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10 de março de 2023

Cuba: ditadura ou democracia?

Sistema de eleições no país não depende da dinâmica partidária

Pedro Monzón
Cônsul-geral de Cuba em São Paulo

Folha de S.Paulo

Incluindo esta Folha, certas publicações descrevem o governo cubano como uma ditadura e os seus líderes históricos, bem como o atual presidente, Miguel Díaz-Canel, como ditadores (neste caso, não a Folha).

Esses e outros estereótipos injustos nascem nos EUA e difundem-se na imprensa mundial graças à grande influência deste país. As causas do fenômeno explicam também o cruel bloqueio que a ilha sofre durante 61 anos, apesar da rejeição da ONU. Essas punições são reações dos EUA à decisão de Cuba de ser independente e de estabelecer um sistema alternativo de justiça social e solidariedade, que não depende do poder do dinheiro e das armas.

A ditadura é o resultado do exercício ilimitado do poder por um governo em benefício das elites; a democracia, por outro lado, é governo pelo povo e para o povo. O que é o caso em Cuba?

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel - Adem Altan/AFP

Os fatos falam por si. Com a dissolução do anterior regime tirânico, a Revolução Cubana começou como uma democracia popular. Desde então, as mudanças foram múltiplas: o desemprego terminou; a extrema polarização econômica e social também; duas reformas agrárias beneficiaram os camponeses; foram criados um Exército e as milícias populares, que defenderam o país em muitas ocasiões e derrotaram os EUA durante a invasão da Baía dos Porcos. O Estado cubano instituiu sistemas de saúde pública e educação livres, universais e de alto nível, apoiados por um sector biotecnológico proeminente.

As ONGs que servem os interesses do povo proliferaram e são canais de diálogo com o governo, e foi instituído um sistema de eleições que não depende da dinâmica partidária. O Partido Comunista não intervém nas eleições, que são realizadas com participação massiva da população e se baseiam nos méritos dos candidatos, que não precisam ter filiação partidária, podem professar qualquer ideologia e pertencer a qualquer gênero, raça ou religião. Não está envolvida qualquer campanha, dinheiro ou força policial. Os eleitos conservam o salário da sua profissão e realizam o trabalho do governo voluntariamente. Como resultado, não há corrupção, comum em eleições em outros países.

Homem sai de cabine de votação nas eleições municipais de Cuba - Adalberto Roque/AFP

Durante 62 anos, o povo, que se reconhece como soberano, participou de centenas de manifestações de massas em apoio ao governo. Tem havido referendos frequentes para aprovar políticas nacionais, destinadas a alcançar um sistema mais justo, mais eficiente e democrático. A recente aprovação da Constituição e do Código de Família é um sinal de democracia sem precedentes.

Centenas de milhares de cubanos prestaram ajuda internacional em educação e saúde a dezenas de países pobres. Um povo subjugado não teria tido uma vontade tão massiva e voluntária.

O sistema garantiu que não haja fome nem mortes por fome, desnutrição infantil e o fim de toda a discriminação estrutural e legal; não existem pessoas em situação de rua; as drogas e a criminalidade não são problemas nacionais e todas as pessoas têm um elevado nível cultural.

Cuba não é caracterizada pela repressão; não há tortura. É um dos países mais estáveis e seguros do mundo.

Esses méritos essenciais não disfarçam as deficiências acumuladas, especialmente produto da necessidade perene de evitar os danos do bloqueio.

Com uma história de rebeldia, um elevado nível de educação que amplia o raciocínio, assim como a disponibilidade de informação abundante sobre questões nacionais e internacionais, os cubanos teriam posto um fim ao sistema se o tivéssemos considerado necessário.

Esses são os frutos da democracia cubana

29 de agosto de 2022

Cuba e o Mais Médicos, 9 anos depois

Vê-se agora que fim injustificado trouxe efeitos dolorosos aos brasileiros

Pedro Monzón



O programa Mais Médicos, que se iniciou em 8 de julho de 2013, desempenhou um papel muito importante na promoção da saúde no Brasil. Seu propósito foi captar médicos no próprio país e no mundo para trabalhar nas zonas pobres e afastadas do país.

A participação cubana, até 2018, foi muito efetiva. Organizou-se sobre a base de um projeto de cooperação técnica entre a Organização Panamericana de Saúde e os ministérios de Saúde de Cuba e do Brasil. Teve a virtude de não constituir uma competição —os cubanos ocuparam postos não cobertos por médicos brasileiros ou estrangeiros.

É reconhecido em todo o Brasil que Cuba teve uma presença proeminente, fato confirmado com dados. Os médicos cubanos representavam 80% de todos os participantes do programa. Em cinco anos, o total do pessoal cubano da Saúde alcançou 20 mil colaboradores. No momento em que a iniciativa foi suspensa, havia mais de 8.000 médicos cubanos no Brasil. Os profissionais da ilha atenderam mais de 113 milhões de pacientes em mais de 3.600 municípios, dos quais 700 tiveram serviços médicos pela primeira vez em sua história. Os cubanos cobriram um universo de cerca de 60 milhões de pessoas em zonas de pobreza extrema e, em particular, nos 34 distritos especiais indígenas.

Nos lugares em que trabalharam, todos os indicadores de saúde melhoraram ostensivamente, os índices de mortes foram reduzidos e evitou-se o sofrimento desnecessário por doenças curáveis.

O papel dos médicos cubanos foi reconhecido pela população, que sofreu muito com sua partida. Segundo investigação encomendada pelo Ministério da Saúde do Brasil à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), 95% dos entrevistados confirmaram a alta consideração do povo brasileiro pelo trabalho dos médicos cubanos. Sempre foram distinguidos por seu profissionalismo, caráter amistoso e sua capacidade de se misturar com o povo.

Tanto no Brasil como em outros países, assumiram muitos riscos de contágio de doenças perigosas. Tal conduta se explica pelo fato de que os médicos cubanos são educados sobre a base de valores e a concepção de que a saúde é direito humano, e o paciente não é mercadoria.

Não é algo excepcional: esse comportamento caracteriza toda a colaboração internacional de Cuba nas últimas seis décadas. Nesse período, mais de 605 mil médicos apoiaram mais de 170 nações, geralmente as mais pobres, nas quais atenderam comunidades humildes que habitam regiões intrincadas.

Com esses antecedentes, é obvio concluir que as causas que provocaram o fim da participação de Cuba no programa Mais Médicos foram completamente injustificadas —e o resultado, desnecessário e doloroso para os cidadãos brasileiros, que ficaram sem serviços médicos, precisamente nos prelúdios da pandemia.

Os povos do Brasil e de Cuba têm muito em comum e possibilidades infinitas de intercâmbio, tendo em conta nossas respectivas fortalezas. Por isso, estamos seguros de que, no futuro, serão criadas condições para empreender projetos fraternais nesta e em outras esferas.

Sobre o autor

Cônsul-geral de Cuba em São Paulo

9 de fevereiro de 2022

Cuba existe?

Para parte da imprensa internacional, parcialidade é deliberada

Pedro Monzón
Cônsul-geral de Cuba em São Paulo

Folha de S.Paulo


A resposta à pergunta do título deste artigo, que deveria ser óbvia, tem caráter relativo. Refiro-me às diferenças que meios de comunicação fundamentais e certas redes sociais estabelecem entre as "realidades" virtuais e as objetivas. De acordo com o comportamento de boa parte desses meios de comunicação, Cuba, às vezes, existe; já outras, não.

Tudo depende da filiação da fonte. Para a mídia que segue os roteiros normalmente gerados nos EUA, um país que faz uso de uma infinidade de recursos para tentar justificar o bloqueio comercial, econômico e financeiro exercido contra nosso país por mais de 60 anos, Cuba só existe na medida em que é um exemplo de tudo o que é ruim, de ausência de democracia e de direitos humanos.

Devido à oposição pela imensa maioria do planeta a semelhante ataque contra Cuba, os EUA consideram imprescindíveis esses falsos argumentos na tentativa de reverter tal rechaço.

Por essa razão, chovem fake news, construídas sem nenhum pudor, que se repetem ao infinito e acusam Cuba de reprimir o povo e limitar seu direito à livre expressão. Sobre essas falsas bases, chegou-se a proferir ameaças de invasão e medidas asfixiantes que são cada vez mais impostas, incrementando as aplicadas durante o mandato do ex-presidente Donald Trump para aprofundar o bloqueio. Entretanto ataques do tipo estão completamente ausentes quando se trata de governos aliados, onde certamente estão sendo cometidas múltiplas injustiças. A parcialidade é deliberada.

Para projetar essa imagem sombria, Cuba, aí sim, existe. O mesmo não acontece, contudo, quando o objetivo é refletir êxitos reconhecidos em muitos campos. Nesses casos, Cuba não existe.

Não é novidade que Cuba tem um dos mais altos níveis de educação do planeta; nem que todas as crianças frequentam diariamente a escola, inclusive aquelas com deficiências. Também não é novidade que em Cuba os serviços médicos são gratuitos e se estendem ao mundo em solidariedade; não há moradores em favelas nem nas ruas; as drogas não são um problema; trata-se de um país muito estável e seguro; e toda discriminação legal e estrutural terminou com a revolução em 1959. Embora existam dificuldades na obtenção de alimentos, principalmente devido ao bloqueio, ninguém deixa de comer e nem um único cubano morre de fome. Segundo o Unicef, não há desnutrição infantil.

O desenvolvimento científico do país é muito elevado. Centenas de medicamentos foram produzidos, muitos deles únicos; no momento, estamos aplicando três vacinas cubanas contra a Covid-19 (as primeiras na América Latina) para quase toda a população, o que garantiu o controle da pandemia. Cuba foi o primeiro país a vacinar pessoas entre 2 e 18 anos de idade. Tudo isso permitiu o reinício de muitas atividades nacionais, incluindo as aulas presenciais, que foram suspensas por causa da pandemia, e a abertura de Cuba ao turismo.

Estes são sinais claros e tangíveis dos direitos humanos, mas, para a grande mídia, esta Cuba, surpreendentemente, não existe. Felizmente, muitos países e povos do mundo reconhecem a Cuba real e a desfrutam como visitantes e turistas. E, o mais importante, a grande maioria do povo a apoia manifestadamente.

22 de junho de 2021

A ONU e o bloqueio a Cuba

Assembleia Geral deve reprovar pela 29ª vez embargos que castigam o país

Pedro Monzón



Em 28 ocasiões consecutivas o bloqueio a Cuba foi reprovado pela imensa maioria dos países que integram a Assembleia Geral da ONU (AGNU) e também por diversos Parlamentos, personalidades e grupos de solidariedade no mundo.

Implantado formalmente em 1962, o embargo obedece às teses expressas em um memorando oficial do governo dos EUA à época, que literalmente afirma: “A maioria dos cubanos apoiam Castro (...) o único modo (...) de tirar o apoio interno é mediante o desencanto e a insatisfação que surjam do mal-estar econômico e das dificuldades materiais (...). Há que se empregar, rapidamente, todos os meios possíveis para debilitar a vida econômica (...) e conseguir os maiores avanços na privação a Cuba, de dinheiro e fornecimento, para reduzir recursos financeiros e os salários reais, provocar fome, desespero e o derrocamento do governo”.

Já se passaram mais de 60 anos e, apesar do repúdio mundial, as mudanças que foram introduzidas nesse sistema de sanções, contraditoriamente, reforçaram a sua intenção e o efeito genocida.

O bloqueio hoje agrega 243 medidas extremamente agressivas contra a economia cubana, que afetam os direitos humanos e o conforto da população. O ex-presidente Barack Obama iniciou um efêmero e limitado relaxamento desse engendro, que, porém, acabou se revitalizando com força brutal durante a administração Donald Trump.

Joe Biden, apesar de suas promessas de mudança, ainda não aboliu nenhuma dessas violentas medidas.

Tem sido o maior obstáculo para o desenvolvimento econômico de Cuba, ao ocasionar perdas de mais de US$ 144 bilhões nestas seis décadas e afetar duramente o comércio, os investimentos estrangeiros e a aquisição de tecnologia e produtos básicos, especialmente para a saúde e durante a pandemia de Covid-19. Interrompe qualquer operação financeira relacionada com Cuba, como a entrada de petróleo, e provoca danos muito relevantes à economia estatal e privada.

No há uma só justificativa. Cuba é um país pacífico, muito seguro, com baixos índices de delinquência. Não existe violência policial, nem torturas. A atenção médica é gratuita, e temos indicadores de saúde que se comparam inclusive a países desenvolvidos. O mesmo acontece com a educação. O povo é educado e culto. O seguro social tem níveis elevados; não há moradores de rua; todas as crianças estão bem nutridas e vão à escola; as drogas, a discriminação em geral e os feminicídios não constituem problemas. Cuba, ademais, é uma referência sem precedentes na cooperação mundial na saúde, na educação e em outros setores. Ninguém questiona.

Nesta quarta-feira (23), a AGNU, novamente, inclui o tema em sua agenda. Muito provavelmente o bloqueio será reprovado massivamente, o que, mesmo que não tenha consequências práticas imediatas, representará uma pressão adicional e um testemunho importante para a história.

Enquanto isso, o país seguirá resistindo e mudando tudo o que deve ser mudado para incrementar a eficiência econômica e gerar todo o progresso possível.

Sobre o autor

Cônsul-geral de Cuba em São Paulo

24 de janeiro de 2021

Cuba e EUA: uma nova oportunidade

Nosso país espera construir relações civilizadas, em igualdade de condições

Pedro Monzón



bloqueio econômico, comercial e financeiro dos EUA se mantém contra Cuba desde 1962. Doze presidentes americanos encabeçaram essa política agressiva, com um momento efêmero de relaxamento durante o mandato de Barack Obama.

A imensa maioria dos cubanos não conhece outra realidade que a do bloqueio, e muitos brasileiros que leem este artigo não haviam nascido quando se iniciou tal infâmia. Trata-se de uma política cruel, endurecida anualmente. Provocou múltiplas perdas humanas e de milhões de dólares à economia. O bloqueio é o principal obstáculo ao desenvolvimento de Cuba.

Um período de agressividade inédita; foram assim os quatro anos da administração Donald Trump. Ele tomou medidas contra Cuba que agravaram deliberadamente os danos causados pela pandemia.

Castigou o povo cubano com a intenção de gerar explosões sociais e oferecer uma imagem conflituosa e de desastre. Por que não se levanta o bloqueio para que o sistema fracasse por si só? A resposta é óbvia: Cuba teria um progresso geométrico.

Além de reforçar as sanções de sempre, Trump impediu a entrada de combustível no país, afetando criticamente a produção e os serviços à população; limitou o acesso a linhas aéreas regulares; e suspendeu a visita de cruzeiros, embarcações privadas, voos “charters” e particulares.

Com argumentos falaciosos, eliminou os serviços consulares em Cuba e proibiu a entrada de remessas familiares, o que também prejudica o povo. Concomitantemente, fortaleceu agressões virtuais, apoiando-se na organização de “suaves golpes” em Cuba, financiados pelos EUA.

Essas políticas se propõem a fazer o povo sofrer e pôr fim ao socialismo. Obama reconheceu que o castigo é inútil —a imensa maioria apoia a Revolução. Existem muitas razões para resistir: o logro da independência e dignidade nacionais e uma quantidade inumerável de medidas tangíveis de justiça social.

Cuba é um país culto, seguro, pacífico e são, com bem pouco dos males sociais que sofrem outros países, incluindo os EUA. Controlou a pandemia nacionalmente, e sua ampla solidariedade médica internacional foi demonstrada, especialmente durante a proliferação mundial desta perigosa enfermidade.

A Assembleia Geral da ONU, durante 28 anos, votou contra o bloqueio. Apenas dois governos dão respaldo aos EUA. Obama também compreendeu que quem se isolou foram os norte-americanos. Um sinal de prestígio é que Cuba foi eleita reiteradamente em diversas instituições multilaterais.

Obama iniciou a aproximação com Cuba muito tarde, prontamente revertida por Trump. Muitos confiam que a administração Joe Biden seja uma nova oportunidade para pôr fim a essa política ilegal, injusta, abusiva e insensata.

Nosso país espera construir relações civilizadas com os EUA, em igualdade de condições, sobre a base do respeito à nossa independência, soberania e autodeterminação.

Sobre o autor

Cônsul-geral de Cuba em São Paulo.

22 de setembro de 2020

Amor em tempo de pandemias

Solidariedade entre os povos poderá salvar a nossa espécie de calamidades

Pedro Monzón

Folha de S.Paulo

Médicos cubanos em cerimônia de despedida antes de embarcarem para o Kuwait para ajudar no combate ao novo coronavírus. Alexandre Meneghini/Reuters

Amor solidário entre pessoas e países é o único remédio efetivo contra a Covid-19 —e também contra outras pandemias que nos ameaçam permanentemente, como as guerras, a miséria, o consumismo em excesso e as mudanças climáticas, que derretem polos e tragam territórios, provocando destruição gradual de espécies e de nossa sublime natureza.

A solidariedade, em cumplicidade inevitável com a razão, é a única garantia de supervivência humana em um estado de paz e felicidade plena. Deveríamos estar convencidos de que, mesmo conscientes de que o mercado e a geopolítica são parte inevitável da nossa realidade, essa quimera há de ser o motor da busca permanente de toda ação humana em qualquer terreno, sem a interferência prejudicial de ideologias e políticas.

Hoje, a Covid-19, uma agressão microscópica incontrolável, pôs em xeque a nossa espécie. É um alerta ante o qual todos devemos reagir.

Mesmo quando sabemos que sozinhos não somos capazes de deter tais tragédias, nossa pequena ilha do Caribe, apesar das dificuldades econômicas geradas pela combinação do bloqueio e da pandemia, se une a alguns protagonistas sensatos no planeta para fazer tudo o que está ao alcance com seus profissionais de saúde. Durante décadas Cuba auxiliou muitos países, sobretudo do hemisfério Sul e, com o avanço da pandemia, somou a este trabalho mais de 3.700 especialistas no combate de epidemias graves e de doenças derivadas de desastres naturais.

Esses especialistas estiveram presentes em 46 nações e territórios autônomos que, neste momento, incluem países desenvolvidos, como Itália e Andorra. Trata-se das brigadas Henry Reeve, que reúnem no total mais de 7.000 especialistas voluntários, treinados em muitas missões desde a sua criação, em 2005 —que inclui, entre outras, o perigoso combate ao ebola na África.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) e a OPS (Organização Pan-Americana da Saúde), seguramente com a intenção de unir esforços internacionais e estimular projetos similares, reconheceu a importância desses gestos de Cuba, e a organização mundial InterAcademy Partnership (IAP) criou a IAP Covid-19 Expert Group, com oito especialistas cubanos de um total de 20 membros selecionados.

Seu propósito é enfrentar a pandemia sobre a base de um conceito científico que inclui o estudo de suas consequências sobre a saúde, a sociedade e o ambiente. Reconhece-se que os especialistas da ilha, entre outros talentosos peritos de todo o planeta, podem contribuir muito graças à ampla e intensa experiência no enfrentamento de fenômenos desse tipo —além dos resultados exitosos que obtiveram em seu país no controle nacional da pandemia, devido à aplicação de protocolos integrais e à utilização de medicamentos novos e eficazes que, muito em breve, incluirão uma vacina profilática.

Trata-se de que nos unamos mais, que possamos dar o que cada um de nós for capaz para salvar a nossa espécie das calamidades que agora parecem remotas, mas que contém graves perigos potenciais. A Covid-19 já nos surpreendeu, pegou-nos desprevenidos. Para esse nobre empenho, sempre se pode contar com Cuba!

Sobre o autor

Cônsul-geral de Cuba em São Paulo

25 de março de 2020

Cuba, a humanidade e a Covid-19

Num mundo inevitavelmente conectado, solidariedade é a política central

Pedro Monzón

Folha de S.Paulo

Médicos e enfermeiros cubanos desembarcam perto de Milão, na Itália, para ajudar no combate ao coronavírus. Daniele Mascolo/Reutgers

Pensei em escrever este artigo para promover o turismo de cidadãos brasileiros para a nossa segura, estável, amistosa e bela ilha, utilizando o bordão popular “Vai pra Cuba”. Porém, os tempos pedem outro importante tema.

Refiro-me à pandemia de Covid-19, que nos obriga a reflexionar profundamente sobre qual deveria ser a essência do ser humano. “Pátria é humanidade”. Este é o conceito que move a Revolução Cubana e sua política internacional solidária e massiva desde o triunfo em 1959, que se fez pública em múltiplas ocasiões, em particular na educação e na saúde. Um dos tantos casos destacados foi a luta contra o ebola; outro, mais recente, foi as boas-vindas em Cuba do contaminado barco inglês Braemar. Essa conduta nacional se explica porque os valores morais são a medula da formação dos cubanos e das políticas nacionais.

A pandemia de coronavírus constitui uma advertência para a espécie humana. É um alerta porque muitas mais ameaças pendem sobre nós. Entre elas, continuam avançando as guerras, a fome, mais mutações de vírus e uma catástrofe que se vislumbrava já faz muito: a destruição da natureza e a mudança climática. Tais tragédias prometem afetar o mundo inteiro, independentemente do poderio econômico-militar de um país, da cor da pele, das crenças, da origem social, da nacionalidade ou do fato de pertencer a um ou outro sistema econômico e político —ou qualquer ideologia. Em síntese, trata-se de um fenômeno anti-humano gerado, propiciado ou permitido pelos próprios seres humanos.

Em realidade, gostaríamos que o mercado pudesse deter estes aterradores processos, porém os fatos demonstram que é impossível, que se impõem políticas cujo centro seja a satisfação dos direitos e o bem-estar da humanidade. Diversos países, socialistas ou não, perceberam, finalmente, que setores tão importantes como a educação e a medicina não podem converter-se em âmbito do predomínio do mercado.

O centro das políticas deve ser a solidariedade, em um mundo inevitavelmente conectado, onde um fenômeno qualquer em um país pode afetar, quase de imediato, a outra nação distante. Se prevalecerem o egoísmo e os interesses comerciais, os resultados serão calamitosos para todos, os fortes e os débeis, os ricos e os pobres. O nacionalismo estreito e o mercantilismo extremo não são remédio porque excluem a ética, além de contraproducentes.

O financiamento multimilionário de guerras genocidas, a pretensão ilusória de que um país esteja acima de outro e as ações de extermínio, como os bloqueios politicamente motivados que se praticam contra Cuba, Venezuela e Irã, não só não favorecem como atrapalham esses países a se desenvolver e a ajudar os demais, a partir de suas fortalezas e talentos —por isso, devem acabar já. Decisões agressivas contra os seres humanos, como a perseguição à ajuda médica cubana, também devem terminar; este é o momento.

Cuba segue aberta a uma cooperação solidária sem limites e, como sempre, sem ataduras políticas e ideológicas. Temos a esperança de que essas ideias se imponham e ajudem o desenvolvimento de todos e a amizade entre Cuba e Brasil.

Sobre o autor

Cônsul-geral de Cuba em São Paulo

17 de janeiro de 2020

Brasil e Cuba em 2020: amigos ou inimigos?

Situações passageiras não quebram laços estreitos

Pedro Monzón

Folha de S.Paulo

O médico cubano Michael Saavedra atende em UBS de Embu das Artes, na Grande São Paulo. Marlene Bergamo/Folhapress

A amizade entre nações não se define a partir de incidentes conjunturais. Sua origem e seu desenvolvimento residem na comunidade de traços essenciais e nas relações mantidas com o tempo, que dão lugar a vínculos estreitos —e que não podem ser quebrados por situações passageiras. É este o caso das relações entre Cuba e Brasil. 

Unem-nos atributos de nossa idiossincrasia, imaginários e tradições, que nos outorgam uma atitude e visão do mundo distintas. Compartilhamos o sincretismo religioso, fusão do africano e nativo com crenças europeias. Tudo exteriorizado em manifestações espontâneas de simpatia e sensualidade peculiares, e a geração de uma atitude e aptidão ante a cultura, a música e a dança que nos tornou universais. Como parte dessa miscigenação, compartilhamos delícias da culinária, que combina sabores africanos e europeus, moldados, como os demais, no caldeirão de nossas exuberantes naturezas.

Também nos esportes, a competência saudável se misturou com o carinho e a admiração mútuos. Essa magnífica comunicação humana não foi obstruída pelas ligeiras diferenças linguísticas.

Une-nos a dolorosa historia do colonialismo, a escravidão, lapsos de tiranias e um sentido profundo de justiça e independência. As rupturas políticas, como sucedeu a partir de 1964, durante a ditadura no Brasil, não alcançaram os sentimentos do povo e foram historicamente efêmeras e superficiais. De fato, Cuba, mesmo naquela época, se constituiu em um caloroso refúgio para perseguidos pela repressão, brasileiros que se sentem eternamente gratos.

Une-nos o esforço médico solidário de Cuba, que tocou cedo a terra brasileira quando, depois de atender a 25 mil crianças afetadas pelas radiações em Chernobil, submeteu a tratamentos médicos, também gratuitamente, dezenas de lesionados pelo grave acidente radioativo de Goiânia, em 1987. Cuba trabalhou para trasladar ao Brasil destacadas e múltiplas conquistas que incluíram vacinas vitais e outros produtos exclusivos de nossa biotecnologia.

O célebre programa Mais Médicos, que atraiu ao Brasil mais de 11 mil médicos e pessoal da área da saúde cubanos, permitiu estabelecer relações muito humanas entre nossos povos, nas quais a solidariedade, a bondade e o profissionalismo foram protagonistas fundamentais. Como resultado dessa colaboração, um grande número de estudantes brasileiros foram bem-vindos na Escola Latino-Americana de Medicina de Cuba e se formaram médicos capacitados com conhecimentos especializados e valores humanos.

O comercio bilateral mantido, a atividade das associações solidárias, a presença no Brasil de talentosos imigrantes cubanos e o vertiginoso crescimento do turismo brasileiro à Cuba multiplicou esses laços indestrutíveis. E o seguirão fazendo: nada nem ninguém conseguirá deter. Por isso, em 2020, convidamos nossos amigos brasileiros: “Venham a Cuba!”. Serão recebidos de braços bem abertos e desfrutarão intensamente de um país maravilhoso, seguro, nobre e muito amigo.

Sobre o autor

Cônsul-geral de Cuba em São Paulo

23 de outubro de 2019

Falsidades versus médicos cubanos

Não há trabalho forçado, mas sentimentos humanos

Pedro Monzón

Folha de S.Paulo

UBS da terra indígena de Massacará, em Euclides da Cunha (BA); com pressão alta, a lavradora Elza Dantas de Souza, 32 anos, teve que seguir para outro posto de saúde após a saída dos médicos cubanos. Adriano Vizoni/Folhapress

Uma mentira foi imposta nas declarações de alguns líderes políticos, mas o pior é tentar demonstrar que a colaboração médica cubana é um ato criminoso. Por trás dessa tentativa estão os Estados Unidos.

Agora os EUA pagarão US$ 3 milhões “a organizações que investigam, recolhem (...) informações sobre violações dos direitos humanos em Cuba, incluindo trabalho forçado nas chamadas missões médicas”.

Há notícias falsas que não afetam os interesses imediatos dos povos; portanto, causam confusão ou são ignoradas. No entanto, para que a campanha contra a colaboração cubana seja bem-sucedida, milhões de pessoas devem ser persuadidas: os povos beneficiados por muitos anos, os governos favorecidos e as instituições internacionais.

Também seria necessário convencer os próprios médicos cubanos que são escravos, ainda que, voluntariamente, oferecem seus serviços internacionalistas. Esses são objetivos impossíveis, tanto como convencer a Assembleia Geral da ONU de que Cuba deve ser bloqueada.

A verdade é que, desde 1963, em 164 países, cerca de 1,6 bilhão de pessoas foram ajudadas graças ao trabalho de 407 mil dos nossos profissionais de saúde. Em acidentes de contaminação radioativa (como a tragédia de Tchernóbil), fenômenos climáticos ou epidemias perigosas, como o ebola, os colaboradores cubanos ofereceram a sua participação desinteressada e decisiva. Além disso, 35 mil médicos de 136 países estudaram em Cuba, incluindo brasileiros. Em resumo, um terço de toda a assistência médica mundial se apoia em Cuba, um fenômeno sem precedentes.

Apenas uma pequena parte dos nossos profissionais de saúde ficou encantada com promessas materiais, guiadas por propósitos ignóbeis e, raramente, em troca, alguns deles dão como desculpas falsos argumentos políticos. A grande maioria permanece nos projetos de solidariedade e compartilha a história do povo de Cuba, que nunca foi caracterizado pela subordinação dócil a imposições de nível político. Se houvesse tentativas de escravizá-los, a reação teria sido uma rebelião abrupta.

Os médicos cubanos são solidários porque seu trabalho não está ligado ao mercado ou a política, mas a sentimentos humanos. Por outro lado, eles são bem remunerados no exterior e em Cuba, onde mantêm seu salário e emprego. O dinheiro restante não vai para um fluxo privado, senão para fundos que financiam um dos sistemas de saúde gratuitos mais sofisticados do mundo, o cubano; bem como o apoio de países pobres que recebem serviços médicos em solidariedade.

O Brasil tem sido um dos mais beneficiados. Antes do Programa Mais Médicos, mais de 800 mil brasileiros nunca haviam tido assistência médica. Em cinco anos, os cubanos trataram de 113,359 milhões de pacientes e cobriram 3.600 municípios —700 deles nunca tiveram um médico.

A qualidade e o humanismo de seu trabalho só podem ser qualificados pelos depoimentos de admiração e carinho daqueles cidadãos brasileiros, que hoje não possuem cobertura de saúde, o que nos entristece.

Em suma, essa nova perseguição contra Cuba é tão implacável quanto inútil e desumana.

Sobre o autor

Cônsul-geral de Cuba em São Paulo

12 de julho de 2019

Cuba merece ser castigada?

Trump reverte o pouco ganho obtido com Obama

Pedro Monzón

Folha de S.Paulo

Cruzeiro próximo a porto cubano, em junho deste ano, antes de Donald Trump anunciar novas medidas restritivas contra o país. Adalberto/AFP

Cuba é uma nação pacífica e estável, com belezas naturais e arquitetônicas excepcionais. Nela, há um povo alegre, com alto nível de educação científica e cultural. O país desfruta de um sistema gratuito de saúde, o que explica a baixa mortalidade infantil, a alta esperança de vida e o fim de doenças tropicais.

As políticas públicas levam à inexistência de uma desigualdade crítica; não há desnutrição infantil, cidadãos sem teto, tampouco moradores de rua. A segurança social é abrangente, e a delinquência, mínima. Trata-se de um dos países mais seguros do mundo, e as drogas não são um problema nacional.

Não há discriminações. A mulher é a maior força científica, universitária e política. Não se tortura e há um autóctone sistema democrático.

Cuba pratica uma solidariedade sem precedentes e promove boas relações internacionais. Crê que o mundo deve ser diverso e multipolar, sem imposições ideológicas ou políticas. É independente, respeitada e com um alto sentido da dignidade.

Então, por que castigar Cuba?

Os Estados Unidos começaram a impor sanções à ilha após o triunfo da revolução, em 1959. Esse tipo de medida, porém, nunca havia ocorrido antes, apesar da sucessão de governos repressivos que resultaram na aterradora tirania derrotada naquele mesmo ano.

Cuba, então, oferecia aos EUA recursos, lindas praias, uma música universal, rum, tabacos e belas mulheres. Serviu de centro de prazer para seus militares e mafiosos, proprietários de importantes hotéis e cassinos, onde proliferavam drogas.

Coexistia nesse ambiente “glamoroso”, rótulo então propagado, um povo miserável, com baixos níveis educacionais, serviços médicos elitistas e uma pseudodemocracia intensamente repressiva.

Surge aí o conflito: os americanos sempre buscaram manter Cuba como um país dependente, enquanto os cubanos sempre lutaram por sua independência e para implantar um sistema profundo de justiça social. Assim se explicam as agressões e o bloqueio a Cuba por mais de 60 anos.

Donald Trump reverte agora o pouco ganho obtido com Barack Obamae introduz medidas que visam asfixiar definitivamente o país. Ele impôs sanções a empresas, estatais e privadas, e cooperativas, bem como proibiu a entrada na ilha de aviões privados e corporativos, cruzeiros, veleiros e barcos de pesca, reduzindo drasticamente as visitas de americanos.

Recentemente, ele iniciou a aplicação plena da violenta Lei Helms-Burton, que fortaleceu o bloqueio e pretende internacionalizá-lo ainda mais por meio do incremento de ações judiciais coercitivas contra outros países, para impedir que negociem com a nação cubana.

Enquanto isso, a ilha introduz mudanças soberanas e democráticas necessárias em sua economia e jurisprudência para torná-las mais justas e eficientes, protegendo investimentos estrangeiros, e resistirá com o apoio da solidariedade internacional.

Pergunto: por que o castigo? Por que dificultar ao mundo que desfrute de um formoso e hospitaleiro país, assim como o acesso aos seus mercados e recursos?

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Cônsul-geral de Cuba em São Paulo

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...