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20 de fevereiro de 2021

Provável próximo presidente do Equador, Andrés Arauz, fala com a Jacobin

Uma entrevista com Andrés Arauz sobre sua surpreendente jornada à beira do poder estatal, o que seu aliado Rafael Correa realizou no Equador e como ele planeja ganhar as eleições de abril, reconstruir seu partido e aprofundar a Revolução Cidadã.

Uma entrevista com
Andrés Arauz

Entrevistado por
Bhaskar Sunkara


Nesta terça-feira, o candidato presidencial equatoriano Andrés Arauz conversou com Bhaskar Sunkara da Jacobin sobre sua visão de mundo, como ele planeja ganhar o segundo turno e unir seu país, e o que podemos esperar de sua presidência.

Tradução / Andrés Arauz não age como alguém que está muito próximo do poder – no bom sentido. Depois de passar um tempo com o candidato da esquerda no segundo turno das eleições do Equador em Nova York, fiquei impressionado com a humildade de Arauz nas interações com a equipe dele, ativistas e mesmo com estranhos.

A imprensa internacional quer que acreditemos que Arauz é uma figura perigosa, um peão do feroz populista Rafael Correa, comprometido com uma retórica polarizante e com políticas desestabilizadoras. Em vez disso, o que encontrei em minhas discussões foi uma figura humilde, um progressista ideologicamente comprometido, mas também um pensador com nuances, orgulhoso de sua perspicácia tecnocrática e experiência como economista.

Pelo comportamento calmo de Arauz, ninguém suspeitaria da tempestade que se forma ao seu redor. As teorias da conspiração sobre sua conexão implausível com o Exército de Libertação Nacional da Colômbia (ELN) estão crescendo, a contrapropaganda está sendo espalhada sobre seus planos para o Equador e a quem ele responderá. Arauz, que acabou de fazer 36 anos e era desconhecido até alguns meses atrás, chegou ao segundo turno, que será disputado dia 11 de abril.

No começo de fevereiro, ele ganhou cerca de um terço dos votos válidos com uma vantagem significativa sobre seus rivais, mas isso não foi suficiente para evitar um segundo turno. Depois de uma recontagem tensa, ele passou ao segundo turno contra o banqueiro Guillermo Lasso.

Nenhum dos presidenciáveis deseja, no entanto, se associar ao atual líder do país, Lenín Moreno. Depois de ser eleito com o apoio de Correa em 2017, ele deu início a uma guinada para a direita, adotando medidas de austeridade e perseguiu os principais líderes da Revolução Cidadã no país.

Como resultado, figuras proeminentes como Rafael Correa e Jorge Glas não puderam participar da disputa deste ano. De fato, o Movimento da Revolução Cidadã enfrentou medidas extraordinárias ao tentar se registrar como um partido e montar uma chapa. Com sua liderança existente perseguida, um estranho, Arauz, foi a melhor escolha para montar uma campanha que visasse desfazer as ações de Moreno e pudesse aprofundar as conquistas do governo Correa (2007-2017).

Apesar das controvérsias e críticas sobre os projetos de mineração e os confrontos com o movimento indígena organizado, sob o governo popular de Rafael Correa o salário mínimo dobrou no país, os gastos com educação e saúde dispararam e o crescimento do PIB ultrapassou as médias regionais. É um período ao qual muitos gostariam de voltar.

Hoje, a Covid-19 ceifou milhares de vidas, o desemprego disparou, a infraestrutura de saúde foi danificada e um programa de austeridade do FMI ameaça mergulhar o país em uma recessão ainda mais profunda.

Andrés Arauz estava na casa dos 20 anos quando serviu no Banco Central de Correa e mais tarde como ministro. A seguir, ele explica um pouco de sua visão de mundo, como planeja vencer o segundo turno e unir seu país e também, o que podemos esperar de sua presidência.

BKS

Vamos começar com sua trajetória. O que o atraiu para a economia e qual é a tradição econômica que mais o influenciou?

Andrés Arauz 

Tudo começou quando eu era muito jovem. Minha avó me ensinou matemática jogando cartas e também ensinou um importante sistema de valores éticos – ela me transmitiu uma visão de mundo igualitário e moral.

Aí, quando continuei meus estudos, a economia se encaixou naturalmente. Eu tinha as habilidades quantitativas para me destacar na disciplina, mas, ao contrário de muitos de meus colegas da área, também me dedicava à causa da justiça social.

No início, fui mais atraído pela economia desenvolvimentista, tentando entender principalmente o papel das instituições na formação de uma economia. Eu estava estudando economia política, no sentido de que estava preocupado com a distribuição de poder dentro da economia, não apenas de renda.

No Equador, conheci melhor o que chamamos de economia social e solidária – fiquei muito intrigado com os modelos alternativos de organização econômica, tanto no nível micro quanto no macro. E então, trabalhando no banco central do país, eu estava realmente obcecado pela economia monetária na tradição pós-keynesiana.

Podemos dizer que me baseio nas tradições pós-keynesianas e desenvolvimentistas, fundindo-as com percepções de experimentos da economia solidária.

BKS

O governo Rafael Correa era obviamente progressista e redistribuicionista, mas parecia enfatizar uma estabilidade macroeconômica. Com essa ênfase, qual será sua resposta aos mesmos problemas que os governos de centro-esquerda anteriores enfrentaram?

Andrés Arauz 

Nossa referência principal foi o próprio Equador – a experiência de desenvolvimento em três períodos de nossa história. Tem Eloy Alfaro [líder da Revolução Liberal de 1895], que usou a infraestrutura para realmente criar um projeto nacional… Seguimos esse molde, enfatizando não apenas a contagem de nossa produção econômica, mas também descobrindo que tipo de ativos da vida real estávamos criando e quais eram seus impactos.

Alfaro construiu o trem que ligava Guayaquil a Quito e mudou para sempre a paisagem equatoriana. Com um espírito semelhante, queríamos criar projetos de infraestrutura que não apenas facilitassem o desenvolvimento, mas ajudassem a construir uma nação.

Em segundo lugar, fomos inspirados pela experiência de desenvolvimento do Equador durante o boom do petróleo dos anos 1970 – aquele crescimento econômico, a expansão do setor estatal, mas também a queda.

E, finalmente, a crise bancária do final da década de 1990 também foi um poderoso exemplo negativo. Estudamos essa história com muito rigor e nos comprometemos a não repeti-la. Grosso modo, sabíamos que esse tipo de crise era produto da priorização do setor financeiro em relação ao resto da sociedade.

Isso significa criar modelos alternativos de crescimento, aumentando tanto as oportunidades para as pessoas comuns e seus saberes quanto a macroeconomia.

BKS

A seu ver, qual foi a conquista mais significativa do governo Correa que você participou?

Andrés Arauz 

A capacitação de equatorianos comuns – poder dizer que as pessoas tinham interesse em sua própria sociedade e um certo orgulho pelas transformações que estavam ocorrendo. Mas, obviamente, esse empoderamento foi um subproduto do todo – nossa política social, gastos com educação, nova infraestrutura e assim por diante.

BKS

O projeto Correa falhou em se institucionalizar da maneira que, digamos, foi o projeto de Evo Morales na Bolívia, por meio do desenvolvimento do Movimento pelo Socialismo (MAS). Em vez disso, pela Aliança PAIS, vocês fizeram com que Lenín Moreno e aqueles ao seu redor sequestrassem a Revolução Cidadã e tentaram empurrá-la para a direita.

Quais são as lições sobre a construção de instituições e partidos que você tira dessa experiência?


Andrés Arauz 

Bem, concordo totalmente com você – essa foi a principal fraqueza de nosso projeto político, e é a questão mais persistente, obviamente, com a qual estamos lidando. Precisamos de uma estrutura partidária com raízes sociais sólidas.

Em vez disso, dependemos muito de um líder carismático com o qual as pessoas se conectam por meio da mídia de massa. Nosso movimento precisa ser mais profundo do que isso, e esse é um problema do qual estou ciente e totalmente empenhado em abordar.

BKS

Vocês tinham um líder popular e um programa popular, mas não tinham base institucional para se conectar com as pessoas em seus locais de trabalho e comunidades de forma contínua.

Andrés Arauz 

Precisamos de um partido forte enraizado em uma sociedade civil forte, e não tínhamos isso. E não se trata apenas de ganhar eleições; um partido democrático é a base para uma participação política real do cidadão comum.

BKS

Quais medidas você está tomando para garantir que o novo movimento não siga o mesmo caminho que o Aliança PAIS?

Andrés Arauz 

Bem, depois de transitar por sete partidos diferentes para concorrer às eleições, estamos consolidando nosso próprio partido, que sobreviveu a todos esses processos judiciais, e estamos nos reconstruindo principalmente com quadros jovens. Há um esforço explícito para fazer com que as pessoas que não estejam envolvidas em obrigações do governo desempenhem, também, um papel de liderança nessa construção partidária.

Da mesma forma, estamos tentando garantir que o partido tenha muito mais interação com a sociedade civil do que antes. É muito importante para mim criarmos uma formação de base, conectando o ativismo dos movimentos sociais e nossos esforços políticos. Temos que estar conscientes de que, se chegarmos ao governo, haverá pressão para que os quadros assumam cargos estaduais, mas isso acabaria esvaziando o partido e esses esforços de baixo para cima.

BKS

Qual é a base social de seu partido e candidatura hoje? Por que tem sido um tanto difícil incorporar o movimento indígena organizado do Equador em seu projeto?

Andrés Arauz 

Temos uma base nos setores populares da sociedade em todos o país. Somos os mais fortes, é claro, entre as classes trabalhadoras da costa do país.

Sobre sua outra pergunta, poder ser útil contrastar com a experiência boliviana. No Equador, o movimento indígena aliou-se a forças supostamente progressistas no passado, apoiando Lucio Gutiérrez em 2002, e depois foi traído. A lição dessas experiências uma suspeita com essas alianças eleitorais e com o poder do Estado. Na Bolívia, no entanto, houve a fusão próspera dos objetivos de uma esquerda progressista e movimentos indígenas – isso é o que permitiu a consolidação do MAS.

Meu objetivo é tentar criar um Estado plurinacional com o movimento indígena.

BKS

Vamos dar um passo atrás. Obviamente, há uma narrativa entre os liberais, também, que pode exagerar a homogeneidade e a coerência da base social indígena. Como, por exemplo, nas eleições de 2013, quando os indígenas votaram bastante em Correa.

Andrés Arauz 

Sim, claro. E muitos setores do movimento indígena também nos apoiaram.

BKS

No entanto, a mudança política desde 2013 parece significativa, quando Pachakutik obteve apenas 3% no primeiro turno...

Andrés Arauz 

O levante de 2019 foi significativo e foi liderado pela CONAIE [Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador], a maior organização indígena do Equador. Isso criou uma base popular para Pachakutik.

BKS

Como você caracterizaria o programa do Pachakutik – como amplamente de esquerda, com partes que você pode incorporar ao seu próprio?

Andrés Arauz 

A maior parte de seu programa é efetivamente progressista e da esquerda; no entanto, há muitos componentes que são claramente influenciados negativamente por uma rede de ONGs. Há uma ênfase pós-moderna que temo que possa começar a tender para o neoliberalismo.

BKS

Para colocar de forma concreta, por “ênfase pós-moderna”, você está falando sobre uma rejeição ao desenvolvimentismo?

Andrés Arauz 

Você pode resumir o pensamento que estou criticando como uma plataforma “anti-extrativista” levada ao extremo.

BKS

Como você colocaria sua posição sobre este tema? O Equador precisa aproveitar responsavelmente as vantagens de sua riqueza de recursos naturais como parte de um projeto para construir uma economia mais avançada e menos dependente da extração?

Andrés Arauz 

Não, eu colocaria de uma forma um pouco mais sofisticada.

Mas aqui está um exemplo: se temos minas de cobre, não nos interessamos apenas em exportar cobre bruto; queremos a incorporação da tecnologia de processamento de cobre no Equador e que essa indústria seja um motor de desenvolvimento para as comunidades nas quais elas serão construídas. É mais do que apenas “venda o máximo que puder e então você terá dólares e então poderá comprar muito mais”, mas sim um projeto próprio que aponte diretamente para o desenvolvimento.

BKS

Quando estiver no poder, você vai ter que exercer um mandato popular que rejeite a austeridade imposta pelo FMI e busque a redistribuição ou, pelo menos, crie políticas expansionistas para combater a recessão, mas também vai precisar manter a confiança do mercado e manter seus empréstimos internacionais existentes. Como você navegará pelos dois opostos?

Andrés Arauz 

Definitivamente vai haver um conflito com o FMI, isso é inevitável. Não é nenhum segredo que o FMI representa o capital financeiro acima de tudo e isso será um confronto direto por motivos práticos e ideológicos. No entanto, temos a Constituição do nosso lado e pretendemos travar essa batalha de uma forma inteligente.

Eu diria, também, que a pandemia ampliou o escopo da política que os governos podem usar e que o novo discurso da diretora do FMI, Kristalina Georgieva, nessas frentes é promissor, mesmo que você não possa chamar sua perspectiva econômica heterodoxa. O mesmo sobre sua nova ministra da economia dos Estados Unidos, Janet Yellen.

BKS

Que pressões você acha que o governo de Lenín Moreno sofreu e podem ser responsáveis por pelo menos parte de seu movimento desastroso à direita?

Andrés Arauz 

Moreno enfrentou uma pressão significativa. Sem a liderança forte de Rafael Correa, que também foi uma figura unificadora, a aliança de nosso movimento, que é muito heterogênea, se desfez.

Diante de um movimento restauracionista conservador, Moreno não foi forte o suficiente para resistir. Além de suas fraquezas de caráter, ele foi chantageado pelas elites econômicas para tomar essas medidas neoliberais.

BKS

Se você ganhar a presidência, ainda vai enfrentar uma Assembleia Nacional hostil. Como você espera superar esse desafio?

Andrés Arauz 

Seremos uma maioria tímida, isso significa apenas que temos que expandir nossa base, e temos que, por meio de nossa defesa de um Estado plurinacional, conquistar potenciais aliados.

BKS

Você costuma invocar o Estado plurinacional. Você poderia descrevê-lo um pouco mais concretamente? Que tipo de estruturas você acha que são necessárias para um Estado plurinacional? A Bolívia é o modelo?

Andrés Arauz 

Como o Estado plurinacional já está em nossa Constituição, nosso modelo teórico não é a Bolívia – e sim o próprio Equador. Existem elementos específicos que foram apresentados pelo movimento indígena para tornar isso uma realidade mais profunda.

Parte dela é sobre espaço cultural e reconhecimento para o povo afro-equatoriano, além dos povos indígenas equatorianos. Há também elementos específicos relativos ao sistema educacional, de justiça, territórios locais, especialmente na Amazônia, que envolvem decisões populares sobre projetos extrativistas, entre outros.

BKS

Antes de encerrar, quero trazer à tona as acusações de influência estrangeira na sua eleição e campanha. Havia um vídeo falso do ELN “endossando” sua candidatura… Como você consegue dissipar essas mentiras sem desviar a atenção de sua mensagem central e popular sobre como colocar a economia de volta nos trilhos e melhorar a vida das pessoas comuns?

Andrés Arauz 

Bem, a distração é exatamente o que está acontecendo. Esses rumores [foram] criados precisamente para se desviar das questões importantes que o povo equatoriano enfrenta, porque podemos vencer nessas questões substantivamente. Isso não vem apenas das elites domésticas; vimos notícias falsas vindo da Argentina, da Colômbia…

Nossa pergunta é simples: queremos decidir nossas eleições por nós mesmos. Queremos ter um concurso democrático limpo e justo, sem manipulação da mídia.

Sobre o entrevistado

Andrés Arauz é o candidato presidencial equatoriano pelo Movimento Revolução Cidadã.

Sobre o entrevistador

Bhaskar Sunkara é o editor e editor fundador da Jacobin e autor de The Socialist Manifesto: The Case for Radical Politics in a Era of Extreme Inequality.

1 de fevereiro de 2021

A esquerda pode retomar o poder no Equador

De 2007 a 2017, o Equador foi um farol de esperança para a esquerda latino-americana, mas nos últimos quatro anos um regime neoliberal impôs a austeridade impulsionada pelo FMI. O favorito nas pesquisas para a eleição presidencial de hoje, o esquerdista Andrés Arauz, disse à Jacobin como ele vai continuar a Revolução Cidadã - e retomar o legado de seu aliado Rafael Correa.

Umaentrevista com
Andrés Arauz

Jacobin

Andrés Arauz, economista e ex-ministro do governo de Rafael Correa, é visto como o favorito às eleições equatorianas de hoje. (Andrés Arauz / Facebook)

Tradução / A disputa para a presidência do Equador está entrando em seus estágios finais, e o desespero tanto do governo neoliberal de Lenín Moreno quanto dos partidos de direita para evitar a vitória da Esquerda chegou em seu ponto de ebulição.

Desde o início da guinada à direita do governo de Moreno e as perseguições políticas de líderes da Revolução Cidadã – mais notoriamente Rafael Correa e Jorge Glas – inúmeras tentativas foram feitas para impedir que o próprio Correa e outros partidos políticos aliados ao seu movimento participassem das eleições.

Isso incluiu impedir o registro da Movimento Revolução Cidadã como um partido político, o banimento da Fuerza Compromiso Social (FCS), movimento eleitoral usado por eles para concorrer nas eleições locais em 2019, o banimento de Correa na disputa à vice-presidência e inúmeros ataques para impedir o registro presidencial de Andrés Arauz-Carlos Rabascall. Embora as tentativas de bloquear a ascensão da esquerda no horizonte político tenha falhado, o próprio processo eleitoral ficou ameaçado.

O desespero das elites pode ser contrastado com o desespero dos equatorianos comuns. A pandemia de Covid-19 já custou quase 15.000 vidas, o nível de desemprego atingiu os dois dígitos pela primeira vez em quase duas décadas e a austeridade sancionada pelo FMI continua a ser implementada. Neste ambiente, os trabalhadores do Equador estão mais uma vez abraçando a alternativa mais radical.

Andrés Arauz, economista e ex-ministro do governo de Rafael Correa, é visto como o favorito para vencer as eleições equatorianas, com a maioria das pesquisas do período entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021, dando a ele entre 35-42% dos votos válidos. Isso o coloca à frente do candidato da direita, Guillermo Lasso – o banqueiro corporativo mais notório do país – que está com 18-36%.

Andrés Arauz conversou com Denis Rogatyuk, da Jacobin América Latina, para discutir sua candidatura – e o que o Equador e o mundo podem esperar de sua futura presidência.

Denis Rogatyuk

Que medidas você planeja implementar para resolver a questão do desemprego e iniciar a recuperação econômica do Equador?

Andrés Arauz

Nossa principal prioridade, no curto prazo, é a recuperação econômica. Isso também depende da recuperação do sistema de saúde.

Podemos fazer muitas coisas, mas a atividade econômica precisa ser retomada. É por isso que consideramos a aquisição de vacinas uma prioridade. Sabemos que até a vacinação seja implementada no Equador, até que o trabalho seja gerado, até que o Estado recupere suas forças para retomar as obras públicas, precisamos oferecer uma ajuda imediata. Propusemos um programa para doar US$ 1.000 a um milhão de famílias equatorianas em nossa primeira semana de governo.

Dessa forma, impulsionamos a economia das famílias. O dinheiro pode cobrir dívidas, comprar remédios, alimentos e roupas e, se sobrar, pode até ser usado para iniciar um pequeno negócio. Com isso, reativamos toda a economia nacional: a mãe ou pai da família vai ao mercado, à loja, ao comércio, e a circulação de dinheiro aumenta.

Denis Rogatyuk

Como você planeja renegociar a dívida e os termos com o FMI?

Andrés Arauz

Vamos primeiro utilizar os recursos que já existem no Equador, mas que este governo permitiu serem retirados do país e armazenados no exterior, em Miami, no Panamá, na Suíça. Esse dinheiro tem que voltar ao Equador para financiar nosso desenvolvimento – não as aventuras de guerra de outros países, mas nossos interesses.

A partir daí, estabeleceremos condições dignas com nosso plano econômico soberano que busca o crescimento econômico e que busca resolver o problema do desemprego gerando trabalho e reiniciando obras e serviços públicos. Se o FMI quiser nos ajudar com esse plano equatoriano, eles serão bem-vindos – mas como o acordo com o FMI está agora, não vamos cumpri-lo.

Denis Rogatyuk

Qual será o grande projeto no Equador que ficará para a história com a marca de Andrés Arauz?

Andrés Arauz

O grande desafio que temos é sair da pandemia com sucesso. No momento, não podemos planejar grandes marcos, porque temos que sair da nossa crise primeiro. Para ser sincero com vocês, a grande conquista que vamos ter em nosso governo é mostrar que pode haver um governo que respeite a dignidade do povo, que não se aproveite da crise para dar mais poder aos ricos, e não se aproveite da crise para explorar o povo. Pelo contrário, vamos mostrar que pode haver um governo do povo novamente.

Quando sairmos da pandemia, talvez os primeiros dois anos, estaremos centrados em recuperar o futuro e colocar a educação na vanguarda da transformação da sociedade. Meu sonho é que possamos ter o melhor sistema educacional da América Latina. Usaremos ciência, tecnologia, inovação, conhecimento, conectividade universal e a internet para mostrar que os jovens equatorianos são os protagonistas de sua sociedade e podem realizar as mudanças que nosso país exige.

Denis Rogatyuk

Você se sente parte dos povos originários do Equador? O que você acha da ideologia Sumak Kawsay [Bem Viver em quíchua] e como aplicar seus princípios em seu futuro governo?

Andrés Arauz

Me sinto parte do Estado Plurinacional e Intercultural que está constitucionalmente estabelecido no Equador. Toda a nossa América Latina é plurinacional e intercultural, e é importante que aprendamos a reconhecer o que diz a Constituição. É importante reconhecermos os diversos atores que fazem parte da nossa cultura. Temos que sair da lógica colonial ou neocolonial e começar a reconhecer nossa diversidade como nossa principal fonte de riqueza.

Estou próximo dos povos indígenas, mas também das comunidades afro – o povo Montubio do Equador – porque precisamos fazer um chamado à unidade agora. Este país não aguenta mais lutas entre políticos, não aguenta mais conviver com as políticas repressivas que causaram tanto sofrimento e danos à nossa sociedade, como em outubro de 2019.

Precisamos nos reconciliar como país com base em um projeto de futuro como a Constituição do Bem Viver. Essa utopia que deve marcar o campo para todo o Equador, independentemente da etnia ou nacionalidade a que pertencemos. Precisamos construir essa unidade.

Denis Rogatyuk

Como você vê a futura relação com a Confederação das Nações Indígenas do Equador (CONAIE) e outros movimentos indígenas?

Andrés Arauz

Vejo excelentes oportunidades para construir e implementar o Estado Plurinacional e Intercultural, com a CONAIE, mas também com cada um dos povos indígenas e nacionalidades de nosso país, com as bases das organizações indígenas e com as comunidades que estão em cada um dos territórios equatorianos. Temos que avançar em termos de irrigação, projetos produtivos, crédito, apoio na poupança e crédito para as cooperativas indígenas de nosso país, no sentido de podermos ter um sistema educacional da mais alta qualidade que preserva nossas línguas ancestrais.

Vamos declarar as línguas ancestrais em estado de emergência já no primeiro dia de nosso governo, o que ajuda a preservar um sistema de justiça indígena – não só para atos políticos, mas também para auxiliar no trâmite administrativo em nossas comunidades, para que as pessoas não precisem viajar para a capital para resolver seus problemas.

A implementação do Estado Plurinacional e Intercultural será administrada por uma equipe Plurinacional e Intercultural.

Denis Rogatyuk

Você acha que a sabotagem eleitoral contra sua candidatura enfraqueceu sua campanha? Se sim, de que maneira?

Andrés Arauz

Eles tentaram enfraquecer a força de nossa campanha entre o povo equatoriano, mas não funcionou. O povo equatoriano tem imensa solidariedade e simpatia por nossas propostas, que o representam em sua maioria. Nossa identidade é primeiro patriótica, depois democrática e depois progressista – então aqueles que tentaram armar essas armadilhas não fizeram nada além de nos projetar ainda mais nos corações dos equatorianos.

Denis Rogatyuk

Mas o povo equatoriano também tem um coração rebelde.

Andrés Arauz

Claro, e é uma rebelião justificada depois de séculos de opressão e anos de um governo nefasto que nos maltratou. Quero agradecer ao governo Moreno por uma coisa – ele despertou aquela energia, aquela indignação juvenil que estava oculta por vários anos e que ressurgiu em outubro do ano passado. Agora existe uma consciência muito mais crítica do papel da política na nossa sociedade, e isso nos permitirá, junto com a juventude, junto com o povo, junto com as mulheres de nosso país, e junto com os trabalhadores, recuperar o futuro com dignidade.

Denis Rogatyuk

O atual Ministro da Saúde tomou a vacina antes mesmo dos médicos na linha de frente da pandemia. O que você acha disso?

Andrés Arauz

É ultrajante – não só que eles compraram apenas 8 mil doses, que são 40 mil vacinas, mas que não priorizaram o pessoal da linha de frente. Em vez disso, o governo o passou para seus amigos e parentes, enganando o povo equatoriano. Isso é imperdoável. Acredito que enfrentarão duras consequências por enganar o povo equatoriano, e para o Ministro da Saúde, por ter violado seu próprio juramento como médico.

Mas acho que precisamos avançar muito na questão das vacinas. Nossa prioridade é que o povo equatoriano receba a vacina primeiro – nosso pessoal de saúde, nossos soldados, nossos policiais e nossos professores – para que os jovens, as crianças, possam voltar à escola. Em sociedades como a nossa, também precisamos reequilibrar os papéis de homens e mulheres. As mulheres, principalmente as mães, foram as mais atingidas pelos efeitos da pandemia, pois tiveram que se tornar professoras, enfermeiras, cuidadoras, reitoras, zeladoras e administradoras, além de seu trabalho profissional e doméstico.

Portanto, a vacina é essencial. Precisamos diversificar o fornecimento da vacina, e temos feito esforços iniciais com a vacina Oxford, produzida na Argentina, para que possa atingir todo o território equatoriano.

Denis Rogatyuk

Como você vê o futuro do Equador na América Latina e no mundo multipolar? Que tipo de relacionamento você espera construir com a China e o novo governo dos Estados Unidos?

Andrés Arauz

Queremos continuar construindo relacionamentos diversificados com todos os países do mundo. Queremos construir intercâmbios em termos de experiências educacionais, em termos de ciência e tecnologia, em termos de inovações, a fim de contribuir para o desenvolvimento equatoriano. Nossos princípios serão paz, democracia e desenvolvimento. Esses são os mesmos princípios sobre os quais as Nações Unidas foram construídas.

Acreditamos no multilateralismo. Somos contra o mundo multipolar. Precisamos nos afastar da hegemonia de um único país, especialmente no Hemisfério Ocidental. Continuaremos construindo um relacionamentos com nossos amigos na China e na Ásia em geral. Queremos ter boas relações com todos os países do mundo – com os EUA, Europa, Canadá, países da Eurásia e Rússia também.

Nossa prioridade, porém, é a integração latino-americana. Precisamos de nosso próprio bloco de países – o bloco latino-americano. Estarei pessoalmente encarregado de reconstituir a integração regional em nosso continente.

Denis Rogatyuk

Durante o governo de Rafael Correa, o Equador foi considerada a capital da América do Sul, por sediar a União das Nações Sul-Americanas (UNASUL).

Andrés Arauz

Lenin Moreno decidiu renunciar essa posição do Equador como capital da América do Sul – algo imperdoável. Esperamos voltar à UNASUL. Esperamos melhorá-la também, para que não seja apenas um projeto de integração entre governos ou políticos, mas também de integração entre as pessoas. Isso significa fazer um esforço para incluir um programa de intercâmbio educacional, como o programa europeu Erasmus, onde estudantes de países latino-americanos podem estudar um semestre no exterior em qualquer outro país da região. Isso ajudará a construir relacionamentos entre os latino-americanos que durarão décadas.

Denis Rogatyuk

Uma das principais críticas que ouvimos da oposição é que você é um clone de Rafael Correa. O que você acha dessas comparações?

Andrés Arauz

O Rafael é amigo, colega, co-líder. Ele e eu concordamos politicamente com as necessidades de nosso país, mas uma versão com mais fôlego. Eu sou de uma nova geração. Temos aquele princípio de renovação geracional: vamos injetar energia, juventude, inovação, criatividade e contemporaneidade na proposta política da Revolução Cidadã.

Denis Rogatyuk

Se eleito, quem governará – você ou Correa?

Andrés Arauz

No dia 24 de maio, quando for jurar a Constituição do Equador, cumprirei o que diz a Constituição, ou seja, quem toma as decisões é o Presidente da República. O Presidente da República serei eu; Rafael será um dos meus principais conselheiros.

Sobre o entrevistado

Andrés Arauz é economista e candidato presidencial equatoriano pelo Movimento Revolução Cidadã.

Sobre o entrevistador

Denis Rogatyuk é jornalista da El Ciudadano, escritor, colaborador e pesquisador com várias publicações, incluindo Jacobin, Tribune, Le Vent Se Leve, Senso Comune, GrayZone e outros

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...