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16 de agosto de 2019

Sindicatos alemães se mobilizam contra o desastre climático

A demanda pelo fim da produção de carvão e carros geralmente parece uma ameaça aos empregos. No entanto, a classe trabalhadora organizada na Alemanha percebeu que a transição verde precisa acontecer - e estão lutando para garantir que os patrões paguem pela justiça climática, não os trabalhadores.

Mark Bergfeld


Supporters of the Fridays for Future climate change movement participate in a demonstration during a five-day Fridays for Future congress on August 2, 2019 in Dortmund, Germany. (Juergen Schwarz / Getty Images)

Tradução / Mesmo com as férias de verão interrompendo as paralisações escolares, o movimento “Sextas Pelo Futuro”, liderado por adolescentes, não abandonou sua luta para salvar o planeta. Desde o início do movimento, líderes como a sueca Greta Thunberg e a alemã Luisa Neubauer têm trabalhado para construir laços sociais mais amplos do que os das gerações anteriores de ativistas ambientais, inclusive junto às organizações dos trabalhadores. Com esse espírito, o dia 20 de setembro deve marcar o início da “Greve da Terra”, uma greve geral planejada para interromper a produção por uma semana ao redor do mundo e atrair a atenção política para a emergência climática.

Historicamente, a necessidade de “salvar empregos” tem sido contraposta ao chamado pelo fechamento de indústrias nocivas. No entanto, a escala gigantesca da catástrofe que enfrentamos tem chamado atenção para a necessidade de superação da divisão entre ativismo verde e trabalhista. Em particular, a popularização da demanda pela “justiça climática” – argumentando que os pobres, vulneráveis e explorados não deveriam ser aqueles a pagar pela transição para uma economia verde e neutra em carbono – mostra que salvar o planeta e realizar justiça social realmente podem andar de mãos dadas, como simbolizado pelo apelo de Alexandria Ocasio-Cortez por um “Green New Deal”.

A Alemanha possui uma história profundamente arraigada de mobilização ecológica, com até mesmo campanhas radicais desfrutando de amplo apoio popular. Seu movimento ambientalista tem sido caracterizado historicamente por uma forte corrente antiautoritária – de fato, nas décadas de 1970 e 1980, o movimento para impedir o transporte de lixo nuclear usou formas de desobediência civil associadas à luta pelos direitos civis nos EUA.

Ao contrário de muitos outros países, esses movimentos não estão nas margens da política, são profundamente enraizados nos bairros e comunidades. Contudo, seja qual for a força do ativismo climático, os sindicatos trabalhistas tradicionalmente permaneceram alheios às lutas verdes. Agora, porém, surfando na onda impulsionada pelo movimento Sextas Pelo Futuro, o trabalho organizado está começando a adotar como seu o chamado pela transição verde.

Empregos em primeiro lugar?

Há muitos obstáculos para essa conversão. Nos últimos anos, os ativistas do clima adeptos da desobediência civil têm concentrado sua atenção no fechamento de duas minas de carvão de linhito a céu aberto, uma na Renânia e outra em Lausitz, na antiga Alemanha Oriental. O carvão de linhito é uma das fontes de energia menos eficientes e mais sujas, mas também representa um dos principais criadores de emprego em ambas as regiões. Isso provocou repetidos confrontos entre os membros do sindicato dos químicos e mineiros – o IG BCE – e os ativistas que vieram para a Renânia para ocupar a Floresta de Hambach e a mina a céu aberto. O secretário geral do IG BCE, Michael Vassiliades, insistiu na necessidade de pensar primeiramente nos empregos e depois nas questões ambientais – garantindo a continuidade do conflito entre os ativistas climáticos e os trabalhadores organizados.

Essa posição corresponde ao registro histórico do sindicato IG BCE como participante da comissão do governo alemão pela eliminação do linhito – um processo lento que na verdade coloca o país em contradição com o acordo climático de Paris. Por enquanto, todas as partes interessadas, incluindo os sindicatos, concordam que a produção de carvão deve parar até 2038, mas o foco do IG BCE nos empregos o mantém isolado de qualquer noção de “justiça climática”. Certamente, existem motivos para preocupação – o setor de energia renovável (tanto eólica quanto solar) é notoriamente anti-sindicatos, em contraste com o diálogo e a parceria sociais enraizados em formas mais antigas de produção. No entanto, o risco é que exatamente essa cegueira sobre as questões verdes acabe permitindo que os empregadores assumam o manto da direção da transição ecológica.

Nem todas as organizações trabalhistas seguem atoladas em uma posição tão puramente defensiva. Na esteira da demanda do Sextas Pelo Futuro pelo encerramento da produção de carvão até 2030, o secretário geral do sindicato de serviços ver.di, Frank Bsirske, declarou que a eliminação deveria ser acelerada tanto quanto possível. Este apelo provocou uma mobilização pelo partido de extrema-direita Alternativa Para a Alemanha (AfD) que atacou Bsirske de maneira oportunista, dizendo que ele pretende prejudicar os trabalhadores alemães e o taxando como anti-indústria. Os comentários de Bsirske também não agradaram a todos os sindicatos: Durante o acampamento de ativistas climáticos “Ende Gelände”, a ala jovem do IG BCE exigiu segurança no emprego e a continuação da mineração a céu aberto.

Saindo da Rotina

Como vemos, a consciência verde na Alemanha – que representa a crescente fortuna do Partido Verde e a prevalência das lojas da Bioläden, vendendo alimentos ecologicamente corretos – não se traduz necessariamente na adoção, pelos sindicatos, de posições mais progressistas sobre as questões climáticas. Na verdade, o radicalismo entre os ativistas climáticos, assim como o corporativismo do sindicalismo do “empregos em primeiro lugar”, talvez tenham criado uma divisão mais profunda entre os grupos trabalhistas e ambientais do que em outros países.

No entanto, a greve climática de 20 de setembro promete começar a superar a desconfiança mútua entre sindicatos e grupos ambientalistas. Embora a legislação trabalhista alemã não permita greves políticas de qualquer tipo, as greves climáticas do Sextas Pelo Futuro já ressoaram com sindicatos tanto nas indústrias de manufatura quanto de serviços, e eles estão começando a se mobilizar.

Em junho, o maior sindicato da Alemanha, o IG Metall, organizou uma manifestação para exigir uma transição justa e ecológica. A crise mais ampla da indústria automobilística alemã, concentrada no escândalo sobre a falsificação dos dados sobre emissões pela Volkswagen, tem dado destaque aos males específicos do setor automotivo. Dadas as estreitas relações entre os sindicatos industriais, as empresas alemãs listadas na bolsa de valores DAX e o Estado alemão, essa manifestação poderia representar um passo à frente rumo a uma convergência entre sindicatos e grupos ambientalistas. Esta aliança trabalhista-ambientalista é particularmente necessária, uma vez que as mudanças climáticas, bem como os novos desenvolvimentos tecnológicos, vão forçar as fábricas alemãs de automóveis a mudar para a produção de carros elétricos ou de veículos completamente diferentes.

Participando da organização desse protesto, o IG Metall fretou dez trens e oitocentos ônibus para encher as ruas de Berlim com dezenas de milhares de metalúrgicos. Isso representa um passo significativo para o sindicato e seu envolvimento com a transição verde. Embora nenhum representante do Sextas Pelo Futuro tenha abordado essa manifestação, é impensável que ela pudesse ter acontecido sem as mobilizações contínuas do Sextas Pelo Futuro.

Tem sido mais promissores os desenvolvimentos no setor de transporte, onde o sindicato dos ferroviários, EVG, anunciou a presença de seus membros nas manifestações do Sextas Pelo Futuro, bem como seu apoio aos objetivos do movimento. Isso não deveria ser uma surpresa, dadas as demandas do movimento por um transporte público melhor e mais acessível. O próximo passo seria que essa solidariedade alto-centrada também se traduzisse nos condutores e outros funcionários paralizando os trens na Greve da Terra.

Mas os sindicatos mais rápidos e mais dispostos a vocalizar o seu alinhamento com o florescente movimento pela greve climática são os do setor de serviços. Nesse caso, a relação entre os empregadores, o Estado e os sindicatos não é tão marcado pelo corporativismo, e os trabalhadores não precisam temer na mesma medida pela perda de seus empregos.

Recentemente, Bsirske defendeu que os membros do Ver.di deveriam seguir a convocação de Greta Thunberg e participar da greve de 20 de setembro. A conta do Ver.di no Twitter mostra Bsirske dizendo que “quem puder fazer isso deve ir para as ruas. Eu definitivamente irei.” Luisa Neubauer, uma das mais proeminentes jovens grevistas pelo clima na Alemanha, chamou a convocação de Bsirske de “um passo infinitamente importante”, mostrando que os grevistas climáticos estão notando o poder do trabalho organizado.

O Ver.di não está convocando diretamente seus membros para a greve, mas tem incentivado os membros a tirar um dia de folga coletivamente para apoiar o movimento ou a organizar um “intervalo de almoço ativo” – uma reunião na hora do almoço fora de seus locais de trabalho. Esta poderia ser uma maneira útil de envolver os membros dos sindicatos e outros trabalhadores na luta pelo planeta e, ao mesmo tempo, elevar o perfil da Greve da Terra. Dado que uma petição recente sobre a mudança climática liderada por militantes sindicais reuniu mais de 46.000 assinaturas, parece que os trabalhadores de serviços, tanto no setor público quanto no privado, podem começar a agir.

Ao contrário dos Estados Unidos, onde os professores têm estado na vanguarda das greves e da construção de um sindicalismo como movimento social em estados que proíbem a vinculação automática a um sindicato no momento do emprego, os professores alemães são funcionários públicos e, por isso, não têm o direito à greve. Embora eles não possam deixar as salas de aula, o sindicato da educação GEW tem, no entanto, incentivado que os estudantes o façam. Ilka Hoffmann, membro executivo do sindicato para as escolas, apoiou publicamente a greve, mas também a criticou por não fazer o suficiente para enfatizar as questões da exploração do trabalho e da justiça social que concerne aos trabalhadores. A seção do GEW para a Renânia do Norte-Vestefália também tem defendido de maneira decisiva o fim das represálias contra estudantes que participam em medidas de greve, embora não esteja claro quais formas de ação os educadores estarão adotando na semana da Greve na Terra.

A greve também deve afetar o setor de construção. O maior sindicato de serviços de propriedade e construção da Alemanha, o IG BAU – que coincidentemente tem a palavra “umwelt” (ambiente) em seu nome – tem convocado seus membros em locais de construção para que se juntem à greve climática. Ele exige que a Alemanha reduza suas emissões de CO2 em 40% até 2020.

A lei trabalhista alemã proíbe que os trabalhadores realizem greves políticas. Assim, o IG BAU está pressionando os empregadores para que deem aos seus empregados a oportunidade de participar das manifestações do Sextas Pelo Futuro. Esta jogada inteligente coloca em cheque os empregadores, os forçando a mostrar até onde realmente vai a sua orgulhosa identificação com as iniciativas de “responsabilidade social corporativa” e de “ambiente de trabalho verde”. Tal movimento para pressionar os empregadores a fecharem as portas nesse dia poderia dar à Greve da Terra uma dimensão completamente diferente.

Tornando a transição uma realidade

Se os sindicatos vão abraçar a transição verde em defesa dos interesses dos trabalhadores, eles precisam pensar muito sobre como podem usar seu poder institucional e organizacional no nível dos locais de trabalho e no nível setorial. Afinal, 53% dos trabalhadores e empregados ainda são cobertos por acordos coletivos, o que dá a muitos sindicatos um grande peso e influência na formação do mercado de trabalho.

Aqueles sindicatos que desfrutam de tal posição estratégica poderiam usá-la para exigir a qualificação dos trabalhadores em setores-chave que não têm futuro em uma economia neutra em carbono; para sacralizar novos regulamentos de saúde e segurança que poderiam contribuir para a redução das emissões de carbono; e para forçar os empregadores a mudar a maneira com que os bens são produzidos e que os serviços são fornecidos. Entre outras coisas, os sindicatos poderiam usar seus acordos coletivos para avançar rumo a uma semana de trabalho de quatro dias, o que também reduziria as emissões de CO2.

Apesar de todos esses desenvolvimentos positivos dentro do movimento sindical, a grande mídia alemã continua a enquadrar o diálogo emergente entre o Sextas Pelo Futuro e o movimento sindical em termos binários, como se a defesa dos empregos inevitavelmente agisse contra os interesses planetários mais amplos. É exatamente essa a narrativa que os sindicatos precisam dinamitar.

Até agora, o apoio dos sindicatos alemães ao movimento Sextas Pelo Futuro pode permanecer apenas simbólico – certamente, eles poderiam fazer muito mais para desafiar a economia baseada em carbono na Alemanha. No entanto, sua participação neste 20 de setembro poderia começar a diminuir a distância entre a força de trabalho organizada e os já fortes movimentos ambientais alemães. Isso é mais necessário do que nunca, se quisermos que os trabalhadores não paguem o preço pela transição para uma economia verde.

21 de novembro de 2017

Cartoons e luta de classes

Em 1941, os animadores da Disney abandonaram o trabalho para exigir que o New Deal fosse levado para o Reino Mágico.

Kenneth Bergfeld e Mark Bergfeld

Jacobin

Impressionantes piquetes de animadores em 1941. Coleções de Bob Cowan. 

Tradução / Todo americano cresceu assistindo aos filmes da Disney, mas quantas pessoas ouviram falar da “guerra civil na animação”?

As análises culturais sobre a Disney e seus produtos são comuns, e os efeitos sociológicos de sua dominação multimídia foram discutidos ad infinitum. Mas pouca atenção foi dada à greve dos animadores de 1941 que quase terminou com o “Reino Mágico”. Nunca, antes ou depois, o trabalho por trás dos filmes que moldaram bilhões de infâncias foi tão fortemente iluminado. À medida que as novas lutas dos trabalhadores surgem por toda a indústria do entretenimento, essa história é mais relevante hoje do que nunca.

Trabalhando para Walt


Walt Disney não podia contar com seu próprio talento artístico para construir seu império. Ele era conhecido nem por ser um bom artista nem um bom desenhista. Os Simpsons até o satirizaram por plagiar o Mickey Mouse e o Oswald the Lucky Rabbit de seu criador original, Ub Iwerks.

Seu sucesso, ao invés disso, ativou sua capacidade de transformar o trabalho incrivelmente intensivo do processo de animação. Grandes expansões tecnológicaspermitiram que Disney sincronizasse imagem e som, empurrando a animação para além de seus começos rudimentares. Este avanço trouxe a animação – e com isso, o Reino Mágico – das margens do cinema para o seu mainstream.

Quando Disney fez o Branca de Neve, os animadores ainda desenharam figuras à mão em painéis de celulóide claros, que eram então postos acima de uma ou duas camadas de fundo estático pintadas em papel. Para criar a ilusão do movimento, os animadores tiveram que produzir vinte e quatro imagens por segundo. Para o Branca de Neve, os trabalhadores fizeram 130 mil desenhos de movimento, para não mencionar os painéis de fundo.

Para simplificar esse processo, Disney colocou mais de oitocentos artistas em uma linha de montagem de produção em escala industrial. Seu método para controlar os trabalhadores nesta operação massiva consistiu em táticas psicológicas retiradas de estudos da época. Ele escolheu favoritos, roubou o crédito dos trabalhadores e pagou salários diferentes pelo mesmo emprego. Por exemplo, animadores selecionados recebiam vagas de estacionamento e assentos reservados em testes de exibição internos, enquanto outros tinham que lutar pelos assentos restantes ou ficar longe juntos.

Os salários variavam de US$ 12 a US$ 300 por semana. Se um animador surgisse com uma piada enquanto trabalhava em um curta, eles recebiam um bônus de US$ 3,50.

Walt Disney acreditava que uma empresa eficiente era construída pelo “trabalho em equipe” e pela “voz dos funcionários”. Para difundir o crescente descontentamento entre os animadores, ele lançou a Federação de Cartunistas de Tela da Disney, um sindicato da empresa que ele esperava que iria conter as demandas de seus trabalhadores.

Os animadores atacam de volta


Os animadores fizeram Branca de Neve, Fantasia e Pinóquio ao mesmo tempo. Eles trabalharam longas horas sob pressão extrema, e muitos ficaram sem pagamento por meses. Walt disse que eles iriam receber um pagamento bônus quando Branca de Neve se gerasse lucro – uma promessa vazia, muito familiar entre os trabalhadores criativos hoje. Na medida em que o salário nunca se materializou, provocou um senso de injustiça entre os animadores.

Surpreendentemente, Art Babbitt, animador chefe e presidente do sindicato da empresa, se simpatizou com a força de trabalho com baixos salários. Ele inicialmente ingressou na Federação de Cartunistas de Tela da Disney para lutar contra a corrupta Aliança Internacional dos Funcionários de Estágio Teatral (IATSE), que estava ligada ao crime organizado. Mas Babbitt logo passou a exigir um aumento de dois dólares para incursores.

Mal sabia ele o que o esperava. Babbitt imediatamente teve que enfrentar o advogado de Disney, Gunther Lessing. Numa vida anterior, Lessing colaborou com o revolucionário presidente do México Francisco Madero e defendeu os radicais no tribunal. Agora, trabalhando para Disney, Lessing não deu nem um centímetro aos sindicatos.

Havia também o irmão de Walt, Roy, diretor de finanças da empresa. Ele recorreu a ameaças físicas, dizendo a Babbitt para manter o nariz fora de seus negócios ou então eles iriam “cortá-lo”.

Não demorou muito para que Babbitt percebesse que a Federação de Cartunistas de Tela da Disney foi projetada para impedir que os trabalhadores se envolvessem com o sindicalismo da indústria. Depois que uma das incursoras desmaiou porque não podia comprar o almoço, Babbitt juntou-se à Associação dos Cartunistas de Tela de Herbert Sorrell, um local do Sindicato de Pintores e Decoradores.

Naquele momento, Herbert Sorrell já havia experienciado uma quantidade tremenda de lutas. Com doze anos de idade, ele se juntou a uma planta de canalização de esgoto de Oakland, onde colegas de trabalho rotineiramente batiam nele. Isso terminou quando ele decidiu derrubar um deles sobre a cabeça com uma pá. Após a Primeira Guerra Mundial, ele se tornou um pugilista profissional premiado e depois se mudou para Los Angeles para trabalhar como pintor nos estúdios. Depois que ele foi demitido da Universal por ser membro do sindicato, ele canalizou sua energia para o ativismo trabalhista.

Disney foi o jogador-chave da indústria. Sua loja estabeleceria os salários e as condições para todos os estúdios de animação. Sorrell estava empenhado em transformar o Reino Mágico em uma “tigela de poeira” se a empresa não cedesse.

O dragão relutante


A disputa estava fervilhando durante um tempo quando, em fevereiro de 1941, Walt Disney chamou seus trabalhadores juntos para abordar “a verdadeira crise que estamos enfrentando”. No estilo das reuniões de audiência cativa de hoje, ele explicou como havia lutado contra os preconceitos e estabelecido o desenho animado como uma forma de arte. Ele regalou seus trabalhadores mal pagos com histórias dos anos de fome, dívidas e hipotecas. O discurso falhou. Em 10 de maio de 1941, o artigo da Nation afirmou: “Este discurso recrutou mais membros para a Associação dos Cartunistas de Tela do que um ano de campanha”.

Cada movimento que Disney fazia exacerbava o descontentamento dos trabalhadores. Em um ponto, foi registrado que ele teria dito: “Se vocês firmarem com o sindicato. . . Eu vou. . . Eu nunca vou deixar vocês nadarem na minha piscina novamente!”. Ao qual Al Dempster, um animador chefe, respondeu: “Walt, nadar na sua piscina não alimenta meus filhos nem paga meu aluguel!”.

O sindicato reuniu 400 cartões sindicais de 560 trabalhadores elegíveis. Entre eles, o avô paterno de Naomi Klein, que trabalhava na Disney como ilustrador e acabaria por acampar fora do estúdio de L.A. por vários meses. Após negociações mal sucedidas, a equipe votou por uma greve indefinida a partir de 26 de maio.

Walt Disney permaneceu intransigente e até mesmo demitiu Babbitt e outros animadores chefes em retaliação. À medida que a greve estava prestes a começar, Disney apelou ao Conselho Nacional de Relações Trabalhistas (NLRB) para reconhecer o sindicato da empresa visto que os trabalhadores “são livres para participar do que [eles] desejam”.

Disney esperava que o NLRB levasse sua estatura em conta, governasse a seu favor e entregasse o direito à negociação coletiva para o sindicato preferido da empresa. Mas para o desânimo de Walt, a greve começou como planejado, e a Associação dos Cartunistas de Tela trouxe 550 trabalhadores para as linhas de piquete.

Disney respondeu com uma campanha de intimidação. Ele contratou fotógrafos para documentar os trabalhadores em greve. Pior ainda, ele demitiu dezenove funcionários, e rumores circulavam que haveria mais duzentos.
Uma mãozinha

Os grevistas escolheram combinar a escalação e começaram a bloquear os caminhões de entrar no estúdio.

Mas o músculo industrial não seria suficiente. Esta era uma luta pelo futuro da indústria, e ambos os lados sabiam disso. Como em outras disputas trabalhistas, o poder da greve tinha que ser expandido tanto horizontalmente para a comunidade quanto verticalmente no modelo comercial da empresa.

Os trabalhadores distribuíram panfletos nos cinemas exigindo que os gerentes dos teatros e o público boicotassem os filmes de Disney. Eles também apelaram para o resto do movimento trabalhista por doações de alimentos para que pudessem permanecer em greve.

Verticalmente, eles fizeram pressão nos fornecedores. Em meados de julho, os trabalhadores convenceram a Technicolor de boicotar a Disney, parando a entrada de filmes no estúdio e de serem processados no caminho de saída. Williams e British Pathé – duas outras empresas – também suspenderam o processamento de filmes da Disney.

Em 5 de julho, o NLRB reconheceu oficialmente a greve e enviou um conciliador para arbitrar entre os sindicatos e a Disney. Nove sindicatos da AFL voltaram a trabalhar, mas mesmo isso não conseguiu parar os animadores. O advogado de Disney, Lessing, enviou um telegrama para Washington culpando os comunistas pela parada do trabalho em curso.

Rachaduras começaram a aparecer no edifício da greve. Escrevendo em nome “daqueles que voltaram a trabalhar”, o animador R.F. Fredericks argumentou que ser anti-sindicalista era “o American way” e que quaisquer diferenças com a empresa deveriam ser tratadas dentro da organização e não através de um agente externo.

Essa tática de chefe comumente usada iguala as demandas dos trabalhadores com uma força externa, permitindo ao empregador recuperar a hegemonia através das palavras da maioria silenciosa do local de trabalho.

O New Deal finalmente havia chegado ao Reino Mágico.

Derrota ou vitória?


No entanto, as divisões entre ex-grevistas e as cicatrizes foram profundas, e Walt Disney não perdoou aqueles que se rebelaram. É por isso que Tom Sito chama a greve de “Guerra Civil na Animação” em seu livro Drawing the Line: The Untold Story of the Animation Unions de Bosko to Bart Simpson. Em novembro de 1941, Disney demitiu mais trabalhadores, sublinhando sua posição intransigente.

Apesar do recuo anterior no NLRB, Walt aprendeu a usar a mudança de clima político e o macartismo para desencorajar a organização dos trabalhadores em seu crescente império. Em várias ocasiões, ele prestou declarações na Casa das Atividades Não-Americanas, denunciando os participantes da greve e os sindicatos como comunistas e acusando-os de ter laços com a União Soviética.

Graças ao seu testemunho, muitos animadores e escritores enfrentaram o desemprego, a lista negra, a perseguição política e o estigma social, incluindo o proeminente roteirista e vencedor do Oscar, Dalton Trumbo.

Podemos rastrear as atuais relações trabalhistas, o fracasso dos sindicatos e as atividades de prevenção na Disney voltando à greve. A estratégia de recursos humanos de Disney é o antepassado direto das relações de trabalho contemporâneas, em que as queixas são individualizadas e os custos são externalizados para os trabalhadores.

Com a inovação tecnológica, as estratégias de evasão sindical tornaram-se comuns em toda a indústria da animação. Por exemplo, a empresa de produção Titmouse, Inc., responsável pela próxima série da Disney, Motorcity, recentemente dividiu-se em duas empresas separadas. A segunda entidade pode subcontratar trabalho para lojas não-sindicalizadas onde os salários são muito menores.

Artistas subcontratados ganharão apenas quatrocentos dólares por semana, a taxa de salário mais baixa (ajustada pela inflação) já obtida por um artista americano trabalhando em uma produção de animação da Disney. Seus colegas do sindicato ganham quase três vezes mais.

Enquanto isso, a administração continua a intimidar os animadores. Os produtores de Robot Chicken afirmam que a sindicalização aumentaria os custos de produção em 20 a 25%, o que potencialmente levaria ao cancelamento do show. O co-criador de Rick e Morty, Justin Roiland, foi mais explícito quando declarou “foda-se o sindicato” depois que seus animadores e artistas se juntaram à Associação de Animação em 2014.

Em 1931, Walter Benjamin notou de maneira precisa: “Relações de propriedade no filme de Mickey Mouse; aqui, pela primeira vez, o próprio braço de alguém, de fato, o próprio corpo de alguém pode ser roubado”.

Isto aplica-se não só ao público de massa colado em seus assentos, mas também aos trabalhadores que produzem esses filmes.

15 de junho de 2015

O despertar da Alemanha

Modelo econômico da Alemanha não cumpriu suas promessas de justiça social. Será que a recente onda de greves representa uma ameaça à "parceria social"?

Mark Bergfeld


Painéis de informação vazios em Colônia, Alemanha, durante uma greve ferroviária no mês passado. Martin Meissner / AP

Tradução / Ao longo das últimas semanas, os sites de agências de notícias alemãs vêm publicando manchetes sensacionalistas como "Willkommen, Streikrepublik Deutschland" [Bem-vinda, República alemã da greve]. O Süddeutsche Zeitung, o maior jornal diário da Alemanha, noticiou na capa o aumento vertiginoso na adesão sindical no país. E o The Guardian de Londres fez questão de publicar um artigo do famoso sociólogo alemão Wolfgang Streeck intitulado "The strikes sweeping Germany are here to stay" [As greves que varrem a Alemanha vieram para ficar].

Mas o que exatamente está acontecendo na Alemanha?

Em resumo, trata-se da maior onda de greves em décadas: apenas este ano, mais de 350.000 dias de trabalho foram perdidos em greves. Esse número foi de apenas 156.000 em todo o ano passado; em 2010, foram 28.000 dias.

Pilotos de avião, condutores de trem, trabalhadores dos correios, professores de pré-escola e enfermeiros, apenas para citar alguns, fizeram greve ou fazem neste momento. O movimento representa a maior ameaça ao modelo econômico alemão desde os protestos contra as reformas Hartz IV – que liberalizaram os mercados de trabalho – mais de dez anos atrás.

Durante gerações, os sindicatos alemães não se destacaram exatamente por sua militância. Entre o fim dos anos 1960 e o início dos anos 1970, enquanto o Reino Unido, a Itália e a França foram palco de ferozes conflitos industriais, a Alemanha viveu relativa calma. No modelo corporativista e de "parceria social" alemão, o destino dos trabalhadores estava claramente ligado à economia de exportação do país, e os sindicatos subordinavam seus interesses aos da empresa.

Por algumas razões, o modelo tem funcionado na Alemanha. A taxa de produtividade do país é muito alta, e os produtos para exportação mantêm-se relativamente baratos no exterior. Trabalhadores têm garantidos alguns direitos democráticos através da política de co-determinação, o que lhes permite eleger representantes para os conselhos de trabalhadores das empresas. E a taxa de sindicalização continua muito mais alta do que nos Estados Unidos, por exemplo.

No entanto, o modelo tem se sustentado às custas de arrocho salarial e diminuição das condições de segurança no trabalho. Enquanto muitos liberais americanos alardeiam que o modelo alemão, com sua falta de entraves, representa um sucesso, há um importante setor da população com baixos salários. Entre 1998 e 2008, o número de trabalhadores com contrato de tempo integral diminuiu em 800.000, enquanto o número de trabalhadores com empregos precários aumentou em 2,4 milhões. Em 2012, trabalhadores "atípicos" correspondiam a 21,2% da força de trabalho alemã. Hoje, mais de 2,6 milhões de pessoas têm dois empregos.

A adesão sindical se estabilizou, e o número de delegados sindicais nos locais de trabalho continua a diminuir. Apenas 58% da força de trabalho alemã são cobertas por um contrato coletivo de trabalho. Para piorar, o parlamento acaba de aprovar uma lei que visa a restringir o direito de organização e de greve.

Trata-se de um ataque direto a um dos principais grupos envolvidos na onda de greves: o sindicato dos condutores de trens, cuja greve de 34.000 membros demonstrou o poder do grupo de trabalhadores pequeno mas estruturalmente forte. Suas paralisações afetaram mais de seis milhões de passageiros e impediram a circulação de mais de 600 mil toneladas de matérias-primas e bens por dia. Cada dia de greve custou à empresa ferroviária cerca de 10 milhões de euros, e o prejuízo de cada dia de greve para a economia alemã foi de aproximadamente 100 milhões de euros.

Desde a privatização parcial da empresa ferroviária, os condutores de trem alemães recebem salários menores que os de seus homólogos europeus. Mesmo que suas reivindicações por um aumento salarial de 5%, pela redução da jornada de trabalho, melhores condições de trabalho, e pelo direito de representar outras categorias do transporte ferroviário fossem absolutamente razoáveis, foram recebidas com total hostilidade por políticos e pela imprensa (com algumas louváveis exceções), e até mesmo por setores do movimento sindical. (O fato de o sindicato dos condutores de trem não ser o sindicato oficial na confederação sindical tornou-os, junto com o líder Klaus Weselsky, um alvo fácil).

Enquanto os condutores de trem lutam por uma fatia maior do bolo, os trabalhadores hospitalares da Charité, em Berlim, querem assumir o controle da confeitaria.

No mês passado, os trabalhadores da Charité lideraram a maior greve hospitalar na história alemã quando fizeram uma paralização de apenas dois dias. Eles não pediam mais dinheiro. Reivindicam equipes de saúde maiores por paciente, ao contrário da situação de sobrecarga atual.

Além disso, a greve retomou ações anteriores, já conduzidas pelo pessoal administrativo e de manutenção, entre outros. Trabalhadores da saúde têm sofrido o impacto da reestruturação neoliberal dos hospitais, e é nesta base que vêm construindo alianças bem sucedidas com grupos de pacientes, médicos, estudantes, iniciativas cidadãs e com o partido de esquerda Die Linke.

Professores da educação infantil exigem reconhecimento social do seu trabalho, e um aumento de 10% a 15%. As reivindicações geraram um debate público sobre como deveria ser a educação na primeira infância, e por que as desigualdades nos salários persistem: por que um homem qualificado ganha mais do que uma professora? E, se as elites políticas, assim como a chanceler Angela Merkel, reconhecem a importância da educação na primeira infância, por que os educadores não recebem remuneração adequada? Os professores de pré-escola não brincam com as crianças apenas, como muitas vezes se imagina. Seu trabalho é educativo.

A greve também questiona a política de austeridade fiscal Schwarze Null (Déficit zero), implementada pelo ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble e por Merkel. A meta do governo de evitar a todo o custo a dívida foi alcançada a um preço enorme. Cidades alemãs foram à falência, escolas estão caindo aos pedaços, e muitas pontes correm o risco de desabar.

Se os trabalhadores ganharem, esse modelo é que pode desabar. Municípios alemães teriam que pagar salários decentes aos seus trabalhadores pelos serviços prestados, e os trabalhadores poderiam, por sua vez, exercer pressão por serviços melhores e mais bem financiados. Mas com um processo de arbitragem – como ocorreu com os professores pré-escolares, no auge de sua greve – essa hipótese torna-se improvável.

É este desdobramento que deve nos fazer parar e pensar antes de tirar conclusões exuberantes sobre a agitação dos trabalhadores na Alemanha. Muitas oportunidades foram perdidas, e têm sido feitas demasiadas concessões nos últimos anos para imaginar uma guinada de 180 graus. Afinal, neste país, um funcionário sindical da IG Metall foi alçado à administração da Volkswagen, enquanto acionistas e proprietários discutem as estratégias.

O recurso à arbitragem, mesmo quando os envolvidos tinham o apoio dos pais e do público, parece confirmar a suspeita de que os sindicatos alemães continuam a apoiar o modelo de co-determinação, cujas promessas de justiça social têm sido questionadas. Hoje, a Alemanha é uma das sociedades mais desiguais da Europa. O crescimento econômico tem cobrado um preço humano e ambiental cada vez maior.

Até agora, as greves foram convocadas por grupos bem organizados de trabalhadores com longa tradição sindical. O setor com os mais baixos salários, por outro lado, tem se mantido à margem do movimento. Se as paralisações se espalharem, os trabalhadores em greve precisam arrancar ganhos dos patrões, para mostrar que travar a produção também é um método eficaz no contexto alemão – em vez de acreditar que a parceria social vai dar conta das contradições.

Este movimento pode ser o início de algo real se os trabalhadores ousarem romper a lógica que há muito domina a política sindical oficial na Alemanha. Afinal de contas, houve um tempo em que a língua oficial do movimento operário era o alemão.

Colaborador

Mark Bergfeld é o Diretor de Serviços de Propriedade e UNICARE na UNI Global Union - Europa.

22 de maio de 2014

A próxima Revolução Portuguesa

No quadragésimo aniversário da Revolução dos Cravos, as elites portuguesas querem usar seu legado para justificar a austeridade.

Mark Bergfeld

Jacobin


O cartaz para as celebrações oficiais da Revolução Portuguesa deste ano apresenta um grande ponto de interrogação sobre um fundo vermelho. É um símbolo adequado para um evento aberto a muitas interpretações. Portugal está novamente em uma encruzilhada? Ou o legado revolucionário foi cooptado de uma vez por todas? O cartaz destaca os negócios inacabados da revolução ou questiona os ganhos mais amplos que ela obteve?

A Revolução Portuguesa de 1974-5, também conhecida como Revolução dos Cravos, foi o tópico mais quente da esquerda pós-1968. Na época, milhares de revolucionários internacionais viajaram para Portugal para ter um vislumbre de como o poder popular e a democracia real poderiam ser. Aos seus olhos, o processo revolucionário em Portugal representava uma alternativa tanto ao capitalismo ocidental quanto ao modelo soviético. Como grande parte da esquerda associada a 1968 e depois, a memória desses anos tumultuados desapareceu em grande parte no esquecimento no exterior.

No entanto, em Portugal, a revolução continua sendo um ponto de referência para atores de ambos os lados da batalha pela austeridade. Enquanto o ex-líder estudantil maoísta e atual presidente da Comissão Europeia Manuel Barrosso é um proeminente apoiador da “refundação do estado português”, que busca destruir os últimos vestígios da revolução, uma nova geração de ativistas associados a grupos como Que Se Lixe a Troika (Dane-se a Troika), ou uma organização precária de trabalhadores, continua a cantar a canção Grandola Vila Morena de Zeca Afonso em piquetes e comícios.

A canção sinalizou o início do golpe de estado liderado por oficiais militares de esquerda do Movimento das Forças Armadas (MFA), que inicialmente tomaram a estação de rádio pública em 25 de abril de 1974, foi cantada em uníssono nas celebrações oficiais deste ano. Sob o manto da unidade, guerras amargas têm sido travadas sobre a natureza de 1974-5, a submissão ansiosa do governo à agenda de austeridade da Troika e se a nova esquerda portuguesa está preparada para a tarefa de fornecer a um povo devastado pelo capitalismo uma alternativa viável a ele.

Talvez as notícias de maio de 1968 — uma greve geral na França, a ofensiva do Vietcong, as revoltas nos guetos dos EUA — tenham chegado às franjas da Península Ibérica com um pouco de atraso. Na época, Portugal era o país mais pobre da Europa Ocidental. Sua economia dependia fortemente de importações de matérias-primas de suas colônias africanas. Ela as fabricava em casa para exportar. Baixos níveis de consumo e devastação econômica criaram um barril de pólvora em um país que era governado por um regime fascista, um resquício do passado da Europa.

Os militares estavam lutando uma guerra colonial de treze anos em Moçambique que havia exaurido os soldados recrutas e paralisado o crescimento econômico em casa. Em 1973, quando o mundo ainda estava em chamas, a agitação socialista e comunista era generalizada nas fileiras militares. Para o Partido Comunista (PCP), que operava em condições clandestinas desde o fim da Segunda Guerra Mundial, as circunstâncias mudaram repentinamente quando a luta de classes doméstica começou a alcançar sua agitação. Mais de 100.000 dias úteis foram perdidos para a ação industrial apenas entre outubro de 1973 e abril de 1974.

Quando os militares sinalizaram a derrubada do regime fascista de Salazar tocando a música de Afonso Zeca, os medos do povo instilados por décadas de ditadura foram vencidos. Para surpresa do próprio MFA, as classes populares desobedeceram às suas ordens de ficar em casa. Armados com cravos vermelhos, o povo de Lisboa desencadeou uma onda de apoio popular aos soldados que os enfiaram nos canos de suas armas, transformando a flor no símbolo de uma revolução popular.

Hoje, os revisionistas de direita argumentam que o regime estava se abrindo para a ideia de democracia e integração europeia em qualquer caso, e que a revolução simplesmente prolongou o processo. As ações insurrecionais contra o regime muito odiado contam outra história. No primeiro dia, o povo ocupou o quartel-general da polícia secreta de Salazar, a PIDE.

Antes conhecida como um dos serviços secretos mais eficazes do mundo, a PIDE era tão desprezada que trabalhadores e soldados rasos do MFA perseguiram agentes secretos na vizinha Espanha ou na clandestinidade durante o curso da revolução. Em um processo que veio a ser conhecido como saneamento, chefes, donos de fábricas, gerências intermediárias e diretores de escolas que haviam colaborado com o regime de Salazar foram forçados a deixar seus cargos por mandato popular.

Ao longo dos próximos dezenove meses, Portugal se tornaria um laboratório de democracia popular e autogestão. As pessoas ocuparam prédios vazios e os transformaram em casas. Eles criaram conselhos de trabalhadores, cooperativas e clínicas gratuitas. Jornais e estações de rádio ficaram sob controle democrático direto. No campo, os trabalhadores ajudaram os camponeses a arar a terra. As crianças ensinaram os adultos a ler.

O povo português não esperou que o governo provisório ratificasse a liberdade de reunião no parlamento, mas a estabeleceu por meio de suas manifestações diárias. As demandas políticas se espalharam para as econômicas. As pessoas conquistaram o direito de se organizar em sindicatos, o salário mínimo, férias e auxílio-doença.

Ao longo de um ano e meio, os insurgentes conseguiram repelir duas tentativas de golpe e destronar seis governos provisórios. Parecia que nada poderia parar a maré revolucionária.

No entanto, o recém-fundado Partido Socialista — criado entre outros pelo Partido Social-Democrata Alemão — e oficiais militares de alta patente estavam ansiosos para retornar aos negócios como de costume. Eles queriam ver Portugal integrado à Europa, enquanto o Partido Comunista aderiu a uma "teoria etapista" que teria consequências políticas catastróficas. Nessa visão, Portugal teria primeiro que passar por uma revolução democrática antes de atender às condições necessárias para a derrubada do capitalismo e o estabelecimento do socialismo.

Assim, quando setores moderados e de direita das forças armadas finalmente recuperaram o controle em 25 de novembro de 1975, o Partido Comunista (PCP) — de longe a maior organização do país — não conseguiu apoiar um grupo de soldados rebeldes que continuaram a ocupar um quartel nos arredores de Lisboa. Isso marcaria o fim preliminar das mobilizações revolucionárias e a chance de uma alternativa revolucionária emergir no país.

O golpe apoiado pela CIA contra Salvador Allende e o governo da Unidade Popular no Chile, o compromisso histórico do Partido Comunista Italiano (PCI), o estabelecimento da democracia liberal na Grécia pós-junta e a transição pacífica subsequente após Franco na Espanha contribuíram para o sentimento de que as revoluções eram consideradas um fracasso. Mas a turbulência revolucionária em Portugal moldaria o país nos anos seguintes.

A Revolução dos Cravos ajudou a estabelecer o estado de bem-estar social português como parte do acordo pós-revolucionário. As mulheres tinham o direito de escolher e podiam se divorciar de seus maridos. Assistência médica gratuita, educação pública e outros serviços tornaram-se senso comum entre todos os partidos políticos. Enquanto outros países europeus receberam seu primeiro gostinho do neoliberalismo no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, Portugal estava se movendo na direção oposta.

Por um tempo, o país permaneceu instável com mudanças frequentes de governo. Neste período, o processo de europeização e integração de Portugal na CEE/UE também saudou um novo conjunto de políticas associadas ao Consenso de Washington. As fraturas no topo da sociedade deslocaram as mobilizações de massa até que as manifestações estudantis militantes em 1992 desempenharam um papel tremendo na derrubada do governo Cavaco, o primeiro governo com maioria absoluta desde a queda da ditadura.

Com a dívida do Estado português a ascender a 209 mil milhões de euros, ou o equivalente a 126,3% do Produto Interno Bruto, o pesado pacote de resgate de 78 mil milhões de euros em 2011 colocaria Portugal à mercê dos detentores de obrigações e tubarões financeiros. O economista e membro líder do Bloco de Esquerda Francisco Louca disse-me numa entrevista: "Uma economia com um défice de três por cento não pode pagar uma taxa de juro de quatro por cento. Se a dívida cria dívida, o cancelamento é a única solução possível."

No entanto, o cancelamento da dívida não estava na agenda. Em vez disso, a coligação governante — composta pelos Social-democratas (PSD, um partido de direita apesar do seu nome) e pelos Conservadores (CDS) — cortou os salários dos funcionários públicos em mais de 1500 euros, ou 10%; aqueles que ganhavam mais de 1000 euros tiveram o seu subsídio de férias eliminado e mais de 600 000 empregos no setor público — cerca de quatro em cada cinco trabalhadores do setor público em todo o país — ficaram sob severo escrutínio.

De acordo com os números do Eurostat, 24% da população portuguesa vive agora abaixo da linha da pobreza. No orçamento para 2013, a coligação governante exigiu € 3,5 bilhões em cortes adicionais em assistência médica, previdência social e educação. Isso não só mergulharia Portugal ainda mais fundo na crise, mas também destruiria os últimos ganhos da revolução.

O processo de europeização em Portugal que começou com a revolução tomou um rumo perverso nos últimos anos. À medida que o governo se comprometeu a vender € 5 milhões em ativos estatais, empresas alemãs e francesas fizeram questão de abocanhar ações de empresas estatais lucrativas por uma fração de seu valor original.

Em dezembro de 2012, o governo vendeu suas ações da lucrativa provedora de aeroportos ANA para a empresa francesa VINCI por um preço de banana. Mais recentemente, a gigante francesa de call center Teleperformance venceu a licitação do governo recentemente para a Saude 24 (Health 24), um serviço de telemedicina.

Os novos donos da “Saúde 24” imediatamente embarcaram na reestruturação do serviço vital. No entanto, mais de 400 trabalhadores em dois call centers fizeram greve não oficial por falta de contratos de trabalho adequados (“falsos recibos verdes”). Quando falei com Tiago, um enfermeiro com nove anos de experiência de trabalho em salas de emergência, ele me disse “a corda está em volta do nosso pescoço, mas continuamos firmes”.

É esse sentimento de necessidade e desesperança diante da Troika que quebrou o silêncio em Portugal mais uma vez. No final de 2012 e início de 2013, Portugal testemunhou as maiores mobilizações desde a queda da ditadura de Salazar.

Em 15 de setembro de 2012, a coalizão Que Se Lixe A Troika (Dane-se a Troika) mobilizou mais de um milhão de pessoas para as ruas. Esta manifestação foi seguida por uma greve geral convocada pela principal confederação sindical dominada pelos comunistas, a CGTP, em 14 de novembro de 2012. Na manifestação principal em Lisboa, os trabalhadores portuários se envolveram em confrontos com a polícia em frente ao edifício do parlamento.

Em 2 de março de 2013, a Screw the Troika Coalition mais uma vez convocou assembleias democráticas para censurar o governo. Em um país de dez milhões de habitantes, estima-se que mais de 1,5 milhão de pessoas participaram dos protestos em oitenta cidades.

Em 2013, os professores entraram em greve durante o período de exames. A greve durou mais de três semanas e teve como objetivo impedir o último pacote de austeridade que imporia cortes drásticos na educação pública, aumentaria suas horas de trabalho e elevaria a idade da aposentadoria.

Catarina Principe, uma ativista do Bloco de Esquerda que agora vive na Alemanha, escreveu na época: "Durante esta greve, professores de todo o país construíram redes de solidariedade para apoiá-los. Os sindicatos nacionais, é claro, mobilizaram uma grande infraestrutura para manter a greve, mas... muitas dessas ações de solidariedade foram propostas e colocadas em prática por professores de base em suas escolas.”

Em todas essas manifestações, foram particularmente os mais jovens que entoaram “Grândola Vila Morena” de Zeca Afonso. A canção revolucionária de Zeca atua como elo entre lutas díspares contra a austeridade, estendendo a memória coletiva da revolução a uma nova geração de ativistas que não têm as mesmas estruturas políticas, partidos e instituições de poder dos trabalhadores como durante o auge da revolução.

Estudantes da Universidade ISCTE em Lisboa, por exemplo, chegaram às manchetes quando cantaram o hino revolucionário no vice-primeiro-ministro Miguel Relvas diante de câmeras de televisão em movimento e forçaram Relvas a fugir do prédio. Parece que o novo movimento pretende voltar ao velho negócio inacabado do saneamento.

Os militares também levantaram a cabeça novamente. Em 6 de novembro de 2012, mais de 5.000 policiais locais marcharam contra os planos do governo de impedir a aposentadoria antecipada e acabar com o transporte público e a assistência médica gratuitos para policiais. Poucos dias depois, em 10 de novembro, 10.000 membros ativos e aposentados do exército em trajes civis marcharam contra a austeridade por Lisboa. Houve uma série de manifestações desde então.

Alguns oficiais reclamaram que seus salários foram cortados em até 25%. Uma faixa dizia: "Os militares estão infelizes, o povo está infeliz", lembrando a muitos do papel que os oficiais radicais desempenharam na Revolução de 1974-5, um membro do exército continuou dizendo: "Faremos tudo para que a indignação do povo não seja suprimida".

Durante a greve geral de novembro de 2012, falei com trabalhadores de saneamento, motoristas de metrô, professores, funcionários dos correios — todos os quais compararam a situação aos anos revolucionários. Paolo, um funcionário dos correios, disse: "Não vejo nada parecido desde a revolução, quando eu tinha três anos. Esta é uma luta dos trabalhadores contra os capitalistas. Precisamos que o mesmo aconteça aqui como na Grécia e na Espanha."

Francisco Louca, que foi um ativista durante a revolução e foi preso por um protesto contra a guerra colonial em dezembro de 1972, foi mais cético: "Os jovens de hoje cantam Grandola, Vila Morena, a canção maravilhosa e significativa usada como sinal de rádio para a operação militar em abril de 1974. Uma geração depois, as pessoas se reapropriaram dos símbolos da revolução. Mas novos modos de política exigem diferentes representações visuais."

Isso representa um problema único para um movimento em sua infância. Em uma época em que a possibilidade de revolução foi amplamente apagada da história, a memória de revoluções passadas pode se reduzir a mera nostalgia. Mas uma nova geração de ativistas parece estar usando isso para enraizar suas organizações em uma linhagem de resistência em Portugal.

Se eles terão sucesso dependerá se eles conseguirão ir além da mera coreografia de protestos e enraizar suas organizações nos bairros populares de Bela Vista e Sétubal, onde mais de cinquenta por cento da população vive abaixo da linha da pobreza.

Enquanto a organização local permanece irregular e as redes de base frequentemente ausentes, os protestos conseguiram criar fraturas profundas no governo, culminando em uma crise para o regime.

No início de abril de 2013, o Tribunal Constitucional de Portugal, que é dominado pelos sociais-democratas, proibiu quatro das nove medidas de austeridade contestadas. Poucos meses depois, um membro sênior do gabinete de Portugal, Miguel Relvas, renunciou. No início de julho de 2013, a crise sairia do controle quando o Ministro das Finanças Vitor Gaspar foi substituído pela Secretária do Tesouro Maria Luís Albuquerque, que havia sido sua assistente-chefe.

Como consequência, outros membros importantes do gabinete ameaçariam renunciar. O governo estava à beira do colapso à medida que as coisas pioravam: o mercado de ações português sofreu sua maior queda desde 1998 e as taxas de juros dos títulos do governo subiram de 3% para 8%. O ex-maoísta Manuel Barroso foi rápido em afirmar o óbvio: "Os mercados ensinaram ao povo português uma lição importante!"

Embora não esteja exatamente claro qual foi a lição do mercado, João Camargo, um ativista do Precários Inflexíveis, deu a seguinte interpretação: "Eles [os mercados] são aqueles que podem escolher quando um governo cai, ou quando você pode ter uma eleição. A Realpolitik foi ontem. Na era da Troika, você tem 'Theaterpolitik', onde as classes populares são aparentemente relegadas a espectadores."

Mas Camargo esquece que o povo português participou pela primeira vez da revolução de 1974-5 como espectadores tentando descobrir exatamente o que estava acontecendo. Em menos de um dia, eles se tornaram participantes ativos de um movimento revolucionário que mudaria dramaticamente seu país nas décadas seguintes.

Embora muitas das conquistas dessa revolução tenham sido corroídas, o poeta Ary dos Santos nos lembra que “ninguém jamais fechará as portas que abril abriu”.

Colaborador

Mark Bergfeld é o Diretor de Serviços de Propriedade e UNICARE na UNI Global Union - Europa.

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