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8 de julho de 2026

O que todos deveriam saber sobre como o capital funciona

A economia convencional não consegue aceitar o conceito de contradição, que é fundamental para a análise de Karl Marx sobre o capitalismo. David Harvey explica por que precisamos da perspectiva marxista se quisermos compreender as mais recentes mutações do capital na era da IA.

David Harvey


David Harvey: "Tanto Franklin Roosevelt como John Maynard Keynes reconheceram explicitamente que o seu objecivo era salvar o capital dos capitalistas. Sendo avessos ao método de Marx, não conseguiram, no entanto, descobrir como fazê-lo." (Ullstein Bild/Getty Images)

No Volume 1 de O Capital, Karl Marx expressa a opinião de que “a economia política clássica depara-se, aproximadamente, com o verdadeiro estado das coisas, mas sem formulá-lo conscientemente. Ela é incapaz de fazê-lo enquanto permanecer dentro de sua própria pele burguesa”.

Marx e os economistas burgueses confrontam as mesmas realidades materiais, mas as interpretam, explicam e utilizam de maneiras muito diferentes. Por exemplo, tanto David Ricardo (a principal figura burguesa da economia política do século XIX) quanto Marx consideravam o capitalismo uma forma passageira de organização econômica, porém por razões totalmente distintas.

Ambos acreditavam que a taxa de lucro sobre o capital acabaria caindo para zero. Ricardo acreditava que os salários teriam de subir para cobrir o custo crescente dos alimentos cultivados em terras cada vez mais escassas e menos férteis. As rendas da terra também aumentariam, pois as terras cultiváveis ​​se tornariam cada vez mais escassas. Assim, o aumento dos salários e das rendas comprimiria os lucros até que estes caíssem a zero.

Marx propõe uma explicação muito diferente. Capitalistas individuais, operando sob as leis coercitivas da concorrência, adotam tecnologias que aumentam a produtividade do trabalho. Com isso, a necessidade de força de trabalho é reduzida. Mas a força de trabalho é a fonte de todo valor e mais-valia (lucro). Na ausência de forças contrárias, a taxa de mais-valia (lucro) extraída da exploração da força de trabalho tende a cair.

A visão de Ricardo, articulada na década de 1820, parecia ridícula na década de 1870, quando os mercados globais e a produção mundial de grãos haviam se deslocado para as terras de baixo custo e alta produtividade da América do Norte, da América do Sul e da Europa Oriental. A explicação de Marx, por outro lado, mantém-se válida, embora — como veremos — com certas ressalvas.

Materialismo Histórico

O objetivo do meu livro The Story of Capital é formular conscientemente o que Marx descobriu no decorrer de suas investigações em economia política. “Marx não conseguiu ‘preservar’ Ricardo”, como observa Samir Amin: “Ele não pôde fazer mais do que demonstrar as limitações da ‘ciência econômica’, de modo a exigir que os problemas fossem colocados de outra maneira, em outra linguagem, substituindo as questões oriundas do campo econômico por outras, provenientes de um campo mais amplo: o do materialismo histórico”.

Marx e os economistas burgueses deparam-se com as mesmas realidades materiais, mas as interpretam, explicam e utilizam de formas muito distintas.

As condições contextuais para a acumulação de capital, naturalmente, mudaram ao longo do tempo, e a teoria da economia política teve de se adaptar. Por exemplo, a competição por vantagens tecnológicas em equipamentos militares, comunicações e logística intensificou-se nos últimos anos e deriva mais da competição entre Estados do que da competição entre capitais (a internet, por exemplo, foi desenvolvida pelos militares).

Há também o fato de que Marx nunca concluiu seu projeto. Nos Grundrisse, ele esboçou uma vasta lista de temas a serem abordados, tais como “capital como crédito; capital como capital acionário; capital como mercado monetário... Estado e sociedade burguesa; impostos, ou a existência das classes improdutivas; a dívida pública; população; o Estado em sua dimensão externa: colônias; comércio exterior”. A incursão nesses campos — como ocorre em The Story of Capital — de modo algum dilui, diminui ou desonra a obra que Marx efetivamente concluiu. O avanço e a eventual conclusão de seu projeto constituem um objetivo louvável.

No entanto, permanece verdadeiro até hoje que o campo da economia precisa ser libertado de sua roupagem burguesa. Isso ficou evidente em novembro de 2008, no auge da chamada crise financeira global. A Rainha Elizabeth visitou a London School of Economics. Durante a visita, ela perguntou aos economistas presentes por que não haviam previsto a crise financeira.

Sem respostas imediatas, os economistas realizaram consultas, organizaram seminários e coletaram dados. Seis meses depois, enviaram uma carta coletiva a Sua Majestade. Explicaram que a falha em reconhecer riscos sistêmicos estava na raiz de seus equívocos. A negligência em relação aos riscos sistêmicos parece particularmente grave. A maioria de nós não escolheria embarcar em um avião cujo projeto não tivesse sido verificado quanto a riscos sistêmicos.

The Story of Capital busca examinar as disfunções internas e os riscos sistêmicos inerentes ao modo de produção do capital, em sua constante evolução e transformação. Contudo, faz isso com o auxílio de ferramentas teóricas bastante singulares, extraídas da obra de Marx sobre a economia política do capital.

As contradições do capital

Embora Marx tenha proclamado, de forma célebre, que nosso objetivo não deveria ser apenas compreender o mundo, mas transformá-lo, ele dedicou uma enorme quantidade de tempo e esforço a compreender aquilo que buscava transformar. Sua prática, ao longo de muitos volumes e cadernos de anotações inéditos, sugere que ele considerava vital compreender a evolução do capital para poder transformá-lo.

Há, contudo, certa dificuldade em recorrer à estrutura teórica de Marx. Sua "linguagem peculiar e seu método de argumentação árduo" — como reclamou Joan Robinson, colega próxima de John Maynard Keynes, na década de 1940 — tornam necessário traduzir grande parte do que Marx diz para um alemão inteligível e para uma tradução adequada em inglês. Mas, como também disse Robinson, suas obras são, com demasiada frequência, "tratadas nos meios acadêmicos com um silêncio de desprezo, interrompido apenas por uma ou outra nota de rodapé zombeteira".

O conceito de contradição não é encontrado na economia política burguesa. Mas é fundamental para Marx.

Dizer que isso ainda ocorre hoje, particularmente nos Estados Unidos, seria um eufemismo. Em The Story of Capital, esforço-me para superar tais preconceitos. O resultado, espero, é uma descrição muito mais precisa e profunda da economia política do capital do que aquela encontrada nos manuais burgueses.

"O desenvolvimento preciso do conceito de capital é necessário", escreveu Marx nos Grundrisse,

uma vez que ele é o conceito fundamental da economia moderna, assim como o próprio capital... é o fundamento da sociedade burguesa. A formulação nítida dos pressupostos básicos da relação [do capital] deve trazer à tona todas as contradições da produção burguesa, bem como o limite a partir do qual ela transcende a si mesma.

Observe aqui o recurso de Marx ao termo "contradição". O capital contém contradições, escreve ele, e "nosso objetivo... é desenvolvê-las plenamente. Mas Ricardo não as desenvolve... pelo contrário, ele as ignora". O conceito de contradição não é encontrado na economia política burguesa (seja clássica ou neoclássica, keynesiana ou marginalista). Mas é fundamental para Marx.

Micro e Macro

Então, por que o conceito de contradição é tão importante? A economia política burguesa, de qualquer vertente, divide-se em microeconomia (a teoria microeconômica da firma) e macroeconomia (a teoria das leis de movimento do capital que regem o comportamento econômico de economias nacionais ou globais). Apesar de muitas tentativas, revelou-se impossível derivar princípios macroeconômicos a partir da teoria microeconômica, ou vice-versa. Na economia burguesa, esses dois domínios teóricos permanecem permanentemente separados.

Para Marx, contudo, a contradição entre o micro e o macro constitui o fundamento da construção teórica. Capitalistas individuais (o nível micro), impulsionados pelas leis coercitivas da concorrência (uma força macro universal), adotam tecnologias que, coletivamente, aumentam a produtividade do trabalho (um resultado com consequências macroeconômicas).

Para Marx, a contradição entre o micro e o macro é o fundamento para a construção da teoria.

Produtores mais eficientes, munidos de tecnologias superiores, eliminam seus rivais por meio da concorrência. O aumento da produtividade do trabalho em toda a macroeconomia reduz a quantidade de mão de obra necessária. Assim, como vimos, a taxa de lucro agregada cai.

Capitalistas individuais, ao buscarem maximizar a taxa de retorno sobre seu capital, geram um resultado macroeconômico cada vez menos favorável à continuidade da acumulação de capital. Quem, então, salvará o capital como um todo do comportamento racional, porém destrutivo, de uma infinidade de capitalistas individuais?

Essa é a contradição dinâmica que permeia toda a obra de Marx. Espera-se que as instituições de política pública — o Estado capitalista, as diversas vertentes da economia burguesa nas universidades, os think tanks de formulação de políticas e instituições-chave como os bancos centrais, o Fundo Monetário Internacional e o Banco de Compensações Internacionais — gerenciem coletivamente essa contradição.

No entanto, como veremos, suas estruturas teóricas burguesas são, em grande parte, inadequadas para essa tarefa. Frequentemente, elas agravam ainda mais a situação (a imposição de políticas de austeridade a economias em dificuldades por parte dos formuladores de políticas tem um longo histórico de produzir exatamente esse efeito). Tanto Franklin Delano Roosevelt quanto John Maynard Keynes reconheceram explicitamente que seu objetivo era salvar o capital dos capitalistas. Contudo, por serem avessos ao método de Marx, não conseguiram descobrir como fazê-lo.

O particular e o universal

O método de Marx, fundamentado no materialismo histórico, é tanto dialético quanto relacional. Isso é estranho ao método burguês, que se apoia em um materialismo científico de caráter mecânico.

Para Marx, nenhum conceito econômico existe isoladamente. Cada um reflete relações e posicionalidades dentro da totalidade da circulação do capital. Essa totalidade constitui um todo orgânico — uma construção ecossistêmica baseada no materialismo histórico, conforme defende Amin —, em vez de ser um produto do materialismo mecânico e do positivismo da economia ricardiana.

A força do método de Marx pode ser observada em O Capital, obra que começa isolando a mercadoria como o conceito econômico fundamental. No entanto, a mercadoria leva uma vida dupla: ela possui tanto valor de uso quanto valor de troca. Esse dualismo é antagônico e contraditório: se você utiliza a mercadoria, não pode vendê-la; se a vende, não pode utilizá-la.

Para Marx, nenhum conceito econômico existe isoladamente. Cada um reflete relações e posicionalidades no âmbito da totalidade da circulação do capital.

Mas todas as mercadorias são, em princípio, permutáveis; portanto, devem possuir alguma propriedade em comum. Todas elas são, segundo Marx, produtos — diretos ou indiretos — do trabalho humano criativo. Como tais, são todas comensuráveis ​​entre si enquanto valores definidos como o tempo de trabalho socialmente necessário cristalizado em todas as mercadorias.

Contudo, o tempo de trabalho cristalizado na mercadoria é de dois tipos: concreto (o tempo efetivamente gasto para produzir uma mercadoria específica em determinado lugar e momento) e abstrato (o tempo médio necessário para produzir a mesma mercadoria em quaisquer lugares e momentos). O particular e o universal unem-se no ato da troca de mercado.

Se a produção de um determinado produto leva, em média, dez horas, é esse o valor que obterei ao trocá-lo no mercado, independentemente de quantas horas eu tenha realmente levado para produzi-lo. O significado de cada conceito é definido por sua inter-relação com todos os demais. Se um conceito se altera, todos os outros também mudam. A cadeia de contradições entrelaça os momentos individuais no interior da totalidade.

Teoria do Valor

O valor, definido como "tempo de trabalho socialmente necessário", ocupa uma posição inicial nessa matriz de relações sociais em desdobramento, mas está sujeito a uma redefinição contínua à medida que a necessidade social — que Marx sobrepõe à teoria ricardiana do valor-trabalho — se torna mais explícita com a evolução do capital. A questão de como reformular a teoria do valor para explicar os enormes bônus atuais distribuídos na oferta pública inicial (IPO) do império de Musk guarda semelhanças com as reflexões de Marx sobre o estatuto da teoria do valor quando as finanças, o crédito e os banqueiros entram em cena.

Após criticar duramente, pela enésima vez, a adoção ricardiana da Lei de Say (segundo a qual a oferta cria sua própria demanda, tornando impossível a superprodução generalizada), Marx afirma que, na verdade, a superprodução (tempo de trabalho socialmente desnecessário ou antivalor) constitui "o fundamento e a contradição fundamental do capital desenvolvido". Para a economia política de Marx, o valor não constitui um fundamento sólido e imutável, mas sim uma categoria cujo significado evolui juntamente com o sistema que ela regula:

A contradição entre produção e realização — da qual o capital, por sua própria natureza conceitual, é a unidade — deve ser compreendida de forma mais intrínseca, e não apenas como a aparência — indiferente e aparentemente independente — dos momentos individuais do processo, ou melhor, da totalidade dos processos.

Os próprios capitalistas dispõem de uma resposta limitada para o problema da queda dos lucros. Eles podem alterar a escala de operação e transitar de uma produção artesanal — de pequena escala, localizada e com baixa produtividade do trabalho (típica do século XVIII) — para uma produção fabril em massa, de grande escala, que emprega muito mais mão de obra e gera um volume crescente de mercadorias.

Isso gera mais uma contradição. O capítulo do Volume 3 de O Capital que trata, declaradamente, da queda da taxa de lucro começa examinando a tendência de declínio dessa taxa, mas acaba por analisar a tendência à produção de uma "plétora" (sobreacumulação) de capital sob a forma de mercadoria, acompanhada pela expansão constante do mercado mundial e por uma financeirização alicerçada na ascensão da produção em massa — a qual, por sua vez, demanda o consumo em massa.

A necessidade social que Marx sobrepõe à teoria ricardiana do valor-trabalho torna-se mais explícita com a evolução do capital.

A contradição resultante entre a taxa decrescente e a massa crescente assume um papel central na configuração das contradições do capital. “Como, então”, pergunta Marx, “devemos apresentar essa lei de duplo aspecto: o declínio da taxa de lucro acompanhado por um aumento simultâneo na massa absoluta de lucro, decorrentes das mesmas causas?” É dessa contradição que derivam todas as outras, como aquelas presentes na circulação do capital fixo e do capital portador de juros. São essas as contradições que se desdobram ao longo do argumento em The Story of Capital.

Totalidade

Problemas têm soluções. Contradições, não. Elas são pontos permanentes de tensão que só podem ser gerenciados dentro do sistema em que estão inseridos. Elas só desaparecem quando o sistema como um todo deixa de existir.

Não há nada de estranho ou incomum nessa forma de teorizar. Eu, por exemplo, tenho de lidar constantemente com as contradições entre as exigências da minha vida profissional e os meus desejos e responsabilidades pessoais. Todos nós sabemos, pela nossa experiência cotidiana, como essa tensão opera.

Na maior parte do tempo, as contradições permanecem latentes e inativas. Mas, se a minha universidade for tomada por autoritários (como aconteceu com a Universidade da Europa Central, na Hungria, sob Viktor Orbán), então a contradição entre as perspectivas profissionais e o desejo de levar uma vida confortável com a família e os amigos torna-se o foco de uma crise pessoal. Ela não pode ser simplesmente “descartada” à maneira de Ricardo.

Tratar contradições como se fossem problemas que têm solução, na maioria das vezes, gera erros de gestão catastróficos.

Em nível macro, isso significa que o trabalho assalariado não pode ser abolido sem a abolição do capital (e vice-versa). Por outro lado, tratar contradições como se fossem problemas passíveis de solução gera, na maioria das vezes, erros catastróficos de gestão.

Mas há outra nuance que precisa ser incorporada à abordagem alternativa de Marx sobre a economia política: a perspectiva da totalidade. Martin Jay nos legou um estudo volumoso sobre a história desse conceito em seu livro Marxismo e Totalidade. Simplificando, a totalidade refere-se a uma condição na qual nenhuma parte isolada da sociedade — seja ela econômica, política, cultural ou ideológica — pode ser compreendida separadamente.

Cada parte deriva seu significado, função e dinâmica de sua relação com o sistema como um todo. A totalidade é dinâmica. As relações sociais mudam ao longo do tempo. As relações internas à totalidade estruturam-se como "momentos" distintos. Por exemplo, a circulação do capital é constituída pelos movimentos cíclicos dos diferentes momentos: dinheiro, mercadorias, processos de trabalho, trocas de mercado, consumo, etc.

Para compreender por que a sociedade funciona da maneira como funciona, precisamos entender como todos esses "momentos" se relacionam e interagem. Marx delineia tal sistema nos Grundrisse, embora em termos algo mais opacos:

Embora no sistema burguês consolidado cada relação econômica pressuponha todas as outras em sua forma econômica burguesa — de modo que tudo o que é posto constitui, simultaneamente, um pressuposto —, isso ocorre em qualquer sistema orgânico. Esse sistema orgânico, enquanto totalidade, possui seus próprios pressupostos; seu desenvolvimento rumo à totalidade consiste precisamente em subordinar a si todos os elementos da sociedade, ou em criar, a partir dela, os órgãos [como um banco central] de que ainda carece. É assim, historicamente, que ele se torna uma totalidade. O processo de tornar-se essa totalidade constitui um momento de seu próprio processo, de seu desenvolvimento.

Como aponta Georg Lukács em História e Consciência de Classe: "Não é a primazia dos motivos econômicos na explicação histórica que constitui a diferença decisiva entre o marxismo e o pensamento burguês, mas sim o ponto de vista da totalidade". O pensamento burguês é incapaz de apreender a totalidade, pois fazê-lo "exporia a contingência histórica do próprio capital".

A regra das abstrações

Nos Grundrisse, Marx recorre frequentemente a esse conceito de totalidade. Note-se bem que a totalidade que Marx adota é orgânica e ecossistêmica (uma planta que muda e cresce) e não mecânica (uma máquina que funciona). A totalidade pode ser concreta e real (como no caso de um corpo humano) ou uma abstração idealista (como no caso de um modo de produção).

Neste último caso, ela se sobrepõe aos aspectos concretos e abstratos da mercadoria como um princípio de ordem:

O método de ascensão do abstrato ao concreto... reproduz o concreto na mente. Mas esse não é, de forma alguma, o processo pelo qual o próprio concreto ganha existência. Por exemplo, a categoria econômica mais simples — digamos, o valor de troca — pressupõe a população; mais ainda, uma população que produz sob relações específicas, bem como um certo tipo de família, ou comuna, ou Estado, etc. Ela jamais pode existir senão como uma relação abstrata e unilateral dentro de um todo vivo, concreto e já dado.

Como categoria, em contrapartida, o valor de troca leva uma existência antediluviana... para a qual o pensamento conceitual é o verdadeiro ser humano e o mundo conceitual, enquanto tal, é a única realidade; o movimento das categorias aparece como o ato real de produção — que, infelizmente, apenas recebe um impulso externo — cujo produto é o mundo; e — mas isso é, novamente, uma tautologia — isso é correto na medida em que a totalidade concreta é uma totalidade de pensamentos, concreta no pensamento, sendo, de fato, um produto do pensar e do compreender; mas não é, de modo algum, um produto do conceito que pensa e gera a si mesmo fora ou acima da observação e da concepção; é, antes, um produto da elaboração da observação e da concepção em conceitos.

A totalidade tal como aparece na cabeça, como totalidade de pensamentos, é produto de uma cabeça pensante, que se apropria do mundo da única maneira que lhe é possível... O sujeito real mantém sua existência autônoma fora da cabeça, tal como antes; isto é, enquanto a conduta da cabeça for meramente especulativa, meramente teórica. Daí que, também no método teórico, o sujeito — a sociedade — deva ser sempre mantido em mente como pressuposto.

À medida que o sistema de trocas de mercado se torna mais generalizado e sistematizado, os participantes passam a ter "relações objetivas de dependência... em antítese àquelas de dependência pessoal... que prevaleciam anteriormente". "Os indivíduos são agora governados por abstrações [por exemplo, a taxa de juros e a taxa salarial], ao passo que, antes, dependiam uns dos outros."

Em que medida, então, deparamo-nos com abstrações forjadas por meio de processos de mercado, em vez de relações de troca com pessoas individuais? Para Marx, a abstração não é "nada mais do que a expressão teórica daquelas relações materiais que são seus senhores e mestres":

Os filósofos determinaram que o reino das ideias é a característica peculiar da nova era e identificaram a criação da individualidade livre com a derrubada ideológica desse reino. Esse erro foi cometido com tanta facilidade, do ponto de vista ideológico, porque esse reino... aparece na consciência dos indivíduos como o reino das ideias... a crença na permanência dessas ideias — isto é, dessas relações objetivas de dependência — é, naturalmente, consolidada, alimentada e inculcada pelas classes dominantes por todos os meios disponíveis.

Foi exatamente isso que Friedrich Hayek, Milton Friedman, Keith Joseph, o Institute of Economic Affairs e Margaret Thatcher (apoiados por inúmeros think tanks financiados pela classe bilionária) organizaram e concretizaram com tanta perícia na década de 1980, transformando-as nas ideias dominantes do neoliberalismo. "Não há alternativa" (TINA), declarou Thatcher, e muitos aceitaram esse slogan como uma verdade absoluta.

Nestas passagens, Marx mostra como as condições materiais da vida social e econômica são transpostas para o conflito ideológico.

O que Marx faz aqui é mostrar como as experiências materiais históricas são transpostas para categorias ideológicas e pressupostos passíveis de argumentação. Nessas passagens, Marx demonstra como as condições materiais da vida social e econômica se transformam em conflito ideológico.

Pensamento dialético

As lutas ideológicas em torno dessas ideias dominantes desempenham, assim, um papel hegemônico fundamental na dominação do capital. Um dos objetivos de The History of Capital é trazer de volta o pensamento, os métodos e as sensibilidades dialéticas para o centro de uma tentativa de revitalizar a economia política marxista. Marx claramente extraiu grande parte de seu pensamento sobre a dialética de G. W. F. Hegel, mas o modificou, transformando-o em um sistema mais maleável e adaptável à medida que adotava o materialismo histórico como sua bússola.

Em seus estudos sobre o capital — definido como "valor em movimento" — e em sua ênfase nos processos, ele colocou em prática uma dialética ecossistêmica baseada em processos. Essa abordagem foi posteriormente retomada, de forma fortuita, nas obras de Alfred North Whitehead (Process and Reality, 1936) e desenvolvida por Richard Levins e Richard Lewontin (The Dialectical Biologist, 1985) e por Bertell Ollman (Dialectical Investigations, 1993). Procurei sintetizar essas ideias em meu livro Justice, Nature and the Geography of Difference.

A conclusão a que chegamos é que o capital deve ser compreendido e representado dialeticamente como uma totalidade ecossistêmica (orgânica) e como uma história em evolução. Ele tem um começo e certamente terá um fim; no entanto, neste momento de sua história, muito depende dos esforços coletivos (tanto conscientes quanto inconscientes) que poderão nos conduzir a mudanças significativas — e, em certos aspectos, destrutivas — em nosso futuro a longo prazo.

Existem, contudo, indícios sobre esse futuro. Thomas Piketty argumenta que, se a taxa de retorno do capital superar a taxa de crescimento do capital, o resultado final será uma desigualdade crescente e em espiral na distribuição de riqueza e poder. O 1% mais rico da população domina cada vez mais a ordem social e monopoliza a distribuição da riqueza e do poder globais.

Marx claramente extraiu grande parte de seu pensamento sobre a dialética de G. W. F. Hegel, mas o modificou, transformando-o em um sistema mais maleável e adaptável.

No entanto, existem outras relações agregadas que devem nos fazer refletir. Se a taxa média de juros da moeda de reserva global dominante for persistentemente inferior à taxa de crescimento, o capital poderá continuar a se expandir — ainda que ao custo de contrair dívidas crescentes de longo prazo, no estilo Ponzi, com tempos de rotação cada vez mais acelerados e problemas cada vez mais críticos de absorção de um excedente de capital crescente (uma superacumulação perpétua, ou o que Marx chamou de produção contínua de "uma plenitude de capital"), o que levará a um extrativismo crescente e ao aprofundamento da degradação ambiental.

Quando a taxa de juros da moeda de reserva global é persistentemente superior à taxa de crescimento, o resultado provavelmente será uma deflação sistêmica de ativos (do tipo vivenciado no Japão desde 1990), austeridade material e investimentos em valor negativo (gastos militares destrutivos, guerras e a construção de pontes que não levam a lugar algum). Não é difícil perceber os vestígios desses futuros contraditórios já gravados em nosso cotidiano.

Os monopólios nos dominam, guerras destrutivas nos assolam, inovações tecnológicas tornam o trabalho cada vez mais redundante, os tempos de rotação continuam a acelerar e o nexo Estado-finanças se consolida em torno de um regime regulatório favorável à classe bilionária — deixando todos os demais tentando descobrir como sobreviver, quanto mais como travar a luta de classes contra as abstrações arraigadas do capital.

Crises e espasmos

A visão distópica que a própria inteligência artificial prevê, ainda que de forma tentativa, é a de uma pequena fração da população mundial dominada por uma elite — ou casta — tecnogerencial, formada em algumas poucas instituições de ensino de superelite (Harvard e o MIT, a Universidade de Pequim e a Academia Chinesa de Ciências, Oxbridge na Grã-Bretanha, as Grandes Écoles em Paris, etc.). Essa elite vive em uma opulência espantosa em alguns centros metropolitanos estratégicos, isolada do descontentamento e da pobreza de todos os demais, que sobrevivem com a quantia irrisória de uma renda básica universal parcimoniosa, financiada e disciplinada por um sistema de servidão por dívida, sob a administração e o controle de um Estado de vigilância autoritário.

Ironicamente, a disciplina acadêmica mais ameaçada pelo advento da IA ​​é a economia neoclássica científica formal, ao passo que disciplinas enraizadas em particularidades (como a geografia e a antropologia) — especialmente quando sintetizadas de forma mais clara na estrutura dos métodos do materialismo histórico — mostrar-se-ão muito mais resistentes, se não imunes. Apenas aquela vertente da economia convencional que aceita, tal como o economista Jürg Niehans, que a política monetária é uma arte e não uma ciência, sobreviverá (presumivelmente ancorada em instituições vulneráveis ​​como o Federal Reserve).

As matrículas em cursos universitários de economia já estão em declínio. As perspectivas para muitas outras formas de qualificação e conhecimento (como o Direito, por exemplo) são igualmente sombrias. Eis mais um motivo para adotar uma forma de economia política resistente à IA e centrada naquilo que Marx chamou de "crescente incompatibilidade entre o desenvolvimento produtivo da sociedade e as suas relações de produção até então existentes" — tudo isso expresso

em contradições amargas, crises e espasmos. A destruição violenta do capital — não por forças externas a ele, mas sim como condição para a sua própria preservação — é a forma mais contundente pela qual ele é instado a desaparecer e a abrir caminho para um estágio superior de produção social.

Contudo, a economia convencional precisa, antes de tudo, libertar-se de sua restritiva casca burguesa em favor do materialismo histórico — muito mais inventivo e flexível — do tipo que Marx pioneiramente desenvolveu com tanta genialidade.

Este é um trecho de The Story of Capital: What Everyone Should Know About How Capital Works, já disponível pela Verso Books.

Colaborador

O livro mais recente de David Harvey é The Story of Capital: What Everyone Should Know About How Capital Works.

24 de fevereiro de 2026

David Harvey sobre o marxismo para o século XXI

Karl Marx desenvolveu sua crítica ao capitalismo estudando as “fábricas satânicas” da Inglaterra. Mas, como escreve David Harvey, ele entendia o capitalismo como um sistema global. Se estivesse vivo hoje, insistiria que os socialistas se concentrassem tanto no Vale do Silício quanto em Shenzhen.

David Harvey

Jacobin


É uma questão em aberto se as leis do movimento do capital, formuladas por Karl Marx, se aplicam com a mesma força na China, em Bangladesh, na União Europeia e nos Estados Unidos hoje. (Eye Ubiquitous / Universal Images Group via Getty Images)

O texto a seguir é um trecho editado de The Story of Capital: What Everyone Should Know About How Capital Works, de David Harvey, publicado pela Verso Books hoje, 24 de fevereiro.

Karl Marx situou suas investigações teóricas sobre o modo de produção do capital e suas leis de movimento no contexto do capitalismo industrial britânico entre as décadas de 1840 e 1860. Inicialmente, ele o fez acreditando que “o país mais desenvolvido industrialmente apenas mostra, ao menos desenvolvido, a imagem de seu próprio futuro”. Se tal crença era justificada ou não é, naturalmente, uma questão em aberto.

No final de sua vida, após intensas investigações antropológicas e uma análise detalhada do caso russo em particular, o próprio Marx começou a duvidar dessa proposição, preparando assim o terreno para uma crítica subsequente ao que muitos consideram seu eurocentrismo. Mas o que não está em questão é a profundidade e a abrangência do conhecimento de Marx sobre o estado do capital industrial na Grã-Bretanha de meados do século XIX.

Feito em Manchester

Neste contexto, Marx teve a sorte de encontrar um vasto arquivo de materiais investigativos reunidos pelos inspetores de fábricas nomeados pelo Estado britânico, por funcionários da saúde pública e por comissões parlamentares de inquérito sobre tudo, desde trabalho infantil até práticas bancárias. Ele reconheceu plenamente a importância desses materiais para suas próprias interpretações e lamentou o “estado deplorável” das informações provenientes de outros lugares:

Ficaríamos consternados com a nossa própria situação se, como na Inglaterra, o nosso governo e parlamentos nomeassem periodicamente comissões de inquérito sobre as condições econômicas; se essas comissões tivessem os mesmos poderes plenos para chegar à verdade; se fosse possível encontrar, para esse fim, pessoas tão competentes, tão imparciais e livres de favorecimento pessoal, quanto os inspetores de fábricas da Inglaterra, seus relatores médicos sobre saúde pública, seus comissários de inquérito sobre a exploração de mulheres e crianças, sobre as condições de moradia e alimentação, e assim por diante.

Os inspetores de fábricas e funcionários da saúde ingleses, como Leonard Horner, o Sr. Scriven e o Dr. Greenshaw (para citar alguns), foram figuras-chave. Imagine o quão desprovido e insatisfatório seria o primeiro volume de O Capital sem os relatos fornecidos por esses funcionários do governo.

Marx também reuniu um vasto acervo de reportagens da imprensa contemporânea, panfletos e livros relevantes sobre todos os aspectos da economia política (como os de Andrew Ure e Charles Babbage sobre tecnologia de máquinas). Por fim, seu amigo e mecenas Friedrich Engels não apenas o inspirou com sua obra inicial e notável, A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, de 1844, mas também forneceu comentários contínuos sobre o trabalho e a vida em Manchester, registrados por meio da experiência em primeira mão de Engels ajudando a administrar a empresa da família na cidade.

Até hoje, permanece em aberto a questão de saber se as leis do movimento do capital, formuladas por Marx, se aplicam com a mesma força na China, em Bangladesh, na União Europeia e nos Estados Unidos.

Para completar, Engels também teve a oportunidade de ver Manchester pelos olhos de sua companheira e amante irlandesa da classe trabalhadora, Mary Burns. Foi por meio dela que Engels tomou conhecimento da miséria fétida dos alojamentos dos imigrantes proletários irlandeses da cidade. O fundamento histórico-materialista que Marx sempre almejou em sua obra teórica veio de figuras como Horner, Burns e Engels. É isso que confere uma aura tão poderosa de precisão e autenticidade aos escritos de Marx. E é isso que explica, em parte, como e por que as teorizações de Marx daquela época ressoam até nós de forma tão convincente, mesmo vivendo em tempos tão diferentes. Contudo, isso também dá substância à visão de que as formulações teóricas de Marx podem estar contaminadas pelas particularidades do caso de Manchester ou, de forma mais ampla, por perspectivas anglocêntricas ou eurocêntricas.

O Capital se Globaliza

Mas o capital, como sistema econômico, era eurocêntrico em sua origem e continuou sendo ao longo de sua vida. Surgiu em sua forma industrial na Grã-Bretanha e se espalhou pelo mundo, mas, ao fazê-lo, teve que se adaptar a diferentes condições e assumir diferentes formas. De tempos em tempos, teve que confrontar formações sociais protocapitalistas e formas híbridas em outros lugares. Marx também teve que lidar com regiões de desenvolvimento estagnado, economias regionais onde prevaleciam barreiras aparentemente intransponíveis ao pleno desenvolvimento capitalista (por exemplo, o Sul dos Estados Unidos até recentemente ou a região atrasada do Sul da Itália que Antonio Gramsci confrontou).

Marx universaliza as qualidades e o caráter do modo de produção capitalista por meio das particularidades da Grã-Bretanha de meados do século XIX em geral e do industrialismo de Manchester em particular. Como teorizar sua natureza era o desafio que, antes de Marx, preocupava tanto Adam Smith quanto David Ricardo. Como destilar alguns conceitos e relações universais a partir da miríade e do volumoso registro de práticas sociais, como, por exemplo, as trocas de mercado e a produção capitalista em todo o mundo, e como garantir que qualquer aparato conceitual derivado seja “adequado” para (como diria Marx) interpretações válidas das “leis do movimento” do capital em geral? Até hoje, permanece em aberto a questão de se as leis do movimento do capital estabelecidas por Marx se aplicam com a mesma força na China, em Bangladesh, na União Europeia e nos Estados Unidos.

A tentativa de Marx de encontrar uma resposta para esse tipo de questão — uma questão que confronta todas as tentativas de teorizar o capital — precisa, em primeiro lugar, lidar com uma intensa hostilidade a tudo que é marxista, particularmente na tradição anglo-americana. Como Walter Rodney observa com perspicácia: dentro dessa tradição, “sabe-se que [o marxismo] é absurdo sem lê-lo e não é preciso lê-lo porque se sabe que é absurdo”.

Mesmo que as apresentações de Marx possam ter sido precisas e relevantes para o local e a época de sua origem, sua validade para Vladimir Lenin e Mao Tsé-Tung, bem como para movimentos tão diversos quanto o movimento revolucionário de Amílcar Cabral na Guiné-Bissau, o governo revolucionário de Thomas Sankara em Burkina Faso ou o trabalho revolucionário de Rodney na Guiana, precisa ser demonstrada. Rodney tem, talvez, a resposta mais sucinta. O que importa não são tanto as descobertas substantivas de Marx, que são sempre influenciadas pelas circunstâncias de seu local e época, mas sim seu método de investigação e pesquisa que o levou a essas descobertas substantivas.

O marxismo “parte de uma perspectiva da relação do homem com o mundo material... e, quando surgiu historicamente, dissociou-se conscientemente e se opôs a todos os outros modos de percepção que partiam de ideias, conceitos e palavras”. O marxismo “enraizou-se nas condições materiais e nas relações sociais da sociedade”. Segundo Rodney, este é o ponto de partida: “uma metodologia que inicia a análise de qualquer sociedade, de qualquer situação, buscando as relações que surgem na produção entre os homens”. Disso decorre uma série de consequências: “A consciência do homem se forma na intervenção na natureza, a própria natureza se humaniza por meio de sua interação com o trabalho do homem, e o trabalho do homem produz um fluxo constante de tecnologia, que por sua vez cria outras relações sociais”. Este é o espírito do materialismo histórico de Marx e do Manifesto Comunista em ação.

To the degree that we all now have our being within a material world dominated by capital and the geopolitics of capital’s imperialism, so the method of inquiry must be directed toward understanding “the motor within that system” in order to expose and overthrow “the types of exploitation which are to be found within the capitalist mode of production.” The resultant theory is thereby revolutionary. As Cabral put it: there may be revolutions that have had a revolutionary theory that failed, but “nobody has yet successfully practiced revolution without a revolutionary theory.” While the material conditions of production and social relations in Guinea-Bissau may have been the starting point, the culmination, in Cabral’s view, entails mobilizing the power of revolutionary theory everywhere.

In his single-minded concentration on Manchester industrialism, Marx presumes that the merchants, the bankers, and the landed interest took up the subservient role of serving the needs of an all-powerful industrial capital. In the first two volumes of Capital, Marx largely ignores these other factions of capital. In the first volume, for example, he explicitly presumes that all commodities trade at their value (the market functions perfectly), that “capital passes through its process of circulation in the normal way,” and that the fragmentation of surplus value into rent, interest, and profit on merchant capital in no way affects accumulation. In the Grundrisse, Marx boldly asserts that “the laws of capital are completely realized only within unlimited competition and industrial production.” This rules out any problems that might derive from state-imposed restrictions on competition, monopolization, or the excessive centralization of capital.

There is nothing wrong with abstracting in this way, but major modifications to the theory might be needed in the event of restrictions on competition and shifts in the balance of power between the different factions of capital. It is very unlikely, for example, that the laws of motion of industrial capital are the same as the laws of motion of merchant, banking, or landed capital. In recent times, for example, industrial capital has increasingly been disciplined by the monopsony power of merchant capitalists like Walmart, Ikea, and the major clothing and electronics companies (like Apple). Whole sectors of the economy (such as contract farming) exist in which the direct producers dance to the tune of the merchants or other intermediaries. Likewise, the power of banking and finance, debt and credit, and land and property capital has, at certain times and in certain places, been decisive in shaping capital accumulation and its crises. The revisions that such transformations mandate in Marx’s theory of capital will be examined later.

O foco de Marx no industrialismo de Manchester implicava confrontar as particularidades dos processos de trabalho nas fábricas de algodão e a natureza do mercado de trabalho que ali se definia.

Marx’s focus on Manchester industrialism entailed confronting the particularities of the labor processes in the cotton mills and the nature of the labor market it defined. The power loom weavers were essentially machine minders. The transfer of skills from the laborer into the machine (a transfer that Marx makes much of in Capital and the Grundrisse) entailed a de-skilling of much of the labor force. Unskilled Irish labor and women could easily substitute for what had traditionally been semiskilled male artisans who worked handlooms, although through the “putting out” system in which merchants provided the raw materials and gathered back the finished product.

The depressing effect on wages and living conditions through the employment of Irish laborers posed a problem for Marx. Initially scathing in his criticism of the Irish for their role in redefining the value of labor power downward, he later came to recognize that the answer lay in raising the Irish labor force up as a necessary first step in the organization of class struggle. For the millowners, division within the working class (based on gender, ethnicity, national identity, and religion) was more than welcome. It helped them rule unopposed by pitting one faction of labor against another. Capital presumed the domination of labor by capital. Capital’s power would be consolidated to the degree that it could mobilize other structures of domination (such as race and gender) in support of its domination over labor.

It could be argued that Marx’s focus on the particularities of Manchester’s industrial capitalism biased his vision and that his preoccupation with the doctrines of the free market, competition, and free trade promoted by the industrialists of the so-called Manchester School of Richard Cobden and John Bright somewhat warped his vision. But the factory inspectors, the public health officials, and the parliamentary reports did not confine their observations to Manchester. They went all over the country. And Marx was well aware of the distinctive influence of the Manchester industrial faction in the realm of ideology and politics as well as in their enormous (for that time) centralization of economic wealth and power.

The results were, in a sense, predictable: “One fine morning, in the year 1836, Nassau W. Senior . . . a man famed for his economic science and his beautiful style, was summoned from Oxford to Manchester, to learn in the latter place the political economy he taught in the former.” What Senior learned was that the capitalist’s profit was totally encompassed by the last hour of work in a twelve-hour day and that any shortening of that day to, say, ten hours would spell ruination for the capitalist system because the hours of profit making would disappear.

This “so-called ‘analysis’” prompted a fierce rebuttal, as much directed to parliament as to Senior, by none other than Horner, who worked with the factory inspectors from 1833 to 1857 and “whose services to the English working class will never be forgotten,” as Marx noted. And, of course, the Ten Hours Act was finally passed. The shortening of the length of the working day was, Marx opined, one small but critical step toward a socialist future. It opened a pathway to the realm of freedom — understood as free time — for the working classes.

For the Manchester industrialists of that time, a different kind of freedom — “His Holiness Free Trade,” as Marx called it — was the only kind of freedom that mattered. The economics of free trade were lauded to the skies by the Manchester School and incorporated into state policies across the country and with respect to the industries that at that time dominated in world capitalism. Free trade, it turns out, is always the mantra of the leading capitalist industries and powers. The elaboration and instantiation of the doctrine in the form of the World Trade Organization (WTO) agreements of the late 1990s at the behest of the major global corporations and the United States as the hegemonic power of the moment is the obvious case in point.

Para os industriais de Manchester daquela época, um tipo diferente de liberdade — “O Livre Comércio de Sua Santidade”, como Marx a chamava — era o único tipo de liberdade que importava.

In June 1849, Marx moved to London, where he stayed for the rest of his life. While not a participant in British politics, he followed British political life closely by way of press reports and parliamentary debates. For a while, he earned some much-needed income as London correspondent of the New-York Daily Tribune. During the 1850s, he tried to make sense of British imperial politics for New York readers covering, among other things, the barbarity of the repression of the Indian Sepoy Rebellion of 1857–8, the equal barbarity of the second Chinese opium war of 1858, and the dissolution of the East India Company in favor of British direct imperial rule over India. These were, incidentally, the years when Marx was intensely engaged in writing the Grundrisse. The connection back to Manchester free-trade politics was obvious.

As he noted in 1853:

The ruling classes of Great Britain have had, till now, but an accidental, transitory and exceptional interest in the progress of India. The aristocracy wanted to conquer it, the moneyocracy to plunder it and the millocracy to undersell it. But now the tables are turned. The millocracy have discovered that the transformation of India into a reproductive country has become of vital importance to them.

The Indian market had, for some time, been a major outlet for the huge increase in output of the Lancashire cotton industry. Imperial power had assured the destruction of a long-standing indigenous handloom cotton industry in favor of becoming “inundated with English twists and cotton stuffs.” “The necessity for opening new markets or extending the old ones” was as pressing in India as it was in China and the failure to do either signaled “an approaching industrial crisis” due to “diminished demand for the produce of Manchester and Glasgow.”

The millowners’ answer was to rationalize the space-economy of India by building railroads. Prior to this, the Indians could not use machinery “to work up their cotton, which is sent by ox-carts, sometimes over eight hundred miles over wet lands, to be shipped to the Ganges, thence round the Cape of Good Hope to England, to be fabricated and then returned to the natives at whatever percent above ninety such an operation costs.” The millocracy wanted, needed, and eventually got a railroad system that gave access to cheap raw materials and spatially integrated markets across the Indian subcontinent. Marx records the astonishing increase in British trade in cotton goods to India from £2.5 million to £6.1 million between 1856 and 1859.

It is important to recognize how global this system already was. The Manchester system rested on the slave labor of the cotton plantations in the United States and the markets for the commodities produced were to be found primarily in India, where caste distinctions prevailed. The whole system was managed by British imperial administration in which the Colonial Office in London was prepared to deploy violence and outright repression of whole populations to keep much of the world open for trade.

While the British bourgeoisie in general, and the millocracy in particular, were motivated by the vilest of interests, and promoted their endeavors with the most blatant hypocrisies, the building of the railroads would, Marx hopefully supposed, ultimately mean the building of an industrial system in India that would “dissolve the hereditary divisions of labour, upon which rest the Indian castes, those decisive impediments to Indian progress and Indian power.” The account of globalization in the Communist Manifesto has a contemporaneous ring:

The bourgeoisie has through its exploitation of the world market given a cosmopolitan character to production and consumption in every country. To the great chagrin of reactionists, it has drawn from under the feet of industry the national ground on which it stood. All old-established national industries have been destroyed or are daily being destroyed. They are dislodged by new industries, whose introduction becomes a life and death question for all civilised nations, by industries that no longer work up indigenous raw material, but raw material drawn from the remotest zones; industries whose products are consumed, not only at home, but in every quarter of the globe.

In place of the old wants, satisfied by the production of the country, we find new wants, requiring for their satisfaction the products of distant lands and climes. In place of the old local and national seclusion and self-sufficiency, we have intercourse in every direction, universal inter-dependence of nations. And as in material, so also in intellectual production. The intellectual creations of individual nations become common property. National one-sidedness and narrow-mindedness become more and more impossible, and from the numerous national and local literatures, there arises a world literature.

The stirring up of revolutionary sentiments by these processes might, Marx hypothesized, create opportunities for socialist revolution, though this would depend on how the now ruling classes “shall have been supplanted by the industrial proletariat.” The relations between Manchester industrialism, imperialism, and class struggle were evident, though partly masked by doctrines of free trade that, in Marx’s time, were supported by Manchester School economics and the works of the Ricardian socialist John Stuart Mill.

The Manchester materialist anchor in Marx’s thought produced a critical theory of the role of imperialism, although as experienced and understood from the center rather than from the periphery. But this imperialism was not only about the colonization of markets. It also rested on access to raw materials from the rest of the world and, in the case of raw cotton, Marx was acutely aware that, before the US Civil War, Manchester industrialism rested on the slave economies of the Southern states in the United States.

The intersection of the slave mode of production with a booming capitalist mode of production produced unfathomable brutality at the same time as “labor in a white skin cannot emancipate itself where it is branded in a black skin.” The location of Manchester in the emergent global economy of nineteenth-century capitalism, intermediating between slave labor in the cotton fields of the southern United States and the teeming populations of South Asia as the main market, was of remarkable interest. It pioneered the global production-consumption networks that dominate global capital today.

From Manchester to Birmingham

If, however, forty years after Senior had been summoned to Manchester he had been summoned to Birmingham, he would have encountered a rather different industrial structure in a different global situation with a different mode of labor exploitation (resting on rapidly rising labor productivity) producing for very different markets. Much of the production was relatively small scale (compared to the gargantuan cotton mills) and often highly skilled, even with some degree of primitive mechanization. The Matthew Bolton and James Watt steam engine was manufactured in Smethwick, for example, a suburb of Birmingham. The whole West Midlands region was dominated by a machine tools and metal-working sector that was very different from the cotton mills of Lancashire.




Above all, Birmingham was the center of gun-making and specialized in the production of military equipment, munitions, and artillery. The market for such products is very much tied to state expenditures and state contracts. But the status of the defense industries, and the role of what is conventionally referred to in the United States as the military-industrial complex, is something far beyond what Marx could have envisioned.




In the midst of the “Reagan Recession” of 1982, for example, when unemployment topped 10 percent after Paul Volcker, then chair of the Federal Reserve, raised interest rates to 14 percent to confront an inflation rate of around 17 percent, Reagan ruthlessly cut back on all forms of social expenditure, reduced the top tax rate from around 70 percent to 35 percent, and confronted and broke PATCO, the air traffic controllers’ union.




He then launched a massive increase in defense funding to challenge the Soviet Union to a gargantuan arms race, which in the long run the Soviets disastrously lost. While the rest of the United States swooned in economic depression, the defense industries, scattered in a great arc from Virginia, through the Carolinas, across Texas to Los Angeles, and up to Boeing in Seattle, boomed in an astonishing wave of what some called “military Keynesianism” since it was all deficit financed, leading Republicans like Dick Cheney later to opportunistically say in the George W. Bush years that “Reagan taught us that deficits do not matter.”

Marx poderia ter apresentado uma narrativa teórica diferente em O Capital se tivesse se concentrado no industrialismo de Birmingham — um cenário em que a mudança tecnológica se tornou, desde cedo, um negócio em si.

Precision engineering and making guns and steam engines require very different types of labor from minding a cotton loom. Almost a century later, the West Midlands was the industrial region in which the automobile industry took root, anchored in cities like Coventry, Aston, and even Oxford, with Birmingham as its commercial center, while totally avoiding Manchester and the cotton towns of Lancashire. In the United States, the Massachusetts industrial model of the textile towns like Lowell was likewise radically different from that of steel towns like Pittsburgh or, in later times, Detroit and the auto industry.




Marx might have ended up telling a rather different theoretical story in Capital had he focused on Birmingham industrialism — one where technological change had early on become, as he himself had predicted, a business in itself. Here was a form of industrial organization that drew heavily on agglomeration economies of the sort that Marx had recognized and commented on in Capital.




In the case of Birmingham, its industrialism depended on the emergence of a labor force with distinctive machine-tool skills and modest but livable wage levels in a cultural environment where the working class was primarily divided on the basis of mental versus manual capacities. A workman who had skills in metal forging in the making of steam engines was valuable, and employers had to prevent such workers being lured away by rival firms in Belgium, France, and indeed all over the continent. Conversely, Birmingham manufacturers were happy to employ skilled workers no matter what their background (Polish, Prussian, and so on). Diversity of ethnic or religious background did not matter (as it plainly did in Manchester) as long as the skills were there.




The image of the future that this experience proposed was rather different from that suggested by the Manchester experience of the 1840s. When the International Workingmen’s Association was founded in London in 1864, with Marx prominent in its formation, these were the kinds of skilled and literate workers who were involved from France, Italy, Switzerland, Spain, and other countries. The watchmakers of the Jura Mountain regions along the French-Swiss border in the 1860s were legendary in their political sophistication (the split between Marxist and anarchist currents had not yet occurred).




These were the organizers who collected and sent money in support of strikes and other agitations occurring throughout Europe in the late 1860s, culminating in the Paris Commune of 1871, in which international participation was important and welcomed. On the other hand, these were the relatively affluent workers who constituted an “aristocracy of labour” that Lenin later worried would not only rally to support imperialist and colonial ventures but also be all too ready to compromise with the strategies of corporate capital.




By 1860 or so, the industrialist Joseph Chamberlain (popularly known as “Radical Joe”) was exploring civic reforms in the social provision of gas and potable water, popular education, and housing for the improvement of the “respectable” and adequately skilled working classes. He eventually went some way to implementing his reformist vision as mayor of the City of Birmingham. “Gas and water socialism” was at that time seen as a feasible answer to a whole range of ills backed by widespread local labor discontent.




Chamberlain took steps to realize such a possibility. With a measure of working-class support, “Radical Joe” later became a leading advocate for colonial expansion (the South African Boer War was his most notable contribution), in part impelled by the Conservative Party’s rejection of his reformism. He recognized that, if internal reform and growth of demand in the home market were blocked by bourgeois class power, the only option to expand the market was to seek out a “spatial fix” in the form of colonial ventures and cultivation of foreign markets. The notorious partitioning of Africa by the colonial powers at the Berlin Conference of 1885 was the culmination of a phase of interstate geopolitical rivalries over access to the raw materials and incipient markets of the whole African continent.




The image of the future defined by the Manchester industrialism of the 1840s and 1850s thus plainly did not apply to Birmingham in the 1870s. If Engels’s father had had an industrial establishment in the jewelry, gun, and machine-tool trades in Birmingham rather than a textile factory in Manchester, Capital might have read rather differently, as we have noted. But, against this seeming bias, Marx had the factory inspectors’ reports and the writings of an increasingly militant working class that focused on capital in general rather than on cotton factories in particular.




Where Is Capital’s Future Being Made Now?

Any casual observer might be forgiven for thinking that the Manchester image certainly still does apply to the conditions of life and labor in the Rana Plaza textile and apparel factory, twenty miles outside of Dhaka in Bangladesh, which collapsed on April 24, 2013, killing 1,129 workers, mostly women, and wounding many more. Producing textiles and name-brand apparel for Western markets, the factories were under constant pressure to cut costs for the benefit of Western consumers. Wages were close to starvation levels and factory discipline fierce.




The same could be said of the Foxconn production complex in Shenzhen, China, which produces most of Apple’s products and employed some 250,000 (some said 400,000) workers as of 2011 in one vast factory complex. A spate of worker suicides in that year persuaded the company to festoon the cramped company-provided living quarters of the migrant workers with mile on mile of netting to capture anyone who jumped. It is all too easy to take descriptions of labor and life conditions in the euphemistically dubbed “emerging markets” and insert them into Marx’s chapter “The Working Day” in Capital without noticing much difference. To the people living under such conditions, a dollop of “gas and water socialism” along with some internal social reformism of the “Radical Joe” sort would seem like a gift from heaven.




Capital produces a great deal of uneven geographical development, the qualities of which are often reflected in the particular theories to which economists subscribe. Marx noted, for example, that the protectionist theories promoted in his time by the US economist Henry Charles Carey reflected the needs of US “infant” industries to defend themselves against the dominance of British industrialism. This was the same rationale that produced import substitution industrial policies widespread throughout Latin America in the 1960s under the theoretical aegis of the Economic Commission for Latin America (ECLA).




The French economist Frédéric Bastiat, who fiercely promoted free markets and the virtues of laissez-faire in the early nineteenth century, reflected, in contrast, the struggles of French industrialists to free themselves from the shackles of a costly and inconvenient patchwork of local and national state regulations, taxes, and interventions. This, too, was later echoed in Latin America after neoliberal refutation of the ECLA and the advance of free-trade policies favored by Augusto Pinochet and the Argentinian generals from the mid-1970s on. Even in Marx’s time, the image of the future that the most advanced regions projected was perpetually changing and geographically quite diverse.

O socialismo que deve ser construído para neutralizar o que atualmente é alienante e ameaçador no mundo de hoje precisa ser em constante transformação e geograficamente diverso.

The question then looms as to where and what is that contemporary form of capitalism that projects the image of our own socialist future today? Is it the Rana Plaza textile plant, Shenzhen industrialism, the Amazon warehouse workers, the Google workers in San Francisco, the Microsoft workers in Seattle, or the huge labor forces at the world’s major airports? Yet it was not only an image of everyone else’s future that Marx’s descriptions conveyed but also the image of what might be a socialist or communist alternative utopian reflection (of the sort that the socialist utopians of the 1840s were fond of creating and which Marx and Engels had so firmly rejected in the Communist Manifesto). It was instead constituted through a historical materialist negation of all that was so dreadful on the ground at that time and in that place.

The immediate grounding, in Marx’s case, was heavily reliant on mass production and social reproduction in the industrial region of Manchester. The cruel conditions of the workers in factories, workshops, and down mines along with the equally pitiful conditions of social reproduction in the industrial urbanization that capital had created and that Engels had so pointedly described, called out for negation. The material circumstances and the socialist project to which they pointed spoke for themselves.

It follows that the socialism that must be constructed to negate what is currently alienating and threatening in today’s world must be both constantly shifting and geographically diverse. These questions call for the closest attention, because, in the history of anti-capitalist oppositional politics, there has been a tendency to fetishize a certain imaginary of a socialist future as an ideal, ahistorical construct.

In the same way that John Maynard Keynes feared that we were in perpetual danger of becoming slaves to the thought of some long-defunct economist, so the political threat of obeisance to the ideals and ideas of some long-defunct socialist or communist project also looms. The fixity of our mental conceptions acts as a drag on our ability to think, let alone freely act on the political projects now required to create a more just, more ecologically acceptable, and more emancipatory socialist world. To put it in such terms is not to invite yet another bout of utopian dreaming (though a little more of that would not hurt). It is to construct an accurate, properly theorized account of what capital is currently about, much as the factory inspectors provided back in Marx’s time, and, on that basis, to take feasible steps toward the creation of a freshly conceived socialist alternative adequate to our current situation.

What this might mean depends, however, on geographical conditions. The problems posed by capital in Latin America are quite different from those in Sweden, where the whole country went into mourning with the death of the founder of IKEA, Ingvar Kamprad, who was lionized as a national folk hero. Yet there is a distressing habit of theorizing socialism as a political project outside of any historical and geographical grounding, even if capital’s basic laws of motion are invariant and universal enough within capitalism to demand and command respect everywhere.

It is significant, therefore, that, when Lenin came to power in Russia in 1917, he pursued an industrial policy based on the principles put forward by Henry Ford as the best and fastest way to increase the productivity of labor and build an economy capable of resisting the counterrevolutionary forces seeking to undermine the fledgling communist revolution.

While Lenin’s strategy worked in building industrial capacity, it came at the cost of perpetuating capital’s social relations. When China entered the global economy after 1978 and, in particular, when it signed on to the WTO in 2001, it had no choice but to submit to the laws of motion of capital. It is the operation of those laws that connects the industrialism of Manchester in the 1840s to contemporary conditions in Shenzhen’s Foxconn factories and those of Rana Plaza in Bangladesh. It also explains why China is now modeling itself on Silicon Valley, a very different imaginary of a capitalist future, while attempting some version of gas and water socialism along with “common prosperity” zones through equal access to housing, health care, and education (the “three mountains” that China has to climb to quell rising discontent).

While Marx’s work is open to critique and dismissal as that of some “long-defunct (Eurocentric) economist,” we still live under the rule of capital. The admittedly incomplete theory of capital circulation and accumulation that Marx laid out is plainly still relevant. His theorizing transcended the particularities of Manchester, and his “concrete abstractions” are robust and flexible enough to encompass Manchester and Birmingham or Shenzhen and Silicon Valley, provided we allow for the particular conditions within which Marx was working.

His account of relative surplus value is rooted in the British experience with strong reference to the Manchester system and the cotton industry. In Marx’s time, the industrial form of capital and its distinctive laws of motion dominated only in Britain, Western Europe, and the Eastern seaboard of the United States, with some mercantile outliers sprinkled across the rest of the world. But in our times, thanks to the relentless push to create an ever deepening and expanding world market, the economy is subsumed almost everywhere under the laws of motion of capital that Marx uncovered.

Marx’s account of those laws and how they work is thus more relevant than ever (which is not to say that our account of them cannot be improved and extended, or that problems of interpretation and application should not trouble us). The charge of Eurocentrism has to be set against the fact that capital itself may be Eurocentric, in the sense that it originated in identifiable and hegemonic form in the Italian city-states before mutating under the hegemony of the Low Countries (with Amsterdam as its center), moving to Britain (where Marx encountered it), and then in the last century to the United States.

These hegemonic shifts, in Giovanni Arrighi’s account, entailed a change of scale as well as a deepening of institutional arrangements ordered around rising capitalist state power. But in the same way that Marx, toward the end of his life, detected a rising challenge to British hegemony by the increasing centralization of capital in the United States after the end of the Civil War, we currently wonder to what extent a Sino-centric influence is beginning to emerge to challenge the current hegemony of the United States.

Uma política socialista precisa reconhecer as qualidades, os problemas e as contestações que surgem na totalidade da circulação da capacidade de trabalho, bem como no ponto em que esta se cruza com a acumulação de capital.

A escassez de informação da qual Marx se queixava já não é um problema. Há uma abundância de informações detalhadas sobre as condições das classes trabalhadoras em todo o mundo, as condições de sua reprodução social, as falhas da assistência social e as condições precárias próximas ao trabalho escravo em certas regiões. Existem inúmeros relatos de situações de vida e aprendizado extremamente difíceis em muitas partes do mundo e das condições de pobreza opressivas em que as pessoas lutam para sobreviver com quase nada.

Existem inúmeras monografias de pesquisa, além de volumosos relatórios de organizações internacionais como as Nações Unidas, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, o Banco de Compensações Internacionais e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), juntamente com o vasto acervo de informações coletadas por ONGs (por exemplo, os relatórios periódicos da OXFAM), autoridades estatais e organizações comerciais (principalmente para fins de marketing, mas ainda relevantes).

Sofremos com uma abundância, e não com uma escassez, de informação. As técnicas de mineração de dados em massa e manipulação da mídia proliferaram. Mas também há muita desinformação (hoje em dia rotulada como “notícias falsas”). O excesso de informação é, em certos aspectos, mais um problema do que uma bênção. Há tanta informação que grande parte do público não consegue acessá-la, muito menos compreendê-la. Não poucos dos chamados “especialistas” que são chamados a nos esclarecer parecem tão confusos quanto todos os outros, mesmo quando conseguem deixar de lado as predileções ideológicas há muito implantadas por séculos de estudos burgueses enganosos sobre assuntos relacionados à chamada luta de classes e economia política.

Como analisar e interpretar a informação é algo controverso, e a mídia a distorce tanto para obter ganhos políticos quanto para facilitar a compreensão. Isso nos deixa com sérios problemas. Para Marx, foi relativamente fácil enxergar o panorama geral, pelo menos da perspectiva do industrialismo de Manchester e dos relatórios dos inspetores de fábricas, e vislumbrar as negações que definiriam um projeto socialista para aquele lugar e época. O desafio para nós parece muito mais complexo e talvez indeterminado.

O ponto de partida mais óbvio é o estado atual da luta política e dos protestos no mundo, juntamente com uma compreensão da dinâmica, incluindo as oscilações entre a direita e a esquerda, que influenciam o cenário atual. Parece haver um aumento nas lutas trabalhistas em todo o mundo — tanto oficiais e lideradas por sindicatos quanto espontâneas ou meramente reativas a alguma falha grave de política pública ou excesso de ganância corporativa. Muitas dessas lutas, na Índia, Bangladesh, Indonésia e China, por exemplo, ecoam as lutas tradicionais que surgiram contra o industrialismo de Manchester.

Mas a maioria dos grandes movimentos de massa nos últimos tempos tem se concentrado na incapacidade do modelo econômico dominante de proporcionar as qualidades de vida necessárias para satisfazer até mesmo as necessidades mínimas da grande maioria da população. A alienação da natureza e os níveis cada vez maiores de desigualdade social, medidos principalmente pela riqueza financeira e patrimonial, bem como pela renda, geram fortes correntes de ressentimento devido à privação relativa. A austeridade que muitas vezes é exigida poderia ser aceitável se não estivéssemos cientes dos enormes incrementos de riqueza e poder que são drenados da economia pelos oligarcas e autocratas que exercem tamanha influência sobre as políticas públicas.

Embora os movimentos Occupy contra o "1%" não tenham se sustentado, o gosto amargo e a preocupação com o aumento, em vez da diminuição, das desigualdades permanecem. É esse tipo de situação que fornece uma base histórico-materialista para alguém como Thomas Piketty reviver a tradição do socialismo ricardiano, sem recorrer à teoria do valor-trabalho, e defender o princípio de um imposto global abrangente sobre a riqueza.

Então, como devemos interpretar essa história e essa situação em relação a qualquer estratégia socialista emergente? Uma política socialista precisa reconhecer as qualidades, os problemas e as contestações que surgem na totalidade da circulação da capacidade de trabalho, bem como no ponto em que ela se cruza com a acumulação de capital. Quando a alienação domina todos os diferentes momentos da circulação da capacidade de trabalho, profundos problemas se avizinham. Isso é algo que a “suposta análise” da economia contemporânea tende mais a ocultar do que a revelar.

Colaborador

David Harvey é um renomado professor de antropologia e geografia no Centro de Pós-Graduação da Universidade da Cidade de Nova York. Seus livros mais recentes são The Ways of the World e The Anti-Capitalist Chronicles.

21 de abril de 2023

O neoliberalismo está se tornando violento e despótico

Visitando Paris David Harvey fala sobre o estado do capitalismo, os limites da versão esquerdista do populismo, a importância das cidades francesas e as lutas como antídoto para tendências autoritárias na crise.

Uma entrevista de
David Harvey



Entrevistado por
Mathieu Dejean e Romaric Godin

Tradução / David Harvey é uma das figuras mais importantes do marxismo contemporâneo. De passagem por Paris, reuniu-se com Jean-Luc Mélenchon no dia 12 de abril, a convite do Instituto La Boétie. Grande crítico do capitalismo e incansável intérprete do pensamento de Karl Marx, geógrafo e pensador acerca dos efeitos concretos do capital na sociedade, este britânico de 88 anos sempre fora um observador atento da realidade econômica, social e geográfica.

Além desta reunião e de uma série de palestras na França, David Harvey concordou em responder perguntas do Mediapart sobre a situação atual do capitalismo, sua relação com o ex-candidato do La France insoumise (LFI) às eleições presidenciais, e Marx.

Mathieu Dejean e Romaric Godin

Sua reflexão sobre o capitalismo inclui uma importante teoria da crise. A partir de 2020, parece começar uma nova crise, que acaba de experienciar um novo episódio com a crise bancária. O que você acha da situação atual do capitalismo?

David Harvey

Gostaria de salientar alguns fatos para responder a essa pergunta. O primeiro é que, hoje, é muito difícil imaginar qual será o futuro do capitalismo porque não está claro que rumo tomará a China, que é um ator crucial. A minha opinião é que a China evitou em 2007-2008, ao capitalismo, uma depressão comparável à dos anos 1930. Desde então – e antes da chegada da covid-19 – a China representava cerca de um terço do crescimento mundial, o que é mais do que o Reino Unido e Estados da Europa juntos. Portanto, é impossível, nas atuais circunstâncias, prever o rumo que o capitalismo tomará sem saber o rumo que a China tomará.

O segundo fato que me parece importante é que, dentro do mundo capitalista, houve grandes colapsos financeiros desde a década de 1980. Em cada crise, os bancos centrais responderam aumentando a liquidez. Agora, caminhamos para a próxima crise que exigirá ainda mais liquidez. Então, na minha opinião, estamos em uma situação perigosa em que o capital está se acumulando como resultado dessas transfusões de dinheiro. Tudo parece um Esquema Ponzi global1 e os esquemas Ponzi geralmente terminam muito mal. A dificuldade aqui é que não há como os Estados suportarem uma crise financeira se as finanças ocidentais forem baseadas em um esquema Ponzi…mas então a questão é se eles podem conter essa crise, e não tenho certeza se podem.

O terceiro fato importante para mim é a questão das transferências internacionais de tecnologia. Desde a década de 1950, os Estados Unidos não impediram, e às vezes até encorajaram, as transferências de tecnologia para o Japão, Taiwan e Coreia do Sul. Ao fazer isso, eles obviamente tentaram conter a China em sua forma comunista e cercá-la com uma rede de países de renda média alta.

O que aconteceu quando a China se abriu? O capital do Japão, da Coreia do Sul ou de Taiwan investiu maciçamente na China, trazendo consigo transferências de tecnologia do passado. Agora os Estados Unidos estão tentando bloquear a transferência de tecnologia para a China, o que me parece estúpido. Em parte porque é impossível, mas também porque se você bloqueia o desenvolvimento da China, que salvou sistematicamente o capitalismo, você não está fazendo nada de muito positivo para o próprio capitalismo.

Nos Estados Unidos há muitas opiniões diferentes, mas se há algo em que o Congresso está em sincronia com o presidente Biden é em sua política anti-China. Se essa política for bem-sucedida, acho que veremos o mundo mergulhar em um crescimento negativo. E isso vai causar muita oposição, tumultos e revoltas. Já estamos vendo muitos desses eventos se desenrolarem diante de nossos olhos.

Mathieu Dejean e Romaric Godin

De fato, esses três elementos aparecem como as principais contradições do capitalismo contemporâneo. Em seu trabalho, você insiste na natureza endêmica das contradições e, portanto, das crises no capitalismo. Segundo sua obra, essas crises sempre assumem a forma de processos violentos de desvalorização do capital. Com essa forte intervenção do Estado, fica a sensação de que esse processo está travado. O que você acha disso?

David Harvey

Não. Na verdade, esse processo de desvalorização já está acontecendo. Há desvalorizações contínuas. Mas a verdadeira questão é: quem perderá valor? Em 2007-2008, nos Estados Unidos, sete milhões de famílias perderam suas casas. Eles perderam 80% de seus bens devido à grande perda de valor de suas casas, principalmente a comunidade afro-americana. Ao mesmo tempo, os bancos foram salvos. Houve uma transferência massiva de direitos de propriedade para os bancos em decorrência dos despejos. Esses direitos foram vendidos a baixo custo, graças a resgates bancários, para empresas como a Blackstone. A Blackstone é, agora, a maior proprietária de direitos do mundo. A perda de valor das pessoas nos Estados Unidos acabou no bolso da Blackstone. Stephen Schwarzman, que dirige esta empresa, é agora um dos maiores bilionários do mundo. E ele tem sido um dos principais apoiadores de Donald Trump. Então, você tem que escolher: salvar os bancos ou salvar as pessoas. E desde a década de 1970 a escolha dos governos sempre foi resgatar os bancos. Então, o que a gente vê é a desvalorização do patrimônio e da poupança das pessoas.

Mathieu Dejean e Romaric Godin

E hoje?

David Harvey

Hoje vejo outros processos importantes de desvalorização. Por exemplo, não se sabe exatamente quantas pessoas perderam dinheiro durante a crise cambial. Mas os investidores individuais podem ter perdido até quarenta bilhões de dólares. Muitos ricos, como atletas, incentivaram as pessoas a investir nesses ativos, garantindo-lhes altos retornos. E essas pessoas colocam sua renda nessas moedas de computador. Agora o mercado desabou e eles perderam dinheiro.

Algo semelhante está acontecendo na China com a crise do desenvolvimento imobiliário. Xi Jinping disse que o mercado imobiliário é para viver, não para especular, mas muitas pessoas especulam na China. No caso chinês, as pessoas compraram ações de projetos futuros antes mesmo de começarem. As pessoas compraram até cinco ou seis apartamentos e aproveitaram o aumento do preço de mercado entre a compra e a entrega. Mas quando a empresa principal, Evergrande, faliu, muitos de seus andares ficaram inacabados. As pessoas se viram tendo que pagar parcelas de crédito por algo que não existia. É por isso que houve uma greve de depreciação na China, o que foi muito interessante. O governo então teve que concordar em tomar medidas sobre o assunto e terminar as construções. Essas coisas são difíceis de analisar em detalhes. Mas o que se pode deduzir é que uma crescente concentração de riqueza em 1% ou 10% da população aumenta a centralização do capital em torno de empresas como Blackstone ou BlackRock. E, para mim, a ameaça de desvalorização reside nesse fenômeno. O Credit Suisse foi adquirido pelo UBS, dois ou três outros bancos foram resgatados nos EUA, acho que haverá mais... Então a desvalorização do capital está acontecendo em uma escala já significativa. Governos e bancos centrais estão preocupados com o que chamam de “contágio” e, por isso, tentam conter a crise. Veremos até onde eles podem chegar sem emitir novas ondas de liquidez, enquanto os bancos centrais tentam sair da flexibilização quantitativa.

Mathieu Dejean e Romaric Godin

Assim como Jean-Luc Mélenchon, com quem você debateu recentemente, você destina, em sua teoria, um lugar importante à cidade. O que aproxima você dele neste momento?

David Harvey

Acho que compartilhamos a crítica à mercantilização da cidade. A crise imobiliária é global. Há quase sessenta mil desabrigados em Nova York e as famílias estão amontoadas em apartamentos apertados porque não podem pagar nada melhor. Há um boom imobiliário que equivale a construir moradias para as classes que podem especular, sem fazer nada para a massa de pessoas que estão desesperadas por moradia digna. Devemos controlar os aluguéis e acabar com a mercantilização da habitação. Mas, com o neoliberalismo, tudo é mercantilizado. Por isso não acho que tenha chegado o seu fim: educação, saúde ou mesmo moradia ainda são muito mercantilizados. Não vejo nenhum partido político lidando com essas questões, com exceção de Mélenchon e La France insoumise, e há muitas outras coisas em que concordamos.

Vocês também têm em comum o fato de integrarem a alienação do tempo em suas críticas da vida urbana cotidiana...

De fato, penso, como Henri Lefebvre, que as pessoas estão alienadas das condições da vida cotidiana, e em particular do tempo roubado pelo desenvolvimento do capitalismo. Por isso fico desesperado ao ver que ainda existem programas de esquerda que só focam nas condições materiais de vida.

Quando se fala em alienação, fala-se de um sentimento de perda de sentido que o enorme aumento da propaganda burguesa – por meio de shows, filmes, entretenimento – não consegue nos fazer esquecer. Não acho que as pessoas estejam satisfeitas com seu estilo de vida. A insegurança no trabalho tem muito a ver com isso. Nos anos 1960, quando as pessoas tinham empregos estáveis, posições consolidadas, vizinhos que conheciam e encontravam na rua, era mais fácil encontrar sentido na vida. Hoje tudo se torna frágil. Precisamos de um projeto político que se encarregue dessa questão e do direito à cidade.

Mathieu Dejean e Romaric Godin

A teoria pós-marxista de Mélenchon sobre a "era do povo" é influenciada pelos filósofos Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, que enxergam o "povo" como o novo motor da história, e não mais a classe trabalhadora. Qual é a sua posição sobre este ponto de vista?

David Harvey

Não concordo com eles, mas acho que o que Mélenchon está caminhando em uma direção diferente. Sempre me pareceu que a esquerda fetichiza a luta de classes nos estabelecimentos manufatureiros e tende a tratar os movimentos sociais urbanos, como a luta contra a gentrificação, como elementos secundários. Minha versão da teoria marxista é que esses elementos fazem parte de um todo. Quando alguns falam em “circulação da capacidade produtiva”, vejo os trabalhadores lutando contra as empresas de cartão de crédito, contra os proprietários, contra as empresas farmacêuticas ou de telefonia móvel. Para mim, faz parte da luta de classes. Quando Laclau e Mouffe dizem que temos que ir além da ideia tradicional que temos do proletariado, concordo com eles, mas continuo trabalhando em bases marxistas, enquanto Laclau, em particular, tende a querer descartar a ideia marxista como uma criança com a água do banho.

A propósito, não gosto muito da palavra “populista”, mas entendo o que Mélenchon quer dizer quando argumenta que precisa de um movimento que aborde tudo o que está errado na vida das pessoas, e não apenas a classe trabalhadora tradicional, mesmo que esta ainda seja importante. Conversando com ele, não acho que ele se sente particularmente ligado ideologicamente a Laclau e Mouffe, mas que ele queria algo amplo o suficiente para construir um partido político e também, de forma mais geral, um movimento social em torno das transformações de todas as formas de vida urbana, não somente das fábricas manufatureiras.

Mathieu Dejean e Romaric Godin

Você diz que a luta contra a alienação deve ser integrada em um programa político, mas um programa político com vocação majoritária na sociedade pode ser construído lutando contra a alienação da maioria da população?

David Harvey

Sim, a menos que haja um problema a resolver. Populações alienadas não necessariamente apoiam programas de esquerda, elas podem se tornar fascistas e, de fato, há ampla evidência de que elas se moveram mais para a extrema direita do que para a esquerda ultimamente.

A esquerda deve capturar essa raiva e mobilizar essas populações passivo-agressivas. Infelizmente, a esquerda não faz isso. Na Grã-Bretanha, ao menor sinal de raiva, o Partido Trabalhista recua, condenando os “extremistas”. Quando três parlamentares trabalhistas ousaram realizar um piquete recentemente, foram expulsos pela liderança do partido! O Partido Trabalhista está decidido nisso. Então, acho que podemos aprender com Mélenchon que, pelo que sei, ele compartilha dessa raiva e não tem medo dela: ele sabe de onde ela vem.

Mathieu Dejean e Romaric Godin

Em O Neoliberalismo: história e implicações, você escreveu que ele só pode sobreviver tornando-se violento e autocrático. Não é isso que vemos hoje na França na decisão de Macron diante das mobilizações contra a reforma da previdência?

David Harvey

Sim, é contra isso que estamos lutando, claramente. Estamos nos aproximando do fascismo dos anos 1930, é contra isso que temos que lutar. Tudo indica que a França se encontra em um beco sem saída, entre um poder surdo e uma mobilização exausta pela repressão.

Mathieu Dejean e Romaric Godin

Você, que trabalhou com movimentos revolucionários e sua dimensão urbana, acha que uma revolução do tipo do século XIX ainda pode acontecer hoje?

David Harvey

Certamente a situação hoje é radicalmente diferente do que era no século XIX. Não há mais a possibilidade de invadir a Bastilha ou o Palácio de Inverno. Se fôssemos atacar algo, teria que ser os bancos centrais, mas o que faríamos uma vez lá dentro? (risos). Durante a Comuna de Paris, os insurgentes, ao contrário, protegeram o Banque de France, percebendo seu erro tarde demais. Hoje, o capitalismo está organizado de tal forma que, em alguns aspectos, quase parece grande demais para entrar em colapso. Mesmo que alguém seja a favor da transição para o socialismo, imagino que ainda desejaríamos ter telefones celulares, computadores e, portanto, a internet. Mas como eles são feitos e quem os faz? Essas empresas estão bem estabelecidas. É possível que, se desabassem, não haveria mais computadores nem telefones celulares. Se isso é socialismo, pode apostar que as pessoas vão pedir a volta do capitalismo! As pessoas me criticam quando digo isso, mas, de forma realista, você pode imaginar uma sociedade socialista que preferiria rejeitar computadores, ferramentas de comunicação, inteligência artificial do que usá-los? Vamos pensar sobre isso.

Mathieu Dejean e Romaric Godin

Dado que é difícil revolucionar o cotidiano urbano e que existe uma consciência ecológica cada vez maior, não acha, como Kristin Ross, que as revoluções vão começar agora no campo, nas zonas que devem ser defendidas?

David Harvey

Toda a história do capital está repleta de movimentos alternativos desse tipo. Eles não são absurdos ou inúteis. Esses movimentos podem ser a semente para a construção de uma alternativa real. Se eu pudesse planejar tudo, faria as pessoas saírem da metrópole, trabalharem longe da metrópole – agora é possível – , que as estruturas comunitárias sejam ecológicas, que cada um tenha seu próprio terreno para plantar hortaliças. É uma resposta importante aos problemas colocados pela agricultura capitalista. Morei na Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial, quando metade da produção de alimentos vinha das hortas! Há muito que se pode tirar dessas alternativas. Mais uma vez, isso vai me causar problemas com os marxistas ortodoxos, porque às vezes eu digo coisas que me fazem parecer um anarquista! (risos)

Mathieu Dejean e Romaric Godin

Na verdade, você é mais Kropotkin do que Marx!

David Harvey

Sim, e Élisée Reclus! Gosto muito deles. Gosto muito da frase de Henri Lefebvre quando perguntado por que ele era marxista e não anarquista: “Sou marxista para que um dia possamos todos viver como anarquistas!”. É uma resposta muito boa. Sou um anarquista antiquado, gosto de ler Murray Bookchin, Kropotkin. Élisée Reclus merece ser incorporado, e aprimorado, em nossas considerações. Isso provavelmente faz de mim uma espécie de herege.

Mathieu Dejean e Romaric Godin

Você tem feito muito para ajudar o pensamento marxista a sobreviver ao rolo compressor neoliberal. Recentemente, publicou A Companion to Marx's Grundrisse (2022) [Um guia para os Gundrisse de Marx]. Por que ainda é importante, para você, ler Marx e falar sobre seu pensamento?

David Harvey

Pode-se dizer que sou um pouco obsessivo! A primeira razão é que não apoio a corrente hegemônica da economia contemporânea. É tão errado! Acho que Marx construiu uma compreensão muito mais precisa e relevante do capital e da economia do que os economistas burgueses. Eu quero desafiá-los. Não é fácil, porque eles têm dinheiro, têm mídia, têm “credibilidade”. Mas vamos dar exemplos.

David Ricardo tinha uma teoria do valor-trabalho. Muitas pessoas que trabalham nesta tradição olham para a situação e dizem: se o trabalho é a fonte de todo valor, como é que o trabalho é tão mal remunerado? É uma questão moral óbvia. Isso deu origem ao “socialismo ricardiano” na década de 1840, que deu origem ao socialismo de John Stuart Mill. John argumentou que não podemos fazer nada com a produção, mas que podemos redistribuir o máximo de valor possível para as pessoas que o produzem. Thomas Piketty, Elizabeth Warren e Bernie Sanders fazem parte dessa tradição.

Marx não apreciava essa tradição porque ela não levava em conta a produção. Mas ela levanta uma questão moral fundamental, que se tornou muito forte no movimento cartista da década de 1840.  

Naquela época, os economistas marginais diziam: não devemos mais pensar em valor apenas a partir do trabalho, mas sim agregando o valor da propriedade, do capital e do trabalho. A importância desses três fatores de produção deriva de sua relativa escassez: se os capitalistas temem a escassez, têm direito a receber muito mais do que o trabalho, que é abundante. Os chefões de Manchester ficaram entusiasmados com essa nova teoria econômica porque ela erradicava a questão moral, e a teoria de John Stuart Mill só sobreviveu através de algumas formas de social-democracia desde 1945. 

O capital, ainda hoje, se baseia nessa teoria! Ele legitima taxas de retorno de renda superiores às do capital, a ponto de haver excesso de capital. Então, deveria haver um reequilíbrio a favor do trabalho, mas é claro que isso não está acontecendo. Se você disser a um economista, em qualquer faculdade, para levar a sério essa teoria do valor, eles vão rir na sua cara! É ridículo. 

Portanto, temos que voltar a essa questão moral. Porque, uma vez levantada, as pessoas começam a se questionar e, a partir daí, pode-se passar para a próxima etapa, que é levantar a questão da destruição da produção capitalista. É por essa razão que Marx oferece uma alternativa. Ele pensa que o capital não é algo, como pensam os economistas burgueses, mas um processo no qual ele assume diferentes formas. Tem uma flexibilidade incrível. 

Por outro lado, Marx me é muito útil para entender os fenômenos da urbanização. Por exemplo, Marx explica que os capitalistas investem em atividades improdutivas de propósito, para evitar o excedente de produção criado por seus investimentos. Veja a urbanização contemporânea nos Estados do Golfo, é bastante reveladora! Os capitalistas investem em ativos inadimplentes, a taxas enormes, para obter lucro. Eles fazem isso em parte por razões ecológicas, porque, caso contrário, a pressão sobre o meio ambiente seria catastrófica.

Meu objetivo é difundir uma teoria marxista compreensível, ser um pedagogo, para que os sindicatos e os movimentos sociais se apropriem dela. De certa forma, esta é a razão pela qual a hegemonia marxista entrou em colapso na década de 1980: era muito sofisticada, não tinha uma base real para explicar o que estava acontecendo na vida cotidiana. Acho que essa barreira está prestes a ser superada.

Colaborador

David Harvey é professor de antropologia e geografia no Graduate Center da City University of New York. Seu último livro é Companion to Marx's Grundrisse (Verso, 2022 a ser lançado em italiano pela Alegre). Este artigo foi publicado no Mediapart e o publicamos com a devida permissão. A tradução é de Riccardo Antoniucci.

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