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21 de janeiro de 2026

Como os economistas despolitizaram a economia

A economista Clara Mattei explica como sua profissão forneceu às elites uma justificativa para a austeridade e a exploração.

Clara E. Mattei


Desde sua origem, a profissão de economista tem fornecido às elites uma justificativa para a austeridade. Mas isso muitas vezes é uma defesa pouco disfarçada dos interesses dos ricos. (Andrew Caballero-Reynolds / AFP via Getty Images)

É o outono de 1920 e estamos em Bruxelas. Políticos e economistas de toda a Europa estão sentados em mesas de trabalho, reunidos para a primeira conferência econômica internacional da história. Apesar do tom formal e das vestimentas elegantes, a tensão no ar é palpável. Suas declarações revelam uma sensação de cerco, até mesmo angústia, diante do que consideram uma desordem inaceitável, um caos social que está empurrando a economia capitalista para a beira do abismo.

“Os trabalhadores manuais”, declara o financista inglês Robert H. Brand,

foram incentivados a esperar, e esperam, um novo modo de vida, uma grande melhoria em sua condição. Eles acreditam que essas mudanças, pelo menos no meu país, podem ser alcançadas se o sistema de iniciativa privada for substituído por algum tipo de governo ou propriedade coletiva. Eles não percebem a dura verdade de que... uma vida melhor, devido às perdas da guerra, só pode ser alcançada agora por meio do trabalho e do sofrimento.

A conferência foi organizada pela recém-criada Liga das Nações logo após a Primeira Guerra Mundial, com um objetivo crucial: reconstruir uma ordem econômica que havia entrado em colapso. Em toda a Europa, as nações enfrentavam inflação recorde, escassez de alimentos e greves em massa. Os trabalhadores comuns, que haviam sofrido durante a guerra, agora desafiavam a elite financeira e exigiam uma reformulação completa do sistema econômico.

Em meio à turbulência daquele momento convulsivo, políticos e economistas defendiam fervorosamente uma “dura verdade”: o comportamento dos cidadãos precisava ser moldado e controlado de acordo com os princípios da ciência econômica. As pessoas precisavam trabalhar mais, consumir menos e esperar pouco ou nada do governo. Era essencial que os cidadãos renunciassem a qualquer forma de ação trabalhista ou reivindicação de seus direitos econômicos que impedisse o fluxo da produção capitalista. Lord Robert Chalmers, ex-secretário permanente do Tesouro britânico e um dos representantes da delegação inglesa, afirmou isso claramente: “Trabalhe duro, viva com intensidade, poupe com intensidade”.

Esse lema se traduziu em políticas claras: cortes nos orçamentos governamentais, principalmente naqueles que financiavam serviços sociais como seguro saúde e auxílio-desemprego, juntamente com cortes salariais e aumento de impostos sobre bens básicos.

Ao elaborarem esse pacote de políticas rígidas de austeridade dolorosa, os tecnocratas reunidos em Bruxelas estavam bem cientes de que seu plano estava longe de ser popular. Induzir os cidadãos a se submeterem à ordem econômica científica era mais fácil dizer do que fazer. O delegado italiano Alberto Beneduce, professor de estatística econômica, não tinha dúvidas sobre a tática a ser usada: era necessário “agir sobre a opinião pública, sobre o estado psicológico das massas, para que elas não mais impedissem, mas ajudassem a restabelecer o orçamento do Estado”. Beneduce expressou essas preocupações durante a discussão plenária de 20 de setembro de 1920.

A data é significativa: naqueles dias e semanas na Itália, a luta de classes havia atingido seu ápice. As ocupações de fábricas se espalhavam como fogo em palha seca. Por toda a península italiana, durante mais de um mês, trabalhadores em mais de sessenta cidades assumiram o controle direto da produção em todos os setores, das minas aos estaleiros, das ferrovias às fábricas têxteis. O jornal oficial, o Corriere della Sera, registrou o início vibrante da ocupação em Milão:

As fábricas, ontem à noite, apresentavam um espetáculo singular. Chegava-se a elas em meio a multidões de mulheres e crianças, que iam e vinham com jantares para os grevistas... As entradas eram rigorosamente vigiadas por grupos de trabalhadores. Nenhum sinal de um funcionário ou policial. Os grevistas eram os donos absolutos do terreno.

Uma fotografia emblemática, tirada em setembro, imortaliza esse momento de empoderamento operário: um grupo de trabalhadores do conselho de fábrica — o órgão de autogoverno dos trabalhadores — está sentado à mesa de Giovanni Agnelli, dono da Fiat, a maior montadora de automóveis da Itália. No interior da Itália, os camponeses haviam tomado o controle das terras agrícolas e começado a administrá-las com assembleias democráticas.

O “estado psicológico das massas” apontava para uma sociedade pós-capitalista na qual a propriedade privada dos meios de produção e as relações de poder entre empregadores e empregados seriam substituídas por uma estrutura mais justa. O choque mortal da Primeira Guerra Mundial desencadeou uma nova consciência do simples fato de que os trabalhadores eram essenciais para a produção de valor e riqueza. Liderados por Antonio Gramsci e outros organizadores trabalhistas e intelectuais, os conselhos de fábrica eram novas instituições que incorporavam a aspiração à participação democrática na produção e distribuição. Seus esforços estavam capacitando as pessoas a exercerem conscientemente a liberdade econômica e política na “nova sociedade de produtores livres e iguais”.

A inflação crescente alimentou as chamas do descontentamento. Com a disparada dos preços dos alimentos, os trabalhadores denunciaram os investidores privados que lucravam com sua miséria e até começaram a questionar a justiça de uma economia que beneficiava apenas uma minoria. Os especialistas sabiam que a instabilidade monetária não era um mero enigma econômico a ser resolvido pela ciência econômica. Era inerentemente um problema político. O renomado economista britânico John Maynard Keynes reconheceu abertamente o desafio imposto ao sistema vigente: "A continuidade do inflacionismo e dos preços altos não apenas deprimirá as trocas comerciais, mas, por seu efeito sobre os preços, atingirá toda a base dos contratos, da segurança e do sistema capitalista em geral."

Do auge de seus privilégios, especialistas em economia discutiam a inflação como uma questão de desequilíbrio entre a demanda e a oferta na economia, resumindo-a, em última análise, à deficiência moral das pessoas. Tendo lutado e conquistado salários mais altos, os trabalhadores não conseguiam se controlar e se entregavam a comportamentos extravagantes, evidenciados por “aumentos notáveis ​​no consumo desnecessário de bebidas alcoólicas, doces, chocolates e biscoitos”, como ironizou o professor de economia Luigi Einaudi. Com desdém semelhante, Maffeo Pantaleoni, pioneiro da economia convencional atual, culpava a inflação aos trabalhadores que “viviam como porcos em suas casas para desperdiçar a maior parte de sua renda com vinho na taverna”.

Em meio à turbulência daquele momento convulsivo, políticos e economistas defendiam fervorosamente uma “verdade dura”: o comportamento dos cidadãos precisava ser moldado e controlado de acordo com os princípios da ciência econômica.

Poucos anos depois, esses mesmos especialistas apoiariam a ascensão ao poder do pai fundador do fascismo, Benito Mussolini. Mussolini garantiu uma dose suficiente de austeridade econômica, caracterizada por reduções salariais, cortes nos gastos sociais, privatização de serviços públicos e aumento das taxas de juros. Sua retidão econômica foi aplaudida por especialistas em economia do mundo todo, incluindo liberais e nacionalistas.

Os economistas contemporâneos não renunciaram ao hábito de culpar os trabalhadores. Essa inclinação persiste e, um século depois, os culpados ainda são os membros de famílias da classe trabalhadora.

Vamos para Washington, D.C., na primavera de 2022. Outra onda de inflação monetária abala a economia global. Os especialistas do conselho administrativo do Sistema da Reserva Federal (o Fed) se reúnem a portas fechadas para aumentar as taxas de juros. Eles as aumentarão agressivamente por mais de dois anos, com enorme influência sobre as decisões dos bancos centrais do mundo todo.

O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, e seus colegas refinaram sua linguagem técnica, mas o antagonismo em relação à classe trabalhadora não é menos agudo. Powell afirma que, para “restaurar a estabilidade de preços”, os especialistas em economia devem usar suas ferramentas “com firmeza”, e isso “também trará algum sofrimento”. O sofrimento será para os culpados pela inflação, ou seja, aqueles que consomem demais e trabalham de menos.

Como explica Powell, estamos em um mercado de trabalho “doentio” ou “apertado”, onde há mais vagas de emprego do que pessoas disponíveis, o que dificulta a contratação de trabalhadores qualificados. O objetivo do aumento das taxas de juros é justamente “diminuir a pressão de alta sobre os salários”, graças ao efeito disciplinador do desemprego. De forma semelhante, a secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, escreveu em um memorando ao então presidente do Fed, Alan Greenspan, em 1996, que o desemprego “serve como um mecanismo de disciplina para os trabalhadores, porque a perspectiva de um período de desemprego custoso gera medo suficiente da perda do emprego para motivar os trabalhadores a terem um bom desempenho sem a necessidade de supervisão constante e dispendiosa”.

Em 12 de setembro de 2023, em seu discurso na Cúpula Imobiliária anual do Australian Financial Review, o bilionário australiano e fundador do think tank Tim Gurner usou palavras menos sutis para expressar pensamentos semelhantes:

Acho que o problema que tivemos é que as pessoas decidiram que realmente não queriam mais trabalhar tanto por causa da COVID, e isso tem um enorme impacto na produtividade... O desemprego precisa aumentar de 40 a 50 por cento, na minha opinião. Precisamos ver a economia sofrer. Precisamos lembrar às pessoas que elas trabalham para o empregador, e não o contrário... Temos que acabar com essa mentalidade, e isso precisa acontecer prejudicando a economia, que é o que o mundo todo está tentando fazer. Governos ao redor do mundo estão tentando aumentar o desemprego para que a situação volte a algum tipo de normalidade, e estamos vendo isso... Estamos começando a ver menos arrogância no mercado de trabalho.

"Acho que o problema é que as pessoas decidiram que não querem mais trabalhar tanto por causa da COVID, e isso está acontecendo. Estamos começando a ver menos arrogância no mercado de trabalho." A maioria de nós ouve economistas e líderes financeiros com uma mistura de distração e resignação. Decisões econômicas como o aumento das taxas de juros parecem cenários distantes, muito técnicos para nos afetarem diretamente e sobre os quais, de qualquer forma, pouco podemos fazer. Mas será mesmo assim? Ou será que essa capacidade de "despolitizar" a economia — isto é, a capacidade de negar nossa participação na tomada de decisões econômicas — é justamente a chave para o sucesso de um sistema que nos amarra as mãos e silencia nossas vozes? A linguagem usada pelos especialistas em economia nos leva a pensar que não temos o conhecimento ou a autoridade para participar de decisões econômicas fundamentais que afetam nossas vidas. No entanto, quando examinamos suas ações de perto, vemos que eles estão engajados em um projeto profundamente político: preservar nosso sistema econômico — que eles consideram o único possível.

O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, e seus colegas refinaram sua linguagem técnica, mas o antagonismo em relação à classe trabalhadora não é menos agudo.

Assim como os economistas de um século atrás, os economistas modernos usam uma linguagem que esconde uma preocupação existencial com um sistema que, na verdade, não é eterno nem natural. O medo de que a desordem social abale a economia capitalista é uma resposta emocional compreensível para quem acredita que seu sustento depende do capitalismo.

Obviamente, em nossa sociedade, a grande maioria das relações sociais é mediada pelo dinheiro. A inflação é assustadora justamente porque desestabiliza a moeda, a base sobre a qual se sustenta toda a nossa economia de mercado. Além disso, a inflação gera alarme, como Keynes observou, e pode corroer o apoio popular ao sistema. Ficamos indignados ao descobrir que o preço dos alimentos dobrou ou que o aumento dos custos de eletricidade ou gasolina pode esgotar nossas economias. A inflação alimenta o descontentamento social, sim, mas também pode despertar a percepção de que nossa economia não é o melhor sistema possível no melhor mundo possível.

Em 1919, a inflação levou cidadãos na Europa a saquear lojas, entrar em greve e se organizar para assumir o controle da produção. Na economia pós-pandemia dos Estados Unidos, a inflação incentivou a formação de novos sindicatos e a reivindicação de salários mais altos por parte dos sindicatos. Isso levou os funcionários a questionarem a autoridade de seus empregadores sobre eles por meio dos chamados movimentos de greve e demissão silenciosa, bem como a "Grande Demissão". Somente em 2022, quase cinquenta milhões de americanos — um terço de todos os trabalhadores dos EUA — disseram "basta" à exploração, deixando seus empregos voluntariamente.

Agora, como fizeram há um século, os tecnocratas observam com ansiedade uma possível mudança na ordem social e apontam o dedo para o principal inimigo: os trabalhadores. Mas não podemos deixar que essas falsas acusações nos façam sentir impotentes. Por que deveríamos aceitar um sistema econômico que enriquece os extremamente ricos enquanto as pessoas comuns sofrem?

A luta

As decisões das instituições econômicas, do Fed ao Tesouro dos Estados Unidos, passando pelo Fundo Monetário Internacional, não são neutras, científicas ou necessariamente morais. Há muito tempo que falham em servir ao bem comum. A ideia de que a forma econômica atual da nossa sociedade, o que chamamos de capitalismo, seja algo espontâneo, inevitável e tão eterno quanto a gravidade é uma farsa.

A naturalização do capitalismo e o nosso hábito de delegar muitas decisões fundamentais a especialistas nos tornam impotentes e fortalecem a nossa conivência passiva com uma sociedade que oprime a maioria. Quase todos os economistas profissionais, assim como as redes de televisão, as mídias sociais e os jornais, perpetuam narrativas que mascaram o funcionamento do nosso sistema econômico em vez de explicá-lo. O fato é que as desigualdades do sistema estão explodindo. Nos Estados Unidos, a chamada classe média continua a encolher enquanto a disparidade de riqueza aumenta: os 0,1% mais ricos detêm mais de cinco vezes a riqueza dos 50% mais pobres, e três pessoas possuem mais riqueza do que 150 milhões de americanos juntos. E o problema não se limita a este país.

Na Grã-Bretanha, o 1% mais rico detém mais riqueza do que 70% da população combinada. Desde 2014, o número de crianças vivendo na pobreza aumentou para uma em cada três, enquanto, no mesmo período, o número de bilionários sextuplicou. Globalmente, os super-ricos viram ganhos extraordinários em 2022 e 2023: para cada US$ 1 de nova riqueza ganha por uma pessoa nos 90% mais pobres, cada bilionário ganhou aproximadamente US$ 1,7 milhão.

Apesar das alegações de criação de empregos e da mensagem dominante de que o sucesso empresarial beneficia a todos, a realidade é que, em última análise, os ganhos de mercado, ou lucro, são contrários ao bem-estar dos cidadãos — enquanto um aumenta, o outro diminui. Nosso sistema econômico atual é coercitivo, e essa é a realidade política crucial que a economia convencional esconde. Mesmo que sintamos que algo está errado quando nos levantamos de manhã para ir a um trabalho que não significa nada para nós, ou quando lutamos para encontrar tempo para descansar, essa percepção instintiva é sufocada pelas mensagens sociais de que é assim que deve ser. A dissonância entre nossa experiência vivida da vida econômica diária — a de alienação e luta — e nossa aceitação dela, como se não houvesse alternativa, é algo construído, predominantemente por modelos econômicos que reforçam nossa submissão a um sistema econômico que chamo de “ordem capitalista”. Esse termo se refere, em primeiro lugar, à concentração do poder de decisão nas mãos de investidores privados; e, em segundo lugar, à subjugação invisível da maioria, que é forçada a trabalhar para o lucro de outrem.

Por décadas, “especialistas” têm disseminado essa narrativa entorpecente com teorias acadêmicas elaboradas a partir dos círculos de elite das universidades mais prestigiosas do mundo. Ao ocultar a verdadeira natureza do sistema econômico vigente, eles atrofiam nossas mentes, bloqueando qualquer possibilidade de ação transformadora. Mas é possível escapar do capitalismo.

As teorias dominantes de hoje são o resultado de batalhas acadêmicas e políticas que duraram séculos, com o objetivo de expulsar o paradigma econômico dos pais fundadores da economia política. Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx estudaram o capitalismo sob a ótica da classe e do conflito de classes. Ao longo do último século, essa ótica foi substituída por um olhar que troca classes por indivíduos e conflito por harmonia. Nesse mundo idealizado, o motor do crescimento não é o trabalhador, mas o empreendedor que heroicamente poupa e investe.
Enquanto Smith, Ricardo e Marx teorizavam o trabalho como a fonte do lucro e interpretavam sua exploração como a armadilha estrutural do capitalismo, os economistas neoclássicos postulavam as relações de trabalho como trocas igualitárias entre indivíduos, imaginando um caminho para a prosperidade para todos aqueles que jogassem suas cartas corretamente no jogo do livre mercado.

A ascensão da economia neoclássica no início do século XX retratou a teoria econômica como objetiva. A “economia pura” emergiu como o novo rótulo para o que até então era conhecido como “economia política”. Essa astuta reformulação reinventou uma economia que, de alguma forma, estava além das relações de poder. Os economistas tornaram-se os guardiões de modelos infalíveis, comparáveis ​​aos utilizados pelas ciências exatas — como, por exemplo, a mecânica quântica — e sofisticados demais para a maioria dos cidadãos compreender. Isso coincidiu com a ascensão de instituições econômicas supostamente independentes politicamente, como os bancos centrais, que começaram a retirar decisões políticas cruciais do escrutínio democrático.

A organização do discurso econômico tornou inaceitável qualquer sugestão de um projeto político mais humano e pragmático. Mesmo os progressistas bem-intencionados se limitam a apontar o dedo para a ganância corporativa excepcional ou para a ascensão descontrolada do setor financeiro. Essas críticas não levam a lugar nenhum porque ignoram os problemas inerentes à estrutura básica. Os economistas neoclássicos propagandearam a sociedade de mercado como uma sociedade na qual todos, se racionais e virtuosos o suficiente, podem prosperar. Eles afirmam que as hierarquias sociais são reflexos do mérito individual, ou seja, aqueles que não estão no topo não merecem estar. É um argumento que beneficia muito bem aqueles que detêm o poder.

De acordo com essa perspectiva, os lucros dos poupadores-empreendedores são resultado de seu comportamento virtuoso, permitindo-lhes pagar os salários dos trabalhadores, o que soa bem. A mensagem é tão persuasiva que hoje quase todos a internalizaram: se nos esforçarmos o suficiente, cada um de nós pode se tornar um investidor rico. Aqueles que não conseguirem, só podem culpar a si mesmos.

Enquanto Smith, Ricardo e Marx teorizaram o trabalho como fonte de lucro e interpretaram sua exploração como a armadilha estrutural do capitalismo, os economistas neoclássicos postularam as relações de trabalho como trocas igualitárias entre indivíduos.

As teorias econômicas convencionais revestiram absurdos óbvios com rigor científico: aqueles que não têm recursos suficientes para se sustentar, por estarem desempregados ou trabalharem por baixos salários, não têm dinheiro para poupar e se tornarem investidores.

Será que realmente vivemos na melhor e única realidade econômica possível? Durante o boom econômico do período pós-Segunda Guerra Mundial, uma era de ouro do capitalismo, essa perspectiva poderia parecer vagamente plausível, pelo menos para aqueles que viviam na Europa e nos Estados Unidos. No entanto, no momento atual, em que a maioria da população mundial sofre com profundas injustiças econômicas e sociais e o planeta está à beira do colapso ecológico, essa ideia pseudocientífica do melhor dos mundos possíveis não pode estar correta. Existe uma abordagem mais poderosa e humana para entender a sociedade.

Precisamos redemocratizar a economia para que os cidadãos possam recuperar as escolhas mais importantes que regulam os próprios alicerces de suas vidas. Esse é um caminho melhor do que qualquer coisa que o capitalismo tenha ou possa oferecer. Qual é o primeiro passo nessa direção? Trata-se de uma mudança radical de perspectiva. Não há nada mais político do que a lente através da qual enxergamos o mundo. Somente se aprendermos a olhar o mundo de forma diferente poderemos agir de forma diferente.

Minha intuição fundamental é que não existem problemas econômicos que não sejam inevitavelmente também problemas políticos; ao contrário do que os tecnocratas costumam sugerir, nossa economia não é uma força da natureza nem um objeto externo que podemos manipular como se fosse uma máquina. Pelo contrário, a economia somos nós: pessoas de carne e osso. Isso significa que o “capital” como “mercadoria”, como dinheiro para investir, como riqueza expressa no produto interno bruto, existe graças a relações sociais específicas e, em particular, graças ao fato de que a maioria das pessoas não tem alternativa a não ser vender sua capacidade de trabalho por um salário e, inevitavelmente, receber menos do que o valor que produz. Essa é a ordem capitalista, a espinha dorsal da nossa sociedade que não criticamos nem sequer discutimos. É somente através da lente de classe que podemos escapar dessa armadilha e compreender o funcionamento do nosso sistema econômico e as políticas implementadas para governá-lo.

A história revela que, longe de ser eterna, nossa economia é fundamentalmente frágil e baseada em decisões políticas que reforçam relações sociais específicas. Quando os banqueiros centrais deste mundo aumentam as taxas de juros, sabendo que essa prática causará uma recessão econômica, fazem-no por pelo menos uma preocupação específica: se as pessoas deixarem de aceitar sua condição de trabalhadores assalariados mal remunerados e sem emprego seguro, nosso sistema econômico entrará em colapso. E eles têm razão.

A economia é profundamente política em múltiplos níveis. O sistema econômico capitalista que nos oprime é político; as políticas econômicas que visam protegê-lo e administrá-lo são políticas; e a disciplina econômica que nos fornece uma lente através da qual vemos o mundo é política.

Quando ouvimos o termo “político”, geralmente o associamos às disputas entre partidos e aos personalismos triviais de nossa classe política. Quando uso o termo, no entanto, estou afirmando algo mais fundamental: que o mundo econômico atual é antidemocrático e que é um mundo no qual podemos ter ação coletiva. Não precisamos estar presos a quaisquer leis supostamente naturais e científicas que ditem que a maioria das pessoas deve sofrer. A dimensão econômica de nossas vidas é onipresente — ela define quem somos como indivíduos e como sociedade. Mas também é uma dimensão que criamos. Portanto, temos o poder de transformar nossa ordem socioeconômica em uma que não nos torne subservientes aos interesses dos poucos vencedores do nosso sistema atual.

Todos os problemas que afligem nossa era — da ascensão de partidos ultranacionalistas às guerras perpétuas, do ódio aos migrantes à catástrofe ambiental que atinge especialmente o Sul Global e à crise de saúde mental, sobretudo entre os jovens — podem ser explicados por um sistema econômico que oprime a maioria, tanto nacional quanto globalmente. Quando as pessoas decidem deixar de participar dos processos eleitorais ou votar em partidos que se apresentam como opositores ao establishment liberal, elas expressam profunda insatisfação, ou mesmo desespero, com uma ordem econômica que as decepcionou. Esses sintomas de nossa ordem econômica doentia levaram à ascensão de figuras políticas como o presidente Donald Trump, nos Estados Unidos, e o presidente Javier Milei, na Argentina, que se vendem como alternativas ao sistema. Mas são falsas alternativas.

Temos o poder de transformar nossa ordem socioeconômica em uma que não nos torne subservientes aos interesses dos poucos vencedores do nosso sistema atual.

O espetáculo de personalidades autoritárias nos distrai do fato de que as políticas desses políticos estão em perfeita sintonia com o capitalismo e suas políticas de austeridade. Em um encontro conservador em 2025, por exemplo, Milei presenteou Elon Musk, então braço direito de Trump, com uma motosserra em apoio simbólico às propostas de Musk de cortar quase todo o financiamento federal para a classe trabalhadora, incluindo o Medicaid, o programa de assistência alimentar e as escolas públicas, especialmente os programas educacionais para comunidades de baixa renda. As tendências violentas desses governos apenas aceleram os efeitos destrutivos do capitalismo contra a humanidade. No entanto, os apelos populares por mudanças no sistema me dizem que há amplo espaço para um pensamento ambicioso e corajoso que vislumbre princípios radicalmente diferentes para governar nossa sociedade.

Escrevo sem o distanciamento típico dos economistas. Isso não significa abandonar o rigor científico da investigação. Pelo contrário, aceito meu papel como pesquisador acadêmico que coleta evidências. Aceito o inevitável posicionamento social do intelectual, que, como nos lembra Antonio Gramsci, é orgânico à luta de classes. Ninguém que produz conhecimento está isento da influência de sua condição socioeconômica: minha vida e meu lugar no mundo influenciam meu trabalho. Diferentemente da maioria dos economistas, portanto, tenho consciência de que não existo acima da economia, simplesmente a observando; como todos os outros cidadãos, vivo dentro dela. Assim, tento superar os limites do meu ponto de vista, considerando as lutas históricas e contemporâneas de outros povos para construir uma imagem mais forte e abrangente do mundo econômico em que vivemos. Feito isso, vou além da mera crítica ao neoliberalismo para propor uma visão anticapitalista que espero que inspire os leitores a participar de uma verdadeira transformação social.

Enquanto escrevo, muitos lutam por uma sociedade diferente, acreditando nela com tamanha dedicação que arriscam suas vidas. Minha contribuição parte de uma posição segura, mas compreendo a necessidade de ousadia. Meu tio-avô e minha tia-avó continuam sendo fontes de inspiração. Os irmãos do meu avô Camillo lutaram contra a opressão fascista. Sua irmã, Teresa Mattei, codinome Chicci, foi a mulher mais jovem a ocupar um assento na Assembleia Constituinte Italiana de 1946, após a queda do regime de Mussolini. Foi graças a ela que a expressão “de facto” foi incluída no Artigo 3º da Constituição Italiana:

É dever da República remover os obstáculos de uma ordem econômica e social que, ao limitar de facto a liberdade e a igualdade dos cidadãos, impede o pleno desenvolvimento da pessoa humana e a participação efetiva de todos os trabalhadores na organização política, econômica e social do país. [Grifo meu]

De espírito livre, Teresa não sucumbiu à violência dos guardas nazistas da SS quando, durante a Resistência, abusaram de seu corpo enquanto ela levava mensagens aos seus camaradas partigiani, e não hesitou em se distanciar do Partido Comunista quando este traiu seus ideais.

Seu irmão, Gianfranco Mattei, um professor de química de 27 anos e membro da resistência antifascista, foi capturado em 1º de fevereiro de 1944, enquanto construía bombas para serem usadas na luta contra a ocupação nazista. Após alguns dias de tortura contínua, Gianfranco se enforcou com o próprio cinto em vez de trair seus camaradas. As últimas palavras do meu tio-avô, escritas no verso de um cheque entregue secretamente a seu companheiro de cela, foram para seus pais: “Sejam fortes, sabendo que eu também fui forte”.

Trecho de Escape from Capitalism, de Clara E. Mattei. Copyright © 2026 por Clara E. Mattei. Reproduzido com permissão da Simon & Schuster, Inc. Todos os direitos reservados.

Colaborador

Clara Mattei é diretora do Center for Heterodox Economics e professora de economia na Universidade de Tulsa. Ela é autora de The Capital Order: How Economists Invented Austerity and Paved the Way to Fascism.

6 de fevereiro de 2025

Quebrando o consenso de austeridade da disciplina econômica

Os departamentos de economia dos Estados Unidos aderem servilmente ao consenso dominante sobre austeridade e o livre mercado. O Center for Heterodox Economics acredita que há uma maneira melhor.

Clara E. Mattei


A tradição econômica neoclássica, que domina os currículos universitários e o debate público, deve ser entendida como apenas um paradigma entre muitos. (Win McNamee / Getty Images)

As primeiras semanas do governo Donald Trump marcaram uma rápida escalada de austeridade autoritária — chame-a de "austeritarismo", uma característica definidora da nossa época. O governo Biden anterior também fez sua parte, despejando bilhões na economia de guerra enquanto permitia que a ajuda federal vital para os mais vulneráveis ​​expirasse — resultando em um aumento impressionante na pobreza infantil, quase triplicando o número de crianças em pobreza absoluta entre 2021 e 2023.

Trump está em uma missão para desmantelar o pouco que resta da rede de segurança social dos EUA: cortar o Medicaid, eliminar cupons de alimentação e acabar com os programas de ajuda federal — guiado pelo Projeto 2025, o plano apoiado pela Heritage Foundation para eliminar o apoio aos americanos mais pobres. Refeições escolares? Acabaram. Head Start? Na tábua de corte.

Então veio terça-feira, 28 de janeiro. Com um golpe de caneta, Trump congelou a ajuda federal crucial, pegando de surpresa governos estaduais, organizações sem fins lucrativos e milhões de americanos em dificuldades. Os cortes atingiram tudo, desde assistência para aquecimento para famílias de baixa renda até bolsas de desenvolvimento infantil, assistência médica e financiamento universitário. Um juiz federal bloqueou temporariamente a ordem, mas a mensagem é clara: esta administração está determinada a desfinanciar famílias da classe trabalhadora, não importa as consequências.

Esses cortes não estão acontecendo isoladamente. Eles são parte de um ataque em grande escala à infraestrutura pública, com pressão crescente atualmente sobre dois milhões de trabalhadores federais para abandonarem seus empregos com uma "compra" prometida por Trump. Enquanto isso, a Casa Branca está estendendo o tapete vermelho para corporações e ultra-ricos, planejando novas isenções fiscais para o capital enquanto aperta o cerco sobre os trabalhadores.

A austeridade garante que os ricos fiquem mais ricos — em uma velocidade alucinante. De acordo com a Oxfam, a riqueza dos bilionários aumentou em US$ 2 trilhões somente em 2024, triplicando o ritmo do ano anterior. Enquanto isso, mais da metade das famílias americanas (52%) lutam para cobrir as necessidades básicas, muito menos economizar para emergências. A divisão não está apenas aumentando. Está aumentando.

No passado, a austeridade era disfarçada como um mal necessário em tempos de crise financeira. Mas agora? A máscara caiu. Sem desculpas, sem justificativas. Apenas guerra de classes crua e sem filtros, sustentada por dogmas econômicos ultrapassados.

O Center for Heterodox Economics (CHE), localizado na Universidade de Tulsa, na Oklahoma vermelha escura, visa desafiar esse dogma.

O lançamento oficial do CHE de 6 a 8 de fevereiro em nossa conferência inaugural em Tulsa marca o início de nossa tentativa de remodelar o pensamento econômico do zero. Nosso objetivo é repensar o papel dos economistas — não mais cúmplices de exercícios tecnocráticos separados, mas agentes ativos do conhecimento econômico. E nosso objetivo é resgatar a economia como uma ferramenta para reimaginar um futuro além da austeridade e da exploração.

A tradição neoclássica, que domina os currículos universitários e o debate público, deve ser entendida como um paradigma entre muitos. Esse paradigma é desafiado por abordagens mais robustas: institucionalista, marxista, sraffiana, pós-keynesiana e muito mais. Começando com a primeira graduação secundária em Economia Heterodoxa no país, a ambição da CHE é crescer e se tornar um programa de graduação e pós-graduação para capacitar uma nova geração de economistas que se recusam a patrocinar ideologicamente um sistema que serve a poucos às custas de muitos.

Para a CHE, a verdadeira inovação no conhecimento econômico surge por meio do engajamento com as lutas sociais e as experiências vividas por aqueles que moldam a economia: os trabalhadores. Em março, daremos início à nossa série explorando a autogestão dos trabalhadores com o economista Richard Wolff e Kali Akuno, organizadora da Cooperative Jackson no Mississippi, seguida de discussões sobre direitos à moradia, soberania alimentar e outros tópicos.

As medidas de austeridade são uma característica arraigada do capitalismo: elas estabilizam as relações de classe disciplinando a maioria em maior dependência do mercado. Para que os mercados existam, uma pré-condição essencial é uma população dócil sem alternativa a não ser trabalhar por um salário. Quando a maior parte do nosso dia é gasta lutando para sobreviver, quem tem tempo para refletir sobre o panorama geral, e muito menos sobre alternativas?

Os esforços incansáveis ​​das elites para aumentar a dependência do mercado por meio de ações governamentais expõem o que a economia neoclássica busca esconder: a natureza inerentemente histórica e política da nossa economia. Longe de ser espontâneo ou autossustentável, o capitalismo é profundamente frágil, pois é construído sobre a opressão sistemática da maioria

Ao promover um conhecimento econômico rigoroso que não tem medo de desafiar o poder, nossa esperança é que o CHE possa ajudar a quebrar o domínio rígido do nosso status quo econômico desigual e violento e nos mover em direção a algo melhor.

Colaborador

Clara Mattei é diretora do Center for Heterodox Economics e professora de economia na Universidade de Tulsa. Ela é autora de The Capital Order: How Economists Invented Austerity and Paved the Way to Fascism.

17 de outubro de 2024

A austeridade é um projeto profundamente antidemocrático

Austeridade não é economia ruim. É um projeto centenário para minar a democracia em áreas cruciais de nossas vidas.

Clara E. Mattei, Aditya Singh

Jacobin

Um aposentado senta-se em um ponto de ônibus em Buenos Aires, Argentina, em protesto contra a decisão do presidente de não ajustar as pensões mínimas à inflação. (Cristina Sille / Picture Alliance via Getty Images)

Este artigo apareceu pela primeira vez na edição impressa da Jacobin em alemão.

A austeridade é onipresente. Aumentos nas taxas de juros, novas privatizações, contratos de trabalho cada vez mais flexíveis, cortes na assistência médica e na educação pública, redução de impostos sobre ganhos de capital e aumento de impostos sobre o consumo. Toda reforma econômica nos é apresentada como uma necessidade: devemos apertar os cintos, para que nosso Estado não vá à falência. Precisamos ser realistas e fazer escolhas difíceis, conforme a situação econômica exigir. Uma visão da economia entendida como uma ciência pura, objetiva e lógica nos encanta. Não há alternativa, nem opção, a não ser confiar nos especialistas.

Mas o que esses especialistas querem dizer quando usam esse termo aparentemente onipresente? A maioria o descreverá como políticas econômicas que envolvem corte de gastos públicos e aumento de impostos. Aqui está a primeira armadilha: os economistas usam a lente do agregado, do todo. Esses especialistas falam sobre as economias dos EUA, França ou Brasil como entidades nacionais coesas. Em uma inspeção mais detalhada, no entanto, essas são abstrações grosseiras que escondem as profundas divisões de classe dentro e entre as economias nacionais.

Se olharmos para os gastos agregados do Estado no país em que vivemos e trabalhamos, os Estados Unidos, não vemos nenhum traço de austeridade. Na verdade, o Estado está gastando muito — especialmente para garantir o lucro dos acionistas, com doações públicas para entidades privadas no complexo militar-industrial e outros setores. Sob Joe Biden, os Estados Unidos assumiram dívidas para incentivar os gestores de ativos a investir na transição verde, impulsionar o setor financeiro estadunidense e enviar pelo menos US$ 12,5 bilhões em ajuda militar a Israel em menos de dez meses. Somado a mais “ajuda” enviada em agosto, isso garante negócios para mais de cinquenta multinacionais envolvidas em um massacre israelense que especialistas médicos estimam que já matou 186.000 pessoas, 70% delas mulheres e crianças.

Então os gastos públicos não estão caindo, mas a questão relevante é outra. Austeridade não é simplesmente sobre se o Estado está gastando, mas onde ele gasta — ou, melhor ainda, para quem. A mentira da austeridade serve como uma ferramenta para garantir que, não importa qual partido esteja no poder ou onde esteja a opinião pública, a democracia não interfira com os negócios como de costume.

De quem é o Estado, de quem são os interesses?

Quando o Estado dos EUA, como a maioria dos Estados, aumenta os gastos militares ou resgata bancos enquanto simultaneamente corta os gastos com saúde, educação, transporte, moradia pública ou auxílios para desempregados, ele transfere estruturalmente recursos da maioria trabalhadora para o 1% da população que subsiste principalmente da propriedade de capital (ou seja, dividendos de ações, aluguéis e juros). Em outras palavras, austeridade não é sobre gastar menos, mas sobre gastar da maneira “correta” — em favor da elite econômica e financeira e em detrimento da maioria da população. Enquanto lutamos para pagar o tratamento médico básico, somos forçados a enviar nossos filhos para escolas superlotadas e subfinanciadas e esperamos em longas filas para renovar nossos documentos oficiais, os cofres da Lockheed Martin e da BlackRock são constantemente reabastecidos. O Estado dos EUA comprou quase US$ 50 bilhões em armas da Lockheed Martin somente em 2023. Embora os gastos sociais possam ser cortados, para a classe capitalista, a ideia de que não há dinheiro não existe.

O mesmo princípio se aplica às receitas estatais, o outro lado da moeda da austeridade: não se trata de se o Estado aumenta os impostos, mas para quem ele aumenta. Hoje, a maioria dos governos promulga reformas tributárias regressivas, continuando a cortar impostos para aqueles com renda de capital (para não mencionar generosas brechas fiscais) enquanto aumenta os impostos para aqueles que obtém renda através do trabalho, que têm pouco espaço para evasão, já que são tributados diretamente em seus contracheques. Nos Estados Unidos, as pessoas que ganham renda com o trabalho são tributadas desproporcionalmente mais do que aquelas que ganham renda por meio de ganhos de capital — a maioria dos quais são ganhos pelos ricos (em 2019, o 1% mais rico foi responsável por 75% de todos os ganhos de capital nos EUA, e o 0,1% mais rico sozinho quase a metade). Além disso, enquanto os impostos sobre vendas, impostos especiais de consumo (sobre combustíveis) e impostos sobre o álcool — que todos pagamos igualmente, independentemente da renda — estão crescendo na maioria dos estados americanos, os impostos corporativos federais foram reduzidos (de 35% para 21% em 2017), bem como os impostos sobre as faixas de renda mais altas (de 92% em 1953 para 37% em 2023).

Isso nos leva à situação absurda em que, em uma corporação como a Walt Disney, um zelador teria que trabalhar dois mil anos para ganhar tanto quanto o CEO ganha em um, e os acionistas pagam muito menos impostos do que os trabalhadores cujo trabalho gera lucros. A Walt Disney não é uma maçã podre, mas sim um padrão que empalidece em comparação a alguns outros negócios. Em 2018, as corporações americanas que pagaram zero dólares em imposto de renda federal incluíam empresas como IBM, Starbucks, Netflix, Delta, Chevron, GM e Amazon. O exemplo mais flagrante de tributação regressiva é o corte do imposto sobre herança, um imposto que se tornou substancialmente irrelevante para as receitas fiscais em todo o mundo. Nos Estados Unidos, graças ao mecanismo de um fundo de anuidade (o chamado Grantor Retained Annuity Trust), os multimilionários podem passar sua riqueza para as próximas gerações completamente livres de impostos.

Tendo esses fatos em mente, podemos descartar o tropo comum pelo qual as políticas de austeridade são concebidas como um jogo de soma zero entre o Estado e o mercado. O capitalismo de austeridade não significa menos Estado, mas sim um Estado que constantemente desempenha um papel ativo no reforço do mercado, agindo de acordo com a lógica de expropriar recursos de muitos (que ganham a vida com salários) para favorecer poucos (que subsistem principalmente do capital). A austeridade “administra” a economia no sentido mais radical: ela nos torna precários e dóceis e garante que o sistema econômico nunca seja questionado. A austeridade atravessa as linhas partidárias. Frequentemente, é paradoxalmente a autointitulada esquerda que alavanca a austeridade, do governo de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil ao Partido Trabalhista no Reino Unido. Esse foi particularmente o caso da coalizão social-democrata-verde da Alemanha sob Gerhard Schröder, que empreendeu cortes sociais abrangentes e reformas no mercado de trabalho que, sem dúvida, nenhum governo conservador ousaria.

A trindade da austeridade

Aausteridade fiscal geralmente anda de mãos dadas com políticas monetárias de aumento das taxas de juros, como o Banco Central Europeu tem feito quase mensalmente desde julho de 2022. Esta é uma boa notícia para os donos de capital (aqueles mesmos indivíduos que o Estado escolhe não taxar, mas em vez disso toma emprestado, rendendo juros). É uma má notícia para as famílias que dependem de empréstimos para sua sobrevivência diária e que se verão pagando hipotecas mais altas e acumulando mais dívidas de cartão de crédito.

As famílias trabalhadoras são atingidas não apenas no âmbito do consumo, mas ainda mais duramente no do trabalho. Primeiro, o custo mais alto do dinheiro aumenta as despesas de empréstimos do governo para serviços sociais, o que é então citado para justificar novos cortes. Isso, por sua vez, aumenta a mercantilização desses direitos básicos, como assistência médica e educação, e, portanto, a disposição dos trabalhadores de aceitar qualquer emprego que possam encontrar para pagá-los. Além disso, a austeridade monetária impacta diretamente o mercado de trabalho. O alto custo do dinheiro, de fato, desacelera a economia; menos oportunidades de emprego e maior desemprego minam o poder de barganha dos trabalhadores. A austeridade monetária determinou a agenda do Federal Reserve dos EUA em 2022 e 2023 e aumentou o número de desempregados em 1,3 milhão entre julho de 2023 e julho de 2024.

A atual onda de austeridade monetária foi precedida por mais de uma década de taxas de juros muito baixas, especialmente no momento pós-2008, que beneficiou diretamente a concentração de poder econômico nas mãos de gestores de ativos e “capital-nuvem”. No entanto, como nos lembra a atual secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, “as taxas de juros podem ser baixas apenas quando os trabalhadores estão fracos”.

Dinheiro fácil e formas recentes de flexibilização quantitativa que imediatamente garantiram os ativos de grandes corporações eram politicamente compatíveis com a ordem do capital por causa de ondas anteriores de austeridade. Este é o papel desempenhado nos EUA pelo infame choque de Volcker. Ele leva o nome do presidente do Fed, Paul Volcker, que aumentou as taxas de juros para 20% no início dos anos 1980, causando uma recessão econômica nos Estados Unidos e uma ainda maior para os países latino-americanos que estavam fortemente endividados em moeda estadunidense. Como em muitas outras partes do mundo, essa dosagem de dinheiro caro aumentou o desemprego para 10% e quebrou a espinha dorsal do trabalho organizado em um momento em que os trabalhadores estavam partindo para a ofensiva de maneiras não vistas em décadas.

No entanto, a elite governante sabe que não há vitória permanente. Como eventos recentes demonstram, qualquer aceleração do crescimento salarial em meio ao aperto dos mercados de trabalho é uma ameaça potencial que precisa ser eliminada. O risco de levar uma economia à recessão é um custo de curto prazo comparado ao pré-requisito vital da acumulação de capital: garantir a subordinação dos trabalhadores e uma taxa saudável de exploração. Longe de “calamidades naturais”, as recessões econômicas são frequentemente resultados deliberados projetados para garantir a contração salarial e manter o domínio inquestionável do lucro.

Finalmente, não podemos esquecer o terceiro elemento da trindade da austeridade — a saber, a austeridade industrial visível na intervenção direta do Estado no mercado de trabalho por meio da privatização, desmantelamento de direitos trabalhistas duramente conquistados e enfraquecimento dos sindicatos. As três facetas da austeridade — fiscal, monetária e industrial — reforçam-se mutuamente e trabalham em uníssono para transferir continuamente recursos dos trabalhadores para os detentores de capital.

Mais do que uma estrutura falha

Várias pesquisas já estabeleceram que a austeridade quase nunca estimula o crescimento nem reduz a dívida. Dado isso, a questão relevante não é sobre o histórico da austeridade, mas por que ela continua a ser o plano de ação preferido dos governos, mesmo assim.

Ao pensar sobre as razões por trás da austeridade, o maior erro que podemos cometer é tratá-la meramente como uma política falha que impede o crescimento econômico. Esse tipo de posição é tipicamente assumida por economistas que são críticos da austeridade, mas ainda operam em uma estrutura tecnocrática que assume uma separação absoluta entre problemas econômicos e políticos. O domínio da austeridade não é o resultado de pura estupidez ou corrupção por parte daqueles no governo; pelo contrário, os últimos aderem à primeira porque a consideram particularmente eficaz no reforço das relações de classe. Não se pode entender as políticas fiscais e monetárias sem considerar seu impacto nas relações de trabalho e, em última análise, no que chamamos de ordem do capital como a relação social fundamental do nosso sistema econômico. A austeridade nunca foi sobre conter a inflação ou manter os gastos sob controle — suas manipulações da demanda agregada sempre foram um meio para um fim mais profundo: ou seja, garantir que, para a maioria das pessoas neste planeta, não haja alternativas à venda de seu trabalho para ganhar a vida.

Este objetivo tem precedência sobre todos os outros, mesmo ao custo de uma recessão econômica temporária ou de uma dívida maior. É fácil desmascarar as prioridades políticas em jogo ao considerar, por exemplo, o custo para os cidadãos americanos de não tributar os ricos. De acordo com o Tesouro dos EUA, tributar ganhos de capital na morte em vez de permitir que eles sejam repassados ​​sem impostos arrecadaria mais de US$ 400 bilhões na próxima década, quase exclusivamente do 1% mais rico. Isso é três vezes o que o governo dos EUA gastou em programas de assistência alimentar para famílias de baixa renda em 2023. O desfinanciamento sistemático do Internal Revenue Service é um caso emblemático. A demissão de funcionários públicos sob o pretexto de cortar custos custou ironicamente cerca de US$ 7,5 trilhões em mais de uma década devido à falha em arrecadar dinheiro de impostos, quase 4,5 vezes o déficit do ano fiscal de 2023.

Em resumo, o principal objetivo que as elites buscam atingir com a austeridade é aumentar a dependência dos trabalhadores em relação ao mercado. Se, por exemplo, um trabalhador estadunidense teme perder seu emprego e, com ele, a capacidade de pagar por cuidados médicos, ele se torna mais controlável. Se as oportunidades de emprego são escassas, os salários diminuem. À medida que o Estado corta os cuidados de saúde, educação, habitação social, transporte e serviços públicos, as pessoas se preocupam em ter dinheiro no bolso para garantir uma boa educação para seus filhos, tratamento médico adequado, um teto para viver e o direito ao transporte. Elas estão cada vez mais presas à necessidade de ter dinheiro suficiente, que a maioria pode obter de apenas uma maneira: vendendo sua força de trabalho em troca de um salário. Elas mal têm energia para chegar ao fim do mês, muito menos se envolver em uma luta coletiva para mudar suas condições de trabalho.

Há, no entanto, um segundo motivo: a trindade da austeridade apoia o investimento de capital atraindo os investidores mais ricos por meio de subsídios e incentivos estatais, impostos obscenamente baixos (sobre ganhos de capital, riqueza e lucro corporativo), salários baixos e a destruição de garantias e proteções trabalhistas. Ao garantir as melhores condições possíveis para que os lucros disparem, as políticas de austeridade se tornam ferramentas para redistribuir a riqueza para cima, beneficiando uma minoria da elite poupadora-investidora (que tende a se considerar a mais virtuosa e merecedora de qualquer maneira).

Portanto, a verdadeira medida da eficácia da austeridade está em sua capacidade de impor e reforçar uma estrutura de classe para servir e, acima de tudo, proteger a ordem capitalista, a própria ordem que sustenta o crescimento econômico. Nesse sentido, a austeridade nunca foi um cálculo irracional.

Disciplinar pelo design

As instituições financeiras dominantes da nossa era, do Federal Reserve ao Banco Central Europeu e ao Fundo Monetário Internacional, aparentemente servem ao propósito principal de “estabilizar” a economia. No entanto, uma leitura mais atenta da história revela que o pré-requisito fundamental para essa estabilização é manipular o jogo contra os trabalhadores para que eles não tenham alternativa a não ser aceitar um papel subordinado no processo de produção. Como o economista americano Duncan Foley brilhantemente colocou, as políticas monetárias e fiscais que aparentemente visam a inflação devem ser melhor descritas como “metas de taxa de exploração”. A caixa de ferramentas da gestão macroeconômica — aumentos nas taxas de juros, cortes de gastos sociais, tributação regressiva, privatizações — é baseada no sacrifício direcionado dos trabalhadores na forma de perdas de empregos, precariedade social e dependência do mercado.

Você pode achar esses cenários paradoxais ou até mesmo a expressão de um fracasso de nossas políticas econômicas. Não o culpamos. O que queremos enfatizar, no entanto, é que esses resultados não são um fracasso, mas sim o resultado desejado da lógica do nosso sistema econômico. O confisco dos recursos dos trabalhadores aumenta sua vulnerabilidade econômica, sua precariedade e dependência do mercado. Esses são definitivamente problemas para nós, mas não para o sistema — garantir a dependência do mercado significa garantir os fundamentos da ordem do capital.

É hora de parar de comprar a ideia de que, dentro de uma sociedade capitalista, faz sentido discutir políticas econômicas de acordo com o critério de “certo” e “errado” para um bem comum ilusório. Uma vez que nos aprofundamos na história do capitalismo, fica claro que o que os críticos descrevem como problemas do sistema (pobreza, desigualdade e desemprego) são, na verdade, soluções, embora soluções para problemas diferentes. Em um sistema capitalista, as políticas econômicas sempre funcionam em benefício de alguns e em detrimento da maioria. Nossa maquinaria econômica não é destinada nem estruturada para atender às necessidades das pessoas comuns, mas para aumentar os aluguéis e lucros dos poucos detentores de capital. O que é vantajoso para os lucros é certamente desvantajoso para a maioria das pessoas, uma vez que a vantagem para os primeiros é amplamente baseada no sacrifício dos últimos.

O papel vital da austeridade, tão profundamente enraizado na formulação de políticas a ponto de ser quase invisível, torna-se gritantemente aparente quando o sistema econômico que ela sustenta entra em uma crise existencial e a ilusão de um capitalismo estável diminui. Muito mais do que uma mera desaceleração no crescimento econômico, essas crises são momentos em que a própria essência do sistema (venda de bens visando o lucro) e seus pilares (propriedade privada dos meios de produção e trabalho assalariado) são questionados pela maioria da população, particularmente pelos trabalhadores, em cuja aquiescência o sistema se baseia.

O rescaldo da Primeira Guerra Mundial foi um desses momentos, quando mesmo no coração do Ocidente capitalista, visões de uma alternativa ao capitalismo conquistaram ampla simpatia popular. Da Grã-Bretanha à Itália e Alemanha, mudanças institucionais concretas estavam ocorrendo: em alguns casos, conselhos de trabalhadores organizaram a produção horizontalmente e se posicionaram como o embrião de novas organizações políticas autenticamente democráticas. A mobilização social em larga escala estava alcançando uma profunda redistribuição.

O que interrompeu a transição para uma maior democracia econômica foi uma campanha conduzida por especialistas para codificar a austeridade como uma resolução objetiva para a crise do capitalismo. Uma minoria de tecnocratas poderosos interveio para remediar o que eles consideravam um mundo em desordem. Em nome do combate à inflação e da obtenção de um orçamento equilibrado — argumentos-chave que permanecem como pedras angulares na retórica dos especialistas hoje — os economistas trabalharam a serviço de um objetivo específico: resubjugar a maior parte dos cidadãos à ordem econômica dominante. Conforme discutido em The Capital Order [A Ordem do Capital], para impor austeridade contra os trabalhadores italianos, os especialistas econômicos podiam contar com a mão forte do regime fascista de Benito Mussolini, que era amplamente apoiado pela elite liberal internacional. Mussolini formalizou a aliança da expertise neoclássica com o governo autoritário, o que não é exceção na história do capitalismo dos séculos XX e XXI.

A conexão explícita entre austeridade e repressão política — tão evidente sob o fascismo — revela como o tratamento econômico dos cidadãos italianos não era de fato tão diferente do tratamento que os especialistas britânicos previam para seu próprio povo. De fato, os tecnocratas britânicos pressionaram arduamente por uma implementação não democrática da política econômica por meio da independência e autoridade dos bancos centrais. As continuidades entre as versões fascista e liberal da austeridade mostram como proteger a ordem do capital requer um esforço constante para isolar os controles da gestão macroeconômica da interferência popular. A dinâmica de cem anos atrás ainda fala conosco ao revelar tendências insidiosas na economia política contemporânea.

Investigar o que aconteceu naquela época, quando a austeridade surgiu para disciplinar trabalhadores por toda a Europa, nos permite ir mais fundo em sua lógica atual e desmantelar melhor aqueles mal-entendidos que silenciam a dissidência e a resistência. A história revela que a austeridade não é meramente uma aberração da virada neoliberal na década de 1970, como muitas vezes se acredita. Em vez disso, é uma ferramenta estrutural do nosso sistema econômico, usada para preservar uma taxa saudável de exploração. Embora a austeridade se torne mais explicitamente visível como uma contraofensiva em tempos de maior protesto por trabalhadores e movimentos sociais, ela representa a regra fixa dos governos — e o limite muito estreito da democracia eleitoral — dentro de um sistema capitalista como tal.

Acabar com a austeridade exigirá, portanto, mais do que vencer algumas eleições com uma plataforma progressista. Temos que entender de onde ela veio para traçar um caminho para onde queremos ir. Estudos históricos podem penetrar em abstrações econômicas para entregar uma mensagem fortalecedora: diferentemente do que os especialistas querem que acreditemos, nosso sistema econômico não é natural nem espontâneo. O capital como “dinheiro” e como “crescimento do PIB” é baseado em uma ordem política específica que depende da subjugação da maioria. Por esse motivo, nosso sistema econômico requer suporte constante. Ele é inerentemente frágil, e a austeridade foi aperfeiçoada ao longo do tempo como meio de protegê-lo. Nossa ordem do capital depende da intervenção ativa do Estado para controlar o mercado de trabalho e enfraquecer a possibilidade de que qualquer sistema econômico alternativo possa surgir. Se atentar às estratégias políticas continuamente implementadas para proteger a ordem do capital demonstra que nosso atual sistema socioeconômico não é inevitável. Nem deve ser aceito passivamente como o único caminho a seguir. Daí a mensagem fortalecedora: ele pode ser subvertido por meio de ação coletiva. O estudo da lógica e do propósito da austeridade é um primeiro passo nessa direção.

Colaboradores

Clara E. Mattei é professora de economia e diretora do Center for Heterodox Economics da University of Tulsa, Oklahoma. Ela é autora de The Capital Order: How Economists Invented Austerity and Paved the Way to Fascism.

Aditya Singh é uma estudante de doutorado em economia na New School for Social Research com foco na influência histórica do conceito de independência do banco central e seu impacto nas políticas dos países do Sul Global.

28 de outubro de 2022

Quando os liberais se apaixonaram por Benito Mussolini

Hoje faz 100 anos que Benito Mussolini se tornou o Primeiro Ministro da Itália. Seu primeiro governo adotou um plano de austeridade e reprimiu o movimento trabalhista - o que lhe rendeu os elogios dos economistas liberais, tanto na Itália como no exterior.

Clara E. Mattei


A primeira sessão do conselho de ministros de Benito Mussolini. Mussolini está na ponta da mesa de conferência; o Ministro da Fazenda Alberto de Stefani está dois assentos à direita dele. (Ullstein Bild via Getty Images)

Tradução / Quando falamos de conceitos como “totalitarismo” e “corporativismo”, muitas vezes se assume que o fascismo está muito longe da sociedade liberal que a precedeu, e que ainda hoje vivemos. Mas, se prestarmos mais atenção às políticas econômicas do fascismo italiano, especialmente durante a década de 1920, podemos ver como algumas combinações típicas tanto do século passado quanto do nosso foram experimentadas já nos primeiros anos do domínio de Benito Mussolini. Um caso em questão é a associação entre a austeridade e a tecnocracia. Por “tecnocracia”, me refiro ao fenômeno pelo qual certas políticas que são comuns hoje (tais como cortes nos gastos sociais, impostos regressivos, deflação monetária, privatizações e reduções salariais) são decididas por especialistas econômicos que aconselham os governos ou mesmo assumem diretamente as próprias rédeas, como em vários casos recentes na Itália.

Como explico em A Ordem do Capital: Como os economistas inventaram a austeridade e abriram o caminho para o fascismo, Mussolini foi um dos maiores campeões da austeridade em sua forma moderna. Isto se deu em grande parte porque ele se cercou dos economistas de referência da época, assim como dos campeões do paradigma emergente da “economia pura” – ainda hoje a base da economia neoclássica dominante.

Pouco mais de um mês após a marcha fascista italiana em Roma, em outubro de 1922, os votos parlamentares do Partido Nacional Fascista, do Partido Liberal e do Partido Popular (ou o popolari, um partido católico e antecessor da Democracia Cristã) introduziram o chamado “período de plenos poderes”. Ao fazer isso, eles concederam autoridade sem precedentes ao Ministro da Economia de Mussolini, o economista Alberto de Stefani, e seus colegas e assessores técnicos, em particular Maffeo Pantaleoni e Umberto Ricci.

Mussolini ofereceu a esses economistas uma grande oportunidade: moldar a sociedade sobre o conceito ideal de seus modelos. Das páginas da revista The Economist, Luigi Einaudi – celebrado como campeão do antifascismo liberal e, em 1948, o primeiro presidente da república democrática do pós-guerra da Itália – acolheu com entusiasmo a virada autoritária. “Nunca um poder tão absoluto foi confiado por um Parlamento ao Executivo… A renúncia do Parlamento a todos os seus poderes por um período tão longo foi recebida com alegria pela opinião pública. Os italianos estavam cansados de discursos e de fracos dirigentes”, escreveu ele em 2 de dezembro de 1922. No dia 28 de outubro, na véspera da marcha de Roma, ele havia declarado: “A Itália precisa de um homem capaz de dizer não a todos os pedidos de novas verbas”.

As esperanças do Einaudi e de seus colegas foram cumpridas. O regime de Mussolini implantou reformas ousadas promovendo a austeridade fiscal, monetária e industrial. Estas mudanças funcionaram em uníssono para impor duras dificuldades e sacrifícios à classe trabalhadora e garantir a retomada da ordem capitalista. Esta ordem havia sido amplamente contestada no biennio rosso (anos vermelhos) por numerosas revoltas populares e experiências sofisticadas de organização econômica pós-capitalista.

Entre as reformas que conseguiram calar qualquer tentativa de mudança social, podemos mencionar a redução drástica dos gastos com a previdência social, as demissões de funcionários públicos (mais de 65 mil só em 1923), e o aumento dos impostos sobre o consumo (na época, regressivo porque era pago principalmente pelos pobres). Estes se somaram à eliminação do imposto sobre as heranças que foi acompanhado por um aumento das taxas de juros (de 3 para 7% a partir de 1925), como uma onda de privatizações que intelectuais como o economista Germà Bel denominaram “a primeira privatização em grande escala em uma economia capitalista”.

Além disso, o Estado fascista implementou leis trabalhistas coercivas, que reduziram drasticamente os salários e proibiram os sindicatos. A derrota final das aspirações dos trabalhadores veio com a Carta do Trabalho de 1927, que fechou qualquer caminho para a luta de classes. A Carta encerra qualquer via de luta de classes. A Carta citava o espírito do corporativismo, cujo objetivo, nas palavras de Mussolini, era proteger a propriedade privada e “reunir dentro do Estado soberano o dualismo das forças do capital e do trabalho”, que eram vistas como “não mais necessariamente opostas, mas como elementos que deveriam e poderiam aspirar a um objetivo comum, o maior interesse da produção”.

O Ministro da Economia De Stefani elogiou a Carta como uma “revolução institucional”, enquanto o economista liberal Einaudi justificou sua definição “corporativista” de salários como a única maneira de imitar os ótimos resultados do mercado competitivo no modelo neoclássico. A hipocrisia aqui é dura: os economistas, tão inflexíveis na proteção do mercado livre contra o Estado, tiveram poucos problemas com a intervenção repressiva do Estado no mercado de trabalho. Na Itália, houve uma queda ininterrupta nos salários reais que durou todo o período entre guerras, uma tendência única entre os países industrializados.

Entusiasmo internacional

Enquanto isso, a crescente taxa de exploração garantiu um aumento nas taxas de lucro. Em 1924, o jornal London Times comentou sobre o sucesso da austeridade fascista: “o desenvolvimento dos últimos dois anos tem visto a absorção de uma maior proporção dos lucros pelo capital, e isto, ao estimular o empreendimento empresarial, certamente tem sido vantajoso para o país como um todo”. Esta é a narrativa típica capaz de promover e ganhar aceitação nas doutrinas de austeridade atuais: o consentimento das pessoas comuns aos sacrifícios é construído sobre uma retórica do bem comum.

Em suma, em um momento em que a maioria dos cidadãos italianos exigia grandes mudanças sociais, a austeridade exigia o fascismo – um governo forte, de cima para baixo, que pudesse impor sua vontade nacionalista coercitivamente e com impunidade política – para seu sucesso imediato. E o fascismo, em troca, exigia austeridade para solidificar seu governo. Foi o atrativo da austeridade que levou as instituições liberais internacionais e nacionais a apoiar o governo de Mussolini mesmo depois da Leggi Fascistissime [literalmente: “a maioria das Leis Fascistas”] de 1925-6 que instalou Mussolini como o ditador oficial da nação.

O jornal The Economist, por exemplo, em 4 de novembro de 1922, simpatizou com o objetivo de Mussolini de impor uma “redução drástica das despesas públicas” em nome da “necessidade gritante de obter financiamento sadio na Europa”, e comemorou em março de 1924: “O Signor Mussolini restabeleceu a ordem e eliminou os principais fatores de perturbação”. Em particular, quando os salários atingiram seus limites, as greves se multiplicaram. Estes foram os fatores de “perturbação”, e de acordo com eles “nenhum governo foi forte o suficiente para tentar uma solução”. Em junho de 1924, o jornal Times, que considerava o fascismo um governo “contrário ao desperdício”, elogiou como uma solução para as ambições dos “camponeses bolcheviques” em “Novara, Montara e Alessandria” e “a estupidez brutal dessas pessoas”, seduzidas por “experiências da chamada gestão coletiva”.

A embaixada britânica e a imprensa liberal internacional continuaram a se alegrar com os triunfos de Mussolini. O Duce havia conseguido reunir a ordem política e econômica – a própria essência da austeridade. Como mostram os arquivos históricos, no final de 1923, o embaixador britânico na Itália garantiu aos observadores em seu país que “o capital estrangeiro havia superado a timidez do passado, e estava novamente vindo para a Itália com confiança”. O diplomata enfatizou muitas vezes o contraste entre a incapacidade da democracia parlamentar italiana após a Primeira Guerra Mundial – considerada instável e corrupta – e a gestão econômica “eficiente” do Ministro De Stefani:

Há dezoito meses atrás, qualquer observador instruído da vida nacional estava obrigado a concluir que a Itália era um país em decadência… Agora é geralmente admitido que a situação mudou, mesmo para aqueles que não gostam do fascismo e condenam seus métodos. Um progresso notável em direção à estabilização das finanças do Estado… as greves [diminuíram] em 90% e os dias de trabalho perdidos [diminuíram] em mais de 97% e um aumento da poupança nacional de 4.000 [milhões de liras] em relação ao ano anterior; de fato, eles excedem pela primeira vez o nível pré-guerra em quase 2.000 milhões de liras.

Os celebrados sucessos da austeridade na Itália – avaliados em termos de paz industrial, altos lucros e mais negócios para a Grã-Bretanha – também tiveram uma face repressiva, que foi muito além da institucionalização de um Executivo forte e da evasão do Parlamento. A própria embaixada relatou inúmeras ações brutais: o constante ataque aos opositores políticos; a queima de sedes e câmaras de trabalho socialistas; a demissão de inúmeros prefeitos socialistas; a prisão de comunistas; e muitos assassinatos políticos amplamente conhecidos, dos quais o mais importante foi o assassinato do parlamentar socialista Giacomo Matteotti.

Mas a mensagem era clara: qualquer preocupação com os abusos políticos do fascismo desapareceu diante dos sucessos de sua austeridade. Até mesmo o campeão do liberalismo e governador do Banco da Inglaterra Montagu Norman, após expressar desconfiança de um Estado como o fascista sob o qual “qualquer coisa no caminho da divergência” tinha sido “eliminada” e no qual “a oposição em qualquer forma [desapareceu]”, acrescentou: “este momento é adequado e pode proporcionar, uma administração mais bem adaptada para a Itália”. Da mesma forma, Winston Churchill, na época chefe do Tesouro Britânico, afirmou: “Diferentes nações têm maneiras diferentes de fazer a mesma coisa… Se eu fosse italiano, estou certo de que estaria com você do começo até o fim em sua luta vitoriosa contra o leninismo”.

Tanto Norman como Winston Churchill afirmaram tanto em privado quanto publicamente que soluções liberais inconcebíveis em seu próprio país poderiam ser aplicadas a um povo “diferente” e menos democrático como na Itália, com “padrões duplos” que os leitores contemporâneos poderiam muito bem reconhecer.

De fato, mesmo quando os observadores liberais levantaram dúvidas, estas não eram uma preocupação com a democracia, mas sim com o que aconteceria sem Mussolini. Em junho de 1928, Einaudi escreveu no The Economist que temia um vácuo de representação política, mas ainda mais um colapso da ordem capitalista. Ele falava dos “questionamentos sérios” na mente dos ingleses:

Quando, novamente, no curso inevitável da natureza, a mão forte do grande Duce for retirada do leme do barco, a Itália terá outro homem de seu calibre? Qualquer era pode produzir dois Mussolinis? Se não, o que acontecerá? Sob um controle mais fraco e menos sábio, não teremos um futuro caótico? E com que consequências, não apenas para a Itália, mas para a Europa?

O mundo político internacional ficou tão apaixonado pela austeridade de Mussolini que recompensou o regime com os recursos financeiros necessários para solidificar ainda mais a liderança política e econômica do país, em particular, liquidando a dívida de guerra e estabilizando a lira, como nos mostra o clássico de Gian Giacomo Migone Os Estados Unidos e a Itália fascista.

O apoio ideológico e material que o establishment liberal italiano deu ao regime de Mussolini sem dúvida não foi uma exceção. Na verdade, a mistura de autoritarismo, especialização técnica em economia com austeridade inaugurada pelo fascismo “liberal” (economicamente liberal) teve muitas reproduções: a partir do uso dos “Chicago Boys” pela ditadura de Augusto Pinochet no Chile até o apoio dos “Berkeley Boys” à ditadura de Suharto na Indonésia (1967-1998), como também a experiência dramática – recentemente de volta aos holofotes – da dissolução da URSS.

Como observa Giulia Albanese, ainda falta uma “história global” da Marcha em Roma. Mas seu legado em termos da difusão de uma prática autoritária de austeridade certamente vale a pena redescobrir – também à luz do antifascismo daqueles liberais que na década de 1920 tinham preferido a ordem econômica ao invés da democracia e as necessidades de redistribuição de riqueza.

Colaboradora

Clara E. Mattei é professora assistente no departamento de economia da New School for Social Research e autora do livro "The Capital Order: How Economists Invented Austerity and Paved the Way to Fascism".

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