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17 de julho de 2014

Como devemos pensar sobre o Califado?

Em muitos aspectos, o Isis é uma organização muito moderna. O folheto detalhando suas atividades de 2012-13 é como um relatório corporativo de última geração.

Owen Bennett-Jones

London Review of Books

Vol. 36 No. 14 · 17 July 2014

Em seu recente vídeo de propaganda, Clanging of the Swords: Part 4, o Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL) apresentou uma série bem editada de execuções grotescas. Trinta e oito pessoas foram filmados sendo mortos: um homem assassinado quando corria pelo deserto, tentando escapar de pistoleiros numa pick-up 4x4; outro, baleado no próprio carro; um, morto em casa, quando o EIIL invadiu o quarto e o degolou. Difícil acreditar que o que se vê na tela realmente aconteceu, até que a desumanidade sem fim é interrompida por um momento ocasional. A certa altura, um pistoleiro anda por uma de uma fileira de jovens ajoelhados, com as mãos atadas às costas. Faz mira com uma pistola na nuca de cada um, atira, vê o corpo tombar à frente numa poça de sangue, anda para o seguinte e repete o movimento. Então, um dos ajoelhados tem a ideia de tentar salvar-se se antecipando ao tiro e, um microssegundo antes do tiro, atira-se para a frente, fingindo-se de morto. Escusado será dizer que o artifício não funciona.. Há também imagens de pistoleiros do EIIL dirigindo por uma cidade, quando, sem motivo aparente, põem as Kalashnikovs para fora das janelas do carro e atiram contra dois homens que andam pela calçada. Um deles é atingido e cai. O carro avança, e os atiradores do EIIL continuam atirando até que os dois estejam imóveis no chão. Presumivelmente, queriam ter certeza de que os dois estão mortos. Depois que se afastam, o segundo homem – surpreendentemente ainda ileso – corre por sua vida em outra direção.

Você poderia supor que um filme que mostra a própria organização matando gente ao acaso pelas ruas não atrairia novos recrutas. Mas os vários spots que o EIIL distribuiu alcançaram dois objetivos. Primeiro, aterrorizaram o exército do Iraque, minando o desejo dos soldados de defenderem o estado iraquiano. Mensagens ameaçadoras enviadas diretamente para telefones celulares reforçam o efeito. Segundo, o EIIL rapidamente abriu caminho até converter-se em imagem global. Até há poucas semanas, só leitores especializados os conheciam. Não tinham sequer nome fixado: uns diziam EIIS, outros diziam EIIL. A distinção já não importa, porque, agora, a organização se rebatizou como Estado Islâmico; e Abu Bakr al-Baghdadi é seu califa. Chame-se como for, o apelo deles está nas imagens de jovens com cabelos e barbas ao vento, em cenários desértico-rurais, livres da parafernália da vida moderna – exceto os rifles de assalto e a munição cruzada no peito. A conversa é toda sobre dever, sacrifício e martírio.

Mas em vários aspectos, o EIIL é organização muito moderna. A brochura em que detalham as atividades de 2012-2313 é um relatório perfeito, moderno, das atividades de uma empresa comercial privada. A página mais impressionante, graficamente impactante, mostra 15 ícones em silhueta – bombas-relógio, algemas, um carro, um homem correndo – cada um representando um campo de atividades: bombas plantadas em acostamentos de estradas, prisioneiros resgatados, carros-bomba, casas saqueadas de apóstatas. Ao lado da imagem de uma pistola, a palavra “assassinatos” e o número 1.083: são os assassinatos predefinidos [“targeted killings”] que o EIIL diz ter consumado no ano ao qual corresponde o relatório técnico. Foram 4.465 bombas em acostamentos; 160 ataques-suicidas e mais de uma centena de apóstatas que se arrependeram. E essas estatísticas impressionantes relacionam-se ao período anterior ao maior feito jihadi desde o 11/9: a conquista, pelo EIIL, da segunda maior cidade do Iraque, Mosul. O EIIL é também o primeiro grupo jihadi a ocupar terra contígua em dois países. Pode-se argumentar que a al-Qaeda fez o mesmo em áreas de fronteira no Afeganistão-Paquistão, mas só sobrevivia porque permanecia nas sombras. O EIIL, ao contrário, movimenta-se pelo nordeste da Síria e por vastas áreas do norte do Iraque em quase completa liberdade. Sempre houve algum braço do Islã com aspirações globais acima das fronteiras nacionais: agora o Estado Islâmico quer pôr aquelas ideias em prática. Um dos primeiros atos do califa foi mandar tanques destruir todos os postos de fronteira entre o Iraque e a Síria.

Houve muitos comentários sobre os voluntários estrangeiros atraídos pela ideologia pan-islãmica de Baghdadi. Pode-se pensar que recrutas da Europa Ocidental, principalmente, poderiam ser mais problema que ajuda: muitos não falam árabe e foram criados com tais confortos que terão dificuldade para se adaptar a vida jihadi. Mas também têm vantagens. Podem ser bem-educados, trazem a dedicação junto com os passaportes ocidentais. Podem servir como suicidas-bombas. A abertura do EIIL a combatentes estrangeiros já rendeu dividendos, embora a imprensa ocidental esteja mais preocupada, mesmo, é com o problema que eles serão quando retornarem às sociedades que os criaram e alimentaram e educaram. Autoridades britânicas dizem que 500 muçulmanos do Reino Unido estão hoje lutando na Síria e no Iraque; e que os que sobreviverem e retornarem serão numerosos demais para que os serviços de segurança consigam vigiá-los de perto. Mas, de fato, não há nada nem remotamente semelhante a ameaça existencial contra o Reino Unido. Muitos dos jovens que foram para o Oriente Médio fizeram-no precisamente porque não consideram que o inimigo seja o Reino Unido e não têm interesse em atacar alvos britânicos. E um dos aprendizados que se extraíram dos vários programas de desradicalização que existem agora por todo o mundo é que, por mais que os jihadis tenham ar feroz, quase sempre são indivíduos de vontade muito frágil. É fácil persuadi-los a lutar, mas também é bem fácil persuadi-los a parar. Estima-se que no passado apenas um, de cada nove combatentes estrangeiros, continuou a fazer sua jihad depois que retornou à terra natal.

Apesar de todas as inovações, o Estado Islâmico é descendente direto da al-Qaeda – especificamente, da al-Qaeda no Iraque. Quando os EUA invadiram o Iraque em 2003, bin Laden tinha toda uma nova frente contra a qual combater. A Al-Qaeda no Iraque foi organizada sob a liderança de Abu Musab al-Zarqawi, criminoso menor, furiosamente sedento de sangue, que permitia que praticamente qualquer um no seu grupo – tivesse ou não tivesse educação religiosa – decidisse sobre se alguém era ou não era muçulmano certo. A organização ficou famosa por postar filmes em YouTube nos quais se assistia à decapitação de qualquer um que não tivesse atendido aos critérios. A liderança central da Al-Qaeda tentou explicar a Zarqawi que o subtítulo que ele usava – Xeique Degolador – não ajudava a causa, mas Zarqawi manteve-se fiel a si mesmo até que, em 2006, os norte-americanos encontraram seu rastro e o mataram.

Nem por isso foi o fim. Os remanescentes muito endurecidos em batalha da al-Qaeda no Iraque, unidos a outros grupos de militantes que haviam combatido contra a ocupação norte-americana, decidiram recomeçar e se renomearam Estado Islâmico do Iraque. O novo grupo progrediu muito depois que os EUA retiraram-se em 2011, e no início desse ano, sob a liderança de Baghdadi, tomaram quase toda a área de duas cidades que os EUA muito se esforçaram para tornar seguras: Fallujah e Ramadi. Foram grandes vitórias simbólicas que ajudaram a fixar a reputação de Baghdadi como mais destacado líder jihadi do mundo. Diferente de Zawahiri da al-Qaeda, Baghdadi vencia batalhas em campo.

As coisas também estavam avançando na Síria. No verão de 2011, quando parecia que o regime de Assad em Damasco talvez não sobrevivesse, Baghdadi mandou homem do Estado Islâmico no Iraque, Abu Mohammed al-Joulani, para montar loja na porta ao lado. A oposição democrática a Assad estava exaurida; em questão de meses, al-Joulani já estava invadindo e ocupando áreas no norte da Síria. Em janeiro de 2012 anunciou publicamente a existência do que chamou de Jabhat al-Nusra, Frente al-Nusra. Por um ano a Frente al-Nusra acumulou ganhos, em parte porque o regime de Assad deu-se conta de que, se deixasse os jihadis ganhar territórios, o ocidente mudaria de ideia sobre o conflito sírio. Foi quando as forças do governo sírio passaram a concentrar seu fogo contra o Exército Sírio Livre, não contra os jihadis.

Depois de ver os ganhos de Joulani na Síria, Baghdadi decidiu aparecer, ele próprio. Em abril de 2013 mudou o nome do Estado Islâmico no Iraque, para Estado Islâmico no Iraque e Síria (“Levante”). Logo depois anunciou a fusão entre o ISIL e a Frente al-Nusra. Para Joulani, foi movimento de hostilidade, não de fusão. Há várias versões sobre por que os dois homens romperam, desde um choque de egos, até diferenças políticas irreconciliáveis. Segundo uma das histórias que circulam, Baghdadi ordenou que Joulani explodisse um hotel na Turquia onde se reuniam alguns líderes da oposição democrática síria. Temeroso de que suas linhas turcas de abastecimento fossem comprometidas, Joulani recusou-se a cumprir a ordem; e Baghdadi ficou ressentido. A política para o Irã foi outra área de dissenso. Alguns altos membros do ISIL reclamaram que a al-Qaeda sempre tivera política de não atacar o Irã; a Frente al-Nusra aceitava, mas o ISIL não. Fossem quais fossem as razões precisas, os desacordos levaram a disputas internas entre o ISIL e a Frente al-Nusra, e Joulani apelou a Ayman al-Zawahiri, líder da al-Qaeda, para que decidisse. Zawahiri declarou que a Frente al-Nusra era filial oficial da al-Qaeda na Síria, e que oISIL havia rompido seus laços com a al-Qaeda. Ordenou que o grupo se limitasse a lutar no Iraque – sugestão que o ISIL rejeitou imediatamente. Hoje, talvez Zawahiri lamente o que fez, mas ele também sabe que Baghdadi pode, sim, fracassar; se por mais não for, porque só confia na violência mais extrema.

Essa foi lição que a al-Qaeda aprendeu pela via mais difícil. 11/9 pôs muito alta a barra a ultrapassar e ficou difícil imaginar, para os anos seguinte, algo tão espetacular quanto os ataques da al-Qaeda que derrotaram New York; a organização descobriu que teria de usar cada vez mais violência (dado que não havia mais talento à disposição), para conseguir manter-se nas manchetes da imprensa-empresa planetária. A estratégia de escalada afinal revelou-se em novembro de 2005, quando suicidas-bombas atacaram três hotéis em Amã. No tempo de poucos minutos, mais de 50 pessoas foram mortas, incluindo convidados que participavam de uma festa de casamento. Dia seguinte, houve protestos nas ruas: os manifestantes condenavam a matança e cantavam slogansa favor do rei Abdullah. Zawahiri extraiu disso a conclusão óbvia, mas outros jihadis não conseguiram entender o valor da moderação. Cada vez que um movimento jihadista ganhou poder, ele perdeu popularidade porque não deu às pessoas comuns o que elas desejam: paz, segurança e empregos. No Afeganistão, por exemplo, os Talibã tiveram considerável apoio popular quando chegaram ao poder em 1996, depois de anos de guerra civil: muitos afegãos gostaram da estabilidade que os Taleban trouxeram. Mas o governo do Mulá Omar foi tão violento e tão pouco preocupado com questões mundanas que, em 2001, já muitos festejaram a partida dele. Outros governos jihadistas enfrentaram problemas semelhantes. Em 2009, o atual líder dos Talibã no Paquistão, Mulá Fazlullah, obteve o controle do Vale do [rio] Swat, a poucas horas de distância, de carro, de Islamabad. Sua prática de matar os oponentes e deixar os cadáveres apodrecendo na praça principal da maior cidade do vale, Mingora, tanto horrorizou a população local, que passaram a apoiar uma ofensiva do exército contra os militantes. Eventos similares verificaram-se no Norte da África, onde nenhum movimento jihad conseguiu manter-se no poder.

A lição deveria ser de que, deixados entregues aos seus próprios meios, governos jihadistas sempre fracassam. Mas há sinais, porém, de que Baghdadi ou, pelo menos, alguns de seus comandantes, começaram a avaliar a importância dessa questão. Em algumas cidades sírias, o ISIL conseguiu restaurar algum grau de normalidade, não só por garantiram a segurança mediante sistema de justiça nua e crua, mas também graças à introdução de controle de preços sobre mercadorias básicas; e, inclusive, porque começaram a dar conta de serviços públicos simples, como organizar e controlar a distribuição de números de chapa para veículos automotores. Gasolina e comida gratuita – sempre em embalagens com a grife ISIL – são frequentemente distribuídas aos necessitados. Por hora, essas tentativas de conquistar as populações locais têm sido derrotadas não só pelos métodos violentos de Baghdadi, mas, também, pela insistência dele em regras impopulares, de inspiração religiosa, sobre uso de bebidas alcoólicas, de cigarros, de roupas femininas e da música. Mas tão logo o Estado Islâmico aprenda a governar tão bem como luta e vence batalhas, o apoio popular com que conta com certeza aumentará muito. No momento, as suas possibilidades têm sido comprometidas pelo muito que o Estado Islâmico ainda confia no medo. Mas há outra razão pela qual se deve crer que, no longo prazo, o Estado Islâmico não é tão perigoso quanto muitos creem. Depois da queda de Mosul, o governo de Nouri al-Maliki declarou que o ISIL teria de 4 a 6 mil combatentes no Iraque. Outros entendem que esse número é muito maior. Seja como for, é claro que exército tão diminuto não poderia ter ocupado superfície tão extensa e tão depressa, sem ajuda. O fato é que o ISIL não é o monólito de pensamento único que parece ser. É só a face pública de uma coalizão de ex-jihadistas, oficiais militares baathistas e vários líderes tribais desiludidos com o governo de Maliki. Várias diferentes milícias lutaram ao lado do ISIL, inclusive o Exército Islâmico do Iraque, liderado pelo Xeique Ahmad al-Dabash, homem que não partilha as ideias de Baghdadi sobre um califado. "O Iraque pode permanecer sob sistema único,mas com três regiões – curdos, sunitas e xiitas – separadas. Não há melhor solução que essa", disse al-Dabash recentemente. Os eventos estão andando nesse rumo.

O Iraque já está mais perto de ser três estados, que um. Dada a profundidade da desconfiança entre as comunidades, é provável que as divisões se tornem mais agudas: pode acontecer de a própria Bagdá ser esquartejada. Os curdos, que reagiram contra a tomada de Mosul, tomando o controle de Kirkuk, não cederão facilmente. Alguns xiitas estão começando a achar que um estado xiita pode ser preferível a um estado iraquiano, e há sunitas, também, que começam a achar que preferem tomar conta, eles mesmos, da própria vida. A desintegração do Iraque encaixa-se em tendências maiores que desafiam a ordem estabelecida no Oriente Médio; não são só os jihadistas a comandar todas as mudanças. Num desenvolvimento que seria inimaginável há alguns anos, empresas ocidentais estão comprando petróleo dos curdos, apesar da oposição do governo central em Bagdá. Na Síria, o ISIL controla alguns poços de petróleo, mas muito petróleo continua a chegar ao mercado. Quanto às fronteiras, já não é fora de propósito pensar na possibilidade de um reduto alawita no oeste da Síria e de autogoverno dos curdos: uma independência de fato, que mudaria, não só o Iraque, mas também Turquia, Síria e Irã. Israel e as potências ocidentais já estão mostrando preocupação sobre o que possa vir a acontecer na Jordânia. Não há dúvidas de que resistirão contra qualquer demanda de que reconheçam mudanças tentadas em limites nacionais. Mas isso pode levar a crescente divergência entre os sistemas que regulam as relações nacionais entre estados, e a realidade em campo.

*

A promessa da Primavera Árabe está extinta, em grande medida. Esperanças de mudança democrática foram substituídas por medos de ditaduras e califatos. O principal desapontamento é a região do Egito, onde os ideais da Praça Tahrir terminaram em governo de ditador militar, ainda mais autoritário que Mubarak. A Fraternidade Muçulmana – que venceu todas as eleições às quais concorreu depois da Primavera Árabe – foi declarada organização terrorista, com centenas dos seus principais líderes já condenados à morte. E tudo isso aconteceu com apoio do ocidente: o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, entregou recentemente mais de meio bilhão de dólares ao regime golpista do general Sisi. E a situação na Síria tem levado alguns a pensar se, comparado aos jihadistas, o regime do presidente Assad não será, afinal, a melhor opção. O ocidente dá sinais de estar mais do que apenas tentado a apoiar qualquer ditador que apareça no Iraque, se der sinais de que conseguirá manter sob controle o Estado Islâmico. Em outras palavras, o Ocidente já está revertendo à sua tradicional política para o Oriente Médio, de apoiar regimes autoritários que mantenham sob rédea curta sejam os islamistas radicais sejam os democratas liberais.

Quando George Bush e Tony Blair invadiram o Iraque, promoveram a ideia de que o ocidente estaria enfrentando ameaça jihadista global comandada pela al-Qaeda. Toda a Guerra Global ao Terror foi feita contra um único inimigo: o Islã radical. De início, cada manifestação dessa ameaça foi atacada com força massiva, a começar no Afeganistão. Mais recentemente, as ofensivas do ocidente têm sido menos consistentes. Os jihadistas no Mali foram atacados, mas al-Shabaab não foi incomodada na Somália. Para alguns, o não agir em alguns casos sinalizaria fraqueza ocidental. “O ponto de partida é identificar a natureza da batalha: é batalha contra o extremismo islamista. A batalha é essa” – escreveu Tony Blair em ensaio publicado em sua página internet, redigido como resposta aos avanços do ISIL no Iraque. Na sequência, recomendou outra – possivelmente ilegal – intervenção militar. Outros, menos comprometidos com o passado, fazem análise diferente: ao mesmo tempo em que os jihadistas estão envolvidos em várias lutas contemporâneas, os vários conflitos envolvem teia complicada de muitos outros fatores. Já não há um único inimigo – se é que algum dia houve inimigo único – dedicado a atacar o ocidente. Há várias forças separadas, cada uma com agenda própria e seus próprios motivos, que têm a ver, principalmente, com inimigos locais. Cada conflito tem sua própria história e sua própria dinâmica. No Iraque, a atual rebelião é movida, não por antiamericanismo ou hostilidade contra o ocidente em geral, mas, mais, pelo sectarismo, a corrupção e a incompetência do governo Maliki. Os xiitas iraquianos e seus apoiadores iranianos, ao lado dos sunitas moderados e até de curdos, todos têm agora um interesse comum em se opor a al-Baghdadi – o que eles mesmos podem fazer com muito maior eficácia que o exército dos EUA. De fato, tropas dos EUA deslocadas para lá serão como fantoches nas mãos de al-Baghdadi e Zawahiri.

Em fins de junho, David Cameron disse à Casa dos Comuns do Parlamento que o ISIL poderia tomar o controle do norte do Iraque e instalar lá um governo: “O pessoal que chefia aquele governo, além de aspirar a tomar território, também planeja nos atacar aqui em nossa casa, no Reino Unido”. É declaração temerária, altamente belicosa, que ultrapassa em muito o que o governo de Obama tem dito. Nos últimos meses, os Republicanos desenvolveram com sucesso uma narrativa segundo a qual a relutância de Obama em usar a força na região teria dado lugar a uma percepção de fraqueza dos EUA. A pressão doméstica sobre Obama, para que seja mais agressivo no uso da força militar tem sido considerável. Apesar disso, o presidente dos EUA parece tem conseguido conter as demandas – que agora estão partindo de uma improvável aliança entre Maliki e a direita norte-americana – de que envie tropas dos EUA para o Iraque. “Os sunitas que tomaram cidades iraquianas”, disse Obama, representam “ameaça de médio e longo prazo” para os EUA. Mas, acrescentou ele, “não podemos pensar que estamos brincando de pega-pega e mandar soldados dos EUA para ocupar vários países, cada vez que essas organizações aparecem no mundo”. “E seja como for”, disse ele, “as populações locais rejeitam o ISIL por causa da violência deles”. É um evento muito raro: Downing Street, Londres, ainda mais falcão-linha-dura que a Casa Branca, Washington; mas talvez seja um evento sem consequências. Em uma frase na qual articula de modo excepcionalmente claro a subserviência de Londres a Washington, William Hague disse, em resposta aos avanços do ISIL: "Apoiaremos os EUA em qualquer coisa que resolvam fazer."

A relutância de Obama, que não interveio na Síria pode parecer fracassada. Mas estaria por acaso garantido que mais dinheiro do ocidente entregue ao Exército Sírio Livre teria resultado na emergência de alguma espécie de estado liberal democrático? O fracasso da Primavera Árabe em outros pontos não sugere que essa possibilidade se concretizaria. Políticos ocidentais estão tendo de reajustar-se à novidade de sua própria crescente incapacidade para dominar o mundo. Se se consideram as alternativas, a inação de Obama parece boa ideia, que é criticado pela direita e pela esquerda, pelos seus muitos erros e fracassos. Mas o mais provável é que dentro de alguns anos, quando ele já não estiver na Casa Branca, tenhamos muitas saudades de Obama.

7 de junho de 2012

Terroristas? Nós?

Owen Bennett-Jones


Vol. 34 No. 11 · 7 June 2012

Terror Tagging of an Iranian Dissident Organisation 
by Raymond Tanter.
Iran Policy Committee, 217 pp., £10, December 2011, 978 0 9797051 2 0

Tradução / “Mas a verdade é outra. Os apoiadores norte-americanos dos MEKs creem que a organização ainda tenha potencial “de combate”, precisamente por sua longa história de violência e terrorismo. Por isso creem que esses terroristas sejam úteis para arrancar do poder os mulás iranianos. Por isso a secretária Clinton acabará por excluir os MEKs, da lista de organizações terroristas”

Essa história dos “Mujahedin do Povo” (Mujahedin e Khalq, MEK), também conhecidos como “Mujahedin do Irã”, é o relato de como gerenciamento competente e insistente de marketing & imagem pode fazer, de um inimigo mortal, um muito prezado aliado.

Os MEKs estão hoje em campanha massiva para serem excluídos da lista dos EUA de organizações terroristas. Tão logo sejam tirados da lista, estarão livres para usar o apoio que sempre deram aos EUA, e tornarem-se o grupo mais bem amado, mais favorecido e, sem dúvida, o que mais fundos receberá, dentre outros grupos da oposição iraniana.

Outro artifício, também usado para conseguir resultado bem semelhante a esse, foi o Congresso Nacional Iraquiano (CNIq) – grupo de lobby liderado por Ahmed Chalabi que falou de democracia e pavimentou o caminho para a invasão do Iraque, presenteando Washington com “provas” altamente questionáveis da existência de inexistentes armas de destruição em massa e de laços entre Saddam Hussein e a al-Qaeda. Em seguida, quando George Bush levou os EUA à guerra, o CNIq e seus líderes só tiveram de descansar um pouco e preparar-se para governar.

Muitos em Washington acreditam que, para o bem ou para o mal, os EUA irão à guerra contra o Irã, e que os MEK terão papel a desempenhar. Mas, antes, eles terão de convencer Hillary Clinton a retirar o grupo de sua lista oficial de terroristas. Alguns funcionários de Clinton têm insistido para que ela deixe os MEK exatamente na lista onde estão; mas há cachorros grandes em Washington que exigem furiosamente que ela converta os MEK em organização oficialmente declarada não terrorista. Depois de exaustiva caminhada entre várias agências, o processo dos MEK está agora sobre a mesa de Clinton. Declarações recentes do Departamento de Estado indicam que a “desterrorificação” dos militantes MEK já é, agora, bem provável.

Organizados nos anos 1960s como grupo islamista anti-imperialista, com tendências socialistas e dedicado à luta para derrubar o xá, os MEK originalmente defenderam não só a revolução islâmica, mas, também, muitos direitos para as mulheres – combinação que atraiu muitas simpatias nos campi das universidades iranianas. Conseguiram construir genuína base popular e tiveram papel destacado na derrubada do Xá em 1979. Tornaram-se tão populares, que o Aiatolá Khomeini sentiu que precisava destruí-los; ao longo dos anos 1980s, Khomeini fomentou julgamentos e execuções públicas de membros do grupo. Os MEK retaliaram, com atentados contra clérigos influentes no Irã.

Temendo pela vida, membros dos MEK fugiram, primeiro para Paris, depois para o Iraque, onde Saddam Hussein, desesperado para encontrar aliados para a guerra contra o Irã, ofereceu-lhes milhões de dólares, além de tanques, peças de artilharia e armas de vários tipos. Também deu-lhes terras. Camp Ashraf tornou-se lar dos MEK, uma fortaleza no deserto, 80 km ao norte de Bagdá, a uma hora de viagem por terra até a fronteira do Irã.

A partir dos anos 1970s, a retórica dos MEK mudou, de islamista para secular; de socialista para capitalista; de pró-revolução para anti-revolução.

E desde a queda de Saddam o grupo apresenta-se como pró-EUA, “da paz”, dedicado a promover a democracia e os direitos humanos. Mas essa incansável “reinvenção” pode ser perigosa, e o novo governo iraquiano, favorável ao Irã, está sendo pressionado por Teerã para fechar definitivamente a fortaleza de Camp Ashraf, que cresceu ao longo das décadas e abriga hoje população equivalente à de qualquer das pequenas cidades da região. E não só o Irã. Muitos iraquianos também não veem com bons olhos os MEK, não só por terem-se aliado a Saddam Hussein, mas porque os MEK também participaram da violenta supressão de curdos e xiitas.

Forças de segurança do Iraque já, por duas vezes, atacaram Camp Ashraf, em 2009 e 2011, ataques que deixaram mais de 40 mortos. Vídeos de tanques blindados lançados contra moradores desarmados de Ashraf podem ser vistos em YouTube. Agora, o Iraque decidiu que Camp Ashraf tem de ser fechado; e os moradores, relutantemente, começaram a mudar-se para Camp Liberty, ex-base do exército dos EUA próxima do aeroporto de Bagdá, atualmente sob supervisão da ONU e protegida por forças da segurança iraquiana. O Alto Comissariado da ONU para Refugiados [orig. UNHCR] está cadastrando os residentes, com vistas a distribuí-los por outros países, como refugiados; mas poucos países deram sinais de interesse em receber pessoas que, do ponto de vista oficial dos EUA, são terroristas, e que, segundo outros, não passariam de fiéis adoradores de uma espécie de culto satânico.

Os MEK passaram a viver sob regras típicas de grupos de fanáticos religiosos – os fiéis foram separados das respectivas famílias e amigos; e toda a informação que chegava até eles era controlada – depois de 1989, ano em que o casal que lidera o movimento, Massoud e Maryam Rajavi, lançou a Operação Luz Eterna [orig. Operation Eternal Light]. Depois que Saddan fracassou no golpe para “mudar o regime” no Irã, a Operação Luz Eterna foi a alavanca escolhida para, afinal, levar o grupo a controlar o país. O sucesso, disse Rajavi aos seus guerreiros-fiéis, era garantido, porque o povo iraniano, civis e militares, desertaria em massa e seguiria os MEK na marcha sobre Teerã. Seria fácil, disse ele. Mas, à parte ninguém ter desertado, as forças iranianas resistiram ferozmente e contra-atacaram. Morreram mais de mil seguidores dos MEK de Massoud e Maryam Rajavi, e muitos outros foram feridos. Os MEK perderam cerca de 1/3 de seus quadros.

Rajavi tinha de encontrar alguma explicação para a derrota. A ideia ortodoxa que lhe ocorreu foi dizer aos seus seguidores, que haviam perdido a guerra porque se deixaram distrair por amor&sexo. Ordenou que os seguidores se divorciassem, abraçassem o celibato e passassem a viver numa habitação comunitária, só de homens, como soldados de exércitos regulares. Tomados de ideias de autossacrifício e martírio, os combatentes MEK obedeceram. (Até hoje a regra do celibato é tão rígida que há turnos no posto de combustível de Camp Ashraf, para que mulheres e homens abasteçam os carros sem se encontrarem.) Os combatentes MEK foram treinados para transferir a paixão pelas antigas esposas, para os líderes. Conscientes de que a frustração sexual já gerava novas dificuldades, os Rajavis passaram a organizar reuniões nas quais os MEK deveriam confessar, em público, suas fantasias sexuais. E os que confessavam eram espancados por outros fiéis. Não se estimulavam nem amizades, nem filhos em Camp Ashraf.

A partir de meados dos anos 1980s, sob alegação de que a segurança ali seria precária, os líderes ordenaram que várias crianças que viviam em Camp Ashraf fossem entregues para adoção a famílias pró-MEK na Europa e no Canadá. Alguns pais passaram mais de 20 anos sem ver os filhos.

Essas práticas, e as frequentes sessões de doutrinação, além do bloqueio total de qualquer informação vinda do mundo exterior (os MEK são proibidos também de usar telefones), ajudaram a firmar o controle sobre os membros. Mas os MEK que viviam  fora do Iraque também manifestaram extraordinária devoção à causa. Em 2003, quando autoridades francesas prenderam Maryam Rajavi e a acusaram de terrorismo (adiante, ela foi libertada), 10 militantes dos MEK, em diferentes pontos do mundo, puseram fogo ao corpo, em sinal de protesto: dois deles morreram.

O grupo MEK nega, evidentemente, que tenha organização de culto religioso. Mas vários observadores externos – militares norte-americanos de alto escalão, agentes do FBI, jornalistas e a Rand Corporation (financiada pelo Pentágono) – que estiveram em Camp Ashraf insistem em repetir que, sim, são organizados como seita. Um alto funcionário do Departamento de Estado (hoje aposentado), que foi enviado ao Iraque para entrevistar milhares de membros dos MEK, concluiu que, sim, se tratava de seita e culto religiosos; que a fortaleza de Camp Ashraf, praticamente uma cidade, mas não qual não se via uma única criança, era “completa tragédia, em termos humanos”; que os membros eram “mal atendidos e mal dirigidos” pelos líderes; e que muitos haviam sido subornados ou, no geral, “enganados”, para que se unissem ao grupo.

Os MEK usavam vários métodos de recrutamento. A elite do grupo reuniu-se no Irã, antes da revolução popular islâmica. Outros eram prisioneiros iranianos, capturados durante a guerra Irã-Iraque. A esses, Saddam ofereceu uma barganha: se se alistassem no grupo dos MEK, poderiam trocar os campos de prisioneiros de guerra e mudar-se para o complexo de Camp Ashraf, muito mais confortável. Outros membros foram recrutados em campi de universidades dos EUA, com promessas de emprego, dinheiro, novos passaporte e a oportunidade de lutar contra os exércitos dos mulás. Outros, mais simplesmente, foram enganados.

A um ativista dos MEK que vivia no Irã e que estava em visita a Camp Ashraf contaram que sua mulher e filho haviam sido mortos; e que ele, se quisesse poderia ficar vivendo ali. Só depois de dez anos, afinal, o homem voltou a encontrar um telefone; ligou para o número de sua casa no Irã e, afinal, soube que estavam todos vivos. Outros ex-membros dos MEK contam que, na chegada ao Iraque, eram passados clandestinamente pelos controles de imigração, de modo que seus passaportes não registravam qualquer carimbo de entrada. Depois, quando decidiam deixar o país, eram informados que corriam o risco de ser presos por ter entrado ilegalmente no país.

Ouvi horas de depoimentos desse tipo, de ex-membros. O grupo insiste que todos os que contam essas histórias são agentes iranianos; que não separou famílias nem expulsou crianças. Mas as lágrimas de pais, mães, esposas e filhos me pareceram mais convincentes.

Mas, apesar de tudo isso, alguns oficiais militares norte-americanos que trabalharam em Camp Ashraf depois da invasão do Iraque saíram de lá convencidos de que os MEK poderiam ser aliados muito úteis.

O general David Phillips, policial-militar que serviu lá em 2004, argumenta que, se os MEK são organizados como culto e facção religiosa, o mesmo se pode(ria) dizer dos Marines dos EUA: os Marines e os MEK são obrigados a usar uniformes, obedecem ordens e seguem rituais que, para os não iniciados, parecem bizarros.

Esse tipo de simpatia pelos MEK e a avaliação positiva que se ouve de vários militares dos EUA são fáceis de explicar. Em 2003, foram informados de que os EUA encontrariam pesada resistência, de um exército de terroristas uniformizados e pesadamente armados, que combateriam a favor de Saddam e contra as forças dos EUA. Mas aconteceu que, entre o momento em que a informação foi recolhida e a chegada dos americanos, os líderes dos MEK rapidamente entenderam que não havia futuro para Saddam; e, numa pirueta política, trocaram de lado.

Quando os soldados dos EUA chegaram a Camp Ashraf, foram recebidos por anfitriões cordiais, que falavam inglês e logo manifestaram integral apoio à “causa” dos EUA. Para muitos soldados dos EUA, Camp Ashraf tornou-se refúgio e abrigo, onde encontravam segurança, num país massivamente hostil.

Mas nada disso explica a popularidade de que gozam os MEK entre políticos em Londres, Bruxelas e Washington, hoje. Boa parte dessa popularidade é comprada. Cerca de três dúzias de ex-altos comandantes militares e políticos norte-americanos são conferencistas regulares nos eventos dos MEK e de amigos dos MEK: Rudy Giuliani; Howard Dean; o ex-conselheiro para segurança nacional do governo Obama, general James Jones; e o ex-senador Lee Hamilton. O pagamento, por dez minutos de fala, com pose para fotografias, está entre $20 mil e $40 mil dólares. O tema dessas “palestras” pode ser qualquer um: muitos dos palestrantes sequer mencionam a sigla MEK. 

Em meses recentes, o governo Obama sinalizou que poderá proibir a realização dessas “palestras” e eventos. O Tesouro investiga denúncias de que os “palestrantes” norte-americanos estariam recebendo dinheiro de organização terrorista “listada”. O que querem de fato saber, em outras palavras, é se os exilados iranianos que pagam o “soldo” dos “palestrantes” são membros dos MEK; os que fazem campanha a favor do grupo, sem receber pagamento, não serão afetados. A maioria dos apoiadores apóiam os MEK porque apoiariam qualquer coisa que ajude ou pareça ajudar a derrubar o governo em Teerã. Parecem não se dar conta de que a organização tem sido definida como culto de fanáticos e não tomam conhecimento do que dizem os ex-membros.

Grande número dos mais conhecidos lobbyistas pró-MEK dizem que aceitam fazer as tais “palestras” porque outros intelectuais e políticos que também participam das atividades dos MEK são prova da respeitabilidade do grupo.

Mas os MEK também têm lobbyistas contratados em Washington, que se dedicam a escrever longas respostas às críticas. As 105 páginas do relatório da Rand Corporation sobre os MEK foram escritas por quatro desses lobbyistas, que trabalharam durante 15 meses nos EUA e no Iraque, para produzir a mais aprofundada análise que há, dos aspectos considerados “de culto” do movimento. A resposta veio de um grupo dito “de Ação Executiva”, que se autodescreve como “uma CIA e Departamento de Defesa privados, disponíveis para cuidar dos seus mais complexos problemas e desafios mais difíceis”. O relatório da “Ação Executiva” levava o título de Courting Disaster: How a Biased, Inaccurate Rand Corporation Report Imperils Lives, Flouts International Law and Betrays Its Own Standards. [1] O autor que assina pela “Ação Executiva”, Neil Livingstone, hoje candidato dos Republicanos ao governo do estado de Montana, contou que fora contratado por um “cidadão norte-americano” para avaliar a objetividade do Relatório Rand.

Concluiu que, dentre outros problemas, os autores do Relatório Rand eram demasiadamente inexperientes para tratar de tema tão complexo como os MEK. Até hoje, os que apoiam o trabalho publicado por Neil Livingston, publicado há três anos, desqualificam o relatório Rand como “serviço de alunos calouros”. A Rand diz que a crítica visa aos assistentes do autor principal, que foram apenas coadjuvantes e cujos nomes só foram incluídos como autores para oferecer-lhes algo para engordar-lhes os currículos. Todo esse lobby custa quantias astronômicas de dinheiro.

Parte do dinheiro é reunido pelos militantes encarregados de levantar fundos para os MEK, na Grã-Bretanha e em outros pontos, que trabalham de porta em porta. Funcionários dos EUA também creem que os MEKtenham à sua disposição os ganhos auferidos do (muito) dinheiro que receberam de Saddam Hussein e aplicaram bem.

Muitos dos que militam pró-MEK não respondem diretamente às acusações de que não passariam de grupo dedicado a cultos satânicos: os lobbyistas falam insistentemente da questão de os MEK serem excluídos da lista de grupos terroristas.

Em 1996, resolução da Assembleia Geral da ONU criou comissão encarregada de redigir versão inicial de uma Convenção sobre Terrorismo Internacional. Desde então, funcionários reúnem-se anualmente para discutir a questão. Mas, até o momento, ainda não encontraram definição do que seja “terrorismo” que satisfaça todos. Dois pontos parecem emperrar sempre.

Primeiro, a Organização da Conferência Islâmica insiste que movimentos de resistência contra forças de ocupação e que lutem em nome da libertação nacional – por exemplo, na Caxemira –, não podem ser considerados movimentos terroristas. Segundo, os governos temem que estejam, eles próprios, incluídos em toda e qualquer definição de terrorismo que apareça à discussão naquela comissão.

Assim, com cada um tentando construir definições de “terrorismo” que mais claramente excluam as próprias práticas, não parece haver qualquer resultado à vista, no plano internacional.

Evidentemente, decidir quais grupos são terroristas e quais não são é sempre ato político: o IRA nunca foi considerado grupo terrorista, nas listas norte-americanas; e Nelson Mandela, ainda em 2008, permanecia listado como terrorista aos olhos dos EUA.

O histórico de ataques terroristas organizados pelos MEK remonta aos anos 1970s, quando fizeram oposição ao Xá e lutaram contra os EUA que apoiavam o Xá. Para o Departamento de Estado, os MEK, em 1973, assassinaram um soldado do exército dos EUA que servia em Teerã; e, em 1975, assassinaram dois membros do US Military Assistance Advisory Group. Além de três executivos da Rockwell International e um da Texaco, também assassinados. A hostilidade dos MEK contra os EUA continuou depois da Revolução Popular Iraniana.

Dia 4/11/1979, estudantes iranianos ocuparam a Embaixada dos EUA em Teerã e sequestraram 52 diplomatas norte-americanos, que foram mantidos presos por 444 dias. Um dos diplomatas sequestrados contou que não estaria na embaixada naquele dia, se não tivesse sido atraído para lá por seus contatos com os MEK. Outro relatou que não tinha qualquer dúvida de que os MEK haviam apoiado o sequestro e, de fato, não defendiam qualquer negociação diplomática. Muito tempo depois de Khomeini ter decidido que era mais que hora de acertar aquela questão, os MEK ainda insistiam que seu apoio aos sequestros não passaria de boatos, uma farsa ardilosamente concebida; hoje já negam peremptoriamente qualquer participação. Sobre os assassinatos, dizem que, naquela época, seu principal líder era prisioneiro nas prisões do Xá; e que, com isso, uma facção marxista havia invadido a organização e assumido o comando. Essa facção, de fato, um grupo dissidente, teria sido responsável pelos ataques e assassinatos; e os ataques cessaram quando os líderes legítimos foram libertados e reassumiram o comando. São discussões que, em todos os casos, estão ultrapassadas. Os anos 1970s já vão longe. As organizações mudam.

É possível que os MEK tenham parado de assassinar norte-americanos, mas continuam comprometidos com a luta armada no Iraque e no Irã. Os esforços que empenharam a favor de Saddam Hussein contra os curdos e os xiitas nada são, se comparados às bombas, assassinatos e vastas ofensivas que organizaram e executaram dentro do Irã do final dos anos 1980s aos anos 1990s. A história de violência dos MEK está bem documentada, mas a organização insiste que a violência é coisa do passado.

Essa ideia tem recebido considerável estímulo nas cortes europeias. Em 2007, a Comissão de Apelação para Organizações Proscritas, um organismo britânico especializado oficial, declarou que os MEK teriam renunciado ao uso da força e acolheu recurso impetrado pelo grupo e contra decisão do Foreign Office britânico, que preferia manter o grupo na lista de organizações terroristas. Em 2009, a União Europeia tirou os MEK da lista europeia de organizações terroristas, amparada numa tecnicalidade que beira o absurdo: antes de qualquer outra ação, o grupo deveria ter sido formalmente informado dos motivos pelos quais seria listado como “organização terrorista”.

Para manter os MEK na lista dos EUA, Hillary Clinton terá de demonstrar que o grupo ainda tem capacidade para ou projeto de cometer atos terroristas. Os apoiadores dos MEK lembram que, no processo para convencer a corte britânica de que são grupo pacífico, em julho de 2004, todos os que vivem em Camp Ashraf assinaram documento no qual rejeitam o terrorismo e todos os tipos de violência. Há quem não tenha sido plenamente convencido.

Dado o que se viu acontecer em Guantánamo e na base aérea de Bagram, dizem eles, surpresa seria se alguém se recusasse a assinar o tal documento de renúncia ao terror. Em novembro de 2004, o FBI relatou atividades do grupo em Los Angeles; o relatório fala de telefonemas gravados, nos quais líderes dos MEK na França discutiam “específicos atos de terrorismo, inclusive bombas”.

Segundo o FBI, a inteligência francesa e a polícia de Colônia também têm informações semelhantes e gravações. O relatório FBI-2004 foi divulgado há mais de um ano, mas praticamente todo o material no qual a secretária Clinton fundamentará sua decisão é sigiloso. Em 2010, a Corte de Apelação do Distrito de Columbia julgou acusação contra os MEK, e um dos três juízes, Karen LeCraft Henderson, observou que material sigiloso ao qual a corte teria tido acesso oferecia “apoio substancial” à acusação de que os MEK continuam engajados na prática de ações terroristas ou, no mínimo, que não desmontaram a infraestrutura terrorista básica, não perderam capacidade de ataque e têm planos para empreender novas ações terroristas. Matéria apresentada em fevereiro pelo canal NBC News citava funcionários não identificados do governo dos EUA, que teriam dito que os MEK seriam responsáveis pelo assassinato, em tempos recentes, de vários cientistas nucleares iranianos. Apesar de alguns apoiadores dos MEK já terem sugerido que essas ações não desmereciam os MEK, a própria organização negou qualquer envolvimento naqueles atentados.

O livro de Raymond Tanter aqui resenhado é parte da campanha de marketing-publicidade-Relações Públicas para mudança de imagem dos MEK – espécie de briefing dos que pregam que o grupo seja excluído da lista norte-americana de organizações terroristas. Tanter, que é apoiador ativo do grupo já há muito tempo, produziu um guia compacto, completo, com fotos e ilustrações em cores do grupo e transcrições de discursos feitos por defensores pagos para defender os MEK.

O livro nada diz sobre ataques perpetrados nos anos 1970s ou a ajuda que o grupo deu a Saddam Hussein. Também ignora outros ataques no Irã, nos anos 1990s. Tanter crê que, nos termos da legislação nos EUA, só as leis aprovadas nos EUA nos últimos anos seriam aplicáveis à questão de excluir ou manter o grupo na lista de organizações terroristas; o que nos leva à questão de excluir ou não excluir o grupo, daquela lista; e só considera o período pós- 2001.

O autor diz que os MEK seriam a melhor esperança disponível para a chamada “terceira alternativa”: um modo pelo qual os EUA consigam provocar mudança de regime da Síria, sem ter de depender de sanções ou de guerra.

É onde mais claramente se vê o vício que há no argumento dos lobbyistas pro-MEKs: de um lado, dizem que os MEK teriam renunciado à violência, o que lhes daria condições para pleitear que o grupo seja excluído da lista de organizações terroristas. Mas, mesmo que tenham realmente desistido da violência, ainda assim não se entende por que os EUA se aliariam a eles.

Mas a verdade é outra. Os apoiadores norte-americanos dos MEKs creem que a organização ainda tenha potencial “de combate”, precisamente por sua longa história de violência e terrorismo. Por isso creem que esses terroristas sejam úteis para arrancar do poder os mulás iranianos. Por isso a secretária Clinton talvez exclua o grupo, da lista de organizações terroristas.

Os apoiadores dos MEKs dizem que ainda são rede poderosa no interior do Irã e que não perderam as bases populares. Os que se opõem ao grupo dizem que o regime usa os terroristas MEKs para divulgar teorias conspiracionais sobre “complôs” armados fora do país. Dizem também que, ao apoiar o Iraque de Saddam, na guerra Irã-Iraque, os MEKs perderam a considerável base de apoio popular que chegaram a ter.

A secretária Clinton não poderá ignorar as considerações políticas. O lobby a favor dos MEKs insiste que seus ativistas correm risco de serem massacrados no Iraque. Se o Iraque decidir lançar novo ataque aos MEKs que vivem em Camp Ashraf, seja porque o grupo provoque demais, seja porque o grupo monte a encenação de algum ataque no qual surjam como vítimas indefesas, a resposta do lobby pró-MEKs será violenta.

Atualmente, a prioridade do Departamento de Defesa é garantir que os que ainda vivem em Camp Ashraf sejam transferidos em segurança para [o campo de refugiados] Liberty. Em fevereiro, Clinton disse que uma “transferência bem-sucedida teria peso decisivo em qualquer posição dos EUA sobre o status da organização terrorista estrangeira dos MEKs”. Em termos legais, nada significa e não faz qualquer sentido.

O que diz o acordo segundo o qual os MEKs aceitam deixar Camp Ashraf, sobre o grupo desejar ou ser capaz de organizar e executar atentados terroristas? Nada. O acordo não toca nesses temas.

De fato, as declarações da secretária Clinton revelam qual é o verdadeiro medo de Clinton e de seu departamento de Estado: temem que, deliberadamente ou como efeito de alguma provocação lançada pelos MEKs, os iraquianos ataquem os MEKs pela terceira vez, e que os EUA sejam denunciados por ignorarem os sinais de alerta. Em maio, o Departamento de Estado avançou alguns passos, e chegou a dizer que já considerava a possibilidade de excluir os MEKs da lista de suspeitos de associação, desde que continue a evacuação de Ashraf.

A declaração de Clinton sugere que ela já decidiu tirar os MEKs da lista de grupos terroristas. Sinal de que o lobby pró MEKs nos EUA trabalhou bem. Mas há mais uma coisa que se deve ter em mente.

Como disse recentemente um experiente observador em Washington: "Hillary Clinton é homem-político. Nesse momento, muitos de seus parceiros e associados estão ganhando bom dinheiro com a ajuda dos MEKs e eles absolutamente não apreciariam perder essa galinha de ovos de ouro, o que fatalmente acontecerá se o grupo continuar listado como organização terrorista." Se, porém, os MEKs forem excluídos da lista de organizações terroristas - como, antes, aconteceu ao INC [Congresso Nacional Iraquiano (CNIq)] de Chalabi -, os MEKs passam a poder receber "incentivos" pagos pelo Congresso dos EUA, e os Rajavis serão automaticamente convertidos a candidatos prováveis à presidência, depois da "mudança de regime" no Irã, com que sonham os EUA.

Há dez anos, Donald Rumsfeld e os neocons estavam de tal modo irmanados com Ahmed Chalabi, do Congresso Nacional Iraquiano (CNIq), que lhe forneceu um helicóptero para que Chalabi e um punhado de apoiadores viajassem até Nasiriya, de modo a aparecerem nas fotografias oficiais da “libertação do Iraque”. Mas bastou o helicóptero pousar, para que o mundo soubesse que ninguém, no Iraque, algum dia ouvira falar de Chalabi. E Chalabi foi derrotado nas eleições por outro ex-exilado, Nouri al-Maliki; e teve de contentar-se com o ministério do Petróleo. Até hoje, Al-Maliki lá continua, no Iraque, como sempre foi, dedicado apoiador do governo do Irã. Nada mais distante dos objetivos do golpe dos EUA no Iraque, tão longamente planejado.

Mas os lobbyistas incansáveis que operam em Washington a favor de outros grupos terroristas amigos dos EUA, preferem o lado alegre das histórias. Chalabi, eles concedem, jamais fora o que se supunha que fosse. Mas com os MEKs a coisa agora é diferente. Um coronel aposentado do exército dos EUA, que trabalha em lobbys a favor de grupos terroristas amigos dos EUA, como os MEKs iranianos, costuma escrever que Maryam Rajavi "é um George Washington".

Os EUA estão a um passo de comprovar, mais uma vez, que não são capazes de aprender com os próprios erros.

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