10 de fevereiro de 2026

"O Agente Secreto"

Assim como "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, que teve uma bilheteria igualmente bem-sucedida no ano passado, "O Agente Secreto" se passa durante a ditadura militar no Brasil. Diferentemente do filme de Salles, porém, "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, ocasionalmente se desvia de seu gênero aparente – o thriller político – para inserir uma piada cinematográfica.

Gaby Wood

London Review of Books

Vol. 48 No. 3 · 19 February 2026

No interior do Brasil, um homem dirige na contramão. É 1977 e ele está na estrada há três dias. Quando seu Fusca amarelo para em um posto de gasolina isolado, vemos o que ele está prestes a encontrar: um cadáver no chão, grosseiramente coberto com papelão.

Wagner Moura, interpretando o motorista, vê o corpo e tenta dar ré antes de ser interceptado pelo frentista. Uma tentativa de roubo, explica ele; o corpo está ali há dias. O motorista olha para o indicador de combustível no tanque vazio: não tem jeito, terá que ficar. Ele sai do carro e sente o cheiro forte. O frentista surge em primeiro plano, sua enorme barriga nua exagerada pela lente grande angular da câmera, seus óculos de armação grossa pendendo tortos do nariz. Logo, os dois são acompanhados por cães vadios, um carro cheio de foliões e, em seguida, a polícia. Analisamos a cena através do olhar alerta e cético do motorista e compreendemos que, naquele território monstruosamente comum em que estamos prestes a entrar, o cadáver abandonado há muito tempo, a polícia corrupta, os cães e a multidão festeira são corriqueiros. Ele negocia um suborno e volta para a estrada.

Esta é a sequência de abertura de O Agente Secreto, o quarto longa-metragem de Kleber Mendonça Filho, que vem acumulando prêmios desde sua estreia em Cannes no verão passado. Em janeiro, Moura se tornou o primeiro brasileiro a ganhar um Globo de Ouro de Melhor Ator, e o filme está atualmente indicado a quatro Oscars, incluindo Melhor Ator e Melhor Filme. Se vencer, a esposa e produtora habitual de Mendonça, Emilie Lesclaux, receberá o prêmio. Assim como Eu Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, que teve uma trajetória igualmente bem-sucedida no ano passado, O Agente Secreto se passa durante a ditadura militar no Brasil. Ao contrário do filme de Salles, porém, o de Mendonça ocasionalmente rompe com seu gênero aparente – o thriller político – para fazer uma pausa e inserir uma piada cinematográfica. Esta não é a primeira vez que Mendonça inicia um filme com um cadáver. Em Bacurau (2019), um caminhão carregado de caixões capota e espalha sua carga pela rodovia. Moradores locais inspecionam a mercadoria enquanto um corpo, talvez o do motorista, jaz à beira da estrada. É uma imagem digna de Buñuel.

Moura e Mendonça foram inicialmente aproximados pela oposição do governo Bolsonaro ao trabalho deles. Mendonça, ex-crítico de cinema, passou sete anos trabalhando em Imagens de Fantasmas (2023), um documentário ambientado em sua cidade natal, Recife, que incluía imagens de família e trechos de seus próprios filmes. Conforme desenterrava material de arquivo e relembrava sua juventude passada em cinemas, a forma de O Agente Secreto começou a surgir. Um projecionista entrevistado no documentário se tornou a inspiração para um projecionista no drama. Ele escreveu o protagonista pensando em Moura.

Nosso herói se chama Armando e é um professor universitário que vive escondido. Ele está indo para Recife, onde viverá sob o nome falso de Marcelo. É a direção errada para sua segurança, mas a certa para o que podemos imaginar ser sua alma. Após a morte de sua esposa, por causas que presumimos serem menos naturais do que aquelas que ele descreve ao filho, ele espera reencontrar o menino, que mora com os avós maternos na cidade litorânea do nordeste.

Ele se abriga em uma casa compartilhada para refugiados de diferentes matizes políticos e pessoais, administrada por Dona Sebastiana, uma senhoria baixinha e fumante inveterada que não se lembra se tornou comunista ou anarquista primeiro. Dona Sebastiana é interpretada por Tânia Maria, uma costureira de setenta e poucos anos que foi escalada por Mendonça como figurante em Bacurau. Aqui, seu desconcertante talento cômico quase rouba a cena.

Em Recife, Armando entra em contato com uma rede clandestina. Há trocas de mensagens enigmáticas, envelopes com dinheiro, encontros às 5 da manhã, ligações feitas de cabines telefônicas, a promessa de passaportes falsos. Se você demorar um pouco para juntar as peças, não se preocupe. "O que está acontecendo? Não entendo", diz Armando a Elza (Maria Fernanda Cândido), a peça-chave da rede. "Por que eu preciso de um passaporte falso? Não fiz nada de errado. E o que vocês ganham com isso? Quem são vocês?"

Armando está fugindo como Cary Grant em "Intriga Internacional": ele é o homem errado. Somente em um sistema corrupto suas ações seriam consideradas crimes. O fato de seu desespero e cansaço preocuparem alguém acima dele não é apenas confuso para ele. Em certo momento, um informante ligando de um telefone público para atualizá-lo sobre "o caso" (qual caso, não sabemos). O nome de Armando está em uma lista. "É muito estranho", diz o interlocutor. "Estou tentando entender. É jogo sujo no mais alto nível."

Elza conta a Armando que há um contrato para matá-lo – um fato que já sabemos, pois, paralelamente, acompanhamos o elegante assassino bigodudo e seu parceiro meio bobo. Eventualmente, formamos um quadro mais completo: a mão controladora da indústria sufocando a pesquisa acadêmica, disputas por patentes, a metrópole demolindo as províncias, misoginia assassina, uma vingança pessoal, um país governado por vigaristas. Mas muita coisa permanece nas sombras. Será que Armando conseguirá se exilar a tempo?

Grande parte do sucesso de O Agente Secreto se deve a Moura, que incorpora seu papel com o naturalismo de um personagem de documentário e o carisma de uma estrela. Ele interpreta dois personagens, o segundo dos quais não revelarei. Basta dizer que são surpreendentemente diferentes e estranhamente relacionados. A atenção aos detalhes em seus maneirismos e emoções humanas é extraordinária. A carreira brasileira de Moura abrange telenovelas, dramas policiais de grande sucesso e uma produção de Hamlet de grande repercussão, documentada em filme por sua esposa, Sandra Delgado. No mundo anglófono, ele é mais conhecido por interpretar Pablo Escobar na série Narcos da Netflix, para a qual aprendeu espanhol com um sotaque colombiano impecável e ganhou peso suficiente ao longo de duas temporadas para se tornar o lendário traficante de drogas barrigudo. Há dois anos, interpretou um correspondente de guerra americano de ascendência não especificada no profético filme Guerra Civil, de Alex Garland. Ele também é diretor: seu filme Marighella (2019) também se passa durante a ditadura e tem como protagonista o cantor brasileiro Seu Jorge, no papel do político marxista e guerrilheiro Carlos Marighella.

"O Agente Secreto" pode se referir ao fato de que, no Brasil da década de 1970, os cidadãos comuns eram forçados a viver disfarçados – que era muito fácil se tornar um agente secreto na própria vida. A frase também faz uma participação especial como título de um filme dentro do filme. Vemos ela aparecer em letras maiúsculas na tela do cinema São Luiz: “O AGENTE SECRETO”. Essa referência fugaz parece tão tangencial à trama que produz uma onda de anticlímax: seria esse o significado que estávamos esperando? Só que não é tangencial: o São Luiz está no centro de tudo: encontros secretos, telefonemas clandestinos, informações letais escapadas pela bilheteria – e o próprio amor do filme pelo cinema. “Isso é como aqueles programas de proteção a testemunhas americanos”, diz Armando enquanto Elza coloca um gravador na frente dele. Ela ri. É quase como se eles estivessem em um filme.

Mendonça evita certas satisfações de gênero – o clima sombrio de um filme sobre ditadura, o desfecho da morte de um personagem – e acrescenta outras que desmoronariam em mãos menos seguras: uma dupla de assassinos cômicos, um gato com duas caras, cenas de terror ao estilo de filmes de invasão alienígena. Ele está tramando algo mais do que sua história política sugere. Ele afirmou que, em vez de recriar uma réplica do passado, queria evocar a "atmosfera" da época. Isso explica, em parte, a sensação de assistir ao filme: você inala uma atmosfera, sente o cheiro de uma memória. Um jornal noticia que o número de mortos no carnaval chegou a 91. Uma mulher é possuída por um espírito no saguão do cinema. Uma parte do filme se intitula "O Pesadelo do Menino". Há um quê de alucinógeno nos eventos que permite que uma perna decepada, vista pela primeira vez na boca de um tubarão, ataque um casal de namorados no parque à noite. Não vemos apenas a perna peluda em ação; também vemos o grupo de refugiados de Dona Sebastiana rindo da notícia no jornal depois. Pode ser uma variação sobre um sonho ou uma sátira política: de alguma forma, todos no filme entendem seu código.

O fascínio visual do filme reside nas cores, carros e roupas de época. A fotografia de Evgenia Alexandrova é belíssima, com lentes anamórficas vintage que remetem ao CinemaScope. Mas Mendonça não se contenta com isso. Ele nos transporta para o presente, onde dois jovens pesquisadores transcrevem fitas cassete gravadas durante algumas das cenas que vimos. Essas passagens contemporâneas nos protegem dos perigos da nostalgia e nos mostram que a história não se limita ao passado.

Há uma discussão recorrente em O Agente Secreto sobre se o filho de Armando, Fernando, deve ou não assistir a Tubarão. O menino, com saudades da mãe e com medo de esquecê-la, é obcecado por tubarões. Ele os desenha constantemente e tem pesadelos com eles por causa do pôster do filme. Seu avô – o projecionista – acha que ele pode muito bem assistir ao filme. Armando veta. É uma conversa banal e constante sobre o que é bom para uma criança, independentemente de sua família estar vivendo sob ameaças de morte. No fim, Fernando assiste a Tubarão e, assim que o faz, seus pesadelos desaparecem. Há algo nessa fábula em miniatura, parece sugerir o filme, sobre o qual o Brasil contemporâneo se constrói. Não é que não existam coisas reais com que se preocupar. É que aquilo que você não sabe, não consegue se lembrar ou não quer enfrentar, te assombra mais.

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