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24 de agosto de 2020

Che Guevara no Nepal

Che Guevara nunca realmente visitou o Nepal. Mas o país é marcado por seu legado.

David Seddon

Jacobin

Um outdoor com a imagem de Che Guevara fora do escritório do Partido dos Trabalhadores e Camponeses em Bhaktapur, Nepal. Juha Uitto / Flickr.

Tradução / Em seus longos anos como rebelde, Che Guevara nunca visitou o Nepal. Mas o país ainda está marcado por seu legado.

Vários líderes revolucionários nepaleses afirmam ter sido diretamente inspirados pelo exemplo de Che Guevara; e um deles, Ram Raja Prasad Singh, se lembra que realmente o conheceu (na Birmânia). Ele continua sendo um ponto de referência vital para os ativistas de hoje. As idéias de Che sobre a revolução funcionam como um fio condutor na tradição radical do país.

Singh, um ativista político nepalês que C. K. Lal descreve como “um guerreiro revolucionário”, nasceu em 1936 no distrito de Saptari no terai (planícies). Na época, a fronteira entre o Nepal e o Estado indiano de Bihar era praticamente inexistente. Singh cresceu no fermento político dos anos 1940, quando os apoiadores de Mahatma Gandhi enfrentaram uma repressão implacável e, às vezes, sangrenta durante seus protestos não violentos.

Ram Raja relembra um incidente particular de sua infância: durante uma manifestação organizada pelo Quit India Movement na fronteira de sua casa, ele testemunhou um tiroteio. Quando o manifestante morreu, alguns dos dissidentes aplicaram seu sangue na testa, gritando “Ele atingiu o martírio; ele é um mártir”. O incidente permaneceu vivo na memória de Singh muitos anos depois. Em suas memórias, ele escreveu: “Percebi como era sacrossanto o sangue de um revolucionário!”

Ram Raja também destaca o papel que seu próprio pai, Jay Mangal Prasad Singh – conhecido como Jangali Babu por causa de sua força física, temperamento explosivo e natureza destemida – que desempenhou um papel central durante o ataque à prisão de Hanumananagar.

Os líderes socialistas indianos, Dr. Ram Manohar Lohiya e Jaya Prakash Narayan, refugiaram-se na casa da família Singh enquanto treinavam seus membros em combate armado. As autoridades nepalesas os prenderam, aguardando transferência de volta para a Índia.

Um grupo de simpatizantes nepaleses atacou a prisão, libertou todos os prisioneiros e ajudou Lohiya e Narayan a escaparem. Ram Raja lembra que seu pai, preso e torturado, recusou-se a divulgar quaisquer detalhes sobre os revolucionários indianos que ele havia ajudado a libertar.

Jangali Babu permaneceu na Prisão Central de Katmandu por quase dois anos. A pressão dos líderes nacionalistas indianos e o crescente reconhecimento dos governantes nepaleses de que a independência indiana era inevitável finalmente levou à sua libertação. Enquanto o pai estava na prisão, Ram Raja e seu irmão, ainda menores, também foram detidos, embora nunca tenham sido formalmente presos ou acusados.

Após a libertação de seu pai, Ram Raja começou a frequentar um internato em Darbhanga, Índia, onde foi atraído pelo grupo fundamentalista hindu, o Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), apesar dele insistir que nunca tenha se juntado à organização. Quando Nathuram Gode, um membro do RSS, assassinou Gandhi, todos os simpatizantes do RSS conhecidos foram presos. Ram Raja evitou a prisão graças à sua cidadania nepalesa. Ele ainda era apenas um adolescente.

Em seguida, seu pai enviou Ram Raja para a Banaras Hindu University (BHU), onde passou quatro anos estudando literatura inglesa e artes liberais. Mas depois de fazer parte de uma greve geral, ele foi expulso. Ele tentou outras escolas – incluindo a Aligarh Muslim University – mas acabou indo parar na Universidade de Delhi, onde se misturou com muitos tipos diferentes de militantes radicais e começou sua carreira revolucionária.

Em suas memórias, Ram Raja relembra sua amizade com uma garota sul-americana chamada Clara. Ele afirma que Clara arranjou para ele e alguns de seus amigos um encontro com Che Guevara em uma ilha na costa da Birmânia em 1961.

Como observa C. K. Lal, “não há como confirmar se a reunião aconteceu. Se Singh de fato conheceu Che, como ele afirma. Se for verdade, ele foi a única pessoa nepalesa que o fez”. Independentemente disso, Lal acrescenta que, “quase meio século depois dessa reunião, Singh ainda ficava animado com a memória do carisma de Che”.

Outras fontes sugerem que Ram Raja conheceu Che Guevara em outro lugar. Por exemplo, Indian Freedom Fighters behind Nepal Revolution relata que eles se conheceram enquanto Ram Raja estava estudando na Universidade de Delhi, e que Che lhe deu algumas ideias de como começar uma revolução.

Volta ao mundo do Che

Os detalhes das viagens internacionais de Che não confirmam nem impedem um encontro entre os dois. Em junho de 1959, Fidel Castro enviou o revolucionário argentino em uma viagem de três meses pela África, Ásia e Europa, onde visitou as nações do Pacto de Bandung. Essa viagem teria permitido que Che fizesse contato com líderes radicais e revolucionários em potencial nessas regiões.

Che deixou Havana em 12 de junho de 1959. Fez 31 anos em Madri e depois visitou o Egito, onde se encontrou com o presidente Gamal Abdel Nasser e também com Janio Quadros, presidente do Brasil na época. Depois disso, ele voou para Delhi, chegando a Palam na noite de 30 de junho. Enquanto estava na Índia, Che se encontrou com o primeiro-ministro Jawaharlal Nehru e outros líderes políticos. Ele foi para o Paquistão Oriental (agora Bangladesh) e depois para a Birmânia antes de viajar para a Indonésia e o Japão.

Não existem detalhes sobre a visita de Che à Birmânia. Provavelmente, ele teria conhecido o general Ne Win, que até 1960 liderou um governo provisório ostensivamente socialista. (Ne Win voltaria ao poder em 1962, após derrubar o governo democraticamente eleito de U Nu.)

Em Jacarta, Che se encontrou com o presidente Sukarno para discutir a recente revolução indonésia e estabelecer relações comerciais entre suas nações. Os homens se uniram rapidamente. Sukarno foi atraído pela energia e abordagem informal de Che, e eles compartilhavam as mesmas ideias políticas revolucionárias e anti-imperialistas. De 15 a 27 de julho, Che negociou com o Japão na esperança de expandir ainda mais as relações comerciais de Cuba.

Na viagem de volta, Che visitou Cingapura e parou no Ceilão (atual Sri Lanka), depois iniciou suas visitas à África e Europa. Ao ouvir rumores sobre os problemas de saúde de Fidel, ele voltou a Havana em 8 de setembro.

Mas este não foi o fim de suas viagens pela Ásia. Em novembro seguinte, ele e outros delegados comunistas internacionais encontraram-se com o presidente Mao Tsé-Tung na China. Durante uma conversa de duas horas, os dois revolucionários tiveram a seguinte troca:

Mao: No ano passado você visitou alguns países asiáticos?
Che: Alguns países, como Índia, Sião [Tailândia], Indonésia, Birmânia, Japão, Paquistão.
Mao: Com exceção da China, você já esteve em todos os principais países asiáticos.
Che: É por isso que agora estou na China.
Mao: Seja bem vindo

No final daquele ano, Che também visitou a Tchecoslováquia, a União Soviética, a Coréia do Norte, a Hungria e a Alemanha Oriental. Em 17 de dezembro, ele assinou um acordo comercial em Berlim Oriental. Lá, Tamara Bunke, mais tarde conhecida como Tania, trabalhou como intérprete de Che. Anos depois, ela foi morta com ele na Bolívia.

Temos menos detalhes sobre as viagens de Che em 1961, ano em que Ram Raja afirma tê-lo conhecido. Certamente esteve em Cuba durante a primeira metade do ano, porque sabemos que esteve envolvido na Invasão da Baía dos Porcos naquele abril. Che não participou da batalha principal: um dia antes de 1.400 exilados treinados pelos norte-americanos desembarcarem na costa sul de Cuba, um navio de guerra transportando fuzileiros navais fingiu um ataque a oeste, atraindo os soldados sob o comando de Che. Apesar disso, os historiadores lhe dão uma parte do crédito pela vitória cubana graças a seu trabalho como diretor de instrução das Forças Armadas.

Nenhuma evidência independente indica que Che tenha visitado a Birmânia durante a segunda parte de 1961. Dito isso, ele já havia se tornado a face internacional de Cuba e estava viajando muito para ver como exportar a experiência cubana para ajudar os movimentos revolucionários em todo o mundo.

Descrevi anteriormente como Che tentou ajudar os revolucionários congoleses em 1965 e ficou claro durante minha pesquisa que ele havia passado um tempo considerável em outras partes do mundo durante o início dos anos 1960, identificando causas que se beneficiariam do apoio cubano.

Se ele tivesse visitado a Birmânia em 1961, como Ram Raja afirma, provavelmente teria falado com o primeiro-ministro eleito U Nu. Ele também pode ter conversado com jovens revolucionários de outros países. Sabemos com certeza que ele estabeleceu um legado duradouro na Birmânia após sua visita de 1959.

Muitos relatórios afirmam que a icônica dissidente política birmanesa, Aung San Suu Kyi, idolatra Che Guevara. Quando ela foi libertada da prisão domiciliar em novembro de 2010, a sede de seu partido exibia “pôsteres esfarrapados de Che Guevara… e de seu pai, Aung San, um lutador pela liberdade birmanês que ajudou a negociar a independência do país da Grã-Bretanha”.

A All Burma Student Democratic Front (ABSDF), que buscou mobilizar um movimento de resistência armada no final da década de 1980, também se inspirou em revolucionários como Che.

Seu legado persiste até hoje. Um perfil de Myat Thu, um dissidente birmanês forçado a fugir do país depois que os militares esmagaram os protestos nacionais em 1988, descreve o restaurante que dirigia em Mae Sot, uma pequena cidade na fronteira com a Tailândia, onde “tem retratos de Che Guevara e Aung San Suu Kyi na varanda. ”

Alguns continuam convencidos de que o relato de Ram Raja é correto. R. D. U. Lal escreve que Ram Raja “foi o único líder do Nepal que se encontrou com o líder revolucionário Che Guevara na Birmânia durante seus estudos de Direito, e acredita-se que o encontro trouxe inspiração republicana nele”.

Um grupo comprometido de revolucionários

Embora estivesse anteriormente relutante em se descrever como um marxista, Che explicou a ideologia de Cuba no Primeiro Congresso Latino-Americano em setembro de 1960: “Eu o definiria como marxista. Nossa revolução descobriu por seus métodos os caminhos que Karl Marx apontou.”

Em declarações posteriores, Che ecoou a Declaração de Independência dos EUA, descrevendo “verdades tão evidentes, tão parte do conhecimento das pessoas, que agora é inútil discuti-las. Devemos ser marxistas com a mesma naturalidade que somos ‘newtonianos’ na física ou ´pasteurianos’ na biologia”.

De acordo com Che, os “revolucionários pragmáticos” de Cuba visavam “simplesmente cumprir as leis previstas por Marx, o cientista”, mas ele também levava a sério o papel do compromisso moral. Nas palavras de C. K. Lal:

Na formulação de Che, tudo o que era necessário para ensaria uma revolução era um grupo comprometido de revolucionários. Uma força de guerrilha popular poderia então ser elevada a um nível suficiente para derrotar o governo em exercício. Ao contrário dos marxistas tradicionais, ele acreditava que a atitude do povo era mais importante e não havia necessidade de “condições especiais de guerra” para iniciar uma revolução. Finalmente, o campo era crucial como “área de base” para os guerrilheiros que lutavam nos países pobres.

Lal nos diz que “Singh traduziu alguns dos ensaios de Che para o nepalês, embora nenhum deles possa ser agora rastreado”. Ele também lembra que Ram Raja disse a Babu Ram Bhattarai, o principal ideólogo do Partido Comunista do Nepal (maoísta) e de sua Guerra Popular, “toda revolução é uma criação original. Nenhum revolucionário pode reproduzir a experiência do outro. Todo revolucionário tem que ser original”.

Não pode haver dúvida – porque eles já disseram isso – de que Bhattarai e outros líderes maoístas levaram a sério esse conselho quando decidiram lançar a Guerra do Povo em 1996. Mas a própria carreira revolucionária de Ram Raja Singh tomou um rumo diferente.

Pela democracia

Depois de terminar seus estudos em Delhi, Ram Raja fez direito na Universidade de Bihar, retornando ao Nepal em 1964. Três anos depois, ele disputou uma das quatro cadeiras reservadas para graduados nas eleições para a assembleia nacional.

Seu panfleto esboçou seu argumento de que “a transformação política no Nepal teve que passar pelo processo de representação, persuasão, agitação e revolução”. “Os revolucionários”, declarou ele, devem estar preparados para “a aniquilação da velha ordem”. Dada essa visão apocalíptica, ele foi preso, impedido de participar da eleição e acusado de sedição.

Ele garantiu sua libertação por meio de conexões familiares com indianos e persuadindo o tribunal de que havia discutido apenas os estágios teóricos da revolução e, portanto, não era culpado.

Sua defesa se assemelha ao argumento que Nelson Mandela fez durante seu discurso de três horas no Julgamento de Rivonia em 1963-64, quando justificou a decisão do Congresso Nacional Africano (ANC) de lançar uma campanha de sabotagem e começar a treinar uma ala militar. Mandela explicou que, considerando as crescentes restrições à atividade política, o ANC decidiu abandonar sua dependência anterior de métodos constitucionais e da oposição não violenta.

Na década de 1970, Ram Raja e seu partido, o Nepali Congress Party (NCP), começaram a discordar sobre a melhor estratégia para construir a democracia no Nepal. A liderança do partido perdeu a fé na luta armada e entregou suas armas aos rebeldes no Paquistão Oriental. Em contraste, Ram Raja, junto com muitos outros no NCP e no movimento comunista nepalês, achava que uma reforma interna era impossível. Então, eles consideraram pegar em armas.

Em 1968, Pushpa Lal, o fundador do Partido Comunista do Nepal (CPN), deixou o órgão principal para estabelecer um grupo separado, que ficou conhecido como PCN (Pushpa Lal). Mais agrupamentos comunistas se desenvolveram a partir dessa divisão original. Em 1971, um grupo de líderes do PCN – Manmohan Adhikari, Shambhu Ram e Mohan Bikram Singh – foi libertado da prisão e formou o Núcleo Central, que tentou se unir ao grupo de Pushpa Lal. Isso falhou e o próprio Núcleo Central se desfez.

Adhikari formou o Partido Comunista do Nepal (manmohan), que desenvolveu relações estreitas com o Partido Comunista da Índia (marxista); O grupo de M. B. Singh ficou conhecido como Partido Comunista do Nepal (4º Congresso); outros grupos dissidentes incluíam o Partido dos Trabalhadores e Camponeses do Nepal. Em 1975, o grupo de Pushpa Lal tornou-se o Partido Comunista do Nepal (marxista-leninista). O CPN original tornou-se apenas uma das muitas facções, eventualmente assumindo o nome CPN (Amatya) e adotando uma posição pró-soviética.

Ram Raja mais uma vez concorreu como candidato graduado do eleitorado para a Assembleia Nacional em 1971. Ele deu início a uma viagem turbulenta pelo país, promovendo uma plataforma que exigia o fim do sistema não democrático de panchayat. Seu panfleto inflamado, descreve C. K. Lal, “levou ao frenesi adolescentes que mal entendiam seu significado”.

Em 22 de outubro de 1971, o semanário Naya Sandeh relatou um discurso de Ram Raja feito em Biratnagar, escrevendo que o candidato “foi além dos limites” e disse ao público, “se o sistema panchayat não for abolido pacificamente… as folhas das árvores se transformarão em bombas, grãos de arroz se tornarão balas”.

Ele ganhou sua cadeira, marcando uma derrota significativa para o regime, que o impediu de prestar juramento e o prendeu. Depois que um tribunal especial o condenou, o rei Mahendra convidou Ram Raja ao palácio, um método que a monarquia usava para cortejar dissidentes. Mahendra concedeu-lhe um perdão real, permitindo-lhe ocupar o seu lugar na Assembléia.

Em 1975, ele viajou novamente pelo país, desta vez como ativista do NCP e deputado. Seus discursos empolgantes condenaram o controle não democrático do regime sobre a nação. Mais uma vez, ele foi expulso da Assembleia Nacional e preso. Na verdade, ele passou grande parte de seu tempo nos anos seguintes saindo e entrando na prisão.

Em 1976, ele estabeleceu a Frente Democrática do Nepal como um movimento político de esquerda; o partido mudou seu nome para Frente Democrática Multipartidária quando o rei Birendra convocou um referendo para decidir o futuro do sistema panchayat em 1980.

Para se preparar para a votação, outros ativistas proeminentes do NCP foram libertados da prisão. Todo o espectro de partidos comunistas – alguns dos quais, como o CPN (Quarta Convenção) ou o CPN (Masal) sob M.B. Singh se recusou a endossar o referendo, mas estava preparado para participar dele. O próprio Ram Raja começou a clamar não apenas por uma democracia multipartidária, mas também por uma assembleia constituinte. Enquanto isso, ele começou a mobilizar apoio para uma luta de guerrilha.

Guerrilha de Ram Raja

Ram Raja começou a recrutar lutadores da ala esquerda do NCP, enquanto buscava armas e apoio. Ele tentou estabelecer campos de treinamento em seu antigo reduto de Bihar e estendeu a mão para os lutadores pela liberdade tâmil e Tiger Siddiqui, sobrinho do primeiro-ministro de Bangladesh assassinado, Mujibur Rahman. Tudo isso foi em vão.

Então, ele foi a Chambal e comprou armas dos bandidos de lá. Um recomendou que ele usasse explosivos em vez de armas, e ele seguiu o conselho. Ele recrutou alguns ex-militares do exército do Nepal para treinar seus jovens guerrilheiros.

K. Lal observa que “não se sabe muito sobre o que Singh e seu bando de guerrilheiros fizeram entre 1980 e 1985 – ele afirma que estavam sendo treinados para lidar com armas de fogo e explosivos em diferentes locais ao redor do norte da Índia”.

O que quer que estivessem fazendo, eles se sentiam suficientemente preparados para agir no verão de 1985. Em maio daquele ano, o NCP havia convocado uma ação de desobediência civil, que ganhou o apoio de outros ativistas de esquerda, incluindo a maioria dos partidos comunistas. A mídia descreveu o evento como um sinal de uma tempestade se formando. Então, em 20 de junho de 1985, uma série de explosões coordenadas na capital e em outras cidades abalou o Nepal.

Pelo menos oito pessoas morreram, incluindo um membro do parlamento. Em Katmandu, as explosões ocorreram perto do palácio real, no Hotel de l’Annapurna, no gabinete do primeiro-ministro e perto da Assembleia Nacional, matando um político. Um membro da equipe do Annapurna Hotel também perdeu a vida.

Em Pokhara, o responsável pela bomba foi morto, junto com outra mulher em Birgunj. As bombas também explodiram no aeroporto de Bhairahawa, Nepalganj e Mahendranagar no oeste, e Janakpur, Biratnagar e Jhapa no leste.

Singh e seus guerrilheiros admitiram a responsabilidade, mas defenderam suas ações. Eles explicaram que haviam planejado o bombardeio na Assembleia Nacional para um feriado, acreditando que ninguém estaria lá. Infelizmente, a chuva levou algumas pessoas a se abrigarem, transformando-as em vítimas indesejadas.

Da mesma forma, os guerrilheiros deixaram o artefato explosivo no gramado do Annapurna Hotel, mas alguém inadvertidamente o depositou no saguão. Mais uma vez, os paralelos com as ações do ANC se destacam: Mandela explicou que eles pretendiam travar uma guerra contra o Estado do apartheid e não tinham intenção de matar ninguém.

Após as explosões, centenas foram presos. Ram Raja Singh foi acusado e considerado culpado à revelia. Ele, seus camaradas Laxman, Bisheshwar Mandal e Prem Bahadur Vishwakarma receberam a pena de morte; outros foram condenados à prisão perpétua e muitos tiveram seus bens confiscados. Esses líderes nomeados passaram à clandestinidade, mas cinco outros desapareceram enquanto estavam sob custódia.

Após os primeiros ataques espetaculares, o aparato de Ram Raja não pôde continuar. O Congresso do Nepal retirou seu apelo à desobediência civil, mas culpou o palácio pelas explosões. O primeiro-ministro Rajiv Gandhi expressou sua “profunda angústia e choque com as explosões de bombas” e reiterou sua forte oposição ao terrorismo.

Singh foi preso na Índia, mas o Estado posteriormente o libertou secretamente e permitiu que ele vivesse tranquilamente em Patna.

A revolução terminou em menos de um ano, quase sem deixar vestígios. Em 2008, Ram Raja tentou explicar a decisão de seu grupo. Ele afirmou que os bombardeios tinham como objetivo reforçar a desobediência civil do PCN e comparou-os às atividades dos revolucionários armados que apoiaram os protestos durante o Quit India Movement.

Depois que G. P. Koirala se tornou o primeiro primeiro-ministro eleito da nova ordem democrática multipartidária em 1990, o Estado retirou todas as acusações contra Ram Raja. Ele até se candidatou ao PCN nas eleições de meio de mandato de 1994, mas perdeu feio e se aposentou.

O legado continua

Não persuadidos pelo potencial progressista da nova ordem democrática, os diversos partidos comunistas do Nepal lutaram durante o início da década de 1990 para encontrar um caminho para promover a transformação revolucionária. A facção de Keshar Jung Rayamaji se alinhou com o palácio; outro formou uma coalizão sob o nome de CPN (United Marxist Leninist). Este partido tornou-se amplamente conhecido como UML e participou das eleições, ocupando brevemente o cargo em 1994.

Em 1985, os maoístas, notavelmente o CPN de M. B. Singh (Masal), dividiram-se em duas facções principais: o CPN (Masal) e um novo CPN (Mashal). Ele se dividiu novamente, e um grupo de revolucionários mais jovens, incluindo Prachanda e Babu Ram Bhattarai, convocou a luta armada para atingir seus objetivos, formando o PCN (Maoísta) – o partido que lançou a Guerra Popular em 1996.

Ram Karki, um antigo trabalhador da Frente Democrática que se juntou à Guerra do Povo, levou Bhattarai e sua esposa Hisilia Yami para conhecer Ram Raja, que na época estava levando uma vida silenciosa de obscuridade. C. K. Lal comenta que “Singh não se lembra da data exata da reunião, mas acredita que foi algum tempo depois da ascensão de Gyanendra ao trono”, que teria sido em algum momento de 2001. Ram Raja, mais tarde, encontrou Prachandra em seu esconderijo em Nova Delhi.

Não pode haver dúvida de que esses líderes decidiram lançar sua insurgência armada em parte por causa de uma crença que compartilhavam com Ram Raja e Che Guevara: “tudo o que era necessário para fazer uma revolução, éramos um grupo comprometido de revolucionários”. Em 1996, poucos consideravam as condições adequadas para a revolução. No entanto, Bhattarai e seus camaradas começaram a Guerra do Povo e a continuaram no século XXI.

O próprio Bhattarai afirma que, quando era estudante, “encontrei um pequeno livro sobre uma pessoa de quem eu nunca tinha ouvido falar antes que abalou minha vida. Esta era a biografia de Che Guevara e, depois de lê-la, jurei fazer tudo ao meu alcance para ajudar meu povo a viver a verdadeira liberdade econômica e social ”.

A influência de Che Guevara sobre os revolucionários nepaleses continua. Em dezembro de 2010, a União Nacional de Estudantes Independentes Maoístas de Todo o Nepal – Revolucionária (ANNISU-R) convidou o filho de Manuel Abimael Guzman e a neta de Che Guevara para sua conferência junto com líderes estudantis maoístas de dezoito países.

Em 2015, Ranjit Bhushan descreveu Prachanda como membro da liga dos “grandes guerreiros clandestinos comunistas, uma espécie de Fidel Castro asiático ou Che Guevara”. Bhushan também cita o que ele chama de “uma rara entrevista” com Prachanda. Nesta conversa, Prachanda foi questionado se ele se considera um dos “heróicos líderes comunistas que lideraram revoluções, como Mao, Fidel Castro, Che Guevara e outros”. Prachanda respondeu: “No movimento comunista, foi estabelecido que uma revolução não pode ser repetida. A revolução só pode ser desenvolvida de acordo com a situação concreta de cada nação e de cada país. A revolução que Lenin liderou na União Soviética não pode ser repetida, nem a de Mao na China, nem a de Castro e Guevara em Cuba.”

Em outras palavras – na verdade, nas palavras de Che – “toda revolução é uma criação original; nenhum revolucionário pode reproduzir a experiência do outro; todo revolucionário tem que ser original”.

Sobre o autor

David Seddon é o coautor Congo: Plunder and Resistance. Ele é o coordenador de uma série de ensaios para o site Review of African Political Economy.

4 de abril de 2017

Che Guevara no Congo

A expedição de Che Guevara no Congo, apesar de malfadada, permanece como um exemplo crucial de solidariedade antiimperialista.

David Seddon


Che Guevara no Congo em 1965. Wikimedia Commons.

Tradução
 / A morte de Fidel Castro em novembro de 2016 me levou a revisitar a história extraordinária da Revolução Cubana, e em particular o reconhecimento diplomático, suporte político e assistência militar fornecida pela Cuba de Castro aos esforços de libertação nacional por toda África – da Argélia e Saara Ocidental, a Eritreia, Etiópia, Zanzibar e as colônias portuguesas da Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. As vitórias dos soldados cubanos contra as forças sul-africanas em Angola em 1975-76 e novamente em 1987-88 desempenhou um papel crucial nas lutas bem-sucedidas contra o domínio dos brancos na Namíbia e na própria África do Sul. 

Os primeiros esforços de ajuda cubana foram para o movimento de libertação da Argélia em 1961, quando Castro enviou uma grande remessa de armas norte-americanas capturadas durante a abortada invasão da Baía dos Porcos. Depois que os argelinos conquistaram a independência em julho de 1962, eles retribuíram ajudando a treinar um grupo de guerrilheiros argentinos, enviando dois agentes com os guerrilheiros de Argel para a Bolívia em junho de 1963. Dois anos depois, Cuba deu apoio sistemático a um movimento potencialmente revolucionário, enviando um grupo de elite de guerrilheiros voluntários, a grande maioria deles negros, para o leste do Congo. Che Guevara estava entre eles.

Independência do Congo

Após se tornar independente da Bélgica em 1960, o Congo elegeu o primeiro ministro de esquerda Patrice Lumumba. Logo depois, o exército se amotinou; a província de Katanga, rica em minerais, sob Moise Tshombe, se separou; as tropas belgas voltaram; e, finalmente, a pedido de Lumumba, as forças de manutenção da paz das Nações Unidas chegaram para proteger a integridade territorial do país e seu novo governo.

Quando Lumumba requisitou assistência militar adicional aos soviéticos, o Presidente Kasavubu – auxiliado pelo Comandante Chefe Joseph Mubutu – o depôs. Após o assassinato de Lumumba e a morte do Secretário Geral da ONU, Dag Hammarskjold, em uma queda de avião, instaura-se o caos no Congo.

No início de 1964, Cyrille Adoula, fraco e impopular, estava tentando liderar o país. Com a retirada da ONU, quatro rebeliões diferentes estouraram, a maioria operando sobre o guarda chuva do grupo de esquerda chamado Conselho de Libertação Nacional. Desde que Adoula fechou o parlamento, essa coalizão da oposição o substituiu efetivamente.

Gaston Soumaliot liderou o movimento no norte do país – seu tenente Laurent Kabila orquestrou outro grupo mais ao sul. Por algumas semanas na metade de 1964, estas forças controlaram muito da região oeste do Congo. Um dos antigos colegas de Lumumba, Christophe Gbenye, tomou o controle de boa parte do resto do país com o apoio da China e da União Soviética.

Em março de 1964, o presidente Lyndon Johnson enviou Averell Harriman para a capital, Leopoldville-Kinshasa, para avaliar a situação. Com Cyrus Vance, vice-secretário de Defesa, Harriman elaborou planos para um transporte aéreo norte-americano, que começou em maio. Em julho, Moise Tshombe tomou o poder, substituindo o ineficaz Adoula, e pediu ajuda dos EUA, Bélgica e África do Sul.

Eles atenderam ao seu chamado e oficiais belgas e mercenários brancos da Rodésia e da África do Sul reforçaram as forças armadas congolesas. Sua tarefa imediata foi esmagar a rebelião de Gbenye, que havia estabelecido um governo em Stanleyville-Kisangani. Em novembro, o Reino Unido juntou-se aos esforços, permitindo que os paraquedistas belgas fossem transportados por aviões dos EUA a partir de sua base do Atlântico Sul na Ilha da Ascensão. O recém-eleito governo trabalhista sob Harold Wilson aprovou a ação. Os paraquedistas desembarcaram em Stanleyville ao mesmo tempo em que os mercenários brancos chegaram.

Guevara olha para África

Em resposta a essas intervenções ocidentais, um grupo de estados africanos radicais, liderados pela Argélia e Egito, anunciaram que eles poderiam suprir os rebeldes congoleses com armas e tropas. Eles pediram ajuda a outros, e o governo cubano anunciou que isso o compelia.

Em dezembro, Guevara – já reconhecido como um dos membros mais capacitado no internacionalismo dentro da liderança cubana – fez um discurso apaixonado na assembléia geral da ONU. Ele se referiu ao “caso trágico do Congo” e denunciou a “intervenção inaceitável” das potências ocidentais, referindo-se a “paraquedistas belgas, transportados por aviões dos EUA, que decolaram das bases britânicas”.

Guevara então embarcou em um tour pelos Estados africanos, visitando Argélia, depois Mali, Congo-Brazzaville, Senegal, Gana, Daomé, Egito e finalmente Tanzânia. Em Dar es Salaam, ele conheceu Laurent Kabila, que procurou sua ajuda para manter as áreas liberadas no leste e sudeste do Congo; no Cairo, ele conheceu Gaston Soumaliot, que queria homens e dinheiro para a frente de Stanleyville; e em Brazzaville, ele conheceu Agostinho Neto, que solicitou apoio cubano ao exército de libertação angolano, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Guevara estava empolgado com essas lutas de libertação potencialmente eficazes e com o papel que Cuba poderia desempenhar nelas. 

Em fevereiro de 1965, ele voou para Pequim para ver o que a República Popular da China poderia prover para as rebeliões congolesas. Lá ele conheceu Chou en Lai, que havia viajado por dez países africanos entre dezembro de 1963 e fevereiro de 1964. Logo após conhecer Che, Chou fez uma segunda visita a Argel e Cairo, onde pode ter encontrado os líderes rebeldes congoleses. Em junho, ele voou para a Tanzânia, onde certamente teve uma audiência com Kabila e Soumaliot.

Enquanto isso, o próprio Guevara voltou ao Cairo para discutir seu plano de liderar um grupo de guerrilheiros com o coronel Nasser. De acordo com o relato da reunião do genro de Nasser, Mohammed Heikal, o líder egípcio aconselhou Guevara “a não se tornar outro Tarzan”. “Isso não pode ser feito”, disse ele. Guevara não deu atenção ao aviso; ele já estava totalmente comprometido em aplicar sua experiência com o sucesso da Revolução Cubana a movimentos em todo o mundo. Ele voltou para Cuba, onde foi recebido por Castro. Foi a última vez que ele foi visto novamente em público até depois de sua morte, dois anos e meio depois na Bolívia. 

Antes de deixar Cuba, Che escreveu uma carta de despedida a Castro – que foi lida em público em Havana seis meses depois, em outubro – declarando que estenderia a influência da Revolução Cubana: “outras nações estão pedindo a ajuda de meus modestos esforços… Sempre me identifiquei com a política externa de nossa Revolução e continuo fazendo isso”. Ele agora sentia que seu destino exigia que ele exportasse a revolução e liderasse um movimento de guerrilha na África.

Desordem no front

Adecisão de intervir no Congo já havia sido tomada antes de Che retornar a Havana. Um grupo de voluntários de elite, todos negros, havia sido recrutado no início do ano e foi treinado em três campos diferentes em Cuba. O plano era que um contingente de cubanos viajasse em pequenos destacamentos para a Tanzânia e através do lago Tanganyika até o norte de Katanga; um segundo contingente – chamado Batalhão Patrice Lumumba – voaria para uma base perto de Brazzaville, do outro lado do rio Congo, de Leopoldville-Kinshasa, capital do Congo.

O capitão Victor Dreke – um cubano de ascendência africana – liderava a menor coluna oriental, composta por 150 guerrilheiros, incluindo o próprio Guevara. Che escreveu mais tarde a Castro que seu capitão “era…um dos pilares em que confiei. A única razão pela qual eu não estou recomendando que ele seja promovido é que ele já possui a classificação mais alta. ” Jorge Risquet Valdes Santana, membro do comitê central do Partido Comunista Cubano, chefiou o Batalhão Patrice Lumumba.

Em 1º de abril de 1965, após uma reunião final com Castro na base de guerrilha em Havana, Guevara voou com um pequeno guarda avançado primeiro para Moscou e depois para o Cairo e depois para Dar es Salaam. O novo embaixador cubano, Pablo Rivalta, cumprimentou Guevara e seus soldados no aeroporto nos arredores de Dar es Salaam. Guevara temia que a chegada deles chamaria a atenção da CIA, mas os americanos haviam acabado de retirar seu embaixador da Tanzânia e estavam ocupados. Infelizmente, a liderança rebelde congolesa também prestou pouca atenção. Kabila e Soumaliot estavam se encontrando com outros líderes no Cairo para tentar reduzir as divisões políticas dentro de seu movimento, e apenas pessoal relativamente júnior estava disponível para Guevara.

Os preparativos de Cuba para sua intervenção foram – como vimos – completos; mas eles superestimaram claramente o nível de cooperação que receberiam da própria liderança rebelde. Contudo, em 22 de abril de 1965, Guevara e seus companheiros partiram de Dar es Salaam para o lago Tanganyika, dirigiram para o sul e estabeleceram uma base de suprimentos na cidade à beira do lago de Kigoma, perto da vila de Ujiji – onde David Livingstone e Henry Stanley tinham se conhecido quase um século antes. Não sabemos se Guevara estava ciente do lugar de Ujiji na história do imperialismo africano quando ele estabeleceu sua base antiimperialista em Kigoma.

Depois de atravessar o lago, os cubanos encontraram um destacamento bem armado do Exército de Libertação Popular e iniciaram uma campanha de sete meses no que o líder mercenário pró-Tshombe, coronel Mike Hoare, nomeou “o bolso de resistência de Fizi Baraka”, uma área que cobria dezesseis mil milhas quadradas. Mais cubanos chegaram pouco a pouco entre abril e outubro. Durante esse período, os cubanos e os congoleses exploraram o terreno, e os cubanos começaram a avaliar os pontos fortes e fracos de seus inimigos e aliados

Eles observaram que as bases avançadas do inimigo estavam bem defendidas, apoiadas por pequenas aeronaves e mercenários brancos; também observaram que os rebeldes congoleses estavam sofrendo com sua moral baixa. Eles consideravam seus líderes, incluindo Kabila, como estranhos – ou, mais pejorativamente, como turistas. 

Os comandantes locais “passaram dias bebendo e depois fizeram grandes refeições sem disfarçar o que estavam fazendo das pessoas ao seu redor. Usaram gasolina em expedições sem sentido. Em 7 de junho, em um acidente inexplicável, Leonard Mitoudidi, o líder rebelde mais antigo presente – Kabila ainda estava em Dar es Salaam – se afogou no lago Tanganica.

Logo, chegaram instruções de Kabila de que os cubanos deveriam organizar um ataque à guarnição de Bendera, que defendia uma usina hidrelétrica. Guevara não concordou com o plano, mas decidiu seguir em frente de qualquer maneira. Em 20 de junho, uma força combinada de cubanos, congoleses e tutsis (alguns dos quais originalmente eram de Ruanda) partiu e realizou o ataque, conforme solicitado. Muitos tutsis fugiram, os congoleses se recusaram a participar e quatro cubanos foram mortos, revelando ao inimigo que Cuba estava agora envolvido na rebelião no local. Os cubanos consideraram esta operação não apenas um fracasso, mas um desastre. O líder mercenário Mike Hoare, por outro lado, ficou impressionado. Em suas memórias, ele observou:

[Os] observadores notaram uma mudança sutil no tipo de resistência que os rebeldes estavam oferecendo ao governo de Leopoldville… A mudança coincidiu com a chegada na área de um contingente de conselheiros cubanos especialmente treinados nas artes da guerra de guerrilha.

Nesse ponto, os cubanos se sentiam deprimidos e desiludidos. Todos já estavam doentes uma vez ou outra desde a chegada deles; O próprio Guevara sofria de crises de asma e malária. Seus pequenos sucessos militares – como a emboscada de um grupo de mercenários em agosto – pareciam insignificantes, e o clima político estava indubitavelmente se deteriorando.

As diferenças entre as facções rebeldes e seus líderes pareciam estar chegando ao topo, e um golpe de Estado na Argélia mudou o equilíbrio de forças. Ben Bella, um dos principais apoiadores de Guevara, foi substituído pelo comandante do exército Houari Boumedienne, que queria reduzir o compromisso da comunidade internacional com a rebelião congolesa.

Embora Guevara notasse o baixo moral, a falta de progresso e a mudança do clima político, ele mantinha suas preocupações em segredo. Quando Soumaliot foi para Havana no início de setembro de 1965, ele convenceu Castro de que a revolução estava indo bem. Os guerrilheiros cubanos continuaram a chegar à Tanzânia. Além disso, apesar das probabilidades, o treinamento cubano deve ter contado para alguma coisa. Como Hoare gravou mais tarde:


O inimigo era muito diferente de tudo que já havíamos conhecido antes. Eles usavam equipamentos, empregavam táticas normais de campo e respondiam a sinais de apito. Eles estavam obviamente sendo liderados por oficiais treinados. Interceptamos mensagens sem fio em espanhol…e parecia claro que a defesa…estava sendo organizado por cubanos.

Mas em outubro, os cubanos e seus aliados congoleses foram atingidos no contrapé. As forças combinadas dos mercenários brancos e as tropas de Tshombe estavam avançando em uma contra-ofensiva. Guevara retirou-se para o acampamento base em Luluabourg e esperava uma longa e última resistência. Os eventos, no entanto, se mostraram tão imprevisíveis como sempre.

Mudança de terreno

OPresidente Kasavubu começou a reconhecer que nunca obteria aprovação da Organização da Unidade Africana (OUA) se Tshombe continuasse como primeiro-ministro, então o substituiu por Evariste Kimba.

Por um momento, parecia que a revolução seria salva. Na realidade, no entanto, o fim do regime de Tshombe profetizou um esforço de reconciliação política que acabaria por minar a rebelião, encerrando o apoio que vinha recebendo dos estados africanos.Em 23 de outubro de 1965, Kasavubu participou de uma reunião de chefes de estado africanos em Accra, presidida por Kwame Nkrumah, em Gana. Kasavubu anunciou que a rebelião havia praticamente terminado e que ele enviaria os mercenários brancos para casa. Isso foi suficiente para convencer muitos líderes africanos. Também representou uma significativa derrota para os estados africanos radicais, permitindo que uma aliança mais conservadora se unisse dentro da OUA.

Em 11 de novembro de 1965, sentindo que o clima agora o favorecia, Ian Smith, o líder branco da Rodésia, declarou unilateralmente a independência do Reino Unido. Na África do Sul, um ataque renovado ao Congresso Nacional Africano esmagou efetivamente o movimento de massas contra o apartheid por meia década, e os portugueses foram incentivados a manter seu domínio sobre Angola, Moçambique e Guiné-Bissau por mais uma década. Enquanto isso, Ben Bella já havia sido derrubado; Nkrumah foi retirado do poder durante uma visita à China no início de 1966; e Ben Barka – o líder radical marroquino que estava organizando a Conferência Tricontinental de Cuba, um encontro de movimentos revolucionários internacionais a ser realizado em Havana em janeiro de 1966 – foi sequestrado e morto.

De volta ao Congo, Mike Hoare ouviu falar do discurso de Kasavubu e voou para Leopoldville para ver Mobutu em pessoa. “O general estava furioso”, lembra ele, “ele não havia sido consultado… e me senti amargo por isso”. O novo primeiro ministro, Evariste Kimba Muondo, teve que fazer uma declaração explicando que nenhum mercenário voltaria para casa até que o Congo estivesse completamente pacificado.

Guevara também estava lutando com a virada da maré política. Em 1º de novembro de 1965, ele recebeu uma mensagem urgente de Dar es Salaam avisando-o de que o governo da Tanzânia havia decidido encerrar a força expedicionária cubana. O Presidente Nyerere, ciente das brigas da liderança congolesa e preocupado com suas implicações, sentiu que tinha poucas escolhas.

Nas últimas semanas da campanha, Guevara considerou ficar para trás “com vinte homens escolhidos a dedo”, continuando a luta até o desenvolvimento do movimento ou até que suas possibilidades se esgotassem. Ele pediu ajuda à China e Chou en Lai o aconselhou a continuar construindo grupos de resistência, mas não a entrar em combate. O próprio Guevara teve a ideia, no final, de fazer uma marcha forçada pelo Congo para unir forças com os rebeldes de Mulele em Kwilu, mas ele não recebeu apoio por tal noção selvagem.

Em 20 de novembro, Guevara organizou a travessia do lago Tanganica de volta à Tanzânia. “Todos os líderes congoleses”, escreveu ele, “estavam em retirada total, os camponeses se tornaram cada vez mais hostis”. Ele reconheceu que tal situação tornava inútil a presença contínua dos guerrilheiros cubanos. Outros concordaram. Anos depois, Castro diria:

No final, foram os líderes revolucionários do Congo que tomaram a decisão de parar a luta… Na prática, esta decisão foi correta; vimos que as condições para o desenvolvimento dessa luta, naquele momento específico, não existiam.

Se esse foi realmente o caso, permanece discutível. De qualquer forma, depois de alguns dias em Dar es Salaam, a maioria dos cubanos voltou para casa via Moscou.

Para outro front

Victor Dreke retornou a Cuba para chefiar uma unidade militar que preparava voluntários internacionalistas; em 1966, liderou a missão militar cubana na Guiné-Bissau / Cabo Verde, onde serviu ao lado de Amílcar Cabral. Ele desempenhou uma função semelhante na República da Guiné. Ele retornou à Guiné-Bissau em 1986, liderando a missão militar de Cuba até 1989.

Jorge Risquet tornou-se chefe da Missão Internacionalista Civil Cubana na República Popular de Angola entre 1975 e 1979, liderando eventualmente 55 mil tropas cubanas contra as Forças de Defesa da África do Sul apoiadas pela CIA. Outros membros da força de guerrilha de Guevara também retornaram à África para lutar.

Che Guevara não voltou a Cuba com seus camaradas. Ele permaneceu na embaixada cubana em Dar es Salaam para escrever seu relato da campanha congolesa. No início de 1966, ele viajou para Praga, onde ficou por vários meses. Ele finalmente retornou a Cuba, onde secretamente ajudou a preparar a força expedicionária que se estabeleceria no leste da Bolívia em novembro de 1966. Enquanto no leste do Congo, Guevara aceitou formalmente a posição número três, na Bolívia, insistiu em liderar abertamente a força. Isso – combinado com o fato de a esquerda revolucionária na Bolívia estar profundamente dividida como resultado da disputa sino-soviética – significou que seus guerrilheiros receberam pouco apoio do Partido Comunista Boliviano, em grande parte alinhado a Moscou, deixando-os desesperadamente isolados.

Em março de 1967, apenas três meses após sua chegada, as forças do governo boliviano descobriram os cubanos e seus aliados locais e os obrigaram a lutar. Com praticamente nenhum apoio externo, o grupo diminuiu lentamente em números, e sua moral diminuiu. Em outubro de 1967, Guevara foi capturado e fuzilado.

Por uma perspectiva, podemos ver a decisão de Che de lutar contra probabilidades sem esperança na Bolívia como evidência de que ele não aprendeu nada com suas experiências no Congo. Por outra, poderíamos argumentar que ele já havia planejado algo assim no Congo, quando considerou ficar para trás. Ele pode até ter se decidido em abril de 1965, quando escreveu sua carta a Castro renunciando a suas posições na liderança do partido, seu cargo no ministério, seu posto de comandante e sua cidadania cubana. Afinal, ele era argentino e sempre fora, até certo ponto, um estranho.

Ele também era um idealista que havia viajado muito em sua motocicleta pela América Latina quando era apenas um jovem médico, familiarizando-se com a vida das pessoas pobres. Ele acreditava que a ação revolucionária poderia melhorar suas vidas, e sua participação no extraordinário sucesso da Revolução Cubana mostrou a ele o que poucas pessoas determinadas poderiam alcançar. Antes de partir para o Congo, Guevara escreveu aos pais: “Mais uma vez sinto sob os calcanhares as costelas de Rocinante”.

Esta imagem de Guevara – como um Don Quixote do século XX, partindo em seu cavalo ancião para reviver a cavalaria, desfazer erros e trazer justiça ao mundo, que, contra todas as probabilidades e apesar de uma série de encontros desastrosos, sobrevive com o espírito inalterado até o fim – apela ao romântico em todos aqueles que se consideram revolucionários. Mas a intervenção cubana no Congo não foi realizada de ânimo leve ou sem uma preparação séria; e as divisões dentro dos vários movimentos congoleses e os fracassos de sua liderança, embora muito reais, não pareciam à liderança cubana, pelo menos a princípio, insuperáveis.

Qualquer que fosse a situação no Congo, foi, sem dúvida, a mudança do ambiente político na África como um todo, e particularmente a retirada do apoio do Presidente Nyerere da Tanzânia à força expedicionária cubana que afetou adversamente a situação enfrentada por Guevara e seus guerrilheiros. Além disso, é claro que a decisão de abortar a missão não foi tomada apenas por Guevara, como observou Castro anos depois.

Guevara, no entanto, permaneceu heroicamente, embora tragicamente, otimista em relação à sua capacidade de contribuir para a revolução em outros lugares. Representantes do movimento de independência de Moçambique, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), relataram, por exemplo, que se encontraram com Guevara no final de 1966 em Dar es Salaam, sobre sua oferta de ajudar em seu projeto revolucionário, uma oferta que eles rejeitaram em último caso.

Enquanto Guevara se preparava secretamente para a Bolívia, ele escreveu uma última carta para seus cinco filhos para serem lidos após sua morte, que terminou com ele instruindo-os: “Acima de tudo, sempre seja capaz de sentir profundamente qualquer injustiça cometida contra alguém, em qualquer lugar do mundo. Esta é a mais bela qualidade em um revolucionário”.

Este artigo baseia-se na introdução de Richard Gott para o livro de Che Guevara The African Dream: The Diaries of the Revolutionary War in the Congo.

Sobre o autor

David Seddon is co-author of Congo: Plunder and Resistance. He is the coordinator of an essay series for the Review of African Political Economy site.

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