8 de fevereiro de 2026

A hipocrisia na fala

Quem defendeu Israel enquanto havia genocídio em Gaza não pode dizer que se importa com direitos humanos

Acham que o governo brasileiro não deveria silenciar diante de violações, mas estão mesmo preocupados com os iranianos?

Salem Nasser
Professor de direito internacional da FGV-SP; publica a newsletter ‘Cegueira Seletiva’ no Substack.com

Folha de S.Paulo

Um dia, há muitos anos, percebi que uma intuição minha encontrava uma distinção habermasiana, aquela que diferencia entre a "ação comunicativa" e a "ação estratégica" por meio da linguagem.

Na ação comunicativa, os participantes buscam o entendimento mútuo, são sinceros e comprometidos com a ideia de veracidade, estão dispostos a testar a força dos argumentos e a se deixar convencer pelo outro. Em resumo, há ali uma comunicação real e honesta.

Palestinos se reúnem em torno de corpos de vítimas que, segundo médicos, foram mortas por um ataque israelense - Dawoud Abu Alkas - 4.fev.2026/Reuters - Dawoud Abu Alkas/REUTERS

Já na ação estratégica, aquele que comunica não tem qualquer compromisso com a verdade do que diz nem tampouco com o próprio convencimento sobre o que diz. As palavras e os argumentos são usados para atingir um fim outro que não o do entendimento e da comunicação.

Publicado nesta Folha, o artigo "A hipocrisia do silêncio" (2/2), de Claudio Lottenberg e Marcos Knobel, é um exemplo típico de ação estratégica. Seu objetivo não é nos fazer entender algo ou refletir, mas disparar gatilhos que produziriam os objetivos esperados. Por essa razão, não posso debater, nem devo, com o que está dito ali. É preciso, isto sim, denunciar a natureza do exercício a que se presta o artigo.

Os objetivos estratégicos que vejo acoplados ao texto e à sua publicação são dois. Por um lado, o artigo participa de um movimento mais amplo de pressão sobre o governo brasileiro, e especialmente sobre o presidente Lula, para que module suas posições sobre a Palestina e Israel. Por outro lado, busca-se fazer a defesa de Israel, uma defesa com a qual os autores estão tanto mais comprometidos quanto mais graves são os crimes israelenses.

Os passos para isso são: 1 - denunciar as supostas —ou verdadeiras, neste caso, tanto faz— violações de direitos humanos pelo Irã; 2 - denunciar o governo brasileiro por se calar diante das violações; 3 - naturalizar a informação —falsa, se pensarmos nos palestinos— de que em Israel tais direitos são respeitados; e 4 - sobretudo, fazer de conta que Israel não veio cometendo genocídio nos últimos dois anos ou apartheid nos últimos quase 80 anos!

O expediente estratégico conta com o fato de que, por razões que não cabem aqui, o Irã é o fantasma preferido do Ocidente desde a Revolução Islâmica de 1979, que agora completa 47 anos. O gatilho funciona: Israel faz parte do que somos nós, e o Irã é o outro malvado.

Mas, neste caso, desmontar o mecanismo é razoavelmente fácil para quem se dispõe a fazer perguntas simples. Nem sequer é preciso discutir a verdade ou a falsidade do que se diz sobre o Irã. Os autores se dizem preocupados com direitos humanos. Fazem isso de modo indireto: acham que o Brasil não deveria silenciar diante da sua violação. A pergunta é: será verdade que estão preocupados com os iranianos e seus direitos? Eu digo que não. A minha tese é de que quem passou dois anos defendendo Israel, enquanto este país cometia genocídio em Gaza —e passou muitos anos mais defendendo Israel enquanto se dava a expulsão forçada dos palestinos de suas terras e enquanto operava o sistema de apartheid onde quer que restassem palestinos— não pode dizer, honestamente, que se importa com direitos humanos.

Posso estar errado? Sim, desde que, para eles, violar direitos de minorias seja mais grave do que cometer genocídio. E/ou desde que, para eles, os palestinos não sejam humanos e, por isso mesmo, não teriam direitos; e, por isso mesmo, a sua eliminação não constituiria genocídio.

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