – e o levou ao triunfo. Ele teve quase tantos votos como todos os seus adversários juntos. Os errados apelos de Blair (“odeiem-me tanto quanto quiserem mas não votem em Corbyn”’) e os ataques disparatados de Brown acusando Corbyn de ser amigo de ditadores (Brown estava-se a referir à Venezuela, ao invés de Arábia Saudita ou do Cazaquistão, os Estados favorecidos pela elite do New Labour) só vieram reforçar o apoio a Corbyn. A coorte dos blairistas que domina as páginas de opinião do Guardian – Jonathan Freedland, Polly Toynbee e outros – teve um impacto nulo sobre o resultado, e isto quando andavam completamente desesperados a querer destruir Corbyn. Eles estavam de tal modo desesperados que deram mesmo por duas vezes espaço a Blair na esperança de o reabilitarem. Naturalmente, o jornal perdeu muitos leitores, incluindo eu.

A vitória de Corbyn não foi baseada na ultraesquerda. As suas opiniões refletiam o que muitos no país sentiam, e este resultado é o que os que no Labour trabalharam contra Corbyn têm muita dificuldade em compreender. Corbyn disse-o ele próprio num dos debates da televisão:

Nós também como partido tivemos que enfrentar algo que é uma verdade desagradável, que lutamos nas eleições de 2015 com muito boas políticas incluídas no nosso manifesto, mas fundamentalmente contra o facto de que iríamos continuar a fazer cortes continuamente na despesa pública, que iríamos continuar a subfinanciar as administrações locais, que iríamos continuar a ter perdas no volume de emprego, enquanto se continuaria a aumentar o número de pessoas a sofrer por causa dos cortes que iríamos impor, aceitando-se uma data arbitrária para passar a ter excedentes orçamentais, em suma, enquanto se continuava a aceitar a linguagem da austeridade. A minha sugestão é que o partido tem de desafiar a política de austeridade, a política de aumentar o fosso entre os mais ricos e os mais pobres na sociedade e estar preparado para investir numa economia em crescimento, em vez de aceitar o que nos está a ser imposto pela crise financeira e bancária de 2008 a 2009. Nós não temos que definir esta data arbitrária, que com efeito significa que os mais pobres e os mais vulneráveis na nossa sociedade paguem pela crise bancária, em vez de serem aqueles que a provocaram a pagar por isso mesmo.
Como poderia qualquer deputado trabalhista discordar disto? O que eles realmente odiavam era o seu questionamento sobre o setor privado. John Prescott foi autorizado a comprometer-se com a renacionalização dos caminhos-de-ferro na conferência do Partido Trabalhista de 1996, mas depois da vitória de Blair no ano seguinte, o assunto nunca mais foi levantado. Até agora.

Quando lhe perguntei quando é que ele percebeu que poderia realmente ganhar, a resposta de Corbyn era característica do ativista que ele continua a ser: “foi em Nottingham, durante as últimas semanas de campanha… você conhece Nottingham. Normalmente pensamos que 50 ou 60 pessoas numa reunião é uma boa afluência. Eu tinha 400 e havia pessoas lá fora que não conseguiam entrar. Aí pensei então que poderíamos ganhar esta eleição“. As multidões cresceram e cresceram, deixando claro que Corbyn era capaz de mobilizar e inspirar um grande número de pessoas e estava igualmente a tornar claro também o quão frágil era o apoio, fora dos media, que estava a ser dado aos outros candidatos.

A sua eleição animou a cena política inglesa. Os seus horrorizados inimigos no Partido Trabalhista Parlamentar começaram imediatamente a trabalhar para a sua destituição. Lord Mandelson informou-nos que o Partido Trabalhista Parlamentar não iria destruir o seu novo líder imediatamente: “seria errado”, escreveu ele, ‘ estar a tentar forçar esta questão por dentro antes que o público se movimentasse a favor de um veredicto claro’. Blair, irritada com esta explosão da democracia num partido que ele tinha moldado à sua própria imagem, declarou que o Partido Trabalhista seria inelegível a menos que Corbyn fosse destituído. Brown manteve-se relativamente tranquilo, talvez porque ele estava ocupado a negociar a sua própria iniciativa de financiamento privado com a empresa de investimento PIMCO (Ben Bernanke e o ex-presidente do BCE Jean-Claude Trichet estão também a juntar-se no seu “Conselho Consultivo global”). Simultaneamente, o seu antigo chanceler, Lorde Darling, estava já em vias de ir trabalhar para o Morgan Stanley em Wall Street. Blair, conselheira da J.P. Morgan desde 2008, deve-se ter rido. Finalmente, uma reunião do New Labour na terra da liberdade. No fim de contas a regulação leve estava a dar os seus ricos frutos. Praticamente todos os altos quadros dos gabinetes de Blair e de Brown estavam a trabalhar para empresas que tinham sido beneficiadas com as suas políticas. O ex-secretário de saúde Alan Milburn, por exemplo, está na folha de pagamento de várias empresas envolvidas em cuidados de saúde privados e está atualmente a trabalhar para Cameron, na qualidade de presidente da Social Mobility and Child Poverty Commission. Não foi apenas a guerra do Iraque que foi responsável pelo crescente desencanto público com o New Labour.

O establishment decidiu fazer entrar em cena o chefe de Estado-maior da Defesa, Sir Nicholas Houghton. Entrevistado em 8 de novembro, ele confidenciou a um insonso Andrew Marr que o exército estava profundamente irritado com o unilateralismo de Corbyn, que prejudicou fortemente “a credibilidade da dissuasão”. No mesmo programa, Maria Eagle, uma atiradora de elite do Partido Trabalhista Parlamentar com um assento no banco da frente no gabinete do Secretário de defesa do governo sombra, disse essencialmente a Marr que ela concordava com o General. Apenas mais um dia na guerra contra Corbyn. O Sunday Times já tinha feito circular uma entrevista anónima com “um general ainda em serviço”. “Existe um forte sentimento de indignação dentro das forças armadas,” é o que é citado como tendo sido dito pelo referido general anónimo, sobre a própria ideia de um governo Corbyn. “Ver-se-ia… generais direta e publicamente a desafiarem Corbyn sobre… O Tridente [programa nuclear do reino Unido] a sair da NATO e quaisquer outros planos para enfraquecer e diminuir a dimensão das forças armadas… Haveria demissões em massa e isto em todos os escalões… o que seria efetivamente um motim. Não se pode colocar um aventureiro à frente do comando da segurança de um país”. Se alguma coisa expressou bem o baixo nível da cultura política na Grã-Bretanha foi a falta de reação a esta interferência militar na política. Quando Corbyn tentou reclamar, um antigo grande chefe conservador, Ken Clarke, declarou que o exército não responde perante o Parlamento mas perante a rainha. Tudo menos Corbyn, até mesmo uma monarquia das bananas.

Em dezembro, Cameron procurou a aprovação parlamentar para o envio de aviões britânicos para bombardear o estado islâmico na Síria. Do seu ponto de vista, um efeito colateral feliz possível de um voto previsivelmente bem-sucedido era que Cameron poderia assim tornar insustentável a posição de Corbyn como líder. Tendo sido apunhalado pelas costas por Maria Eagle ele estava prestes a ser esfaqueado pela frente por Hilary Benn, cujo discurso desonesto – Hitler, com a guerra civil espanhola lançada em boa altura – foi aplaudido ruidosamente pelos Conservadores e pelos membros blaristas do Parlamento. (Que pena que a discussão de duas horas entre Hilary Benn e o seu pai sobre a guerra do Iraque, de que Hilary era um defensor ardente, nunca tenha sido gravada e transcrita nos diários escritos de Tony Benn – embora ele tenha falado sobre isso com os amigos.) Mas isto, também, não conseguiu desalojar Corbyn. O líder trabalhista – erradamente, na minha opinião – permitiu uma votação livre por insistência de colegas próximos. (John McDonnell, o Chanceler do governo sombra, insistiu que era uma “questão de consciência”.) No final 66 deputados trabalhistas votaram com os Tories para bombardear alvos na Síria. Alguns deles receberam apresentações pelo Ministério da defesa, destinados a convencê-los de que não haveria danos colaterais. Mas a maioria do Partido Trabalhista Parlamentar opôs-se aos bombardeamentos e votou com Corbyn. Frustrados mais uma vez, os média procuraram atribuir o fracasso de não terem mais deputados trabalhistas a votarem a favor do bombardeamento da Síria à “intimidação” da organização “Stop the War”, uma organização de que Corbyn era o Presidente desde a morte de Tony Benn.

Durante mais ou menos uma semana esteve aberta a temporada da coligação antiguerra. Um dos seus efeitos foi assustar os verdes e fazer com que a antiga líder do partido, Caroline Lucas, se demitisse do Comité STW. Foi realmente uma decisão sua ou foi uma ideia da inepta Natalie Bennett, com medo de que os militantes dos Verdes estivessem a ser levados pelo flautista de Hamelin? O próprio Corbyn manteve-se impassível: disse à audiência aquando de um jantar de angariação de fundos de STW que estava orgulhoso do trabalho que a organização tinha feito a partir da época da guerra no Afeganistão em diante, e que se sentia orgulhoso de assegurar a Presidência de Stop the War .

No final da semana em que se deu a votação sobre a Síria, as eleições parciais de Oldham, que, mais uma vez, tinham sido consideradas como um possível desastre para Corbyn (George Eaton no New Stateman alegou ter sido informado por “uma pessoa interna ” que “a derrota estava longe de ser impensável”), foram uma vez mais uma vitória rotunda. Tudo isso deixou os inimigos de Corbyn na defensiva. Uma reorganização no início do ano novo eliminou Eagle e alguns outros, mas Benn permaneceu no lugar, um reflexo das dificuldades políticas que Corbyn enfrentou. Qualquer tentativa de mudar o equilíbrio político do gabinete do governo sombra foi recebida com enormes ameaças de demissão. Por quanto tempo mais é que os deputados trabalhistas podem continuar esta guerra contra o seu próprio líder? Corbyn não se sentirá intimidado ou desmoralizado para se retirar. Os atiradores usarão quaisquer munições para atingirem o seu alvo. Resultados ruins nas eleições locais em maio? Culpe-se então Corbyn. Sadiq Khan, o candidato do Labour nas eleições para a prefeitura de Londres, sublinha bem as suas relações amigáveis com o mundo dos negócios, provavelmente mais do que Zac Goldsmith, dos conservadores, que, sendo ele próprio rico, não tem que passar a bola para o CBI. Se Khan vencer, ele será promovido a candidato à liderança. Se perder, é claro, a culpa é de Corbyn. Quanto às eleições do Parlamento escocês, as sondagens de opinião sugerem um grande triunfo do SNP. Culpa de Corbyn? É claro. Os zombis que lideraram o Partido Trabalhista escocês presidiram à crise de 2015, a pior derrota desde a Fundação do Partido Trabalhista. Mas quando eles perderem desta vez, vão também eles culpar Corbyn. Duvido muito que se mantenha esta particular afirmação: demasiado crua e demasiado tardia.

Mesmo que não haja um mecanismo constitucional para se livrarem de um líder trabalhista através de um voto de nenhuma confiança pelo Partido Trabalhista Parlamentar, há poucas dúvidas de que se houvesse uma tal votação, Corbyn convocaria uma nova eleição para Secretário-geral do Partido Trabalhista. Será que ele precisaria de repetir a questão da recolha de assinaturas dos membros do Parlamento como seus patrocinadores em número suficiente ou poderia ele, enquanto titular do cargo concorrer de novo e agora automaticamente? Esta é uma área cinzenta e provavelmente exigiria uma votação no National Executive Committee que ele iria ganhar. A alteração da regra teria de ser ratificada pela Conferência do Partido Trabalhista. Os seus múltiplos apoios entre os membros do partido sugerem que Corbyn ganharia novamente. E então? Um agrupamento separado de blairistas à moda do SDP? Estes últimos contavam com alguns sociais-democratas bem conhecidos e inteligentes -Roy Jenkins, Shirley Williams, David Owen, Peter Jenkins e Polly Toynbee – mas eles também foram destruídos pelo sistema eleitoral e tiveram que evitar a obscuridade através de um transplante político, fundindo-se com os liberais, uma experiência que terminou em desastre em 2015. Se eles tentassem o mesmo, os blairistas sair-se-iam muito pior, mesmo se um de entre eles libertasse um lugar seguro para dar espaço a David Miliband.


Embora o clima na Escócia se tenha deslocado à esquerda, o centro da política na Inglaterra virou tanto para a direita desde a década de 1980 que, embora o programa económico Corbyn/McDonnell não seja muito radical – o que este apresenta na frente interna é um pouco de social-democracia para fortalecer o Estado Providência e uma forma modesta, orçamentalmente manipulada, de distribuição de rendimento – é, no entanto, uma ruptura com o consenso estabelecido por Thatcher, Blair/Brown e Cameron. Os pensamentos e hábitos que têm dominado a cultura política inglesa por quase quatro décadas -o privado é sempre melhor do que o público, o individual é sempre mais importante do que a sociedade, o rico é mais atrativo do que o pobre, em suma, uma simbiose de dinheiro grande e de pequenas e baixas políticas – constituem um obstáculo sério à aplicação das medidas preconizadas por Corbyn. Muitos que concentram o seu fogo na suposta inelegibilidade de Corbyn afastam-se do seu corolário: na base da presente derrogação não há espaço para qualquer alternativa progressiva. O vigor dogmático com que a UE e a sua Troika se contrapõem a qualquer tentativa da esquerda de vencer o obstáculo referido contribuiu para um crescimento perturbador da direita em França, nos Países Baixos e agora na Alemanha, bem como na eleição de governos de direita dura na Hungria, Polónia, Eslováquia e Croácia. Isto é, em parte, o resultado da recusa em tolerar até mesmo um mínimo de social democracia.

A criação de Momentum, que se apresenta como ‘uma rede de pessoas e organizações para continuar a energia e entusiasmo da campanha de Jeremy Corbyn’, reúne partidários da linha do velho Benn desde há muito tempo adormecida no Partido Trabalhista e jovens ativistas atraídos para a campanha aquando da eleição de Corbyn para líder do partido Trabalhista. Corbyn gosta de se gabar de que a sua própria base no seu círculo eleitoral local tem 3300 Membros e 2000 simpatizantes registados – mais de 5000 ao todo, num círculo eleitoral onde o voto trabalhista é de quase 30.000. Um em cada seis eleitores trabalhistas é membro do partido. Esta é uma figura surpreendente e exemplar, mas não há uma correspondência em qualquer outro lugar. Um corpo como o Momentum poderia ajudar a ganhar apoios trabalhando dentro das campanhas existentes contra a guerra e a austeridade, registando os eleitores, incentivando os que abandonam o ensino e os estudantes a tornarem-se politicamente ativos, debatendo regularmente pontos de vista opostos (e não apenas nas redes sociais).

Apenas um movimento do tipo do que elegeu Corbyn como líder pode ser capaz de o conduzir ao nº 10 de Downing Street. O efeito do exemplo escocês sobre muitos na Inglaterra não deve ser subestimado. Mesmo os media cínicos ficam assombrados pelo grau de politização na Escócia e pelos debates e discussões que ocorrem em todo o lado antes do referendo. As dezenas de milhares de pessoas que se reuniram para se juntar ao Partido Trabalhista de Corbyn não eram tão diferentes daqueles que se moviam para apoiar o SNP. A coorte parlamentar do SNP em Westminster dá um sólido apoio à esquerda do Partido Trabalhista num enorme número de questões e, sem dúvida, fá-lo-á novamente quando os Tories vieram com a questão da renovação projetada do programa Trident para o Parlamento em abril, dando aos seus aliados no Partido Trabalhista Parlamentar outra oportunidade de desestabilizar Corbyn, ou assim o esperam.

Na Escócia, há uma grande maioria a favor da remoção dos mísseis nucleares das costas escocesas. Noutros lugares do Reino Unido, a opinião pública está mais uniformemente dividida e é flutuante dependendo da forma como a questão é colocada. Um número de generais aposentados questionaram a utilidade de Trident, e nas suas memórias mesmo Blair admitiu que nos termos dos seus custos ($31 mil milhões, com mais 10 mil milhões de reserva suplementar e os custos de operacionalidade ao longo do seu tempo de atividade que poderão exceder os $180 mil milhões) e da sua utilidade, “o senso comum e os argumentos práticos” dizem-nos que nos devemos desembaraçar do programa Trident. Ele opôs-se a fazê-lo porque representaria “uma muito grande degradação do nosso estatuto como nação”. Não há outra razão. A Grã-Bretanha precisa de Trident como um símbolo – e de estar um nível acima ou abaixo dos alemães, dependendo de um ponto de vista. Aqueles que sonham com um dedo inglês no gatilho nuclear vivem num mundo de fantasia: o dedo sobre o botão será sempre americano. É por isso que a noção, recentemente discutida em relação à UE e ao Brexit, de que a Câmara dos Comuns iria aprovar uma moção declarando que o Reino Unido é um Estado soberano causou muita ironia no exterior. Toda a gente sabe que a Grã-Bretanha tem sido um estado vassalo desde 1956. O Brexit (que eu defendo por boas razões socialistas) não pode restaurar a soberania. O único Estado verdadeiramente soberano no mundo ocidental é os Estados Unidos. Vale a pena sublinhar que o SNP é a favor da NATO. Assim foi SYRIZA nos seus melhores tempos. Assim é o Podemos, em que um dos seus líderes declarou recentemente que a NATO poderia ajudar a democratizar o exército espanhol. A cada um as suas ilusões.

O radicalismo de Corbyn não reside tanto no que ele nos está a propor no plano interno – pois isso está cada vez mais a fazer parte do senso comum de muitos economistas e outros, inclusive o autodeclarado socialista democrático, Bernie Sanders – mas sobretudo no seu desejo de mudar a política externa. A sua crítica ao nível absurdamente elevado de despesas militares é também partilhada por alguns proeminentes economistas dos EUA em relação ao seu próprio país. Joseph Stiglitz (um conselheiro de Corbyn sobre a economia) e Linda Bilmes têm argumentado que os gastos da América em guerras desde 2003, estimado agora em quase $8 milhões de milhões estão a paralisar o país. Com “um milhão de milhões de dólares”, sublinham, poder-se-ia ter construído

8 milhões de unidades habitacionais adicionais, poderiam ser contratados alguns 15 milhões de professores adicionais para as escolas públicas por um ano; poderiam pagar a 120 milhões crianças para participarem durante um ano no programa Head Start ou assegurar a 43 milhões estudantes bolsas de estudo de quatro anos em universidades públicas. Agora multiplique esses números por três ou por oito.

Há um número relativamente elevado de historiadores e analistas dos Estados Unidos – os da escola realista – que não são tímidos na sua crítica da política externa do seu país. (a critica recente de Trump a Bush sobre a guerra do Iraque deve muito a este tipo de trabalhos académicos.) John Mearsheimer em Chicago, Stephen Walt em Harvard, Barry Posen no MIT e Christopher Layne no Texas são nisso acompanhados por um antigo coronel, Andrew Bacevich. O seu pensamento continua a evoluir. Em American Empire, Bacevich argumentou contra a visão realista anterior de que a política de guerra fria dos EUA era uma resposta defensiva às ambições soviéticas e insistiu que a sua expansão do conflito com a Eurásia na década de 1940 fazia parte de um projeto para estabelecer a hegemonia global. No entanto, tais opiniões quando expressas por Corbyn e o seu círculo são denunciados como posições antiamericanas, extremistas, uma ameaça para a Grã-Bretanha, etc. Corbyn tem sido hostil tanto para com a NATO como para com a UE, tal como estão atualmente constituídas, mas as suas opiniões sobre estas questões são tão estranhas ao Partido Trabalhista Parlamentar que por agora foram mantidas na gaveta.

Durante o período de Blair/Brown o Partido Trabalhista desaprendeu a social democracia no sentido dado por Anthony Crosland, independentemente de se assemelhar ao modelo clássico do início do socialismo. Corbyn sabe que é vital que o partido reaprenda o que é a social democracia. Antes parecia uma tarefa quase impossível. Agora, surpreendentemente, eles têm uma possibilidade de a realizarem. As estatísticas sobre a desigualdade a nível mundial precisam desesperadamente de alguém que possa explicá-las em termos que possam enfurecer, mobilizar e inspirar as pessoas. Se Corbyn o puder fazer, isso marcaria uma mudança importante na política inglesa.

Fim dos tempos para o Califado?

A guerra na Síria e no Iraque produziu dois novos estados de fato nos últimos cinco anos e permitiu que um terceiro quase-estado expandisse muito seu território e poder.

Patrick Cockburn


Vol. 38 No. 5 · 3 March 2016

Tradução / Os dois novos Estados, ainda que não reconhecidos internacionalmente, são mais fortes militar e politicamente do que a maioria dos membros da ONU. Um deles é o Estado Islâmico (EI), que estabeleceu o seu Califado no leste da Síria e no oeste do Iraque no verão de 2014 após capturar Mossul e derrotar o exército iraquiano. O segundo é Rojava, designação dada pelos curdos sírios à zona que controlam desde que o exército sírio se retirou em 2012, e que agora, graças a uma série de vitórias sobre o EI, se estende pelo norte da Síria entre o Tigre e o Eufrates. No Iraque, o Governo Regional do Curdistão (GRK), já muito autônomo, aproveitou a destruição, por parte do EI, da autoridade de Bagdad no norte do Iraque para expandir o seu território em 40 por cento, assumindo o controle de áreas há muito disputadas com Bagdá, incluindo os campos petrolíferos de Kirkuk e alguns distritos mistos curdo-árabes.

A pergunta é se estas mudanças radicais na geografia política do Médio Oriente persistirão - ou até que ponto persistirão - quando o atual conflito terminar. É provável que o Estado Islâmico acabe por ser destruído, tal é a pressão dos seus desunidos mas numerosos inimigos, ainda que os seus militantes continuem a ser uma força no Iraque, Síria e no resto do mundo islâmico. Os curdos encontram-se numa posição mais forte, beneficiando do apoio dos Estados Unidos, mas esse apoio só existe porque os curdos proporcionam cerca de 120.000 tropas terrestres, que, em cooperação com as forças aéreas da coligação liderada pelos Estados Unidos, demonstraram ser uma forma eficaz e politicamente aceitável de luta contra o EI. Os curdos temem que este apoio desapareça se e quando o EI for derrotado e receiam ficar à mercê dos governos centraisressurgidos no Iraque e na Síria, bem como da Turquia e Arábia Saudita. "Não queremos que nos utilizem como carne de canhão para tomar Raqqa", disse-me um líder curdo sírio em Rojava no ano passado. Ouvi o mesmo este mês a cerca de 805 quilómetros a este, no território do GRK, perto de Halabja na fronteira iraniana, de Muhammad Haji Mahmud, um comandante Peshmerga veterano e secretário geral do Partido Socialista, que liderou um milhar de combatentes na defesa de Kirkuk contra o EI em 2014. O seu filho Atta morreu na batalha. Preocupa-lhe que "uma vez que Mossul seja libertado e o EI derrotado, os curdos não tenham o mesmo valor a nível internacional". Sem este apoio, o GRK seria incapaz de manter-se nos territórios em disputa.

A expansão dos estados curdos não agrada nenhum dos países da região, ainda que alguns - incluindo os governos deBagdad e Damasco – considerem que este desenvolvimento os favorece temporariamente e, em todo caso, são demasiadodébeis para se oporem. No entanto, a Turquia ficou profundamente horrorizada ao descobrir que a revolta síria de 2011, que esperava que marcasse o início de uma era de grande influência turca em todo o Médio Oriente, produziu, em seu lugar, um estado curdo que controla metade do lado sírio da fronteira turca a sul (de 885 quilómetros). Pior ainda, o partido no poder em Rojava é o Partido da União Democrática (PYD), que é em tudo menos na designação, o ramo sírio do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), contra o qual Ancara tem vindo a travar uma guerra de guerrilha desde 1984. O PYD nega a relação, mas em todos os escritórios do PYD há uma foto na parede do líder do PKK, Abdullah Ocalan, que está numa prisão turca desde 1999. No decurso do ano que se seguiu à derrota do EI no cerco da cidade sírio-curda de Kobani, Rojava expandiu-se territorialmente em todas as direções, com os seus líderes a ignorar constantemente as ameaças da Turquia deuma intervenção militar. Em junho passado, as Unidades de Proteção Popular (YPG) sírio-curdas tomaram Tal Abyad, um importante ponto de passagem na fronteira com a Turquia a norte de Raqqa, permitindo que o PYD unisse dois dos seus três enclaves principais, próximo das cidades de Kobani e Qamishli; agora está a tentar unir o terceiro enclave, mais a oeste, em Afrin. Estes avanços rápidos apenas são possíveis porque as forças curdas estão a operar sob a proteção aérea liderada pelos Estados Unidos, que multiplica massivamente o seu poder de fogo. Eu estava a este de Tal Abyad pouco antes do ataque final das YPG e os aviões da coligação passavam continuamente por cima. Tanto na Síria como no Iraque, os curdos identificam os alvos, chamam os ataques aéreos e depois atuam como uma 'força de limpeza'. Onde o EI resiste e combate, sofre muitas baixas. No cerco de Kobani, que durou quatro meses e meio, 2.200 combatentes do EI pereceram, a sua maioria pelos ataques aéreos dos Estados Unidos.

Ancara advertiu várias vezes que se os curdos se moverem para oeste na direção de Afrin, o exército turco intervirá. Em concreto, estipulou que as YPG não devem cruzar o Eufrates: esta é uma "linha vermelha" para a Turquia. Mas quando em dezembro as YPG enviaram as suas milícias árabes, as Forças Democráticas da Síria (SDF), através do Eufrates pela barragem de Tishrin, os turcos não fizeram nada - em parte porque o avanço foi apoiado em diferentes fases por ataques aéreos norte americanos e russos contra alvos do EI. As objeções turcas tornaram-se cada vez mais descontroladas desde o início do ano, na medida em que as YPG e o exército sírio, ainda que a sua colaboração ativa não tenha sido comprovada, puseram em marcha o equivalente a um movimento de pinçai contra as linhas de abastecimento mais importantes do EI e da oposição síria, que passam por um estreito corredor entre a fronteira turca e Aleppo, outrora a maior cidade síria. A 2 de fevereiro, o exército sírio, apoiado por ataques aéreos russos, cortou o principal caminho para Aleppo e uma semana mais tarde o SDF conquistou a base aérea de Menagh da célula da Al-Qaeda na Síria, a Frente al-Nusra, que a Turquia tem vindo a ser acusada de apoiar de forma encoberta no passado. A 14 de fevereiro, a artilharia turca começou a disparar projeteiscontra as forças que tinham capturado a base e a exigir a sua retirada. A complexa combinação de milícias, exércitos e grupos étnicos que lutam pelo controlo desta pequena mas vital área a norte de Aleppo faz com que os combates sejam confusos,mesmo para os padrões sírios. Mas se a oposição não tiver qualquer comunicação com a Turquia por algum tempo ficaráseriamente, se não fatalmente, debilitada. Os estados sunitas - concretamente a Turquia, Arábia Saudita e Qatar – fracassarão na sua longa campanha para derrotar Bashar al-Assad. A Turquia enfrentará a perspetiva de um pequeno Estado hostilcontrolado pelo PKK ao longo do seu flanco sul, o que torna mais difícil sufocar a insurreição de nível reduzido mas de longa duração dirigida pelo PKK entre a minoria curda de 17 milhões existente no país.

Diz-se que Erdogan queria que a Turquia interviesse militarmente na Síria desde maio do ano passado, mas até agora foi travado pelos comandantes do exército. Eles argumentam que a Turquia estaria a entrar numa guerra muito complicada, na qual se oporia aos EUA, Rússia, Irão, ao exército sírio, ao PYD e EI, enquanto os seus únicos aliados seriam a Arábia Saudita e algumas das monarquias do Golfo. A participação na guerra da Síria seria, sem dúvida, um grande risco para a Turquia, que, apesar de todas as suas estrondosas denúncias do PYD e das YPG como "terroristas", se limitou em grande parte a pequenos atos de retaliação vingativa. Ao turco Ersin Umut Güler, um ator e diretor curdo em Istambul, foi negada autorização para levarpara casa o corpo do seu irmão Aziz para ser enterrado, que tinha morrido a lutar contra o EI na Síria. Antes de pisar uma mina terrestre, Aziz tinha estado com as YPG, mas era um cidadão turco e pertencia a um partido radical socialista turco - nãoao PKK. 'É como Antígona,' diz Ersin. O seu pai viajou para a Síria e nega-se a regressar sem o corpo, mas as autoridades turcas não cedem.

A resposta da Turquia à ascensão de Rojava é beligerante no tom, mas ambivalente na prática. Num dia, um ministro ameaça com uma invasão terrestre em grande escala e, no seguinte, outro responsável descarta essa hipótese ou condiciona-a à participação dos Estados Unidos, o que é pouco provável. A Turquia culpou as YPG pelo ataque com um carro bomba em Ancara que matou 28 pessoas a 17 de fevereiro, o que poderia aumentar as hipóteses de intervenção, mas, nos últimos tempos, as ações turcas foram incoerentes e contraproducentes. Quando, a 24 de novembro, um F-16 turco derrubou umbombardeiro russo, no que parece ter sido um ataque cuidadosamente planeado, o resultado previsível foi o envio, por parte da Rússia, de aviões de combate sofisticados e de sistemas de mísseis anti aéreos para garantir a sua supremacia aérea sobre o norte da Síria. Isto significa que se a Turquia lançasse uma invasão por terra, teria de fazê-lo sem cobertura aérea eas suas tropas ver-se-iam expostas aos bombardeamentos dos aviões russos e sírios. Muitos líderes políticos curdos argumentam que uma invasão militar turca é pouco provável: Fuad Hussein, chefe de gabinete do presidente do GRK, disse-me em Erbil no mês passado que "se a Turquia fosse intervir, tê-lo-ia feito antes de derrubar o bombardeiro russo” - ainda que isto pressuponha, certamente, que a Turquia sabe atuar em defesa dos seus próprios interesses. Ele argumenta que o conflitoserá decidido por dois fatores: quem está a ganhar no campo de batalha e a cooperação entre os EUA e a Rússia. "Para solucionar a crise”, referiu, “terá de ser através de um acordo entre as super potências” - e, pelo menos no Médio Oriente, aRússia recuperou o status de super potência. A nova aliança flexível entre os EUA e a Rússia, ainda que interrompida porepisódios de rivalidade ao estilo da Guerra Fria, resultou num acordo em Munique a 12 de fevereiro no sentido de fazer chegar ajuda a povos e cidades sitiados da Síria e de um 'cessar de hostilidades' seguido por um cessar fogo mais formal. Será difícilalcançar uma inversão da escalada da crise, mas o facto de os EUA e a Rússia copresidirem ao grupo de trabalho que supervisiona este processo mostra até que ponto estão a substituir os poderes locais e regionais enquanto entidadesdecisoras na Síria.

Eles são, no final de contas, apenas Estados pequenos - o GRK tem uma população decerca de seis milhões e Rojava de 2,2 milhões - rodeados por outros Estados bem maiores. Eas suas economias mal sobrevivem. Rojava está bem organizada, mas bloqueada por todos os lados e não pode vender muito doseu petróleo. Setenta por cento dos edifícios em Kobani foram destruídos pelos bombardeamentos dos Estados Unidos. Apopulação fugiu de cidades como Hasakah que estão perto da linha da frente. Os problemas económicos do GRK são graves e provavelmente irresolutos a não ser que se registe um aumento inesperado do preço do petróleo. Há três anos, anunciava-se a si mesmo como 'o novo Dubai', um entreposto comercial e Estado petrolífero com rendimentos suficientes para ser independente de Bagdad. Quando o boom do petróleo atingiu o seu pico em 2013, os recém construídos hotéis de luxo em Erbil estavam cheios de delegações internacionais de comércio e homens de negócios. Hoje em dia, os hotéis e centros comerciais estão vazios e o Curdistão iraquiano está cheio de hotéis e edifícios de apartamentos que ficaram por construir. O fim do boom do GRK foi um golpe devastador para a população, sendo que muitas pessoas estão a tentar emigrar para a Europa Ocidental. Há orações frequentes nas mesquitas para recordar os que se afogaram no Egeu durante a travessia desdea Turquia até às ilhas gregas. Os rendimentos petrolíferos do Estado situam-se agora em cerca de 400 milhões de dólares ao mês; mas a despesa é de 1,1 mil milhões de dólares, pelo que parte dos 740.000 funcionários públicos não recebem o seu salário. Em desespero, o governo apropriou-se do dinheiro dos bancos. "A minha mãe foi ao seu banco, onde pensava que tinha 20.000 dólares”, contou-me Nazdar Ibrahim, uma economista da Universidade de Salahaddin em Erbil. "Disseram-lhe:'Não temos o dinheiro porque o governo requisitou-o'. Ninguém está a colocar o dinheiro no banco, o que está a destruir o sistema bancário”.

O GRK anunciou-se como um 'Iraque diferente' e, em alguns aspectos, é-o: é bem mais seguro para viver do que Bagdad ouBassorá. Apesar de Mossul não estar muito longe, registaram-se poucos ataques com bombas ou sequestros no Curdistãoiraquiano em comparação com o resto do país. Mas o GRK é um Estado petrolífero que depende totalmente dos rendimentos do petróleo. A região não produz quase mais nada: inclusive as verduras nos mercados são importadas da Turquia e Irão e os preços são altos. Nazdar Ibrahim disse que a roupa que poderia comprar na Turquia por 10 dólares custa três vezes mais aqui; ela assinalou que viver no Curdistão iraquiano é tão caro como viver na Noruega ou na Suíça. O presidente do GRK, Massoud Barzani, anunciou que vai celebrar um referendo sobre a independência curda, mas esta não é uma opção atraente num momento de ruína económica geral. Asos Hardi, editor de um jornal em Sulaymaniyah, diz que os protestos estão a estender-se e que, em todo caso, “inclusive no meio do boom, se podia notar a ira popular pelo clientelismo e a corrupção". OEstado curdo iraquiano - longe de se tornar mais independente - vê-se obrigado a olhar para os poderes externos, incluindopara Bagdad, para evitar um colapso económico maior.

Estão a ocorrer situações semelhantes noutras partes da região: as pessoas que conseguiram escapar de Mossul dizem que oCalifado está a ceder perante a pressão militar e económica. Os seus inimigos tomaram Sinjar, Ramadi e Tikrit no Iraque e as Unidades de Proteção Popular (YPG) e o exército sírio estão a avançar de novo na Síria e estão a aproximar-se de Raqqa. As forças terrestres que estão a atacar o EI – as YPG, o exército sírio, as forças armadas iraquianas e os Peshmerga - têmcontingentes reduzidos (na luta por Ramadi, a força de assalto militar iraquiana contava apenas com 500 homens), mas podem solicitar ataques aéreos devastadores a qualquer posição do EI. Desde que foi derrotado em Kobani, o EI evitou batalhas frontais e não lutou até o último homem para defender nenhuma das suas cidades, ainda que tenha considerado fazê-lo em Raqqa e Mossul. O Pentágono, o governo iraquiano e os curdos exageram o alcance das suas vitórias sobre o EI, mas este sofreu grandes perdas e está isolado do mundo exterior com a perda da sua última ligação com a Turquia. A infraestrutura administrativa e económica do Califado começa a ceder mediante a pressão dos bombardeamentos e o bloqueio. Esta é a impressão que transmitem as pessoas que abandonaram Mossul no início de fevereiro e se refugiaram em Rojava.

A sua viagem não foi fácil, já que o EI proíbe a população de sair do Califado – não quer um êxodo em massa. Os que escaparam informam que o EI se está a tornar mais violento na imposição de fatwas e regulamentos religiosos. Ahmad, um comerciante de 35 anos de idade, de al-Zuhour, em Mossul, onde é proprietário de uma pequena loja, informa que, “se alguém é acusado de se ter barbeado, são-lhe dadas trinta chicotadas, quando no ano passado tê-lo-iam simplesmente preso durante umas horas”. O tratamento das mulheres em particular piorou: “O EI faz questão que as mulheres usem véu, meias,luvas e roupa larga e, se não o fizerem, o homem que as acompanha será chicoteado”. Ahmad disse também que as condições de vida se deterioraram drasticamente e as ações dos membros do EI se tornaram mais arbitrárias: "Levaramalimentos sem pagar e confiscaram grande parte do meu stock com o pretexto de apoiar os milicianos do Estado islâmico. Tudo é caro e as lojas estão meio vazias. Os mercados estavam cheios de gente há num ano, o que não aconteceu nos últimos dez meses, porque muitas pessoas fugiram e as que ficaram estão no desemprego". Não existe rede elétrica há sete meses e todos dependem dos geradores privados que funcionam com combustível refinado localmente. Este está disponível em todo lado, mas é caro e o combustível é de tão má qualidade que só funciona nos geradores e não nos automóveis - e os geradores avariam-se com frequência. Há escassez de água potável. "A cada dez dias, há água durante duas horas," disse Ahmad. “A água que sai das torneiras não é limpa, mas temos de a beber". Não há rede de telefone móvel e a Internet só está disponível em alguns cyber-cafés que são vigiados de perto pelas autoridades. Há sinais de crescente criminalidade e corrupção, embora esta possa ser sobretudo uma evidência de que o EI está a necessitar desesperadamente de dinheiro. Quando Ahmad decidiu fugir contactou com um dos muitos contrabandistas que operam na zona situada entre Mossul e a fronteira síria. Ele assinalou que o custo cobrado a cada pessoa pela viagem até Rojava fixa-se entre 400 e 500 dólares. “Muitos dos contrabandistas são homens do EI”, referiu, mas não sabia se os líderes da organização sabiam o que estava aacontecer. Eles têm conhecimento, sem dúvida, das crescentes queixas sobre as condições de vida, já que citaram um hadith(palavras do Profeta) contra tais queixas. Aqueles que violem o hadith são detidos e enviados para reeducação. A conclusão de Ahmad: "Os ditadores tornam-se muito violentos quando sentem que o seu fim se aproxima”.

Até que ponto está correta a previsão de Ahmad de que o Califado está nos seus últimos dias? Está certamente a debilitar-se, mas isso acontece essencialmente porque a guerra se tem vindo a internacionalizar desde 2014 com a intervenção militar dos EUA e da Rússia. Os poderes locais e regionais contam agora menos. Os exércitos do Iraque e da Síria, as YPG e os peshmerga podem conquistar vitórias ao EI graças ao apoio aéreo massivo. Podem ganhar a batalha e, provavelmente, podem reconquistar as cidades ainda sob o controlo do EI, mas nenhum deles seria capaz de atingir plenamente os seus objectivos de guerra sem o respaldo contínuo de uma grande potência. No entanto, uma vez que o Califado seja derrubado, os governos centrais em Bagdad e Damasco poderão tonar-se mais fortes novamente. Os curdos perguntam-se se correm o risco de perder tudo o que conseguiram conquistar até agora na guerra contra o Estado Islâmico.

2 de março de 2016

As primárias não acabaram

Cinco teses sobre resultados obtidos na "Super-Terça"

Corey Robin


Jorge Sanhueza-Lyon / KUT News

I

Bernie Sanders ganhou em quatro estados: Oklahoma, Minnesota, Vermont e Colorado. Hillary Clinton venceu em sete estados: Alabama, Arkansas, Geórgia, Massachusetts, Tennessee, Texas e Virgínia. Isso significa que, no total, Sanders tem cinco estados (esses quatro além de New Hampshire) e Clinton tem dez (os sete mais Nevada, Iowa e Carolina do Sul).

Mas eis aqui o ponto fundamental: as eleições em Nevada, Iowa e Massachusetts foram ou apertadas ou extraordinariamente apertadas. Um pouco mais de tempo aqui, um pouco mais de organização ali, e poderiam facilmente ter virado para o lado dele. Em outras palavras, Sanders poderia com facilidade ter sete estados agora, contra os oito de Clinton. Ele não tem, e o "e se" se resume a uma suposição. Mas o que isso significa, olhando para a frente, é que temos a oportunidade de transformar uma potencialidade em realidade. Temos tempo, temos organização, temos dinheiro: vamos usar de tudo.

A arma mais forte de Clinton é a aura de inevitabilidade que ela e seus apoiadores e a mídia inventaram ao redor dela. Parte disso é baseada na realidade, parte é baseada em superdelegados (que me recuso a admitir), e parte é baseada na promoção de marketing político. Não dê espaço aos superdelegados, não dê espaço ao marketing político.

II

A pesquisa de boca de urna de Massachusetts, onde Clinton ganhou por pouco, é fascinante. Aqui estão alguns destaques:

  1. Sanders conseguiu 41% dos eleitores não-brancos (eles não distinguem a categoria além disso). Eu vou voltar para isso depois.
  2. Sanders ganhou de Clinton entre os eleitores que ganham menos de US$ 50 mil e eleitores entre US$ 50 mil e US$ 100 mil. O único grupo por renda em que ela ganhou foi de eleitores que ganham mais de US$ 100 mil.
  3. Entre os eleitores de primeira viagem, Sanders ganhou uma parcela enorme de 71% dos votos.
  4. Entre os independentes, Sanders tem 65% dos votos.
  5. Sanders ganhou entre eleitores muito liberais e eleitores moderados.
  6. Clinton foi melhor entre mulheres casadas do que entre mulheres solteiras.

Além disso, relacionado com a questão de gênero, Sanders quase empatou com Clinton em Oklahoma entre as mulheres eleitoras (48% para Clinton, 46% para Sanders).

III

Vi várias declarações de que Sanders está ganhando apenas por causa dos homens brancos, dentre todos os outros demográficos ele perde. Isso simplesmente não é verdade.

Em Vermont e em New Hampshire, ele ganhou de Clinton entre todas as mulheres eleitoras. Em Oklahoma, como já disse, ele quase empatou com ela entre as eleitoras. Em Nevada, ele quase empatou com Clinton entre os eleitores latinos (embora os especialistas ainda estejam debatendo esse ponto). Em Massachusetts, como já dito, ele tem 41% dos eleitores não-brancos.

Não temos nenhuma pesquisa de boca de urna do Colorado e de Minnesota (pelo menos não no site da CNN, que é o que estou usando), mas dado o tamanho de suas vitórias lá, eu ficaria surpreso se Sanders não tivesse ganhado ou empatado com Clinton entre os eleitores não-brancos e talvez até entre as mulheres.

IV

A questão da raça e da demografia na campanha é fascinante. Não há dúvida nenhuma de que Clinton lidera entre os eleitores afro-americanos. Ela ganhou essa parte do eleitorado em cada votação até agora.

Mas é aqui onde as coisas ficam interessantes. Na segunda metade do ano passado, quando foi levantada entre os apoiadores de Clinton e de Sanders a questão da disparidade de gênero, Matt Bruenig apontou de forma muito inteligente que a diferença nisso era tanto geracional quanto etária: mulheres mais jovens estavam apoiando Sanders, mulheres mais velhas apoiavam Clinton. Muitas pesquisas e resultados primários têm confirmado sua previsão.

Imagino se não estamos prestes a ver algo semelhante — talvez tão dramático quanto — com os eleitores não-brancos. O fator transversal aqui não é só idade — Bruenig também mostrou que eleitores jovens e negros tendem a ir em direção a Sanders (veja o gráfico ao fim deste post), e, até na Carolina do Sul, Sanders foi bem melhor entre os eleitores negros e jovens do que entre os negros mais velhos —, mas também a região.

Pense bem. Com exceção de Nevada, os Estados onde houve um forte apoio para Clinton entre os eleitores não-brancos foram todos no sul. E em Nevada, os eleitores latinos quase preferiram Sanders (embora, novamente, os resultados têm sido uma fonte de conflito).

Mas fora do sul e de Nevada, houve eleições primárias em três estados que são virtualmente brancos (Vermont, New Hampshire e Iowa) e três outros estados que, embora o branco seja maioria, possuem uma população mais diversa (Colorado, Minnesota e Massachusetts). Em Massachusetts, Sanders teve 41% do voto não-branco. Em comparação com todos os estados do sul, isso é deslumbrante.

Assim, a divisão racial é uma realidade e um problema para Sanders — não me entenda mal —, mas pode ser mais complicado do que as pessoas têm afirmado.

V

Fora do sul, Sanders venceu ou quase venceu em todos os Estados. De agora em diante, muitos Estados são um território muito mais amigável para ele. A menos que nossos cérebros estejam completamente atrapalhados pelo olhar da vida política através dos midiáticos Nate Silvers (comentarista que faz predições sobre as eleições, além de esportes) e Vox (empresa de mídias digitais) — onde cada pesquisa é uma predestinação, cada superdelegado um fato da natureza, onde todo mundo é um realista maluco, em vez de cidadãos ativistas — desistir a esta altura seria a definição plena da insanidade.

Esta é uma batalha difícil, sempre tem sido. E daí? Caminhamos. Vorwärts. Sempre.

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