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8 de fevereiro de 2026

A hipocrisia na fala

Quem defendeu Israel enquanto havia genocídio em Gaza não pode dizer que se importa com direitos humanos

Acham que o governo brasileiro não deveria silenciar diante de violações, mas estão mesmo preocupados com os iranianos?

Salem Nasser
Professor de direito internacional da FGV-SP; publica a newsletter ‘Cegueira Seletiva’ no Substack.com

Folha de S.Paulo

Um dia, há muitos anos, percebi que uma intuição minha encontrava uma distinção habermasiana, aquela que diferencia entre a "ação comunicativa" e a "ação estratégica" por meio da linguagem.

Na ação comunicativa, os participantes buscam o entendimento mútuo, são sinceros e comprometidos com a ideia de veracidade, estão dispostos a testar a força dos argumentos e a se deixar convencer pelo outro. Em resumo, há ali uma comunicação real e honesta.

Palestinos se reúnem em torno de corpos de vítimas que, segundo médicos, foram mortas por um ataque israelense - Dawoud Abu Alkas - 4.fev.2026/Reuters - Dawoud Abu Alkas/REUTERS

Já na ação estratégica, aquele que comunica não tem qualquer compromisso com a verdade do que diz nem tampouco com o próprio convencimento sobre o que diz. As palavras e os argumentos são usados para atingir um fim outro que não o do entendimento e da comunicação.

Publicado nesta Folha, o artigo "A hipocrisia do silêncio" (2/2), de Claudio Lottenberg e Marcos Knobel, é um exemplo típico de ação estratégica. Seu objetivo não é nos fazer entender algo ou refletir, mas disparar gatilhos que produziriam os objetivos esperados. Por essa razão, não posso debater, nem devo, com o que está dito ali. É preciso, isto sim, denunciar a natureza do exercício a que se presta o artigo.

Os objetivos estratégicos que vejo acoplados ao texto e à sua publicação são dois. Por um lado, o artigo participa de um movimento mais amplo de pressão sobre o governo brasileiro, e especialmente sobre o presidente Lula, para que module suas posições sobre a Palestina e Israel. Por outro lado, busca-se fazer a defesa de Israel, uma defesa com a qual os autores estão tanto mais comprometidos quanto mais graves são os crimes israelenses.

Os passos para isso são: 1 - denunciar as supostas —ou verdadeiras, neste caso, tanto faz— violações de direitos humanos pelo Irã; 2 - denunciar o governo brasileiro por se calar diante das violações; 3 - naturalizar a informação —falsa, se pensarmos nos palestinos— de que em Israel tais direitos são respeitados; e 4 - sobretudo, fazer de conta que Israel não veio cometendo genocídio nos últimos dois anos ou apartheid nos últimos quase 80 anos!

O expediente estratégico conta com o fato de que, por razões que não cabem aqui, o Irã é o fantasma preferido do Ocidente desde a Revolução Islâmica de 1979, que agora completa 47 anos. O gatilho funciona: Israel faz parte do que somos nós, e o Irã é o outro malvado.

Mas, neste caso, desmontar o mecanismo é razoavelmente fácil para quem se dispõe a fazer perguntas simples. Nem sequer é preciso discutir a verdade ou a falsidade do que se diz sobre o Irã. Os autores se dizem preocupados com direitos humanos. Fazem isso de modo indireto: acham que o Brasil não deveria silenciar diante da sua violação. A pergunta é: será verdade que estão preocupados com os iranianos e seus direitos? Eu digo que não. A minha tese é de que quem passou dois anos defendendo Israel, enquanto este país cometia genocídio em Gaza —e passou muitos anos mais defendendo Israel enquanto se dava a expulsão forçada dos palestinos de suas terras e enquanto operava o sistema de apartheid onde quer que restassem palestinos— não pode dizer, honestamente, que se importa com direitos humanos.

Posso estar errado? Sim, desde que, para eles, violar direitos de minorias seja mais grave do que cometer genocídio. E/ou desde que, para eles, os palestinos não sejam humanos e, por isso mesmo, não teriam direitos; e, por isso mesmo, a sua eliminação não constituiria genocídio.

22 de outubro de 2025

Sofistas por Israel

Como apontava Aristófanes, tentam 'fazer com que o argumento mais fraco pareça ser o mais forte'

É indecente se levantar em defesa do algoz das milhares de crianças que agonizaram sob os escombros

Salem Nasser
Professor de direito internacional da FGV-SP; publica a Newsletter "Cegueira Seletiva" no Substack.com


Criticar o presidente Lula, que disse não ter problemas com Israel, me rendeu uma reprimenda em casa e duas diatribes publicadas contra mim nesta mesma Folha.

A reprimenda veio da minha esposa: disse que eu não deveria criticar o presidente mais pró-Palestina que o Brasil já teve. Respondi apenas na medida em que ficaria preservada a felicidade conjugal.

Já os autores das duas diatribes, Demétrio Magnoli e Daniel Golovaty, não merecem, propriamente falando, uma resposta minha. E isto porque responderam a coisas que eu não escrevi e deixaram de responder ao que escrevi de mais importante.

Palestinos vasculham os escombros de prédios em meio à destruição generalizada causada por bombardeio israelense em Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza - Omar Al-Qattaa - 12.out.2025/AFP)

Eles falsificaram o meu texto para construir um Salem Nasser que não sou eu, mas um fantasma que poderia servir de saco de pancada. Falaram desse extremista, desse semeador do ódio, desse obstáculo à paz, desse antissemita obsceno e perverso.

Magnoli menciona uma única frase que eu de fato escrevi, para logo deturpá-la e dela tirar o monstro que eu seria. Já Golovaty, de fato, parece ter delirado um outro texto que não o meu, atribuído a um autor com quem pudesse lutar em suas fantasias de herói. Desta vez, aconteceu de eu encarnar esse dragão imaginário.

Doutores em geografia política, historiadores, psicanalistas deveriam ser pessoas capazes de ler e entender precisamente um texto tão cristalino como o meu. Não os tomarei por ignorantes, no entanto. Imputar-lhes-ei a má-fé. Tentam fazer, com seus exercícios desonestos em torno das palavras e das frases, aquilo que Aristófanes apontava nos sofistas: tentam "fazer com que o argumento mais fraco pareça ser o mais forte."

Além da má-fé, e antes mesmo dela, digo que há desfaçatez e obscenidade, em, depois de dois anos de genocídio explícito e confessado, apropriado com orgulho por parte do criminoso, inflar o peito e levantar-se indignado para fazer a defesa de Israel!

Algumas pessoas montam em seu pedestal de correção moral e falam de paz, de combate ao ódio, de direito internacional, mas são incapazes, como dizia Neruda, de "ver o sangue (que corre) pelas ruas!"

Indecentes, eu lhes digo. Não só por se levantarem em defesa do algoz das milhares de crianças que agonizaram sob os escombros, e cujo sangue ainda corre pelas ruas, mas por o fazerem de modo intelectualmente tão desonesto.

Não tenho espaço aqui para listar tudo que, nos dois textos, há de manipulação das palavras, de modificação das frases, de invenção e de omissão. Farei isso com prazer em outro lugar. Darei aqui apenas dois exemplos, para que o leitor se familiarize com o exercício.

Magnoli diz que, ao apontar para o erro de Lula, mencionado acima, eu recorria à "identificação do governo de Netanyahu com a nação israelense". Onde eu escrevi "Estado," ele leu "nação." Ele também usa "Estado judeu" para se referir a Israel.

Com esse expediente, Magnoli substitui a opinião pública israelense e o Estado, ente político, de que eu falava, pelos judeus do mundo: se a nação israelense é igual a Israel, e se Israel é igual ao Estado judeu, então Israel é o Estado de todos os judeus e de ninguém mais além dos judeus. E, ao criticar Israel, eu estaria, como bom antissemita, criticando os judeus do mundo.

Já Golovaty me acusa de usar a imagem do Cristo e de sua paixão para estabelecer um paralelo entre os judeus que o teriam matado e os que hoje matam os palestinos. A coisa não tinha me passado pela cabeça e confesso que não sei se o Cristo existiu de verdade e se foi supliciado. Sei que, de acordo com a Bíblia, seus torturadores eram soldados romanos. Agora, se Golovaty tiver a notícia de que quem hoje suplicia os palestinos não são judeus israelenses, com a devida cumplicidade de cristãos ocidentais, muçulmanos árabes e não árabes e tantos outros, ele deveria contar ao mundo.

Há um vício comum aos dois textos, no entanto, que constitui a ausência fundamental. Eu digo e repito: que Israel é um projeto colonial e racista desde a origem; que Israel ocupa ilegalmente território palestino; que Israel implementa um sistema de apartheid contra os palestinos em todos os territórios sob seu domínio; que Israel empreende um esforço contínuo e velho de décadas de limpeza étnica da Palestina; que, ao menos desde outubro de 2023, Israel comete Genocídio contra os palestinos da Faixa de Gaza.

E digo também: quem quiser defender Israel precisa enfrentar o desafio de negar essas cinco acusações que eu faço. E não é porque sou eu a fazer o desafio; é simplesmente porque, se não puderem negar estas verdades, não há defesa possível para Israel!

Todo o resto será inútil. Não adianta disparar as acusações de terrorismo, de antissemitismo, de extremismo; não adianta ressuscitar, como faz Golovaty, falsas notícias há muito superadas; não adianta recorrer a artifícios retóricos ou criar cortinas de fumaça.

Eu lancei esse mesmo desafio muitas vezes antes do 7 de outubro de 2023 e o fiz ao menos duas vezes nesta mesma Folha desde então, em 10 e 31 de outubro de 2023.

Pois bem, faço-o novamente: esqueçam esse pequeno fantasma, que inventaram e que veem encarnado em mim, com quem querem trocar insultos; enfrentem o debate real!

31 de outubro de 2023

Ver o mal e não calar

Terrorismo é palavra cômoda para quem tem a prerrogativa exclusiva de usá-la

Salem Nasser
Professor de direito internacional da FGV Direito-SP, publica a newsletter salemhnasser.substack.com

Folha de S.Paulo

Nos últimos dias, após esta Folha publicar meu artigo "Guerra, terror e ultraje seletivo" (11/10), fui perseguido, assediado, acusado de entreter sentimentos antissemitas e de apoiar o terrorismo. Abaixo-assinados, textos no jornal, redes sociais e muitas conversas foram mobilizados em prol dessa perseguição e dessas acusações. Tudo isso é, certamente, um incômodo. Mas nada importa de verdade. São cortinas de fumaça cuja função é impedir que vejamos o verdadeiro mal.

No artigo "Há equivalência moral entre Israel e Hamas? (26/10), um dos meus acusadores, o rabino Samy Pinto, se pergunta se teremos a coragem da chamar o mal pelo seu nome. Pois bem, aqui vai: o mal se chama apartheid, se chama ocupação ilegal dos territórios palestinos, se chama bloqueio criminoso contra a Faixa de Gaza, se chama limpeza étnica da Palestina.

Homem carrega menina palestina ferida durante bombardeio na cidade de Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza - Ibraheem Abu Mustafa - 11.out.23/Reuters - REUTERS

E o mal tem também outros nomes: crimes de guerra, crimes contra a humanidade... Mas que são insuficientes para revelar-lhe a verdadeira face: é preciso, para ver o mal, contar uma a uma as 3.000 crianças mortas, mostrar os efeitos das bombas incendiárias sobre a pele.

Sim, o mal também pode se chamar terrorismo, desde que, honestamente, se conceitue o termo —e desde que, honestamente, se aponte para os verdadeiros terroristas.

Eu, pessoalmente, evito a expressão porque, honestamente, me preocupo mais com o mal que se pode fazer quando se usa a palavra: pode-se despir as pessoas de seus direitos fundamentais, pode-se punir coletivamente um povo, pode-se matar mulheres e crianças, pode-se cometer todos os crimes impunemente. É uma palavra perigosa —"terrorismo"—; e é muito cômoda para quem tem a prerrogativa de usá-la com exclusividade.

Para além dessa resposta ao desafio lançado, não se pode levar muito a sério o conteúdo do artigo acima citado ou de outros publicados na Folha, como "Israel busca proteger a vida e o Hamas sacrifica os palestinos" (17/10) e "Quem deve ser questionado é o Hamas" (21/10).

São peças de retórica vazia, preenchidas com referências à democracia, à liberdade, à civilização, à barbárie dos outros, a compassos morais... Nada que nos soasse estranho se saído da boca do típico colonizador do século 19. São parte da cortina de fumaça, que nos quer impedir de ver. E são parte da mordaça, que nos quer impedir de falar.

Sim, é preciso coragem para denunciar o projeto colonial que pretende substituir uma população por outra na Palestina. Mesmo quando governantes israelenses anunciam o projeto e confessam a sua implementação em alto e bom som, falta quem tenha a coragem de ouvir, quanto mais a de dizer.

Quem ousa falar, deve enfrentar o poder mágico das palavras. Antissemita! Terrorista! Pronto, agora o assunto é você, e todas as suas energias devem ser dedicadas a provar que não merece queimar nessa fogueira. Mas, dia após dia, criança após criança, massacre após massacre, esse cobertor de palavras vai ficando curto e o mal se deixa ver, apesar de tudo.

Eu digo não ao antissemitismo e digo não ao terrorismo, como quer que alguém o conceitue, mas peço aos meus acusadores que percebam: são eles a ferir o judaísmo e os judeus enquanto tentam impor ao mundo uma equivalência espúria entre estes e um Estado criminoso.

10 de outubro de 2023

Guerra, terror e ultraje seletivo

Se chama Hamas de terrorista, Folha deve fazer o mesmo ao se referir a Israel

Salem Nasser
Professor de direito internacional da FGV Direito-SP, publica a newsletter salemhnasser.substack.com

Folha de S.Paulo

Imagine. Imagine que 2,5 milhões de judeus vivem há 17 anos numa prisão a céu aberto e que seu carcereiro decide sobre o que entra e o que sai: energia, comida, remédios... Imagine que famílias judias são cotidianamente expulsas de suas casas, suas e de seus antepassados, de sua terra por gerações, para dar moradia a não judeus vindos do mundo inteiro. Imagine que judeus vivem cercados de muros e cercas e não podem andar pelas mesmas ruas que são livres apenas para não judeus. Imagine que os judeus têm a sua identidade nacional, a sua própria existência enquanto povo, negada. Imagine que alguém, um ministro, por exemplo, diga que os judeus são animais a serem eliminados. Imagine que o carcereiro anuncia, e logo cumpre, que cortará o acesso à água, à luz, à comida dos judeus. E imagine que aqueles 2,5 milhões de judeus, na sua prisão, são alvo, por dias seguidos, das armas mais inteligentes e mortais do mundo, e por bombas de fósforo branco e que, por exemplo, só na primeira noite de bombardeios 140 crianças morrem...

Prédio atingido por bombardeios de Israel na Faixa de Gaza na quarta-feira (11) - Amir Cohen/Reuters

Agora imagine que os judeus são palestinos. Você acordou, finalmente, agora? Se não acordou, vou dar uma dica: você precisa imaginar que o palestino é um ser humano como o judeu; e você precisa imaginar que, assim como os judeus e todos os demais seres humanos, os palestinos podem ser civis. Crianças tendem a ser civis.

A Folha passou a chamar o Hamas de grupo terrorista porque "Segundo o Manual da Redação, a palavra terrorista deve ser usada para qualificar quem 'pratica violência indiscriminada contra não combatentes a fim de disseminar pânico e intimidar adversários'".

Não li versões recentes do Manual da Redação da Folha, mas lembro com saudades de uma propaganda, histórica, que o jornal veiculou e que terminava com uma belíssima frase: "É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade!".

A Folha parece não querer se dar ao trabalho nem mesmo de dizer a verdade. Ela apenas reporta o que o Hamas usou como motivação para o ataque, mas não nos conta que é verdade o que o grupo diz. A verdade pode não justificar o ataque, mas não deixa de ser verdade. Reporta o que Netanyahu disse, mas apenas a parte que interessa a Netanyahu.

A Folha pode chamar o Hamas de grupo terrorista para se manter fiel ao seu Manual, mas, para manter-se fiel ao mesmo Manual, precisaria se referir a Israel como um Estado terrorista e aos seus governantes como terroristas, de acordo com a sua própria definição.

Não discutirei o conceito técnico de terrorismo, que não existe, mas direi algo sobre o uso retórico da palavra.

Antes, no entanto, digo que existem tratados internacionais que estabelecem o Direito Internacional Humanitário —o que se pode e o que não se pode fazer na guerra—, que definem o crime de genocídio, os crimes de guerra, os crimes contra a humanidade, entre estes o crime de apartheid.

Se alguém se der ao trabalho de ler, verá que, tecnicamente, Israel viola todas as normas possíveis do direito humanitário e verá que os governantes e militares israelenses são criminosos de guerra e culpados de crimes contra a humanidade, inclusive aquele de apartheid. Não chego ainda a dizer que sejam culpados do crime de genocídio porque não tenho certeza de que a limpeza étnica de um povo, sobretudo pela expulsão do território, equivale exatamente à tentativa de operar a "destruição, total ou parcial, de um grupo nacional, étnico, racial ou religioso".

Assim, se a Folha faz questão de abarcar, no modo como se refere ao Hamas, o que percebe como violações do direito humanitário, ou como crimes de guerra, ou, ainda, crimes contra a humanidade, eu recorreria a outra terminologia que não a de terrorista.

Mas, para fazer bom jornalismo, precisaria se referir ao menos do mesmo modo a Israel, a suas autoridades e a seus militares.

Bom jornalismo? Não quero ensinar a missa ao vigário, mas a Folha deve saber, não pode não saber, que quando se refere ao Hamas como grupo terrorista, nada mais do que diga ou reporte interessa ou fará qualquer diferença. No instante em que diz "grupo terrorista", ela tira qualquer razão aos palestinos e permite tudo a Israel. Todos os crimes são permitidos contra o terrorista! Esse é o poder retórico da palavra.

Se isso não consta do seu Manual da Redação, recomendo fortemente a sua reciclagem.

12 de abril de 2023

Islamofobia naturalizada ou ignorância?

Muniz Sodré deveria pausar e refletir antes de falar sobre Islã e muçulmanos

Salem Nasser
Professor de direito internacional da FGV Direito SP

Folha de S.Paulo

Lamento não ter lido, ainda, o livro "A Sociedade Incivil", do professor e colunista da Folha Muniz Sodré. Mas entendo que, como eu, ele deseja uma sociedade mais civil. Li com gosto sua entrevista no caderno Ilustríssima ("Aceito a expressão, mas racismo não é estrutural no Brasil, diz Muniz Sodré", 18/3). Apreciei sua defesa do "pensamento de aproximação" como estratégia para combater o racismo. E sorri diante da menção aos "professores razoáveis" que temem o candomblé.

Já enquanto lia dois de seus artigos recentes —"A mão que não se estende" (25/2) e "Uma jihad tabajara" (26/3)— ocorreu-me que Muniz Sodré deveria pausar em reflexão quando, numa próxima ocasião, sentir a urgência de falar sobre o Islã e os muçulmanos. Penso que a causa da civilidade estaria mais bem servida assim.


Algum medo do professor razoável em relação ao Islã, um Islã imaginado, talvez fantasmado, se insinua nos dois textos. Não há neles sequer indício de um pensamento de aproximação.

No primeiro dos artigos, um incidente ocorrido durante a posse do presidente Lula —uma descortesia diplomática decorrente de mau julgamento por parte da primeira-dama e/ou de falha do cerimonial— serve como gatilho para uma diatribe contra o Irã, os "mulás" e os seus "paus-mandados", partes de "um aparelho de Estado regido pelo ódio à condição feminina". Imagina-se um Irã, e um mundo islâmico, mais amplo, em que a mulher é colocada na posição do inimigo em "termos ontológico-existenciais".

Já no segundo artigo, o tema central diz respeito ao radicalismo de algumas igrejas evangélicas, que teriam vestido "a fantasia golpista de retorno do inominável" e que estão especialmente motivadas pela isenção fiscal. O texto contém, no entanto, duas referências ao Islã que, desnecessárias, voltam a revelar o medo, e o preconceito, do professor razoável em relação àquilo que não conhece.

Primeiro, diz-se que aquelas igrejas fazem "como suas contrapartes islâmicas, pregam jihad ou guerra santa". Não se sabe se essas contrapartes atuariam no Brasil ou em outro lugar do mundo, se elas também esperariam a volta do inominável, se elas seriam a totalidade dos muçulmanos... Não há, para quem queira entender o argumento, qualquer utilidade na frase. O efeito pretendido é retórico: remete-se o radicalismo a um paradigma imaginado como consensual entre os leitores, aquele islâmico, em guerra contra tudo o que não for islâmico. Dá-se potência à ideia recorrendo a um preconceito e, sabendo ou não, reforça-se o preconceito.

A segunda passagem diz que "a jihad tabajara", quando crê que o Senhor castigará o novo governo, o faz "a exemplo do Alá violento para com infiéis". Aqui também é impossível saber o que quer dizer o autor: a frase não tem função explicativa, apenas reforça o preconceito que já se tem por compartilhado.

Ao mesmo tempo em que denunciava, neste mesmo texto, a possibilidade da crença em perigos imaginários, Muniz Sodré não se deu conta de estar alimentando os fantasmas dos perigos "islâmico", "iraniano", "oriental".

Digo "oriental" porque o discurso, nos dois artigos, tem ecos orientalistas claros. O mais evidente evoca a mulher oriental que o Ocidente resgatará do despotismo dos homens orientais, que teriam preservado apenas "a urgência reprodutiva com as injunções do estupro caseiro".

Em síntese, o que faz o autor, defensor sincero da aproximação e da convivência entre os diferentes, genuíno progressista, é incorporar e aceitar para si o preconceito que recebe inteiro da representação do mundo que fazem os Estados Unidos e a grande mídia. Ele incorporou um ponto cego que vem acoplado aos discursos de igualdade, de diversidade e de combate ao preconceito. É um ponto cego que parece dizer: em árabe e muçulmano, pode bater.

A esse respeito, faço menção ao fato de ter a Folha adotado a bandeira da pluralidade como estratégia de marketing. Eu proporia, ou melhor, desafiaria a Folha a fazer das temáticas relacionadas ao mundo árabe, ao mundo muçulmano e ao Oriente Médio o seu teste de ouro e fazer a prova de que suas ações correspondem ao seu discurso.

10 de fevereiro de 2022

Apartheid em Israel: sistema e crime

Como essa realidade pôde ter ficado tanto tempo invisível?

Salem Nasser
Professor de direito internacional da FGV Direito SP

Folha de S.Paulo

As palavras têm poder, dizem. E apartheid é, de fato, uma palavra forte. Quando a encontramos, ela nos transporta para a lembrança de um sistema de segregação racial e de opressão que vigia na África do Sul até um passado tão incrivelmente recente e que nos dizia muito sobre o potencial de crueldade que o ser humano carrega consigo.

Mas a palavra apartheid e o seu sentido, a realidade que descreve, não são coisas que se encerram totalmente na geografia da África do Sul e no período coberto pela história do sistema naquele país. Pode haver, e há, apartheid em outros lugares e tempos.

É justamente o que diz a Anistia Internacional (AI), uma das mais importantes organizações de direitos humanos do mundo. Em seu mais recente relatório, a AI denuncia o apartheid construído e implementado por Israel em detrimento dos palestinos que vivem sob seu controle.

Não é a primeira vez que a organização denuncia crimes e violações de direitos fundamentais dos palestinos, mas é a primeira vez que aponta explicitamente para a existência de um sistema de apartheid.

Máquina israelense destrói casa palestina no sul de Hebron - Mamoun Wazwaz - 28.dez.2021/Xinhua

Antes deles, em abril de 2021, a Human Rights Watch também quebrou o que parecia ser um tabu e soltou um relatório em que acusava Israel de ter ultrapassado a barreira dos crimes de apartheid e perseguição. Há algo novo na ousadia dessas organizações quando elas resolvem chamar as coisas pelos seus nomes.

Chama a atenção o fato de que o relatório da AI não fala de um vestíbulo recentemente cruzado, mas se refere a décadas de construção, desenvolvimento e implementação do sistema.

A pergunta se impõe: por que demoraram tanto para usar a palavra? Parte da resposta está em que ela ajuda a tornar visível uma realidade que muitos poderes querem resguardar sob um manto de invisibilidade. Por isso mesmo, os custos para as instituições podiam ser muito altos. Agora, a ousadia pode indicar que a realidade é tão explicitamente indecente que já não se pode calar e que os custos de dizer serão mais facilmente suportados.

A palavra tem ainda outro poder, que se casa com a sua força simbólica evidente: ela aponta, ao mesmo tempo, para o aspecto criminoso das práticas israelenses e para o fato de que elas constituem e servem a um sistema, um sistema de dominação e opressão de um grupo racial sobre outro.

Agnès Callamard, secretária-geral da AI, referiu-se assim ao que viu em Israel e Palestina: "... o que eu vi me chocou até âmago; não foi a violência —eu já vi violência—, foi a crueldade do sistema, a intricada e evolutiva administração de controle, despossessão e desigualdade, a detalhada e incrível burocratização sobre a qual o sistema está montado, a sua pura banalidade!".

Apontar para o fato de que se está diante de um sistema de segregação racial joga nova luz sobre o sentido e a gravidade dos crimes e das violações de direitos humanos que agora aparecem como parte de um todo coerente.

O relatório faz bem ao nos explicar essa verdade em termos técnicos, jurídicos, fazendo referência a tratados internacionais, decisões de tribunais e opiniões de grandes juristas.

Escavadora destrói casa palestina no sul de Hebron - Mamoun Wazwaz - 23.nov.2021/Xinhua

Mas ele não fala apenas aos juristas; fala antes a todos nós enquanto seres humanos. Ele nos diz, essencialmente, que, em Israel e onde mais esse Estado exerce controle sobre os palestinos, há uma lei que diz ser aquele o lar nacional apenas dos judeus; que ali serão bem-vindos os judeus de qualquer lugar do mundo, mas que a população local, originária, não pode gozar o direito de reunião familiar e corre o risco de expulsão; que ali os palestinos são privados de direitos fundamentais como a liberdade de movimento, acesso à saúde, acesso à água; que ali os palestinos têm suas casas demolidas, são expulsos de suas aldeias, têm suas terras expropriadas, são presos administrativamente, sem acusação ou julgamento...; e, mais importante, que tudo isso é consciente, é voluntário, é planejado, é burocraticamente implementado, é um sistema, um sistema construído para manter a dominação de um grupo racial sobre outro!

Como pode ser que algo assim exista em nosso tempo? E que essa realidade seja tão facilmente demonstrável e ainda assim tenha ficado invisível? Será que agora já será possível enxergar?

Perto da cidade de Tubas (Cisjordânia), palestinos protestam diante de militares israelenses contra a expansão de assentamentos judeus - Ayman Nobani - 31.jul.2021/Xinhua

17 de maio de 2021

"Você está roubando a minha casa!"

É justo que a senhora seja expulsa para que o colono se instale?

Salem Nasser
Professor de direito internacional da FGV Direito SP

Folha de S.Paulo

Já passam de 200 os mortos na Palestina. Quase a metade desses mortos é de crianças e mulheres. As imagens dessas crianças e de seus corpos desmembrados são duras demais para contemplar, mas ainda assim nos fazem prisioneiros, impotentes.

Você talvez não as tenha visto, ou tenha fugido delas como faço eu, para não sucumbir.

Mas não é daquilo em nós que faz invisíveis as vítimas que falo hoje. É outra a cegueira que quero acusar.

A cada explosão de violência na Palestina (2008-2009 / 2012 /2013), repete-se entre nós uma dinâmica tão previsível quanto exasperante. Primeiro, as notícias aparecem quando os fatos já correm há alguns dias. Logo, no tom, as notícias e as análises parecem sustentar um equilíbrio entre os dois lados, como quem quer ser – e parecer – justo.


Na essência, no entanto, justificam e naturalizam a posição de Israel. Finalmente, alguns, como eu, denunciam os crimes que tomam os civis por alvos, propositalmente. Convido, para confirmação, a uma leitura fina. Olhe os números e veja as imagens; coragem!

Essas vozes de denúncia não conseguem quebrar a narrativa oficial. Esta grassa entre nós por razões que são muitas.

Numa cena que simboliza o estopim imediato da violência, uma senhora palestina diz ao colono judeu: “você está roubando a minha casa!” Ele, com seu sotaque americano, responde que se não for ele a roubar, um outro o fará. Em desespero, ela tenta articular: “não, ninguém pode roubar a minha casa!”

A pergunta é: você, o que acha? É justo essa senhora ser expulsa de sua casa para que o colono recém-chegado dos Estados Unidos nela se instale? Na verdade, essa expulsão é apenas um passo dentro de um amplo e longo processo de limpeza étnica da Palestina. E essa limpeza era tida como uma necessidade, reconhecida como tal pelos fundadores, para que Israel pudesse ser um Estado exclusivamente judeu.

Então a pergunta agora é: você acha justo que colonizadores vindos dos vários cantos do mundo expulsem e desterrem milhões de palestinos, os que já foram expulsos e os que ainda o serão, habitantes da terra há séculos, se não milênios? Ou que os palestinos que restarem vivam sob ocupação e sob Apartheid ou, no melhor dos casos, na condição de cidadão de segunda classe, porque não-judeus?

Antes que você julgue, no entanto, pergunto: você tinha visto o vídeo da senhora e de seu algoz colono? Sabia que um outro estopim da violência foi a repressão violenta dos palestinos que iam rezar na Mesquita de Al-Aqsa – um outro modo de afirmar a soberania israelense exclusiva sobre Jerusalém? Sabia que a Human Rights Watch enxergou o Apartheid e o denunciou?

O mais provável é que você tenha tido notícia do que acontecia apenas quando a violência atingiu Israel – “por parte de um grupo radical”, você terá lido. A partir daí, você ficou sabendo tudo que o governo israelense disse e quase nada do que disseram os palestinos.

A ironia, talvez, que eu quero apontar é esta: se não fossem os foguetes do Hamas, o pior de todos os crimes, o da limpeza étnica da Palestina, seguiria sendo metodicamente, profissionalmente, cometido, sem que nada incomodasse os criminosos.

Atenção! Nem mesmo a violência chega a revelar a existência do crime, que continua ausente da narrativa. Ele segue sendo uma verdade desconhecida, substituída por mentiras várias. Segue sendo uma grande injustiça.

Talvez não possamos nada pelos palestinos. Mas faria bem à nossa sociedade, hoje mais do que nunca, que soubéssemos reconhecer o mal, a injustiça, a exclusão, e contra eles lutar.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...