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3 de julho de 2020

Não, estudar Marx não é elitista

Ler teoria marxista não é só para acadêmicos de alto nível — pergunte aos milhões de trabalhadores cujo entendimento sobre seu papel na mudança do mundo foi transformada por meio do estudo e da prática.

Jeremy Gong

Jacobin

Não tenha medo deste homem. Este homem é seu amigo. jmaxgerlach / Flickr

Tradução
/ Quando comecei a me envolver no recém-renascido movimento socialista dos EUA, estava inspirado a ler. Teoria marxista, história do trabalhismo e movimentos sociais, visões gerais de partidos da classe trabalhadora de todo o mundo — eu sabia que havia uma quantidade incrível de conhecimento parado nas estantes de livros de que eu e meus camaradas poderíamos usufruir para nos tornarmos melhores organizadores. Porém, logo encontrei um problema: anos de redes sociais, TV, memes, grupos de bate-papos e videogames haviam derretido meu cérebro, tornando a leitura sustentada um desafio hercúleo.

Por isso, consigo compreender a alegação que escuto ocasionalmente entre ativistas de esquerda: que, embora a organização e a ação sejam essenciais para os socialistas, e uma comunicação política eficaz como a criação de memes também seja importante, esperar que esses ativistas estudem teoria marxista é, de certa forma, elitista. No entanto, essa visão seria desconcertante para milhões de trabalhadores e pessoas pobres em todo o mundo que desde o final do século XIX têm encontrado inspiração e orientação no marxismo enquanto constroem movimentos maciços de transformação social.

De fato, no auge dos movimentos socialistas de massa que aconteceram na Europa no final do século XIX e início do século XX, teóricos marxistas trabalharam em estreita colaboração com inúmeros operários para distribuir literatura radical. Essa era considerada pelos teóricos como uma das principais tarefas em seus movimentos. A crença no poder da leitura e da educação diferenciava os marxistas — não por elitismo, mas por acreditarem nas capacidades intelectuais, organizacionais e políticas das massas trabalhadoras. A leitura dizia respeito ao auto-empoderamento dos trabalhadores, e não à sua subjugação.

O arco-íris revolucionário da leitura

Em seu livro Velhos deuses, novos enigmas, Mike Davis explica que "a leitura 'provocou insurreições nas mentes dos trabalhadores.'... O rápido crescimento da mídia trabalhista e socialista no último quarto de século alimentou uma visão política mundial cada vez mais sofisticada." As massas supostamente sem instrução não apenas podiam ler, como também puseram a teoria na prática para expandir sua liberdade: em muitos países europeus, foram os trabalhadores socialistas do século XIX, e não os liberais burgueses, que lutaram e morreram por direitos democráticos "burgueses" como eleições livres e liberdade de associação.

Os radicais lutaram especialmente pela liberdade de imprensa, pois o compartilhamento de ideias era essencial para a construção de movimentos por igualdade política e social da classe trabalhadora. De acordo com Davis, "o surgimento de partidos socialistas de massa no final do século XIX teria sido inimaginável sem o crescimento dramático da imprensa operária (noventa jornais diários socialistas só na Alemanha!) e a contra-narrativa da história contemporânea apresentada por ela."

Obviamente, nem todo mundo leu o Capital de Marx. Grande parte da literatura a que Davis se refere era jornais e panfletos de formato mais curto. Mas isso não significava que os trabalhadores não pudessem ser expostos e lidar com ideias marxistas.

Tomemos como exemplo a marxista russa Vera Zasulich, cuja explicação sobre a importância da criação de literatura teoricamente sofisticada para ativistas operários é citada por Lars Lih no livro Lenin Rediscovered: "Nem todo mundo no meio operário lê livros, panfletos, jornais, mas os conceitos [ali contidos], assimilados pelos camaradas que os lêem, entram gradualmente também na cabeça dos não leitores."

É por isso que os ativistas marxistas na Rússia da virada do século XIX para o XX insistiram que não havia necessidade de emburrecer ou ocultar ideias socialistas para os trabalhadores. Pelo contrário, os marxistas sabiam de sua responsabilidade no envolvimento dos trabalhadores em debates estratégicos amplos e no desenvolvimento de análises políticas abrangentes, não limitadas às questões fabris ou econômicas mais próximas.

Fazendo referência a relatos da frustração dos trabalhadores com a literatura apolítica e simplista, Lênin escreveu em 1902 que os trabalhadores "querem saber tudo o que os outros sabem, [querem] aprender os detalhes de todos os aspectos da vida política e participar ativamente em cada evento político".

Em resposta à proposta de outro socialista de uma “literatura para trabalhadores” separada e vulgarizada, Lênin argumentou, parafraseado por Lih, que “essas tentativas de criar jornais ‘operários’ perpetuam a divisão absurda entre um movimento de trabalhadores e um movimento [de intelligentsia] (uma divisão criada pela miopia de certos [intelectuais socialistas]).”

Essa divisão implicaria que, conforme os trabalhadores se envolvessem na revolução socialista, deveriam ser manipulados e incentivados por intelectuais letrados, sendo usados tal qual um aríete para derrubar a antiga ordem e abrir caminho para uma utopia nascida a partir das cabeças da intelligentsia. Essa visão instrumental da agência da classe trabalhadora vai diretamente contra um princípio fundamental da política marxista: “a emancipação das classes trabalhadoras deve ser conquistada pelas próprias classes trabalhadoras”.

Isso não significa que os livros por si só tenham sido suficientes para que as massas de trabalhadores desenvolvessem sua capacidade de auto-emancipação, longe disso. No entanto, a literatura marxista e a agitação eram vistas como um ingrediente necessário para os trabalhadores extraírem as lições certas das experiências inebriantes da política prática.

O casamento relâmpago da teoria com a prática

A conversão de Zasulich à estratégia marxista é reveladora. Na geração anterior, ela havia aderido a uma estratégia diferente: o terrorismo individual. Em 1878, Zasulich partiu para a ação e atirou no general Trepov, um agente notoriamente abusivo da autocracia czarista russa. Incrivelmente, Zasulich foi absolvida por um júri compreensivo após ter usado seu julgamento para chamar a atenção para os abusos de Trepov e do governo.

Entretanto, esses assassinatos de grande visibilidade realizados por pequenos grupos de intelectuais radicais não atingiram resultados revolucionários. No exílio na Suíça, Zasulich teve contato com marxistas que, inspirados pelos primeiros sucessos do movimento socialista alemão, denunciavam o terrorismo e defendiam uma estratégia de política operária de massa.

Com base na atividade secreta de uns poucos eruditos, argumentavam os marxistas, o terrorismo era elitista e ineficaz. Zasulich foi convencida a acreditar que a atividade operária de massa, informada pela teoria marxista, seria a fonte de sua própria libertação. Convertida, Zasulich co-fundou a primeira organização marxista russa e começou a trabalhar na tradução das obras de Marx para o russo.

O jovem Lênin se juntou a Zasulich na década de 1890. Contudo, dada a repressão czarista, os marxistas russos enfrentaram uma dificuldade incrível para espalhar a boa nova à classe trabalhadora. Davis escreve que é por isso que “a imprensa clandestina desempenhou uma função ainda mais importante [na Rússia], com jornais passados de mão em mão ou lidos em voz alta quando não havia nenhum capataz ou espião por perto”.

A construção de um sistema de imprensa clandestina eficaz e interconectado nacionalmente, como predecessor de um partido marxista russo unido, é o foco do famoso livro de Lênin de 1902, O Que Fazer?. Para tornar esse sonho realidade, os ativistas corriam risco de prisão, de exílio siberiano ou até de morte transportando livros e jornais impressos no exterior para dentro do país até chegarem nas mãos e cabeças dos trabalhadores russos.

Longe de ser elitista, isso era pragmático. Sem acesso à cobertura de greves e protestos, bem como a debates marxistas internacionais sobre estratégia e tática, ativistas-operários seriam condenados a políticas regionalistas, estratégias ineficazes e provavelmente sucumbiriam à pressão das ideias enormemente mais prevalecentes das instituições políticas e culturais do governo ou dos reformadores da burguesia liberal.

As ideias marxistas se espalharam por toda parte e informaram a prática socialista. Em seu famoso livro Martelo e enxada: Comunistas no Alabama duriante a Grande Depressão, Robin D.G. Kelley, Robin D.G. Kelley descreve uma conversa com Lemon Johnson, um dos líderes negros de um sindicato de redeiros do Alabama liderado pelo Partido Comunista Americano. Quando Kelley perguntou como conseguiram conquistar algumas de suas demandas em uma greve de catadores de algodão de 1935, Johnson "mostrou uma cópia surrada de O Que Fazer? de Lênin e uma caixa de cartuchos de escopeta" e disse: "Foi assim que fizemos. Teoria e prática."

Para todos os que se preocupam com o "elitismo" que seria ler a teoria marxista, acho que Lemon Johnson e Vera Zasulich, se ainda estivessem vivos, responderiam: você é tão arrogante que pensa que decifrou sozinho as complexidades do mundo capitalista e as estratégias adequadas para transformar tudo? E então, por serem organizadores que levavam a sério a comunicação eficaz das ideias socialistas, provavelmente tentariam transformar essa ideia em meme.

Colaborador

Jeremy Gong é membro do partido Socialistas Democráticos da América na Baía Leste da Califórnia.

20 de março de 2020

Podemos parar o lucro pandêmico

Se pretendemos evitar o pior cenário do COVID-19 e evitar o sofrimento humano inimaginável, temos que combater - e até nacionalizar - as empresas que estão tentando lucrar com essa crise às custas de todos os outros.

Jeremy Gong

Jacobin
Um entregador ciclista do Uber Eats usa máscara facial como precaução contra a transmissão do coronavírus no parque Madrid Rio em 14 de março de 2020 em Madri, Espanha. Pablo Cuadra / Getty.

Tradução / Sob circunstâncias normais, os socialistas defendem a luta dos trabalhadores contra os capitalistas. Isso continua sendo verdade durante essa pandemia — e é a nossa única esperança. Para que nossa sociedade vença a guerra contra o COVID-19, os trabalhadores precisam continuar lutando contra patrões e proprietários.

Os cientistas estão alertando que, além de ser inimaginavelmente mortal e desestabilizadora, esta crise pode durar dezoito meses ou mais. Enquanto nossa sociedade adota medidas de “distanciamento social” que salvam vidas, mas que pode acarretar em dezenas de milhões de desempregados, algumas empresas “não essenciais” ainda insistem em continuar operando para continuar lucrando. E empresas de setores “essenciais”, como assistência médica e logística, começam a lucrar enormemente com a crise. Em nome do lucro, as empresas estão colocando seus trabalhadores e toda a nossa sociedade em risco por não ajudarem a retardar a propagação e a “achatar a curva” do coronavírus.

No dia 20 de março o Intercept revelou que os investidores estão esperando que empresas de assistência médica aumentem os preços de produtos essenciais, como máscaras N95 e produtos farmacêuticos experimentais. A montadora estadunidense Tesla, do bilionário destruidor de sindicatos Elon Musk, travou uma batalha perdida contra a ordem de fechamento de negócios “não essenciais”, com o objetivo de manter a produção em sua fábrica de dez mil funcionários na cidade de Fremont. As empresas farmacêuticas, com a ajuda de Joe Biden, esperam que uma eventual vacina contra o COVID-19 seja muito lucrativa, em vez de universalmente acessível ou gratuita.

Ao menos três senadores republicanos e a senadora democrata Dianne Feinstein foram pegos comprando milhões de dólares em ações, antes que o público percebesse a seriedade da pandemia e que as bolsas de valores caíssem — e após terem acesso a informações confidenciais graças às suas posições nas comissões do Senado. A Amazon está sendo incapaz de proteger seus trabalhadores, o que significa que funcionários de depósito e motoristas de entrega, já mal pagos e sobrecarregados, correm o risco de contrair e espalhar o vírus para manter a operação de nossas cadeias logísticas de suprimentos — tudo para o megabilionário Jeff Bezos manter suas altas margens de lucro.

Como se tudo isso não bastasse, o complexo e balcanizado sistema de seguros de saúde, majoritariamente com fins lucrativos e que deixa dezenas de milhões de pessoas sem assistência médica (número que provavelmente aumentará à medida que o desemprego dispara) acarretará em grandes e contínuos lucros para as seguradoras e muito mais mortes, miséria e pobreza para o resto da população.

Esse tipo de lucro às custas da crise não é apenas superficialmente imoral: ele vai piorar a crise e provocar milhares ou até milhões de mortes a mais. Lucros são efetivamente recursos, desviados para as contas bancárias dos investidores, que poderiam estar sendo destinados à desaceleração da pandemia, ao aumento de capacidade de assistência à saúde e o bem-estar social em geral, como moradia e alimentação. A motivação de lucro, não o bem social, é o que orientará decisões e dinâmicas mais amplas à medida que as empresas produzem e prestam serviços no interesse de ganhos privados.

O lucro é a razão pela qual as empresas “não essenciais” ainda estão operando contra as recomendações do governo, colocando em risco seus trabalhadores e toda a sociedade. E como os lucros advêm de preços elevados, produtos de menor qualidade, salários mais baixos e piores condições de trabalho, isso tornará a vida dos trabalhadores em setores essenciais pior e mais insegura, além de dificultar a obtenção de bens essenciais por pacientes, hospitais e municípios.

Tal qual socialistas e trabalhadores fizeram se opondo ao lucro ao Segunda Guerra Mundial, devemos fazer tudo que estiver ao nosso alcance para nos opor ao lucro pandêmico.

Nenhuma empresa deveria obter lucros exorbitantes ao fornecer assistência médica em qualquer momento, mas especialmente agora. O mesmo se aplica a qualquer outro “serviço essencial”, da venda de alimentos à entrega de encomendas. Os trabalhadores que precisam trabalhar devem ser protegidos, compensados e apoiados o máximo possível. E qualquer empresa que possa paralisar suas operações para diminuir a velocidade do vírus deve fazê-lo imediatamente, independente do quanto impacte seus lucros.

Para combater o fascismo durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhadores e capitalistas, nos Estados Unidos e em outros países, se uniram em uma aliança desconfortável. O governo estadunidense praticamente estatizou as principais indústrias a fim de redirecionar a produção para o esforço de guerra, infraestrutura subsidiada e projetos de assistência social, instituindo controles de preços e salários. Mas os empregadores ainda abusavam e exploravam os trabalhadores para maximizar lucros.

No final de 1943, segundo o historiador Art Preis em Labor’s Giant Step, os lucros corporativos foram os mais altos da história estadunidense até então, massivamente subsidiados pelos contribuintes do país como parte do esforço de guerra. Mas, embora a maioria dos sindicatos tenha apoiado o presidente Franklin D. Roosevelt para fazer cumprir os acordos de “não-greve” da época da guerra, os trabalhadores reagiram, realizando milhares de greves ilegais e majoritariamente selvagens, resistindo aos baixos salários e condições e ritmo de trabalho desumanos.

Para combater efetivamente a pandemia de COVID-19, o lucro pandêmico deve ser estritamente restringido por controles governamentais — e quando necessário, pela ação dos trabalhadores.

Os trabalhadores devem fazer greve ou se organizar de maneiras compatíveis com suas indústrias, e devemos exigir que o governo estatize indústrias e empresas conforme necessário. A estatização, com transparência e supervisão democrática, garantirá o cumprimento do distanciamento social e das folgas remuneradas, eliminará os lucros desnecessários com a resposta à crise e garantirá que tenhamos a máxima coordenação e eficiência para vencer a guerra contra o vírus.

Ninguém que perdeu sua remuneração ou seu emprego deveria pagar por serviços de saúde, habitação ou comida — isso é atroz e pode forçar essas pessoas a saírem à rua e se submeterem a empregos inseguros, agravando a disseminação do COVID-19. E, mesmo após a crise, bens básicos como esses deveriam ser direitos sociais garantidos para todos, independentemente da situação empregatícia, e não mercadorias para fins privados.

Felizmente, já podemos ver trabalhadores reagindo em diversos locais de trabalho. Em Nova Iorque e Chicago, a ameaça de greve dos professores fechou as escolas. As greves selvagens dos operários da indústria automobilística ajudaram a convencer as Três Grandes montadoras (General Motors, Ford Motor e Fiat Chrysler) dos EUA a suspender a produção. E a National Nurses United [Enfermeiros Nacionais Unidos] está lutando pela segurança total e alocação de pessoal para os profissionais da saúde e pelo redirecionamento da indústria privada para produção de suprimentos médicos. (Eles conquistaram a última demanda segundo pronunciamento de Donald Trump dia 18 de março.)

Na Europa, os trabalhadores também estão reagindo, de funcionários dos correios em Londres a operários da indústria automobilística na Itália. Sindicatos fortes e a militância dos trabalhadores resultaram em respostas significativas de alguns governos, inclusive na Dinamarca e no Reino Unido, onde trabalhadores impedidos de trabalhar receberão folga remunerada, subsidiada principalmente pelo governo. O governo espanhol já impôs o comando estatal sobre hospitais privados. Esses governos estão reformulando suas economias da noite para o dia para deter a pandemia de uma maneira muito mais imediata e humana do que a abordagem obcecada pelo lucro do livre mercado.

Por fim, a maneira mais eficiente e humana de resolver essa crise e impedir a próxima seria decidir que serviços de saúde, alimentação e moradia são direitos humanos básicos, não mais sujeitos aos caprichos do mercado ou a quem quiser obter lucro. Além disso, devemos reivindicar o controle público e democrático sobre a indústria, assistência médica, pesquisa farmacêutica, produção e distribuição de alimentos e logística. Em outras palavras, quanto mais nos aproximarmos do socialismo democrático, mais segura e humana a nossa sociedade será.

Porém, sob o capitalismo, os empregadores ainda tentarão lucrar com essa crise — e depende dos trabalhadores combater os lucros pandêmicos e salvar o mundo.

Sobre o autor
Jeremy Gong é membro do partido Socialistas Democráticos da América na Baía Leste da Califórnia.

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