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5 de abril de 2023

Ernest Mandel foi um dos maiores pensadores marxistas do século XX

Nascido neste dia, há um século, Ernest Mandel foi um dos maiores pensadores políticos da sua época. Desde o seu activismo adolescente na resistência anti-nazi até aos seus últimos dias, Mandel foi um defensor intransigente dos ideais socialistas e dos interesses da classe trabalhadora.

Alex de Jong


O economista Ernest Mandel participa de uma reunião da Liga Comunista Internacional. (Giorgio Piredda/Sygma via Getty Images)

Tradução / O intelectual e militante socialista belga Ernest Mandel nasceu há cem anos, em 5 de abril de 1923. Mandel foi um incansável agitador e pesquisador que escreveu algumas das obras mais significativas de teoria marxista durante a segunda metade do século XX.

Mandel talvez seja mais lembrado hoje por seu livro O capitalismo tardio, que popularizou um termo agora familiar. O crítico Fredric Jameson se inspirou fortemente nos escritos econômicos de Mandel ao elaborar sua teorização sobre o pós-modernismo, e “capitalismo tardio” se tornou um clichê jornalístico para a análise cultural.

O próprio Mandel, que certa vez escreveu uma história social de romances policiais, poderia ter sorrido para esta curiosa apropriação de seu trabalho. Mas seu objetivo primordial era desafiar as estruturas de poder do capitalismo, em vez de analisar seus efeitos colaterais culturais.

Ele permaneceu fiel a esse objetivo desde sua adolescência como lutador da resistência nos tempos de guerra, tendo sobrevivido ao sistema prisional nazista, até seus últimos dias no deserto neoliberal dos anos 90. A vida política e a obra de Mandel podem ser uma importante fonte de inspiração para o novo movimento socialista de hoje.

Resistindo ao nazismo

Mandel nasceu numa família de judeus poloneses assimilados de origem alemã na cidade belga Antuérpia. Seu pai, Henri Mandel, tinha simpatias de esquerda – especificamente com as ideias de Leon Trótski. Durante os anos 30, após a chegada dos nazistas ao poder na Alemanha, a casa Mandel tornou-se um ponto de encontro para os refugiados de esquerda. Ao ouvir tais refugiados discutir o socialismo, os últimos desenvolvimentos na União Soviética e a ascensão do fascismo, o jovem Ernest recebeu uma introdução precoce à política radical.

Em maio de 1940, a guerra chegou à Bélgica, quando a Alemanha nazista invadiu o país. Grandes partes da esquerda estabelecida foram incapazes de responder à nova situação. Muitos dirigentes do social-democrata Partido Trabalhista Belga e dos sindicatos fugiram do país, enquanto o antigo dirigente do Partido Trabalhista Hendrik de Man pediu colaboração com os ocupantes.

O pacto de não-agressão soviético-alemão ainda estava em vigor na época, e os comunistas belgas proclamaram uma posição de “a mais pura e completa neutralidade”. Semanas após o início da invasão nazista, um assassino que trabalhava sob as ordens da União Soviética assassinou Trótski em seu exílio mexicano.

Em meio a esta desordem, um grupo de pessoas de esquerda independentes se propôs a publicar o primeiro jornal clandestino de língua flamenga, que foi produzido na casa Mandel. Ernest e seu pai escreveram muitos dos artigos do jornal. Em agosto de 1942, Ernest entrou na clandestinidade. No final daquele ano ele foi preso, mas conseguiu escapar enquanto estava sendo transportado.

De acordo com o biógrafo de Mandel, Jan Willem Stutje, Henri Mandel pagou um resgate pela soltura de seu filho. A “ousada fuga” de Ernest poderia muito bem ter sido “encenada por agentes receosos, que queriam evitar ser questionados”. De acordo com Stutje, a fuga de Mandel o deixou com um sentimento de culpa.

Incansável, Mandel continuou suas atividades na resistência. Nessa época, ele havia se tornado um membro do Partido Comunista Revolucionário trotskista (RCP, na sigla em inglês). No início de 1944, o RCP elaborou um panfleto bilíngüe sobre os contatos entre as corporações alemãs e americanas, que era dirigido diretamente aos soldados alemães: “Vocês estão sendo sacrificados como bala de canhão enquanto seus senhores negociam para salvar suas posses”. Em 28 de março de 1944, enquanto distribuía o panfleto, Mandel foi preso novamente.

Tendo sido preso mais por suas atividades na resistência do que por ser judeu, Mandel foi enviado a prisões e campos de trabalho diferentes, a certo ponto sendo forçado a trabalhar em uma indústria química da IG Farben. Como membro da resistência, judeu e trotskista, que era desprezado por seus colegas prisioneiros stalinistas, suas chances de sobrevivência eram pequenas.

Mandel posteriormente lembrou que a sorte pura foi uma das razões pelas quais ele conseguiu sobreviver. Mas ele também atribuiu seu sucesso ao estabelecimento de laços com alguns dos carcereiros alemães que haviam sido apoiadores do partido social-democrata antes da tomada de poder pelos nazistas: “Essa era a coisa inteligente a se fazer, mesmo do ponto de vista da autopreservação”. As duras condições cobraram seu preço e Mandel foi hospitalizado no início de 1945. Em 25 de março de 1945, as forças estadunidenses libertaram o campo em que ele estava sendo mantido.

Trotskismo depois de Trótski

Embora os membros diretos da família de Mandel tenham sobrevivido à guerra, sua avó, tia e tio foram todos mortos em Auschwitz, junto com suas famílias. Henri Mandel sonhou com uma carreira acadêmica para seu filho, mas Ernest tinha outras prioridades. Ele queria continuar a luta contra o capitalismo, o sistema que tinha produzido os horrores do nazismo e da guerra. Ao longo de sua vida, a experiência do fascismo continuou sendo um ponto de referência político e moral para Mandel.

Leon Trótski e seus apoiadores haviam fundado a Quarta Internacional (QI) em 1938. Trótski acreditava que o teste da guerra que se aproximava iria descredibilizar os partidos comunistas stalinistas e tinha esperanças de que a QI iria se desenvolver e se transformar em uma alternativa. Entretanto, o importante papel da União Soviética na derrota da Alemanha nazista e a participação dos comunistas nos movimentos de resistência na Europa trouxeram um prestígio e popularidade sem precedentes a esses partidos, deixando seus rivais na ala radical do movimento de trabalhadores com oportunidades limitadas de crescimento.

Enquanto isso, a guerra e a repressão haviam dizimado os pequenos grupos associados à QI. Mandel sentiu que era seu dever ajudar a construir o movimento trotskista e tornou-se um destacado militante em suas fileiras. Em parte, ele foi impulsionado pela memória dos camaradas que os nazistas haviam assassinado, como seu amigo próximo Abram Leon, autor de um importante estudo da história do judaísmo e do antisemitismo.

Como muitos radicais, Mandel pensou que a guerra seria o prelúdio de uma onda de revoluções na Europa, como havia sido o caso na Primeira Guerra Mundial. O programa que Trótski elaborou para a QI em 1938 afirmava que o capitalismo havia estagnado:

As forças produtivas da humanidade estagnaram. As novas invenções e melhorias já não conseguem elevar o nível de riqueza material. As crises conjunturais sob as condições da crise social do conjunto do sistema capitalista infligem privações e sofrimentos cada vez mais pesados às massas.

Gradualmente, Mandel veio a reconhecer que o sistema não apenas continuaria a funcionar, mas que seria capaz de se desenvolver ainda mais, entrando em um longo período de crescimento econômico depois de 1945. Sob estas condições, ele se juntou ao Partido Socialista Belga, mantendo secreta sua identidade trotskista, e ajudou a fundar o semanário La Gauche (A Esquerda), um jornal que se tornou influente na esquerda socialista na Bélgica.

Neste período, Mandel se consolidou como um teórico e dirigente socialista. Em 1962, ele publicou seu primeiro grande trabalho, Teoria Econômica Marxista. O livro fez uma apresentação sistemática de seu tema, tentando provar que se poderia “reconstituir o conjunto do sistema econômico de Karl Marx” baseando-se “nos dados científicos da ciência contemporânea”.

Na introdução do livro, Mandel descreveu sua abordagem como “genético-evolutivo”, com o que ele quis dizer que estava preocupado com o estudo da origem e da evolução de seu tema. “A teoria econômica marxista”, escreveu ele, deve ser considerada como “uma soma de um método, de resultados obtidos pelo uso deste método e de resultados que são continuamente sujeitos a reexame”. A combinação de história e teoria, continuamente tentando integrar novas descobertas, seria característica da obra de Mandel.

Reformas estruturais e estratégia socialista

Enquanto trabalhava em Teoria Econômica Marxista, um livro que chegou a quase oitocentas páginas em sua tradução em inglês, Mandel desenvolveu uma estratégia de “reformas estruturais anticapitalistas” como parte do círculo ao redor de La Gauche. Com isso ele quis dizer reformas que não iriam introduzir o socialismo por si mesmas, mas que, no entanto, representariam passos em direção a ele e “dariam à classe trabalhadora a capacidade de enfraquecer decisivamente o grande capital”.

Para Mandel, possíveis reformas estruturais anticapitalistas na Bélgica incluíram a organização de um comitê de planejamento que iria garantir o pleno emprego, o controle público sobre as grandes corporações e a nacionalização do setor energético. Ele enfatizou que as reformas econômicas não poderiam ser separadas do problema do poder político.

Mandel estava tentando formular uma estratégia socialista que poderia ser adequada para um país capitalista altamente desenvolvido como a Bélgica. Uma fonte de inspiração para este esforço foi a greve geral belga do inverno de 1960 contra uma série de reformas propostas pelo governo de direita. Durando várias semanas, a greve envolveu centenas de milhares de trabalhadores. As greves e ocupações de fábricas francesas de junho de 1936, após a chegada ao poder da Frente Popular de esquerda, foram outro exemplo citado por Mandel.

Durante o período de crescimento econômico do pós-guerra, as condições de vida haviam melhorado para muitas pessoas, mas lutas como a greve geral belga mostraram que o desenvolvimento capitalista não havia pacificado totalmente a classe trabalhadora. Para Mandel, as armas mais poderosas dos trabalhadores na sua luta contra o capitalismo eram a organização, a educação política e a consciência de seu papel econômico essencial.

Ele reconheceu que as lutas dos trabalhadores não giravam simplesmente em torno de condições econômicas, mas também eram movidas pela resistência a práticas de trabalho alienantes e opressivas. Mesmo os trabalhadores relativamente abastados experimentaram a alienação e a dominação no local de trabalho. Em um balanço da greve de 1960, Mandel escreveu que a luta da classe trabalhadora contra o capitalismo “difere das lutas sociais do passado, pois não é apenas uma luta por interesses essenciais imediatos”. Essa luta poderia se tornar uma “luta consciente para reestruturar a sociedade”.

Mandel sustentou que a greve belga foi uma oportunidade perdida porque não tinha havido uma direção política para propor tal reestruturação. Para a transformação revolucionária acontecer, era necessário estender a luta por reformas econômicas à questão do poder político.

Para Mandel, a luta só poderia ser vitoriosa se “o inimigo fosse confrontado não apenas nas fábricas, mas também nas ruas”. A história havia mostrado, insistiu ele, a necessidade de estabelecer um partido revolucionário que iria “explicar incansavelmente” ao povo trabalhador que era necessário conquistar tanto o poder econômico quanto o poder político para alcançar seus objetivos.

Dinâmicas do capitalismo tardio

Durante os anos 60, Mandel desenvolveu sua compreensão de como o capitalismo funcionava um século após Marx ter publicado O Capital. Inicialmente, ele usou o termo “neocapitalismo” antes de se decidir por “capitalismo tardio”. O livro de 1972 que levou esse título foi a magnum opus de Mandel.

Em O capitalismo tardio, ele tentou “fornecer uma explicação marxista das causas da longa onda de crescimento rápido do pós-guerra”. Segundo Mandel, este período de crescimento também tinha “limites inerentes” que asseguravam que daria lugar a “outra longa onda de crise social e econômica crescente para o capitalismo mundial, caracterizada por uma taxa de crescimento global muito menor”. Ele previu corretamente o fim do boom do pós-guerra em meados dos anos 70.

Mandel considerou as taxas aceleradas de inovação tecnológica como uma das características do capitalismo tardio. Isto encurtou a vida útil do capital fixo e resultou em uma maior necessidade para as grandes empresas de implementar um planejamento. Também houve intervenção governamental na economia em uma escala sem precedentes para evitar quebras como a depressão de Wall Street de 1929. Como Mandel observou em 1964: “O Estado agora garante, direta e indiretamente, o lucro privado de formas que vão desde subsídios disfarçados até a ‘nacionalização das perdas’”.

Entretanto, toda tentativa do capitalismo de superar suas contradições lhe apresentava novos problemas. Apoiados pelos governos, os bancos concederam crédito barato às corporações, permitindo um crescimento rápido, mas também levando à inflação. Tal inflação prejudicou os principais investimentos de longo prazo que eram centrais para a concorrência entre as grandes empresas de capital intensivo.

Por sua vez, as tentativas de combater a inflação criaram seus próprios problemas, estrangulando o crescimento econômico. A intervenção do Estado na economia pode ser útil para evitar crises catastróficas e garantir lucros. Mas também deixou claro para todos que “a economia” não era um dado natural.

Horizontes revolucionários

Mandel apostou na possibilidade de uma transformação revolucionária decorrente de tais contradições. Explosões como a greve geral belga e a crise da Apostasia grega de 1965 apresentaram-lhe um clássico dilema marxista. Se fosse verdade, como Marx havia insistido, que “a ideologia dominante de toda sociedade é a ideologia da classe dominante”, então como a classe trabalhadora poderia se libertar?

Mandel reconheceu que o predomínio da ideologia da classe dominante tinha raízes mais profundas do que a “manipulação ideológica” através dos meios de comunicação de massa, do sistema escolar, etc. Este predomínio extraia força do funcionamento cotidiano do capitalismo, no qual o povo trabalhador era forçado a competir entre si e tinha de depender da venda de sua força de trabalho.

Contudo, as inevitáveis contradições e crises do capitalismo que resultaram da competição entre os monopólios dominantes, também levaram a fissuras no consenso dominante. A questão central para os socialistas era como ir além das explosões de descontentamento que eram o resultado inevitável da turbulência econômica. Passar das lutas defensivas contra os ataques às condições de vida e aos salários para as demandas de poder dos trabalhadores exigia um “salto consciente”.

Em um texto influente sobre a necessidade de organização socialista, Mandel desenvolveu suas ideias sobre o que tornaria possível tal salto. Ele distinguiu três grupos: a massa da classe trabalhadora; uma vanguarda dessa classe, composta por trabalhadores militantes; e os membros de organizações revolucionárias. A terceira categoria se sobrepunha parcialmente à segunda.

No modelo de Mandel, a “vanguarda” não era uma elite autodeclarada, mas sim os militantes mais comprometidos e enérgicos da classe trabalhadora. Construir um movimento revolucionário significava conquistar tais trabalhadores militantes para as ideias socialistas. Isto lhes forneceria organização e impediria sua retirada da militância política durante o inevitável refluxo das lutas sociais imediatas.

A transformação radical só seria possível durante ondas de agitação, quando as contradições do capitalismo geram raiva e protesto em massa. Durante tais períodos, um partido revolucionário deveria tentar atrair grupos cada vez maiores de pessoas para a ação política e propor reivindicações anticapitalistas.

Mandel via a revolução como um processo de interação entre a ação organizada e os movimentos espontâneos nos quais as pessoas trabalhadoras iriam inevitavelmente se organizar em diferentes grupos. Isto afasta uma divisão estereotipada entre organização e espontaneidade, que estavam associadas respectivamente às figuras de Vladimir Lênin e Rosa Luxemburgo na esquerda marxista. Em parte como brincadeira, Mandel se considerava “um leninista com desvios luxemburguistas”.

Uma ponte entre gerações

Os anos 60 e início dos anos 70 foram tempos turbulentos durante os quais Mandel foi extraordinariamente produtivo, como se fosse levado pela maré ascendente da luta de classes. Junto com O capitalismo tardio, os outros livros que ele publicou naqueles anos incluíram um estudo das contradições entre o capitalismo estadunidense e europeu, um texto acadêmico sobre A formação do pensamento econômico de Karl Marx, uma crítica da tendência eurocomunista entre os partidos comunistas da Europa Ocidental e um exame dos ciclos de crescimento e de queda na história do capitalismo, Ondas longas do desenvolvimento capitalista. Durante sua vida, Mandel publicou mais de duas dúzias de livros e centenas de artigos.

Ao mesmo tempo, Mandel foi um incansável agitador e debatedor. Em 1964, ele foi convidado a Cuba para participar de debates sobre o planejamento socialista. Che Guevara havia lido o Teoria Econômica Marxista com grande interesse e teve longas discussões com Mandel.

Por sua vez, Mandel ficou muito impressionado com o dirigente revolucionário argentino. Quando o exército boliviano capturou e executou sumariamente Guevara em 1967, quando ele tentava lançar uma campanha de guerra de guerrilha, Mandel publicou uma homenagem apaixonada a “um grande amigo, um camarada exemplar, um militante heróico”.

Os governos dos estados capitalistas consideraram Mandel uma presença que não era bem-vinda em seu território. Em 1969, as autoridades estadunidenses lhe negaram a entrada no país em um caso que a maioria conservadora da Suprema Corte posteriormente citaria como um precedente para justificar a “proibição muçulmana” de Donald Trump. Alguns anos depois, o governo da Alemanha Ocidental interveio para bloquear a nomeação de Mandel na Freie Universität Berlin e fez com que ele fosse deportado do país.

A França foi outro país que baniu Mandel de seu território. Em maio de 1968, ele foi convidado a falar nas reuniões da Juventude Comunista Revolucionária (JCR), um grupo radical que havia se aproximado da Quarta Internacional. A JCR estava fortemente envolvida nos tumultos e protestos de maio de 68.

No que deve ter sido uma oportunidade satisfatória para se envolver em alguma atividade prática, Mandel ajudou a construir barricadas no Latin Quartier de Paris durante a “noite das barricadas”. O carro em que ele tinha vindo a Paris foi destruído durante os combates de rua. Um repórter ouviu Mandel exclamar “Que lindo! É a revolução!”.

Para a nova geração de revolucionários, Mandel foi um elo com a história e a experiência revolucionárias. Daniel Bensaïd, dirigente da JCR, rememorou como Mandel os ajudou a descobrir “um marxismo aberto, cosmopolita e militante”. Para esses jovens radicais, segundo Bensaïd, Mandel foi “um orientador em termos de teoria” e uma ponte entre gerações – alguém que fez as pessoas pensarem, em vez de pensar por elas.

Mandel tinha fortes habilidades pedagógicas, praticadas em incontáveis reuniões com trabalhadores, sindicalistas, estudantes radicais e militantes revolucionários. Seu panfleto de 1967, “Introdução à teoria econômica marxista”, tornou-se um clássico amplamente lido.

Socialismo ou barbárie

Há algo de trágico no fato de que Mandel, que havia lutado tanto pela transformação socialista, tenha falecido em 1995, quando a hegemonia neoliberal estava no seu auge. Mandel teve dificuldades de se adaptar ao declínio das lutas sociais a partir do final dos anos 70.

No novo século, olhando retrospectivamente para uma popular introdução ao marxismo que Mandel havia publicado em 1974, Bensaïd argumentou que sua análise política otimista sobre as perspectivas do socialismo se baseou na “confiança sociológica de Mandel na crescente extensão, homogeneidade e maturidade do conjunto do proletariado”. Segundo Bensaïd, essa confiança “transformou em uma tendência histórica irreversível a situação específica criada pelo capitalismo industrial do pós-guerra e seu modo específico de regulação”. No entanto, a ofensiva neoliberal da década de 1980 reverteu este processo, minando as forças do trabalho organizado:

Longe de ser irreversível, a tendência à homogeneização foi minada pelas políticas de dispersão das unidades de trabalho, intensificação da concorrência no mercado de trabalho mundial, individualização de salários e do tempo de trabalho, privatização do lazer e dos estilos de vida, a metódica demolição da solidariedade e proteção sociais. Em outras palavras, longe de ser uma consequência mecânica do desenvolvimento capitalista, a unificação das forças de resistência e de subversão da ordem estabelecida pelo capital é uma tarefa incessante recomeçada nas lutas cotidianas, e cujos resultados nunca são definitivos.

Mais tarde em sua vida, o otimismo excessivo de Mandel foi combinado com avisos contra os efeitos de longo prazo do capitalismo. A escolha histórica era a barbárie ou o socialismo, ele insistia, e um resultado socialista não estava garantido.

Durante este período, Mandel retornou ao estudo da barbárie capitalista tal como expressa na Segunda Guerra Mundial e dos crimes do nazismo. Embora tenha permanecido durante toda a sua vida um admirador de Trótski, ele reavaliou alguns de seus julgamentos anteriores, tornando-se mais crítico das práticas de Trótski durante seus “anos obscuros” no início da década de 1920, quando, de acordo com o entendimento de Mandel, “a estratégia da direção bolchevique inibiu em vez de promover a autoatividade dos trabalhadores”.

Mandel se orgulhava de se situar dentro do que considerava a tradição essencial do iluminismo – a luta pela emancipação e autodeterminação humana. Embora ele não gostasse do termo, havia, como Manuel Kellner observou, uma dimensão utópica no pensamento de Mandel. Mas utópico no melhor sentido da palavra: fé de que a sociedade pode ser refeita, pela ação humana, e transformada em algo muito melhor.

A crise do socialismo e do comunismo era aos olhos de Mandel, antes de tudo, uma crise desta crença. “A principal tarefa dos socialistas e comunistas”, escreveu ele pouco antes de sua morte, “é restaurar a credibilidade do socialismo na consciência de milhões”. Ele descreveu os objetivos do socialismo em “termos quase bíblicos”:

Eliminar a fome, vestir os que não tem roupa, dar uma vida digna a todos, salvar a vida daqueles que morrem por falta de cuidados médicos adequados, generalizar o livre acesso à cultura, incluindo a eliminação do analfabetismo, universalizar as liberdades democráticas e os direitos humanos e eliminar a violência repressiva em todas as suas formas.

Para Mandel, a esperança de um tal futuro estava baseada na faísca de rebelião que sempre fez as pessoas se rebelarem contra condições opressivas e alienantes. A tarefa dos socialistas era transformar essa faísca em uma chama, apoiando todas essas rebeliões e apresentando um caminho alternativo para avançar.

Essa tarefa não mudou. Em um período histórico diferente, o legado de escrita e militância de Mandel pode nos ajudar na busca por um novo caminho.

Colaborador

Alex de Jong é editor do jornal socialista Grenzeloos e ativista na Holanda.

22 de agosto de 2021

Stalin entregou centenas de comunistas a Hitler

Durante a década de 1930, inúmeros comunistas e socialistas da Alemanha e Áustria se refugiaram dos nazistas na URSS. Mas, em uma traição chocante, a polícia secreta soviética entregou centenas deles à Gestapo de Hitler.

Alex de Jong

Jacobin

Ex-membros da Schutzbund austríaca, a ala paramilitar do Partido Social-Democrata Austríaco, estavam entre os entregues aos nazistas pela NKVD. (Foto: Arquivos Federais Alemães)

Tradução / A constituição da União Soviética de 1936 concedeu “o direito de asilo aos cidadãos estrangeiros perseguidos por defenderem os interesses dos trabalhadores”. Porém, a quebra dessa promessa pelas autoridades soviéticas ao entregarem centenas de exilados alemães e austríacos às mãos dos nazistas a partir do final da década de 1930 foi vergonhosa. As vítimas incluíam revolucionários veteranos, comunistas judeus e militantes antifascistas.

Uma das deportadas foi a comunista alemã Margarete Buber-Neumann. Sua biografia, publicada em 1949 em inglês com o título Sob Dois Ditadores: Prisioneira de Stalin e Hitler, ao que tudo indica, é o relato mais conhecido de uma das deportadas. Buber-Neumann descreveu o momento em que as autoridades soviéticas a transferiram para a custódia nazista junto a outras vinte e nove pessoas:
Enfim o trem parou, e pela última vez ouvimos o grito familiar: “Preparem-se. Com suas coisas.” As portas do compartimento foram destravadas... a estação estava ao lado. Vimos o nome na sinalização de uma placa: Brest-Litovsk.

Buber-Neumann ainda se recordava ter visto um grupo de homens da polícia secreta soviética – a NKVD, em geral conhecida por seu nome antigo, GPU – atravessar a ponte para o território alemão retornado pouco tempo depois: “Estavam acompanhados por oficiais da SS. O comando da SS e o chefe da GPU trocaram saudações.” O comandante soviético começou a ler os nomes dos prisioneiros:

Um deles era um emigrante judeu da Hungria, outro era um jovem trabalhador de Dresden, envolvido em um enfrentamento contra os nazistas em 1933, cujo resultado foi a morte de um dos nazis. Ele conseguiu escapar para a Rússia Soviética. Durante o julgamento, seus colegas o incriminaram, sabendo, ou melhor, imaginando, que ele estava seguro na União Soviética. Seu destino estava dado.

Buscando refúgio de Hitler

Nascida em 1901, Buber-Neumann juntou-se à juventude comunista alemã em 1921 e ao seu partido principal, o KPD, cinco anos depois. A partir de 1928 trabalhou para o jornal da Internacional Comunista, Inprekorr. Lá ela conheceu Heinz Neumann, membro da direção do KPD, com quem se juntou. Depois que os nazistas tomaram o poder em Berlim, ambos procuraram refúgio na União Soviética.

Mas os expurgos desencadeados por Joseph Stalin ao final da década de 1930 transformaram a URSS em um lugar mortal para os comunistas alemães. O NKVD prendeu Heinz Neumann com acusações forjadas de espionagem, executando-o em 26 de novembro de 1937. Eles também prenderam Margarete Buber-Neumann e a deportaram, mais tarde, para a Alemanha nazista em 1940.

Diversos grupos diferentes de cidadãos alemães viviam na União Soviética naquela época. Alguns estavam lá para trabalhar. Muitos nesta categoria eram simpatizantes do comunismo, nem sempre com filiação ao partido. Existiam também os exilados políticos, os comunistas e outros antifascistas, incluindo os austríacos, transformados em cidadãos alemães após a anexação da Áustria pelos nazistas em 1938. Outros adquiriram a cidadania soviética.

As informações sobre o destino dessas pessoas estão espalhadas por vários arquivos, alguns ainda inacessíveis aos pesquisadores. É, portanto, difícil ter certeza de quantas pessoas sofreram o mesmo destino de Buber-Neumann. A estimativa conservadora é que mais de 600 foram deportados ou expulsos.

O destino de Franz Koritschoner

Os exilados enviados à Alemanha nazista incluíam veteranos do movimento comunista, como Franz Koritschoner. Nascido no império austro-húngaro em 1892, este jovem socialista judeu tinha se oposto ao apoio dado pelos social-democratas à guerra depois de 1914. Em 1916, Koritschoner conheceu Vladimir Lenin durante a Conferência de Kienthal, uma reunião de socialistas revolucionários antiguerra.

Koritschoner desempenhou um papel de direção nas greves e protestos austro-húngaros de janeiro de 1918. No mesmo ano, juntou-se ao recém-criado Partido Comunista da Áustria (KPÖ). Koritschoner editou o jornal do KPÖ, traduzindo as obras de Lenin, que se dirigia a ele como um “querido amigo”. De 1918 a 1924, Koritschoner integrou o comitê central do KPÖ.

Ao final da década de 1920, mudou-se à União Soviética para trabalhar com a Internacional Vermelha dos Sindicatos Trabalhistas (Profintern), ingressando no Partido Comunista da União Soviética em 1930. O NKVD prendeu Koritschoner em 1936, acusando-o de contrarrevolucionário. Ele foi entregue pelas autoridades soviéticas à Gestapo em abril de 1941.

Sabemos um pouco das últimas semanas de vida de Koritschoner por ele ter dividido sua cela com Hans Landauer, membro das Brigadas Internacionais que sobreviveu à guerra. Segundo Landauer, Koritschoner estava abalado e enfraquecido, com cicatrizes da tortura em suas mãos pelo NKVD e a Gestapo. Não tinha mais dentes, afirmou a Landauer que os perdeu por causa do escorbuto em um campo de trabalhos forçados no extremo norte soviético. Em 7 de junho de 1941, os nazistas enviaram Koritschoner para Auschwitz, onde ele foi morto dois dias depois.

Traição do Schutzbündler

Os expurgos que varreram a União Soviética sob o governo de Stalin atingiram círculos cada vez mais amplos. Um grupo de vítimas foram os antigos membros do partido austríaco Schutzbund, ou Liga de Defesa Republicana, a ala paramilitar do Partido Social Democrata Austríaco.

Em 4 de março de 1933, o chanceler da Áustria, Engelbert Dollfuß, suspendeu o parlamento e instaurou um regime fascista. Em fevereiro de 1934, membros da Schutzbund pegaram em armas contra o novo sistema, mas não foram páreos para o armamento pesado do exército austríaco. Cerca de duzentos perderam a vida nos combates ou foram executados de forma sumária.

O movimento comunista comemorou a resistência da Schutzbund, com a União Soviética lhes oferecendo asilo. Muitos membros da Schutzbund, decepcionados com a falta de militância da social-democracia diante do fascismo, aderiram ao Partido Comunista. Cerca de 750 Schutzbündler exilaram-se na URSS.

No entanto, apenas alguns anos mais tarde, foram alvo de perseguição pelo passado social-democrata. Enquanto cerca de metade deixou a União Soviética, a maior parte dos Schutzbündler restantes foram vítimas dos expurgos. O NKVD deportou muitos dos que sobreviveram para a Alemanha nazista.

Em um grupo de vinte e cinco pessoas deportadas, transferidas em dezembro de 1939, dez delas vinham do Schutzbund. Um deles era Georg Bogner. Ele lutou durante o levante de fevereiro de 1934 em sua cidade natal, Attnang-Puchheim, antes de fugir para a União Soviética. A polícia secreta soviética prendeu Bogner em 1938. Ao final de dezembro de 1939, ele estava em uma detenção do serviço de inteligência alemão, o Sicherheitsdienst, em Varsóvia. O que aconteceu com ele a depois é desconhecido.

Antes do Pacto

Em agosto de 1939, a União Soviética assinou um pacto de não-agressão com a Alemanha nazista. Uma semana depois, a Wehrmacht invadiu a Polônia. Em seguida, as forças soviéticas atacaram o país pelo leste. Antes do fim dos combates, os dois governos assinaram o “Tratado de Fronteira e Amizade Germano-Soviético” em setembro daquele ano.

O acordo trazia formulações para além de uma promessa mútua de não agressão: as partes comprometeram-se a não apoiar uma coligação dirigida contra a outra e a trocar informações “relativas a interesses mútuos”. Havia também protocolos secretos adicionados aos tratados pelos quais Moscou e Berlim dividiram o território dos Estados Bálticos e da Polônia entre si. A admissão oficial soviética da existência destes protocolos ocorreu apenas em 1989.

Muitos tratam a deportação dos antifascistas à Alemanha nazista como algo associado ao tratado de amizade. Margarete Buber-Neumann interpretou-os assim, como “um presente de Stalin a Hitler”, outros escritores também usaram essa mesma metáfora. Contudo, a ligação entre as deportações e o pacto parece menos direta que sugerido.

A União Soviética já havia deportado presos antifascistas para a Alemanha nazista antes da assinatura do pacto. Em 1937-38, cerca de sessenta exilados, entre eles judeus e comunistas, foram deportados. Entre os deportados estava um jovem chamado Ernst Fabisch.

Nascido em Breslau, 1910, em uma família judia, Fabisch ingressou no Partido Comunista da Alemanha (Oposição), ou KPO, aos dezenove anos. Liderado por Heinrich Brandler e August Thalheimer, o KPO era uma corrente comunista que integrava a chamada “Oposição de Direita” no movimento, associada a políticos soviéticos como Nikolai Bukharin, o último grande rival de Stalin. Rejeitavam a hostilidade sectária do KPD junto aos social-democratas e outros socialistas, defendendo a unidade contra o fascismo.

Após as prisões dos principais membros do KPO pelos nazistas em 1933, Fabisch juntou-se à nova direção clandestina, dos quais muitos foram presos depois, em 1934. Ele escapou para a União Soviética, mas logo depois estava mais uma vez em perigo. O NKVD prendeu Fabisch em 1937 e deportou-o para a Alemanha no ano seguinte. A Gestapo prendeu Fabisch logo em seguida. Ele foi morto em Auschwitz em 1943.
Padrões de Cumplicidade

A ausência de uma fronteira direta ligando a União Soviética à Alemanha nazista nesta época levou as respectivas autoridades a coordenarem as viagens dos presos entre ambos estados. As autoridades soviéticas entregavam passes de viagem válidos apenas até a Alemanha, enquanto informavam seus homólogos nazistas sobre os nomes e antecedentes dos deportados. Essas fichas, que estão hoje nos arquivos da embaixada alemã e do Ministério das Relações Exteriores, são fonte importante de informação sobre as vítimas.

As deportações não começaram com a assinatura do Pacto Hitler-Stalin e a divisão da Polônia, e o destino desses presos não parece ter integrado as discussões entre Moscou e Berlim. No entanto, o número de deportações aumentou a partir daquele momento.

A maioria dos deportados neste período eram exilados políticos, refletindo o perfil dos alemães e austríacos ainda na União Soviética durante esta fase. Às vezes, as autoridades alemãs solicitavam a deportação de determinados indivíduos. Outras vezes, porém, os nazistas não pareciam muito interessados nos deportados.

Documentos da embaixada alemã que o historiador austríaco Hans Schafranek cita em seu livro Zwischen NKWD und Gestapo ilustram essa questão. Na maioria dos casos, as deportações aconteceram sem qualquer gesto recíproco por parte dos nazistas para transferir presos procurados pelas autoridades soviéticas. As deportações continuaram até maio de 1941, poucas semanas antes da Operação Barbarossa, quando as relações entre os dois estados já estavam se deteriorando.

O impulso central por trás das deportações era interno ao sistema soviético. Os expurgos stalinistas começaram como um ataque a um grupo bem definido de pessoas: comunistas vistos como potenciais apoiadores da oposição. Com o tempo, práticas de tortura e outras formas de coação levaram os suspeitos a entregarem os seus nomes, junto a uma atmosfera generalizada de paranoia e desconfiança, em que o imperativo burocrático por quotas de detenção esticava ao máximo o número de alvos.
Fantasias e Fabricações

As acusações contra supostos traidores e espiões ganharam contornos bizarros. Um antigo líder da ala paramilitar do Partido Comunista Alemão, o Roter Frontkämpferbund, teria organizado um grupo terrorista “trotskista-fascista”. As autoridades soviéticas chegaram a acusar os filhos de comunistas exilados de formarem uma Juventude Hitlerista clandestina.

Regra geral, comunistas estrangeiros como Heinz Neumann enfrentavam acusações de serem pagos por seus respectivos “países de origem”. Stalin dissolveu o Partido Comunista Polonês em 1938 e mandou executar ou enviar seus membros para os Gulags, acusando-os de trabalhar ao mesmo tempo como agentes do governo de Varsóvia e a serviço de Leon Trotsky. Como observado pelo historiador Hermann Weber, dos quarenta e três líderes do KPD, mais morreram sob custódia da polícia secreta soviética do que foram mortos pelos nazistas. Centenas de exilados alemães foram executados de imediato, enquanto muitos outros morreram em campos de prisioneiros.

Nascido em 1887, Hugo Eberlein foi membro fundador do KPD. Ele substituiu Rosa Luxemburgo como representante do partido no congresso de fundação da Internacional Comunista em 1919. Eberlein chegou à União Soviética em 1936, mas foi preso no ano seguinte por suposto envolvimento em “atividades terroristas” em nome dos nazistas.

Uma carta à sua esposa, que mais tarde foi encontrada nos arquivos do NKVD, descreviam as privações, forçado a ficar de pé enquanto era interrogado de forma contínua “durante dez dias e noites sem pausa”, impedido de dormir e quase sem receber comida. Os guardas espancaram Eberlein sem remorsos: “Nas minhas costas não sobrou nenhuma pele, apenas a carne nua. Por semanas não consegui ouvir com um ouvido e um olho ficou cego por semanas.” O NKVD enfim o matou em 16 de outubro de 1941.
Vítimas de uma caça às bruxas

Buber-Neumann, Fabisch, Bogner, Eberlein e muitos outros foram vítimas de uma caça às bruxas. Seu destino dependeu de decisões burocráticas arbitrárias. Em centenas de casos, as autoridades soviéticas optaram por deixar que os nazistas encaminhassem as vítimas sem terem de se ocupar com elas.

Os nazistas enviaram Margarete Buber-Neumann para o campo de concentração feminino de Ravensbrück. Em abril de 1945, com o colapso do regime, ela foi solta. Com medo de mais uma vez ser presa por oficiais soviéticos com o avanço do Exército Vermelho, Buber-Neumann se deslocou 150 quilómetros para oeste, onde as tropas dos EUA eram a principal força de ocupação.

Buber-Neumann morreu em 1989, poucas semanas antes da queda do Muro de Berlim. Ela tornou-se uma conservadora de direita, argumentando que a sua própria experiência mostrava que o fascismo e o comunismo eram ideologias de criminalidade semelhante. Se os socialistas quiserem se opor a tais argumentos hoje, não podemos ignorar estes vergonhosos casos históricos. A nossa própria compreensão do socialismo deve cumprir as suas promessas com a dignidade humana no seu cerne. Não devemos menos às vítimas.

Colaborador

Alex de Jong, militante holandês, é editor da revista socialista Grenzeloss.

9 de outubro de 2020

A verdadeira história do MK-Ultra e o cientista louco da CIA

Em sua busca pela técnica perfeita de controle da mente, a CIA realizou testes horríveis em humanos inconscientes. A história de programas como o MK-Ultra é um olhar assustador sobre como o governo dos EUA transformou seus próprios cidadãos em cobaias - e destruiu vidas no processo.

Alex de Jong

Jacobin

O selo da Agência Central de Inteligência em sua sede em Langley, Virginia. (David Burnett / Newsmakers)

Resenha do Livro Poisoner in Chief: Sidney Gottlieb and the CIA Search for Mind Control, de Stephen Kinzer (Henry Holt & Co, 2019).

Tradução / Em 28 de novembro de 1953, Frank Olson, um cientista da área de pesquisas em guerra biológica do exército estadunidense, caiu do décimo andar do hotel Manhattan Statler, em Nova York. Ele pulou ou foi empurrado? Nove dias antes de sua morte, Olson – que falava sobre abandonar seu trabalho e contava à sua esposa sobre ter cometido “um erro terrível” – foi secretamente intoxicado com LSD por um agente da CIA.

Mais de vinte anos depois, o presidente dos EUA, Gerald Ford, se encontrou pessoalmente com a família de Olson, para oferecer um pedido de desculpas. Os filhos de Olson estão convencidos de que a morte de seu pai não foi resultado de um colapso mental, possivelmente engatilhado pela dosagem secreta de LSD; em vez disso, eles acreditam que ele foi assassinado para prevenir que revelasse segredos.

A história de Frank Olson inspirou uma série da Netflix dirigida por Errol Morris, mas sua morte segue permeada de mistérios. O trabalho de Olson o colocou em contato com o homem que lhe drogaria secretamente – Sidney Gottlieb, que coordenava um dos projetos mais infames da história da CIA, o MK-Ultra.

O livro Poisoner in Chief: Sidney Gottlieb and the CIA Search for Mind Control [Intoxicador no Comando: Sidney Gottlieb e a Busca da CIA por Controle da Mente], de Stephen Kinzer, conta a incrível história de um homem que se enxergava um nobre patriota e um explorador, destruindo pessoas nos EUA e no estrangeiro.

Um patriota desorientado?

Sidney Gottlieb, nasceu em 1918, filho de imigrantes húngaros-judeus. Químico por treinamento, Gottlieb foi recrutado para realizar pesquisas secretas para os EUA em guerras químicas. Conforme descreve Kinzer, os Estados Unidos começaram a pesquisar o uso de bactérias e agentes químicos para uso militar durante a Segunda Guerra Mundial.

Na história contada por Kinzer, Gottlieb estava ansioso para contribuir com suas habilidades nas pesquisas. Ele já queria participar dos esforços de guerra, mas foi rejeitado devido a uma deficiência de pé torto. De acordo com Kinzer, o agente Gottlieb se sentia em dívida com o país que forneceu um lugar seguro para sua família e possibilitou sua formação acadêmica.

Os Estados Unidos não eram o único país pesquisando novos métodos de guerra. Cientistas nazistas também trabalhavam com armas químicas, infames pelos experimentos em seus prisioneiros no desenvolvimento das pesquisas. Um total ainda desconhecido de cientistas – que, de acordo com os critérios de Nuremberg, deveriam ser condenados por crimes contra a humanidade após 1945 – ganharam uma nova vida nos Estados Unidos, em troca de informações sigilosas.

Sempre que cientistas apresentassem um passado “manchado”, como aponta Kinzer, oficiais dos EUA reescreviam suas biografias, expurgando sistematicamente “referências de associação à SS em colaboração com a Gestapo, abuso de trabalho escravo e experimentos em seres humanos”. Essa foi a Operação Paperclip [clipe de papel, em tradução literal] – batizada em referência ao uso de clipes de papel utilizados para marcar os arquivos de cientistas que eram levados aos Estados Unidos (mais de setecentos, no total).

Nazistas criminosos de guerra não eram a única fonte de conhecimento dos EUA. Cientistas japoneses que trabalharam com a Unit 731, a pesquisa secreta em guerra química e biológica do Exército Imperial Japonês, também se beneficiaram dos acordos secretos. A história da Unit 731 é ainda menos transparente em comparação com os equivalentes nazistas. Do que nós já temos conhecimento é matéria de pesadelos. A Unit 731 submetia prisioneiros à vivissecção e remoção de órgãos sem anestesia, para estudar os efeitos de doenças diversas em humanos.

Operação Sea Spray

Kinzer descreve como oficiais dos EUA concluíram que, no contexto da Guerra Fria, tais pesquisas produziriam conhecimentos que poderiam “se provar decisivos em futuras guerras.” Após a guerra, nos EUA, em vez de abrandados, projetos de pesquisas biológicas e químicas cresceram. Oficiais militares estavam obcecados com a ideia de que os soviéticos estavam à frente dos Estados Unidos no desenvolvimentos de novas formas de guerra.

Isso justificou até mesmo experimentos em cidadãos dos EUA. Em 1950, cientistas conduziram um grande teste, em que bactérias supostamente inofensivas, mas rastreáveis, seriam lançadas em uma cidade dos EUA. Escolheram São Francisco, compreendendo que sua neblina contínua disfarçaria as névoas de bactérias. Durante a Operação Sea Spray, um navio da Marinha fumegou bactérias na atmosfera durante seis dias na costa de São Francisco. Nos dias posteriores, onze pessoas deram entrada em hospitais e uma pessoa morreu.

Apesar de não ser tão inofensivo como previsto, os pesquisadores consideraram o experimento um sucesso. Para sua satisfação, se provou que “dosagens eficazes podem ser produzidas em áreas relativamente grandes.”

O interesse pessoal de Gottlieb, entretanto, era outro. Em vez de buscar métodos para o envenenamento em larga escala, o cientista era fascinado com a ideia de que substâncias químicas poderiam ser utilizadas para controlar a mente das pessoas. Em prisões secretas pela Europa e Ásia, prisioneiros eram submetidos a tentativas de “lavagem cerebral”. Kinzer cita um estudo:

Em 1951, uma equipe de cientistas da CIA liderada pelo Dr. Gottlieb foi até Tokyo... Quatro japoneses suspeitos de trabalhar para os russos foram secretamente enviados a um local em que médicos da CIA os injetaram com uma variedade de depressores e estimulantes… Sob interrogatórios incessantes, eles confessaram trabalhar para os russos. Eles foram levados até a Baía de Tokyo, executados e jogados ao mar.

Nos anos seguintes, uma droga específica se tornou central para o trabalho de Gottlieb: o LSD. Originalmente sintetizada em 1938, suas propriedades alucinógenas se tornaram aparentes para os cientistas da década de 1940. Gottlieb estava convencido de que LSD poderia ser usado para manipular indivíduos, para fazer com que espiões capturados confessassem seus segredos e até mesmo reprogramar suas personalidades.

Gottlieb não estava sozinho em sua convicção. Durante a guerra na Coréia, os círculos do establishment estadunidense ficaram chocados com casos de soldados do país aderindo ao lado da Coréia do Norte e denunciando crimes de guerra dos EUA. A única explicação possível, concluiu a inteligência dos EUA, era que comunistas teriam aperfeiçoado suas técnicas de lavagem cerebral. O filme O Candidato da Manchúria, de 1962, popularizou ainda mais esta ideia com sua história de uma conspiração comunista e um soldado dos EUA que sofreu lavagem cerebral.

Humanos para experimentos de laboratório

Em sua obsessão com os supostos avanços soviéticos nas guerras bacteriológicas e químicas, somado ao medo das “habilidades comunistas” em lavagem cerebral nos círculos da inteligência dos EUA levou a agência a quebrar suas próprias regras. A CIA precisava de humanos para realizar experimentos, mas prisioneiros de guerra coreanos e comunistas suspeitos de espionagem representavam um estoque limitado. Gottlieb se mostrou engenhoso ao encontrar novas vítimas.

Logo após lançar o infame programa que se tornaria conhecido como MK-Ultra, Gottlieb entrou em contato com Harris Isbell, diretor de pesquisa do Addiction Research Center [Centro de Pesquisas em Adicção] em Lexington, Kentucky. Oficialmente tratava-se de um hospital para pessoas com dependência química, o centro estava sob a autoridade conjunta da Bureau of Prisons and Public Health Service [Comitê público de prisões e serviços de saúde], e “funcionava mais como uma prisão.” A maioria dos detentos era de afro-americanos em situação de extrema vulnerabilidade. Isso os torna perfeitos para os testes. Conforme escreveu Kinzer:

A CIA precisava de um lugar para testar drogas nocivas e potencialmente viciantes: Isbell tinha um grande número de usuários de drogas que não estavam em posição de se defender. A partir do início dos anos 1950, a agência enviou LSD, com outros narcóticos potencialmente nocivos, para Kentucky, para testes em humanos usados como ratos de laboratório.

Isso foi apenas o começo. Insatisfeita com a pesquisa em Kentucky, a MK-Ultra ampliou sua abrangência. Nos início dos anos 1950, a CIA notou pela primeira vez o trabalho de Ewen Cameron, presidente da Associação Americana de Psicologia e da Associação Canadense de Psiquiatria.

O trabalho de Cameron lhes chamou atenção porque realizava experimentos em que confinava pacientes em pequenas celas, os colocava em coma induzido por drogas e os submetia à uma repetição interminável de frases gravadas. Cameron buscava métodos que o permitiriam, como ele afirmava, “reprogramar” indivíduos, alterar seus comportamentos e crenças. Pacientes que chegavam à Cameron em busca de ajuda, tornaram-se involuntariamente cobaias para esses experimentos.

A CIA financiou e protegeu o cientista, que conduziu testes em que – de acordo com uma avaliação feita décadas depois – “não tinham qualquer validade terapêutica”, sendo até mesmo “comparáveis às atrocidades médicas nazistas”. Para explicar as ações de Cameron, não há necessidade de considerar um certo patriotismo desorientado ou os medos da Guerra Fria como motivações. Ele era simplesmente um sádico que utilizava uma fachada científica para quebrar e traumatizar pessoas.

“Muito bom hein, irmão!”

Logo em seguida, a CIA começou a subsidiar pesquisas de renomados psicólogos e psicofarmacologistas. Muitos deles não sabiam de onde vinha o financiamento. Pesquisas eram conduzidas em hospitais e universidades de respeito, como MIT, Stanford e John Hopkins. Em geral, as pessoas em que eram realizados os testes não sabiam ao que seriam submetidas – uma nítida violação ética de pesquisas.

Alguns experimentos não eram coercitivos ou eram até mesmo atraentes. Uma série de experimentos envolveu uso de LSD para estudantes voluntários. Os voluntários ficaram tão fascinados por suas experiências psicodélicas que até médicos e enfermeiras chegaram a se inscrever eles mesmos para os testes. Em uma irônica reviravolta na história, a CIA ajudou a popularizar a droga que fora tão importante para a contracultura dos anos 1960.

Mas Gottlieb ainda não estava perto de realizar seu sonho de uma droga que pudesse controlar mentes. Em Nova York e São Francisco, ele conduzia operações em que civis recebiam drogas sem consentimento e eram observados para avaliar as reações. Na operação informalmente chamada de Operation Midnight Climax [Operação Clímax da Meia Noite, em tradução literal], Gottlieb trabalhou junto com agentes da Federal Bureau of Narcotics para montar um local seguro para atividades de inteligência em São Francisco.

“Sob a direção de Gottlieb”, escreve Kinzer, o agente George Hunter White “montou um grupo de prostitutas cujo trabalho seria levar seus clientes ao local e dosá-los com LSD, enquanto ele observava e gravava suas reações.” White lucrava com a natureza secreta da operação para satisfazer seus próprios desejos. Ao fim de sua vida, em 1975, White escreveu uma carta para Gottlieb, o agradecendo pelas oportunidades concedidas à ele pela CIA:

Eu era um pequeno missionário, na verdade, um herege, mas trabalhava de todo coração nas vinhas porque era divertido, divertido, divertido. Onde mais poderia um jovem garoto americano de sangue vermelho mentir, matar, enganar, roubar, estuprar e pilhar, com a sanção e a benção da Alta Santidade? Muito bom hein, irmão!”

Os homens que encaravam cabras

Apesar de tudo isso, a MK-Ultra nunca obteve os resultados que Gottlieb desejava. A CIA começou a abrandar o projeto no final dos anos 1960 e o encerrou completamente alguns anos depois. O fato é que sua existência se tornou pública durante a década de 1970, quando, em certa medida, operações da CIA foram colocadas sob escrutínio democrático.

Em 1974, o New York Times reportou atividades ilegais da CIA conduzidas em âmbito doméstico. O Congresso dos EUA formou diversas comissões para investigar as alegações, como o famoso inquérito conduzido por Frank Church. Kinzer descreve o cabo-de-guerra entre oficiais que desejavam usar tais investigações como um álibi e a pressão por investigar seriamente atividades ilegais.

No início dos anos 1970, Gottlieb aposentou-se da CIA. Quando ele foi revelado como o homem por trás do MK-Ultra, alguns anos depois, e foi convocado para uma Comissão do Senado, ele mediou um acordo que o salvou de ações judiciais. Gottlieb viveu seus últimos anos tranquilamente criando cabras em sua casa rural na Virgínia. Ele morreu em 1999.

Irracional e criminoso

Como o Envenenador-Chefe, indivíduos, e não grandes forças sociais, estão no centro das atenções. O resultado é uma crônica de criminosos bizarros e vigaristas como Gottlieb e George Hunter White, e todo dano que causaram.

Partes do livros são surreais. Anedotas variam de horripilantes – em um experimento, crianças com deficiências cognitivas foram alimentadas com cereais contendo urânio e cálcio radioativo – à algumas até cômicas, por exemplo quando agentes da CIA supostamente implantaram um dispositivo de escuta em um gato, mas esqueceram que gatos não obedecem instruções (o gato fugiu durante um teste em um parque).

Mas o que permitiu que pessoas como Gottlieb tenham feito tudo que fizeram? A explicação de Kinzer sobre a motivação de Gottlieb só consegue desvendar uma parte. O livro mostra que os anos de custosos experimentos nunca trouxeram nenhum resultado que ao menos apontasse para a possibilidade do estilo de lavagem cerebral visto em O Candidato da Manchúria. Mas em vez de concluir que a busca era infrutífera, os cientistas da CIA persistiram.

O status aparentemente intocável de Gottlieb é ainda mais estranho ao considerar seus supostos casos de sucesso. Para explicar sua influência na CIA, Kinzer descreve o envolvimento de Gottlieb em projetos que lhe deram prestígio. Mas as “histórias de sucesso” de Gottlieb foram quase todas de fracassos, como as tentativas de assassinato do ministro chinês de relações exteriores, Zhou Enlai, de Fidel Castro ou do líder independentista congolês, Patrice Lumumba (ele foi assassinado antes que o plano de Gottlieb pudesse ser colocado em prática). A carreira de Gottlieb em destruição de vidas é um surpreendente exemplo de irracionalidade burocrática, mostrando como sem supervisão democrática, projetos secretos podem tomar vida própria.

Kinzer concede um crédito particular ao diretor da CIA, William Colby (1973–76), na exposição desta loucura. Mas Colby atuou em um contexto mais amplo, moldado pelo Movimento Anti Guerra, por Watergate e revelações como o Pentagon Papers. Houve uma deslegitimação generalizada de instituições como a CIA e pressão popular por prestação de contas. Não é coincidência que com o declínio destes movimentos, ao final dos anos 1970, qualquer tipo de responsabilização foi novamente abreviada.

Com a “guerra ao terror”, a CIA e outras agências de inteligência ganharam uma liberdade sem precedentes para atuar. Mais recentemente, com a passagem de Trump, chegamos a testemunhar tentativas de reformulação da imagem da CIA como um braço racional, informado e benevolente do Estado dos EUA. O livro de Kinzer sobre Gottlieb e a MK-Ultra serve como um útil lembrete da natureza podre dos mestres imperiais da espionagem.

Colabrador

Alex de Jong é editor do jornal socialista Grenzeloos e ativista na Holanda.

30 de novembro de 2019

Maoísmo e seu complexo legado

Apesar de sua enorme extensão, Maoism: A Global History de Julia Lovell não nos oferece uma maneira clara de entender o maoísmo e seu legado.

Alex de Jong


A maior estátua de Mao Zedong do mundo em Orange Isle, Changsha, Hunan, China. Wikimedia Commons

Resenha de Julia Lovell, Maoism: A Global History (Penguin Random House, 2019).

Cinquenta anos atrás, uma região remota da China, o Condado de Dao, foi apanhada pela violência da Revolução Cultural. Em algumas semanas, milhares foram assassinados. A maioria das vítimas foi espancada até a morte, seus corpos jogados nos rios. Do outro lado do mundo, um grupo de jovens de rua asiático-americanos formou o Partido da Guarda Vermelha, exigiu uma vida digna para todos e declarou: "Percebemos que somente quando a opressão de todas as pessoas acabar poderemos ser realmente livres." Quando a líder do Partido dos Panteras Negras, Elaine Brown, visitou Pequim em 1970, ela observou com surpresa: "Velhos e jovens espontaneamente davam testemunhos emocionantes, como os batistas convertidos, das glórias do socialismo".

O novo livro de Julia Lovell, Maoism: A Global History, tenta explicar o movimento quixotesco que capturou a imaginação de milhões em todo o mundo. Apesar do título, o volume não é realmente uma “história global” - é mais uma série de vinhetas sobre aspectos do Maoísmo, a maioria delas concentrando-se em certas regiões ou países.

A estrutura um tanto desconexa resulta de como o livro circunscreve seu tópico. O primeiro capítulo tenta definir o que é o maoísmo - um trabalho difícil, dadas as contradições em Mao e no movimento que ele liderou. Considere a atitude deles em relação à libertação das mulheres: o jovem Mao lamentou a falta de direitos das mulheres e pediu a abolição dos casamentos arranjados. Uma das conquistas da revolução chinesa foi a lei do casamento de 1950, que permitiu às mulheres se divorciarem de seus maridos e possuírem terras. Em 1968, Mao declarou que “as mulheres sustentam metade do céu”. Lovell aponta que o suposto feminismo de Mao ajudou a popularizar suas ideias. No entanto, já nos anos 20, "as mulheres radicais pressionaram para que o controle da natalidade se tornasse a linha de frente", mas "suas contrapartes masculinas enterraram a questão", as mulheres continuavam um grupo desfavorecido na sociedade e o tratamento pessoal de Mao às mulheres era abusivo .

Lovell considera outros exemplos de elementos contraditórios reunidos sob a bandeira do maoísmo, como uma concepção do “partido de vanguarda” como portador da verdade, mas também convocando revoltas espontâneas a partir de baixo; tendências nacionalistas e, às vezes, xenófobas (especialmente durante a Revolução Cultural) versus internacionalismo e o apelo à revolução global; e assim por diante. Lovell cita o escritor francês Christophe Bourseiller: “O maoísmo não existe. Isso nunca aconteceu. Isso, sem dúvida, explica seu sucesso.” Em outras palavras, o maoísmo era o que as pessoas queriam que fosse.

Isso significa que o assunto do livro é muito amplo e Lovell vai ainda mais longe. Também estão incluídas no tópico as respostas ao maoísmo - um capítulo analisa a gênese do mito ocidental de “lavagem cerebral” durante a Guerra da Coréia. O livro termina com um capítulo sobre a China de hoje e as influências persistentes da ideologia maoísta no Estado e na sociedade.

O “Pensamento de Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para uma Nova Era”, por exemplo, foi reconhecido pelo Partido Comunista Chinês como parte de sua doutrina, tornando o atual presidente chinês o terceiro líder, depois de Mao Zedong e Deng Xiaoping, cujo nome aparece ali. Lovell inclui o culto em torno de Xi Jinping e suas pretensões teóricas entre os elementos “maoistas” da China atual.

Com uma compreensão tão ampla de assunto, o livro obviamente tem que deixar de fora muitas coisas que poderiam caber nele. Lovell escreve que escolheu se concentrar nos episódios mais relevantes, mas não está muito claro quais padrões ela usou. Há, por exemplo, apenas uma menção passageira às Filipinas — embora o Partido Comunista das Filipinas (“guiado pelo marxismo-leninismo-maoísmo”, como diz o livro) continue sendo uma força significativa lá – enquanto o comportamento pessoal de Mao é discutido repetidamente.

A influência de Mao?

No início do livro, Lovell se refere a turistas ocidentais na China comprando cópias do Pequeno Livro Vermelho ou isqueiros com brasão de Mao como lembranças, enquanto os visitantes da Alemanha “não sonhariam em comprar cópias de Mein Kampf” ou colecionar kitsch de estilo nazista. É claro que o autor deseja dissipar as ilusões remanescentes sobre a China maoísta e retratos positivos do próprio Mao. Mas isso geralmente é feito de maneira pouco convincente.

Por exemplo, Lovell se refere repetidamente à biografia Mao: The Unknown Story, de Jung Chang e Jon Halliday, bem como às memórias de seu médico pessoal, The Private Life of Chairman Mao. Ambos os livros não são relatos particularmente confiáveis, mas fornecem muitos contos sensacionalistas.

O apelo de tal sensacionalismo é aparente no tratamento de Aravindan Balakrishnan, o líder de culto abusivo do British Workers' Institute of Marxism-Leninism-Mao Zedong Thought. Várias páginas do livro são dedicadas a ele (ele até consegue uma foto) — mas ele dificilmente é uma figura influente ou particularmente representativo do movimento.

Às vezes, a ânsia de culpar o maoísmo por tudo de ruim supera a análise de Lovell. As guerras entre China, Vietnã e Camboja no final dos anos 70 são atribuídas à introdução do nacionalismo no marxismo-leninismo por influências maoístas e chinesas — mas essas dificilmente foram necessárias para isso. Já sob Stalin, centenas de milhares de poloneses, coreanos, iranianos, ucranianos, estonianos e outros foram alvo de deportação com base em sua nacionalidade. O chauvinismo de Pol Pot, que assinou alguns de seus primeiros artigos com o pseudônimo de “o Khmer original”, é anterior à divisão sino-soviética.

A tentativa de atribuir a destruição do Partido Comunista da Indonésia (PKI) às influências maoístas também é absurda. Lovell argumenta que o envolvimento de alguns de seus líderes no ataque à liderança do exército em 1965 (que então se tornou o pretexto para o assassinato em massa de mais de meio milhão de pessoas pelo exército indonésio) foi inspirado pelo voluntarismo maoísta e até mesmo pelo próprio Mao.

Lovell cita uma conversa entre o líder do PKI D. N. Aidit e Mao que ocorreu apenas algumas semanas antes do derramamento de sangue. Mas uma das fontes que ela cita vem dos militares indonésios. Como tal, não só não é confiável, mas, à luz da propaganda massiva e da campanha de desinformação do exército indonésio, não deve receber qualquer crédito. A outra citação é mais confiável e vem de Taomo Zhou, um acadêmico que conseguiu ver material classificado durante, como disse Zhou, “um breve período de acesso incomum aos arquivos”. Mas, na avaliação de Zhou, a liderança chinesa “permaneceu distante” dos planos de Aidit, enquanto “Mao pode ter feito uma sugestão oblíqua de que Aidit deveria estar preparado tanto para negociações de paz quanto para lutas armadas”.

Se o objetivo é contrariar ideias abertamente positivas sobre o maoísmo e o estado maoísta, há exemplos melhores e mais substanciais. Não há dúvida de que o próprio Mao foi o autor das atrocidades e do assassinato de membros do partido e outros. Lovell, por exemplo, discute expurgos partidários nas décadas de 1930 e 1940. De assassinatos em massa durante a Revolução Cultural a abusos em campos de reeducação como Jiabiangou, há muito mais condenações durante o governo de Mao.

Aspectos não familiares

Maoism: A Global History talvez seja melhor lido como uma coleção de ensaios vagamente relacionados sobre o impacto do maoísmo em diferentes regiões. Além da Indonésia e do Sul da Ásia, o livro discute a influência das ideias maoístas sobre os radicais ocidentais nas décadas de 1960 e 1970 (“Você está velho, nós somos jovens, Mao Zedong!”) e inclui capítulos sobre o Sendero Luminoso do Peru e a influência atual do maoísmo no Nepal — o único país onde um partido maoísta foi eleito para o governo nacional. Lovell é professor de história e literatura chinesa moderna no Birkbeck College, Universidade de Londres, e algumas das partes mais interessantes do livro - como na visão de mundo do neomaoísmo atual na China, ou nas memórias de apoio secreto do estado chinês aos revolucionários maoístas no exterior — são baseados em pesquisas originais.

O lado positivo da ampla rede que o livro lança é que às vezes leva Lovell a explorar aspectos interessantes e relativamente desconhecidos do maoísmo. Um dos primeiros capítulos explora a história da escrita de Red Star Over China pelo jornalista americano Edgar Snow. Publicado em 1937 durante a guerra civil na China, o livro fez muito para atrair a simpatia internacional pelos comunistas chineses.

Lovell conta a história de vida de Snow, um ex-garoto de fraternidade que se mudou para Nova York durante os loucos anos 20 com, como ele disse, “a firme intenção de ganhar cem mil dólares” em publicidade antes de completar trinta anos. No entanto, depois de alguns anos, ele fez a transição para o jornalismo, e o aventureiro Snow abriu caminho para o Japão antes de acabar na China. Lá, ele se misturou em círculos chiques radicais e se uniu aos comunistas com a ajuda de Soong Ching-ling, a rica viúva do líder nacionalista Sun Yat-sen (e membro secreto do partido).

O Partido Comunista Chinês apreciou a importância de boas relações públicas e providenciou para que Snow visitasse sua sede. Com a ajuda de um intérprete, Snow entrevistou membros importantes, incluindo o próprio Mao. Depois que Snow transcreveu as entrevistas, o texto em inglês foi traduzido para o chinês para ser verificado e revisado, e então traduzido de volta para o inglês. O resultado desse processo foi um livro que retratava Mao e seus seguidores como revolucionários democratas e patriotas defendendo seu país contra invasores e traidores. Os expurgos não foram mencionados - e Snow provavelmente não estava ciente deles.

Snow havia escrito um livro que era uma fonte valiosa de informações sobre um movimento rebelde até então pouco conhecido e uma obra-prima publicitária. Só na Grã-Bretanha, vendeu mais de 100.000 cópias e atrairia leitores que vão desde estudantes de esquerda alemães a guerrilheiros filipinos e até mesmo o líder sul-africano Nelson Mandela.

Outro aspecto menos conhecido do maoísmo que Lovell discute é a ajuda dada pelo estado chinês a grupos revolucionários no exterior. Durante a década de 1960, os chineses disputaram com a União Soviética a liderança dos movimentos revolucionários no Terceiro Mundo — não apenas em termos de influência ideológica, mas também por meio de ajuda material e treinamento. Essas operações foram mantidas em segredo na época e ainda permanecem ocultas.

Hoje, o governo chinês fala sobre a “ascensão pacífica da China” e exige “respeito ao princípio da não interferência”. A história da época em que o Estado chinês armava e financiava revolucionários para derrubar governos no exterior tornou-se uma vergonha. Mas, como mostra Lovell, especialmente em seu capítulo sobre as tentativas fracassadas de fomentar os movimentos maoístas na África, o Estado chinês fez esforços consideráveis nesse campo. Em 1975, a China gastava 5% de seu orçamento em ajuda externa. Entre 1950 e 1978, a China, ela própria um país subdesenvolvido, gastou cerca de US$ 24 bilhões em ajuda internacional, 13% a 15% dos quais foram para a África.

Vasculhando o passado

Para Lovell, o maoísmo é coisa do passado — com exceção parcial do Nepal. A influência das ideias maoístas na política chinesa de hoje é limitada. Muito mais importante, é claro, é a herança da estrutura de um estado de partido único. Desde o início, o maoísmo, como expressão da Revolução Chinesa, foi de fato contraditório. Foi uma revolução que resgatou a independência chinesa e trouxe verdadeiro progresso social ao país. Ao mesmo tempo, desde o início foi uma revolução sem democracia, e o regime de partido único que produziu jogou o país em períodos de morte e destruição.

No exterior, o maoísmo não foi apenas uma bandeira para movimentos como o Khmer Vermelho ou o Sendero Luminoso — também inspirou ativistas anti-apartheid na África do Sul, camponeses asiáticos lutando contra invasores estrangeiros e latifundiários exploradores e, para dar um exemplo não incluído no livro, o pioneiro francês da libertação gay Guy Hocquenghem.

É verdade que suas concepções do maoísmo muitas vezes tinham pouco a ver com as realidades chinesas: Lovell considera a interpretação internacional do maoísmo muitas vezes como “distorções”. O especialista alemão em China, Felix Wemheuer, certa vez sugeriu que a “falsa teoria” dos maoístas internacionais pode na verdade ser mais interessante do que o “verdadeiro Mao”. Ainda assim, ideias que podem ser atribuídas a uma ou outra versão do maoísmo tornaram-se parte da ideologia da esquerda.

Considere como a ideia de construção de base, originalmente um conceito militar, agora ajuda os esquerdistas a pensar em estratégias para reconstruir a esquerda em um momento em que grande parte da antiga infraestrutura de dissidência desapareceu. E não é por acaso que nos países subdesenvolvidos, onde muitas pessoas dependem não de um salário para ganhar dinheiro, mas do trabalho informal ou da agricultura para viver, as ideias maoístas sobre “o povo” que uniam todos aqueles que são explorados e oprimidos contra as classes exploradoras tiveram mais sucesso do que um foco central na classe trabalhadora.

No final, qualquer que seja sua intenção, há uma maneira de a esquerda usar o volume de Lovell como referência para entender melhor nossa história — até mesmo as partes feias.

Colaborador

Alex de Jong é editor do jornal socialista Grenzeloos e ativista na Holanda.

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A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...