John Livesey
Jacobin
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| Manifestantes do movimento Black Lives Matter marcham pelas ruas durante um protesto em Sacramento, Califórnia. (Justin Sullivan / Getty Images) |
Resenha de Hyperpolitics: Extreme Politicization without Political Consequences, de Anton Jäger (Verso, 2026)
Na metade de seu aclamado romance Perfeição, Vincenzo Latronico insere um episódio particularmente revelador. É 2015 e Anna e Tom são designers gráficos, trabalhando em um dos bairros mais badalados de Berlim. Sua vida confortável é repentinamente interrompida, no entanto, quando uma foto surge nas redes sociais e logo se torna viral. É uma imagem de Alan Kurdi, um jovem menino sírio cujo corpo foi encontrado na costa da Turquia e fotografado por socorristas locais, deitado de bruços na areia. Despertados de seu estado de apatia, Anna e Tom decidem começar a trabalhar como voluntários em um centro de refugiados local.
Inicialmente, o casal gosta do trabalho. Como Latronico descreve, eles apreciam a sensação de fazer parte de algo maior do que eles mesmos e sentem como se estivessem em um “encontro com a história”. Gradualmente, porém, a novidade começa a se dissipar. Anna e Tom se entediam com as tarefas que lhes são atribuídas e, quando os celulares são proibidos no local, reagem com indignação. Como mais seus seguidores saberiam o que eles andam fazendo? Com surpreendente facilidade, o casal logo se esquece do corpo de Alan Kurdi e retorna à segurança de suas vidas normais. Do conforto de seu apartamento em Berlim, eles aguardam pacientemente por uma nova atrocidade que interrompa sua busca incessante por notícias ruins e fure a carapaça de seu tédio político.
"Perfeição" faz parte de uma onda de romances que satirizam a vida da geração millennial, e fica claro que Latronico pretende que a narrativa de Anna e Tom incomode os leitores liberais. No entanto, as lições a serem extraídas deste episódio são relevantes para públicos muito além do leitor liberal e cosmopolita que "Perfeição" atraiu. Em todo o Ocidente, o discurso político é cada vez mais moldado pelo ciclo de ascensão e queda da indignação viral. Eventos isolados se tornam focos de tensão política, desencadeando explosões de energia que raramente se traduzem em engajamento a longo prazo, brilhando intensamente no início e desaparecendo tão rapidamente quanto surgiram. O resultado, como "Perfeição" demonstra engenhosamente, é um mundo em que a política está em toda parte e, no entanto, nada parece mudar.
Política sem as massas
É essa mesma paisagem incipiente que o historiador intelectual Anton Jäger tenta desvendar em Hiperpolítica, publicado pela primeira vez em inglês pela Verso Books. Traçando mais de quarenta anos de história política, este volume conciso, porém instigante, percorre um terreno irregular: as lutas ideológicas do século passado, de um lado, e as mesquinhas guerras do Twitter que moldam a nossa, do outro. Nesse processo, Jäger demonstra que nosso discurso cada vez mais saturado impede que alternativas radicais se consolidem, deixando-nos presos em um limbo hiperpolítico: um presente eterno caracterizado por uma “politização extrema sem consequências políticas”.
Para sustentar esse argumento, Jäger apresenta sua própria genealogia do presente, começando pela “política de massas” que definiu grande parte do século XX. Por política de massas, ele entende a política articulada por meio de “instituições totais”, como sindicatos, corporações de ofício ou partidos políticos, capazes de mobilizar bases sociais facilmente identificáveis para perseguir um programa ideológico claro.
Na década de 1970, porém, essa forma de política já estava em declínio. Temendo uma espiral inflacionária causada em parte pela agitação operária, governos em todo o Ocidente recorreram a diversos instrumentos políticos para controlar o movimento sindical e sufocar as vias restantes para a ação coletiva, protegendo, na prática, o mercado da democracia de massas. Na esteira dessa reestruturação, a única forma de poder de barganha que restou foi a urna eleitoral. Mas até mesmo votar começou a parecer receber um cheque: uma atividade solitária, em busca de objetivos individualistas, desvinculada de laços sociais ou obrigações coletivas.
Em vez de lutas redistributivas moldadas pela ação coletiva, questões morais que exigem que as elites atribuam culpa e responsabilidade ganharam destaque.
Aqueles que esperavam uma reação ideológica logo se decepcionaram. Os anos de 1989 a 1991 testemunharam a destruição do comunismo no bloco soviético e um novo discurso de triunfalismo liberal tornou-se comum. Na Grã-Bretanha, Margaret Thatcher declarou que “a livre iniciativa havia superado o socialismo”; Mikhail Gorbachev apareceu em um anúncio da primeira Pizza Hut da Rússia; e em Berlim, jovens de ambos os lados da Cortina de Ferro se encontravam em antigos armazéns do governo para usar drogas e ouvir música techno.
Para Jäger, esses ravers — retratados na fotografia de Wolfgang Tillmans que ilustra o livro Hyperpolitics — personificavam a atitude despreocupada que definiria os próximos vinte anos da história política. Eles estavam vivenciando o que Francis Fukuyama descreveu como o “fim da história” — e a sensação era surpreendentemente boa. Por que fazer parte da massa quando se podia simplesmente ser você mesmo? A luta havia terminado e era hora de se drogar.
Foi somente em 2008 que essa euforia começou a passar. Após a falência do Lehman Brothers, líderes ocidentais implementaram uma série de políticas para tranquilizar os mercados. Essas políticas incluíam inúmeros resgates governamentais e um conjunto de medidas drásticas de austeridade. A reação foi generalizada. No Lower Manhattan, o acampamento do Occupy Wall Street ocupou o Zuccotti Park. Entretanto, na Europa, o sucesso de partidos de esquerda como o Syriza, o Podemos e o Partido Trabalhista de Jeremy Corbyn apontava para um novo horizonte de justiça econômica radical. Por um momento, pareceu que o mundo estava testemunhando uma era de reencantamento democrático. Contudo, figuras do establishment logo se uniram em torno da esquerda insurgente, que não conseguiu conduzir uma aliança de apoio já frágil à vitória eleitoral.
Nesse vácuo, argumenta Jäger, as forças anárquicas da hiperpolítica finalmente se consolidaram. Tendo eliminado todos os principais oponentes do centro liberal, a democracia ocidental começou a experimentar sucessivas convulsões de indignação populista. Sem qualquer estrutura institucional, porém, essas ondas de energia política começaram a se manifestar de outras maneiras. Nas redes sociais, questões culturais específicas tornaram-se tema de debates acalorados, antes de se dissiparem repentinamente em questão de dias, às vezes horas. Protestos públicos também se tornaram mais comuns, embora muitas vezes carecessem de algo que se assemelhasse a um programa político. Do movimento Extinction Rebellion aos antivacinas e ao movimento dos Coletes Amarelos, a oposição era onipresente, mas carecia de direção. Em vez disso, baseava-se em grupos dispersos de indivíduos unidos apenas por reivindicações pontuais.
Talvez o exemplo mais claro dessa dissidência desorganizada, afirma Jäger, tenha sido a onda de manifestações do movimento Black Lives Matter que ocorreu em 2020. Após o assassinato de George Floyd, 26 milhões de americanos foram às ruas para protestar contra o impacto da brutalidade policial e do encarceramento em massa. Na época, isso representava 10% da população adulta do país.
No entanto, como Jäger destaca, esse nível surpreendente de engajamento provou ser efêmero e rendeu poucos ganhos políticos duradouros. Em 2026, todos os departamentos de polícia estaduais que tiveram seus orçamentos cortados já haviam recebido esse financiamento de volta e, em muitos casos, até mesmo aumentado. Notavelmente, poucos manifestantes apareceram para contestar esses acontecimentos, o que demonstra a facilidade com que até mesmo os ativistas mais veementes abandonaram seus apelos por mudanças. Jäger é depreciativo em sua avaliação da precária base social desse movimento e o compara desfavoravelmente à Marcha sobre Washington de 1963, onde muitos dos presentes ostentavam broches sindicais e distintivos municipais, expressões de solidariedade de longa data.
Diante desses fracassos evidentes, por que a hiperpolítica se mostrou um modo de engajamento político tão atraente e duradouro? Para Jäger, a primeira resposta é a desinstitucionalização. Como ele enfatiza ao longo do livro, embora “o envolvimento popular tenha experimentado um ressurgimento relativo na última década... o envolvimento institucionalizado está em seu nível mais baixo de todos os tempos”. Na Alemanha, por exemplo, a adesão à maior federação sindical caiu para menos da metade desde sua fundação em 1991.
Enquanto isso, a taxa de sindicalização nos EUA atingiu um mínimo histórico de 9% no ano passado. A “demolição controlada da esfera pública”, iniciada na década de 1970, continua em ritmo acelerado e levou à lenta morte da vida cívica. A crescente divergência entre o interesse político e a institucionalização política provou ser particularmente devastadora, criando um cenário cada vez mais fragmentado, dominado por atores isolados que perseguem objetivos individualistas e de curto prazo.
Para piorar a situação, novos mundos virtuais se abriram para acolher aqueles que se encontram politicamente desamparados. Durante os primeiros dias da Primavera Árabe, muitos identificaram o papel essencial que as mídias sociais desempenharam na organização dos protestos, apelidando-os de “levantes do Twitter”. Hoje, essas afirmações da promessa democrática da internet parecem difíceis de compreender.
Embora não haja dúvida de que o ativismo online tenha reduzido os custos de entrada, Jäger observa que ele também “pulverizou o terreno da política radical... gerando um caos de atores online vagamente designados”. Através de nossos celulares, estamos agora sujeitos a formas de conteúdo cada vez mais difusas e extremas, que permanecem sem controle e sem regulamentação. Esse espetáculo de horrores de acesso livre ameaça desfazer o pouco que resta do tecido social: isolando cada um de nós em nosso próprio compartimento algorítmico e impedindo que alguém imagine um horizonte além da próxima tendência viral.
Aliás, uma das falhas do argumento de Jäger é sua incapacidade de enfatizar as maneiras pelas quais a anarquia virtual da Internet 2.0 reprogramou nosso subconsciente coletivo. Embora ele reconheça que nosso momento volátil reflete a “crise de atenção característica da era do smartphone”, ele não dedica muito tempo aos padrões comportamentais específicos que definem essa “era”.
Em 2026, as redes sociais são agora amplamente controladas por uma série de algoritmos de recomendação opacos. Cada um desses algoritmos se alimenta de bilhões de pontos de dados sobre o comportamento do usuário, produzindo feeds de conteúdo cuidadosamente selecionados que atendem aos nossos preconceitos políticos e estéticos preexistentes. O resultado, ao que parece, é que a mecânica de nossos medos e desejos subconscientes se tornou uma extensão da ecologia da mídia. E, por meio de nossas curtidas, deslizes, compartilhamentos e seguidores, nos tornamos participantes involuntários na linha de produção de conteúdo online que é cada vez mais extremista e polarizador.
É evidente que esse novo cenário digital tornou a possibilidade de uma política de massas praticamente insustentável.
É claro que esse novo cenário digital tornou a possibilidade de uma política de massas praticamente insustentável. Claro, existem algumas exceções. Pense em Andrew Tate e seu exército de machos alfa intimidados. Ou em J. K. Rowling, que se tornou uma figura emblemática do lobby anti-trans. Contudo, o sucesso da direita continua dependente do apoio de multidões online dispersas, compostas por indivíduos movidos por indignação pessoal em vez de sentimento político. Não se trata de política de massas, mas de uma espécie de guerra cultural permanente, impulsionada pela canalização cuidadosa da raiva.
De fato, esse modelo de política de incitação à raiva também ajuda a explicar por que a direita obteve tanto sucesso nos últimos dez anos. Não se trata, como sugere Jäger, simplesmente de que “a classe dominante desfruta de uma vantagem estrutural”, mas sim de que a essência da nossa política mudou. Em vez de lutas redistributivas moldadas pela ação coletiva, questões morais que exigem que as elites atribuam culpa e responsabilidade ganharam destaque. No âmbito econômico, a pobreza passou a ser vista pela direita, a partir da era neoliberal, como resultado das ações irresponsáveis dos pobres. Mas a esquerda também adotou seus próprios enquadramentos moralizantes, trocando uma linguagem de exploração estrutural por uma preocupada com a vitimização baseada na identidade.
O Fim da História?
Em O Fim da História e o Último Homem, Fukuyama afirma que a nova era de consenso neoliberal que ele previu seria “um período muito triste”, desprovido da “ousadia, coragem, imaginação e idealismo” que a luta ideológica inspira. Em vez desses ideais românticos, ele acreditava que o novo milênio prometia apenas “séculos de tédio”, uma utopia inquieta e insatisfeita com sua própria perfeição.
No entanto, essa previsão não poderia estar mais longe da verdade. Trinta anos depois, vivemos em uma era de ruído e excitação sem precedentes: constantemente distraídos por momentos virais que disputam nossa atenção já escassa. Dentro dessa atmosfera febril, até mesmo o ato de crítica é prejudicado. Os teóricos políticos se veem incapazes de manter um contexto coerente para desenvolver suas próprias ideias, enquanto o cenário ao seu redor continua a flutuar e tudo o que é sólido se desfaz no ar.
Apesar desses desafios, Hiperpolítica representa o esforço de Jäger para fundamentar nosso momento instável em uma genealogia clara. Nesse sentido, ele é bem-sucedido. E embora a perspectiva seja sombria, há motivos para esperança que Jäger não poderia ter previsto ao entregar suas revisões finais. Em outubro de 2024, um jovem membro da Assembleia do Estado de Nova York anunciou sua candidatura à prefeitura de Nova York. Em 4 de novembro de 2025, pouco mais de um ano depois, Zohran Mamdani tomou posse no local de uma estação de metrô desativada. Nos meses que se seguiram, esse improvável herói político começou a implementar muitas de suas políticas mais ambiciosas, que incluem a criação de uma força-tarefa para combater proprietários corruptos, o início da implementação de creches universais gratuitas para crianças de dois a três anos e a abertura de novas linhas de ônibus gratuitas para todos os usuários.
A chave para o sucesso de Mamdani, como muitos críticos observaram, foi criar uma ampla base de apoio: políticas de publicidade que atendem às demandas específicas de diferentes comunidades que foram mais afetadas pela crescente crise do custo de vida: desde o precariado altamente instruído em Bushwick até pais da classe trabalhadora que lutam para alimentar seus filhos, passando por motoristas de vans de comida halal obrigados a pagar taxas de licenciamento exorbitantes pela cidade. Em Hiperpolítica, Jäger escreve que a única maneira de a esquerda construir um movimento sustentável hoje é "traduzir a política de resistência local em um veículo unificado — ou instituição 'total' — capaz de conectar suas esferas de luta díspares": recombinando as estratégias da política de massas para um mundo que parece volátil e dividido.
Mamdani tentou fazer exatamente isso. A única questão que resta é se esse sucesso pode ser sustentado e, em caso afirmativo, se pode inspirar um movimento nacional mais amplo. Assim como Anna e Tom, o casal central de Perfeição, de Latronico, precisamos desesperadamente de um “encontro com a história”. A dificuldade, parafraseando Karl Marx, é que temos que fazer isso enquanto uma tradição de política sem futuro paira sobre nós.
Colaborador
John Livesey é doutorando no University College London, especializado na obra de James Baldwin. Seus textos foram publicados no The Guardian, Little White Lies e Oxford Review of Books.

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