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1 de abril de 2021

Reparando a ruptura de carbono do solo: Melhorando a agricultura e o meio ambiente

Este artigo propõe uma reconciliação entre a agricultura e os ciclos naturais do carbono do solo, defendendo práticas regenerativas que restauram a fertilidade do solo, mitigam as mudanças climáticas e fortalecem a resiliência ecológica e social.

Fred Magdoff


Monthly Review Vol. 72, No. 11 (April 2021)

Não deverei estar em comunhão com a terra?
Não sou eu mesmo em parte folhas e humo? — Henry David Thoreau 1

Tradução / Quando estudei a fertilidade do solo como um estudante de graduação, em meados da década de 1960, a matéria orgânica do solo foi reconhecida como algo que ocorria, mas recebia pouca ênfase nos livros ou nas discussões em sala de aula. Houve alguns cursos sobre biologia do solo, mas o foco dos estudos práticos da fertilidade do solo estava nos elementos individuais necessários às plantas, em como eles se comportavam no solo e em como determinar se estavam presentes em quantidades suficientes nas formas que estavam disponíveis para as plantas usarem. É claro que nos concentramos nos elementos retirados do solo em quantidades relativamente grandes, dos quais comumente se constatava deficiência — nitrogênio, fósforo e potássio. Se fossem necessárias adições de nutrientes específicos, aprendíamos quanto devia ser adicionado, que fertilizante devia ser usado e como e quando era melhor aplicá-lo. O cultivo de leguminosas para fornecer nitrogênio às safras seguintes pode ter sido mencionado de passagem, mas a ênfase esmagadora estava nos fertilizantes comerciais. A “lei do mínimo” afirma que haverá um elemento — por exemplo, nitrogênio — que será mais deficiente. Mas, se adicionarmos a quantidade certa de fertilizante de nitrogênio para corrigir a deficiência, a falta de fósforo ou de potássio suficiente (ou de algum outro nutriente) pode limitar a produção. Portanto, precisávamos ter certeza de que nenhuma deficiência de elementos limitaria o crescimento da planta. Mas ter uma quantidade adequada dos elementos essenciais é apenas uma característica da saúde do solo, um conceito muito mais amplo do que o antigo conceito de “fertilidade do solo”.

Os ciclos e os fluxos globais

Existem vários fluxos e ciclos importantes que operam nos níveis local, regional e global. Os fluxos ocorrem quando as substâncias se movem de um local para outro. Um ciclo é um tipo de fluxo no qual a substância retorna ao local de onde veio de forma geral. Em um nível muito local, um verdadeiro ciclo ocorrerá quando os nutrientes removidos do solo por uma planta anual retornarem ao solo quando a planta morrer. Mesmo sendo comida parcialmente por um inseto ou um herbívoro, a maioria dos nutrientes normalmente retornará ao solo não muito longe do local de origem. O ciclo hidráulico, em contraste, funciona em um nível mais regional ou global, pois a água evapora das folhas das plantas ou dos lagos e do oceano, viaja pela atmosfera por uma certa distância e então cai na terra como chuva ou neve. Um exemplo de fluxo que não é um ciclo é a erosão do solo à medida que a água corre sobre sua superfície, com os sedimentos erodidos fluindo por córregos e rios para se depositar no fundo do oceano.

O material orgânico do solo é um reservatório importante de carbono terrestre e participa do ciclo global do carbono. Uma porção do dióxido de carbono atmosférico removido pelas plantas é depositado no solo como raízes e resíduos acima do solo que são incorporados pela ação de minhocas ou outros organismos maiores. Uma parte desse material orgânico (carbono) permanece no solo e outra parte é utilizada como alimento por organismos do solo, como bactérias e fungos, emitindo dióxido de carbono que se difunde de volta para a atmosfera. Em solo saudável, há uma grande rotatividade de carbono, já que uma parte dos resíduos adicionados serve como fonte de alimento para “um repositório importante da biodiversidade terrestre, abrigando cerca de um quarto de todas as espécies da Terra”.2 À medida que a multidão de organismos avança em suas atividades, os solos respiram como se fossem um único organismo, com o oxigênio se difundindo para baixo e o dióxido de carbono se difundindo de volta para a atmosfera, completando um ciclo.

Cerca de três vezes mais carbono é armazenado nos solos do que ocorre na atmosfera como dióxido de carbono. Um solo que tem 1% de matéria orgânica (ou cerca de 0,6% de carbono) em sua superfície (aproximadamente 18 centímetros de profundidade) armazenaria o equivalente aproximado em carbono de todo o dióxido de carbono da atmosfera acima desse solo.3 E a camada superficial dos solos da região temperada normalmente contém entre 1% e 6% de matéria orgânica. O quanto está presente em um determinado solo depende de muitos fatores.

Durante muito tempo, os tipos individuais de solo desenvolvem suas características únicas como resultado dos efeitos combinados do clima local e da vegetação que neles cresce, bem como das fontes de minerais (material de origem) a partir das quais o solo se desenvolve. Com o passar dos anos, os solos na base das encostas recebem solo erodido. O processo de erosão remove das laterais dessas encostas o solo superficial, rico em matéria orgânica, enriquecendo os solos na base.

À medida que os solos se desenvolvem a partir de vários depósitos, como sedimentos soprados pelo vento (chamados de loess), ao longo das margens de rios ou antigos fundos de lagos, ou de rochas em desintegração, a matéria orgânica tende a se acumular conforme as raízes morrem e são substituídas por novas e conforme a secreção das raízes fornece alimento para vários organismos. Quase metade das substâncias produzidas durante a fotossíntese pelas folhas das plantas são transportadas para as raízes para a respiração e, em seguida, para fora das raízes, adicionando diretamente aos suprimentos de materiais orgânicos do solo. Parte é usada para o crescimento de novas raízes e parte é exsudada na zona ao redor das raízes, a rizosfera, apoiando o crescimento de grandes populações de uma ampla variedade de organismos. Quando os solos são jovens, mais resíduos orgânicos são adicionados do que o que é decomposto pelos organismos do solo, e o conteúdo de matéria orgânica se acumula, finalmente atingindo um platô. Isso significa que, em condições naturais, os solos tendem a ser sumidouros de carbono por longos períodos de tempo. Assim, em solos não perturbados, uma porção do carbono removido da atmosfera normalmente flui para o solo e permanece lá. O nível de “platô” de matéria orgânica que se acumula depende de vários fatores, como os tipos de minerais presentes, o clima e a vegetação.

Carbono, vida e solo

O carbono é o elemento que fornece a espinha dorsal para a estrutura das moléculas orgânicas usadas por todos os organismos vivos. Substâncias baseadas em carbono fornecem energia para a maior parte da vida, incluindo os humanos. Mas de onde vêm o carbono e a energia contidos nessas moléculas? À medida que as plantas verdes usam a energia do sol para realizar a fotossíntese, o dióxido de carbono é capturado da atmosfera e usado para fazer a infinidade de compostos de que a planta precisa. Os carboidratos (açúcares, amido), os lipídios e as proteínas, formados a partir dos produtos da fotossíntese durante o crescimento das plantas, todos contêm carbono que veio da atmosfera. Eles também contêm energia armazenada em sua estrutura molecular para uso posterior pela planta ou por um organismo que a consome.

Com a exceção de peixes e outros organismos aquáticos, todos os alimentos que consumimos são derivados de plantas terrestres, direta ou indiretamente, como quando comemos produtos de animais que se alimentaram de plantas. Em outras palavras, dependemos das plantas que crescem no solo (por meio das raízes) e sobre ele. As plantas cultivadas em campos agrícolas fornecem a energia de que precisamos para viver e o carbono para produzir os compostos químicos orgânicos em nossos corpos. As plantas têm cerca de 50% de carbono em peso seco, mas também contêm outros 16 elementos químicos essenciais para seu crescimento e sua reprodução. E, apesar de o carbono nas plantas ser derivado da atmosfera e um pouco de oxigênio atmosférico ser usado quando as plantas respiram (embora as plantas liberem mais oxigênio como subproduto da fotossíntese do que usam na respiração), outros elementos necessários são fornecidos pelo solo. Portanto o cálcio e o fósforo nos ossos e dentes, o nitrogênio nas nossas proteínas, o enxofre, o potássio, o magnésio e outros elementos em animais são todos retirados do solo pelas plantas. O solo não é apenas um lugar para ancorar a planta; é a fonte de abastecimento de água da planta, bem como dos minerais de que necessita. O solo é, portanto, a fonte da energia de que necessitamos e que obtemos com uma alimentação saudável. É literalmente verdade, como diz o Antigo Testamento da Bíblia Hebraica, “pois tu és solo” (em português: “pó”).4 Um breve resumo da importância do solo é fornecido por um relatório da Missão Saúde do Solo e Alimentação, da Comissão Europeia:

A vida na Terra depende de solos saudáveis. O solo sob nossos pés é um sistema vivo — lar de muitas plantas e animais fascinantes, cujas interações invisíveis garantem o nosso bem-estar e o do planeta. Os solos nos fornecem alimentos nutritivos e outros produtos, bem como água limpa e habitats prósperos para a biodiversidade. Ao mesmo tempo, os solos podem ajudar a retardar o início das mudanças climáticas e nos tornar mais resistentes a eventos climáticos extremos, como secas e inundações. Os solos preservam nosso patrimônio cultural e são uma parte fundamental das paisagens que todos nós valorizamos. Em termos simples, solos de vida saudável mantêm-nos, e o mundo ao nosso redor, vivos.5

O carbono do solo é encontrado em duas formas gerais: como material orgânico e como um componente de minerais, como calcário (carbonato de cálcio — CaCO3). Em regiões úmidas, quase todo o carbono está em formas orgânicas (matéria orgânica do solo), exceto nas camadas subsuperficiais de solos derivados de calcário. Em regiões áridas, é comum encontrar calcário mesmo na superfície do solo. A discussão do carbono do solo vai se referir exclusivamente às formas orgânicas de carbono.

O que é matéria orgânica do solo?

Carbono orgânico do solo é outro termo para matéria orgânica. Há mais de cem anos, a matéria orgânica do solo foi descrita em uma publicação agrícola como a “viva”, a “morta” e a “muito morta”. A “viva” — as raízes das plantas e a miríade de organismos que vivem dentro e ao redor das raízes, bem como na maior parte do solo — representa cerca de 15% do carbono do solo. A “morta” se refere aos resíduos relativamente novos de plantas, animais, bactérias e outros organismos mortos, todos em vários estágios de decomposição, à medida que são usados ​​como fontes de alimento por organismos vivos. A “muito morta” é a matéria orgânica em estágios avançados de decomposição, às vezes relativamente estável ou, de outra forma, não muito disponível para os organismos usarem. O carvão (carbono negro), formado quando a vegetação é queimada e os resíduos são posteriormente incorporados ao solo, também é muito estável. Como mencionado, quando os organismos metabolizam ao decompor resíduos, eles liberam dióxido de carbono, que então se dissipa para cima, de volta à atmosfera. No entanto, uma parte do resíduo orgânico do solo fica “presa” dentro de agregados de solo ou adere firmemente às partículas de argila e torna-se inacessível aos organismos decompositores. Essas fontes são muito mais estáveis ​​do que outros materiais orgânicos no solo e se acumulam com o tempo.
Rupturas no solo reconhecidas e não reconhecidas: nutrientes versus matéria orgânica

Grandes rupturas e distúrbios em muitos fluxos e ciclos importantes nos solos têm surgido nas últimas centenas de anos, acelerando-se especialmente após a Segunda Guerra Mundial — nos ciclos do carbono, do nitrogênio, hidráulico (da água) e geral de nutrientes. Os distúrbios dos ciclos da natureza que ocorrem rapidamente têm muitas implicações para os humanos e outros organismos que evoluíram e aumentaram suas populações em condições de mudança lenta.

A ruptura na ciclagem de nutrientes foi reconhecida por Justus von Liebig durante o século XIX, quando mais e mais alimentos, em vez de serem consumidos localmente, eram transportados do campo para as cidades, e mesmo entre países. À medida que isso ocorria, os nutrientes contidos nas culturas alimentares e nos animais que saíam das fazendas não eram devolvidos aos campos. Para evitar que os nutrientes (e os resíduos humanos nos quais estavam contidos) se acumulassem nas cidades, esses resíduos eram em sua maioria despejados nos rios. Em outras palavras, uma parte dos nutrientes que antes retornavam para o solo nas fazendas camponesas agora não voltava para a terra, mas participava de um fluxo, tornando-se poluente da água ao longo do caminho. Esse fluxo unidirecional resultou no esgotamento dos nutrientes do solo necessários para a produção de safras futuras. Karl Marx, seguindo Liebig, explicou isso no primeiro volume de O capital:

A produção capitalista, ao reunir a população nos grandes centros e causar uma preponderância cada vez maior da população urbana... perturba a circulação da matéria entre o homem e o solo, ou seja, impede o retorno ao solo de seus elementos consumidos pelo homem na forma de alimentos e roupas; portanto, viola as condições necessárias para a fertilidade duradoura do solo.6

Isso continua sendo um problema até hoje, com a maioria dos resíduos humanos nas cidades contaminados com uma variedade de metais tóxicos e produtos químicos orgânicos industriais. Portanto é imprudente aplicar muitos efluentes de esgoto em terras agrícolas. Esse problema e aquele decorrente de fazendas industriais de criação que separaram os animais da terra em que sua alimentação é cultivada — criando uma superabundância de nutrientes perto dos animais enquanto a terra cultivada está em constante necessidade de fertilizante para repor os nutrientes perdidos — resultaram na necessidade de aplicar grandes quantidades de fertilizantes comerciais à maioria dos solos agrícolas.

O que não foi reconhecido pelos cientistas ocidentais no século XIX é que o esgotamento da matéria orgânica do solo era uma ameaça ainda maior à preservação da “fertilidade duradoura do solo” do que o esgotamento de nutrientes. No entanto, em 1911, após retornar de longas viagens, Franklin H. King, do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, publicou a obra Farmers of Forty Centuries [Agricultores de quarenta séculos], na qual afirmava que a chave para a agricultura produtiva contínua no Leste Asiático era o criterioso ciclo de nutrientes de volta ao solo. King escreveu sobre os fazendeiros na China: “Estrumes de todos os tipos, humano e animal, são religiosamente guardados e aplicados nos campos de uma maneira que garante uma eficiência muito acima de nossas próprias práticas”.7 Verdade, isso é o ciclo de nutrientes. Mas o retorno de estrume humano e de animais de criação ao solo também significa adição de matéria orgânica.

Ruptura nos fluxos e nos ciclos do carbono do solo

O nível de matéria orgânica em solos não perturbados entra em equilíbrio dependendo dos múltiplos fatores discutidos. No entanto, quando os solos são perturbados pela escavação com uma pá, pelo arado ou pela gradagem, a sua estrutura é quebrada, e partículas de matéria orgânica que não eram acessíveis aos organismos por estarem dentro de agregados, de repente, ficam disponíveis, assim como oxigênio na atmosfera. Isso causa uma explosão da atividade biológica, que libera alguns nutrientes para as plantas usarem, mas também causa um grande aumento na decomposição da matéria orgânica, com o carbono sendo convertido em dióxido de carbono e difundido na atmosfera acima. Geralmente, isso converte os solos de sumidouros de carbono em fontes de carbono, com o efeito final de enriquecer a atmosfera com dióxido de carbono em vez de removê-lo. Durante o processo de conversão da floresta ou das savanas em solo agrícola, muita matéria orgânica é perdida conforme o dióxido de carbono flui para a atmosfera. E, embora a taxa de perda possa diminuir após alguns anos, os solos podem continuar a ser fontes de dióxido de carbono por anos após sua conversão para a agricultura. A mudança no uso da terra da floresta e da savana para agricultura, auxiliada por tratores cada vez maiores e implementos agrícolas capazes de trabalhar em campos imensos, contribuiu com quantidades substanciais de dióxido de carbono para a atmosfera, colaborando para o aquecimento global e a desestabilização do clima. O principal cientista do solo, Rattan Lal, estimou que cerca de 110 a 130 bilhões de toneladas (gigatoneladas) de carbono foram perdidas nos solos agrícolas. (Esse valor é muito grande quando comparado à contribuição anual de 10 gigatoneladas estimada para os combustíveis fósseis.)8 O metano (CH4), outro gás de efeito estufa que contém carbono, também é perdido em solos agrícolas inundados durante a produção de arroz.

Embora as práticas agrícolas contribuam para os gases atmosféricos de efeito estufa, há um grande problema adicional — à medida que a matéria orgânica do solo se esgota, os solos se tornam menos saudáveis. Os solos podem perder metade da matéria orgânica (carbono) quando cultivados por muitos anos. Portanto a perda de matéria orgânica do solo e a correspondente realocação maciça de carbono para a atmosfera (como dióxido de carbono) constituem a ruptura de carbono do solo. Conforme a matéria orgânica do solo diminui como resultado da ruptura, os solos retêm menos água, fornecem níveis mais baixos de nutrientes às plantas e têm menor diversidade biológica. À medida que a estrutura do solo se deteriora, as plantas se tornam mais suscetíveis a doenças e insetos. Quanto menos água consegue se infiltrar, mais água escorre pela superfície, carregando partículas de solo. Uma espiral descendente ocorre, com menos matéria orgânica, levando a mais erosão da camada superior do solo e a mais perda de matéria orgânica, degradando severamente o solo em um ciclo de retroalimentação autorreforçado e acelerado.

Estima-se que cerca de um terço dos solos do mundo estão significativamente degradados. Embora existam várias maneiras de ocorrer degradação do solo, a ruptura no fluxo e no ciclo de carbono atmosfera-solo teve maior efeito prejudicial de longo prazo na agricultura do que a ruptura no ciclo de nutrientes que preocupava os cientistas agrícolas do século XIX. Se um solo tiver baixo teor de nitrogênio ou fósforo disponível, a adição de fertilizante contendo esses elementos pode aumentar muito a produtividade. Essa ênfase em nutrientes levou ao foco em fertilizantes comerciais — especialmente nitrogênio, fósforo e potássio — como a principal forma de melhorar o solo, tornando-se a base para uma enorme indústria agroquímica. Ao mesmo tempo, outras questões de solo não foram consideradas com o mesmo vigor.
Caiu como Lúcifer

Por muito tempo, pensou-se que a matéria orgânica do solo era importante para os solos e responsável pela cor escura da camada superficial, ou solo superficial. Em 1676, John Evelyn escreveu sobre o que hoje chamamos de solo superficial, a camada superior que é altamente enriquecida em matéria orgânica (conhecida como mould, em inglês): “Começo com o que comumente se apresenta primeiro sob a Relva removida, e que, por nunca ter sido violado pela Pá, ou recebido qualquer mistura externa, chamaremos de Terra-Virgem; não a dos Quimistas (químicos), mas como a que encontramos a cerca de trinta centímetros de profundidade, mais ou menos, em nossos campos, antes que você chegue a qualquer alteração manifesta de cor ou perfeição. Este Bolor superficial é o melhor e mais doce”.9

Dois séculos depois, Charles Darwin usou os termos terra vegetal e húmus para se referir à camada superficial do solo que é enriquecida em matéria orgânica e descreveu como as minhocas ajudavam a formar “o húmus rico e de cor escura que quase em toda parte cobre a superfície da terra com uma camada ou manto bem definido”.10

Assim que se descobriu que o carbono era tão importante para as plantas, a questão passou a ser: De onde vem o carbono das plantas? Alguns acreditavam que vinha do material carbonáceo da matéria orgânica do solo. Mas, em 1804, o cientista suíço Théodore de Saussure publicou um livro contendo resultados de experimentos demonstrando que o carbono nas plantas, e, portanto, a maior parte de seu peso seco, vem da atmosfera, e não do solo. Só no final do século a importância de sua obra se tornou amplamente aceita.

Em meados do século XIX, o “pai” da química agrícola, Liebig, afirmou que “a Crença no valor do Húmus [matéria orgânica] não existe mais” e que o importante era que os solos contivessem boas quantidades dos elementos essenciais de que as plantas precisam.11 Fertilizantes manufaturados poderiam substituir os efeitos da aplicação de estrume — “os sais de amônia tomaram o lugar e produziram o efeito da matéria orgânica em decomposição”.12 Liebig pensava que a matéria orgânica ajudava alguns solos e podia prejudicar outros, mas o que era realmente crítico era a presença de quantidades suficientes de elementos essenciais, como nitrogênio, fósforo e potássio.

Com tantas plantas provenientes da atmosfera e com o aumento da ênfase na importância dos nutrientes do solo, a valorização da importância da matéria orgânica do solo diminuiu. Em 1908, três cientistas de Vermont descreveram essa transição em cores vivas: “Uma vez exaltado como o ingrediente essencial do solo, a estrela brilhante no firmamento do cultivador de plantas, ele [o húmus] caiu como Lúcifer quando os químicos agrícolas do segundo trimestre do último século demonstraram a origem aérea da maior parte da estrutura da planta”.13

A importância da matéria orgânica do solo (carbono orgânico)

Na primeira década do século XX, os três cientistas já mencionados foram incumbidos de descobrir por que os solos de Vermont haviam se deteriorado tanto. “Costuma-se dizer que o solo está exausto, esgotado, desgastado, e a noção popular é que seu conteúdo de alimento para as plantas, se não foi totalmente perdido, foi pelo menos reduzido a um mínimo… Essa concepção comum da natureza da dificuldade e do que constitui ‘fertilidade’ é incompleta. Ela enfatiza demais a fase química. Fertilidade e alimento para as plantas não são sinônimos”.14

A conclusão do estudo deles foi que, embora houvesse outras explicações, “o esgotamento do suprimento de húmus do solo [matéria orgânica] pode ser uma causa fundamental da redução da produtividade das colheitas. O sistema de cultivo único, o pousio, a escassez de estrume, a ausência de adubação verde; a não utilização de leguminosas ou gramíneas na rotação; o desmatamento, os incêndios, o uso contínuo de fertilizantes comerciais; tudo isso tende a reduzir excessivamente o conteúdo de húmus”.15 Somente depois de um século, os cientistas e fazendeiros reconheceram totalmente a importância avassaladora da matéria orgânica do solo — algo que ficou claro para aqueles cientistas no estado “atrasado” de Vermont em 1908.

A matéria orgânica do solo é tão crítica para a saúde do solo porque melhora essencialmente todas as suas propriedades biológicas, químicas e físicas. Ela fornece alimentos para estimular a atividade biológica e a diversidade no solo não rizosférico e raízes — o microbioma ao redor e sobre as raízes das plantas é tão importante para a saúde das plantas quanto a microbiota no intestino humano é para a nossa saúde. A matéria orgânica também ajuda as partículas do solo a se aglomerarem, permitindo, assim, uma maior infiltração da chuva e o armazenamento de água. Também é um depósito de nutrientes para as plantas usarem, retarda as mudanças na acidez, torna o solo menos sujeito à compactação e assim por diante. Uma das maneiras de entender a importância da matéria orgânica do solo é estudar o que acontece quando ela diminui. À medida que a matéria orgânica diminui, ocorre uma queda na diversidade e na atividade dos organismos do solo; a estrutura do solo se deteriora; a erosão se intensifica, porque mais água escorre do campo durante tempestades intensas, levando consigo as partículas do solo; a infiltração e o armazenamento de água para as plantas usarem posteriormente diminui; o solo fica mais sujeito à compactação; e diminuem os rendimentos das colheitas.

Qual é o problema?

À medida que a matéria orgânica diminui e os fazendeiros usam rotações de lavoura ruins, ou nenhuma rotação, bem como o cultivo intensivo de seus solos — deixando o solo nu por longos períodos –, os seguintes problemas começam a ocorrer: baixa disponibilidade de nutrientes; baixa capacidade de retenção de água; compactação do solo; e problemas crescentes com doenças de plantas e infestações de insetos. A resposta convencional tem sido ver os “problemas” que se desenvolvem como questões distintas, cada qual resolvido por seu próprio remédio: aplicar mais fertilizantes, irrigar com mais frequência, usar fungicidas e inseticidas e empregar equipamentos pesados para tentar quebrar camadas de solo compactas. Esses “remédios”, é claro, criam, então, seus próprios problemas, como fertilizantes e pesticidas que contaminam as águas subterrâneas e superficiais e o desenvolvimento de resistência aos pesticidas em insetos e ervas daninhas (causando um ciclo vicioso no uso de pesticidas (pesticide treadmill) à medida que novos são introduzidos e níveis mais elevados de pesticidas mais velhos são usados).

Em vez de ver essas ocorrências negativas como “problemas”, elas são mais bem compreendidas como sintomas de um problema subjacente mais profundo: solos débeis. Uma vez entendido dessa forma, uma abordagem totalmente diferente é necessária. Promover a formação de solos saudáveis ​​implica uma abordagem preventiva (em vez da reativa, descrita anteriormente, que reage a cada “problema” como se fosse um incidente isolado), que incentiva práticas que minimizem o desenvolvimento de condições que prejudicam a produtividade das plantas. Ela se esforça para imitar os pontos fortes de sistemas naturais não perturbados e para criar condições que sejam ideais para as plantas — especialmente uma alta população de organismos de solo ativos e diversos, disponibilidade ideal de nutrientes para as plantas, boa estrutura do solo para exploração de raízes, bem como para um bom armazenamento de água, com vazão de chuva e erosão mínimas e baixos níveis de compactação. Construir a saúde do solo tem, na verdade, a ver com melhorar o habitat do solo para que as plantas possam crescer ao seu máximo potencial, assim como precisamos prestar atenção para melhorar o habitat no campo acima do solo. Construir e manter a matéria orgânica, embora não seja o único problema, está no cerne do desenvolvimento de solos saudáveis.16

Solos saudáveis

Para criar e preservar uma agricultura próspera permanente para as incontáveis ​​gerações que virão, é essencial administrar e cuidar dos solos usando práticas que construam e mantenham solos saudáveis. Existem três aspectos gerais de um solo saudável: químico, biológico e físico. Quimicamente, um solo saudável tem pH (estado ácido/base) moderado, reservas suficientes de nutrientes para as plantas crescerem e não contém produtos químicos que prejudiquem as plantas. Biologicamente, ele contém uma população diversa e ativa de organismos, desde micro-organismos — como bactérias e fungos –, a animais de pequeno porte — como nematoides e ácaros –, até animais maiores — como minhocas e besouros. É a diversidade de organismos no solo que ajuda a manter sob controle potenciais doenças vegetais ou pragas de insetos transmitidas por meio do solo. Um número significativo de organismos do solo também promove o crescimento das plantas de várias maneiras: ajudando a tornar os nutrientes mais disponíveis, induzindo-as a produzirem produtos químicos para se defenderem de doenças e fornecendo produtos químicos que estimulam o seu crescimento. As micorrizas, um grupo de fungos, são especialmente importantes, porque entram na raiz enquanto suas finas hifas crescem no solo não rizosférico (às vezes, conectando-se a outras plantas) e, ao obter o sustento da planta, ajudam a transportar água e fósforo para as raízes. E, fisicamente, um solo saudável tem uma estrutura que permite que os sistemas de raízes das plantas explorem e se desenvolvam facilmente, permite que a chuva se infiltre de maneira mais fácil (e não escoe do campo) e é capaz de armazenar muita água para abastecer as plantas no período entre chuvas ou eventos de irrigação.

Armazenamento (sequestro) de carbono em solos

A Terra já está muito quente, e, mesmo que o uso de combustível fóssil possa ser eliminado em breve, ficará ainda mais quente com os ciclos de retroalimentação que já estão ocorrendo e continuam aumentando as emissões de gases de efeito estufa. Assim, os cientistas do clima sugerem que devemos ter planos para a absorção de dióxido de carbono (“emissões negativas”). James Hanson e colaboradores defendem que isso deve incluir “práticas agrícolas e florestais aprimoradas, como reflorestamento e medidas para melhorar a fertilidade do solo e aumentar seu conteúdo de carbono”.17 Para ter um impacto significativo no problema, essas ações precisariam ser realizadas sobre vastas porções do mundo.

Como muitos solos estão empobrecidos de matéria orgânica e o aumento desta tem efeitos positivos profundos sobre a saúde do solo e há muito carbono na atmosfera (como dióxido de carbono), certamente faz sentido promover práticas que aumentem o conteúdo de matéria orgânica do solo. Um exemplo de proposta para o “sequestro de carbono” é a iniciativa francesa 4 por 1000, que visa aumentar a matéria orgânica do solo em 0,4% ao ano.18 De todas as propostas para tentar reduzir o dióxido de carbono atmosférico (muitas das quais envolvem geoengenharia em grande escala), aquelas que também ajudam a curar a ruptura no ciclo de carbono do solo fazem mais sentido. E, pelo bem do meio ambiente e da agricultura, programas de promoção da saúde do solo devem ser realizados em todos os lugares, para ajudar os agricultores a aumentar a produtividade de seus solos.

Aumentar significativamente a matéria orgânica em todos (ou na maioria) dos solos agrícolas do mundo não é uma tarefa trivial. Isso exigiria grandes iniciativas governamentais contínuas para educação e assistência aos agricultores. No entanto, o sequestro de carbono no solo não é a “solução mágica” para combater o aquecimento global que alguns acreditam ser. Se grandes quantidades de carbono pudessem ser sequestradas nos solos, isso apenas diminuiria a taxa de aumento do dióxido de carbono na atmosfera. Além disso, à medida que a matéria orgânica aumenta, a taxa de aumento diminui e, finalmente, chega ao fim: os solos têm uma capacidade finita de armazenar carbono como matéria orgânica. Assim, o sequestro de carbono nos solos não substitui a rápida redução do uso de combustíveis fósseis.

Com a atenção cada vez maior ao uso do solo como local para armazenar carbono, novos esquemas surgem de tempos em tempos. Um deles, por exemplo, envolve a aplicação anual de grandes quantidades de pó de rocha (rocha moída) em vastas áreas de terras agrícolas, com reações químicas supostamente convertendo dióxido de carbono em outras formas químicas à medida que a poeira sofre decomposição e reações químicas (intemperismo). Outro esquema propôs criar culturas com sistemas radiculares maiores, porque um determinado peso em raízes, já estando no solo, adiciona mais matéria orgânica ao solo ao longo do tempo do que a mesma quantidade de resíduos da cultura na superfície. Existem problemas práticos e teóricos em cada uma dessas propostas.19

Criando solos mais saudáveis

Em vez de focar apenas no armazenamento de carbono nos solos, as práticas que contribuem para o desenvolvimento de solos saudáveis ​​devem ser promovidas em todo o mundo para o bem dos agricultores — especialmente aqueles com poucos recursos — e do meio ambiente. Solo saudável não é apenas uma questão de remover o dióxido de carbono da atmosfera armazenando mais carbono, embora isso vá acontecer. Solos saudáveis ​​significam menos uso de pesticidas e fertilizantes comerciais — os quais exigem muita energia para serem produzidos e, frequentemente, resultam em poluição ambiental. (A produção de fertilizantes de nitrogênio usa combustível fóssil tanto como matéria-prima quanto como fonte de energia para impulsionar o processo. Compare isso com a produção de nitrogênio por leguminosas, usando a energia do sol para produzir formas de nitrogênio que as plantas podem usar.) Também haverá menos escoamento superficial e erosão, resultando em mais armazenamento de água no solo para as plantas utilizarem, bem como águas superficiais mais limpas. Assim, solos saudáveis ​​são mais resilientes a períodos de seca e chuvas intensas ocorrendo com mais frequência devido à desestabilização do clima.

Não existe uma receita ou fórmula exata para melhorar a saúde do solo, porque as práticas precisam ser modificadas e personalizadas para os solos, as safras cultivadas e os animais criados em cada fazenda. No entanto, existem abordagens gerais que se aplicam amplamente.

Todas as práticas de exemplo listadas contribuem para uma ou mais das seguintes questões: cultivo de plantas saudáveis com fortes capacidades de defesa, promoção de organismos benéficos e supressão de pragas.20 Muitas podem ajudar a manter ou aumentar a matéria orgânica do solo (sequestro de carbono).

  1. Manter o solo coberto com vegetação viva (e raízes vivas no solo) durante a maior parte do ano possível, usando culturas de cobertura entre as culturas econômicas.
  2. Reduzir a perturbação do solo (preparo do solo) com equipamentos adequados, mantendo os resíduos da cultura na superfície.
  3. Usar rotações complexas, incluindo perenes, se possível, e intercalando para fornecer diversidade acima e abaixo do solo.
  4. Usar leguminosas para “cultivar nitrogênio” para grãos e vegetais.
  5. Adicionar quantidades apropriadas de fontes variadas de matéria orgânica regularmente, cultivando safras de alta biomassa e culturas de cobertura, ou trazendo materiais como esterco, composto de esterco e resíduos de cozinha para o campo.
  6. Integrar animais aos sistemas de cultivo.

O reconhecimento da importância da saúde do solo — incluindo a necessidade de aumentar a matéria orgânica na maioria dos solos do mundo — tem se espalhado pela comunidade científica para fazer incursões na comunidade agrícola, bem como em agências agrícolas nacionais e internacionais, como o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, mas a maioria dos agricultores confia nas indústrias agrícolas para obter informações. Essas indústrias estão por trás da maior parte da promoção de técnicas agrícolas, especialmente aquelas que envolvem insumos como sementes, fertilizantes, pesticidas e equipamentos. Como há pouco dinheiro a ser ganho por empresas privadas que promovem práticas ecológicas que criam solos saudáveis e usam poucos insumos de fora da fazenda, será necessário atividades de divulgação e programas governamentais imensos e multifacetados para promover a implementação generalizada de tais práticas.

Se os programas de divulgação necessários puderem ser implementados com sucesso em uma grande parte dos solos agrícolas do mundo, a ruptura de carbono do solo poderá ser curada (retirando uma parte do dióxido de carbono da atmosfera para ser armazenado como matéria orgânica no solo), enquanto a multiplicidade de efeitos positivos do bom manejo da matéria orgânica do solo e outras práticas ecológicas irão melhorar os rendimentos das colheitas, diminuir a poluição causada pela agricultura e aumentar a resiliência de campos e agricultores diante de instabilidade climática.

Notas

Henry David Thoreau, Walden e A Desobediência Civil. Nashville: American Renaissance, 2010, p. 73.
Carlos Guerra et al., “Tracking, Targeting and Conserving Soil Biodiversity”, Science, v. 371, n. 6526, p. 270–71, 2021.
Para cálculos, ver Fred Magdoff e Chris Williams, Creating an Ecological Society: Toward a Revolutionary Transformation. Nova York: Monthly Review Press, 2017, p. 344, nota 15.
Embora a palavra hebraica afar (עָפָר) seja traduzida na versão do Rei Tiago (Gênesis 3:19) como “pó”, é mais bem traduzida como “terra” ou “solo” no contexto em que é usada. Existem também duas outras palavras hebraicas para “terra” ou “solo” — adamah (da qual o nome Adam é derivado, dando mais crédito à tradução como “pois tu és solo” [em portugués: “pó”]) e karka.
Cees Veerman et al., Caring for Soil Is Caring for Life. Luxemburgo: União Europeia, 2020.
Karl Marx, O Capital, v. 1. Londres: Penguin, 1976, p. 637–38.
Franklin H. King, Farmers of Forty Centuries. 1911; repr. Mineola: Dover, 2004, p. 9.
Virginia Gewin, “The World Food Prize Winner Says Soil Should Have Rights”, Civil Eats, 15 de julho de 2020.
John Evelyn, “A Philosophical Discourse of Earth, Relating to the Culture and Improvement of it for Vegetation, and the Propagation of Plants, & c.” (palestra, Royal Society, Londres, 29 de abril de 1675).
Charles Darwin, The Formation of Vegetable Mould. Londres: John Murray, 1904. Disponível em: <https://www.gutenberg.org/ebooks/2355>.
Justus von Liebig, Letters on Modern Agriculture. Nova York: John Wiley, 1859, Carta IV, xxii.
Ibidem.
L. Hills, C. H. Jones e C. Cutler, “Soil Deterioration and Soil Humus”, Seção VIII, Vermont Agricultural Experiment Station Bulletin, v. 135, p. 142–77, 1908.
Ibidem.
Ibidem.
Ray R. Weil e Fred Magdoff, “Significance of Soil Organic Matter to Soil Quality and Health”, em Magdoff e Weil (ed.), Soil Organic Matter in Sustainable Agriculture. Boca Raton: CRC, 2004, p. 1–43; Fred Magdoff e Ray R. Weil, “Soil Organic Matter Management Strategies”, Ibidem, p. 45–65; Fred Magdoff e Harold van Es, Building Soils for Better Crops. 3rd ed. Brentwood: Sustainable Agriculture Research and Education, 2009.
James Hanson et al., “Young People’s Burden: Requirement of Negative CO2 Emissions”, Earth System Dynamics, v. 8, p. 577–616, 2017.
Você pode descobrir mais sobre a iniciativa 4 por 1000 em https://www.4p1000.org/.
Por favor, corresponda-se com o autor para algumas ideias sobre esses esquemas de sequestro de carbono propostos. Existem desenvolvimentos promissores, como a criação de safras perenes de grãos no Land Institute em Salina, Kansas. O grão Kernza® foi desenvolvido a partir de um tipo de grama de trigo e possui um extenso sistema radicular (muito maior que o do trigo), que, combinado com seu crescimento perene, impactará positivamente os níveis de matéria orgânica. Embora não se reproduzam especificamente para um maior crescimento das raízes, as gramíneas perenes tendem a ter sistemas de raízes maiores do que os grãos anuais.
Magdoff e van Es, Building Soils for Better Crops. Uma nova edição do livro estará disponível em meados de 2021 em <sare.org>. Todas as cópias em PDF das publicações de Sustainable Agriculture Research and Education estão disponíveis para download gratuitamente. Cópias impressas disponíveis.

Fred Magdoff é professor emérito de ciência vegetal e do solo na Universidade de Vermont. É autor e editor de vários livros, incluindo "Criando uma Sociedade Ecológica" (em coautoria com Chris Williams, Monthly Review Press, 2017) e "O Que Todo Ambientalista Precisa Saber Sobre o Capitalismo" (em coautoria com John Bellamy Foster, Monthly Review Press, 2011). Ele gostaria de agradecer a Bruce R. James por seus comentários e sugestões úteis.

25 de outubro de 2008

Implosão financeira e estagnação

Uma investigação sobre como a implosão financeira global alimentou uma estagnação prolongada da economia capitalista — e o que isso revela sobre os limites estruturais do sistema.

John Bellamy Foster e Fred Magdoff


Monthly Review Vol. 60 (2008–2009), No. 07 (December 2008)



Mas, podem perguntar, não irão os poderes instituídos, mais uma vez, aguentar a pressão e fazer abortar a crise antes que ela tenha possibilidade de seguir o seu curso? Sim, obviamente. Até aqui, isso tem sido um procedimento operacional padrão e não se pode pôr de lado a hipótese de voltar a ter êxito, no mesmo sentido ambíguo do que aconteceu após o colapso do mercado de acções de 1987. Se assim for, teremos que passar de novo por todo o mesmo processo, mas a um nível mais elevado e mais precário. Mas, mais tarde ou mais cedo, da próxima vez ou noutra a seguir, não haverá êxito… Nessa altura estaremos numa situação sem precedentes tal como as condições das quais ela terá surgido. 
- Harry Magdoff e Paul Sweezy (1988) [1]

Tradução / "A primeira regra da banca central", escreveu há pouco o economista James K. Galbraith, é que "quando o barco começa a afundar, os banqueiros centrais devem danar-se para o salvar". [2] Em resposta a uma crise financeira duma dimensão nunca vista desde a Grande Depressão, o Federal Reserve e outros bancos centrais, apoiados pelos seus departamentos de tesouraria, têm vindo a "danar-se" há mais de um ano. A partir de Julho de 2007, quando o colapso dos dois fundos de pensões Bear Stearns, que tinham especulado fortemente em títulos de crédito suportados por hipotecas, assinalou o início duma importante sufocação de crédito, a administração do Federal Reserve e o Departamento do Tesouro dos EUA manobraram todos os cordelinhos à medida que a finança implodia. Inundaram o sector financeiro com centenas de milhares de milhões de dólares e prometeram derramar mais uns milhões de milhões, se necessário – manobrando a uma escala e com um estendal de ferramentas sem precedentes.

Numa cena altamente dramática, o presidente da administração do Federal Reserve, Ben Bernanke, e o secretário do Tesouro, Henry Paulson, apareceram perante o Congresso na tarde de 18 de Setembro de 2008, informando os legisladores estupefactos, nas palavras do senador Christopher Dodd, "que estavam literalmente a dias de um colapso total do nosso sistema financeiro, com todas as suas implicações quer internamente quer a nível global". Logo a seguir Paulson apresentou um plano de emergência para uma operação de salvamento da estrutura financeira, no valor de 700 mil milhões de dólares, em que seriam utilizados fundos do governo para adquirir títulos de crédito suportados por hipotecas praticamente sem qualquer valor (referidas por "lixo tóxico") na posse das instituições financeiras. [3]

A explosão de fúria e desacordo generalizados, na sequência da proposta do secretário do Tesouro, levou a uma inesperada revolta na Câmara dos Representantes, que votaram contra o plano de salvamento. Apesar disso, poucos dias depois o plano de Paulson (com alguns acrescentos destinados a dar cobertura política aos representantes que mudassem o seu sentido de voto) conseguiu a aprovação do Congresso. No entanto, logo que o plano de salvamento foi aprovado, o pânico financeiro alastrou globalmente e as acções caíram a pique em todas as partes do mundo – quando os negociantes se aperceberam da gravidade da crise. O Federal Reserve reagiu inundando literalmente a economia com dinheiro e emitindo um comunicado de que estava preparado para ser o comprador de última instância de todo o mercado de papel comercial (dívidas a curto prazo contraídas pelas grandes empresas), possivelmente até ao limite de 1,3 milhões de milhões de dólares.

Mas, apesar da tentativa de abastecer o sistema com dinheiro para efectuar a continuação das operações de crédito mais básicas, a economia viu-se apanhada no terreno da armadilha da liquidez, que originou o amontoar de dinheiro e a paragem dos empréstimos entre bancos que preferiram guardar o dinheiro por consideraram esses empréstimos demasiado arriscados. Uma armadilha da liquidez é uma ameaça quando as taxas de juro nominais caem quase a zero. O habitual instrumento monetário de baixar as taxas de juros perde a sua eficácia dada a impossibilidade de fazer baixar as taxas de juro abaixo de zero. Nesta situação a economia sofre de um acentuado aumento do que Keynes chamava a "propensão para amontoar" dinheiro ou valores equivalentes a dinheiro, como os títulos do Tesouro.

O medo do futuro perante o que estava a acontecer na crise cada vez mais profunda traduziu-se em que os bancos e outros participantes do mercado preferiram a segurança do dinheiro vivo, por isso nada do que o Fed injectou serviu para estimular o empréstimo. A corrida para a liquidez, reflectida em parte em compras de títulos do Tesouro, fez baixar a taxa de juros desses títulos para uma fracção de 1 por cento, ou seja, entrou-se ainda mais profundamente no terreno da armadilha da liquidez. [4]

Perante o que o Business Week designou como a "idade de gelo financeiro", quando cessaram os empréstimos, as entidades financeiras nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, seguidas em bloco pelas potências do G-7, anunciaram que iriam comprar acções nos principais bancos, a fim de injectar capital directamente, recapitalizando os bancos – uma espécie de nacionalização parcial. Entretanto, alargaram o seguro de depósitos. Nos estados Unidos o governo propôs-se garantir 1,5 milhões de milhões de dólares em novas dívidas emitidas pelos bancos. "No total", afirmou o New York Times a 15 de Outubro de 2008, um mês apenas depois do colapso do Lehman Brothers que desencadeou a crise da banca, "o custo potencial para o governo do último pacote de salvamento atinge os 2,25 milhões de milhões de dólares, o triplo do pacote de salvamento inicial de 700 mil milhões de dólares, que se concentrou na compra de activos problemáticos aos bancos". [5] Mas, poucos dias depois, o mesmo jornal corrigia a sua estimativa sobre os custos potenciais de todas as operações de salvamento, declarando: "Em teoria, os fundos comprometidos para tudo, desde as operações de salvamento do Fannie Mae e do Freddie Mac e da firma de Wall Street, Bear Stearns e da seguradora American International Group, até ao pacote de ajuda financeira aprovado pelo Congresso, para proporcionar garantias para protecção de mercados financeiros seleccionados [como o do papel comercial] é de facto um número muito grande: uma estimativa de 5,1 milhões de milhões de dólares". [6]

Apesar de tudo isto, a implosão financeira continuou a alastrar e a aprofundar-se, enquanto vemos por todo o lado fortes contracções na "economia real". Os principais fabricantes de automóveis dos EUA estão a sofrer graves quebras económicas, mesmo depois de Washington, em Setembro de 2008, ter concordado em conceder à indústria um empréstimo de 25 mil milhões de dólares a juros baixos. A construção de habitações unifamiliares atingiu o ponto mais baixo de 26 anos. Prevê-se que o consumo sofra quedas recorde. Os empregos estão a desaparecer rapidamente. [7] Dada a gravidade do choque financeiro e económico, existem agora receios generalizados entre os que estão no centro do poder empresarial de que a implosão financeira, mesmo se estabilizada de modo suficiente que permita o desenredamento e o assentamento ordenados das múltiplas insolvências, conduza a uma estagnação profunda e duradoura, como a que atingiu o Japão nos anos 90, ou até mesmo a uma nova Grande Depressão. [8]

A crise financeira, como se sugere acima, foi inicialmente considerada como uma falta de dinheiro ou de liquidez (o grau em que os valores podem ser comercializados rapidamente e prontamente convertidos em dinheiro com preços relativamente estáveis). A ideia era que este problema de liquidez podia ser resolvido injectando dinheiro nos mercados financeiros e baixando as taxas de juros. No entanto, há uma grande quantidade de dólares no mundo financeiro – hoje mais do que antigamente – o problema é que os que detêm esses dólares não estão dispostos a emprestá-los aos que possivelmente não podem vir a reembolsá-los, e esses são praticamente todos os que precisam de dólares nos dias de hoje. Portanto, isto deve ser preferivelmente considerado como uma crise de solvência em que o capital contabilístico das instituições financeiras americanas e britânicas – e muitas outras na sua esfera de influência – tem sido desvalorizado pelo valor em queda dos empréstimos (e empréstimos securitizados) que detêm, os seus activos.

Do ponto de vista contabilístico, a maior parte dos grandes bancos americanos estava insolvente em meados de Outubro, o que levou a uma série de precipitadas fusões de emergência, incluindo a compra do Washington Mutual e do Bear Stearns pelo JP Morgan Chase, a absorção do Countrywide e do Merrill Lynch pelo Bank of America, e a aquisição do Wachovia pelo Wells Fargo. Tudo isto está a criar um sector da banca mais monopolista com o apoio do governo. [9] A injecção directa de capital governamental nos bancos sob a forma da compra de acções, juntamente com as consolidações de bancos, poderá quando muito comprar o tempo necessário para liquidar de modo ordenado a vasta massa de empréstimos duvidosos, restaurando a solvência, mas a um ritmo muito mais baixo de actividade económica – o de uma grave recessão ou depressão.

Nesta crise que vai piorando, logo que se remenda um buraco aparece uma série de outros. Ainda se desconhece a total extensão do valor dos prejuízos das hipotecas securitizadas, das dívidas de consumidores e de empresas, e dos diversos instrumentos que tentaram combinar essas dívidas com formas de seguro contra a sua falta de pagamento (como as "obrigações sintéticas de dívida colateralizada" (CDO's), que contêm permutas crédito-débito "empacotadas" com CDO's. As principais categorias destes instrumentos financeiros foram reavaliadas recentemente para 10 a 20 por cento menos na sequência da falência do Lehman Brothers e da aquisição forçada do Merrill Lynch. [10] À medida que os fortes cortes no valor de tais activos são aplicados genericamente, a base do capital próprio das instituições financeiras vai desaparecendo juntamente com a confiança na sua solvência. E assim, os bancos estão a fazer o que John Maynard Keynes disse que fariam em tais circunstâncias: a amontoar dinheiro. [11] Por detrás disto tudo, na base da economia, está a deterioração da situação económica das famílias, debilitadas por décadas de salários reais congelados e por uma dívida de consumo cada vez maior.

"Isso" e o emprestador de última instância

Para compreender o significado histórico total desta evolução é necessário olhar para a função do governo dos EUA e dos demais países capitalistas como "emprestador de última instância". Actualmente assumiu a forma de oferta de liquidez ao sistema financeiro em crise, seguido pela injecção directa de capital nessas instituições e, por fim, se necessário, nacionalizações abertas. É este compromisso do estado em ser o emprestador de última instância que tem conferido confiança no sistema ao longo dos anos – apesar do facto de a super estrutura financeira da economia capitalista ter ultrapassado em muito a sua base no que os economistas chamam de economia "real" de bens e serviços. Portanto, nada é mais assustador para o capital do que aparecer o Federal Reserve e outros bancos centrais a fazer tudo o que podem para salvar o sistema e não conseguir impedir que ele se afunde cada vez mais – uma coisa que antigamente era considerada impensável. Embora o Federal Reserve e o Tesouro dos EU tenham intervindo maciçamente, parece que as dimensões totais da crise continuam a escapar-lhes.

Há quem lhe tenha chamado um "momento Minsky". Em 1982, o economista Hyman Minsky, conhecido pela sua hipótese de instabilidade financeira, fez a pergunta crucial: "Poderá 'isto" – a Grande Depressão – voltar a acontecer?" Conforme observou, não havia respostas fáceis para esta pergunta. Para Minsky a questão fundamental era se um colapso financeiro podia despedaçar uma economia real já em dificuldades – como na Grande Depressão. O sistema financeiro inerentemente instável crescera em escala ao longo de décadas, mas o mesmo acontecera ao governo e à sua capacidade de servir como emprestador de última instância. "Os processos que contribuem para a instabilidade financeira", observou Minsky, "são uma parte inevitável de qualquer economia capitalista descentralizada – i.e., o capitalismo é defeituoso por natureza – mas a instabilidade financeira não leva inevitavelmente a uma grande depressão; 'Isso' pode não acontecer". [12]

Mas aí estava implícita a ideia de que 'isso' também podia voltar a acontecer – nem que fosse pela possibilidade de uma explosão financeira e de uma instabilidade crescente poderem concebivelmente exceder a capacidade de resposta do governo – ou uma resposta suficientemente rápida e decisiva. Teoricamente, o estado capitalista, em especial o dos Estados Unidos, que controla o que equivale a uma divisa mundial, tem capacidade para impedir uma crise tão perigosa. A principal preocupação é uma "dívida-deflação" maciça (um fenómeno explicado pelo economista Irving Fisher durante a Grande Depressão) como demonstrado não só pela experiência dos anos 30 como no Japão nos anos 90. Nesta situação, conforme Fisher escreveu em 1933, "uma deflação provocada pela dívida recai sobre a própria dívida. Cada dólar de dívida ainda não pago torna-se num dólar maior, e se o sobre-endividamento com que começámos for suficientemente grande, a liquidação da dívida não consegue competir com a queda dos preços que provoca". Por outras palavras, os preços caem quando os devedores vendem bens para pagar as suas dívidas, e quando os preços caem as restantes dívidas têm que ser pagas em dólares mais valiosos do que os que se pediram emprestados, provocando mais falhas de pagamentos, provocando preços ainda mais baixos, e portanto uma espiral de deflação. [13]

A economia ainda não está nesta situação medonha, mas o espectro aproxima-se. Como afirmou Paul Asworth, principal economista americano no Capital Economics, em meados de Outubro de 2008, "Com a taxa de desemprego a subir rapidamente e os mercados de capitais em tumulto, quase tudo aponta para a deflação. A única coisa em que se pode ter esperança é que a rápida acção dos políticos talvez consiga evitá-la antes". "As economias do mundo rico", alertou a revista Economist no início de Outubro, "já estão a sofrer um processo moderado desta 'dívida-deflação'. A combinação da queda dos preços das casas e da contracção do crédito está a forçar os devedores a reduzir as despesas e a vender bens, o que por seu turno ainda faz baixar mais os preços das casas e de outros bens… Uma queda geral nos preços ao consumidor tornará as coisas ainda piores". [14]

Supunha-se que a simples ideia de que tais acontecimentos se pudessem repetir hoje na economia dos EUA estivesse afastada pela função do emprestador de última instância, com base no conceito de que o problema era principalmente monetário e podia ser sempre resolvido através de meios monetários, inundando a economia de liquidez ao menor sinal de perigo. Assim, o presidente da administração do Federal Reserve, Ben Bernanke, fez um discurso em 2002 (enquanto governador do Federal Reserve) significativamente intitulado "Deflação: Assegurar que 'Isso' Não Vai Acontecer Aqui". Nesse discurso sustentava que havia muitas formas de garantir que "Isso" não aconteceria hoje, apesar da crescente instabilidade financeira:

O governo dos EUA tem uma tecnologia, chamada impressora (ou, hoje em dia, o seu equivalente electrónico) que lhe permite produzir todos os dólares americanos que quiser, praticamente sem qualquer custo. Ao aumentar o número de dólares americanos em circulação, ou apenas ao ameaçar credivelmente que o vai fazer, o governo dos EU está também a reduzir o valor do dólar em termos de bens e serviços, o que equivale a aumentar os preços em dólares desses bens e serviços. Chegamos à conclusão de que, num sistema de papel moeda, um determinado governo pode sempre gerar despesas mais altas e portanto uma inflação positiva. 
Claro que o governo dos EUA não vai imprimir dinheiro e distribuí-lo a esmo (embora como veremos depois, haja políticas práticas que se aproximam deste comportamento). Normalmente, o dinheiro é injectado na economia através de compras feitas pelo Federal Reserve. Para estimular despesas maciças quando as taxas de juros a curto prazo chegam a zero, o Fed tem que aumentar a escala das suas compras de activos ou, possivelmente, alargar o menu de activos que adquire. Em alternativa, o Fed pode encontrar outras formas de injectar dinheiro no sistema – por exemplo, fazendo empréstimos a bancos a taxas de juro baixas ou cooperando com as entidades fiscais. [15]

Nesse mesmo discurso, Bernanke sugeria que nessas circunstâncias "um corte de impostos, financiado por dinheiro" destinado a evitar a deflação, era "equivalente na sua essência à famosa 'chuva de helicóptero' de dinheiro, de Milton Friedman" – uma afirmação que lhe granjeou a alcunha de "Helicóptero Bem". [16]

Economista académico que conquistou a sua reputação graças aos seus estudos sobre a Grande Depressão, Bernanke foi produto do conceito proposto mais influentemente por Milton Friedman e Anna Schwartz na sua conhecida obra, A Monetary History of the United States, 1867-1960, de que a origem da Grande Depressão tinha sido monetária e podia ter sido combatida quase exclusivamente em termos monetários. A falha na abertura das comportas monetárias no seu início, segundo Friedman e Schwartz, tinha sido a principal razão para que os maus tempos económicos tivessem sido tão graves. [17] Bernanke opunha-se profundamente a concepções anteriores da Depressão que a consideravam produto das fraquezas estruturais da economia "real" e do processo de acumulação subjacente. Ao falar no 75º aniversário da queda do mercado de acções de 1929, afirmou:

Durante a Depressão propriamente dita, e durante várias décadas a seguir, a maior parte dos economistas defenderam que os factores monetários não tinham sido uma causa importante da Depressão. Por exemplo, muitos observadores apontaram para o facto de que as taxas de juros nominais estiveram perto do zero durante grande parte da Depressão, concluindo que a política monetária tinha sido o mais confortável possível e no entanto não tinha produzido qualquer benefício tangível para a economia. A tentativa de usar uma política monetária para arrancar uma economia duma profunda depressão foi frequentemente comparada a "empurrar uma corda". 
Durante as primeiras décadas depois da Depressão, a maior parte dos economistas procurou explicações na evolução do lado real da economia, em vez de nos factores monetários. Alguns argumentaram, por exemplo, que se assistira nos efervescentes anos 20 a um excesso de investimento e a um excesso da construção, que levaram ao colapso quando se chegou à conclusão de que os retornos desses investimentos eram menores do que os esperados. Outra teoria, outrora muito popular, era que fora um problema crónico de "subconsumo" – a incapacidade de as famílias comprarem suficientes bens e serviços para utilizar a capacidade produtiva da economia – que tinha precipitado a queda. [18]

A resposta de Bernanke a tudo isto foi reafirmar solidamente que o que tinha precipitado (e explicado) a Grande Depressão, eram os factores monetários praticamente por si sós, e eram eles os meios fundamentais, na verdade quase os únicos, para combater a dívida-deflação. Quase não valia a pena abordar as tendências na economia real, tais como o aparecimento do excesso de capacidade na indústria. Quando muito, eram uma ameaça deflacionária que seria contrariada pela reflação. [19] Nem, conforme argumentou noutro sítio, era necessário explorar o ponto de vista de Minsky de que o sistema financeiro da economia capitalista era instável por natureza, visto que esta análise dependia da irracionalidade económica associada a loucuras especulativas e portanto se afastava do modelo formal de "comportamento económico racional" da economia neoclássica. [20] Bernanke concluiu um discurso, que comemorava o 90º aniversário de Friedman em 2002, com as palavras: "Gostaria de dizer a Milton e a Anna: Quanto à Grande Depressão, vocês tinham razão, fomos nós que a fizemos. Lamentamos muito. Mas graças a vocês, não voltaremos a fazer isso". [21] "Isso", claro, era a Grande Depressão.

Na sequência da queda do mercado de acções em 2000, desenvolveu-se um debate nos círculos da banca central sobre se deviam fazer-se "ataques preventivos" contra futuras bolhas de valores para evitar tais catástrofes económicas. Bernanke, representando a ortodoxia económica reinante, deu o tom argumentando que não se devia tentar fazer isso, visto que era difícil de saber se uma bolha era mesmo uma bolha (quer dizer, se a expansão financeira era justificada por fundamentos económicos ou por novos modelos de negócio, ou não). Além do mais, rebentar uma bolha seria atrair o desastre, como nas tentativas do Federal Reserve para o fazer nos finais dos anos 20, levando (segundo a interpretação monetarista) às falências da banca e à Grande Depressão. E concluiu: "uma política monetária não pode ser dirigida de modo suficientemente primoroso para guiar preços de valores, sem correr o risco de graves danos colaterais para a economia… Embora não seja possível eliminar a volatilidade da economia e dos mercados financeiros, temos que ser capazes de a moderar sem sacrificar as enormes forças do nosso sistema de mercado livre". Em resumo, defendia Bernanke, sem dúvida com alguma razão dada a natureza do sistema, o melhor que o Federal Reserve podia fazer, face a uma bolha importante, era restringir-se principalmente à sua função de emprestador de última instância. [22]

Mesmo no pico da bolha da habitação, Bernanke, na altura presidente do Conselho de Consultores Económicos de Bush, declarou com os olhos completamente fechados: "Os preços das casas subiram quase 25 por cento nos últimos dois anos. Embora tenha aumentado a actividade especulativa nalgumas áreas, a nível nacional as subidas dos preços reflectem fortes fundamentos económicos, incluindo um robusto crescimento em empregos e receitas, taxas de hipotecas baixas, taxas sólidas de formação familiar, e factores que limitam a expansão da oferta de habitação nalgumas áreas". [23] Ironicamente, foram estas opiniões que levaram à nomeação de Bernanke para presidente da administração do Federal Reserve (em substituição de Alan Greenspan) no início de 2006.

A bolha da habitação começou a esvaziar no início de 2006 na mesma altura em que o Fed estava a aumentar as taxas de juro numa tentativa de conter a inflação. O resultado foi o colapso do sector da habitação e dos títulos suportados por hipotecas. Confrontado com uma importante crise financeira no início de 2007, Bernanke, na qualidade de presidente do Fed, pôs a impressora em marcha a todo o vapor, inundando de dólares a nação e o mundo, mas cedo constatou para seu grande desespero que tinha estado a "empurrar uma corda". Não houve quantidade de infusões de liquidez capazes de ultrapassar a insolvência em que as instituições financeiras estavam atoladas. Incapazes de cumprirem as suas exigências financeiras correntes - se fossem instados a fazê-lo – os bancos recusaram-se a renovar empréstimos enquanto acumulavam o dinheiro disponível em vez de emprestarem e estimularem de novo o sistema. A crise financeira depressa se tornou tão universal que os riscos de emprestar dinheiro aumentaram em espiral, visto que muitos beneficiários de empréstimos anteriormente dignos de crédito se viam agora possivelmente à beira da insolvência. Numa armadilha da liquidez, como ensinara Keynes, pôr a funcionar as impressoras apenas ajuda à acumulação de dinheiro mas não a novos empréstimos e gastos.

No entanto, como veremos, as verdadeiras raízes da falência financeira penetravam muito mais profundamente: a estagnação da produção e do investimento.

Da explosão financeira à implosão financeira

Em poucas palavras, a nossa explicação é que a explosão financeira nas últimas décadas e a implosão financeira que agora ocorre se explicam principalmente em relação às tendências para a estagnação no interior da economia subjacente. Os economistas e os especialistas dos meios de comunicação têm dado uma série de outras explicações para a crise actual (na sua maioria concentrando-se nas causas próximas). Essas explicações incluem a redução das regulamentações do sistema financeiro; as taxas de juros muito baixas introduzidas pelo Fed para combater os efeitos da queda da bolha de acções "Nova Economia" de 2000, levando à bolha da habitação; e a venda de grande quantidade de hipotecas "subprime" a muita gente que não tinha posses para comprar uma casa e/ou não tinha percebido totalmente as condições das hipotecas.

Tem sido dada muita atenção às técnicas pelas quais as hipotecas eram empacotadas e depois "fatiadas e sorteadas" e vendidas a investidores institucionais em todo o mundo. Também pode ter estado envolvida uma fraude aberta nalgumas dessas manobras financeiras. A queda dos valores das casas depois do rebentamento da bolha da habitação e a incapacidade de muitos detentores de hipotecas subprime de continuarem a fazer os seus pagamentos mensais, juntamente com as consequentes penhoras, foi certamente a palha que quebrou a espinha ao camelo, levando a esta falência catastrófica do sistema. E poucos duvidam hoje que tudo piorou por causa do entusiasmo de desregulamentação, avidamente promovido pelas firmas financeiras, que as deixou com menos defesas quando as coisas deram para o torto.

Apesar de tudo isso, o problema de raiz era muito mais profundo, e devia ser procurado numa economia que passava por um crescimento mais lento, dando origem à explosão financeira quando o capital procurou "alavancar" a sua saída para o problema aumentando a dívida e ganhando lucros especulativos. Podemos observar na tabela 1 a extensão a que a dívida disparou em relação ao PIB durante as últimas quatro décadas. Tal como os números indicam, a característica mais notável no desenvolvimento do capitalismo durante este período tem sido a expansão da dívida.

Tabela 1. Dívida interna [*] e PIB (milhões de milhões dólares)

PIB
Dívida
total
Dívida por sector
Habitação
Firmas
financeiras
Negócios
não financeiros
Governo
(locais, estaduais & federal)
19701,01,50,50,10,50,4
19802,74,51,40,61,51,1
19905,813,53,62,63,73,5
20009,826,37,08,16,64,6
200713,847,713,816,010,67,3


[*] A parte federal da dívida local, estatal e federal inclui apenas a porção na posse do público. A dívida total em 2007, se se acrescentar a dívida federal na posse de organismos federais, passa para 51,5 milhões de milhões de dólares.



Fontes: Flow of Funds Accounts of the United States, Table L.1 Credit Market Debt Outstanding, Federal Reserve and Table B-1, Gross domestic product, 1959-2007, Economic Report of the President, 2008.

Este fenómeno ainda é mais claro no gráfico 1 que mostra a subida em flecha da dívida privada em relação ao rendimento nacional desde os anos 60 até ao presente. A dívida do sector financeiro como percentagem do PIB elevou-se pela primeira vez do nível rasteiro nos anos 60 e 70, acelerou a partir dos anos 80 e disparou depois de meados dos anos 90. A dívida da habitação como percentagem do PIB subiu fortemente a partir dos anos 80 e depois aumentou ainda mais depressa no final dos anos 90. A dívida de negócios não financeiros em relação ao rendimento nacional também subiu durante o período, embora menos espectacularmente. O efeito geral é um aumento maciço na dívida privada em relação ao rendimento nacional. O problema ainda se agrava mais se se acrescentar a dívida governamental (local, estatal e federal). Com todos os sectores incluídos, a dívida total em percentagem do PIB sobe de 151 por cento em 1959 para uns astronómicos 373 por cento em 2007!

Esta subida na carga da dívida acumulada em percentagem do PIB estimulou fortemente a economia, especialmente no sector financeiro, alimentando enormes lucros financeiros e marcando a financiarização crescente do capitalismo (a mudança de gravidade da produção para a finança no seio da economia como um todo). A imagem dos lucros, associados a esta financiarização acelerada, está representada no gráfico 2, que fornece um índice de série tempo (1970 = 100) dos lucros americanos financeiros versus não financeiros e o PIB. A partir de 1970, os lucros financeiros e não financeiros tendiam a aumentar ao mesmo ritmo do PIB. Mas, nos finais dos anos 90, a finança pareceu assumir vida própria, com os lucros das corporações financeiras americanas (e em menor grau os lucros das corporações não financeiras também), projectados para a estratosfera, aparentemente divorciados do crescimento do rendimento nacional, que se manteve relativamente estagnado. As corporações, jogando no que se transformou num gigantesco casino, usaram e abusaram da alavancagem – ou seja, apostavam frequentemente trinta ou mais dólares emprestados por cada dólar seu que era utilizado. Isto ajuda a explicar os lucros extraordinariamente altos que conseguiram ganhar enquanto as suas apostas tiveram êxito. Claro que o crescimento da finança não se restringiu meramente aos Estados Unidos mas foi um fenómeno global com exigências especulativas de riqueza muito distanciadas da produção global, e com a mesma contradição essencial que percorreu todo o mundo capitalista avançado e as economias "emergentes".



Já nos finais dos anos 80 a gravidade da situação se estava a tornar clara para os que não estavam comprometidos com as formas de pensamento institucional. Olhando para a situação em 1988, no aniversário da queda do mercado de acções de 1987, os editores da Monthly Review, Harry Magdoff e Paul Sweezy, afirmaram que mais tarde ou mais cedo – ninguém poderia prever exactamente quando ou como – ocorreria provavelmente uma grande crise do sistema financeiro que derrotaria a função de emprestador de última instância. Isto simplesmente porque nessa altura toda a precária super estrutura financeira teria crescido a uma escala tal que os meios das entidades governamentais, embora maciços, deixariam de ser suficientes para deter a avalanche, principalmente se não agissem suficientemente depressa e decididamente. Conforme afirmaram, era bastante possível que na próxima vez o esforço de salvamento tivesse "êxito no mesmo sentido ambíguo do que aconteceu após o colapso do mercado de acções de 1987. Se assim for, teremos que passar de novo por todo o mesmo processo, mas a um nível mais elevado e mais precário. Mas, mais tarde ou mais cedo, da próxima vez ou noutra a seguir, não terá êxito", gerando uma grave crise da economia.

Como exemplo duma avalanche financeira à espera de acontecer, apontaram para o "mercado de acções de Tóquio em grande alta", como um possível prelúdio para uma enorme implosão financeira e uma subsequente estagnação profunda – uma realidade que se iria materializar pouco tempo depois, resultando na crise financeira do Japão e na "Grande Estagnação" dos anos 90. Os valores dos activos (tanto no mercado de acções como no imobiliário) caíram num valor equivalente a mais de dois anos de PIB. Quando as taxas de juro chegaram ao zero e se instalou a dívida-deflação, o Japão ficou preso na clássica armadilha da liquidez sem forma expedita de relançar uma economia já profundamente atolada na sobrecapacidade da economia produtiva. [24]

"No mundo actual dominado pela finança", escreveram Magdoff e Sweezy em 1987 na sequência imediata da queda do mercado de acções nos EUA:

O crescimento subjacente da mais-valia não consegue acompanhar o ritmo da acumulação do capital em dinheiro. Na ausência de uma base de mais-valia, o capital em dinheiro acumulado torna-se cada vez mais nominal, fictício mesmo. Provém da venda e compra de papéis, e baseia-se na presunção de que os valores dos activos continuarão inflacionados indefinidamente. Por outras palavras, o que temos é uma especulação em marcha baseada na crença de que, apesar das flutuações no preço, os valores dos activos prosseguirão sempre numa única direcção – para cima! Com este cenário como pano de fundo, a queda do mercado de acções de Outubro [1987] assume um significado de longo alcance. Ao demonstrar a falácia de um movimento infindável para cima dos valores dos activos, denuncia o cerne irracional da economia de hoje. [25]

Estas contradições, associadas a bolhas especulativas, têm sido evidentemente, até certo ponto, endémicas no capitalismo através de toda a sua história. Mas, na era pós Segunda Guerra Mundial, conforme argumentaram Magdoff e Sweezy, em linha com Minsky, a carga da divida tornou-se cada vez maior, apontando para o crescimento de um problema que era acumulativo e cada vez mais perigoso. Em The End of Prosperity, Magdoff e Sweezy escreveram: "Na ausência de uma grave depressão durante a qual as dívidas são forçosamente eliminadas ou drasticamente reduzidas, as medidas de salvamento do governo para evitar o colapso do sistema financeiro resumem-se apenas a preparar o terreno para mais camadas de dívidas e constrangimentos adicionais durante o avanço económico seguinte". Conforme Minsky disse, "Sem uma crise e um processo de dívida-deflação para contrabalançar as crenças no êxito de riscos especulativos, estimula-se a propensão para a subida dos preços e para uma estratificação financeira ainda mais alta". [26]

Os economistas e os analistas de negócios da corrente dominante foram momentaneamente confrontados com estas questões inconvenientes, mas rapidamente as puseram de lado. Embora o crescimento espectacular da finança não pudesse ter deixado de criar nervosismo de tempos a tempos – por exemplo, a famosa referência de Alan Greenspan à "exuberância irracional" – a presunção predominante, promovida pelo próprio Greenspan, era que o crescimento da dívida e da especulação representava uma nova era de inovação do mercado financeiro, i.e., uma mudança estrutural sustentável no modelo de negócios, associada a novas técnicas revolucionárias de gestão de risco. Greenspan estava tão apaixonado pela "Nova Economia" tornada possível pela financiarização que fez notar em 2004: "Não só as instituições financeiras individuais se tornaram menos vulneráveis aos choques de factores de risco subjacentes, como também o sistema financeiro no seu todo tornou-se mais elástico". [27]

Foi apenas com a chegada da crise financeira em 2007 e a sua persistência até 2008 que encontramos analistas financeiros em sítios surpreendentes a falar abertamente com perspectivas diferentes. Assim, como observou Manas Chakravarty, colunista económico do site investidor da Índia na Web, Livemint.com (em parceria com o Wall Street Journal), em 17 de Setembro de 2008, no contexto do colapso de Wall Street,

"o economista americano Paul Sweezy assinalou há muito que a estagnação e a enorme especulação financeira surgiram como aspectos simbióticos do mesmo impasse económico irreversível de raízes profundas. Ele disse que a estagnação da economia subjacente significava que o negócio estava cada vez mais dependente do crescimento da finança para preservar e aumentar o seu capital em dinheiro e que a superstrutura financeira da economia não podia expandir-se inteiramente independente da sua base na economia produtiva subjacente. Com uma presciência notável, Sweezy disse que o rebentamento de bolhas especulativas seria, portanto, um problema recorrente e crescente". [28]

Evidentemente, Paul Baran e Sweezy em Monopoly Capital, e posteriormente Magdoff e Sweezy na Monthly Review, tinham assinalado outras formas de absorção de mais-valia tais como as despesas do governo (em especial as despesas militares), o esforço de vendas, o estímulo proporcionado por novas inovações, etc. [29] Mas todas elas, embora importantes, mostraram-se insuficientes para manter a economia em coisas como o pleno emprego, e nos anos 70 o sistema estava atolado numa profunda estagnação (ou estagflação). Era a financiarização – e o crescimento da dívida que esta promovia activamente – que ia surgir como o estímulo quantitativamente mais importante para a procura. Mas apontava inevitavelmente para um dia de avaliações financeiras e de uma cascata de incumprimentos de pagamentos.

Na verdade, alguns analistas preponderantes, sob a pressão dos acontecimentos, foram forçados a reconhecer no verão de 2008 que poderia vir a ser inevitável uma desvalorização maciça do sistema. Jim Reich, o chefe da investigação de crédito do Deutsche Bank, examinando o tipo de relação entre lucros financeiros e o PIB exibida no gráfico 2, publicou uma análise intitulada "Uma reversão de um milhão de milhões de dólares?" em que argumentava que:

Os lucros financeiros dos EUA desviaram-se da média durante a década passada numa base acumulativa… O sector financeiro dos EUA fez cerca de 1,2 milhões de milhões (1 200 mil milhões de dólares) de lucros 'excessivos' na década passada em relação ao PIB nominal… Portanto a reversão da média [a teoria de que os retornos nos mercados financeiros com o tempo "revertem" para uma projecção da média a longo prazo, ou linha tendencial] pode sugerir que será necessário anular 1,2 milhões de milhões de dólares de lucros antes de o sector financeiro americano ficar limpo dos excessos da década passada… Dado que… Bloomberg informa que, até agora nesta crise, os financeiros americanos já registaram 184 mil milhões de dólares, se acreditarmos que a dimensão do sector financeiro tem que encolher até ao nível da década passada, então temos que chegar à conclusão de que o sector ainda tem que sofrer a perda de mais um milhão de milhões de dólares antes de voltarmos à tendência de período longo em lucros financeiros. Uma ideia assustadora e que, a estar correcta, levará a um longo período de permanente intervenção das autoridades numa tentativa de fazer parar a sua destruição potencial. Será fundamental encontrar qual a dimensão adequada do sector financeiro no "novo mundo" para saber qual o grau de destruição que vai ser necessária no sector.

A ideia duma reversão da média de lucros financeiros à sua linha tendencial a longo prazo na economia como um todo foi adiantada apenas para sugerir a dimensão da mudança iminente, visto que Reid aceitava a possibilidade de que existem razões estruturais do "mundo real" para explicar o peso relativo da finança – embora ainda não estivesse disposto a aceitar nenhuma delas. Como reconheceu, "avaliar a dimensão 'natural' adequada para o sector financeiro em relação ao resto da economia é uma charada impressionantemente difícil". Com efeito, será de pôr em dúvida se existe mesmo um nível "natural". Mas só a ideia de que era possível ocorrer uma maciça "destruição de lucros", antes que o sistema pudesse continuar a sua marcha e que isso implicaria um "longo período de permanente intervenção das autoridades numa tentativa de fazer parar a sua destruição potencial", demonstrava bem o facto de que a crise era muito mais grave do que na altura se supunha – uma coisa que pouco depois se tornou evidente. [30]

O que tal raciocínio sugeria, em linha com o que Magdoff e Sweezy tinham defendido nas últimas décadas do século XX, era que a autonomia da finança em relação à economia subjacente, associada ao processo de financiarização, era mais relativa do que absoluta, e que viria a ser necessário por fim uma grande época económica negra – maior do que o simples rebentar duma bolha e a inflação de outra. E provavelmente seria tanto mais devastadora quanto mais o sistema a adiasse. No entretanto, conforme Magdoff e Sweezy tinham feito notar, a financiarização podia continuar durante algum tempo. E com efeito não havia outra resposta para o sistema.

De volta à economia real: O problema da estagnação

Paul Baran, Paul Sweezy e Harry Magdoff defenderam incansavelmente desde os anos 60 até aos anos 90 (muito em especial em Monopoly Capital ) que a estagnação era o estado normal da economia de capitalismo de monopólio, para além de factores históricos especiais. A prosperidade que caracterizou a economia nos anos 50 e 60, insistiram, era atribuível a factores históricos temporários, tais como: (1) o amontoar de poupanças do consumidor durante a guerra; (2) uma segunda grande vaga de automobilização nos Estados Unidos (englobando a expansão das indústrias do vidro, do aço e da borracha, a construção do sistema de auto-estradas inter-estados e o desenvolvimento dos subúrbios); (3) a reconstrução das economias europeia e japonesa devastadas pela guerra; (4) a corrida ao armamento da Guerra Fria (e duas guerras regionais na Ásia); (5) o aumento do esforço de vendas marcado pela ascensão de Madison Avenue; (6) a expansão do FIRE (finança, seguros e imobiliário); e (7) o predomínio do dólar como divisa hegemónica. Logo que se desvaneceu o extraordinário estímulo destes factores, a economia começou a afundar-se de novo na estagnação: crescimento lento e aumento do excesso de capacidade e desemprego/subemprego. Por fim, foram os gastos militares e a explosão da dívida e a especulação que constituíram os principais estímulos que mantiveram a economia afastada da depressão. Mas estes não foram suficientes para evitar o reaparecimento das tendências de estagnação, e o problema foi piorando com o tempo. [31]

Podemos observar a realidade duma estagnação crescente no quadro 2, que mostra as taxas de crescimento real da economia, década após década, durante as últimas oito décadas. O baixo ritmo de crescimento nos anos 30 reflecte a profunda estagnação da Grande Depressão. Esta foi seguida pela extraordinária ascensão da economia dos EU nos anos 40 sob o impacto da Segunda Guerra Mundial. Durante os anos 1950-69, hoje frequentemente referidos como uma "Idade de Ouro" económica, a economia, alimentada pelo conjunto de factores históricos especiais acima referidos, conseguiu um forte crescimento económico numa economia de "tempo de paz". Mas veio a provar-se que isso também era demasiado temporário. A acentuada queda das taxas de crescimento nos anos 70 e seguintes apontam para uma tendência persistente para uma expansão mais lenta da economia, à medida que se desvaneciam as principais forças que impulsionavam as taxas de crescimento nos anos 50 e 60, impedindo que a economia regressasse à sua prosperidade anterior. Nas décadas seguintes, em vez de recuperar a sua anterior taxa tendencial de crescimento, a economia afundou-se lentamente.

Tabela 2. Crescimento do PIB real 1930-2007

% média anual
Década de 19301,3
Década de 19405,9
Década de 19504,1
Década de 19604,4
Década de 19703,3
Década de 19803,1
Década de 19903,1
2000 – 20072,6


Fonte: National Income and Products Accounts Table 1.1.1. Percent Change from Preceding Period in Real Gross Domestic Product, Bureau of Economic Analysis.


Foi a realidade da estagnação económica a partir dos anos 70, conforme recentemente sublinharam os economistas heterodoxos Riccardo Bellofiore e Joseph Halevi, que levou ao aparecimento do "novo regime capitalista financiarizado", uma espécie de "keynesianismo financeiro paradoxal" no qual a procura na economia era estimulada basicamente "graças a bolhas de valores". Além disso, foi o papel de liderança dos Estados Unidos em gerar essas bolhas – apesar (e também por causa) do enfraquecimento da acumulação de capital propriamente dita – conjuntamente com o estatuto de divisa de reserva do dólar, que fez com que o capital monopólio-finança americano fosse o "catalisador da efectiva procura mundial", a partir dos anos 80. [32] Mas esse padrão de crescimento financiarizado foi incapaz de produzir um rápido avanço económico, nem por muito nem por pouco tempo, e era insustentável, conduzindo a novas bolhas que rebentavam periodicamente, fazendo com que a estagnação aparecesse cada vez mais à superfície.

Um elemento fundamental para explicar toda esta dinâmica encontra-se no rácio em queda dos salários e ordenados em percentagem do rendimento nacional nos Estados Unidos. A estagnação nos anos 70 levou o capital a desencadear uma guerra de classes acelerada contra os trabalhadores para conseguir lucros forçando a descida dos custos do trabalho. O resultado foram décadas de desigualdade cada vez maior. [33] O gráfico 3 mostra uma acentuada queda na parte de salários e ordenados em PIB entre os finais dos anos 60 e o momento actual. Isto reflecte o facto de que os salários reais dos trabalhadores privados não agrícolas nos Estados Unidos (em dólares de 1982) atingiram um pico em 1972, a 8,99 dólares por hora, e em 2006 tinham descido para 8,24 dólares (equivalente à taxa de salários horários reais), apesar do enorme crescimento na produtividade e nos lucros durante as últimas décadas. [34]


Isto fez parte duma redistribuição maciça de receitas e riqueza para o topo. Ao longo dos anos de 1950 a 1970, por cada dólar adicional ganho pelos 90 por cento de pessoas que estavam em baixo, os que estavam no topo - 0,01 por cento – receberam 162 dólares adicionais. Em contrapartida, de 1990 a 2002, por cada dólar acrescentado ganho por esses 90 por cento de baixo, os tais 0,01 por cento do topo (actualmente cerca de 14 mil famílias) ganharam 18 mil dólares adicionais. Nos Estados Unidos os 1 por cento dos muito ricos em 2001, no seu conjunto, detinham mais do dobro do total dos 80 por cento da população em baixo. Se medíssemos isto apenas em termos de riqueza financeira, i.e., excluindo o património da habitação ocupada pelos seus proprietários, os 1 por cento do topo possuíam mais do que o quádruplo dos 80 por cento de baixo. Entre 1983 e 2001, os 1 por cento do topo apoderaram-se de 28 por cento da subida no rendimento nacional, de 33 por cento dos ganhos totais em situação líquida e de 52 por cento de todo o crescimento em valor financeiro. [35]

O facto verdadeiramente notável nestas circunstâncias foi que o consumo familiar continuou a aumentar de um pouco mais de 60 por cento do PIB no início dos anos 60 para cerca de 70 por cento em 2007. Isto só foi possível porque passou a haver maior número de famílias com dois ordenados (visto que as mulheres engrossaram a força do trabalho), as pessoas passaram a trabalhar mais horas e a ter múltiplos empregos, e a dívida do consumidor foi aumentando constantemente. A dívida da habitação foi estimulada, principalmente nas últimas fases da bolha da habitação, por uma subida dramática nos preços das casas, levando os consumidores a contrair empréstimos maiores do que o valor da propriedade (o chamado "efeito riqueza" da habitação) – um processo que acabou subitamente quando a bolha rebentou e os preços das casas começaram a cair. Conforme se mostra no gráfico 1, a dívida da habitação aumentou de cerca de 40 por cento do PIB em 1960 para 100 por cento do PIB em 2007, com um aumento especialmente acentuado a partir dos finais dos anos 90. [36]

Este crescimento do consumo, baseado na expansão da dívida familiar, veio a provar-se ser o calcanhar de Aquiles da economia. A bolha da habitação assentava num acentuado aumento da dívida familiar com base na hipoteca, enquanto que os salários reais tinham estado essencialmente congelados durante décadas. Os consequentes incumprimentos entre novos proprietários marginais originaram a queda dos preços das casas. Isto originou um número cada vez maior de proprietários que ficaram a dever mais pelas suas casas do que aquilo que elas valiam, criando mais incumprimentos e uma queda maior dos preços das casas. Os bancos, procurando reforçar os seus balanços começaram a rejeitar novas extensões da dívida de cartões de crédito. O consumo entrou em queda, perderam-se empregos, desapareceram as despesas de capital e começou uma espiral descendente de duração desconhecida.

Durante os últimos trinta anos, mais ou menos, o excedente económico controlado pelas grandes empresas, e nas mãos de investidores institucionais, como as companhias de seguros e os fundos de pensões, derramou um fluxo cada vez maior num estendal exótico de instrumentos financeiros. Pouca porção dos vastos excedentes económicos foi utilizada para expandir o investimento, que se manteve num estado de simples reprodução, reduzido a uma simples substituição (embora com uma tecnologia nova e mais avançada), em oposição a uma reprodução alargada. Dado que as grandes empresas se revelaram incapazes de encontrar a procura para a sua produção – uma realidade reflectida no já longo declínio da utilização da capacidade da indústria (ver gráfico 4) – e foram confrontadas com a escassez de oportunidades de investimentos lucrativos, o processo da formação líquida de capital tornou-se cada vez mais problemático.


E assim, os lucros foram sendo cada vez mais desviados do investimento na expansão da capacidade produtiva e canalizados para a especulação financeira, enquanto que o sector financeiro parecia gerar tipos ilimitados de produtos financeiros destinados a fazer uso deste capital em dinheiro. (Este fenómeno existia à escala global, levando Bernanke a referir-se em 2005 a uma "abundância de poupanças global", com enormes quantidades de capital à procura de investimento circulando por todo o mundo e canalizado cada vez mais para os Estados Unidos dado o seu papel de liderança na financiarização). [37] Podemos observar as consequências disso no gráfico 5, que mostra o dramático divórcio entre lucros e investimento líquido em percentagem do PIB nos últimos anos, como investimento fixo privado não residencial como parte do rendimento nacional a cair significativamente durante o período, mesmo quando os lucros como parte do PIB se aproximam de um nível nunca visto desde os finais dos anos 60/princípios dos anos 70. Isto marca, na terminologia de Marx, uma viragem da "fórmula geral para o capital" D(Dinheiro)-M(Mercadorias)-D' (dinheiro original mais mais-valia), em que os bens eram centrais para a produção de lucros – para um sistema cada vez mais assente no circuito do capital em dinheiro por si só, D-D' , em que o dinheiro gera mais dinheiro sem qualquer relação com a produção.


Como a financiarização pode ser considerada como a resposta do capital à tendência de estagnação na economia real, uma crise de financiarização significa inevitavelmente um ressurgimento da estagnação endémica subjacente à economia do capitalismo avançado. A desalavancagem da enorme dívida acumulada durante as últimas décadas está agora a contribuir para uma profunda crise. Além disso, com a financiarização paralisada, não se vê outra saída para o capital monopolista-financeiro. O prognóstico é pois que a economia, mesmo depois de estabilizada a actual crise de desvalorização, será caracterizada, na melhor das hipóteses, por algum tempo de crescimento mínimo, e por um alto desemprego, subemprego e excesso de capacidade.

O facto de o consumo americano (facilitado pelo enorme défice contabilístico americano actual) ter proporcionado uma efectiva procura crucial para a produção de outros países significa que o abrandamento nos Estados Unidos já está a ter efeitos desastrosos externamente, com uma liquidação financeira a nível global a todo o vapor. As economias "emergentes" e subdesenvolvidas foram apanhadas por uma série de problemas desconcertantes. Estes englobam a queda de exportações, a descida dos preços dos bens, e as repercussões de altos níveis de financiarização no topo duma base económica instável e altamente exploradora – enquanto são sujeitas a renovadas pressões imperialistas dos estados centrais.

Os próprios estados centrais também estão em dificuldade. A Islândia, que tem sido comparada ao canário na mina de carvão, sofreu um colapso financeiro total, exigindo ajuda do exterior e possivelmente um assalto maciço aos fundos de pensões dos cidadãos. Durante mais de dezassete anos a Islândia tem tido um governo de direita liderado pelo ultra-conservador Partido da Independência em coligação com os partidos centristas sociais-democratas. Sob esta liderança a Islândia adoptou em força a financiarização neoliberal e a especulação e assistiu a um crescimento excessivo dos seus sectores da banca e da finança com os activos totais dos seus bancos a aumentar de 96 por cento do PIB no final de 2000 para nove vezes o seu PIB em 2006. Agora os contribuintes islandeses, que não foram responsáveis por estas acções, têm que aguentar a carga das dívidas especulativas externas dos seus bancos, o que se traduz num drástico declínio do seu nível de vida. [38]

Uma economia política

A economia na sua fase clássica, que abrangia a obra não só de individualistas-possessivos, como Adam Smith, David Ricardo, Thomas Malthus, e John Stuart Mill, mas também de pensadores socialistas, como Karl Marx, chamava-se economia política. Esta designação era significativa porque apontava para a base de classes da economia e para o papel do estado. [39] A bem dizer, Adam Smith introduziu a noção da "mão invisível" do mercado que substituía a anterior mão visível do monarca. Mas, apesar disso, o contexto político de classe da economia mantinha-se presente em Smith e em todos os outros economistas clássicos. Nos anos 1820, conforme Marx observou, havia "disputas magníficas" entre economistas políticos que representavam diversas classes (e fracções de classes) da sociedade.

No entanto, a partir das décadas 1830 e 40 em diante, quando a classe trabalhadora surgiu como uma força na sociedade, e quando a burguesia industrial conquistou o controlo firme do estado, desalojando interesses instalados (muito especialmente com a rejeição das Leis dos Cereais), a economia passou da sua anterior forma de discussão para a "má consciência e intenção malévola da apologética". [40] O fluxo circular da vida económica foi sendo reconceptualizado a pouco e pouco como um processo envolvendo apenas os indivíduos, o consumo, a produção e os lucros marginais. O conceito de classe desapareceu assim da economia, mas foi abraçado pelo novo campo da sociologia (em formas cada vez mais abstraídas das relações económicas fundamentais). Também se dizia que o estado não tinha nada a fazer directamente com a economia e passou para o novo campo da ciência política. [41] A economia foi assim "purificada" de todos os elementos de classe e políticos, e apresentada cada vez mais como uma ciência "neutra", tratando de princípios universais e trans-históricos das relações entre capital e mercado.

Tendo perdido quaisquer raízes significantes na sociedade, a economia neoclássica ortodoxa, que se apresentava como um simples paradigma, tornou-se numa disciplina dominada por abstracções largamente sem sentido, modelos mecânicos, metodologias formais e linguagem matemática, divorciada das evoluções históricas. Era apenas uma ciência do mundo real; a sua principal importância residia no seu papel enquanto ideologia auto-confirmada. Entretanto, os negócios reais prosseguiam ao longo das suas próprias linhas, esquecidos completamente (por vezes também intencionalmente) das teorias económicas ortodoxas. A incapacidade de a economia aceite aprender as lições da Grande Depressão, i.e., as falhas inerentes de um sistema de acumulação com base em classes na sua fase de monopólio, incluía uma tendência para ignorar o facto de que o problema real reside na economia real, e não na economia monetário-financeira.

Actualmente, nada parece mais míope do que a laminar rejeição de Bernanke das teorias tradicionais da Grande Depressão que traçaram as causas subjacentes ao desenvolvimento da sobrecapacidade e procura fraca – convidando a uma rejeição semelhante de tais factores hoje em dia. Tal como o seu mentor Milton Friedman, Bernanke defendeu a opinião económica neoliberal dominante das últimas décadas, com a sua insistência em que ao escorar "a rocha que inicia um deslizamento de terras" era possível impedir indefinidamente uma avalanche financeira de "proporções importantes". [42] Se o estado do terreno por cima estava em movimento, e se isso se devia a processos reais, relacionados com o tempo, não era motivo para preocupação. Ironicamente, Bernanke, o académico especialista da Grande Depressão, adoptou a política de "não ver o mal, não ouvir o mal, não falar do mal" que tinha sido descrita por Ethan Harris, principal economista americano do Barclays Capital, em relação às bolhas de valores. [43]

Devemos pois voltar-nos para a opinião contrária que sublinha as contradições socioeconómicas do sistema. Durante algum tempo, em resposta à Grande Depressão dos anos 30, na obra de John Maynard Keynes, e de outros pensadores associados às tradições keynesianas, institucionalistas e marxistas – o mais importante dos quais foi o economista polaco Michael Kalecki – houve um certo revivalismo de perspectivas político-económicas. Mas a seguir à Segunda Guerra Mundial, o keynesianismo foi sendo reabsorvido a pouco e pouco pelo sistema. Isto ocorreu em parte através do que se chamou a "síntese neoclássica-keynesiana" – que, como afirmou Joan Robinson, um dos colegas mais jovens de Keynes, teve o efeito de abastardar Keynes – e em parte através do crescimento estreitamente relacionado do keynesianismo militar. [44] Por fim, surgiu o monetarismo como a resposta dominante para a crise de estagflação dos anos 70, juntamente com a ascensão de outras ideologias conservadoras do mercado livre, tais como a teoria do lado da oferta, as expectativas racionais, e a nova economia clássica (resumida como ortodoxia neoliberal). A economia perdeu a sua categoria explícita político-económica e o mundo voltou de novo para a mitologia dos mercados auto-reguladores, auto-equilibradores, isento das questões de classes e de poder. Quem quer que questionasse isto, era caracterizado como um político e não como um economista, e portanto excluído da discussão económica dominante. [45]

Não é necessário dizer que a economia nunca deixou de ser política; o que aconteceu é que a política que era promovida estava tão entrelaçada no sistema do poder económico que quase se tornava invisível. A mão visível do monarca, de Adam Smith, estava transformada na mão invisível, não do mercado, mas da classe capitalista, que estava escondida por detrás do véu do mercado e da concorrência. No entanto, em cada crise económica grave esse véu ia sendo parcialmente rasgado e expunha a realidade do poder de classe.

O pedido do secretário do Tesouro Paulson ao Congresso em Setembro de 2008, de 700 mil milhões de dólares para salvar o sistema financeiro pode constituir um ponto de viragem no reconhecimento e escândalo popular do problema económico, levantando pela primeira vez em muitos anos a questão da economia política. Tornou-se de imediato visível para toda a população que a questão crítica na crise financeira e na profunda estagnação económica que estava a surgir era: Quem vai pagar? A resposta do sistema capitalista, entregue às suas próprias manobras, foi a mesma de sempre: os custos seriam suportados desproporcionalmente pelos que estão em baixo. O velho jogo da privatização de lucros e da socialização de prejuízos seria jogado de novo pela enésima vez. A população seria chamada a "apertar o cinto" para "pagar a factura" de todo o sistema. A capacidade de o público em geral ver para além desta fraude nos próximos meses e anos dependerá, claro, duma enorme quantidade de esclarecimento pelos sindicalistas e activistas dos movimentos sociais, e do grau com que o império do capital fique desnudado pela crise.

Não há dúvidas de que a actual bancarrota económica crescente e o escândalo político produziram uma rotura fundamental na continuidade do processo histórico. Como é que as forças progressistas vão abordar esta crise? Primeiro que tudo, é importante rejeitar quaisquer tentativas para apresentar os graves problemas económicos que agora enfrentamos como uma espécie de "desastre natural". Têm uma causa, e ela reside no próprio sistema. E embora a crise não tenha sido com certeza bem recebida pelos que estão no topo da economia, a verdade é que foram eles os principais beneficiários do sistema, enriquecendo descaradamente às custas do resto da população, e devem ser responsabilizados pelas pesadas cargas agora impostas à sociedade. São os ricos que devem pagar a factura – não só por razões de elementar justiça, mas também porque eles, colectivamente, e o seu sistema constituem a razão de as coisas estarem tão mal como estão; e porque a melhor forma de ajudar a economia e os que estão em baixo é tratar directamente das necessidades destes últimos. Não pode haver pára-quedas dourados para a classe capitalista pagos à custa dos contribuintes.

Mas o capitalismo tira partido da inércia social, usando o seu poder para roubar descaradamente quando não pode confiar apenas na exploração "normal". Sem uma revolta de baixo, a carga recairá pura e simplesmente sobre os que estão em baixo. Tudo isto requer um levantamento de massas, social e económico, tal como aconteceu na segunda metade dos anos 30, incluindo a revivificação dos sindicatos e dos movimentos sociais de massas de todos os tipos – utilizando o poder para a mudança garantido ao povo pela Constituição; indo mesmo ao ponto de ameaçar a actual bipolaridade do sistema de dois partidos.

Que irá tentar fazer nestas circunstâncias esse movimento radical a partir de baixo, se vier a surgir? Aqui hesitamos responder, não porque haja falta de acções necessárias a fazer, mas porque um movimento político radicalizado determinado a varrer décadas de exploração, desperdício e irracionalidade será, se surgir, como uma tempestade em fúria, abrindo novas perspectivas para a mudança. Qualquer coisa que se possa sugerir nesta altura corre o duplo risco de parecer demasiado radical agora e demasiado tímido no futuro.

Alguns economistas e comentadores liberais argumentam que, dada a presente crise económica, nada será eficaz sem um programa de importantes obras públicas destinado a promover o emprego, uma espécie de outro Novo Acordo. Robert Kuttner defendeu no Desafio de Obama que "uma recuperação económica exigirá mais do que 700 mil milhões de dólares por ano em novos gastos públicos, ou em compensação um corte de 600 mil milhões de dólares em despesas militares. Porquê? Porque não há mais nenhuma estratégia plausível para conseguir uma recuperação económica geral e para o reequilíbrio da economia". [46] Mas isto é mais difícil de fazer do que de dizer. Há razões para crer que os interesses económicos dominantes bloquearão o aumento dos gastos civis governamentais a uma escala destas, mesmo numa crise, por interferirem com o mercado privado. A verdade é que as compras civis do governo em 1939 se situavam em 13,3 por cento do PNB – o que Baran e Sweezy em 1966 teorizaram como estando a aproximar-se dos seus "limites máximos" – e desde então pouco mudaram, com o consumo civil do governo e as despesas de investimento desde 1960 até ao presente numa média de 13,7 por cento do PNB (13,8 por cento do PIB). [47] Portanto não se deve subestimar as forças de classe que podem bloquear um importante aumento nas despesas governamentais não militares, mesmo numa profunda estagnação. Quaisquer avanços nesta direcção exigirão uma forte luta de classes.

No entanto, não pode haver dúvidas de que a mudança deve ser dirigida primeiro e acima de tudo para a satisfação das necessidades básicas da população no que se refere à alimentação, à habitação, ao emprego, à saúde, à educação, a um ambiente sustentável, etc. Irá o governo assumir a responsabilidade de proporcionar trabalho útil a todos os que o desejarem e dele necessitarem? Irá haver habitação disponível (livre de hipotecas esmagadoras) para toda a gente, alargando-se também aos sem abrigo e aos que vivem em habitações degradadas? Irá ser instituído um sistema de saúde nacional para cobrir as necessidades de toda a população, substituindo o pior e mais caro sistema de saúde do mundo capitalista avançado? Irão as despesas militares ser reduzidas drasticamente, renunciando-se ao domínio imperialista global? Irão os ricos pagar pesados impostos e as receitas e riqueza ser redistribuídas? Irá o ambiente, quer global quer local, ser protegido? Irá o direito a organizar tornar-se uma realidade?

Se estes pré-requisitos elementares de qualquer futuro decente parecem impossíveis no actual sistema, então o povo deve tomar nas suas próprias mãos a criação de uma nova sociedade que proporcione estes bens genuínos. Acima de tudo é necessário "insistir em que tanto a moral como a economia apoiam o sentimento intuitivo das massas de que os recursos humanos e naturais da sociedade podem e devem ser usados em benefício de toda a gente e não apenas de uma minoria privilegiada". [48]

Nos anos 30 Keynes condenou o crescente domínio do capital financeiro, que ameaçava reduzir a economia real a "uma bolha num redemoinho de especulação", e recomendou a "eutanásia do senhorio". Mas a financiarização é tão essencial para o capital monopólio-finança de hoje, que tal "eutanásia do senhorio" não pode ser conseguida – contrariando o sonho de Keynes de um capitalismo mais racional – sem passar para além do próprio sistema. Neste sentido estamos nitidamente num ponto de viragem global, em que o mundo talvez esteja finalmente preparado para dar o passo, como Keynes também visionou, de repudiar e alienar o código moral de "o justo é ilegal e o ilegal é justo" – utilizado para justificar a ganância e a exploração necessários para a acumulação do capital – virando-o do avesso para criar uma ordem social mais racional. [49] Para tal, porém, é necessário que a população assuma o controlo da sua economia política, substituindo o actual sistema de capitalismo por algo que se assemelhe a uma real democracia política e económica; aquilo que os actuais dirigentes do mundo mais temem e condenam – como o "socialismo". [50]

Notas:

1. Harry Magdoff e Paul M. Sweezy, The Irreversible Crisis (New York: Monthly Review Press, 1988), 76.
2. James K. Galbraith, The Predator State (New York: The Free Press, 2008), 48.
3. "Congressional Leaders Were Stunned by Warnings," New York Times, September 19, 2008.
4. Manas Chakravarty e Mobis Philipose, "Liquidity Trap: Fear of Failure," Livemint.com, October 11, 2008; John Maynard Keynes, The General Theory of Employment, Interest and Money (London: Macmillan, 1973), 174.
5. "Drama Behind a $250 Billion Banking Deal," New York Times, October 15, 2008.
6. "Government's Leap into Banking Has its Perils," New York Times, October 18, 2008.
7. "Single-Family Homes in U.S. Fall to a 26-Year Low," Bloomberg.net, October 17, 2008; "Economic Fears Reignite Market Slump," Wall Street Journal, October 16, 2008.
8. Ver "Depression of 2008: Are We Heading Back to the 1930s," London Times, October 5, 2008. Sobre a estagnação japonesa, ver Paul Burkett e Martin Hart-Landsberg, "The Economic Crisis In Japan," Critical Asian Studies 35, no. 3 (2003): 339–72.
9. "The U.S. is Said to Be Urging New Mergers in Banking," New York Times, October 21, 2008.
10 "CDO Cuts Show $1 Trillion Corporate-Debt Bets Toxic," Bloomberg.net, October 22, 2008.
11. "Banks are Likely to Hold Tight to Bailout Money," New York Times, October 17, 2008.
12. Hyman Minsky, Can "It" Happen Again? (New York: M. E. Sharpe, 1982), vii–xxiv; "Hard Lessons to be Learnt from a Minsky Moment," Financial Times, September 18, 2008; Riccardo Bellofiore and Joseph Halevi, "A Minsky Moment?: The Subprime Crisis and the New Capitalism," in C. Gnos and L. P. Rochon, Credit, Money and Macroeconomic Policy: A Post-Keynesian Approach (Cheltenham: Edward Elgar, forthcoming). Para as opiniões de Magdoff e Sweezy sobre Minsky ver The End of Prosperity (New York: Monthly Review Press, 1977), 133–36.
13. Irving Fisher, "The Debt-Deflation Theory of Great Depressions," Econometrica, no. 4 (October 1933): 344; Paul Krugman, "The Power of De," New York Times, September 8, 2008.
14. "Amid Pressing Problems the Threat of Deflation Looms," Wall Street Journal, October 18, 2008; "A Monetary Malaise," Economist, October 11–17, 2008, 24.
15. Ben S. Bernanke, "Deflation: Making Sure 'It' Doesn't Happen Here," National Economists Club, Washington, D.C., November 21, 2002, http://www.federalreserve.gov .
16. Ethan S. Harris, Ben Bernanke's Fed (Boston, Massachusetts: Harvard University Press, 2008), 2, 173; Milton Friedman, The Optimum Quantity of Money and Other Essays (Chicago: Aldine Publishing, 1969), 4–14.
17. Ben S. Bernanke, Essays on the Great Depression (Princeton: Princeton University Press, 2000), 5; Milton Friedman and Anna Schwartz, A Monetary History of the United States, 1867–1960 (Princeton: Princeton University Press, 1963). Para opiniões mais realistas sobre a Grande Depressão, tendo em consideração a economia real, assim como factores monetários, e encarando-a sob a perspective da estagnação do investimento, que caracterizou sobretudo a Depressão, ver Michael A. Bernstein, The Great Depression (Cambridge: Cambridge University Press, 1987), e Richard B. DuBoff, Accumulation and Power (New York: M.E. Sharpe, 1989), 84–92. Sobre as teorias clássicas da Grande Depressão, ver William A. Stoneman, A History of the Economic Analysis of the Great Depression in America (New York: Garland Publishing, 1979).
18. Ben S. Bernanke, "Money, Gold, and the Great Depression," H. Parker Willis Lecture in Economic Policy, Washington and Lee University, Lexington, Virginia, March 2, 2004, http://www.federalreserve.gov.
19. Ben S. Bernanke, "Some Thoughts on Monetary Policy in Japan," Japan Society of Monetary Economics, Tokyo, May 31, 2003, http://www.federalreserve.gov.
20. Bernanke, Essays on the Great Depression, 43.
21. "On Milton Friedman's Ninetieth Birthday," Conferência de homenagem a Milton Friedman, Universidade de Chicago, 8 de Novembro de 2002. Ironicamente, Anna Schwartz, agora com 91 anos, indicou numa entrevista ao Wall Street Journal que o Fed sob a batuta de Bernanke estava a travar a última Guerra, esquecendo que o problema era a incerteza quanto à solvência dos bancos, e não um problema de liquidez como o que levou à Grande Depressão. "Bernanke is Fighting the Last War: Interview of Anna Schwartz," Wall Street Journal, October 18, 2008.
22. Ben S. Bernanke, "Asset Prices and Monetary Policy," discurso ao New York Chapter of the National Association for Business Economics, New York, N.Y., October 15, 2002, http://www.federalreserve.gov; Harris, Ben Bernanke's Fed, 147–58.
23. Ben S. Bernanke, "The Economic Outlook," October 25, 2005; citado em Robert Shiller, The Subprime Option (Princeton: Princeton University Press, 2008), 40.
24. Magdoff e Sweezy, The Irreversible Crisis, 76; Burkett and Hart-Landsberg, "The Economic Crisis in Japan," 347, 354–56, 36–66; Paul Krugman, "Its Baaack: Japan's Slump and the Return of the Liquidity Trap," Brookings Papers on Economic Activity, no. 2 (1998), 141–42, 174–78; Michael M. Hutchinson and Frank Westermann, eds., Japan's Great Stagnation (Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 2006).
25. Magdoff e Sweezy, The Irreversible Crisis, 51.
26. Magdoff e Sweezy, The End of Prosperity, 136; Hyman Minsky, John Maynard Keynes (New York, Columbia University Press, 1975), 164.
27. Citação de Greenspan, New York Times, October 9, 2008. Ver também John Bellamy Foster, Harry Magodff, e Robert W. McChesney, "The New Economy: Myth and Reality," Monthly Review 52, no. 11 (April 2001), 1–15.
28. Manas Chakravarty, "A Turning Point in the Global Economic System," Livemint.com, September 17, 2008.
29. Ver John Bellamy Foster, Naked Imperialism (New York: Monthly Review Press, 2006), 45–50.
30. Jim Reid, "A Trillion-Dollar Mean Reversion?" , Deutsche Bank, July 15, 2008.
31. Ver Paul A. Baran e Paul M. Sweezy, Monopoly Capital (New York: Monthly Review Press, 1966); Harry Magdoff e Paul M. Sweezy, The Dynamics of U.S. Capitalism (New York: Monthly Review Press, 1972), The Deepening Crisis of U.S. Capitalism (New York: Monthly Review Press, 1981), e Stagnation and the Financial Explosion (New York: Monthly Review Press, 1987).
32. Bellofiore e Halevi, "A Minsky Moment?"
33. Ver Michael Yates, Longer Hours, Fewer Jobs (New York: Monthly Review Press, 1994); Michael Perelman, The Confiscation of American Prosperity (New York: Palgrave Macmillan, 2007.
34. Economic Report of the President, 2008, Table B-47, 282.
35. Correspondents of the New York Times, Class Matters (New York: Times Books, 2005), 186; Edward N. Wolff, ed., International Perspectives on Household Wealth (Cheltenham: Edward Elgar, 2006), 112–15.
36. Para a discriminação por classes da dívida familiar, ver John Bellamy Foster, "The Household Debt Bubble," capítulo 1 em John Bellamy Foster e Fred Magdoff, The Great Financial Crisis: Causes and Consequences (New York: Monthly Review Press, 2009).
37. Ben S. Bernanke, "The Global Savings Glut and the U.S. Current Account Deficit," Sandridge Lecture, Virginia Association of Economics, Richmond Virginia, March 10, 2005, http://www.federalreserve.gov .
38. Steingrímur J. Stigfússon, "On the Financial Crisis of Iceland," MRzine.org, October 20, 2008; "Iceland in a Precarious Position," New York Times, October 8, 2008; "Iceland Scrambles for Cash," Wall Street Journal, October 6, 2008.
39. Ver Edward J. Nell, Growth, Profits and Prosperity (Cambridge: Cambridge University Press, 1980), 19–28.
40. Karl Marx, Capital, vol. 1 (New York: Vintage, 1976), 96–98.
41. Ver Crawford B. Macpherson, Democratic Theory (Oxford: Oxford University Press, 1973), 195–203.
42. Friedman e Schwartz, A Monetary History of the United States, 419.
43. Harris, Ben Bernanke's Fed, 147–58.
44. Ver John Bellamy Foster, Hannah Holleman, e Robert W. McChesney, "The U.S. Imperial Triangle and Military Spending," Monthly Review 60, no. 5 (October 2008): 1–19.
45. Para a discussão da estagnação da economia desde os anos 70, ver Perelman, The Confiscation of American Prosperity. Ver também E. Ray Canterbery, A Brief History of Economics (River Edge, NJ: World Scientific Publishing, 2001), 417–26.
46. Robert Kuttner, Obama's Challenge (White River Junction, Vermont: Chelsea Green, 2008), 27.
47. Baran e Sweezy, Monopoly Capital, 159, 161; Economic Report of the President, 2008, 224, 250.
48. Harry Magdoff e Paul M. Sweezy, "The Crisis and the Responsibility of the Left," Monthly Review 39, no. 2 (June 1987): 1–5.
49. Ver Keynes, The General Theory of Employment, Interest, and Money, 376, e Essays in Persuasion (New York: Harcourt Brace and Co., 1932), 372; Paul M. Sweezy, "The Triumph of Financial Capital," Monthly Review 46, no. 2 (June 1994): 1–11; John Bellamy Foster, "The End of Rational Capitalism," Monthly Review 56, no. 10 (March 2005): 1–13.
50. Sobre este aspecto, é necessário, pensamos, ir mais além da economia liberal, e tentar uma crítica impiedosa de tudo o que existe. Mesmo um economista liberal relativamente progressista, como Paul Krugman, recentemente galardoado com o prémio de economia do Banco da Suécia em honra de Alfred Nobel, torna claro que o que o torna num pensador predominante, e daí ser membro do clube no topo da sociedade, é o seu profundo compromisso com o capitalismo e os "mercados livres" e o seu desdém pelo socialismo – proclamando altivamente que "há bem poucos anos… uma revista chegou mesmo a dedicar-me um ataque numa notícia de capa por causa das minhas opiniões pró-capitalistas". Paul Krugman, The Great Unraveling (New York: W. W. Norton, 2004), xxxvi. Neste contexto, ver Harry Magdoff, John Bellamy Foster, e Robert W. McChesney, "A Prizefighter for Capitalism: Paul Krugman vs. the Quebec Protestors," Monthly Review 53, no. 2 (June 2001): 1–5.

John Bellamy Foster é editor da Monthly Review e professor de sociologia na Universidade de Oregon. É o autor de Naked Imperialism (Monthly Review Press, 2006), entre muitas outras obras. Fred Magdoff é professor emérito de ciências das plantas e do solo na Universidade de Vermont em Burlington, professor adjunto de cereais e solos na Universidade Cornell, e director da Fundação Monthly Review. Este artigo é o capítulo final do livro de John Bellamy Foster e Fred Magdoff, The Great Financial Crisis: Causes and Consequences (Monthly Review Press, Janeiro de 2009).

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