9 de agosto de 2021

Não é "erro" que Bill Gates andava em companhia de Jeffrey Epstein

Em uma nova entrevista, Bill Gates pediu desculpas por seus laços com Jeffrey Epstein, embora tenha minimizado o relacionamento entre eles. Isso é um disparate interesseiro: a amizade deles foi uma demonstração grotesca do que acontece quando se dá riqueza e poder inimagináveis ​​a um pequeno grupo de pessoas.

Natalie Shure

Jacobin

Bill Gates na reunião anual do Fórum Econômico Mundial em 2002. (Marcel Bieri / Fórum Econômico Mundial / Flickr)

A queda em desgraça, há muito esperada, de Bill Gates foi um raro ponto positivo em um ano desastroso. Mas ele não parece estar gostando tanto quanto nós. Merecidamente alvo de críticas da imprensa por sua firme defesa dos lucros da indústria farmacêutica em detrimento dos pacientes na em países pobres época da COVID-19, pelo assédio sexual a funcionárias da Microsoft e por seus laços aparentemente estreitos com o multimilionário e criminoso sexual Jeffrey Epstein, Gates tentou minimizar os danos em uma entrevista com Anderson Cooper, da CNN.

Sua amizade com Epstein foi “um grande erro”, afirmou Gates. “Jantei com ele várias vezes, na esperança de que o que ele dizia sobre conseguir bilhões em filantropia para a saúde global, por meio de contatos que ele tinha, pudesse se confirmar. Quando ficou claro que isso não era verdade, essa relação terminou. Mas foi um grande erro passar tanto tempo com ele, dando-lhe a credibilidade de estar ali.”

É impossível exagerar o quão desonesto isso é. A longa relação que Gates cultivou com Epstein — e vice-versa — dificilmente pode ser descrita como um deslize momentâneo. Eles eram dois dos homens mais ricos do mundo, que se conheceram depois que Epstein já havia sido condenado por tráfico sexual de menores, ajudando-se mutuamente de forma muito intencional e impulsionando os esforços filantrópicos um do outro. O relacionamento entre eles — e o que os levou a construí-lo — não deve ser visto como um lapso de julgamento, mas como uma denúncia contra a própria filantropia bilionária.

A Fundação Bill & Melinda Gates é a principal organização filantrópica privada do mundo, com foco principalmente na saúde global. Seu patrimônio de US$ 100 bilhões supera o PIB de dezenas de países onde atua. Durante a pesquisa para minha dissertação de mestrado sobre tuberculose resistente a medicamentos na antiga União Soviética, a onipresença da Fundação Gates tornou-se evidente: a organização responde por uma parcela considerável dos gastos totais com as chamadas doenças infecciosas da pobreza — HIV, tuberculose e malária — em países de renda média e baixa ao redor do mundo, financiando medicamentos essenciais e recursos de saúde pública.

Mas a extensão do financiamento de Gates não justifica seu brilho angelical: significa que uma parte dos bens ilícitos de Gates foi realocada para combater a miséria que ele e seus aliados da classe dominante ajudaram a criar. As “doenças da pobreza” que a fundação combate são chamadas assim por um motivo — elas persistem porque o capitalismo global produz um punhado de bilionários enquanto condena milhões de pessoas por ano a morrer de doenças curáveis ​​ou controláveis ​​com recursos geridos por empresas com fins lucrativos. Os medicamentos que Gates supostamente tem a magnanimidade de enviar para lugares desesperados mundo afora são inacessíveis devido ao seu alto custo, graças a um regime internacional de propriedade intelectual que, sem dúvida, beneficiou Gates mais do que qualquer outro ser humano na Terra.

A lamentação de Gates por ter concedido credibilidade indevida a Epstein não aborda por que, exatamente, ele merece alguma: acumular mais recursos do que qualquer pessoa para devolver uma ninharia para mitigar os danos lhe rendeu uma posição não eleita como a figura mais poderosa da saúde global no planeta.

Ele é presença constante em palestras repletos de ricos conversando com outros ricos sobre os pobres. Tem conexões diretas com chefes de Estado e praticamente qualquer empresa financeira que desejar, que, por sua vez, se beneficiam de sua aura filantrópica. E, enquanto isso, ele cultiva uma imagem de luminar altruísta em busca de um mundo melhor — um mundo que, por acaso, perpetua a desigualdade e a exploração que tornam a vida insuportável. Longe de Gates “retribuir”, estamos pagando por seus esforços, graças às deduções fiscais para doações que, coletivamente, drenam bilhões dos cofres públicos a cada ano, e às formas como o capitalismo sistematicamente recompensa o capital em detrimento do trabalho.

Visto dessa perspectiva, é claro que Gates se encontrou com Epstein e voou em seu notório jato particular. Os contatos de Epstein prometeram fortalecer ainda mais o poder de Gates, expandindo sua glória como uma figura emblemática dedicada a aliviar o sofrimento global. E, claro, Epstein se encontrou com Gates, conseguindo uma doação multimilionária para, assim, lavar sua reputação filantrópica. Epstein conseguiu abusar horrivelmente de jovens mulheres por tantos anos graças à sua riqueza, o que o tornou útil o suficiente para que todos ao seu redor (inclusive Gates) fechassem os olhos para seus atos.

Isso não é um “erro”, como Gates quer que você acredite. É a raiz do problema: tanta tristeza no mundo é causada pelo simples fato de que apenas algumas pessoas controlam tantos recursos, enquanto bilhões de pessoas não têm nada para comer e viver decentemente. Isso faz com que estas pessoas sejam muito mais propensas a serem vítimas de abuso sexual e doenças infecciosas desenfreadas, enquanto outras prosperem explorando-as. E é exatamente isso que Gates e Epstein têm em comum.

Colaborador

Natalie Shure é uma produtora de TV e escritora cujo trabalho é publicado no Atlantic, Slate, Pacific Standard e em outros lugares.

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