22 de junho de 2020

A segunda teoria de Engels: Tecnologia, guerra e o crescimento do Estado

O autor de "Buying Time" identifica um complemento político-estatal à teoria social marxista nas análises de Engels sobre o militarismo do século XIX. A interação entre os modos de produção e destruição, a luta de classes e a guerra internacional, da Crimeia à Guerra ao Terror.

Wolfgang Streeck


NLR 123 • May/June 2020

Friedrich Engels passou a sua vida profissional à sombra de Karl Marx, uma posição que agora ocupa para a posteridade e na qual se colocou de livre e espontânea vontade.<sup>1</sup> Nascido em 1820 na cidade de Barmen, na Renânia, abandonou os estudos um ano antes de concluir o ensino secundário, por recomendação do pai, e, como filho mais velho, ingressou nos negócios da família. Autodidata, portanto, o seu encontro com Marx deixou-o profundamente impressionado com o brilhantismo sistemático-filosófico do jovem hegeliano, a quem saudou como um pensador mundial. Em comparação, ele próprio não passava, talvez, de um talento. Entre as classes filosóficas alemãs da época, o tipo de pensamento especulativo em que Marx se destacava era considerado a forma mais elevada de empreendimento científico; Engels, que partilhava dessa perspetiva, pode ter considerado a sua própria contribuição, alicerçada no positivismo, como banal em comparação. Na colaboração com Marx, ele entendia seu papel como editor, leitor, publicador, tradutor, divulgador e, portanto, também popularizador da teoria marxista (não marxista-engelsiana), tornando-a compreensível para o movimento socialista para o qual foi concebida. Que o ato de tradução resultasse, por vezes, em simplificações e formulações redutivas não era apenas inevitável, mas desejável, embora o preço a pagar por isso fosse a suspeita, ainda persistente, de que Engels era incapaz de maior complexidade.

No entanto, Engels teve realizações verdadeiramente notáveis ​​em seu nome — e não apesar, mas precisamente porque seu temperamento o inclinava para o mundo real, para as realidades em vez das abstrações. Paralelamente às suas extraordinárias e abrangentes atividades científicas, literárias, jornalísticas e políticas, Engels se tornaria um empresário industrial de sucesso com muitos anos de experiência. Isso não apenas lhe permitiu financiar o lento progresso da produção teórica de Marx, como também lhe proporcionou uma compreensão do capitalismo a partir de dentro, incomum entre seus oponentes. À sua maneira, Engels se sentia mais à vontade no mundo do que Marx, o economista político-filósofo — o que ajuda a explicar como ele pôde emergir, ainda muito jovem, como um dos primeiros sociólogos empíricos. Veja-se, por exemplo, "A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra", com o subtítulo "Segundo Minhas Próprias Opiniões e Fontes Autênticas", escrito durante a estadia de dois anos de Engels em Manchester, como aprendiz de 24 anos na filial local da fábrica têxtil de sua família. Marx, a quem Engels procurara em Colônia em 1842 a caminho da Inglaterra, ficou profundamente impressionado com o livro e declarou que Engels havia chegado à mesma conclusão que ele, mas por um caminho diferente — ou seja, o da pesquisa empírica.

Assim começou uma amizade para toda a vida e um esforço conjunto, que mais tarde produziu, entre outras coisas, o Manifesto Comunista de 1848, um marco na história da teoria sociocientífica e repleto de traços textuais do livro de Engels, assim como o primeiro volume de O Capital, publicado duas décadas depois. O que poderíamos chamar de mundanismo do pensamento e da pesquisa de Engels, sua experiência e seu modo de vida, também se manifesta em sua produção intelectual praticamente enciclopédica, impulsionada por uma fome de fatos que buscava constantemente novos temas, devorando bibliotecas inteiras em sua busca pelos últimos desenvolvimentos do conhecimento. Como pesquisador independente, ele investigou a evolução da humanidade, a antropologia histórica do trabalho, as origens da família, o cristianismo primitivo e a história alemã, em particular as Guerras Camponesas, além de abordar as ciências naturais emergentes em sua Dialética da Natureza. Embora Marx pudesse demonstrar uma veia misantrópica, para dizer o mínimo, o acesso imediato de Engels ao mundo foi, sem dúvida, uma das razões pelas quais ele foi o mais politicamente ativo dos dois. Na maior parte do tempo, foi ele quem manteve contato com os movimentos socialistas internacionais da época; certamente ajudou o fato de ele aparentemente falar doze idiomas fluentemente e se virar em mais vinte.

Suplemento teórico

Não tenho a menor qualificação para resumir a totalidade da produção acadêmica de Engels. Com ele, como com outros grandes pensadores, podemos retornar à sua obra repetidas vezes e sempre descobrir algo novo. Como macrossociólogo, com interesse nas forças motrizes que moldam o desenvolvimento das complexas sociedades contemporâneas, impressiona-me a extensão em que Engels complementou a concepção materialista da história, elaborada (com sua ajuda) por Marx como uma crítica à economia política do século XIX, com algo semelhante a uma teoria do Estado e da política. Embora o próprio Engels entendesse sua contribuição como um mero suplemento à teoria do materialismo histórico de Marx, argumentarei que Engels pode ser considerado o fundador de um ramo independente da teoria social materialista, que contribuiu com uma compreensão ampliada e muito necessária da política e do Estado.

O que quero dizer com “algo como uma teoria”? Em primeiro lugar, no que diz respeito ao “panorama geral”, Engels sempre se baseou no abrangente sistema de pensamento de Marx — em parte porque confiava em Marx para o seu desenvolvimento, mas também, talvez, devido ao seu temperamento como pesquisador, que se expressava numa sede insaciável e pré-sistemática por fatos; fatos que se mostravam cada vez mais resistentes à sistematização quanto mais ele absorvia. Entre os temas que atraíram a atenção constante de Engels estava o desenvolvimento das forças armadas e as guerras que acompanharam a ascensão simultânea do capitalismo e do Estado-nação moderno.<sup>2</sup> A ligação entre a guerra e a militarização com a economia política da época, e com a sua futura derrubada revolucionária, estava longe de ser clara, em parte devido aos elementos de imprevisibilidade já enfatizados por Clausewitz — as contingências e os efeitos da “autonomia relativa” gerados pela névoa da guerra; o papel das armas como, por assim dizer, geradoras de acidentes históricos. Engels se preparou para se tornar um dos principais teóricos militares da época, uma peculiaridade que lhe rendeu o apelido de "o General". Mais tarde, ele seria considerado uma grande autoridade nesses assuntos, não apenas para estrategistas militares socialistas como Lenin, Trotsky e Mao Tsé-Tung; mais tarde ainda, um constrangimento para os socialistas do pós-guerra que se tornaram pacifistas e se recusavam a reconhecer o papel estratégico da força na política. Sua contribuição nesse campo se deveu, em parte, a mim, a uma afinidade particular entre a natureza da guerra moderna no contexto do desenvolvimento capitalista e a disposição de Engels para a observação não dogmática, o que lhe permitiu lançar as bases, pelo menos, para um suplemento teórico-estatal muito necessário à economia política desenvolvida por Marx e por ele próprio.

Não era que Marx fosse desinteressado pelas guerras de sua época. Para ele também, como afirma uma passagem fundamental de O Capital, “a força é a parteira de toda sociedade antiga prenhe de uma nova”.³ Pelo menos até a década de 1880, tanto Marx quanto Engels esperavam presenciar o fim do capitalismo em suas próprias vidas, imaginando que as transições pacíficas seriam a exceção. Onde Engels levava vantagem sobre Marx era em sua experiência prática, como voluntário na Artilharia Prussiana em Berlim, entre 1841 e 1842, como participante da revolta de Elberfeld em 1849 pela adoção da Constituição de Frankfurt e na rebelião antiprussiana do Exército de Baden-Palatinado e da Volkswehr de Baden, rapidamente reprimida — uma dolorosa derrota que o acompanhou pelo resto da vida. Marx, sem dúvida, compreendeu a importância dessa prática em assuntos militares e incentivou Engels a escrever um capítulo sobre história militar no primeiro volume de O Capital. Engels concordou, mas, de forma atípica, nunca cumpriu sua promessa — um indício, talvez, de que seu material empírico resistia à subsunção pelo sistema de fetichismo da mercadoria da economia política de Marx.

Isso não se devia ao fato de a “concepção materialista da história” ser economicamente determinista e, portanto, apolítica, como alguns poderiam afirmar hoje. É verdade que todas as grandes teorias sociocientíficas do século XIX inclinavam-se para formulações deterministas, até mesmo teleológicas, ainda que apenas porque almejavam ser equiparadas às ciências naturais em ascensão. Na medida em que essas tendências podiam ser encontradas na obra de Marx e Engels — e ambos acreditavam que o caminho da história conduzia, em última instância, ao socialismo — eles estavam em boa companhia. Por outro lado, eles se diferenciavam de seus contemporâneos por não serem apenas teóricos da sociedade capitalista, mas também praticantes da revolução proletária organizada; como tal, precisavam empregar a retórica da confiança na vitória final, indispensável a um movimento político, mas nem sempre conciliável com a teoria. Lembremos também que ambos dedicaram muito tempo à fundação de organizações internacionais de trabalhadores e ao aconselhamento de organizações nacionais, interrompendo repetidamente seus trabalhos acadêmicos para tanto. Se a teoria deles tivesse se resumido à afirmação de que o progresso rumo ao socialismo ocorreria por si só, eles poderiam ter poupado o esforço. De fato, grande parte da atenção deles a partir de 1849 se concentrou em eventos políticos e militares, resultando em inúmeras análises jornalísticas e teóricas. Quando se levam em conta estudos como "O Dezoito Brumário", "A Guerra Civil na França" e a longa série de artigos de jornal sobre a Guerra da Crimeia e a Guerra Civil Americana, fica claro que o materialismo histórico concede à agência histórica um lugar muito maior e mais sistematicamente proeminente do que a maioria das ciências sociais acadêmicas, daquela época ou posteriores.

Não é surpresa que Marx e Engels tenham dedicado tanta reflexão aos conflitos de sua época. Como revolucionários, as lições que as guerras interestatais do presente poderiam trazer para as futuras lutas de classes e para a derrubada do capitalismo eram de vital importância para eles. A experiência de 1849 havia curado Engels de qualquer crença em rebeliões improvisadas; aqueles que lutavam pelo comunismo precisavam ser iguais aos seus oponentes estatais e de classe em termos de armamento e disciplina. Para esclarecer o que isso significava, ele se propôs a compreender precisamente como os desenvolvimentos capitalistas-industriais estavam relacionados ao rápido progresso contínuo da tecnologia militar. Entre 1861 e 1865, Marx e Engels acompanharam cada reviravolta da Guerra Civil Americana, que identificaram corretamente como a primeira guerra moderna. Já em março de 1862, eles catalogaram suas novidades em um de seus artigos conjuntos:

De qualquer ponto de vista, a Guerra Civil Americana apresenta um espetáculo sem paralelo nos anais da história militar. A vasta extensão do território disputado; A vasta frente de batalha; a força numérica dos exércitos inimigos, cuja criação praticamente não contou com o apoio de uma base organizacional prévia; os custos exorbitantes desses exércitos; a maneira de liderá-los e os princípios táticos e estratégicos gerais segundo os quais a guerra é travada, tudo isso é novidade aos olhos do observador europeu.4

Ao final da Guerra Civil, quase 700.000 pessoas jaziam mortas nos campos de batalha ou nos campos de prisioneiros. Seis anos depois, entre março e maio de 1871, Marx e Engels observaram a ascensão e queda da Comuna de Paris: a rebelião de uma parcela da população parisiense contra a ocupação prussiana e o próprio governo, após a derrota deste na Guerra Franco-Prussiana de 1870-71. Na repressão da Comuna e nas execuções em massa que se seguiram, cerca de 30.000 pessoas perderam a vida; as forças governamentais contabilizaram 900 mortos.5

Para Marx e Engels, então, era claro que o caminho para o socialismo envolveria o uso coletivo da força. Mas onde se encaixava a luta de classes entre operários e capital em um mundo de exércitos profissionalizados, equipados como os dos unionistas e confederados, ou com o crescente poder da Prússia — sem mencionar os exércitos do futuro? Marx e Engels parecem ter testado diferentes soluções para esse enigma estratégico. Às vezes, apoiavam o Estado capitalista que parecia mais avançado de uma perspectiva histórico-mundial. Por um tempo, esse Estado foi a Alemanha em relação à França, pelo menos sob o Segundo Império de Luís Napoleão; e a Rússia czarista era sempre a terra dos "modos de produção asiáticos", o baluarte da reação contra o qual o progresso alemão deveria ser defendido, se necessário. Eles também experimentaram prognósticos reducionistas: a força militar de um Estado dependia de seu nível de desenvolvimento industrial; portanto, Estados progressistas com sociedades propícias ao socialismo derrotariam os menos desenvolvidos.

Um modo capitalista de destruição?

Gradualmente, porém, e especialmente após a morte de Marx, prevaleceu uma abordagem mais matizada, baseada na observação de Engels sobre dois desenvolvimentos: primeiro, o fortalecimento dos Estados em relação às suas sociedades, por meio da posse monopolista dos meios modernos de extermínio; e segundo, a dinâmica interna do avanço militar-tecnológico, que resultou na formação de um modo social de extermínio distinto do modo social de produção, com sua própria dinâmica de desenvolvimento complementando a do capitalismo. Juntos, esses dois desenvolvimentos fornecem uma explicação para o que chamarei de hipertrofia do Estado moderno no século XX. Aqui, argumentarei, Engels esboçou algo que não era apenas “como uma teoria”, mas que de fato constituiu o início de uma teoria complementar do desenvolvimento social, análoga e paralela à teoria econômica de Marx; em conjunto, elas fornecem uma teoria histórico-materialista mais realista da sociedade capitalista.

Comecemos pelo aspecto tecnológico. A crítica ao alegado determinismo do materialismo histórico apresenta-se em duas vertentes: tecnológica e econômica. O exemplo clássico da vertente tecnológica é uma passagem famosa de A Miséria da Filosofia:

As relações sociais estão intimamente ligadas às forças produtivas. Ao adquirirem novas forças produtivas, os homens alteram seu modo de produção; e ao alterarem seu modo de produção, ao alterarem a forma de ganhar a vida, alteram todas as suas relações sociais. O moinho manual gera a convivência com o senhor feudal; a fábrica a vapor, a convivência com o capitalista industrial.6

Este trecho não foi escrito por Engels, mas pelo próprio Marx, já em 1847. “Intimamente ligadas a” (eng verknüpft mit) não significa “determinadas por”, mesmo que a frase final, metaforicamente exagerada e frequentemente retirada de seu contexto, tenha um tom determinista. A própria afirmação, porém, de que o progresso tecnológico na fábrica vulgar-utilitária — observável diariamente por um filho de dono de fábrica como Engels — deveria condicionar o progresso da humanidade deve ter parecido uma provocação aos idealistas hegelianos da época; aliás, essa era sem dúvida a intenção. Não cabe aqui analisar como a teoria da transição do moinho manual para o moinho a vapor e sua relação com as formas de poder social foi posteriormente elaborada, na direção de "estreitamente ligada" (eng verknüpft) ou de "produzindo" ou "produzindo" (ergibt); ou, talvez, de ambas. Tudo o que precisa ser observado aqui é o papel central que o desenvolvimento da tecnologia desempenhou desde o início no pensamento histórico-materialista de Marx, assim como de Engels.

Em 1855, no auge da Guerra da Crimeia, Engels produziu um panorama amplamente pesquisado sobre o desenvolvimento de armamentos em todos os estados europeus.7 Como industrial, ele considerou útil não apenas comparar o progresso das tecnologias destrutivas da época com o das tecnologias produtivas, mas também analisar sua inter-relação. Uma questão era se a tecnologia militar se beneficiava mais da tecnologia civil ou vice-versa — qual das duas precedia a outra. De uma perspectiva político-econômica, a tecnologia militar não poderia ser mais do que um subproduto de sua contraparte civil. Mas não poderia a produção industrial em massa, baseada em componentes padronizados — o pré-requisito essencial para o que se tornaria o modo de produção "fordista" — ser atribuída a um certo Samuel Colt, cuja invenção lhe permitiu entregar 130.000 revólveres aos estados do Norte durante a Guerra Civil? Ainda mais relevante para o materialismo histórico era a questão de saber se, por analogia ao desenvolvimento dos meios de produção, o progresso do moinho manual para o moinho a vapor, deveríamos postular o desenvolvimento "relativamente autônomo" daquilo que poderíamos chamar de meios de destruição — a substituição da espada pela metralhadora — como uma segunda vertente paralela do desenvolvimento histórico, entrelaçada com a primeira, mas não idêntica a ela.

Crowns rolling in the gutter

Who is destroying whom in the technologically revolutionized relations of destruction developed by modern industrial societies? Engels’s
reflections on warfare indicate that what he increasingly considered
important was that the main beneficiary of military progress in the trinity
of society-economy-state was the state. Only states had the resources to
acquire the new, large-scale and centralized means of destruction and
to build and maintain the labour forces, known as ‘armies’, required for
their deployment. With this, however, the weight of the state relative to
its economy and society inevitably grew beyond the role allocated to it
by mid-nineteenth century political-economic theory—making the state
decidedly more than a mere ‘committee for managing the affairs of the
bourgeoisie’,8
 or a ‘superstructure’ of the capitalist mode of production.
The sheer scale of the new, state-owned powers of destruction was bound
to unleash a competition between states that was additional to the rivalry
between emerging monopolies and cartels in the capitalist economies—a
competition sui generis for ever-more terrifying capacities for extermination, which to the societies involved could appear far more dangerous
than the periodic crises caused by economic competition.
Under these conditions, was the successful revolutionary deployment
of force to liberate society from the plague of capitalism a realistic prospect? Towards the end of his life, Engels seems to have felt compelled
to smuggle the class war for socialism into the ‘world war of a hitherto
8 Marx and Engels, Manifesto of the Communist Party [1848], in mecw: Volume 6,
p. 486. 
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unprecedented expansion and violence’ which he so presciently foresaw
on the horizon; his detailed knowledge of the arms race then underway
left him in no doubt as to its scale. In 1887, nearly three decades before
the onset of World War One, he wrote:
Eight to ten million soldiers will be at each other’s throats and in the process, they will strip Europe barer than a swarm of locusts. The depredations
of the Thirty Years’ War compressed into three to four years and extended
over the entire continent; famine, disease, the universal lapse into barbarism, both of the armies and the people, in the wake of acute misery;
irretrievable dislocation of our artificial system of trade, industry and credit,
ending in universal bankruptcy; collapse of the old states and their conventional political wisdom to the point where crowns will roll into the gutters
by the dozen, and no one will be around to pick them up; the absolute
impossibility of foreseeing how it will all end and who will emerge as victor
from the battle . . . That is the prospect for the moment when the systematic
development of mutual one-upmanship in armaments reaches its climax
and finally brings forth its inevitable fruits.9
The latest estimates are that 9.5 million died during a war unlike any
seen before. For Engels, however, not even an event of this monstrous
magnitude could bring the dialectic of history’s advance towards socialism to a standstill. At the end of the coming world war, he proclaimed,
with that mixture of prediction and battle cry so characteristic of the
early socialists, stood nothing other than the victory of the international
working class:
Only one consequence is absolutely certain: universal exhaustion and the
creation of the conditions for the ultimate victory of the working class. This
is the pass, my worthy princes and statesmen, to which you in your wisdom
have brought our ancient Europe. And when no alternative is left to you
but to strike up the last dance of war—that will be no skin off our noses.
The war may push us into the background for a while, it may wrest many
a conquered base from our hands. But once you have unleashed the forces
you will be unable to restrain, things can take their course: by the end of the
tragedy you will be ruined and the victory of the proletariat will either have
already been achieved or else will be inevitable.10
This was not wholly unrealistic, as the revolutionary wave of 1917–19
would later testify. Engels’s claim was that, in the wake of the forthcoming
9 Engels, ‘Introduction to Sigismund Borkheim’s pamphlet In Memory of the
German Blood-and-Thunder Patriots, 1806–1807’ [1887], in mecw: Volume 26, p. 451. 10 Engels, ‘Introduction to Sigismund Borkheim’s pamphlet’.
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world war, the armed working classes of the then devastated countries
would turn against their class enemies and, in a popular uprising, finally
overthrow capitalism. After 1918 he could have pointed to the swathe
of democratic reforms won in many countries—universal suffrage,
trade-union rights, collective bargaining—as well as to the Russian
Revolution, which was certainly assisted by the strategic operations of
the German General Staff. As Engels understood, war waged as national
struggle with conscript armies could serve to strengthen the working
class in both the defeated and the victorious countries; the same was true
initially after 1945.
Inter-state dimensions
If in the end capitalism remained largely intact, this was not solely due
to the domestic balance of forces. As early as 1918, the internal order
of the emerging nation-states had come to depend in part upon their
international military position. On seizing power, the Bolshevik government immediately had to construct its own regular state military—the
Red Army, under Trotsky’s command—to defend itself in a ‘civil war’
that was in fact primarily a foreign invasion. Engels would not have
been surprised. In Germany, the social-democratic legal scholar Hugo
Sinzheimer, founding father of German labour law and Frankfurt’s provisional police chief during the uprising of November 1918, warned a
mass rally not to fight for a soviet republic—a Räterepublik—straight
away, as this would inevitably, as in Russia, call forth an invasion by
Western Allied forces. Elected eighteen months later to the Constituent
Assembly, Sinzheimer was one of the drafters of the Works Council
Article of the Weimar Constitution.
Historical research has shown that the European powers’ ruling circles
expected the war on which they embarked in the summer of 1914 to
be, like the skirmishes that preceded it, of short duration. Engels knew
better, perhaps because he was among the few who properly understood the destructive power accumulated in the arsenals of the now fully
industrialized nation-states. If not only capitalist relations of production but also inter-state relations of destruction persisted after 1918—if,
in other words, states succeeded rather quickly in re-organizing their
societies around national identities, whether by granting concessions to
the working classes, by repressively incorporating them, or both—this
was partly because in the industrial era, a well-armed enemy state can 
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inflict more damage on a society than any endogenous economic crisis.
The foreign state appeared more dangerous than domestic capital. No
socialist revolution could protect you from it, but only a domestic army,
just as the nineteenth-century Prussian Army had protected the German
states from the Tsarist threat. For this reason the threat of international
war blocked the path of class war: domestic relations of production were
shored up by inter-state relations of force; class wars risked the danger of
national defeat in state wars; and domestic elites could proclaim themselves the protectors of their peoples against other peoples’ means of
destruction, proclaim the nation to be one great family—men protecting
their mothers, wives and children—and make the distribution of the
national means of production seem secondary to their defence.
Not that class war disappeared completely. After 1918 a new configuration of states and classes began to emerge out of inter-state and inter-class
conflict, once again shaped by the character and distribution of the modern means of destruction. Original class theory could offer little here by
way of explanation. Engels’s late work, I suggest, took the state and its
potential for violence seriously, without being able or willing to incorporate it systematically within the framework of a ‘materialist conception
of history’, conceived as a political economy that began from an analysis of commodity fetishism. Following the emergence of the Russian
Revolution from the First World War, a more or less stable projection
of class conflict onto the state system emerged in the confrontation
between the state-socialist Soviet Union and the capitalist states of ‘the
West’, in particular the us and uk as ascending and descending hegemonic capitalist powers.
With time, a division of labour emerged within the Soviet Union between
the state—which, as a state among states, had to rely for its security on
a professional army and on regular international diplomacy—and the
Party as a world-revolutionary force, intervening in the internal affairs of
other countries through its Comintern agents and its national sister parties, which swiftly became dependencies of the cpsu and instruments of
the Soviet state. The contradictions that Stalin’s foreign policy entailed
at home and abroad cannot be dealt with here. It is enough to note the
bloody purge of the officer corps in 1938 to secure Party control over the
armed forces in the face of looming war with the Third Reich and, relatedly, the Hitler–Stalin Pact in the run-up to the Second World War. This
was to be a war between three versions of modern industrial society—
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capitalism, fascism, communism—all upheld by nation-states armed to
the teeth with the latest technologies of destruction; the socialist Soviet
Union perhaps to a slightly lesser extent than the capitalist powers.
The hypertrophy of states in the twentieth century is a result of the everdeadlier means of extermination at their disposal, which reached their
historical highpoint in the atomic age that opened in 1945. After the us
invention of the nuclear bomb, its replication under Stalin made the
ussr the second of the two global superpowers. For a time, this most
deadly of all means of destruction compelled both sides to live with each
other, dividing the world between them. Under the banner of ‘peaceful coexistence’, the us and the Soviet Union attempted to undermine
each other’s domestic order while studiously avoiding resort to their continuously upgraded means of mutually assured destruction—a systemic
rivalry dressed up as a class struggle between states: between the peoples
of labour and the peoples of capital, nationally united through democracy or dictatorship, or a mixture of the two.
Just as class conflict became international conflict after 1918, so after
1945 international conflict shaped class conflict, as both sides suppressed their domestic class-political opposition, treating it as a fifth
column of the enemy state. In Washington and Moscow, foreign policy
in the shadow of the bomb served to defend and propagate competing
forms of social organization, reflecting the fronts of nineteenth-century
class conflict, and to mobilize ‘class brothers’ in the rest of the world
in the interests of their own state blocs. During the Cold War, the us
managed, more or less, to eliminate the communist-sympathizing opponents of its system both at home and in the lands of the us imperium,
while by the 1980s the ussr had begun to disintegrate under the pressure of its pro-Western, and therefore pro-capitalist, opposition.
Merchants and mercenaries
Engels can thus be seen as opening an additional line of historicalmaterialist research, in which the means of destruction exist alongside
the means of production, and state formation frames and overlaps with
class formation—a line that does better justice to the realities of the
bloody twentieth century than a production-centric theory of history.
The narrative suggested here could be continued through categories
already found in Engels: technological progress as a driving force of 
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political and societal development and of the liberation of state politics
from its theoretical subordination to the economy, as a result of states’
control over the modern means of extermination. By the late twentieth
century, the horizons of technological development were to be found
not so much in the private sector of the economy as in armaments programmes. This was particularly the case in the world’s most powerful
state, the us: from air and space travel to the so-called ‘peaceful use of
nuclear energy’, up to the micro-electronic it advances revolutionizing
the capitalist economy today.
As for political history, one could point to Reagan’s plan to out-arm the
Soviet Union through the Star Wars programme; the ‘globalization’ of
American military power after 1989, only put into question thirty years
later by the breakneck development of the means of both production
and destruction in China; the disintegration of national liberation movements on the periphery, in face of their hopeless military inferiority, and
their replacement by religious-fundamentalist movements, whose followers don’t mind losing their lives in pursuit of millenarian goals. In
so far as we are permitted to be spectators, we are currently observing
a further radical transformation through new micro-electronic forces
of destruction, which enable unlimited spying on actual and potential
opponents, and—with the use of drones—their individual elimination.
The social organization of this labour of extermination corresponds to
the re-privatization of a large swathe of warfare: the outsourcing of death
missions to private companies, who now master and develop the new
technologies better and more cost-effectively; and the replacement of
the conscript citizen-soldiers of European and American modernity by
professionalized special services—the replacement, if you like, of the
standing army by a flexibly adjustable posse of hi-tech merchants and
mercenaries of death.
These dramatic consequences for the structures and functions of the
modern state would have been a matter of keen interest to Engels,
even if they did not fit easily into the early version of the materialist
conception of history, most prominently expressed in the first chapters
of Capital. The personalized extermination of individual enemies by
drones and special ops, networked through advanced information technology, largely relieves regimes of the need to mobilize consent on the
home front for military operations far away: no one has to be forced to
participate, to risk their life for their state, and the number of Western 
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military casualties is reduced. Moreover, with improved technology, even
collateral damage can be limited, and the War on Terror—a new interface of extermination, police and social work—if it is to be won, cannot
be publicly spoken of anyway. (If, in the not so distant future, robots
were pitted against robots—Tesla drones against Huawei drones, for
example—the battle would no doubt be screened as entertainment.)
Similarly, the problem of state-building in the country of a defeated
enemy, as in Japan and Germany after 1945, might also become obsolete.
As Iraq and Afghanistan have shown, state-wrecking can suffice—failed
states or no states are perfectly tolerable for the victors, so long as a militarily subjugated population can be prevented from organizing itself as a
collective subject, through individual surveillance and selective elimination. Consider, for example, the type of warfare revealed in the letter to
the Israeli Prime Minister from 43 officers and soldiers of the elite Secret
Service Unit 8200, announcing their refusal to continue to serve:
The Palestinian population under military rule is completely exposed to
espionage and surveillance by Israeli intelligence . . . Information that
is collected and stored . . . is used for political persecution and to create
divisions within Palestinian society by recruiting collaborators and driving parts of Palestinian society against itself . . . Intelligence allows for the
continued control over millions of people through thorough and intrusive
supervision and invasion in most areas of life.11
Protest of this kind is more important than ever. But it is different indeed
to the nineteenth-century soldiers’ uprising that Engels and the early
socialists hoped for, when the participants would turn their weapons on
their native class enemy. Can a computer server be turned against the
ruling class?


1 Baseado na palestra plenária do Congresso Internacional de Engels, Universidade de Wuppertal, 19–21 de fevereiro de 2020. Traduzido por John-Baptiste Oduor.

2 Muito do que se segue é inspirado em autores com perspectivas tão diferentes como Georg Fülberth e Herfried Münkler. Ver Georg Fülberth, Friedrich Engels, Köln 2018, e Herfried Münkler, ‘Der gesellschaftliche Fortschritt und die Rolle der Gewalt: Friedrich Engels als Theoretiker des Krieges’, em Samuel Salzborn, ed., ‘... ins Museum der Altertümer’: Staatstheorie und Staatskritik bei Friedrich Engels, BadenBaden 2012, pp. Ver também Rüdiger Voigt, ‘Militärtheoretiker des Proletariats? Friedrich Engels als Kritiker des preußischen Militärwesens», em Salzborn, ed., «... ins Museum der Altertümer’, pp.

3 Karl Marx, Capital: Volume I [1867], trad. Ben Fowkes, Londres 1976, p. 916.

4 Marx e Engels, ‘A Guerra Civil Americana’, Die Presse, 26 de março de 1862, em MarxEngels Collected Works: Volume 19, Londres 1980, p. 186; doravante, mecw.

5 Durante a Guerra do Vietnã, estima-se que 58.000 americanos perderam a vida em solo vietnamita, um quinto deles em fogo amigo ou em atividades não combatentes (o número corresponde aproximadamente ao número anual de mortes no trânsito nos EUA durante a década de 1960). As perdas de insurgentes e civis do lado vietnamita são mais difíceis de calcular devido ao uso indiscriminado de tecnologias destrutivas pelos EUA. As estimativas variam de 3 milhões a 6 milhões — uma “proporção de mortes” entre 1:50 e 1:100, em comparação com 1:33 na Comuna de Paris. Os resultados do progresso tecnológico aqui são óbvios.

6 Marx, A Miséria da Filosofia [1847], em mecw: Volume 6, p. 166.

7 Ver Engels, ‘Os Exércitos da Europa’, publicado em três fascículos na revista americana Putnam’s Monthly em agosto, setembro e dezembro de 1855: mecw: Volume 14, pp. 401–59.

8 Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista [1848], em mecw: Volume 6, p. 486.

9 Engels, ‘Introdução ao panfleto de Sigismund Borkheim Em memória dos patriotas alemães de sangue e trovão, 1806–1807’ [1887], em mecw: Volume 26, p. 451. 

10 Engels, ‘Introdução ao panfleto de Sigismund Borkheim’.

11 Peter Beaumont, ‘Veteranos da inteligência israelense se recusam a servir em territórios palestinos’, Guardian, 12 de setembro de 2014. Durante a ‘Operação Chumbo Fundido’ das forças de segurança israelenses na Faixa de Gaza, entre 27 de dezembro de 2008 e 18 de janeiro de 2009, houve seis baixas israelenses e 1.398 palestinas, uma proporção de 1:233.

https://wolfgangstreeck.com/wp-content/uploads/2020/06/wolfgang-streeck-engels-s-second-theory-nlr-123-may-june-2020.pdf

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