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24 de junho de 2023

Mundo caminha para economia de guerra entre EUA e China, diz sociólogo

Em entrevista, o alemão Wolfgang Streeck fala de nova ordem bipolar, equilíbrio de forças internacionais e Guerra da Ucrânia

André Singer
Professor titular do Departamento de Ciência Política da USP e professor visitante do King’s College London (Inglaterra). Autor, entre outros livros, de "Os Sentidos do Lulismo" e "O Lulismo em Crise"

Hugo Fanton
Pesquisador associado do Arnold Bergstraesser Institut da Universidade de Freiburg (Alemanha), do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic-USP) e do International Research Group on Authoritarianism and Counter-Strategies (IRGAC)

Folha de S.Paulo

[RESUMO] Um dos principais sociólogos em atividade, o alemão Wolfgang Streeck mostra-se pessimista em relação ao futuro imediato da "desordem mundial" que vivemos. Em entrevista, ele comenta que passamos por momento de transição, acarretado por crise do capitalismo democrático nas últimas décadas, para uma possível nova ordem bipolar liderada por EUA e China, o que, a seu ver, pode reacender o risco de uma grande guerra. Ele diz ainda que forças de esquerda devem apoiar a paz entre Ucrânia e Rússia, sem se aliarem a nenhum dos dois países, e que esperar uma vitória unilateral, com Vladimir Putin sendo julgado em Haia, é "suicida".

*

O sociólogo alemão Wolfgang Streeck, professor emérito do Instituto Max Planck, tornou-se conhecido fora dos círculos acadêmicos dez anos atrás quando publicou o livro "Tempo Comprado: A Crise Adiada do Capitalismo Democrático", traduzido para o português em 2018.

De lá para cá, virou um dos principais intérpretes da desordem mundial. Nesta entrevista —concedida em 12 de junho, via Zoom, de Colônia, na Alemanha—, mostrou-se pessimista em relação ao futuro imediato.

Sociólogo Wolfgang Streeck em palestra na Universidade de Boston. - Center for the Study of Europe Boston University

Segundo ele, em meados dos anos 1970 o capitalismo democrático começou a se desfazer, dando início a um período entrópico. Nele, predominaria a ideia anotada pelo dirigente comunista Antonio Gramsci no "Caderno do Cárcere" volume 3 (1930): "A crise consiste [...] no fato de que o velho morre e o novo não pode nascer: neste interregno, verificam-se os fenômenos patológicos mais variados".

Quanto tempo levará a transição para a nova ordem? Ninguém sabe, afirma Streeck. O fim do Império Romano é o caso paradigmático, e até hoje é difícil determinar a duração do seu desmoronamento.

Por ora, Streeck acha possível o estabelecimento de uma ordem econômica global bipolar, em que Estados Unidos e China liderariam blocos com funcionamento próprio. Teme, entretanto, que um dos polos, no caso o norte-americano, por ser militarmente mais forte, decida usar a vantagem antes que a perca. "Meu medo é que Biden planeje atacar a China, com a ajuda da Otan", disse.

"Os Estados Unidos têm uma vantagem maravilhosa, não é possível vencer uma guerra contra eles. São como uma ilha enorme, um continente, e têm apenas dois vizinhos: o Canadá, quase um estado americano, e o México, onde suas tropas já estão presentes, presumivelmente para combater o tráfico de drogas", afirma Streeck.

Para acabar com a Guerra da Ucrânia, bastaria os americanos se disporem a uma saída negociada com os chineses, pensa Streeck. Já a ideia de uma vitória unilateral, com Vladimir Putin sendo julgado em Haia, é "suicida", acredita.

"Há alguns dias, o governo alemão prometeu a Biden enviar dois grandes navios de guerra para as águas do sul da Ásia, perto da costa chinesa. Imagine, a marinha alemã na costa da China?! Vocês me perguntam o que espero? Só posso dizer que não estou mais esperando nada, exceto surpresas bizarras."

Leia a seguir os principais trechos da conversa, cuja íntegra sairá em livro publicado pela editora da Unicamp no primeiro semestre de 2024.

A ideia gramsciana de interregno está associada em sua obra a períodos diferentes: o desmantelamento da ordem pós-guerra pela revolução neoliberal, de 1975 em diante; o fim da possibilidade de o capitalismo comprar tempo, por volta de 2008 em diante; o atual "cabo de guerra" entre as elites da coalizão neoliberal e novos populismos, em torno de 2016 em diante; e um período prolongado de desordem que viria após o fim do capitalismo, um futuro incerto que ainda não começou. Poderia comentar os diferentes significados de interregno? Gramsci usa o termo para indicar uma situação de muita incerteza, causada pelo rompimento das estruturas que criavam algo como ordem ou previsibilidade, e não se sabe o que vem depois. Daí surgem todos os tipos de distúrbios patológicos. Portanto, é um conceito geral que descreve a situação em que a velha ordem está morrendo, e a nova ainda não pode se materializar.

A meu ver, o período de interregno começa quando a ordem relativamente estável do pós-guerra principia a desmoronar no final da década de 1970. Mas é preciso ter uma visão de longo prazo quando se pensa em mudanças de época, pois nem tudo desmorona de uma vez. Certas coisas continuam; outras se tornam disfuncionais.

O fim do Império Romano é o caso paradigmático de mudança social fundamental. Quanto tempo isso levou? Não se sabe ao certo. Quando o último imperador estava em Roma, havia outro em Bizâncio. Depois, vários tentaram restaurá-lo, como os carolíngios. Há, portanto, uma mistura de estabilidade e colapso.

O mérito de Gramsci é apontar para o fato de que as estruturas sociais produzem algo como continuidade e previsibilidade, mas há situações em que uma ordem existente está tão profundamente danificada que não se sabe o que virá a seguir.

Quando olhamos para o momento presente, é possível argumentar que estamos vendo uma próxima fase que eu chamaria, de forma provisória, de economia bipolar global: uma economia de guerra, dividida em duas metades, China e Estados Unidos. Teríamos sido capazes de imaginar algo assim há cinco anos? Impossível.

Nos últimos dez anos, o senhor tem destacado os aspectos desestabilizadores do período pós fim da compra de tempo pelo capitalismo. Mas como devemos analisar as contratendências de estabilização sistêmica, como o sistema transnacional de Bancos Centrais, atuando para absorver os choques causados pela especulação financeira, a reação permanente do que Tariq Ali chama de "extremo centro" e as ideologias de consumismo e meritocracia? No que diz respeito à cultura cotidiana, meritocracia e consumismo, se a esquerda não puder oferecer um modo de vida às pessoas mais satisfatório do que o consumo, o trabalho árduo e duro para aumentar o capital dos proprietários privados e assim por diante, se não tiver algo a oferecer, então perdemos.

No nível institucional, acho que podemos diagnosticar que o sistema financeiro global não é, como vocês sugerem, um pilar de estabilidade, mas está cada vez mais fora de controle internamente. Então teríamos uma situação gramsciana, em que a estrutura institucional entra em colapso, talvez em nova crise financeira global.

As pessoas não estão preparadas para pensar em um modo de vida que seja mais sustentável do que um capitalismo global ingovernável. Essas questões estão muito distantes da experiência cotidiana. A maioria das pessoas tem de lutar muito para sobreviver e colocar comida no prato. Elas não têm tempo para estudar economia política. Não entendem o que significa uma pirâmide financeira que pode se romper a qualquer momento, a criação de dinheiro do nada para manter as coisas funcionando, que tipo de consequências futuras pode ter.

Essa sociedade, em algum momento, será incapaz de fornecer até mesmo pequenas satisfações. Mas esse é um processo de longo prazo, e estou totalmente de acordo, precisamos conhecer esses estabilizadores socioculturais e pensar no que pode substituí-los.

Poderia falar sobre as reações "desde baixo" às elites da coalizão neoliberal, presentes em seu último livro, "Zwischen Globalismus und Demokratie" [entre o globalismo e a democracia], publicado na Alemanha em 2021? A democracia não é ameaçada apenas por movimentos autoritários de direita. Ela vem sendo esvaziada há décadas com a destruição dos sindicatos, da negociação coletiva, da social-democracia, e com o vácuo dos partidos políticos, que se transformaram em organizações não representativas e, portanto, mais ou menos impotentes, especialmente na esquerda.

Max Weber dizia que a sociologia é uma ciência que se baseia na compreensão dos significados que as pessoas atribuem às ações. Se quisermos entender o que as pessoas [ligadas a movimentos autoritários de direita] estão fazendo, acho justo dizer que estão buscando proteção nacionalista autoritária contra as incertezas globais, na ausência de opções de proteção internacionalista democrática.

A razão pela qual esses grupos se tornaram tão visíveis e poderosos é simplesmente porque a esquerda não foi capaz de oferecer a eles o tipo de proteção contra as incertezas das rápidas mudanças sociais e econômicas que agora dominam a vida de muitas pessoas, especialmente nas classes mais baixas.

Certamente isso tem a ver com a globalização. A partir de 1990, sob o feitiço da nova ordem mundial propagada pelos Estados Unidos, até mesmo os partidos sociais-democratas começaram a se entusiasmar com o mundo único e os mercados livres.

O que deveríamos fazer era nos ajustar às restrições dos mercados. Nas primeiras décadas do século 21, houve uma grande decepção e essa decepção, ressentida e não esclarecida, foi captada pelos partidos nacionalistas e agressivos de direita.

No artigo "O Retorno do Rei" (publicado no blog Sidecar, da New Left Review, em abril de 2022), o senhor antecipou que a guerra ucraniana poderia estar caminhando para um conflito longo. Como a esquerda pode enfrentar o desafio de apoiar a resistência ucraniana, que está defendendo pessoas inocentes agredidas pelo estado russo, e ao mesmo tempo ser contra a guerra em si? Como qualquer país, a Ucrânia é uma sociedade diversificada, a resistência inclui grupos com ideias diferentes sobre os objetivos da guerra. A esquerda não é forçada a concordar com os objetivos da guerra. Aparentemente, o governo ucraniano está seguindo a ala de extrema direita do movimento nacionalista ucraniano.

Até alguns anos atrás, uma versão diferente do nacionalismo ucraniano estava no poder, disposta a falar de neutralidade, de autonomia para as partes da Ucrânia cuja língua é o russo, de garantias de que o porto militar russo de Sebastopol, no Mar Negro, permaneceria nas mãos da Rússia em vez da Otan. Nos últimos dez anos, os objetivos do movimento nacionalista ucraniano se tornaram mais radicais.

Não é nosso dever estar do lado de um país específico. Acho que o principal objetivo da esquerda deve ser evitar a guerra. Acabar com a guerra. Somente se não houver guerra não haverá morte de pessoas inocentes.

Também há pessoas inocentes sendo mortas do lado russo. Por causa dessa loucura absoluta de uma guerra em que todos, até o outono de 2021, antes do início da guerra, sabiam basicamente o resultado provável: a Crimeia permaneceria nas mãos da Rússia, talvez por dez anos, e depois haveria um plebiscito; haveria algum tipo de autogoverno para as partes da Ucrânia que falam russo; a Ucrânia permaneceria fora da Otan e receberia garantias de segurança internacional que deveriam protegê-la de novas agressões russas.

A esquerda deve apoiar a paz, não um país específico e não um governo específico do país. Em meu último trabalho sobre macrossociologia, tornei-me forte defensor do estado-nação.

O estado-nação soberano, especialmente para populações pequenas, é uma ferramenta muito importante para a democracia. Portanto, a Ucrânia deve ter seu próprio estado. Como esse estado deve se encaixar na arena internacional é uma questão diferente.

Há dois grandes romances russos: "Guerra e Paz" e "Crime e Castigo". Uma guerra é sobre "Guerra e Paz", não sobre "Crime e Castigo". A ideia de que essa guerra deve terminar com Putin julgado em Haia é suicida. Isso poderia matar não apenas os ucranianos, mas muitos russos e outras pessoas. Se essa é a paz que queremos, eu certamente discordaria disso.

O relacionamento entre países fortemente armados, quer queiramos ou não, não é pessoal, não é algo que possa ser discutido em termos de vilão e mocinho. Ao longo dos séculos, os países desenvolveram técnicas para estabelecer a paz. Parte disso são acordos sobre quem tem permissão para posicionar tropas, sobre inspeção mútua de forças armadas e controle de armamentos.

A pré-história da guerra ucraniana foi uma época em que todas as instituições poderosamente calibradas do período da Guerra Fria foram desmanteladas e negligenciadas.

No artigo "Uma Ordem Bipolar?", publicado no Sidecar em 1º de maio passado, o senhor lembra que o capitalismo "se transformou e se reformulou de forma mais fundamental e eficaz do que nunca na esteira das duas grandes guerras do século 20". Será que os EUA colocaram em movimento uma estratégia de guerra tendo isso em mente? Em nenhum país há mais pessoas pensando em como usar as Forças Armadas: 40% dos gastos militares globais são feitos nos Estados Unidos. Em 2010, os gastos militares anuais americanos foram 19 vezes maiores do que os russos. Existem essas enormes burocracias militares, com pessoas pensando, livremente, sobre como usar isso.

Livremente por quê? Porque os Estados Unidos têm uma vantagem maravilhosa, não é possível vencer uma guerra contra eles. São como uma ilha enorme, um continente, e têm apenas dois vizinhos: o Canadá, quase um estado americano, e o México, onde suas tropas já estão presentes, presumivelmente para combater o tráfico de drogas.

Ao contrário, a China tem cerca de 20 países vizinhos. Por sua doutrina militar oficial, os Estados Unidos querem ser capazes de realizar duas guerras ao mesmo tempo, nas partes Oriental e Ocidental do globo.

No caso do Afeganistão, eles puderam ir a um lugar, gastar quantias inacreditáveis em 20 anos e depois, simplesmente, voltar para casa. Alguém pode esperar que o Talibã vá aos Estados Unidos se vingar? Absolutamente impossível. Imagina-se o exército iraquiano marchando até Washington e exigindo que George W. Bush seja entregue ao Tribunal de Haia?

Deve haver pessoas pensando em atacar a China agora, quando os EUA ainda estarão em uma situação com chance muito boa de vencer. Quando vencerem, poderão cancelar toda a dívida com a China e criar uma nova ordem monetária global. Teríamos de volta 1990, quando a Rússia e a China votavam com os Estados Unidos na ONU. Deve haver uma tentação de pensar sobre isso, o que é muito perigoso.

Joe Biden, com apoio de Bernie Sanders, deve enfrentar Donald Trump novamente nas urnas em 2024. Como analisa o governo Biden até agora? Quando Biden assumiu, tornou-se linha-dura no que diz respeito à Ucrânia de uma forma que ninguém esperava, depois de ter saído do Afeganistão sem avisar os aliados. Os militares alemães que estavam no Afeganistão ficaram atônitos ao saber que os americanos sairiam no dia seguinte. Eles simplesmente fazem o que querem.

Portanto, o que Biden fará depende muito de saber se os Estados Unidos estão seriamente dispostos a entrar em guerra com a China. Caso contrário, eles podem permitir que os chineses ajudem a estabelecer algum tipo de cessar-fogo na Ucrânia, ou seja, incluir a China no sistema euroasiático.

Os russos não podem mais tomar nenhuma decisão sem o apoio dos chineses. A China continua dizendo ao mundo que se opõe totalmente ao uso de armas nucleares, e que não está vendendo armas a nenhum país envolvido em operação militar. Isso significa que eles tiraram, na opinião dos russos, a última ferramenta para se defenderem contra um exército ucraniano que entre na Rússia: as armas nucleares táticas.

Os russos precisam urgentemente de armas melhores, mas não as obtêm dos chineses. Então, os chineses poderiam ser mediadores entre a Ucrânia e a Rússia ou entre os Estados Unidos e a Rússia. Se Biden quisesse isso, acho que poderia conseguir, mas ao preço de não poder mais atacar a China. Seria um pacificador. Em outras palavras, não sei o que Biden vai fazer.

Meu medo é que ele realmente planeje atacar a China, com a ajuda da Otan. Há alguns dias, o governo alemão prometeu a Biden enviar dois grandes navios de guerra para as águas do sul da Ásia, perto da costa chinesa.

Imagine, a marinha alemã na costa da China?! Vocês me perguntam o que espero? Só posso dizer que não estou mais esperando nada, exceto surpresas bizarras.

24 de julho de 2021

Planos econômicos de Biden e da Europa não são ruptura com neoliberalismo, diz sociólogo

Apesar de insatisfação crescente, as bases da velha lógica capitalista continuam a se impor, avalia Wolfgang Streeck

Hugo Fanton
Professor colaborador do Departamento de Ciência Política da USP e pesquisador associado do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic)


[Resumo] Em entrevista, o renomado sociólogo alemão Wolfgang Streeck se contrapõe ao otimismo de setores da esquerda e afirma que os planos de estímulo econômico na União Europeia e de Joe Biden nos EUA, longe de representarem uma ruptura da ordem neoliberal, reproduzem as bases da velha lógica capitalista, que segue como padrão dominante apesar da crescente insatisfação em todo o mundo.

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As crises combinadas e crônicas do capitalismo e das democracias ocidentais nas últimas décadas são os temas centrais do trabalho recente do sociólogo Wolfgang Streeck, diretor emérito do Instituto Max Planck para o Estudo de Sociedades de Colônia, na Alemanha.

Nesta entrevista, ele analisa o momento político da União Europeia e dos Estados Unidos sob o governo democrata de Joe Biden e revela descrença em relação ao otimismo corrente, mesmo em setores da esquerda, de que uma nova fase capitalista possa emergir.

Em seu entendimento, não há razão para acreditar que os estímulos anunciados até aqui por Biden ou pela União Europeia representem qualquer ruptura com a lógica neoliberal que rege as economias centrais há décadas e traz como consequência direta o aumento das desigualdades.

Mulher pede esmola em ponte para pedestres de Canary Wharf, em Londres - Lalo de Almeida

Mesmo diante da emergência de diferentes formas de insatisfação com o modelo atual, a ausência de partidos de massa que congreguem os descontentamentos em um denominador comum transformador, de sentido democratizante, possibilita ao capitalismo continuar a se impor como padrão predominante de integração social, avalia.

Apesar disso, os sinais da crise seguem presentes e no centro de sua análise sobre as dificuldades vividas no Ocidente.

Na entrevista a seguir, realizada por email no início de julho, Streeck apresenta ainda conceitos formulados em suas obras “Tempo Comprado” e “How Will Capitalism End” para expor as atuais expressões do neoliberalismo.

O sociólogo aborda ainda as consequências da Covid-19 nas políticas macroeconômicas e faz projeções para as eleições nacionais que acontecem na Alemanha em setembro.

A versão completa da entrevista será publicada na edição de agosto da Revista Rosa, uma publicação acadêmica de conteúdo aberto disponível na internet.

Análises recentes de ações governamentais no contexto da pandemia apontam para possibilidades de mudança na orientação da política macroeconômica, uma nova lógica a reger o centro do capitalismo, anunciando, inclusive, o fim do neoliberalismo em uma perspectiva progressista. Qual é a sua avaliação das medidas de estímulo à retomada econômica, sejam elas nos EUA ou na União Europeia? Podemos entrar em uma nova fase que dê sobrevida ao "capitalismo democrático"? Antes de mais nada, a transição para uma “nova era” leva tempo. Biden está no governo há menos de meio ano, e em breve começará o período que antecede as eleições de meio de mandato, de novembro de 2022.

Lembro-me muito bem do momento imediatamente após a eleição de Bill Clinton, em 1992, quando o céu estava cheio de sonhos de reformas fundamentais, como a social, a educacional e a do mercado de trabalho. Isso terminou dois anos depois, quando ambas as casas do Congresso se tornaram republicanas, com Newt Gingrich assumindo o poder na Câmara dos Deputados e Clinton mudando de rumo em 180 graus, iniciando a revolução neoliberal. Vamos ver se Biden vai se sair melhor.

Em segundo lugar, depende do que você quer dizer com “uma nova lógica do capitalismo” e do que chamamos de “sobrevivência do ‘capitalismo democrático’”. O capitalismo tem evoluído permanentemente desde seu início, assumindo constantemente novas formas: novas tecnologias, nova organização do trabalho, novos regimes financeiros, mudanças nas relações com o Estado e a democracia etc.

O que não mudou foi sua natureza fundamental: uma economia política guiada por uma compulsão intrínseca pela acumulação sem fim de capital privado capaz de gerar mais capital privado. Não há razão para acreditar que o estímulo econômico fiscal, independentemente do seu tamanho, representaria uma ruptura com essa lógica.

Certamente, uma questão interessante é como os enormes déficits públicos necessários para estimular a decadente máquina de lucro americana são financiados e por quanto tempo isso pode continuar sem causar mais danos que benefícios, especialmente para aqueles que não são proprietários de capital.

Parece-me que o pacote Biden será financiado por uma mistura complexa de política fiscal e monetária, ou seja, por uma enorme extensão da dívida pública americana combinada com uma promessa do Fed de manter as taxas de juros baixas para que a dívida possa ser paga, além da garantia aos investidores em dívida pública de que, se a pressão chegar, o Fed comprará sua dívida com dinheiro novo, o que no jargão tecnocrático do dia é chamado de “estabilização dos mercados financeiros”.

Você tem alguns palpites sobre quem se beneficiaria mais com isso, os ricos ou os pobres, e se as desigualdades de renda e riqueza aumentariam ou diminuiriam como resultado. Para mim, essa é uma lógica bastante antiga.

Em diferentes momentos de sua obra recente, aponta-se a extrema desigualdade de poder e a existência de uma diplomacia financeira internacional imune ao controle democrático de suas decisões, que se sobrepõem aos Estados nacionais. As novas expressões de atuação política das massas apontam para possibilidades concretas de incidência política ou seguem extremamente distantes dos processos decisórios? Eles têm influência, sim. Se têm potencial de transformação, o futuro mostrará. Acho que depende muito do país e da região geográfica. Existem hoje muitas expressões de descontentamento, às vezes bastante radicais, sobre diferentes questões e em diferentes formas, sem, contudo, um denominador comum de magnitude política relevante.

Há descontentamento com os governos, de forma particular ou em ampla escala, relativo à má prestação de serviços, à insuficiente proteção contra riscos econômicos e incertezas, à falta de consideração do poder público por grupos específicos ou, em geral, pelos “perdedores” das guerras de competitividade.

No entanto, não há partido de massas, por mais organizado que seja, que possa unir as diversas oposições e dar um enfoque comum ao seu descontentamento. Além disso, a discriminação por raça ou orientação sexual não é nada essencial para a estabilidade do capitalismo, que pode facilmente prescindir de tais discriminações e se juntar à batalha contra elas.

Veja o apoio financeiro do banco Goldman Sachs ao “casamento para todos” ou as consideráveis doações aparentemente feitas por grandes empresas globais a uma organização como a Black Lives Matter, para comprar a boa vontade geral do público, bem como para se proteger de ataques específicos a suas práticas de emprego e contratação.

Já estamos convivendo há mais de um ano com a pandemia de Covid-19, um acontecimento global que impactou profundamente a economia e a política no Ocidente. Houve alterações de tendências que estavam em curso ou as análises anteriores à pandemia referentes à crise do “capitalismo democrático” seguem atuais? Mais uma vez, lamento, muito cedo para dizer, pelo menos dessa forma. Tenho apenas duas tentativas de observação a fazer. Primeiro, parece-me que a pandemia proporcionou um período de fôlego aos partidos centristas da esquerda e da direita, partidos que estão em decadência há algum tempo porque seus eleitorados tradicionais estavam se dividindo ou definhando.

A centro-direita parece estar se saindo melhor devido a sua experiência e solidez, enquanto a centro-esquerda continua a ser assombrada pelos verdes [partidos que colocam como centro de seus programas a questão ecológica] em suas diferentes formações, que ainda absorvem uma parte crescente do seu voto.

A esquerda radical, por sua vez, parece estar à beira da extinção política, já que não tem nada a oferecer sobre a pandemia que difira da política governamental dominante. A direita radical, em comparação, parece estar se saindo melhor, o que pode ter a ver com o fato de conseguir capturar, em nome da liberdade pessoal, a oposição dos pequenos empresários e dos profissionais autônomos contra as políticas de lockdown do centro e da esquerda.

Em geral, acho interessante que a esquerda tenha se tornado o partido de um Estado forte, até mesmo autoritário, em nome da “ciência” e de saber melhor o que é bom para todos, alinhando-se ao governo do dia quanto mais este tem disposição para impor duras restrições.

Os vários grupos de pressão “Covid-zero”, em particular, estão mais à esquerda do que à direita, alguns fantasiando sobre um retorno de solidariedade universal, o povo, até mesmo os povos unidos, em um lockdown brusco e rápido: apenas três semanas ou quatro, e o vírus será derrotado. Isso é completamente ilusório e falhou até mesmo na Austrália.

A posição liberal, em comparação, é que temos de aprender a viver com o vírus e aceitar que algumas pessoas morrerão por algum tempo —uma posição que é considerada desumana, até mesmo fascista entre a esquerda, e é um grande tabu nas discussões políticas.

Quais foram os principais efeitos da pandemia sobre a Alemanha e a União Europeia? Como analisar os pacotes de estímulo econômico anunciados no ano passado? Os 750 bilhões de euros são apenas um passo, moderadamente criativo, do Estado fiscal para o Estado endividado,a ser seguido, inevitavelmente, por outro passo em direção ao que chamo de Estado de consolidação.

Digo “criativo” porque encontrou uma maneira de contornar a proibição dos tratados para a UE contrair dívidas, embora, por enquanto, uma única vez, na vigência de um suposto estado de emergência.

Note-se que o dinheiro novo foi distribuído a todos os Estados-membros, e não apenas aos países mediterrâneos em sofrimento, pois todos são afetados em diferentes graus pelo que chamo de crise fiscal do Estado capitalista.

Todavia, enquanto a soma parece impressionante, tudo o que fará é financiar alguns projetos nacionais de prestígio, beneficiando os governos no poder, sem de forma alguma curar as assimetrias fundamentais da União Monetária Europeia que estão arruinando a Itália, a Espanha e a França, enquanto tornam a Alemanha rica.

Já antes da pandemia, a dívida havia se tornado a medida aceita para a falta de dinheiro público necessário para manter o capitalismo a flutuar sob condições de “estagnação secular”. A dívida, no entanto, deve ser paga em algum momento, devendo o Banco Central Europeu manter as taxas de juros baixas porque, caso contrário, estados como a Itália poderiam entrar em inadimplência.

É verdade que, com engenhosidade suficiente, você pode sempre tentar adiar a hora da verdade. No entanto, se no caminho os investidores começarem a duvidar que recuperarão o dinheiro, o custo do refinanciamento da dívida aumentará, primeiro nos países fracos e depois também nos países fortes como a Alemanha.

Todos os tipos de acidentes políticos e econômicos podem acontecer por esse caminho, acidentes que exigirão ainda mais “criatividade” dos governos nacionais e das organizações internacionais.

No final do verão de 2020, Angela Merkel parecia bem-avaliada em sua gestão da pandemia, e a eleição nacional tinha a CDU (União Cristã-Democrata), partido da chanceler, como favorita. No entanto, passado o inverno, a situação parecia completamente diferente, com queda na popularidade de Merkel, nas intenções de voto na CDU e uma possível vitória verde nas eleições de setembro. Como tal mudança de conjuntura tem se expressado no debate programático? Não haverá uma "vitória verde". No final, os verdes poderão acabar com menos votos que o SPD (Partido Social-Democrata), que permanecerá nitidamente abaixo de 20%. Se nenhum milagre acontecer, o candidato da CDU/CSU (União Social-Cristã), Armin Laschet, será chanceler de um governo de coalizão que poderá incluir qualquer combinação com Verdes, SPD e o liberal FDP, dependendo dos votos que cada partido obterá. A política alemã é centrista até o osso.

Neste momento, Laschet, como primeiro-ministro do maior estado federal, Renânia do Norte-Vestfália, está tentando desenvolver um regime de combate à Covid-19 mais sustentável que o interminável lockdown de Merkel, adotado para agradar à ala “Covid-zero” do Verdes. Laschet governa com o liberal FDP, em afinidade com os pequenos empresários e outros que sofrem sob os sempre retornados lockdowns.

Você está pedindo o “debate programático”. Não há nenhum. Laschet produziu um “programa” que é tão trivial e chato que ninguém o está lendo. Nisso ele segue os passos de Merkel, que é completamente dissonante quando se trata de ideologia e afins, mudando repetidamente de direção em 180 graus se isso se adequar à sua política de coalizão.

O que há de mais ou menos diferente por parte dos líderes partidários está relacionado com as respostas às crises, que os manterão ocupados quando no cargo, em questões relativas à Europa Oriental, união monetária, finanças estatais, relação com a Rússia, confronto americano com a China e o desejo francês de que a “Europa” defenda seu império pós-colonial na África Ocidental etc.

Há um amplo consenso na Alemanha, incluindo cada vez mais também a AfD (Alternativa para a Alemanha), de que manter viva a união monetária deve ser a prioridade máxima da política alemã, pois a moeda comum é a principal fonte da prosperidade do país.

Há pequenas diferenças sobre o valor da compensação a ser paga pelo contribuinte alemão, em nome das indústrias de exportação alemãs, a países “perdedores” como Itália, Espanha e França por se agarrarem ao euro, sobre a melhor, menos visível, forma de pagamento, e quem seria melhor em negociar o preço para baixo.

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