18 de fevereiro de 2021

Em Kent

Tudo sobre a vida profissional média de alguém em Swale ou Sheppey os coloca em risco. Muito disso tem a ver com a necessidade de sair para trabalhar. As pessoas na ilha têm maior probabilidade do que a população em geral de usar o transporte público para chegar ao trabalho, fazendo turnos de oito ou mais horas por dia em depósitos ou canteiros de obras. E as pessoas com pouco dinheiro têm maior probabilidade de cuidar de parentes doentes ou idosos.

Patrick Cockburn


Vol. 43 No. 5 · 4 March 2021

Em outubro do ano passado, o número de infectados da Covid-19 começou a aumentar nas cidades costeiras ao nordeste de Kent [vizinha de Londres e banhada pelo Atlântico, no Canal da Mancha]. A região havia driblado bem a primeira onda da pandemia até a primavera, e muitos de seus moradores diziam não conhecer ninguém que tivesse contraído o vírus. Após o fim do lockdown, no dia 4 de julho, pairava no ar a sensação de que a crise havia acabado — assim, houve pouco alarme quando o número de infecções começou a aumentar. Os distritos mais afetados foram Thanet, que inclui as cidades de Margate, Broadstairs e Ramsgate; e Swale, mais a oeste, cujos principais centros populacionais são Sittingbourne, Faversham e a Ilha de Sheppey, próxima da costa. Em novembro, o número de casos aumentou vertiginosamente e logo o nordeste de Kent tinha as maiores taxas de infecção do país. Em meados do mesmo mês, o distrito municipal de Sheppey East, na Ilha de Sheppey, teve uma taxa de infecção de 1,9 mil para 100 mil — sete vezes o nível do Reino Unido como um todo.

O lockdown e seu complexo sistema de diferentes níveis para cada região, parecia que supunha um vírus de mobilidade limitada, que respeitaria fronteiras municipais. Mas começava a ficar evidente que, independentemente da eficácia do lockdown em outras regiões do Reino Unido, ele não estava funcionando neste canto de Kent. O surto de infecções avançou inexoravelmente para o interior, em direção ao lugar que eu moro, em Canterbury, a quinze milhas de Margate e dez milhas de Faversham.

Não surpreende que os distritos de Swale e Thanet tenham sido gravemente afetados: essas são áreas reconhecidas pela sua pobreza, e é muito provável que essa característica tenha propiciado um terreno ideal para a reprodução do vírus. Swale e Thanet são os principais exemplos da Grã-Bretanha litorânea, lugares em decadência, onde hotéis e pousadas quebrados foram transformados em apartamentos de um quarto, onde poucos podem trabalhar de casa porque seus empregos não o permitem; e onde, de qualquer jeito, as moradias são pequenas demais para conseguir trabalhar nelas. Anos de austeridade já haviam cortado o financiamento e os benefícios dos quais estas cidades dependiam. As pessoas são mais vulneráveis ao vírus aqui porque sua saúde já era precária antes da pandemia e seu acesso à saúde muito limitado: em Swale, a proporção de médicos de família para os residentes é menor do que em qualquer outro canto da Inglaterra. A desigualdade é extrema: uma mulher que habita a ala mais rica de Thanet viverá, em média, 22 anos a mais do que uma mulher da ala mais pobre.

De certa maneira, achei reconfortante refletir sobre os fatores favoráveis à disseminação do vírus nas cidades costeiras de Swale e Thanet que podem não se aplicar a uma cidade do interior como Canterbury. Na extremidade leste da Ilha de Sheppey, existem três prisões, com cerca de três mil prisioneiros, onde se sabe que houve um surto de Covid-19. Muitas pessoas insistem que as prisões devem ser a razão por trás da alta taxa de infecção na ilha — embora um oficial de saúde pública já tenha dito que apenas 20 por cento das infecções locais foram registradas em prisões ou lares de idosos. Outra explicação para a epidemia era que ela tinha a ver com imigrantes. Thanet já foi o coração do UKIP (UK Independence Party, um partido político britânico eurocético e de direita), único lugar onde o partido ganhou o controle do conselho local.

Os moradores de Margate reclamam dos imigrantes dando festas, se aglomerando nas ruas sem máscaras e assoando o nariz de maneira arriscada. “Você se cansa de ouvir as pessoas dizendo que eles [os imigrantes] trazem o vírus”, disse-me Ivor Riddell, um sindicalista e condutor de ferrovias. “Tudo isso faz parte da crença de que se nos livrássemos dos imigrantes, poderíamos voltar à década de 1950.”

Algumas dessas explicações pareciam verossímeis, outras eram um bode expiatório escancarado — mas todas se revelaram igualmente incorretas. No final de novembro, a epidemia se espalhava rapidamente ao longo do estuário do Tâmisa, passando por Medway, Gravesham e Dartford, a oeste; e em direção a Canterbury e Maidstone, ao sul. Os trabalhadores da saúde pública prometeram um “mergulho profundo” nas razões da deterioração da situação, mas pareciam perplexos, recomendando apenas que as pessoas cumprissem com mais rigor as restrições. Em Londres, os cientistas que dirigiram o plano nacional de resposta à Covid-19 ficaram igualmente perplexos quanto ao motivo pelo qual o lockdown funcionava dentro do esperado em todo o país, menos aqui.

Uma nova variante do vírus havia sido detectada em Kent já em 20 de setembro, mas seus poderes ainda não tinham se tornado visíveis. Eventualmente, os níveis de infecção chamaram a atenção geral. Em 23 de dezembro, Peter Horby, presidente do NERVTAG – Grupo de Orientação sobre Ameaças de Vírus Respiratórios Novos e Emergentes, declarou: “esta variante tornou-se interessante porque, apesar do lockdown nacional, ocorreu uma investigação em Kent, no início de dezembro, devido ao número crescente de casos”.

Já era tarde demais para tentar isolá-la. A nova cepa já vinha desenfreada, deslocando rapidamente o vírus original em Kent, Londres e em todo o sudeste. Em 18 de dezembro, a NERVTAG concluiu que a variante “começou em Kent, provavelmente de uma pessoa, e depois se expandiu”. Também estimaram que ela era entre 30% e 70% mais infecciosa do que a cepa original. Na última semana de dezembro, aquela que vinha ganhando fama como “a variante Kent” — seu nome científico é B.1.1.7 — era dominante na Inglaterra. Em fevereiro, a variante já havia se espalhado para 83 países e foi detectada inclusive na Nova Zelândia, que até então tinha cercado com sucesso o Covid-19; nos EUA, os cientistas esperavam que se tornasse a variante dominante em março.

A NERVTAG não deu detalhes do local específico de Kent onde a variante foi localizada pela primeira vez, mas o Covid-19 Genomics UK Consortium (algo como um Consórcio Britânico do Genoma da Covid-19 — composto por um grupo de agências de saúde pública e instituições acadêmicas) revelou que uma amostra-chave teria vindo de um paciente que vivia “perto de Canterbury”. Uma fonte médica, que solicitou anonimato, me contou que a variante foi identificada pela primeira vez em Margate e que veio de alguém com um sistema imunológico fraco. Alguns em Kent sentiam aversão à perspectiva do novo vírus ficar conhecido na história como “a variante de Kent”, traçando um paralelo com o “vírus chinês” de Trump, ou a “gripe espanhola” que nem veio da Espanha (ela se tornou uma epidemia nos campos de treinamento militar dos EUA).

Seria difícil encontrar um lugar onde o coronavírus tivesse maior probabilidade de florescer e aprimorar seu modo de ataque do que Thanet e Swale. Como em grande parte da costa da Grã-Bretanha, poucas cidades ainda funcionam com portos ou resorts à beira-mar. A antiga indústria praticamente sumiu — levando consigo os poucos empregos bem remunerados possíveis. Dos quinze bairros mais carentes de Kent, sete estão em Thanet e seis em Swale. “Perdemos a indústria de mineração e o porto de Ramsgate, que era um grande empregador”, diz o vereador do Partido Trabalhista, Barry Lewis, lamentando os repetidos golpes que Margate tem sofrido nos últimos quarenta anos. As indústrias hoteleira e turística entraram em colapso “quando todos começaram a viajar para o exterior nas férias”. A última grande indústria na região foi a fábrica da Pfizer, perto de Sandwich, que fechou em 2011 e acarretou na perda de 1.500 empregos. Os empregos que restaram são geralmente para trabalho intermitente — o chamado “contrato zero-hora”. Um mapa que destaca as áreas de maior miséria coincide quase que perfeitamente com outro que indica as altas taxas de infecção viral.

Tudo na vida profissional média de qualquer pessoa de Swale ou Sheppey os coloca em risco. Muito disso tem a ver com a necessidade de sair para trabalhar. Como disse Jackie Cassell, especialista em saúde pública da Brighton and Sussex Medical School que cresceu em Sheppey, “a pobreza é um mecanismo para aumentar o contato social”. As pessoas na ilha têm uma maior probabilidade do que a população em geral de usar o transporte público para ir ao trabalho, fazendo turnos de oito ou mais horas por dia em armazéns ou em canteiros de obras. E as pessoas com pouco dinheiro têm também mais chances de cuidar eles mesmos de parentes doentes ou idosos. Em um estudo sobre padrões de trabalho, Cassell descobriu que, em média, alguém que sai para trabalhar tem doze períodos prolongados ou próximos de contato com as pessoas e dezessete breves ou distantes; aqueles que trabalham em casa têm apenas dois períodos de contato próximos ou prolongados e dois breves ou distantes.

O efeito que isso tem na prática depende da natureza do trabalho e do empregador. Riddell, o sindicalista e condutor ferroviário, diz que a proporção de passageiros que usam máscaras no trem varia de linha para linha, mas o trecho de Sittingbourne a Sheerness (no lado oeste de Sheppey) é particularmente arriscado para os funcionários ferroviários porque “entre 50% e 60% das pessoas, principalmente os mais jovens, não usam máscaras”. Como condutor, ele pode ficar na cabine da frente com o motorista e não precisa verificar as passagens dos passageiros. Mas Sue Saunders, que trabalha como faxineira nos trens, tem que andar pelos vagões borrifando desinfetante e limpando superfícies.

Sue conta: “Temos viseiras, máscaras e luvas, mas tememos pela nossa segurança e vários de meus amigos já pegaram Covid”. Os faxineiros costumam ser as únicas pessoas vestidas com uma certa oficialidade nos trens e, de acordo com Saunders, são frequentemente parados por passageiros que precisam de informações. Ela diz que a higienização poderia ser feita quando os trens estão vazios entre as viagens, mas que as companhias ferroviárias querem que os passageiros vejam os limpadores trabalhando.

O compromisso com as restrições à interação social expirou em larga escala durante o verão. Sharon Goodyer, que dirige o Margate Food Club, diz que seus voluntários às vezes não conseguiam distribuir alimentos com segurança em áreas pobres porque tinham que abrir espaço empurrando as pessoas sentadas nas portas e se aglomerando na rua. “Tenho a sensação”, diz ela, “de que se essa nova variante começou em Margate, e então ganhamos ela”. Mas ressalta que mesmo as pessoas pobres precisam sair de casa: “Você não pode julgar se você mora numa boa casa e não tem ratos moribundos embaixo de sua cadeira”. Barry Lewis menciona uma rua em Margate com cerca de duzentas casas superlotadas, onde os residentes alugam quartos minúsculos a preços abusivos. “É quase uma prisão, então sair para a frente da casa faz parte de seu modo de vida normal, e ficar preso em um cômodo superlotado não é viável”.

A chegada da variante mudou a atitude das pessoas. Vanessa Crick, mãe de três filhos em Herne Bay, uma cidade decadente na costa entre Swale e Thanet, tem dois empregos: um na biblioteca local, e o outro, num supermercado. Ela diz: “Desde novembro passado, mais pessoas começaram a usar máscaras porque temem por seu avô ou sua avó”. Charlotte Cornell, que dirige uma instituição de caridade que distribui laptops para a educação à distância de crianças em áreas carentes, diz que nenhuma das famílias com as quais ela lida é arrogante em relação ao vírus: “Todos têm pavor dele”.

Quando especialistas em saúde pública foram enviados a Kent no final do ano passado para investigar as razões da epidemia local, eles suspeitavam que a propagação seria atribuível a ações humanas em casa ou no local de trabalho. O que sabiam era que tudo na vida das pessoas em Thanet e Swale favorecia uma transmissão acelerada do vírus. O ambiente também era um fator: balneários decadentes têm muitos hotéis antigos com vista para o mar, cuja grandeza desbotada os torna ideais para a conversão em lares de idosos. Em maio passado, dezessete residentes morreram de Covid-19 em um lar de idosos em Margate, mas as mortes massivas em asilos foram um escândalo em toda a Grã-Bretanha — não houve nada de peculiar em Thanet.

Um motivo mais provável para a rápida disseminação era que muitas pessoas tinham bons motivos para não fazerem testes de Covid. Pessoas que testam positivo, mas que precisam trabalhar e não recebem auxílio se faltarem ao emprego, não podem ficar de quarentena. “Jovens do sexo masculino em áreas economicamente carentes não querem fazer o teste”, diz Jackie Cassell sobre Swale. Ela aponta para um estudo feito em Liverpool, onde apenas 4% das pessoas em um dos bairros mais pobres da cidade se ofereceram para um teste. Desde o início da pandemia, o governo tem sido volúvel sobre as restrições que impõe, e evasivo sobre até que ponto as pessoas as cumprem. Um estudo do King’s College London mostrou que, enquanto 70% das pessoas disseram que se isolariam se fosse necessário, apenas 18% cumpriram.

As pessoas que não fazem o teste porque não podem bancar a quarentena se comportam de maneira discreta. Mas há outros grupos que também não querem chamar a atenção de nenhuma autoridade. Graham Tegg, diretor da Kent Law Clinic, que fornece assistência jurídica gratuita, diz que há “um sistema subterrâneo” de trabalhadores imigrantes, cuja maioria vive na Grã-Bretanha há muito tempo e deseja manter distância das instituições estatais. Muitos de seus clientes são tchecos, poloneses e ciganos. Alguns colhem frutas e vegetais ou trabalham em fábricas de embalagens; recolhidos por minivans pela manhã, trabalham dez horas e voltam à noite na mesma van. “Três ou quatro deles podem estar morando no mesmo pequeno cômodo”, diz Tegg, fornecendo condições perfeitas para o vírus se espalhar.

Mas a maioria das pessoas em Thanet e Swale não têm “conexão com as autoridades”, de acordo com Barry Lewis: só veem a autoridade em ação quando a polícia os impede de fazer algo que desejam fazer. Alguns deles são desempregados de terceira geração, cuja única perspectiva de ganhar dinheiro está no mercado negro ou no comércio de drogas — descritos por um habitante como a única indústria em crescimento em Thanet. “O que temos aqui é uma comunidade inteira que não tem nenhum investimento na sociedade”, diz Sharon Goodyer. "Eles devem algo a alguém? Não. Eles não recebem uma educação decente nem possuem uma casa decente, um emprego decente. Então, por quê que eles deveriam se comportar de maneira responsável?"

Patrick Cockburn é correspondente do Oriente Médio para o Independent desde 1990. Seus livros incluem um livro de memórias, The Broken Boy, bem como vários estudos sobre o conflito no Iraque e Behind Enemy Lies: War, News and Chaos in the Middle East.

A eleição do Equador foi um repúdio maciço ao neoliberalismo

O primeiro turno da eleição presidencial no Equador terminou com o candidato de esquerda, Andrés Arauz, em primeiro lugar. Foi um repúdio total à agenda neoliberal de Lenín Moreno. Mas é necessário mais trabalho para cimentar uma coalizão que possa ganhar o poder e um programa anti-austeridade.

Denis Rogatyuk

Jacobin

O candidato presidencial Andrés Arauz comemora com simpatizantes em Quito, capital do Equador, após terminar na frente o primeiro turno (Franklin Jacome / Getty Image).

O primeiro turno das eleições presidenciais do Equador, realizado em 7 de fevereiro, terminou em caos e polêmicas. Mas também foi marcado por uma mudança do mapa político local — com o fim do domínio de curta duração dos atuais atores neoliberais do país, que voltaram ao poder com a traição realizada pelo presidente Lenin Moreno, eleito à presidência em 2017 com um programa de esquerda apoiado pelo ex-presidente progressista Rafael Correa.

Os dados pós-eleitorais consolidaram uma nova realidade, marcada pela derrota dos partidos conservadores tradicionais e, ainda, pelo surgimento de novas forças centristas e liberais que buscam herdar o manto anticorreísmo. É inegável, contudo, o retorno do Movimento Revolução Cidadã como a principal força política do país, apesar da campanha mais intensa de perseguição e repressão legal desde os governos autoritários da década de 1980.

O candidato mais bem colocado foi o esquerdista Andrés Arauz, apoiado pelo ex-presidente Rafael Correa e sua Revolução Cidadã: ele ganhou quase um em cada três votos e sua coalizão eleitoral, a União pela Esperança (UNES), se tornou a maior força na Assembleia Nacional. Enquanto isso, a aliança dos dois partidos conservadores tradicionais, o Movimento Criando Oportunidades (CREO) e o Partido Social Cristão (PSC), liderado pelo banqueiro mais conhecido do Equador, Guillermo Lasso, obteve menos de 20% dos votos — uma perda de mais da metade da força desse setor em comparação com 2017. Ainda mais surpreendente foi o surgimento de dois recém-chegados, Carlos “Yaku” Pérez, do partido indigenista Pachakutik, com 19,5% das preferências, e Xavier Hervas, do liberal Esquerda Democrática, com 16%.

Na eleição paralela para a Assembleia Nacional, a UNES de Arauz obteve 49 das 137 cadeiras, enquanto a coalizão CREO-PSC ganhou 30, Pachakutik 27 e a Esquerda Democrática somou 18. O partido Aliança PAIS, do presidente neoliberal, Lenín Moreno, abalado por protestos massivos contra as reformas apoiadas pelo FMI no outono de 2019, pontuou menos de 1,5% e foi eliminado do parlamento.

À primeira vista, o resultado é uma espécie de decepção para a Revolução Cidadã, um movimento que dominou a política do Equador durante a presidência de Correa de 2007 a 2017 e se tornou a principal oposição ao governo de Lenín Moreno — que se apossou da legenda do Aliança PAIS. Os líderes da UNES esperavam vencer ainda no primeiro turno (o que exigiria pelo menos 40% de apoio, mais 10% de vantagem sobre o segundo colocado) e uma maioria absoluta na Assembleia Nacional.

A Revolução Cidadã conquistou a maioria dos cantões do país (103 de 221) — que são quase equivalentes aos municípios brasileiros — junto com oito regiões e as províncias costeiras estrategicamente importantes de Guayas — onde fica Guayaquil, a maior cidade do país — Manabí, Esmeraldas e El Oro.

Arauz, seu companheiro de chapa Carlos Rabascall e outros candidatos da UNES também dominaram a votação no exterior. No entanto, a maior parte da região montanhosa do país (particularmente Cotopaxi, Bolívar e Chimborazo) e a Amazônia foram conquistadas por Pérez, enquanto Lasso venceu apenas as províncias de Galápagos e Pichincha — esta última onde fica a capital do país, Quito. Assim, o destino da presidência equatoriana será decidido no segundo turno, que será realizado no dia 11 de abril.

Um por todos e... todos contra um

Desde que Moreno rompeu com o legado reformista de Correa e, em vez disso, abraçou as elites econômicas e políticas do país, a Revolução Cidadã é vítima de uma campanha interminável de Lawfare na tentativa de eliminá-la do mapa político e impedir seu retorno à presidência.

Jorge Glas, ex-vice-presidente de Correa e idealizador das transformações econômicas do Equador durante o período de 2013 a 2017, continua preso na prisão de segurança máxima de Latacunga, em Quito, apesar de seu estado de saúde frágil e, ainda, uma infecção por COVID-19. Mais de trinta processos judiciais duvidosos, que vão desde suborno e sequestro, foram iniciados contra Correa desde 2018 em uma tentativa de enterrar seu legado de mudanças radicais na economia e na sociedade.

Outros líderes proeminentes, como o ex-ministro das Relações Exteriores Ricardo Patiño, a ex-chefe da Assembleia Nacional, Gabriela Rivadeneira, e o proeminente líder indígena Carlos Viteri, foram forçados ao exílio no México. A atual governadora da província Pichincha, Paola Pabón, o membro recém-eleito do Parlamento Andino, Virgilio Hernández, e o líder de movimento social, Christian Gonzalez, foram todos presos após o levante de outubro de 2019 contra o governo de Moreno e suas tentativas de impor “reformas” do FMI. Vários outros ativistas e quadros políticos também sofreram calúnias, perseguição, exílio ou prisão.

O processo de registro da chapa presidencial de Arauz-Rabascall também foi repetida e deliberadamente paralisado pelas autoridades eleitorais do país, antes do início da campanha. A chapa original, com Rafael Correa na condição de vice de Arauz, foi rejeitada com base no fato do ex-presidente estar em autoexilado do Equador em virtude da perseguição judicial e por não ter residência atualmente no país (embora a lei eleitoral equatoriana permita que os candidatos se registrem do exterior). Já a nomeação de Rabascall como candidato a vice-presidente também foi rejeitada pelo Conselho Eleitoral Nacional (CNE) com o fundamento de que não foi eleito por uma assembleia popular. Outras tentativas de bloquear suas candidaturas atrasaram seu registro final até 8 de dezembro (apenas três semanas antes do início da campanha), e mesmo assim as contestações legais continuaram.

Outra tentativa malsucedida de desqualificar Arauz aconteceu em 31 de janeiro, pelas mãos de Luis Verdesoto, um funcionário do CNE intimamente ligado à Guillermo Lasso. Verdesoto alegou uma suposta compra de votos baseado no fato de que a campanha de Arauz estava realizando testes de COVID-19 em seus centros de campanha. Isso foi rejeitado depois que nenhuma reclamação foi feita contra a maioria dos outros candidatos, que também realizavam testes de COVID-19 da mesma forma.

A mídia e a campanha política contra Arauz foram dominadas por três aspectos principais: sua retratação como um “marionete” de Correa, o uso de contas falsas no Facebook e Twitter para divulgar vídeos fraudulentos e fake news sobre as propostas econômicas de Arauz (e impulsionar as campanhas de Lasso e Pérez), e, por fim, a interferência de atores políticos e da mídia estrangeiros.

O bordão que descreve Arauz como uma “marionete” de Correa foi amplamente usado pelas forças de direita para retratá-lo como não inteligente e dependente do ex-presidente. Ironicamente, isso também ajudou a associar a candidatura de Arauz a Correa, que mantém ampla popularidade entre a classe trabalhadora e setores da classe média que cresceram durante sua presidência.

Uma ameaça mais séria à campanha de Arauz veio na forma de uma “investigação” conduzida pela revista colombiana Semana. Nela, se alega que o movimento guerrilheiro de esquerda Exército de Libertação Nacional (ELN) financiou sua campanha por meio da Internacional Progressista, desde a primeira conferência que aconteceu no último em setembro de 2020. O absurdo da denúncia pode ser comparado a uma campanha semelhante de calúnia contra Rafael Correa em 2010-11, quando sua campanha eleitoral de 2009 foi acusada de ter recebido financiamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Tanto Arauz quanto David Adler, o diretor da Internacional Progressista, consideraram as alegações uma tentativa desesperada de calúnia.

A investigação da Semana logo evoluiu para uma intervenção total do sistema judiciário colombiano nas eleições equatorianas, inclusive com o Procurador-Geral da República Francisco Barbosa fazendo uma visita oficial a Quito para entregar as supostas provas vinculando o ELN à campanha de Andrés Arauz. A intervenção de Barbosa (conhecido por sua estreita amizade com o presidente colombiano Iván Duque) foi amplamente condenada como uma tentativa de intervir no processo eleitoral equatoriano e uma tentativa de desqualificar Arauz de participar do segundo turno.

Ernesto Samper, um ex-presidente colombiano centrista, insistiu que as denúncias são “parte de um jogo sujo que está sendo orquestrado na Colômbia por setores radicais da direita dos dois países para interferir no segundo turno das eleições presidenciais equatorianas“.

Outro vídeo de campanha falso alegou que a equipe de Arauz estava oferecendo 250 dólares para os eleitores irem aos seus comícios. Esta história foi retomada e republicada pelo jornal Clarín da Argentina, conhecido por sua forte oposição ao peronismo e à esquerda em geral.

A distribuição do vídeo também ajudou a revelar uma vasta rede de bots e trolls operando nas redes sociais, a maioria afiliados às campanhas de Guillermo Lasso e Yaku Pérez. Um estudo completo conduzido pelo guru espanhol da campanha digital, Julián Macias, também demonstrou as fortes conexões entre Lasso e os vários think tanks e institutos de extrema direita, anarcocapitalistas e da direita mundial, sendo a Atlas Network a mais notória.

No entanto, mesmo com essa rede de conexões, Lasso quase não conseguiu chegar tranquilamente ao segundo turno, pois um desafiante inesperado surgiu.

Os dilemas da CONAIE e do Pachakutik

Aascensão de Yaku Pérez como possível adversário no segundo turno com Andrés Arauz foi uma das grandes surpresas da eleição. A maioria da imprensa liberal o apelidou de “nova face da esquerda do Equador” e uma alternativa “ecossocialista” ao que eles consideram a esquerda “autoritária” de Correa e Arauz.

Ex-líder da organização indígena ECUARUNARI e governador da província de Azuay, Pérez ganhou destaque durante os protestos anti-Correa de 2015 que se opunham a uma série de novos impostos sobre os super-ricos e à possibilidade de reeleição de Correa em 2017. Pérez, junto com sua esposa franco-brasileira, a acadêmica Manuela Picq, tradicionalmente têm sido ferrenhos opositores da Revolução Cidadã, chegando a apoiar a candidatura de Lasso na corrida presidencial de 2017.

Desde então, Pérez tem freqüentemente assumido posições de apoio às várias forças de direita no Equador e em toda a América Latina. Ele apoiou abertamente o golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff em 2016, a campanha judiciária contra Cristina Kirchner na Argentina, a campanha dos Estados Unidos para derrubar Nicolás Maduro na Venezuela, bem como apoiou o violento golpe contra Evo Morales em novembro de 2019.

Um olhar mais atento sobre a história de Peréz como líder indígena pinta um quadro ainda mais sinistro. Relatórios documentaram seus laços com várias ONGs que durante anos receberam o apoio financeiro e político de agências ligadas aos EUA, como a USAID e o National Endowment for Democracy. Ele também manteve várias reuniões e negociações com a embaixada dos Estados Unidos em 2019, antes do levante de outubro. A exemplo da ONG boliviana anti-Morales e pró-golpe Standing Rivers, afiliada à Atlas Network, liderada por Jhanisse Vaca Daza, Pérez e Picq há anos tentam retratar Correa como um líder anti-indígena e anti-ambiental que busca um “modelo extrativista” de desenvolvimento.

Assim como acontece com as críticas equivalentes a Evo Morales, essas acusações caem um tanto quanto consideramos a mudança radical implementada por meio da Constituição de Montecristi de 2008, que reconheceu a identidade plurinacional do Equador, os direitos da natureza e a importância dos princípios indígenas Sumak Kawsay (Bem Viver). Mais importante ainda, o governo de Correa iniciou um processo de transição de energia verde sob a supervisão do vice-presidente Jorge Glas, com o enorme projeto de energia hidrelétrica Coca Codo Sinclair na província de Napo. Isso também lançou as bases para uma transição de uma economia dominada pela exportação de petróleo por meio de uma série de iniciativas, como novos projetos de infraestrutura e aumentos maciços nos gastos nos setores de educação pública e saúde.

Ao mesmo tempo, a Confederação das Organizações Indígenas do Equador (CONAIE) está longe de ser unânime em seu apoio a Pérez. Apesar de se opor a Correa durante a maior parte de seu mandato (e até mesmo apoiar a tentativa de golpe de 2010 contra ele), vários líderes e organizações afiliadas reconheceram o perigo de uma presidência Lasso.

O mais proeminente deles foi Leônidas Iza, presidente do movimento indígena Cotopaxi, e um dos principais organizadores dos levantes de outubro de 2019 contra Moreno. Em uma entrevista ao proeminente jornalista Jimmy Jairala, ele afirmou que “elementos de direita da organização de Lasso estavam dentro do círculo interno de Pérez” em busca de seu apoio para Lasso no segundo turno. Além disso, em 12 de fevereiro, ele, junto com outros quadros de esquerda do Pachakutik, declarou sua oposição a qualquer tipo de acordo com Lasso ou seu partido.

É importante notar também que embora a CONAIE tenha endossado a escolha de Pérez como candidato presidencial, ela não organizou explicitamente uma campanha pública. Muitos líderes importantes, como Iza e Jaime Vargas, se abstiveram de fazer declarações em apoio a Pérez. Este é provavelmente o resultado de uma série de reuniões e negociações realizadas entre Vargas, Iza e Andrés Arauz, a primeira delas organizada em Cochabamba, Bolívia, e mediada pelo ex-presidente boliviano Morales. Arauz também se encontrou com Vargas e outros líderes indígenas durante sua campanha na região da Amazônia e insistiu que estava ansioso por um “relacionamento positivo” com a CONAIE e outras organizações em seu futuro governo.

Em suma, a escolha de Yaku Pérez para representar os interesses da Pachakutik e das nações indígenas do Equador ecoa a escolha sem brilho de Lenín Moreno em 2017 para representar os interesses da Revolução Cidadã e da classe trabalhadora do Equador — um homem que acabou por ser qualquer coisa, menos seu líder.

Sem dúvida, o movimento indígena CONAIE terá um papel significativo no segundo turno das eleições equatorianas. Sua decisão sobre quem apoiar terá que refletir as novas realidades políticas do país — escolher entre o ressurgente movimento de esquerda sob a liderança de Andrés Arauz ou a política do passado neoliberal com Guillermo Lasso.

O segundo turno

Durante a semana de espera pelos resultados finais, Pérez liderou uma campanha intensa e às vezes surreal, proclamando sua conquista do segundo lugar e exigindo uma recontagem total dos votos. Ele alegou que a CNE era controlada por Correa (apesar dos esforços, bem-sucedidos, deste órgão para excluí-lo da corrida eleitoral de 2021) e até que o ex-presidente conspirou junto com Lasso para impedi-lo de chegar ao segundo turno

Em uma reunião mediada pela Organização dos Estados Americanos (OEA) entre Lasso e Pérez, em 12 de fevereiro, resultou em um acordo para a recontagem total de todos os votos na província de Guayas, onde Arauz e Lasso dominaram a corrida e Pérez ficou em quarto lugar. Ao mesmo tempo, vários líderes políticos contrários a Correa e Arauz pediram a criação de uma “frente anti-Correa” para o segundo turno em 11 de abril.

Além disso, Hervas da Esquerda Democrática também pediu uma unidade de forças políticas contra a “esquerda extremista e corrupta de Correa”, apesar de ter se beneficiado financeiramente durante o tempo de Correa no governo — na verdade, muitas vezes acompanhando-o em visitas ao exterior em 2013 e 2014, enquanto promovia seus negócios de agroexportação.

Superficialmente, esse grande mix de conservadores, liberais, movimentos indigenistas anti-Correa e algumas organizações de extrema esquerda (como o Partido Comunista Marxista-Leninista do Equador, apoiando Pérez) tem a vantagem em termos de apoio eleitoral total, pelo voto dos candidatos recebidos em 7 de fevereiro.

No entanto, suas bases de apoio não são tão sólidas, e os eleitores têm grande probabilidade de mudar suas preferências caso a eventual disputa coloque Arauz contra Lasso. Afinal, mais de 70% do eleitorado votou em um candidato que tinha um programa político de esquerda ou que se apresentava como progressista ou de esquerda de uma forma ou de outra (ou seja, Hervas e Pérez), portanto rejeitando a agenda firmemente conservadora e de livre mercado de Lasso.

Um endosso potencial de Lasso no segundo turno como o candidato “anti-Correa” por Hervas e Pérez representaria um enorme problema para suas respectivas organizações e bases eleitorais. Essa decisão poderia dividir a CONAIE entre aqueles que desejam continuar sua cruzada contra Correa a qualquer custo e aqueles que desejam evitar uma presidência neoliberal. Na Esquerda Democrática, Hervas ainda é uma figura relativamente nova, e o próprio partido tem um histórico de divisões e lutas internas por causa de sua orientação em relação a Correa, seu governo e aliados.

Portanto, no primeiro turno, a grande maioria dos eleitores do Equador rejeitou o neoliberalismo e as figuras que tradicionalmente o representam. O verdadeiro desafio para Andrés Arauz, Rafael Correa e a Revolução Cidadã agora está em mostrar que eles representam essa vasta maioria, vencendo as eleições com base em um programa que pode desenterrar as raízes do neoliberalismo de uma vez por todas.

Sobre o autor

Denis Rogatyuk é jornalista da El Ciudadano, escritor, colaborador e pesquisador com várias publicações, incluindo Jacobin, Tribune, Le Vent Se Leve, Senso Comune, GrayZone e outros.

A Odisseia da Conversibilidade

Experiências de flexibilização de contas em dólares têm histórico ruim na América Latina

Nelson Barbosa


A Câmara aprovou o projeto de lei (PL) cambial do BC. A proposta flexibiliza a abertura de contas bancárias em moeda estrangeira no país, e isso gerou debate sobre a pertinência ou não de conversibilidade plena do real. Mas o que é conversibilidade plena?

Pela ótica econômica, uma moeda é conversível quando você pode pagar todos os seus compromissos externos nessa moeda. Em outras palavras, a moeda nacional é conversível se for aceita como meio de pagamento internacional.

No caso do Brasil, até podemos pagar algumas coisas em reais no Mercosul, mas nossa moeda não vai muito além disso. Para se tornar meio de pagamento internacional, é preciso ter aceitação geral no resto do mundo, algo que não se resolve por decreto. Nesse aspecto, o PL do BC não determinará a conversibilidade plena do real.

Pela ótica jurídica, a coisa fica mais simples. Conversibilidade significa livre mobilidade de recursos, com tratamento equânime para transações em moeda doméstica ou estrangeira.

Por exemplo, no Brasil, pagamos IOF adicional sobre compras de cartão de crédito em moeda estrangeira. Para haver conversibilidade jurídica, não deveria haver tributação diferente devido ao meio de pagamento escolhido. O PL do BC não mexe (ainda bem) na tributação, logo não haverá conversibilidade plena.

Outro exemplo, conversibilidade significa que o país não pode impor limites diferentes para operações em moeda doméstica e estrangeira. Em outras palavras, não podem existir controles quantitativos somente sobre fluxos em moeda estrangeira. O PL do BC propõe que caminhemos nessa direção, mas na prática a teoria é outra (ainda bem de novo), pois o próprio BC disse que não pretende liberar toda e qualquer transação em dólares no país.

Chegamos, então, às contas em moeda estrangeira. Conversibilidade plena significa, por exemplo, que qualquer um poderá abrir conta em dólares em nosso sistema bancário.

A pessoa iria à agência, compraria dólares pelo câmbio do dia e, em vez de sair com as notas, deixaria os recursos depositados em uma conta bancária. Se e quando fosse sacar, a pessoa sairia com dólares do banco. Se o banco tiver dólares para honrar os depósitos, tudo bem. Mas e se o banco não tiver dólares?

Experiências de flexibilização de contas em dólares têm histórico ruim na América Latina. Não faz muito tempo, a Argentina viveu grande crise quando as pessoas tentaram tirar seus dólares dos bancos, descobrindo que não havia divisas para todos (vejam o magnífico filme “A Odisseia dos Tontos”).

No Brasil, nunca fomos tão longe. O máximo que fazemos é permitir aplicações domésticas indexadas à taxa de câmbio, mas pagas em reais. Avançar para contas em dólares para todos seria uma novidade, com potencial de aumentar a instabilidade de nosso sistema financeiro.

O que diz o BC? Segundo o discurso oficial, será tudo feito com muito cuidado, sem permissão para que todos tenham contas em dólares. A pergunta óbvia, portanto, é: quem serão os agraciados com sistema bimonetário? Sobre isso o BC não deu esclarecimentos, limitando-se a dizer que será definido “pelo regulamento”.

E quem fará o regulamento? Os diretores do BC, que acabaram de ganhar autonomia em relação aos representantes eleitos pela sociedade, mas não em relação ao sistema financeiro.

Diante do maior poder concedido ao BC, sugiro que o Senado revise o PL cambial aprovado pela Câmara. É preciso dizer claramente quem definirá detalhes importantes do novo regulamento cambial, do contrário podemos ter nossa própria “Odisseia dos Tontos”.

Sobre o autor

Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

Podemos dançar e será a nossa revolução

Fundadora da escola de dança profissional mais antiga dos Estados Unidos, Martha Graham recusou-se a se apresentar nas Olimpíadas nazistas e criou um palco longevo de dissidência política. A dança moderna tem ligações profundas com a política radical - e os protestos daqueles que saíram da retaguarda.

Dana Mills


Blakeley White-McGuire performando Chronicle, coreografado por Martha Graham.

Tradução / The Rockettes, uma trupe de dança composta exclusivamente por mulheres estadunidenses, que enfeita os palcos do Radio City Music Hall de Nova York todos os anos no Natal, se tornou uma linha de coro surpreendentemente radical em 2017. Tendo se apresentado em duas posses presidenciais em 2001 e 2005, o grupo foi convidado a aparecer na posse de Donald Trump em um esforço para reforçar o evento com alguma credibilidade. As Rockettes estavam divididas e muitas ressentidas por serem forçadas a apoiar um homem conhecido por seus comentários degradantes sobre o “vestuário” das mulheres, e uma campanha presidencial repleta de ataques racistas explícitos e ódio contra a comunidade LGBTQI+.

Muitas Rockettes saíram de sua linha de coro tipicamente uniforme e recusaram-se a dançar. Seu sindicato, o American Guild of Variety Artists, mostrou-se menos entusiasmado com sua decisão e determinou que todas as dançarinas em tempo integral teriam a obrigação contratual de se apresentar na posse.

Eles podem não saber, mas essas Rockettes rebeldes faziam parte de uma longa linhagem de dançarinos americanos que se recusaram a entregar seus talentos artísticos às forças reacionárias. Na verdade, a história dos dançarinos usando seus corpos para expressar sua oposição ao racismo, sexismo e ataques a minorias está profundamente inserida no DNA cultural dos Estados Unidos. A história da dança moderna e seus protagonistas estão profundamente entrelaçados com a própria história da política radical.

Estabelecendo as Fundações

Oantifascismo, as organizações de trabalhadores e o antimilitarismo borbulhavam sob a superfície de Nova York antes da guerra, centro da vida comercial e pública americana. Trabalhando em um pequeno estúdio não muito longe da Union Square, local da agitação pró-contracepção de Emma Goldman e sede do Partido Comunista dos EUA, a luminaria da dança moderna, Martha Graham, desenvolveu uma linguagem de radicalismo em movimento. A dissidência correu em suas veias e seu legado se estendeu até a escola de dança profissional mais antiga e mais antiga dos Estados Unidos, a Martha Graham School.

A primeira peça de Graham, Heretic, estreou em 1929 e apresentava uma imagem nítida de uma mulher vestida de branco contra um pano de fundo onde outras mulheres vestidas com tubos PVC dançavam em movimentos angulares e agudos, bloqueando todos os seus passos. A performance foi uma articulação visceral de resistência ao mal e aos erros. Graham trouxe ao palco o preço que os indivíduos pagam ao defender suas convicções e ir contra a opinião popular se necessário, um preço que ela já havia pago em muitas ocasiões, dentro e fora das coxias.

Já consagrada, em 1936 Graham recusou-se a dançar nas Olimpíadas de Berlim e declarou sua solidariedade para com aqueles que viviam a perseguição lá: “Eu acho impossível dançar na Alemanha atualmente. Muitos artistas que respeito e admiro foram perseguidos… Privados do direito ao trabalho por razões ridículas e insatisfatórias, considero impossível identificar-me e aceitar o convite de um regime que tornou tais coisas possíveis. Além disso, alguns membros do meu grupo de dança não seriam bem-vindos na Alemanha.”

A forte condenação de Martha Graham ao fascismo e sua disposição para afirmar o certo mesmo nos tempos mais sombrios foram expressos coreograficamente em sua obra Chronicle, que estreou no mesmo ano. Mulheres poderosas habitavam o palco em atos de solidariedade e união, enquanto uma forasteira liderava o caminho, firme em sua própria voz. Chronicle é uma articulação vigorosa de dissidência e oposição aos males da guerra, pobreza e fascismo crescente.

Em 14 de fevereiro de 1937, Graham testemunhou perante o Comitê Americano de Literatura Antinazista, reportando sobre as mudanças de humor na Europa e implorando aos artistas que estivessem atentos ao mundo e fossem sinceros em sua arte. Graham defendeu uma resistência unida para que os artistas conhecessem seu lugar no emergente movimento contra uma onda crescente de fascismo e a supressão de vozes individuais. Isso se tornaria o ethos central de Graham ao longo de sua vida.

Revolucionária em sua essência, Graham sintetizou a tensão entre o indivíduo, as massas, o poder e a possibilidade de uma voz singular para defender a mudança social. Embora ela própria fosse descendente direta dos peregrinos do Mayflower e, portanto, de forma alguma de uma origem “marginalizada”, ela usou de sua posição social e seu trabalho para defender os radicais e revolucionários punidos por levantarem suas vozes. O compromisso de Graham com a verdade em sua arte era inequívoco, e seu legado pavimentou o caminho para muitas mulheres e homens que seguiram em busca de caminhos de dissidência através do movimento enquanto trabalhavam em solidariedade uns com os outros.

A companhia inicial de Graham era toda feminina, e muitas de suas dançarinas do Lower East Side eram imigrantes – particularmente imigrantes judias, parte integrante do tecido social no centro cultural radical de Nova York. Uma das primeiras dançarinas de Graham que seguiu para uma ilustre carreira coreográfica própria foi Anna Sokolow. Nascida em uma família judia que fugiu da Rússia e se estabeleceu nos Estados Unidos no início da década de 1910, Sokolow era filha do socialismo e do radicalismo cultural. Ela recebeu educação em dança no Neighborhood Playhouse, uma instituição que oferecia educação cultural para crianças imigrantes da classe trabalhadora, e cresceu matando aula para visitar os museus de Nova York, nunca faltando estímulo cultural.

A infância de Anna Sokolow foi moldada por lutas trabalhistas travadas e vencidas pelo International Ladies ‘Garment Workers’ Union (ILGWU), pelo teatro iídiche, onde seu trabalho coreográfico sempre foi sensível à injustiça. Nenhum judeu na época podia ignorar o assassinato em massa infligido a seus irmãos na Europa, e Sokolow não era exceção. Em 1945, ela estreou Kaddish, uma dança solo em que usa tefilin, um vestido religioso tradicionalmente usado apenas por homens. Cheio de movimentos sombrios, Kaddish foi um chamado para reconhecer a perda de humanidade inerente a qualquer assassinato e, simultaneamente, uma extensão de sua própria tristeza e dor: “Tive um profundo senso social sobre o que eu queria expressar e as coisas que me afetaram profundamente pessoalmente [são] o que eu fiz e comentei”.

O legado único de Sokolow entrelaçou feminismo, humanismo e radicalismo, articulando em movimento a máxima de que ferir alguém é ferir a todos. O trabalho de Sokolow em 1961, Dreams foi a primeira apresentação de dança a abordar o Holocausto, inspirado por testemunhos emergentes dos sobreviventes de campos de extermínio. Sokolow percebeu que seus sonhos estavam literalmente se transformando em pesadelos. Citado ao lado de Käthe Kollwitz e Oscar Kokoschka como uma obra-prima respondendo a atos indizíveis, Dreams transbordou de emoção e evocou a bravura de todos que viveram nos campos, independentemente de qual período. O trabalho de Sokolow foi um chamado para lembrar o poder da humanidade, mesmo nos tempos mais sombrios. Ao assistir à apresentação, até os espectadores se sentiram mais corajosos.

O novo grupo de dança: radicalismo contínuo

Anna Sokolow teve uma colaboração estreita com o New Dance Group, uma empresa dedicada à dança para a mudança social que seguia duas regras: “Dance sobre algo importante para você e crie uma obra cujo significado social seja palpável para o público.” Seu lema era simples: “A dança é uma arma.” Décadas mais tarde, o programa para uma apresentação de gala em comemoração ao grupo afirmava que o “Novo Grupo de Dança” tinha como objetivo fazer da dança uma arma viável para as lutas da classe trabalhadora. Eles foram inovadores artísticos contra a pobreza, o fascismo, a fome, o racismo e as múltiplas injustiças de seu tempo”.

O grupo era parte integrante e essencial de uma paisagem social que interligava a luta socialista com a formação em dança. O estudo mais elaborado do New Dance Group e da política radical americana, Stepping Left, escrito pela importante historiadora da dança e ex-dançarina de Graham, Ellen Graff, revela muitas ligações pouco conhecidas entre o movimento operário e a dança. Os trabalhadores podiam pagar pequenas somas de dinheiro por aulas de dança – dessa forma vinculando conscientemente o poder dos corpos humanos em um movimento compartilhado, desde os piquetes até o palco do teatro.

Apresentações de dança socialmente conscientes costumavam fazer parte dos encontros de trabalhadores. A atmosfera revolucionária da época remodelou a maneira como os corpos se moviam nas ruas, mas também promoveu novas formas radicais para dançar juntos. Essas duas revoluções não foram apenas simultâneas, mas, de fato, intimamente conectadas.

Uma das dançarinas que treinou e trabalhou com o New Dance Group foi Pearl Primus. Nascida em Trinidad e criada nos Estados Unidos, ela estudou com Martha Graham e Paul Robeson. Entre 1948-49, Primus viajou para África, comentando: “Eu irei para a terra de meus antepassados. Meu coração se encherá de música e tambores, e minha alma dançará com as pessoas”. A afirmação pareceu ser profética, e ela recebeu o nome de Omowalw – “Criança que voltou para casa”. Sua viagem de pesquisa foi a primeira de muitas, e mais tarde Primus obteve um doutorado em estudos caribenhos e africanos.

Seu primeiro trabalho, African Ceremonial, foi um reflexo do foco de sua carreira, baseado nas culturas de África, do Caribe Ocidental e do Sul dos Estados Unidos. Pearl Primus tinha uma visão clara de sua arte: “Por que eu danço? Dançar é meu remédio. É o grito que alivia brevemente a frustração terrível comum a todos os seres humanos que, por causa de raça, credo ou cor, são ‘invisíveis’. A dança é o punho com o qual luto contra a ignorância doentia do preconceito.”

Durante um belo almoço em Nova York em 1940, Pearl Primus e Billie Holiday discutiram com o letrista Lewis Allan seu poema, Strange Fruit. O poema evocava a dor dos afro-americanos em uma época em que muitos brancos consideravam o linchamento o método apropriado de lidar com uma pessoa de cor que ousava desafiar sua opressão. Pearl Primus continuou a coreografar Strange Fruit (originalmente conhecido como A Man Has Just Been Lynched), que se tornou uma de suas obras mais famosas.

A performance de Primus expandiu o termo “dança negra”, já que ela mesma dançou o papel de uma mulher branca testemunhando um linchamento. O radicalismo de Primus não estava apenas em trazer a pauta para o centro do palco, mas em criar a perspectiva do observador branco – e sua cumplicidade e inação ao testemunhar o ato horrível. A dançarina rastejava, pulava e caía de volta na terra e terminava com uma corrida explosiva que Primus descreveu como “reunindo a consciência da humanidade para este ato de crueldade e injustiça.” Um golpe final de seu punho implora ao público para nunca permitir que essas injustiças angustiantes voltem a acontecer.

Dançando por nossas vidas

Arenomada crítica de dança do New York Times, Anna Kisslegoff, citou Martha Graham em seu obituário de 1991: “Nenhum artista está à frente de seu tempo. Ele é o seu tempo; é que os outros estão atrasados”. Dançarinas como Graham, Sokolow, Primus e muitos outras abriram o caminho para a dança como dissidência política. Seus trabalhos coreográficos abriram um panorama para intervenções artísticas radicais, apresentando injustiças e novas visões de um mundo melhor usando seus corpos.

Hoje, a história parece se repetir, e muitos dos fenômenos que foram catalisadores dessas pioneiras mais uma vez estampam nossas manchetes: seja racismo e fascismo, belicismo e anti-semitismo, ou novas formas de violência e ódio. O capitalismo racista e patriarcal penetra em todos os poros de nossos corpos e, ao mesmo tempo, nossos corpos são sempre o lugar mais poderoso a que podemos resisti-lo, nossa posse material mais primordial.

E assim, como os artistas contemporâneos enfrentam novos desafios, é essencial olhar para os recursos já existentes para compreender o poder e a responsabilidade dos corpos de se moverem juntos, agir com integridade e garantir que suas mensagens de igualdade e dignidade para todos sejam ouvidas em voz alta e clara. Afinal, nenhum de nós somos meros corpos sem nome em versos de refrão intermináveis – se as Rockettes pudessem aprender isso, certamente todos nós poderíamos levar a mensagem a sério.

Sobre a autora

Dana Mills é autora, dançarina e ativista. Seu livro mais recente é Rosa Luxemburg (Reaktion Books, 2020).

14 de fevereiro de 2021

Ler Edmund Burke mostra que o conservadorismo tem tudo a ver com a defesa de hierarquias tradicionais

Estudar os escritos de Edmund Burke, o pai do conservadorismo moderno, revela algo importante: que o pensamento intelectual de direita é pouco mais do que uma série de defesas forjadas de relações sociais convencionais e hierarquias tradicionais.

Matt McManus

Jacobin

Edmund Burke (1729-1797) por James Northcote.

Tradução / Edmund Burke ocupa uma posição venerável na história do pensamento de direita, frequentemente descrito por amigos e inimigos como o pai do conservadorismo moderno. Sem dúvidas isso teria surpreendido o teimoso irlandês, que em grande parte via a si mesmo como um político prático, com nada além de desdém por pretensiosos autores intelectuais. Mas ninguém consegue decidir como vai ser lembrado pela História, e o legado mais duradouro de Burke provou ser seus extensos escritos sobre política e estética.

O burkeanismo é uma forma temperamental e até intencionalmente ambígua de abordar o mundo, que considera a capacidade humana de raciocinar como sendo fundamentalmente limitada e que, consequentemente, venera as relações sociais estabelecidas e a sabedoria supostamente embutida na tradição.

Em muitos aspectos, é fundamentalmente antimoderna, e marcou de maneira indelével a história do pensamento conservador.

O sublime e o belo

Apesar de sua posterior repulsa pelos filósofos “vagabundos” e “irresponsáveis”, Burke começou sua vida como uma espécie de intelectual boêmio. Ele viajou pelo continente europeu, envolvendo-se com as controvérsias da época. Contudo, ele sempre se sentiu desconfortável com as correntes mais radicais do pensamento contemporâneo.

O mais importante entre os primeiros livros de Burke foi Investigação Filosófica sobre a Origem de Nossas Ideias do Sublime e da Beleza (1757), uma obra de Estética que se tornaria influente o bastante para ser citada por luminares como Immanuel Kant. A priorização que Burke faz da Estética e a maneira como ele enxerga a influência do belo e do sublime sobre as paixões humanas é reveladora. Para Burke – ao contrário da galera do “os fatos não se importam com seus sentimentos” na atualidade – nossas emoções determinam muito sobre como apreendemos o mundo. E nossos sentimentos são agitados, de um jeito ou de outro, por ideias visceralmente estéticas.

Como o título indica, as duas ideias mais significativas que Burke discute no livro são a beleza e o sublime. Insistindo que a beleza “não é uma criatura da nossa razão”, Burke prossegue, descrevendo as coisas bonitas como sendo aquelas que obedecem às nossas finitas forças físicas e mentais. Em outras palavras, aquelas sobre as quais os seres humanos são capazes de exercer algum controle: pássaros, flores, músicas harmoniosas e assim por diante. O sublime nos enche de “espanto e horror” – algo tão titânico e poderoso que somos lembrados de como nossas forças são finitas, tanto mental quanto fisicamente.

Nossa ideia do sublime também excederia a razão; nossa ideia afetiva dela – a “emoção mais forte que a mente é capaz de sentir” – poderia nos dar alguma noção do poder transcendente e da infinitude do sublime, mas nunca seria suficiente para representá-lo totalmente. A poesia épica – por exemplo, as ruminações de John Milton sobre Deus e o infinito em Paraíso Perdido – seria provavelmente o mais próximo que podemos chegar.

As duas dimensões que Burke esboçou vieram a definir grande parte da teorização de direita. Às vezes, os conservadores ecoam as reflexões de Burke sobre a beleza por meio de uma crítica da modernidade como sendo indiferente ao que há de pequeno e local (o gigante Estado racionalista sendo um exemplo). Como colocou o jurista conservador Robert Bork em seu livro Virtude Coercitiva, a modernidade engole “a particularidade – o respeito pela diferença, pelas circunstâncias, [e] pela história”. As variantes nostálgicas de conservadorismo enfatizando as virtudes da vida rural, a conformidade com práticas e valores estabelecidos e o respeito pelas autoridades convencionais, todas apelam para este lado da estética de Burke.

E daí há também as variantes mais grandiosas do conservadorismo, que não têm nenhum problema em apelar para o gigantesco. Um dos problemas que esses conservadores têm com humanistas liberais e de esquerda é precisamente o conceito de que qualquer coisa tão pequena quanto a vida humana poderia ter um significado sem alguma fonte de autoridade e de poder transcendental e que inspira reverência para justificá-la. A fonte de significado transcendental pode variar – o Deus patriarcal, o pai, a nação, a tradição eterna, a civilização ocidental – mas é preciso haver uma fonte do sublime.

O que une ambas as vertentes de direita é a sua suspeita com relação à razão como fundamento para a vida e a ênfase no afeto e, mais importante, no poder e na diferença. Burke admira o belo da mesma maneira que conservadores posteriores teciam loas sobre as virtudes do tradicionalismo rural; ambos incorporam uma forma de vida caracterizada pela regularidade, um senso de ordem e harmonia e uma compreensão de nossa razão e força limitados. Comportar-se de outra forma, defendem os conservadores, seria provocar o caos – ou, pior ainda, cair em uma espécie de arrogância luciferiana, questionando aquilo que deveria ser meramente reverenciado e obedecido.

O panorama político gótico de Burke

Uma das primeiros críticas a reconhecer a ligação entre a estética de Burke e sua visão política foi a filósofa inglesa Mary Wollstonecraft. Elaborando uma resposta ao livro Reflexões Sobre  sobre a Revolução na França, de Burke, Wollstonecraft o criticou por elevar “noções góticas de beleza” vagas acima da razão e da precisão analítica. Como ela colocou em seu Uma Reivindicação dos Direitos dos Homens:

“Percebo, de todo o teor de suas Reflexões, que você possui uma antipatia mortal pela razão; mas, se houver em sua declamação selvagem algo como um argumento, ou primeiros princípios, eis o resultado: – que devemos reverenciar a ferrugem da antiguidade e denominar os costumes não-naturais, que a ignorância e o equivocado interesse próprio consolidaram, como o sábio fruto da experiência: e mais que isso, que, se descobrirmos alguns erros, nossos sentimentos deveriam nos levar a desculpar, com amor cego ou uma afeição filial sem princípios, os veneráveis vestígios dos dias antigos. São noções góticas de beleza – a hera é bela, mas, quando ela insidiosamente destrói o tronco do qual recebe suporte, quem não a arrancaria?”

Foi uma observação inteligente. Como Corey Robin e outros observaram, muitos conservadores até os dias atuais enfeitam argumentações em nome da submissão à tradição e à autoridade com um verniz brilhante de uma profundidade incognoscível. Frequentemente, eles têm sucesso em inspirar simpatia, porque muitas pessoas sentem uma genuína sensação de perda diante da visão de hierarquias tradicionais sendo atacadas.

Entretanto, quando movimentos igualitários estão em marcha, instituições e credos sublimes, antes respeitados e defendidos, passam por escrutínio e críticas implacáveis. Desaparecem o clarão e o estrondo de retórica, que deixava as coisas bagunçadas e as obscurecia no incognoscível e transcendental. Como o mago titular em O Mágico de Oz, várias formas de poder tradicional são expostas como elites agarradas à defesa de seus privilégios. E os conservadores – a contragosto, como aponta Edmund Fawcett em seu excelente Conservadorismo: Uma Luta Pela Tradição – são forçados a entrar em ação, fornecendo defesas intelectuais àquilo que simultaneamente alegam não poder ser compreendido adequadamente pelo intelecto.

O aparente paradoxo dessa afirmação reflete uma crença conservadora de longa data sobre como, em última análise, teria sido melhor se ninguém tivesse questionado essas instituições e credos, em primeiro lugar. Não por acaso, Burke foi um dos primeiros a expressar uma complexa aversão ao intelectualismo, ao mesmo tempo em que reconhecia a necessidade de fornecer, contra seus inimigos, algum tipo de argumentação em nome do conservadorismo.

“Os governos não são feitos em virtude de direitos naturais, que podem existir e que de fato existem em total independência dele, e existem com muito mais clareza e em um grau muito maior de perfeição abstrata; mas sua perfeição abstrata é seu defeito prático. Por terem direito a tudo, eles querem tudo […] A sociedade exige não apenas que as paixões dos indivíduos sejam submetidas, mas que mesmo na massa e no corpo, bem como nos indivíduos, as inclinações dos homens sejam freqüentemente frustradas, sua vontade seja controlada e suas paixões sejam colocadas em submissão […] Nesse sentido, as restrições sobre os homens, tanto quanto suas liberdades, devem ser considerados entre seus direitos.”

Esse tipo de pensamento teria uma enorme influência sobre os pensadores conservadores daí para frente. Mas Burke raramente fornece uma argumentação filosófica extensa para explicar por que tudo isso seria menos abstrato do que os princípios racionalistas aparentemente vagos de seus oponentes. Freqüentemente, ele meramente ridiculariza seus inimigos e afirma a obviedade de seus próprios princípios favoritos. Os argumentos muitas vezes se resumem a alegações de que seus preconceitos e práticas favoritas provaram seu valor ao longo do tempo, ao contrário das ideias novas e não testadas apresentadas por seus oponentes.

Os conservadores de hoje muitas vezes apontam como as profecias de Burke sobre a potencial violência da Revolução Francesa teriam se provado corretas, sugerindo que deveríamos lhe dar algum crédito. Mas também é importante observar que a maioria das instituições e preconceitos que Burke sentia serem necessários para uma sociedade ordenada – o respeito pela Coroa e pela propriedade aristocrática, a desconfiança em relação à democracia e às capacidades intelectuais da “multidão suína”, a subordinação política das mulheres aos homens – todos acabariam descartados rapidamente após sua morte. Seria difícil encontrar alguém, exceto os reacionários mais distantes da realidade, os defendendo agora. Enquanto isso, os princípios e ideais da Revolução Francesa e do mundo moderno que eles personificavam vivem e continuam a inspirar milhões de pessoas.

O bom, o mau e o feio em Burke

Os escritos de Burke contêm alguns elementos de verdade. Qualquer pessoa sensata deveria reconhecer suas limitações mentais e não assumir que seria capaz de possuir uma compreensão completa do mundo. Existem também muitas tradições e modos de vida que foram corroídos desnecessariamente (muitas vezes pelas forças do capitalismo); o erro inverso do viés de Burke em relação ao antigo é a fetichização do novo.

O problema fundamental com os argumentos burkeanos, como Wollstonecraft e outros autores têm argumentado, é que sua hostilidade à assim chamada abstração racionalista e seus apelos ao afeto e ao profundo desconhecido só são sustentáveis para aqueles que já se sentem dessa maneira. É por isso que o burkeanismo tem sido descrito menos como uma filosofia e mais como uma perspectiva ou uma atitude.

E uma atitude que gira em torno de sensibilidades estéticas não leva você muito longe. Como observa Ian Shapiro, uma pessoa pode se sentir profundamente ligada a uma tradição venerada, mesmo que misteriosa, enquanto outra pode vê-la como uma forma grotesca de dominação. A única maneira de descobrir quem está certo é deixando o reino etéreo da imprecisão estética e confiando em nossos limitados poderes para compreender o mundo como ele é.

Os conservadores que canalizam Burke sempre resistirão ao movimento rumo ao racional, pois, se pudermos entender o mundo como ele é, temos o poder de refazê-lo. Isso é exatamente o que eles não querem, e precisamente o que devemos fazer.

Sobre o autor

Matt McManus é professor visitante de política no Whitman College. Ele é o autor de The Rise of Post-Modern Conservatism and Myth e co-autor de Mayhem: A Leftist Critique of Jordan Peterson.

Philip Levine era um poeta da classe trabalhadora

O falecido poeta laureado Philip Levine nos deu um conjunto único e amoroso de retratos da classe trabalhadora americana. Seis anos após sua morte no Dia dos Namorados, vamos lamentar sua ausência e celebrar seu trabalho.

Dan Darrah


Philip Levine foi um poeta americano mais conhecido por seus poemas sobre a Detroit da classe trabalhadora. (Foto de Frances Levine)

No Dia dos Namorados de 2015, Philip Levine, ex-poeta laureado dos Estados Unidos e professor de inglês de longa data na California State University, Fresno, faleceu de câncer pancreático. O obituário do New York Times caracterizou seu trabalho como "vibrante, raivoso e muitas vezes dolorosamente vivo com o som, o cheiro e a força do trabalho manual pesado".

Levine disse a Bill Moyers em 2013 que ele era cauteloso ao escrever de um lugar de raiva, mas que a emoção influenciou parte de sua escrita. Quando Moyers perguntou a Levine o que o deixou mais irritado, Levine respondeu claramente: “Capitalismo americano. Sua crueldade. E racismo americano. As condições que são impostas aos pobres pelos ricos ... você nunca supera isso.”


Moyers perguntou se ele achava que havia “uma guerra de classes travada contra os trabalhadores” nos Estados Unidos. "É claro!" veio a resposta. E as pessoas que o realizavam eram "aqueles que vivem do trabalho daqueles que trabalham".

Trabalhando com palavras

A carreira de Levine durou quase sessenta anos e produziu mais de vinte coleções de poesia. Seu trabalho ganhou alguns dos maiores elogios nos Estados Unidos: um Prêmio Pulitzer (The Simple Truth), alguns prêmios National Book Awards (What Work Is; Ashes: Poems New and Old) e uma designação como o melhor poeta do país. Como professor, ele abriu suas aulas para alunos não pagantes. Sua coleção final, The Last Shift, saiu postumamente em 2016.

Ao longo da vida de Levine, sua escolha de temas e o estilo com que ele os tratou foram inabaláveis. Ele se concentrou principalmente na classe trabalhadora americana, geralmente no meio-oeste do pós-guerra. Seu trabalho estava impregnado de aspectos autobiográficos e, em uma ou mais ocasiões, ele fez referência à sua “corajosa infância em Detroit; os empregos entorpecentes na fábrica que teve quando jovem; Espanha, onde viveu algum tempo adulto; e os anarquistas espanhóis da década de 1930, uma paixão pessoal desde que ele era um menino.”

E, no entanto, sua política raramente resultava em trabalho didático ou moralizante. Embora poemas como “Our Reds” expressem ideias marxistas, e ensaios posteriores como Class With No Class mostrem uma clara hostilidade para com os ricos, seu modo poético era, em geral, jornalístico. Ele registrou as vozes e vidas dos trabalhadores americanos. E, ao fazer isso, concedeu-lhes dignidade, muitas vezes relacionando seus sentimentos e experiências com as condições de seu trabalho.

Levine lamentou que a poesia tivesse se tornado “despovoada” e procurou corrigir seu curso povoando seus poemas com uma tapeçaria de personagens retirados da vida cotidiana. Esses personagens eram freqüentemente, embora nem sempre, de origem e disposição da classe trabalhadora. Levine deu-lhes uma voz.

Seu foco em americanos normais, no entanto, não levou a retratos parciais ou engrandecimento, mas ao invés disso, conseguiu ilustrar "o pequeno heroísmo de passar o dia quando o dia não dá a mínima." Seu estilo era frequentemente de forma livre, simples e sem adornos.

Sua simplicidade contribuiu para cortar o coração e colocar as injustiças do capitalismo americano em nítido relevo. Em sua capacidade de capturar a vida da classe trabalhadora, a poesia de Levine - não importa o quão fixa no tempo e lugar possa parecer - pemanece um corpo de trabalho singular e poderoso.

A vida em Detroit

O próprio Levine pertencia à classe trabalhadora dos Estados Unidos, nascido em Detroit, filho de imigrantes judeus em 1928. Seu pai faleceu quando ele tinha cinco anos e, aos quatorze, ele trabalhava em fábricas para ajudar em casa.

Incentivado por seus professores, ele começou a escrever na adolescência, embora tenha continuado a fazer trabalhos manuais, principalmente em fábricas, até os vinte anos. Ele estudou na Wayne State University e na University of Iowa - posteriormente ensinando nesta última. Mais tarde, ele assumiu um cargo na California State em Fresno.

Mas sua juventude, nos - ou talvez contra - os locais de trabalho da América, é onde a maioria de seus poemas se situa. Em "Sweet Will", ele escreve sobre um homem que caiu no

concrete, oily floor
of Detroit Transmission, and we
stepped carefully over him until
he wakened and went back to his press.

Em outro lugar, em "By Bus to Fresno", Levine fala de

the silent offices
ahead, in the back lots of feed stores,
on the greased floors of emergency
rooms and used tire shops.

E novamente, em “Burned”:

I have to go back into the forge room
at Chevy where Lonnie still calls
out his commands to Sweet Pea and Packy
and stare into the fire
until my eyes are also fire

É claro que discutir o trabalho minuciosamente significa também abordar o outro lado da moeda - o desemprego e suas dificuldades correspondentes. O registro de Levine não trata de retratos romantizados ou idealizados de nobres trabalhadores pobres, cuja sorte pode falhar de vez em quando, mas que se recuperam com bravura corajosa. O desemprego tem consequências reais: “The drugstore fired your mother /”, escreve ele em “Letters for the Dead”,

she dried and hardened
the butcher never returned
to beat his soft palms
against the door.

Mas Levine não se esquivou da alegria. Na parte final do extenso "Winter Words", Levine descreve uma "noite de sexta-feira, após a mudança de turno" no Lago Erie, onde "enrolados em cobertores ásperos, descalços" os personagens do poema assistem às estrelas desaparecer. Em um brinde aos pequenos prazeres da vida, as figuras erguem suas latas de cerveja para as "longas temporadas que virão", proclamando desafiadoramente que "nunca morrerão".

O momento é reconhecível - parece autêntico porque os alto-falantes não são removidos da matriz de uma vida de trabalho. A saudação da lata de cerveja é um testemunho das possibilidades da vida, apesar da mudança de turno.

Poesia de trabalho e resistência

Nem todos os poemas de Levineestavam enraizados em suas próprias experiências. Ele costumava usar a matéria-prima de sua vida para criar explorações mais soltas e fictícias das angústias e triunfos dos trabalhadores. Mas "What Work Is", o poema homônimo na coleção premiada de Levine de 1991, teve uma origem direta na vida do poeta: uma manhã degradante passada esperando em uma fila de empregos da Ford. Nele, ele escreve:

We stand in the rain in a long line
waiting at Ford Highland Park. For work.
You know what work is — if you’re
old enough to read this you know what
work is, although you may not do it.

Em uma entrevista sobre o poema, Levine contou a história do escritório de empregos da Ford na vida real, onde os candidatos deveriam comparecer por volta das oito da manhã. Ele chegou a tempo de encontrar de vinte a trinta pessoas que já estavam à sua frente na fila.

E nós ficamos lá, e paramos lá, e paramos lá, e não abriu antes das 10 ... Eu pensei sobre isso, embora - e eu pensei, isto não é um acidente. Eles querem pessoas dispostas a ficar duas horas na chuva para conseguir um emprego. Você está passando no teste de servo.


Quando Levine finalmente chegou a sua vez na fila, o recrutador perguntou: "Que tipo de posição você está procurando?" O futuro poeta, indignado, exaltado pela epifania e molhado de chuva, disse-lhe: “Quero um emprego como o seu. Eu gostaria de poder sentar atrás de uma mesa, e as pessoas entrarem e dizerem "senhor" para mim e serem legais comigo."

Ele então saiu para procurar um emprego em outro lugar.

Levine transformou sua experiência na linha de trabalho em uma meditação sobre seu amor por seu irmão, que não estava na fila com ele porque ele estava

home trying to
sleep off a miserable night shift
at Cadillac so he can get up
before noon to study his German.

Levine começou a trabalhar em What Work Is em 1985. O ímpeto para a coleção foi uma reportagem sobre Vincent Chin, um homem chinês-americano que havia sido assassinado por Ronald Ebens, um supervisor de fábrica da Chrysler, e Michael Nitz, seu enteado, um trabalhador do ramo automobilístico que foi despedido. A dupla identificou erroneamente Chin - que estava comemorando sua despedida de solteiro em Highland Park - como japonês e o espancou até a morte. Na época, o racismo anti-japonês era alto entre os trabalhadores do setor automotivo devido às importações de automóveis japoneses e à queda na participação de mercado dos Estados Unidos.

“Eu simplesmente não conseguia acreditar”, disse Levine a Moyers. “Quer dizer, eu estava tão chocado. E eu me sentei e comecei a escrever. E eu disse algo [sobre Detroit] no topo da página que não posso repetir na televisão. ”

A tensão racial não era um tópico novo para Levine, que havia escrito sobre o assunto vinte anos antes - tendo como pano de fundo os distúrbios em Detroit de 1967 e a Guerra do Vietnã - no poema "They Feed They Lion". Como ele disse à PBS News:

É a expressão mais potente de raiva que escrevi, raiva de meu governo pelas duas guerras raciais que travávamos, uma no coração de nossas cidades contra nossos pobres urbanos, a outra na Ásia contra um povo determinado a decidir por si mesmo destino.

Com cada estrofe se intensificando lentamente, o poema defende a inevitabilidade de uma resistência negra bem-sucedida ao racismo americano. Levine sentiu que os negros americanos, tendo sobrevivido a tudo o que foi jogado contra eles, exerciam um poder "incrível" que garantiria a derrota do racismo.

From “Bow Down” come “Rise Up,”
Come they Lion from the reeds of shovels,
The grained arm that pulls the hands,
They lion grow.

Em busca de Levine hoje

Como poeta laureado, Levine leu certa vez para a AFL-CIO, comentando de antemão que, embora sua vida nas fábricas fosse difícil, quando ele “se tornou sindicalista, as coisas estavam muito melhores”. Infelizmente, Levine se foi em 2015, dois meses antes de Bernie Sanders anunciar oficialmente sua candidatura para liderar o Partido Democrata, como um socialista democrático, nas eleições de 2016.

A campanha de Sanders e o movimento por trás dele - tanto em 2016 quanto em 2020 - sem dúvida remodelaram o terreno político dos EUA. Nos Estados Unidos e além, a esquerda foi reenergizada. É uma pena que Levine não esteja aqui para experimentar e interpretar o momento presente.

Mas seu trabalho contribuiu, de certa forma, para construir a estrada que nos trouxe até aqui. Em sua insistente narrativa das brutalidades cotidianas do trabalho e das vidas dos trabalhadores norte-americanos, ele garantiu que suas vozes aparecessem no registro poético por quase cinquenta anos.

Philip Levine vive em seus poemas. E eles continuarão sendo um estoque de energia e significado do qual as pessoas podem tirar proveito. Trabalho, como Levine certa vez o descreveu, é o que ainda é trabalho para muitos: o recrutador, sentado à mesa, vendo quanto tempo você vai esperar na chuva; o trabalhador desabado no chão enquanto os colegas de trabalho caminham ao seu redor; a mudança de turno; o ônibus para casa.

Sobre o autor

Dan Darrah é autor de não-ficção e poesia de Toronto. Ele ecreveu sobre trabalho, cultura, dinheiro e dívidas para a Jacobin, Canadian Dimension, Briarpatch Magazine, e muito mais.

13 de fevereiro de 2021

O verdadeiro Terceiro Mundo

"Terceiro Mundo" nem sempre foi um termo pejorativo. Suas origens estão em um projeto revolucionário pós-colonial que buscava encontrar um caminho para o desenvolvimento além dos campos da Guerra Fria.

Robert Maisey


Jawaharlal Nehru da Índia, Kwame Nkrumah do Gana, Abdel Nasser do Egipto, Sukarno da Indonésia e Josip Broz Tito da Jugoslávia reúnem-se na Conferência de Bandung de 1955. (Crédito: Wikimedia Commons)

Tradução / Em 1955, delegações de pouco mais de 30 países recém-independentes se reuniram na cidade indonésia de Bandung para uma conferência sobre coexistência pacífica e cooperação internacional fora da estrutura de “dois campos” da Guerra Fria.

Bandung era um local simbólico: a cidade havia sido abandonada e totalmente queimada pela população local em 1946, em protesto contra os planos britânicos de devolvê-la ao domínio colonial holandês após a derrota do Japão imperial. Reconstruída sob os auspícios do regime anti-imperialista indonésio de Sukarno, agora abrigava o primeiro florescimento do que viria a ser conhecido como Terceiro Mundo.

O Terceiro Mundo não era um termo pejorativo, como mais tarde veio a ser usado, mas um ambicioso projeto político baseado em uma aliança moral de Estados anti-imperialistas que buscavam uma agenda de desenvolvimento econômico, soberania nacional e coexistência pacífica. Como essas novas nações não tinham influência militar ou econômica, concentraram suas energias em fornecer assistência mútua entre si e às regiões que ainda lutavam para emergir do colonialismo. O grupo de Estados do Terceiro Mundo também buscou democratizar a Organização das Nações Unidas, usando seu voto em bloco para evitar que ela se tornasse mais um veículo para o imperialismo das Grandes Potências.

O centro político do projeto do Terceiro Mundo se moveu ao redor do globo, traçando os focos da luta anti-imperialista: do Cairo a Belgrado, a Argel, a Havana. Hoje, o simbolismo duradouro do projeto está na maneira como ele galvanizou apoio àqueles que lutavam pela liberdade no Vietnã, Angola, África do Sul, Palestina e inúmeros outros.

No entanto, a principal questão nas mentes dos líderes do Terceiro Mundo não era necessariamente a luta armada, mas a economia política. Como eles poderiam buscar a industrialização com o propósito de elevar o padrão de vida de seu povo em uma economia mundial ainda essencialmente estruturada em torno de relações imperiais de dominação?

O problema do capital

O principal problema enfrentado por todos os Estados do Terceiro Mundo, independentemente de seus nuances políticos, era como acumular as reservas básicas de capital das quais depende a industrialização avançada.

Economias estruturadas em torno da agricultura e extração de recursos — ou seja, produção de commodities básicas para exportação para o Ocidente industrializado — foram o resquício mais significativo do domínio imperial. Como resultado, esses países foram obrigados a importar de volta bens manufaturados, incluindo maquinário básico para suas próprias indústrias produtoras, resultando em uma crise desastrosa em seus termos comerciais. O que eles exportavam era sempre necessariamente menos valioso do que aquilo que precisavam importar. Embora os métodos coloniais diretos de controle tenham sido abolidos, a manutenção deste acordo por meio da influência política e econômica das antigas potências imperiais foi denominada “neocolonialismo” pelo presidente ganês Kwame Nkrumah, um dos primeiros teóricos do Terceiro Mundo.

Capital poderia ser acessado na forma de ajuda ou empréstimos de instituições financeiras internacionais ou diretamente de países mais ricos, mas este método representava um risco para a soberania nacional: os Estados seriam forçados a criar políticas para o benefício de seus credores internacionais, ao invés das necessidades imediatas de suas próprias populações. O capital também poderia ser acessado convidando-se o investimento estrangeiro direto, mas, visto que a maioria dos investidores estrangeiros já possuía capacidade de manufatura de alto valor em seu país de origem, esse investimento tendia a reforçar a dependência do Terceiro Mundo da produção de commodities de baixo valor; parafraseando o economista coreano Ha-Joon Chang, as corporações internacionais se voltavam ao Terceiro Mundo para fazer lascas de madeira ou batatas fritas (wood chips or potato chips), não microchips.

Isso deixou os Estados do Terceiro Mundo sujeitos principalmente às demandas dos investidores financeiros e de seus clientes de exportação, e cada vez menos às demandas de suas populações. O esvaziamento da democracia decorrente da política estatal sendo publicamente elaborada de acordo com as exigências dos interesses financeiros está agora sendo vivido pelo Ocidente desindustrializado, mas ocorreu inicialmente e de forma mais severa no Terceiro Mundo.

Instituições políticas como o Movimento dos Não Alinhados e a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) encorajaram um reequilíbrio global do poder econômico em favor do Terceiro Mundo. Uma solução foi formar cartéis de produtores em oposição às megacorporações que dirigiram os fluxos globais de capital como uma arma política. A maioria deles fracassou, como a Associação Internacional da Bauxita, criada por iniciativa do líder social-democrata jamaicano Michael Manley, à medida que os países dentro dos cartéis exploravam os regimes de fixação de preços para minar seus concorrentes — uma espécie de Dilema do Prisioneiro executado em termos de comércio internacional.

O único grande sucesso foi a OPEP, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo. Os países que detinham o que era então o mais lucrativo dos recursos naturais conseguiram repelir o domínio das “Sete Irmãs” das principais empresas petrolíferas. No entanto, ao invés de promover o desenvolvimento do Terceiro Mundo como um todo, as nações produtoras de petróleo abandonaram os objetivos políticos do movimento e estabeleceram uma relação corporativa com seus equivalentes no cartel dos monopólios privados do petróleo.

O modelo comunista

A outra opção aberta aos Estados do Terceiro Mundo era o modelo comunista de desenvolvimento. Essa forma de autarquia econômica permitiu-lhes fechar as portas à exploração estrangeira e reconquistar um mínimo de soberania genuína.

O modelo de desenvolvimento comunista optou por uma rota acelerada para a industrialização autossuficiente, sacrificando certas liberdades democráticas liberais em favor da apropriação direta pelo Estado da mais-valia gerada pelos trabalhadores. O Estado então desviou tanto desse capital quanto ousou em direção ao investimento planejado em ativos estratégicos, contando com a redução da pobreza como uma fonte alternativa de legitimidade na ausência de democracia multipartidária.

Nos primeiros anos da descolonização, antes que os “economistas do desenvolvimento” ocidentais formulassem uma estratégia para exportar o capitalismo por outros meios que não o domínio imperial, o modelo econômico comunista tinha a vantagem de ser praticamente o único conjunto coerente de ferramentas políticas disponíveis para os líderes do Terceiro Mundo. O idealismo socialista ressoou com os objetivos igualitários dos novos Estados revolucionários nacionais. A União Soviética (e, em menor grau, a China) também buscava desesperadamente uma saída da posição sitiada em que se encontrava durante a Guerra Fria, e isso significava que os termos da ajuda soviética eram muitas vezes muito mais favoráveis do que aqueles oferecidos pelas potências ocidentais mais seguras.

Nos primeiros anos de independência, as potências imperiais que partiram deixaram as novas nações do Terceiro Mundo sem burocracias governamentais adequadas, corpo técnico ou instituições políticas desenvolvidas. Muitas vezes, os partidos comunistas clandestinos que estavam germinando no mundo colonizado desde a convocação radical do Comintern contra o imperialismo no início dos anos 1920 eram as únicas estruturas organizacionais úteis disponíveis. Além disso, muitas vezes eram os únicos com um programa econômico que se estendia além do próprio advento da independência.

No entanto, com exceção da China, a primeira onda de descolonização viu poucos Estados comunistas reais surgindo. Os líderes nacionalistas revolucionários do Terceiro Mundo eram geralmente oriundos da pequena burguesia nativa que havia sido promovida pelas potências imperialistas como uma interface entre eles e seus súditos. Eles não tinham nem vontade política nem meios econômicos para criar uma ditadura da classe trabalhadora industrial, especialmente naqueles lugares onde não existia realmente uma classe trabalhadora industrial.

A maioria reprimiu seus movimentos comunistas locais ou os absorveu em um Estado nacionalista revolucionário de caráter multi-classe, atividade para a qual Moscou fez vista grossa, ou mesmo endossou implicitamente, oferecendo termos de ajuda e comércio favoráveis a seus novos aliados nacionalistas.

O assassinato do Terceiro Mundo

Os novos Estados nacionalistas agora se encontravam em uma posição política tênue no difícil equilíbrio da Guerra Fria. Os Estados que pareciam progredir com mais ou menos êxito no caminho do desenvolvimento igualitário se viram diante de novas ameaças das antigas potências imperiais.

Onde a persuasão política ou a coerção econômica falharam em manter os mercados produtores de commodities abertos aos interesses ocidentais, a intervenção direta foi empregada. Uma série de golpes e intervenções militares, quase sempre após tentativas de nacionalização dos recursos naturais, radicalizou o Terceiro Mundo, levando a uma nova espiral de conflito.

Esses golpes e intervenções encontraram aliados solícitos no próprio Terceiro Mundo. As velhas classes sociais, especialmente nas altas patentes militares e entre os grandes proprietários de terras, viram-se deserdadas pelo crescente radicalismo dos governos nacionalistas e exploraram a paranoia anticomunista dos Estados Unidos para obter apoio crucial para suas tomadas de posse sangrentas.

Os Estados de libertação nacional, que necessariamente centralizaram um enorme poder político e econômico, eram extremamente vulneráveis a essa forma de decapitação. Muitas vezes, a população em geral havia sido suficientemente desmobilizada desde a luta de libertação ao ponto de se ver incapaz ou sem vontade de se levantar em defesa de seus próprios governos e, nos casos em que uma população altamente politizada e enérgica tentou partir em defesa do estado, foram submetidas a massacres e outras formas de repressão extrema.

A queda do regime socialista democrático do Irã em 1953, o assassinato sangrento de Patrice Lumumba no Congo em 1960, o genocídio indonésio de 1965 e o assassinato do chileno Salvador Allende em 1973 são todos exemplos dos riscos reais enfrentados pelos governos que priorizaram a soberania em detrimento dos interesses ocidentais. Todas as intervenções desse tipo resultaram na imposição de ditaduras severas que ofereceram suas populações como fonte de mão-de-obra barata à prospecção de capital estrangeiro; foi contra essa alternativa que os comunistas do Terceiro Mundo justificaram seus próprios experimentos nada democráticos na construção de seus Estados.

À medida que os governos nacionalistas com inclinações mais liberais foram substituídos por ditaduras militares linha dura, uma reação apareceu na esquerda, que cada vez mais abandonou o princípio do não alinhamento e apostou diretamente no campo soviético. Seguindo os exemplos de sucesso dos comunistas chineses, cubanos e vietnamitas na manutenção da soberania de seus países, a década de 1970 viu aparecer uma onda de governos explicitamente marxistas-leninistas , particularmente na África.

No entanto, esta última onda de radicalismo extremo ocorreu em um momento de desaceleração econômica e estagnação na própria União Soviética. O último suspiro da militância do Terceiro Mundo não encontrou por muito tempo o apoio que procurava no campo comunista, com os regimes em Angola, Etiópia e Afeganistão sendo rapidamente consumidos em guerras civis devastadoras, a última das quais finalmente ultrapassou a capacidade da União Soviética para sequer vir em seu socorro.

Desprovidos do peso econômico compensatório do campo soviético, os Estados que haviam seguido o modelo comunista de desenvolvimento foram forçados a retornar às instituições financeiras capitalistas como o FMI, a fim de acessar o crédito de curto prazo para pagar suas dívidas de longo prazo. O FMI, aproveitando a vantagem, atrelou o acesso ao capital à desregulamentação dos mercados, ao fim dos subsídios aos bens básicos e às privatizações em massa de serviços públicos e indústrias estatais.

Os “empréstimos para o ajuste estrutural” retrocederam anos do progresso social nos Estados de libertação nacional, levando-os de volta ao tipo de pobreza bruta que não era vista desde os dias mais tirânicos dos antigos impérios. Muitas economias industriais nascentes voltaram rapidamente à produção de commodities cruas, ou mesmo à agricultura de subsistência, já que os ativos do Estado foram canibalizados em nome da “reestruturação”.

O impacto foi sentido mais fortemente pelas mulheres, que muitas vezes dependiam de benefícios sociais para emergir de seu papel desprivilegiado dentro das estruturas sociais tradicionais. Não é à toa que a África do final dos anos oitenta e início dos anos noventa está tão intimamente associada à imagem de crianças famintas.

Embora alguns Estados tenham conseguido criar bases de manufatura estáveis o suficiente para competir nas novas condições — por exemplo, Brasil e Coreia do Sul — para a maioria, o medicamento matou o paciente, produzindo rápida contração econômica em vez de crescimento. Na década de 1990, as ruínas do Terceiro Mundo atuavam como um subsídio direto às economias do Primeiro, em que todas as pretensões de desenvolvimento social e econômico eram sacrificadas em favor do ônus de dívidas inimaginavelmente enormes. Essas foram as condições econômicas em que o fundamentalismo religioso e o etnonacionalismo hardcore substituíram o nacionalismo mais progressista e igualitário do Estado de libertação.

O projeto político do Terceiro Mundo foi uma joia brilhante de otimismo e orgulho em um sistema mundial mais geralmente caracterizado pelo cinismo implacável do conflito das superpotências. No entanto, qualquer que seja o caminho que esses novos regimes tenham alcançado, a armadilha do desenvolvimento os agarrou como um vício.

Alguns, como Porto Rico, abandonaram toda sua soberania aos Estados Unidos e se resignaram à pobreza em troca de acesso a investimentos do Primeiro Mundo e bens de consumo. Outros, como Cuba, tornaram-se ilhas fortificadas, isoladas do mercado capitalista mundial e totalmente dependentes de seus próprios recursos e do compromisso político de suas populações para sustentá-las.

Apesar do fim da Guerra Fria e da trágica morte do Terceiro Mundo, a armadilha do desenvolvimento ainda está entre nós hoje. Vive nos Estados falidos que nunca se recuperaram do colapso comunista, nas economias produtoras que permanecem presas na periferia do sistema capitalista mundial e, cada vez mais, está apodrecendo no próprio coração imperial, nas comunidades da classe trabalhadora abandonadas pelos governos a serviço do capital financeiro internacional.

Sobre o autor

Robert Maisey é ferroviário e oficial político da sucursal de Paddington Nº1 do RMT, o Sindicato Nacional dos Trabalhadores Ferroviários, Marítimos e de Transportes do Reino Unido. Ele também faz parte do conselho regional dos sindicatos do Sul e do Sudoeste do País de Gales.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...