11 de novembro de 2022

Se Lula não atender rápido a anseios da população, governo vai por água abaixo, diz Mantega

Ex-ministro da Fazenda diz que não será titular de pasta e elogiou economistas da equipe de transição

Fábio Pupo


Integrante do governo de transição, o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega afirma ser necessário dar prioridade máxima aos mais pobres para o governo não se enfraquecer e que isso está por trás dos questionamentos feitos por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a respeito de exigências fiscais nesta semana.

"Ele não quer começar o governo com as mãos amarradas. Porque, se não, ele não vai longe. Se ele não conseguir atender rapidamente os anseios dessa população, o governo vai por água abaixo", afirma à Folha. "Se ele fizer um governo medíocre como Bolsonaro, ele vai perder força política", diz.

O mais longevo ministro da Fazenda do Brasil diz que não será titular de nenhuma pasta novamente e afirma que Lula foi mal interpretado nesta semana, reforçando o freio de arrumação que o partido resolveu dar um dia depois de a Bolsa cair em decorrência das falas do petista.

A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, falou mais cedo em responsabilidade fiscal "em primeiro lugar" e falou que o social e as contas públicas podem caminhar juntos.

Guido Mantega foi ministro da Fazenda e presidente do BNDES (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress) - Folhapress

"Não existe antagonismo [entre fiscal e social]", diz Mantega. "Se você ouviu o discurso, ele falou [também] 'olha, eu fui o presidente que mais manteve as contas públicas equilibradas na história do Brasil'", diz o ex-ministro.

No entanto, Mantega ressalta que serão necessários gastos emergenciais no ano que vem e que é preciso estimular a taxa de investimento no Brasil, usando inclusive os cofres públicos —mas também despertando o interesse de investidores privados. "O governo Bolsonaro deixou o investimento cair e tirou o dinamismo na economia. Então nós precisamos recuperar esse dinamismo", afirmou.

Segundo ele, o governo vai precisar de uma licença de R$ 150 bilhões a R$ 200 bilhões fora do teto em 2023 —inclusive para fazer a taxa de crescimento sair do 0,5% estimado por ele em 2023. Mas isso, em sua visão, é um assunto já precificado pelo mercado.

"Esse dinheiro vai voltar, porque essa população [mais pobre] consome. Você vai ter aumento de arrecadação", diz. "Vai ajudar a mobilizar a economia. Quer dizer, não é só um gasto, é também um estímulo", afirma.

Na sequência, durante o ano que vem, deve ser discutida a nova âncora fiscal do país para guiar as expectativas de médio e longo prazo. Há diferentes formatos ainda em discussão e entre os modelos analisados está tirar os investimentos do teto de gastos.

Outro desenho analisado é estabelecer uma lógica para metas de resultado primário que variam conforme a condição da economia —necessidade de maior superávit em momentos de bonança e de um valor menor (ou até déficit) em momentos de esfriamento da economia.

Mas o assunto não é unanimidade nem dentro do PT, conta o ex-ministro. Enquanto não se chega a um consenso, começam a circular versões do que estaria em planejamento. Alguns boatos afirmam que o governo planeja uma ampla revogação do arcabouço fiscal —que incluiria, além do teto de gastos, também a regra de ouro (que evita endividamento para gastos correntes) e a própria meta de resultado primário. "Nunca ouvi falar disso e acho difícil que isso esteja ocorrendo ", diz Mantega.

O ex-ministro diz que seu trabalho na transição se limitará a remontar o antigo Ministério do Planejamento, inclusive para a pasta receber novamente a Secretaria de Orçamento Federal (hoje sob o guarda-chuva da Economia).

Os economistas escolhidos para o governo de transição na área econômica são Persio Arida, André Lara Resende, Nelson Barbosa e Guilherme Mello. Para Mantega, trata-se de uma equipe de altíssimo nível e que reúne pensamentos distintos.

"É o momento agora de a gente aproximar o pensamento para convergir em propostas que sejam satisfatórias para todos", diz. "Não significa que eles vão definir a estratégia. Já tem uma estratégia definida e eles vão ajudar nos detalhes dela", diz.

Mantega concorda com a afirmação de um deles, Arida, de que o governo não pode errar no começo. "Acho que é bastante salutar essa ideia. Não se pode queimar a largada", diz. "Mas também não se pode mergulhar na estagnação que o Bolsonaro deixou. Você não pode ficar na mesma".

Economia é secundária, o que importa são as pessoas, diz Amartya Sen

Nobel de Economia diz que o Brasil tem muito a ensinar ao mundo e pode se desenvolver com justiça social

Thiago Bethônico

Folha de S.Paulo

Vencedor do Nobel de Economia em 1998, o pensador indiano Amartya Sen prefere se conter sobre as discussões econômicas. Segundo ele, o tema já recebe atenção demais —"praticamente o tempo todo"—, e há questões mais importantes, como a liberdade e as pessoas.

Em entrevista à Folha, Sen afirma estar preocupado com ameaças à vida humana em função da intolerância política, que se espalha no mundo. "Há muitas coisas acontecendo que são perturbadoras. Se elas são ou não economicamente perturbadoras é uma questão secundária."

O Nobel de Economia Amartya Sen durante evento Fronteiras do Pensamento, em São Paulo, em 2012 - Zanone Fraissat - 25.abr.2012/Folhapress

O pensador indiano, que ganhou renome por seus estudos sobre a fome e por defender um desenvolvimento com liberdade, respeito aos indivíduos e bem-estar social, diz estar acompanhando a realidade brasileira até certo ponto.

Segundo ele, o Brasil tem muito a ensinar ao resto do mundo e, assim como qualquer país, tem a capacidade de crescer enquanto combate desigualdades.

"Justiça social não é uma fórmula abstrata. A justiça social é uma forma em que podemos ajudar uns aos outros, em que os ganhos que as pessoas obtêm podem ser compartilhados com outras pessoas", diz.

Sen publicou recentemente seu livro de memórias, lançado no Brasil pela Companhia das Letras com o título "Uma Casa no Mundo". Nele, o economista detalha como suas experiências pessoais influenciaram seu trabalho em prol da melhoria da condição humana.

A entrevista foi feita por videochamada, antes do segundo turno das eleições do Brasil.

No início do livro, o sr. fala sobre a situação na Birmânia [atual Mianmar] e aproveita para refletir sobre a intolerância política que vem ocorrendo em todo o mundo. O sr. acha que a intolerância política e regimes autoritários podem representar uma ameaça ao desenvolvimento econômico justo? Eu não sei quanto ao desenvolvimento econômico. Certamente é uma ameaça às nossas vidas. A economia é muito enfatizada com frequência. Nem tudo precisa ser julgado por seu sucesso ou fracasso econômico.

Acho que nossas vidas estão seriamente afetadas agora, seja pensando no que está acontecendo na Ucrânia, no que talvez esteja acontecendo na China, ou no que está acontecendo dentro dos limites do subcontinente indiano também. Há muitas coisas acontecendo que são perturbadoras. Se elas são ou não economicamente perturbadoras é uma questão secundária.

O sr. fala sobre a relação entre democracia e a economia de bem-estar. Quão importante é a democracia se quisermos realmente construir um modelo econômico que aborde a justiça social? A democracia é muito importante porque não poderíamos ouvir uns aos outros sem democracia. Não poderíamos prestar atenção ao que as diferentes pessoas em um país ou em diferentes países estão querendo.

A ausência de democracia, que infelizmente temos hoje em grande medida em muitas partes do mundo, nos deixa em silêncio uns com os outros. Não articulado, não aberto à conversa. Acho que isso poderia ser um fracasso radical da vida humana. Eu iria nessa direção. A questão do fracasso econômico me parece secundária.

Mas, quando falamos de modelos econômicos, o que deveria estar no centro de um bom modelo? Você está voltando para a economia [risos]. Acho que o modelo econômico pode assumir muitas formas diferentes. O principal é até que ponto há justiça, até que ponto há oportunidade para diferentes pessoas participarem de um trabalho econômico que envolva todos nós. A cooperação econômica é certamente importante.

A razão pela qual estou sendo um pouco contido em relação ao lado econômico é que o lado econômico recebe muita atenção o tempo todo. Todo mundo está falando de economia.

Disseram-me que os Republicanos vencerão a eleição e derrotarão os Democratas nos EUA. Por quê? Nos dizem que é porque os Republicanos têm uma economia melhor. O tempo todo, há um foco enorme em economia. Às vezes faz sentido, mas muitas vezes não.

O sr. tem acompanhado a situação do Brasil? Como vê o momento atual do país? Até certo ponto, sim, porque o Brasil é uma parte muito grande do mundo. Também tem sido um país muito importante, cuja experiência foi importante.

Tem sido significativamente grande em entender como lidar com, digamos, os desempregados, como lidar com o problema do analfabetismo, problema da saúde e atenção médica.

Esses são grandes problemas, sejam eles no Brasil, nos Estados Unidos, na Índia ou na China. São questões inescapavelmente importantes.

O sr. ainda acredita que o Brasil pode se desenvolver com justiça social? Sim, acho que qualquer país pode se desenvolver com justiça social. Justiça social não é uma fórmula abstrata. A justiça social é uma forma em que podemos ajudar uns aos outros, em que os ganhos que as pessoas obtêm podem ser compartilhados com outras pessoas. Então, sim, a justiça social pode ser uma característica essencial do desenvolvimento em qualquer país do mundo.

O Brasil é um país com raízes escravistas profundas. Como combater a desigualdade em suas dimensões econômica e simbólica? Não estou certo de que ir para o lado simbólico seja extremamente produtivo.

Acho que o Brasil teve uma história de escravidão em que bons estudos foram escritos indicando como a escravidão foi eliminada, como isso aconteceu, e como essa remoção de uma desigualdade básica ajuda os diferentes grupos de pessoas, pobres e ricos, a compartilharem seus esforços para construir uma estrutura econômica boa, sólida e forte.

Acho que, em grande medida, o Brasil tem tido sucesso nisso e, portanto, é algo com o qual o mundo pode aprender com o Brasil, assim como o Brasil também pode aprender com o que aconteceu em outras partes do mundo. Acho que há um pouco de compreensão um do outro, o que é central, mas o Brasil tem mais a ensinar, assim como aprender com o resto do mundo.

O que seria a coisa mais importante para aprender no Brasil com o resto do mundo? [Risos]. Não respondo a perguntas do tipo "o que é mais importante". Muitas coisas são importantes e não devem ser negligenciadas. Ao dizer apenas isso é importante ou aquilo não é, acabamos gerando uma divisão, o que não ajuda muito na compreensão da sociedade humana e de como as pessoas interagem umas com as outras.

O sr. tem um trabalho importante sobre a fome, e o Brasil é um exemplo de país que produz muito alimento, mas ainda convive com a fome. Isso soa contraditório, como explicar essa situação? Bem, você sabe que o Brasil é um país de muito sucesso, em muitos aspectos. O seu desenvolvimento econômico tem sido forte há algumas décadas. Mas, junto com esse sucesso, é possível que muitas pessoas não tenham meios de subsistência, e boa subsistência. Quando isso acontece, você pode ter privação e até fome.

Isso pode ser evitado? Sim, mas temos que ver o que faz com que as pessoas sejam privadas, e como podemos reduzir a privação e transformar isso em uma sociedade bem compartilhada.

Acho que o Brasil teve algumas boas experiências, e temos motivos para apreciar o que o Brasil tem feito. O Brasil não está sozinho nisso, houve conquistas em outros países também.

O sr. acha que programas de transferência de renda do governo são uma forma de resolver esse problema? Depende de quão bem ele é organizado. A transferência de renda tem um propósito, principalmente o de mover a renda dos relativamente ricos para os relativamente pobres.

Muitas vezes, há um argumento muito forte para isso porque há muitas pessoas pobres, mesmo em um país que seja bastante rico. Quando isso acontece, temos que ver como essas transferências podem ser realizadas com mais eficiência e como evitar as desigualdades que podem ser contraproducentes para a sociedade em geral.

Nem toda transferência é um sucesso, mas existem transferências econômicas bem-sucedidas.

Um programa de transferência de renda projetado para grupos específicos seria melhor do que um programa projetado para todos? É possível entender se o melhor modelo é o universal ou o específico? Acho que a universalidade é uma preocupação, mas compartilhar é uma questão maior. Compartilhar é um valor que tem sido valorizado pela humanidade ao longo dos séculos.

A ideia é que podemos fazer isso um pelo outro e, quando isso acontece, poderia haver um benefício que se estenda a todos e não apenas a algumas pessoas.

Diria que, sim, acho que compartilhar é uma preocupação que as pessoas devem enfatizar. Eu sou um grande crente da cultura de compartilhamento, mesmo que o compartilhamento possa assumir formas diferentes.

Como o sr. vê a discussão ambiental e quão importante é isso quando falamos de justiça social e combate às desigualdades? Acha que isso está sendo bem abordado hoje? Para cada sistema em que podemos pensar, tende a haver outro sistema que evita as deficiências e enfatiza os sucessos. Todo sistema pode ser melhorado de alguma forma? Sim, em geral. Acho que houve sucessos na performance em diferentes países do mundo.

Tendo a ser bastante otimista no geral. Não porque eu ache que tudo será um sucesso, mas nós podemos obter sucesso de uma situação que parece bastante sem esperança.

Acho muito importante não perder nossa capacidade de aprender com as diferentes experiências da sociedade. O Brasil sempre será um exemplo importante com o qual o mundo aprenderia.

RAIO-X

Amartya Sen, 89

Nascido em Santiniketan, atual Bangladesh, em 1933, recebeu o Nobel de Economia em 1998 por seu trabalho sobre a economia do bem-estar social. Professor da Universidade Harvard, é autor de diversos livros, incluindo "Desenvolvimento Como Liberdade" e "A Ideia de Justiça", ambos publicados pela Companhia das Letras.

10 de novembro de 2022

Cinco anos e meio na Folha

Convidado para a equipe de transição, deixo este espaço para não misturar as coisas

Nelson Barbosa

Folha de S.Paulo

Como alguns leitores devem saber, fui convidado para a equipe de transição de Lula, juntamente com Guilherme Mello, André Lara Resende e Persio Arida. Aceitei o convite e, por esse motivo, decidi deixar de escrever neste espaço para não misturar as coisas.

Agradeço à Folha pela oportunidade de publicar minhas opiniões sobre economia e política, com total liberdade de expressão. Foram cinco anos e meio como colunista.

Agradeço, também, aos leitores, por suas críticas favoráveis e desfavoráveis, com quem também aprendi bastante desde 2017. Mas, antes de iniciar a nova empreitada, permitam-me dois comentários.

Ex-ministro da Fazenda Nelson Barbosa - Divulgação

O primeiro é sobre um assunto recorrente: a definição da política fiscal de 2023 em diante, o que está gerando ruído e volatilidade no mercado.

Como já afirmei neste espaço, o Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa) de 2023, enviado pelo atual governo ao Congresso, está muito aquém do necessário para manter o Auxílio Brasil em R$ 600 por mês, bem como para preservar vários programas essenciais no seu valor nominal de 2022.

Do jeito que está, o Ploa 2023 prevê contração do gasto primário em 1,4% do PIB no próximo ano, um corte nunca feito em nossa história econômica recente.

Colocando de outra forma, se houver aumento de gasto de até R$ 150 bilhões em relação ao projetado no Ploa 2023, ainda assim a despesa primária de 2023 provavelmente ficará no mesmo valor de 2022, de 19% do PIB.

Antes da eleição, o próprio governo Bolsonaro já havia reconhecido a necessidade de revisar o Ploa 2023 e elevar o gasto primário. Agora parece que essa tarefa caberá exclusivamente ao governo eleito, que já iniciou discussões sobre uma "proposta de emenda à Constituição (PEC) de transição".

O formato e valor da PEC da Transição ainda estão em debate, mas, caso aprovada, acho que a proposta será o primeiro passo de uma reconstrução fiscal e econômica mais ampla, que deve incluir a revisão das atuais regras fiscais, a retomada da reforma tributária, a recuperação do investimento público, uma nova política de diversificação produtiva e o desenvolvimento sustentável (ambiental e social).

Sobre a proposta fiscal especificamente, no início deste ano eu disse que qualquer solução teria que passar na política e no mercado. Não adianta passar em apenas um deles. Já apresentei várias ideias e propostas de política econômica neste espaço. Agora irei reapresentar essas ideias e ouvir alternativas na equipe de transição.

Meu segundo comentário é coisa de nerd, recomendar um livro: "Chip War, The Fight For The World's Most Critical Technology", de Chris Miller, professor de história internacional da Tufts University (Boston, EUA). O livro saiu no mês passado e descreve a evolução do setor de semicondutores, desde a invenção do transistor até hoje.

O texto é excelente (coisa de historiador, não de economista) e cheio de informações úteis para economistas e não economistas, mesclando dinâmica de mercado, papel de políticas públicas, disputas internacionais e implicações sociais e econômicas da "revolução dos chips".

Do meu ponto de vista de economista, o livro de Miller documenta e comprova a importância do Estado no desenvolvimento tecnológico, não necessariamente via empresas estatais, mas sobretudo via estímulo à pesquisa acadêmica e inovação de mercado.

Voltando ao parágrafo inicial, agradeço especialmente o apoio de vários colegas durante minha jornada na Folha. Como diz aquele ditado popular: é na adversidade que conhecemos os verdadeiros amigos.

Hora do assassinato novamente

Tariq Ali

Paquistão em tumulto

Sidecar


Uma tentativa frustrada em Wazirabad na última quinta-feira de assassinar o ex-primeiro-ministro Imran Khan resultou em manifestações em massa por todo o país. Khan estava a bordo de seu caminhão de campanha, na longa marcha de seus apoiadores para Islamabad para exigir eleições imediatas. As balas o atingiram na perna. Foram duas ou três? Esse é o foco do debate na televisão paquistanesa. Uma dúzia de outros ficaram feridos, enquanto um pai que tentava proteger seus três filhos foi morto. A dialética de líderes derrubados ilegalmente ou constitucionalmente mantendo sua popularidade deixa o Exército extremamente nervoso. Tecnicamente, o golpe contra Khan foi legal: ele perdeu um voto de desconfiança em abril. A trapaça nos bastidores virá à tona um dia desses. O próprio Khan tinha poucas dúvidas de que a pressão dos EUA estava por trás de sua remoção. O Departamento de Estado dos EUA negou veementemente qualquer envolvimento, embora não tenha escondido sua irritação com as críticas de Khan à "bagunça" criada no Afeganistão, nem com a abstenção do Paquistão na votação da ONU para sanções contra a Rússia (o novo governo se absteve da mesma forma na última votação na Ucrânia).

Uma delegação do ISI – serviço de inteligência do Paquistão – que estava visitando o Pentágono na época dos comentários de Khan, tranquilizou seus amigos de que as políticas externa e de defesa do país eram decididas pelo Exército, não pelo Primeiro-Ministro. Isso é, claro, verdade e tem sido o caso desde que o General Zia-ul-Haq declarou lei marcial e removeu Zulfikar Ali Bhutto em 1977. Zia prometeu eleições dentro de noventa dias do golpe. Nesse caso, sugeriu Bhutto, que havia sido colocado em prisão domiciliar, todos os líderes políticos deveriam ter permissão para fazer campanha publicamente. O Exército concordou e Bhutto fez uma excursão pública, durante a qual foi recebido por grandes multidões (um quarto de milhão somente em Lahore). O general entrou em pânico. Se Bhutto fosse reeleito, ele puniria os golpistas. Portanto, uma conspiração foi fabricada para acusá-lo de assassinato e se livrar dele. Após um julgamento fraudado, Bhutto foi enforcado em 1979.

Alguns meses atrás, lembrei-me dessas cenas do passado do Paquistão. O Partido pela Justiça (PTI) de Khan é muito diferente do Partido Popular do Paquistão (PPP) de Bhutto em composição social e programa político, mas a dialética é semelhante. A remoção de Khan levou a manifestações em larga escala – seus apoiadores cantando Jo Amrika ka yar hai, Ghaddar hai, Ghaddar hai (‘Qualquer um amigo da América é um traidor, um traidor’) – e o PTI venceu uma série de eleições suplementares contra o novo governo, em Punjab, Khyber Pakhtunkhwa e na cidade de Karachi. A popularidade de Khan não podia ser questionada, mas sua demanda por novas eleições nacionais foi recusada. Ironicamente, o novo primeiro-ministro não eleito, Shehbaz Sharif, foi aconselhado por seu irmão Nawaz Sharif (um ex-primeiro-ministro) a não formar um novo governo, dado o estado do país, e em vez disso convocar uma eleição. Mas o irmão mais novo estava desesperado por poder. O Exército o apoiou, acreditando que precisava de um novo governo por mais ou menos um ano para destruir o PTI (que eles ajudaram a chegar ao poder em primeiro lugar, na esperança de que Khan fosse um político dócil).

Khan e o PTI agora estão acusando Sharif, o ministro do interior e um general sênior de estarem envolvidos no tiroteio. O suposto assassino alegou que agiu por conta própria porque estava decepcionado com os políticos e suas promessas quebradas. Ele não está sozinho nesse aspecto, mas atirar neles não mudará muito. Uma elite corrupta e violenta ligada a todos os partidos políticos e ao Exército não desaparecerá da noite para o dia. As classes dominantes no país não fizeram praticamente nada para ajudar os pobres. Se o homem que disparou as balas está trabalhando para forças mais sinistras (algo em que muitos no país acreditam), não sabemos. Foi um tiro de advertência para assustar Khan e afastá-lo da política? Se sim, teve o efeito oposto. O atirador alega que teve a ideia quando ouviu o chamado para a oração mais cedo naquele dia.

Curiosamente, a palavra assassino é de origem islâmica medieval. Ela deriva de hashashin, assassinos drogados pertencentes a uma seita xiita criada por Hassan-i-Sabbah em 1090. Eles não eram hippies pacíficos. Eles eram profissionais contratados para qualquer um que precisasse deles para fins financeiros ou políticos. Dissolvidos no século XIII, seus fantasmas pareciam ter entrado no Paquistão logo após a formação do país. O primeiro primeiro-ministro, Liaquat Ali Khan, foi assassinado em um comício político em 1951. O assassino, Said Akbar, foi morto a tiros imediatamente pelo policial veterano Najaf Khan, que por acaso estava bem atrás dele. Uma coincidência, disse a polícia. O resultado de sua morte foi o enfraquecimento da presença de refugiados no governo e no partido fundador, e a ascensão dos proprietários de terras punjabi como os principais atores do país. Bhutto foi enforcado; sua filha Benazir Bhutto foi assassinada (também em Rawalpindi). Antes disso, seu irmão Murtaza Bhutto foi emboscado e morto do lado de fora de sua casa em Karachi em circunstâncias extremamente obscuras – alguns culparam Asif Zardari (marido e viúvo de Benazir, mais tarde primeiro-ministro).

E agora uma tentativa de matar Khan. Isso mudará alguma coisa? Receio que não. As massas são cínicas, os políticos e generais estão ocupados ganhando dinheiro. Não há alternativa nacional à vista. O Movimento de Proteção Pashtun é o único grupo sério que resiste à hegemonia esmagadora do ISI. Seus parlamentares e ativistas são frequentemente presos e torturados. A colaboração do PTI nessa frente o desacreditou muito. Assim como seu fracasso total em lidar com a corrupção fora e dentro de suas próprias fileiras. Seria bom se algumas lições fossem aprendidas, e as próximas eleições fossem mais do que dois blocos sedentos por poder lutando para aumentar seus saldos bancários.

O redemoinho continua.

Brasil transformado

Lula retorna a um país mudado.

Rodrigo Nunes

Sidecar


Tradução / A eleição mais disputada da história do Brasil terminou no dia 30 de outubro com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva após derrotar Jair Bolsonaro. Quem foi às urnas sabia que não se tratava de uma eleição qualquer. Bolsonaro fez de tudo para manipular o processo democrático e ameaçou contestar qualquer resultado que não fosse do seu agrado. Mas Lula, o líder do Partido dos Trabalhadores (PT), de 77 anos, aproveitou a enorme popularidade que acumulou durante os anos em que esteve no poder e venceu com uma pequena margem o seu adversário, obtendo 50,9% dos votos frente a 49,1% angariados por Bolsonaro. Dessa maneira, recuperou parte do terreno que o PT havia perdido nas eleições de 2018 e ampliou o número de cadeiras da esquerda em um parlamento dominado pela direita. O resultado foi inédito: nunca antes um presidente brasileiro tinha sido eleito para um terceiro mandato, nem o presidente no poder tinha sido derrotado desde que foi introduzida a possibilidade da reeleição.

Há apenas três anos, a opinião predominante era de que Lula estava politicamente acabado e possivelmente destinado a passar o resto da sua vida atrás das grades após ser condenado por acusações de corrupção. Agora está de volta, mas o Brasil que vai presidir é muito diferente daquele que deixou para a sua sucessora Dilma Rousseff em 2010. A acirrada disputa eleitoral desmentiu a convicção, defendida por muitos da esquerda, de que esse continuava a ser essencialmente o mesmo país que elegeu o PT quatro vezes.

Uma vez no Palácio da Alvorada em janeiro próximo, Lula terá que lidar com uma economia em crise tanto no âmbito nacional como internacional, com o legado de seis anos de aguda disfunção institucional, com um Congresso dividido e com uma extrema direita poderosa. Embora no seu primeiro mandato Lula tenha se beneficiado do boom dos preços das commodities na virada do milênio, nenhum ganho desse tipo parece estar no horizonte e, mesmo que houvesse, a perspectiva de uma mudança climática descontrolada limita o alcance de sua eventual exploração. Dadas essas limitações, sua margem de manobra para aumentar os gastos sociais ou expandir os direitos dos grupos marginalizados será ainda menor do que em 2003.

Para compreender essas mudanças, não basta apontar a extensa rede de influenciadores online, de canais do YouTube, de grupos de WhatsApp e do Telegram, de canais de televisão, rádios e Igrejas Evangélicas, que se cristalizou em torno de Bolsonaro em 2018. Também é preciso examinar as dinâmicas de longo prazo desencadeadas pelos governos petistas nas décadas de 2000 e 2010, além daquelas que vieram à tona nos anos seguintes. Essas dinâmicas influenciaram os quatro principais motores da última campanha eleitoral: a impressionante demonstração de força de Bolsonaro, a degradação das instituições democráticas do Brasil, a ascensão do setor extrativista como força política e social e a ampla coalizão que o PT construiu. Este ensaio analisará cada uma dessas forças.

I.

Em 2018, Bolsonaro pode se gabar de ser o candidato da esperança e da mudança. Em 2022, carregava um histórico presidencial desastroso: constante turbulência política, aumento do custo de vida, corrupção flagrante, má gestão da pandemia da Covid-19. Esperava-se que esses problemas alijassem parcela considerável dos eleitores que haviam contribuído para sua vitória há quatro anos. De fato, quando os resultados foram anunciados, ficou claro que o destino de Bolsonaro foi selado pela fração do eleitorado que mudou sua lealdade para Lula no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.

Esta tendência não foi, no entanto, nem de longe tão forte quanto as pesquisas haviam previsto; em vez de perder a maioria do voto vacilante, Bolsonaro parecia ter atraído grande parte dele para seu núcleo mais fiel, que emergiu do ciclo eleitoral maior e mais coeso. Isso faz sentido, já que Bolsonaro, assim como Trump, sempre se preocupou mais em manter seus apoiadores comprometidos e mobilizados do que no dia a dia de governar. Embora essa estratégia o tenha feito perder muitos apoiadores centristas, também consolidou o bloco bolsonarista.

A coalizão de Bolsonaro se mantém unida em grande parte graças à impressionante infraestrutura de comunicação da extrema-direita. No entanto, suas origens remontam à crise econômica que eclodiu no último período do primeiro mandato de Dilma Rousseff e que desencadeou o término antecipado de seu segundo mandato, bem como às diversas reformas da previdência, do mercado de trabalho e dos gastos sociais que se seguiram. Entre aqueles que saíram da pobreza durante os anos de bonança, alcançar um padrão de vida de classe média (muitas vezes financiado com dívidas) tornou-se uma importante fonte de autoestima. A desaceleração iniciada em 2015 prejudicou o projeto de “inclusão pelo consumo” do PT, provocando descontentamento com o partido, agravado por sucessivos escândalos de corrupção.

A partir de então, uma longa tradição de “neoliberalismo de baixo” se conjugou com a propaganda libertária defendida “de cima” para produzir uma nova paisagem ideológica. À medida que o número de pessoas que trabalham por aplicativos no Brasil disparou (um aumento de 979,8% desde 2016), o subemprego, a desregulamentação e a crescente coerção econômica foram resignificados como sinais de liberdade pessoal, empreendedorismo e competição saudável no mercado, o que permitiu que setores do eleitorado recuperassem parcialmente a autoestima perdida no PT.

Ao mesmo tempo, um renovado investimento nos preconceitos de gênero, raça, religião e classe, que a direita apresentava como defesa dos valores familiares republicanos e cristãos, proporcionava uma compensação psicológica para a incerteza econômica e a redução das expectativas. À medida que a nova narrativa da crise, combinando ultraliberalismo e paranoia anticomunista, ganhou força, muitos dos que haviam se beneficiado das políticas sociais do PT chegaram a considerar seu progresso social como uma conquista individual e a culpar essas mesmas políticas, bem como os grupos e minorias que estas ajudaram, por suas tribulações atuais.

Esse sentimento de ressentimento entre a classe média baixa convergiu com outro que vinha se formando desde o primeiro mandato de Lula entre uma classe média alta presa entre os ricos, que estavam se tornando cada vez mais ricos, e os pobres, que estavam se tornando cada vez menos pobres (e assim ameaçavam seus marcadores de distinção de classe). Na campanha de Bolsonaro em 2018, esses dois estratos se uniram a uma classe capitalista que viu na queda do PT uma oportunidade de fazer avançar uma enxurrada de reformas (incluindo um teto permanente para os gastos públicos) e em Bolsonaro a oportunidade para garantir pelo menos quatro anos de predação desenfreada.

Depois de quatro anos durante os quais aconteceu exatamente isso, o Brasil é agora um país mais violento e desigual, o que, no entanto, não prejudicou necessariamente a posição política de Bolsonaro. Ao contrário, para muitos de seus adeptos, o atrativo do bolsonarismo é o que se poderia chamar de um estado de natureza diferencialmente distribuído: uma situação na qual o Estado não desempenha mais nenhum papel de mitigar as relações de poder existentes e cada pessoa é livre para exercer sua autoridade em qualquer esfera em que a exerça, mesmo que seja apenas sobre sua esposa e filhos ou sobre os grupos minoritários oprimidos.

Mesmo para quem está nas periferias, a ideia de que o Estado se mantenha à margem e se negue a intervir pode soar mais libertador do que ameaçador. Está em jogo uma forma perversa de igualitarismo: a sensação de que, se alguém é submetido a condições de vida e de trabalho cada vez mais cruéis, elas devem ser impostas pelo menos a todos, exceto, é claro, aos ganhadores em cujas fileiras se deseja ingressar e de cuja liberdade irrestrita se espera participar. Daí o paradoxal status de Bolsonaro como símbolo tanto de disciplina como de permissividade: representa uma forma de darwinismo social em que competir é operar no limite da moral e da lei, e vencer é deixar de se sujeitar às mesmas regras que os outros.

II.

No entanto, os resultados de 30 de outubro não foram um simples reflexo dessas tendências político-históricas. Seria dar muito crédito a Bolsonaro ignorar os efeitos de seu extraordinário uso do aparato estatal para apoiar sua campanha eleitoral. Essa é a segunda força motriz fundamental da disputa: embora a derrota do ex-capitão do Exército brasileiro tenha salvado o Brasil de trilhar um caminho semelhante ao da Hungria de Orbán, o processo eleitoral revelou a grande erosão das instituições brasileiras ocorrida nos últimos anos.

Embora Bolsonaro tenha prometido uma “nova política”, seu mandato na verdade radicalizou algumas das práticas mais obscuras da notoriamente gananciosa classe política brasileira. Ameaçado por investigações criminais que envolvem a ele e seus filhos, e temendo um julgamento político (impeachment) por sua resposta irresponsável à pandemia, o presidente bajulou o Congresso ao instituir um “orçamento secreto”, que desde 2020 entregou a deputados e senadores simpatizantes R$ 46,2 bilhões para serem utilizados fora de qualquer controle democrático. (Para efeitos de comparação, a investigação do caso Lava Jato pretendia recuperar 6,28 bilhões de reais desviados durante os governos do PT.)

Esse sistema, que aumenta enormemente as oportunidades de corrupção, ajudou a garantir a lealdade do Congresso, permitindo que Bolsonaro aprovasse um número impressionante de medidas clientelísticas antes da campanha presidencial. Entre elas estavam a expansão dos programas de transferência monetária, a abertura de linhas de crédito para os beneficiários desses programas, benefícios para caminhoneiros e taxistas (dois bastiões do bolsonarismo) e a redução de impostos sobre os combustíveis, tudo isso produziu uma recuperação temporária na situação econômica, dando credibilidade às afirmações de Bolsonaro de que o Brasil estava se saindo melhor do que outros países após a pandemia.

Embora Lula tenha mantido sua liderança entre a parcela mais pobre do eleitorado, essas reformas provavelmente ajudaram a fortalecer em parte o apoio que Bolsonaro teria perdido em consequência do aumento do custo de vida. Além disso, e isso é extremamente importante, essas medidas criaram um déficit fiscal estimado em pelo menos R$ 150 bilhões de reais, o que certamente limitará o programa do novo presidente.

Além dessa operação de compra de votos, Bolsonaro repetidamente criticou o processo eleitoral e sugeriu que se recusaria a reconhecer uma vitória de Lula. Cortejou abertamente o aparato de segurança, nomeou mais de 6.000 membros das Forças Armadas para cargos no governo e insinuou a possibilidade de um golpe de direita. Embora isso nunca tenha se materializado, a atuação da Polícia Rodoviária Federal, que consistiu, por exemplo, na interrupção de estradas em redutos de Lula no dia da eleição, demonstrou que não se tratava de uma ameaça totalmente vazia. Em plena campanha, até a luta contra a disfunção institucional começou a tomar contornos disfuncionais. Quando o Tribunal Eleitoral interveio para controlar a disseminação da desinformação por parte da direita, o fez de maneira legalmente questionável, alimentando assim as afirmações dos bolsonaristas de que estavam sendo alvos injustos da máquina estatal.

Tudo isso elevou a temperatura das eleições e envenenou a atmosfera política. Um de cada três eleitores, predominantemente mulheres e simpatizantes de Lula, citou a violência política como uma de suas preocupações. As tensões chegaram ao auge na semana que antecedeu o segundo turno, quando ocorreram dois grandes incidentes envolvendo aliados de Bolsonaro. No primeiro deles, o ex-deputado Roberto Jefferson, que caiu em desgraça, protagonizou um confronto armado com a Polícia Federal, que tentou prendê-lo depois que ele quebrou as condições da prisão domiciliar ao chamar uma ministra do STF de “prostituta arrombada”. Pouco depois, a deputada federal Carla Zambelli apontou uma pistola para um negro com quem teve uma briga nas ruas de São Paulo.

O presidente em exercício claramente esperava que essas tropas de choque protegessem sua posição. Após a eleição, ele ficou em silêncio durante 44 horas, consultando vários aliados e esperando para ver se os bloqueios de estradas que seus partidários protagonizaram se tornariam um movimento grande o suficiente para que pudesse contestar o resultado. Quando isso não aconteceu, fez um pronunciamento relutante de dois minutos em que não disse nada sobre seu oponente, comemorou o “verdadeiro surgimento” da direita durante o seu governo, fez algumas declarações vagas para manter vivas as esperanças entre sua base, e deixou seu chefe de gabinete anunciar que o processo de transição tinha começado.

III.

A terceira grande força motriz dessas eleições diz respeito à configuração do mapa eleitoral e à afirmação das áreas rurais brasileiras como força social e política. Bolsonaro venceu, muitas vezes por ampla margem, no Sul, Centro-Oeste e em partes do Norte do país: trata-se das terras do coração do agronegócio onde se expande a fronteira extrativista, perímetro que coincide com a expansão do desmatamento durante seu mandato. (Só na Amazônia o desmatamento aumentou 73% nos últimos quatro anos, enquanto com Lula havia diminuído 67%.)

Claro, os governos do PT estavam longe de serem inimigos da indústria extrativa; pelo contrário, seu compromisso com o boom das matérias-primas acelerou a reprimarização da economia brasileira iniciada nos anos 1990. Mais do que falar em “valores compartilhados”, o que explica a preferência de Bolsonaro pelo agronegócio era a perspectiva de uma acumulação sem obstáculos ou contrapesos, sejam elas o reconhecimento de títulos indígenas, as regulamentações ambientais ou as políticas distributivas.

Embora a maior parte das riquezas produzidas recentemente nos redutos do agronegócio tenha ido parar no bolso de um pequeno número de famílias, a vitória de Bolsonaro nessas regiões mostra que ações como o desmantelamento de órgãos estatais e o fomento da mineração e da exploração ilegal de madeira transmitiram com sucesso uma mensagem favorável àqueles que têm ambições: que seu governo apoia o aventureiro da fronteira e defende a livre iniciativa por todos os meios.

Durante o segundo mandato de Lula, a China tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil, consolidando firmemente o setor extrativista no cenário mundial. Mas foi apenas quando o setor abandonou Dilma, em 2015, que parecia ter atingido a maioridade política: nesse momento, já não se contentava mais em defender seus interesses econômicos imediatos, mas tentava impor sua agenda ao país como um todo. Com Bolsonaro, finalmente, o setor extrativista parecia perceber que uma forma ou outra de capitalismo fiscalizador – ou seja, uma situação em que o interesse em garantir o máximo de predação leva o capital a chegar a acordos diretos de divisão do poder com as forças de segurança transformadas em agentes econômicos e políticos independentes – seria o mais compatível com seu florescimento desenfreado.

A tendência histórica mais ampla nesse caso pode ser a reversão da dominação política do campo pelas grandes cidades (e pelos setores industriais e de serviços) iniciada por Getúlio Vargas na década de 1930. Essa reversão é uma consequência direta da fórmula de governo escolhida pelo PT durante a sua primeira fase no poder, que consiste em conciliar o crescimento econômico com a distribuição da riqueza, optando para isso pela linha de menor resistência e, consequentemente, utilizando a bonança proporcionada pelo boom dos preços das matérias-primas para combater a pobreza sem tentar fazer reformas estruturais em áreas cruciais, como a propriedade da terra e o sistema tributário.

A influência que esta abordagem tem dado às indústrias extrativas é tal que, como um analista apontou recentemente, tornou-se impossível governar sem o “mega-Centro-Oeste”. Embora isso seja indubitavelmente verdadeiro a curto e médio prazo, a questão para qualquer projeto político voltado para a igualdade econômica e política é se é possível governar com esse setor no longo prazo ou se continuar a alimentá-lo levará inevitavelmente a algo ainda pior do que aconteceu de 2016 para cá.

IV.

A quarta e última força motriz fundamental dessas eleições foi que o PT finalmente conseguiu materializar a frente ampla democrática que tentou construir em 2018 e que agora incorporou importantes lideranças da direita e centro-direita, que decidiram que já não podiam mais dar a Bolsonaro o benefício da dúvida. A composição do gabinete de Lula seguramente refletirá essa heterogeneidade política, bem como a necessidade de selar alianças com um parlamento de direita, mas ideologicamente diverso. Lula já afirmou que este não será um governo só do PT. No entanto, a verdadeira questão é se o PT tentará impor sua liderança à base governista ou se simplesmente tentará manter um equilíbrio, que está destinado a ser muito instável.

Durante os próximos quatro anos, o PT enfrentará novamente a pressão para combater a pobreza sem fazer reformas estruturais, mas desta vez sem as receitas provenientes do boom dos preços das commodities. Ao ingressar nas fileiras das lideranças mais jovens da chamada “nova onda progressista” na América Latina, o desafio de Lula, assim como para elas, será aprender as lições da onda anterior. Talvez a mais importante delas seja que, a não ser em uma situação revolucionária improvável, a questão nunca é fazer ou não concessões, mas sim se, mesmo quando se faz concessões, se está trabalhando para uma transformação de longo prazo do equilíbrio de forças. Caso contrário, e se não houver uma direção óbvia de viagem ou nenhuma agenda estratégica, então a linha entre a concessão e a capitulação desaparece e é provável que essas forças progressistas tenham que fazer mais e mais concessões. Dada a dupla ameaça da emergência climática e de uma florescente extrema direita, a decisão de trabalhar dentro das restrições existentes, sem se esforçar para mudá-las, inevitavelmente acabará em desastre.

As condições para uma presidência de Lula nunca foram tão desfavoráveis como agora, mas a situação também lhe oferece uma grande oportunidade: tirar o Brasil do isolamento internacional autoimposto e posicionar o país como líder mundial na luta por um Green New Deal justo, ecologicamente realista e socialmente transformador. Se essa estratégia for bem-sucedida, poderá ajudar a expandir sua margem de manobra em nível nacional. Usando uma metáfora do futebol, que o presidente eleito sem dúvida aprovaria, partir para o ataque pode ser a melhor forma de defesa. Resta saber se Lula, o político mais talentoso de sua geração, estará à altura desse desafio.

9 de novembro de 2022

O paciente jardineiro da esquerda

Mike Davis, o historiador marxista e teórico urbano, morreu em outubro aos 76 anos. Como um inovador teórico, sua abordagem singular da política é tão presciente e urgente como sempre.

Richard Seymour

New Statesman

Foto de Adam Perez

Mike Davis, o historiador marxista e teórico urbano que morreu em 25 de outubro após seis anos com câncer de esôfago, era frequentemente chamado de “profeta da desgraça”.

Sua obra singular tem uma qualidade distintamente profética. Em Prisoners of the American Dream (1986), ele antecipou uma longa recessão para o trabalho organizado e a esquerda. Em City of Quartz (1990), ele previu uma rebelião da comunidade negra perseguida de Los Angeles. Em um ensaio de 1995 sobre o complexo prisional-industrial, ele antecipou a proliferação do sistema carcerário. Em Ecology of Fear (1998), ele previu as catástrofes ecológicas que estão ocorrendo na Califórnia e em todo o mundo. E em The Monster at Our Door (2005), ele alertou sobre pandemias globais devastadoras.

Mas Davis não era um pessimista lúgubre. Ele era um socialista revolucionário, confrontando obstinadamente as dificuldades de fazer uma revolução, muitas vezes tornando-o muito mais presciente do que seus colegas de esquerda. Por trás de sua afabilidade ursina, ele era um lutador de classe: “Brigadeiro com um sorriso”, como o editor Anthony Arnove o descreveu para mim. Ele foi um inovador teórico que, talvez por nunca ter sido absorvido pela academia, quebrou as fronteiras disciplinares entre economia, história, cultura, geologia, arquitetura e sociologia política. Ele era um intelectual cosmopolita, intensamente curioso, heteróclito em suas influências, de Fernand Braudel a Peter Kropotkin, do trotskismo ao operaismo, tão confortável com obscuros textos econômicos franceses quanto documentos geológicos, ficção literária moderna ou cinema turco. Ele lia em francês - um segundo idioma era um pré-requisito para uma posição no conselho editorial da New Left Review -, mas se sentia confortável em um bar do Hells Angels. (“Você não se importa se levarmos uma surra, não é?”, perguntou ele ao jornalista Thomas Larson, a quem convidou para esse tipo de estabelecimento.) Ele também era um excelente estilista de prosa, levando muito a sério a arte de escrever. Em uma safra que inclui talentos estimados como Joan Didion e Rebecca Solnit, Davis pode ter sido um dos melhores escritores de não ficção da Califórnia.

Politicamente, ele era heterodoxo. Como organizador por cerca de 60 anos, Davis pertenceu a grupos tão variados como o Congresso de Igualdade Racial, Estudantes por uma Sociedade Democrática, Partido Comunista, Grupo Marxista Internacional e Organização Socialista Internacional. Resistente a todas as formas de monogamia doutrinária, Davis procurou construir, como recordou o historiador Jon Wiener, “uma organização de organizadores”. Como escritor e editor, tudo o que Davis disse e escreveu foi para tornar a revolução mais viável: mesmo que, como ele temia, fosse tarde demais.


Um dos mistérios do marxismo moderno é por que ele deveria estar entre as exportações pouco conhecidas da Califórnia, um estado mais conhecido por sua produção de armas, semicondutores e veículos elétricos. Além de Mike Davis, foi a pátria intelectual de intelectuais radicais como Cedric Robinson, Angela Davis e Ruth Wilson Gilmore.

O trabalho de Davis nos dá algumas pistas: desde as condições únicas do desenvolvimento capitalista da Califórnia detalhadas em City of Quartz, até os meios radicais recriados com profundidade novelística em Set the Night on Fire, a história magistral de LA na década de 1960 co-escrita com Wiener, A Califórnia tem sido, como disse Davis, um “laboratório prefigurativo” para tendências nacionais – e, portanto, internacionais.

Davis nasceu em 1946 em Fontana, uma cidade siderúrgica da classe trabalhadora fora de Los Angeles, filho de Dwight e Mary Davis. Dwight era um açougueiro, membro do sindicato e democrata registrado. Mary era uma republicana de ascendência irlandesa que deu a seu filho tanto sua simpatia pela luta nacionalista irlandesa quanto sua coragem física. Como ele disse ao San Diego Reader, sua mãe o aterrorizava para enfrentar os valentões: “Se você não sair e lutar contra aquele garoto, você lutará comigo”. Seus pais migraram do meio-oeste americano para o vale de El Cajon, 17 milhas a leste de San Diego, na Grande Depressão, antes de se mudarem para Fontana durante a Segunda Guerra Mundial.

Como Davis explica em City of Quartz, seu trabalho inovador sobre LA, Fontana só recentemente se converteu à indústria de massa. Fundada como uma “comunidade árcade de pequenos criadores de galinhas e produtores de frutas cítricas”, tornou-se uma plantação de frutas cítricas antes de ser convertida pela guerra e pelo capitalismo do New Deal em uma grande produtora de aço. A usina siderúrgica expeliu fumaça de coque e atraiu uma grande força de trabalho recrutada em todo o sul dos Estados Unidos e além, fazendo “uma bricolagem colorida, mas dissonante” de religiões e culturas. Após a guerra, a combinação de um oleoduto transcontinental e a retomada das hostilidades no Pacífico na Guerra da Coréia mantiveram a siderúrgica em atividade - e iniciaram “um problema regional de poluição de grandes proporções”. Fontana era segregada e - entre Hells Angels, Ku Klux Klan e o departamento de polícia de LA (LAPD) - fervia de violência.

Quando Davis tinha quatro anos, sua família voltou para San Diego. Como Fontana, sua história inicial foi rural, já que o vale de El Cajon cultivava tomates, uvas e frutas cítricas. Em meados do século 20, novamente sob a pressão do militarismo dos EUA, estava se industrializando. Durante a Guerra da Coréia, nos primeiros anos da infância de Davis, o complexo militar-industrial de San Diego expandiu-se para o vale de El Cajon. San Diego, Davis escreveu em Under the Perfect Sun (2003), estava mais perto de “uma utilidade privada do que uma comunidade” e um “bastião do patriotismo cristão em uma Left Coast pagã” sem sindicatos fortes ou grupos de direitos civis para contestar a influência de “capitalistas e desenvolvedores locais”. Sobrepujando a oposição local, a cidade levou incorporadores munidos de alvarás de construção para o vale, ajudando a transformá-lo no “maior subúrbio operário de San Diego”.

Quando menino, Davis era um fervoroso anticomunista e militarista, que se juntou aos Devil Pups - o equivalente do Corpo de Fuzileiros Navais dos escoteiros. Mas ele também era um ateu de mentalidade científica e rebelde por temperamento. Na adolescência, ele bebia e roubava carros até que sua mãe o entregou à polícia. Arrancado da escola por um semestre para dirigir um caminhão de carne na empresa de seu tio depois que seu pai teve um ataque cardíaco, seu despertar político começou. Lá ele encontrou Lee Gregovich, um ex-militante dos Industrial Workers of the World e do Partido Comunista, que regularmente lhe dizia: “Leia Marx!” Mas foi Jim Stone, marido de sua prima e membro do Congresso de Igualdade Racial, que transformou Davis em ativista. Como Davis disse ao escritor Adam Shatz em uma entrevista de 1997, quando ele e Stone protestaram do lado de fora de uma agência segregada do Bank of America, eles estavam entre os atacados por “marinheiros caipiras” que encharcaram os manifestantes com fluido de isqueiro e ameaçaram incendiá-los. Davis foi radicalizado.

O mundo político ao qual Davis se juntou – luta pelos direitos civis, movimento estudantil, ativismo antiguerra, protesto gay – pulsava com possibilidades e violência. Set the Night on Fire, a história desses anos em LA é, como o próprio Davis disse, o mais próximo de um livro de memórias que jamais conseguiríamos dele. Em 2014, Davis escreveu para seu amigo Jon Wiener. Eles se conheceram, lembrou Wiener, em 1970, quando Davis estava “dirigindo um centro de movimento que acabara de ser bombardeado por cubanos de direita. Eu o entrevistei para uma matéria para o Liberation News Service, uma espécie de agência de notícias da imprensa underground”. Davis queria que Wiener escrevesse o livro com ele. “Claro, ele já tinha arquivos enormes de material – ele era um pesquisador fanático.” O resultado é um relato das pessoas que lá estiveram.

Set the Night on Fire detalha o surgimento de movimentos de um único tema, então forçados a formar alianças pela brutalidade do LAPD - e frequentemente dilacerados por infiltração e vigilância ilegal por policiais locais ou pelo FBI. O livro também derruba muitos dos clichês sobre a década de 1960 - que a Nova Esquerda era liderada por estudantes universitários brancos, que a Velha Esquerda era irrelevante, que os motins negros eram amplamente destrutivos e que o orgulho gay começou em Nova York com a revolta de Stonewall. Em 1963, LA viu um dos esforços mais ambiciosos para integrar habitação, escolas e empregos por meio do United Civil Rights Committee. Em 1965, a Rebelião de Watts forjou uma nova geração de radicais negros e deu origem a uma vibrante cultura artística e literária. Em 1967, greves estudantis foram lideradas por estudantes negros e pardos do ensino médio. LA teve a primeira igreja gay e viu “o primeiro protesto de rua gay na América”, dois anos antes de Stonewall. E o Partido Comunista desempenhou um papel crítico, escrevem Davis e Wiener, “sob a liderança carismática e eventualmente herética de Dorothy Healey”.

Healey era um organizador local popular e eficaz, e Davis se tornaria seu pupilo quando ingressou no Partido Comunista em 1968. Os dois discutiam sem parar. Healey estava determinado a reconstruir as alianças da Frente Popular da década de 1930, que envolvia trabalhar com o Partido Democrata - algo que Davis não conseguiu. Mas ele a admirava por defender os Panteras Negras e apoiar a Primavera de Praga.

A vida acadêmica de Davis estava suspensa por esses anos. A partir de 1969, ele passou quatro anos trabalhando como caminhoneiro em Los Angeles. O trabalho deu a ele um conhecimento detalhado da cidade, seu tecido social e as nuances da geografia da Costa Oeste. Mas as lutas trabalhistas brutais com os patrões também cobraram seu preço: durante uma greve difícil, os sindicalistas locais queriam atirar nos fura-greves. Davis pensou que eles eram “maricas”, pegando uma arma em vez do trabalho mais difícil de ação coletiva. Finalmente, em 1973, voltou aos estudos. Com uma bolsa do sindicato dos açougueiros, ele se matriculou em um curso de graduação em história e economia na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Lá, ele caiu sob a tutela de Robert Brenner, o historiador marxista que foi pioneiro em uma interpretação radical da ascensão do capitalismo no interior da Inglaterra.

À medida que a economia global entrava em recessão e a luta de classes nos Estados Unidos e na Europa atingia um nível não visto desde a década de 1920, os partidos da esquerda revolucionária cresciam. E quando, em 1976, Davis chegou a Edimburgo como parte de seus estudos, logo se encontrou em um meio revolucionário que incluía refugiados do golpe de 1973 no Chile, o economista sul-africano Hillel Ticktin, a jovem acadêmica e futura jornalista Suzi Weissman, o escritor ativista Tariq Ali e Chris Bambery, de 18 anos, que o recrutou para o Grupo Marxista Internacional (IMG). Embora Davis tivesse grande respeito por intelectuais da tradição associada ao IMG, como o economista Ernest Mandel e o historiador Isaac Deutscher, ele não estava interessado em uma linha partidária. “Ele tinha opiniões próprias bastante firmes sobre a teologia trotskista”, Ali me disse. “Ele era um heteróclito organizacionalmente: não se importava nem um pouco com o grupo ao qual você pertencia. Ele seria amigável e ajudaria se você estivesse do lado certo.

O intelecto de Davis já era evidente para seus camaradas, mas foi um ensaio marcante em 1978 sobre A Theory of Capitalist Regulation, do economista francês Michel Aglietta, que chamou a atenção dos editores da New Left Review. O ensaio, publicado em um jornal obscuro da Costa Leste, combinou o controle hábil dos dados históricos com uma leitura teoricamente sofisticada do que ele chamou de marxismo “gaulês” de Aglietta. Mas também funcionou como uma história do capitalismo americano e da classe trabalhadora. O ensaio fazia parte da pesquisa para um manuscrito em que estava trabalhando, que se tornaria Prisoners of the American Dream (1986), sua história marcante da classe trabalhadora americana, os obstáculos para sua organização e a ameaça representada pelo reaganismo.

Em 1980, Davis foi convidado a integrar o conselho editorial da New Left Review. O tempo de Davis na NLR, um orgulhoso homem da classe trabalhadora cercado pela nobreza de esquerda, foi notoriamente tempestuoso. Sem renda, ele morava em um quarto vago na Meard Street, em Londres, e brigava frequentemente com outros editores. Em um incidente, relatado anteriormente por Shatz, ele causou problemas ao escrever para o historiador Eugene Genovese, que se queixou de ter sido deixado de lado pelo jornal: “Caro professor Genovese, foda-se”.

Enquanto escrevia Prisoners of the American Dream, Davis foi orientado pelo historiador e editor da NLR Perry Anderson, que na época estava se tornando uma eminência parda da extrema esquerda britânica. “Ficamos todos muito impressionados com a incrível energia intelectual de Mike”, lembrou Ali. “E ele tinha o desejo de aprender. Ele estava sempre perguntando o que deveria ler.” Se Anderson pedisse conselhos sobre um manuscrito, disse Ali, “você receberia um comentário de 100 páginas que poderia ser publicado como um ensaio por si só”. O resultado, porém, foi que Davis parecia muito com Anderson. “Mesmo as frases desse livro”, disse-me Andrew Hsiao, seu editor na Verso, “são nítidas, translúcidas e arqueadas à maneira de Perry Anderson”. Ali concordou: "Mike não encontrou sua própria voz. Era a voz de Perry."

Mas algo aconteceu com a escrita de Davis depois que ele voltou para Los Angeles em 1987 e retomou seu trabalho como caminhoneiro. City of Quartz abraçou uma gama muito mais ampla de referências da arte, arquitetura, literatura e economia política, e elaborou o que poderia ser chamado de marxismo popular. As frases tornaram-se mais urgentes, o estilo mais sombrio e atmosférico. A perspicácia caracteristicamente sombria de Davis emergiu e continuaria com Ecology of Fear, cuja frase de abertura sobre o sistema de tempestades de Kona no sul da Califórnia diz: “Uma ou duas vezes a cada década, o Havaí envia a Los Angeles um grande beijo molhado”.

City of Quartz não mostrou sinais de catapultar Davis para a celebridade. Os críticos acharam que era muito apocalíptico. Mas quando irromperam tumultos em 1992, as profecias do livro foram confirmadas e ele se tornou um clássico. Davis, uma figura pública reticente, foi instantaneamente requisitado para entrevistas na mídia. Mas ele estava mais interessado em conversar com pessoas que achava que poderiam fazer mudanças. Depois de conhecer a mãe de Dewayne Holmes, um membro da gangue Crips, cujo primo havia sido assassinado pelo LAPD, Davis abordou os líderes das gangues rivais de LA, oferecendo-se para mediar entre eles. Para sua surpresa, os líderes da gangue – que haviam lido City of Quartz – concordaram. Davis posteriormente descreveu os líderes da trégua como “tendencialmente social-democratas” que foram forçados a uma situação de sobrevivência pelo capitalismo racializado de LA e agora lutavam em uma “cruzada solitária” por empregos “não policiais”.

Embora Davis tenha sido nomeado Getty Scholar e MacArthur Fellow nessa época, o sucesso acadêmico continuou a evitá-lo, em parte por causa de sua teimosia militante. Em 1997, a University of South California ofereceu-lhe uma cátedra de História dos Estados Unidos. Quando descobriu que a universidade estava acabando com o sindicato dos trabalhadores da alimentação ao terceirizar os empregos no refeitório, ele atacou a Universidade no LA Weekly. A oferta de trabalho foi rescindida. Davis acabou trabalhando em uma série de departamentos de redação criativa, a periferia mais externa da academia.

Com a publicação de Ecology of Fear (1998), Davis acrescentou um novo substrato material à sua visão totalizante: os ritmos da ecologia e o que ele chamou de "a construção social do desastre 'natural'".

Desde muito jovem, Davis teve um interesse permanente pelas ciências naturais. Solicitado a descrever a si mesmo mais tarde na vida, ele às vezes confundia os amigos ao responder que era um geólogo. Em uma entrevista de 2020, ele explicou que era “um geólogo amador” desde os oito anos de idade. Sua coleção acumulada de rochas incluía “pedaços abduzidos de crosta oceânica ou partes do manto superior que acabaram na superfície”.

Agora ele combinou as ferramentas do marxismo com uma biblioteca de evidências geológicas, climatológicas e paleontológicas recônditas para descobrir como LA havia “deliberadamente se colocado em perigo” com seu assentamento perverso de “corredores históricos de incêndios florestais”, pântanos e planícies aluviais. Ele também mostrou como os imperativos da acumulação de capital, filtrados pela violência e racismo do Estado, criaram uma “dialética do desastre” na região. Em um capítulo famoso intitulado "The Case for Letting Malibu Burn", ele argumentou que, como os ecossistemas da costa de Malibu evoluíram para queimar, a supressão moderna de incêndios para proteger propriedades ricas realmente criou combustível que produziria incêndios mais catastróficos. Nos últimos anos, LA experimentou seus piores incêndios florestais da história. Ao adicionar a história natural aos métodos do materialismo histórico, Davis quebrou as fronteiras intelectuais e saiu muito à frente da maioria dos contemporâneos em sua análise da ecologia: incluindo os marxistas, que ainda não haviam enfrentado a gravidade da crise climática.

Isso inaugurou o período mais freneticamente fecundo da carreira de Davis. Ele sempre escreveu sobre o que o assustava, Wiener lembra-se dele dizendo, do LAPD ao caos ecológico. E sua imaginação não encontrou escassez de horror para escrever. Ele desfiou uma série de livros sobre desastres intensos. Em Late Victorian Holocausts (2000), ele traçou as relações entre o capitalismo, o colonialismo e as fomes do século XIX. Em The Monster at Our Door (2005), ele vasculhou pilhas de literatura epidemiológica para expor a ameaça da gripe aviária e a inadequação da preparação para uma pandemia. Em Planet of Slums (2006), ele detalhou a expansão das favelas globais habitadas por um proletariado informal. Em Buda's Wagon (2007), motivado pela ocupação do Iraque, ele recontou a história de carros-bomba. Notavelmente, no mesmo período, Davis escreveu uma trilogia de aventuras de ficção científica: “Histórias para dormir correm loucamente”, explicou ele a Wiener, escritas para seu filho mais velho, Jack.

No entanto, esses textos não eram apenas anais estilizados da catástrofe – eles apresentavam questões organizacionais. O Planet of Slums perguntou como os organizadores do futuro poderiam fundir uma força de trabalho global tão precária em uma agência revolucionária. Buda's Wagon reconheceu suas crescentes dúvidas sobre a violência política. Outras obras provocaram esperança na adversidade. Magical Urbanism (2000) examinou como os latinos estavam transformando as cidades dos Estados Unidos. Seu ensaio de 2010, “Who Will Build the Ark”, era uma meditação sobre o intelecto pessimista e a vontade otimista. Be Realistic: Demand the Impossible (2012) foi o conselho de Davis para o movimento Occupy que, como Black Lives Matter e revoltas semelhantes, o encantou. Old Gods, New Enigmas (2018), apesar de seu relato tipicamente implacável da organização em declínio da classe trabalhadora, escava a história do movimento da classe trabalhadora do século XIX para uma sociologia histórica de como a agência de classe é feita. Como explicou Hsiao, “ele estava procurando por feixes de luz”.

Embora seu ritmo de publicação tenha diminuído na década de 2010, principalmente depois que recebeu seu primeiro diagnóstico de câncer em 2016, Davis continuou a pesquisar e escrever intensamente. Seu ensaio final para a New Left Review, “Thanatos Triumphant”, foi o típico Davis. Impiedosamente honesto sobre o sacrifício da pobre humanidade por Biden aos desastres que se aproximam na sequência do mais sombrio relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas até agora, a exuberante irracionalidade militar de Vladimir Putin e o ultranacionalismo de Xi Jinping, recusou o consolo barato. Davis ironicamente ofereceu, não esperança, mas um legado desesperado de violência revolucionária a ser decifrado com urgência, na forma do Narodnik Aleksandr Ulyanov (irmão de Lenin), o anarquista Alexander Berkman e o anarcocomunista Sholem Schwarzbard. Em seu último ano, ele estava preparando um livro importante, intitulado Star Spangled Leviathan: An Economic History of American Nationalism.

A urgência que o impelia era o conflito entre as exigências da emergência ecológica ou política e a paciência necessária para fazer a mudança. Apresentando Set the Night on Fire, Davis e Wiener citaram John Densmore, o baterista do The Doors: “As sementes dos direitos civis, do movimento pela paz e do feminismo foram plantadas nos anos 60... Talvez demorem cinquenta ou cem anos para dar frutos.” Davis e Wiener concordaram, escrevendo "os anos sessenta em Los Angeles são melhor concebidos como uma semeadura, cujas sementes se transformaram em tradições vivas de resistência". Em Old Gods, New Enigmas , Davis escreveu que “o organizador clássico de base” era um “paciente jardineiro constantemente capinando a vida diária das plantas de suas inevitáveis dissensões e ciúmes”.

Mas ele temia que fosse tarde demais. “Temos que tentar”, Anthony Arnove lembrou Davis dizendo a um grupo de membros da Organização Socialista Internacional em meados dos anos 2000, “mas não há garantia de que não tenhamos passado o momento no relógio geológico em que não seremos capazes de desfazer o crimes passados e depredações do capitalismo”. Esta não é uma contradição da criação de Davis, mas, com honestidade característica e sagacidade mordaz, ele a habitou.

8 de novembro de 2022

As eleições de hoje podem dar início a um novo ataque à classe trabalhadora da América

Os republicanos estão planejando ataques da previdência social à saúde e ao movimento sindical, e espera-se que saiam vitoriosos das eleições de hoje. Para a esquerda, isso significa que é hora de começar a planejar a resistência.

Branko Marcetic


O deputado da minoria da Câmara dos EUA, Steve Scalise, fala enquanto outros republicanos da Câmara ouvem durante uma entrevista coletiva na East Steps do Capitólio dos EUA em 29 de setembro de 2022 em Washington, DC. (Alex Wong / Getty Images)

Tradução / Depois de uma breve e otimista janela de verão, as coisas voltaram a não parecer muito boas para os democratas, apenas a alguns dias das eleições intermediárias, os midterms. As urnas foram todas exatamente na direção errada para o partido, e isso com um significativo viés de eleitores republicanos que não respondem às pesquisas. Enquanto isso, o respeitado Cook Political Report indica tanto distritos democratas que devem ser apostas seguras para o partido e corridas governamentais movendo-se a favor dos republicanos.

Tudo isso aponta para o resultado esperado desde o início deste ano – ou seja, uma vitória dos republicanos, que retomarão a Câmara e possivelmente até calarão a esperança dos democratas de ter uma maioria no Senado. O que levanta a questão: o que exatamente um Congresso Republicano faria?

Um ataque à classe trabalhadora...

Nada de bom, é a resposta rápida. Algumas são as medidas padrão que esperamos do Partido Republicano, como a questão do limite da dívida, que os republicanos usaram na última década para extrair concessões dos democratas. Mais uma vez, eles se recusarão a autorizar a elevação do teto da dívida para permitir que os Estados Unidos cumpram suas obrigações, expondo os democratas à situação de ter que optar entre conceder nas demandas de cortes de gastos ou deixar o país pela primeira vez dar o calote em sua dívida – cuja consequência, segundo estimou um estudo do Congresso do ano passado, pode ser a perda de 6 milhões de empregos e US$ 15 trilhões em riqueza familiar.

Os democratas poderiam realmente ter conduzido esses movimentos enquanto ainda controlavam o Congresso, seja abolindo completamente o limite da dívida seja aumentando o teto para um número tão alto que na prática ele seria efetivamente abolido. Esta não é uma ideia marginal: ela foi sugerida pelo Brookings Institution e o comitê de orçamento da Câmara, liderado pelos democratas, e vários pesos pesados ​​do partido, incluindo o líder da maioria no Senado, Chuck Schumer, e o líder da maioria na Câmara, Jim Clyburn, apoiaram a ideia. Mas o presidente Joe Biden a descartou no final do mês passado, chamando a ideia de “irresponsável” e prometendo que “não cederia” às exigências republicanas. Embora seja encorajador ouvir isso do presidente, vale lembrar que Biden diz um monte de coisas e que o democrata de direita Joe Manchin já está falando em fazer um acordo com os republicanos sobre cortes de gastos.

Aliás, os cortes de gastos que Biden terá que rejeitar com uma arma metafórica na cabeça são previsivelmente brutais, tal como delineado em uma prévia do Orçamento de 2023 divulgada neste verão pela Força-Tarefa de Orçamento e Gastos do Comitê de Estudos Republicano. Eles planejam “salvar” o Medicare aumentando a idade em que você finalmente se qualifica para 67 anos – em um momento em que a expectativa de vida nos EUA está ficando cada vez mais baixa – abrindo-se cada vez mais para a especulação corporativa, fazendo-a “competir” (com uma mão amarrada nas costas) com seguradoras privadas, testando seus benefícios e revogando subsídios que permitem ao Medicare reembolsar os fornecedores por parte da dívida que eles acumulam quando não recebem pagamentos diretos dos beneficiários, entre outras coisas.

Eles planejam “tornar a Previdência Social novamente solvente” fazendo coisas semelhantes, inclusive: aumentar a idade de aposentadoria, só que para um patamar ainda mais alto, para 70 anos; impedir os idosos de quitarem quaisquer dívidas que tenham do pagamento a maior da Segurança Social em caso de falência; e “modernizando” a fórmula do benefício para cortar pagamentos pelo que o Comitê Nacional de Preservação da Previdência Social e Medicare uma vez estimaram que seria de 33% para os que ganham mais e 13% para os que ganham menos.

Outros planos incluem o reforço dos requisitos de trabalho para o bem-estar com base em desastrosos experimentos neoliberais em nível estadual, limitando futuros pagamentos de seguro-desemprego para impedir que o apoio à renda da era da pandemia aconteça novamente e transformando cupons de alimentação em uma doação em bloco que permita aos governos estaduais fazer com eles o que queiram. Tudo isso viria ao lado dos habituais esforços do Partido Republicano por limites draconianos de gastos e desregulamentação de Wall Street e da indústria de combustíveis fósseis, bem como abolir o imposto imobiliário e tornar permanentes os cortes de impostos de Donald Trump, apenas algumas das muitas disposições do documento de mais de 150 páginas.

Não se preocupe, porém, nem tudo vai encolher: os republicanos estão planejando garantir que o inchado orçamento militar dos EUA continue crescendo cada vez mais.

... e sobre a organização dos trabalhadores

Mas as ambições do Partido Republicano vão além disso. Tendo olhado com alarme para a crescente onda de militância trabalhista, que tem sido amplamente auxiliada pelo Conselho Nacional de Relações Trabalhistas (NLRB) de Biden, os republicanos estão planejando detê-la.

“Vamos responsabilizar o NLRB e [o departamento de trabalho]”, disse Virginia Foxx, deputada pela Carolina do Norte, membro do comitê de educação e trabalho da Câmara, para a Politico em agosto, brincando que “provavelmente realizaremos duas audiências de supervisão por dia”.

O departamento do trabalho era de longe o maior foco dos republicanos no comitê, informou o veículo, tendo enviado 26 das 57 cartas que enviaram até aquele momento durante o mandato de Biden para a agência, aparecendo em segundo lugar as oito cartas enviadas ao NLRB. Os republicanos estão planejando analisar as medidas de política trabalhista tomadas nos últimos dois anos, potenciais conflitos de interesse no NLRB, memorandos escritos por seu conselho geral e regulamentos relacionados ao sindicato emitidos pelo departamento de trabalho, bem como as intervenções do Secretário do Trabalho Marty Walsh em lutas trabalhistas, que motivaram Foxx a acusá-lo de “servir como porta-voz do Grande Trabalhismo”.

Embora o histórico trabalhista de Biden tenha sérios limites, tem sido um dos pontos positivos de sua gestão, com o NLRB em especial ativamente intervindo em batalhas trabalhistas envolvendo trabalhadores de Starbucks e Amazon. Uma onda de escrutínio e audiências públicas pode acabar com tudo isso, ou pelo menos reduzir o progressismo pró-trabalhador do governo, especialmente se um resultado ruim nas eleições intermediárias venha a induzir uma atitude mais cautelosa por parte dos funcionários.

Isso não será pior apenas para os trabalhadores, mas para o projeto socialista e a própria democracia, dado o papel fundamental dos sindicatos na manutenção do senso de eficácia política e econômica da classe trabalhadora, cuja deterioração está por trás da crescente desilusão com o sistema político dos EUA. “Se vamos salvar a classe média neste país, teremos que fazer crescer o movimento sindical”, Bernie Sanders disse aos membros do sindicato no início deste ano, pouco antes de dizer a uma multidão de trabalhadores em greve em Londres que “estamos tentando combinar sindicalistas com o movimento progressista para criar uma força econômica e política de poder real”. Por pior que sejam os democratas, a determinação do Partido Republicano de restringir ainda mais o movimento trabalhista provavelmente será um grande revés político.

Guerra com a China

Não seria uma política do Partido Republicano se não aumentasse sem necessidade as tensões com a China, e o partido quer marcar presença neste tema também. Os republicanos da Câmara estão planejando “uma cara agenda anti-China”, relatou Semafor no mês passado, envolvendo “pelo menos uma dúzia de esforços relacionados à China”.

Provavelmente inclui-se aí um novo comitê sobre a China criado pelo atual líder da minoria da Câmara e potencialmente futuro presidente da casa, Kevin McCarthy, que alguns de seus colegas veem como uma continuação de sua Força-Tarefa da China de 2020. Naquele ano, este painel divulgou um relatório com 430 recomendações, incluindo a segurança das cadeias de suprimentos, a assinatura de um acordo bilateral de livre comércio com Taiwan e uma série regulações mais rígidas para a indústria chinesa.

Essas propostas anteciparam um pouco a legislação de Biden para os chips semicondutores aprovada este ano, junto com sua recente medida para dissociar os setores de semicondutores dos dois países. Um terço das propostas legislativas daquela força-tarefa foi aprovado em uma das duas câmaras do Congresso, em grande parte no projeto de lei de autorização de defesa daquele ano, enquanto a legislação resultante para bloquear a Huawei e outras empresas de rede 5G do sistema financeiro dos EUA sob certas condições, de certa forma, prefigurava o medida recente da Comissão Federal de Comunicação (FCC na sigla em inglês) para proibir a venda de novos equipamentos Huawei nos Estados Unidos.

O ponto é que, se a força-tarefa de McCarthy teve tanto impacto quando o Partido Republicano estava na minoria da Câmara no final de 2020, será muito mais influente quando estiver na forma de um comitê seleto administrado pela maioria da Câmara – algo que a presidente democrata da Câmara, Nancy Pelosi, tinha se recusou a concordar em 2020. Enquanto isso, dois anos depois, a política anti-China tornou-se uma obsessão bipartidária, provavelmente dando mais peso a esses esforços.

Alguns dos potenciais planos anti-China do Partido Republicano para 2023 continuam o trabalho de dissociar as economias dos países enquanto se envolvem em guerra comercial de baixo grau. A Semafor informa que entre os focos dos Republicanos estão o controle das exportações das indústrias chinesas, visando o investimento estrangeiro das empresas americanas na China, a repatriação das cadeias de abastecimento nos Estados Unidos, o escrutínio da compra de terras agrícolas americanas pelas empresas estatais chinesas e o recuo no roubo de propriedade intelectual (uma queixa americana que há muito tempo se fazia sentir).

De modo mais provocativo, os republicanos também planejam atacar os abusos dos direitos humanos na China, os programas culturais do Instituto Confúcio e a influência do Partido Comunista Chinês nas universidades dos EUA. O foco na corrida espacial EUA-China a princípio parece benéfico, até você se dar conta o que isso significa em 2022, que é a aceleração dos esforços de ambas as potências para militarizar o espaço, com algumas consequências aterrorizantes.

Um ponto ainda mais perigoso é que os republicanos também cobrirão a política dos EUA em relação a Taiwan, onde as vendas de armas para o estado insular serão supostamente um “grande foco”, com o membro dos comitês de inteligência e serviços armados da Câmara, Mike Gallagher, dizendo que “há toda uma série de coisas que você pode fazer quando se trata de hard power e dissuasão em relação a Taiwan”. Isso é preocupante, porque Taiwan continua sendo o mais provável estopim de uma possível guerra Estados Unidos-China, e a erosão constante de Washington da política de décadas de “Uma China” sob Biden já provocou uma resposta ameaçadora uma vez de Pequim. Desde então, o Congresso controlado pelos democratas continuou a tensionar a política em relação à ilha de tal maneira que até mesmo um senador republicano, voltando a favor dela, descrevê-la como “altamente provocativa e belicosa”.

Em algum lugar ali no meio estão os planos dos republicanos de investigar as origens da covid-19, que McCarthy tem apontado como um objetivo central. Se de fato fosse encontrada alguma nova evidência ou se a questão fosse resolvida, a ideia poderia ser produtiva. Mas há forte probabilidade de que qualquer investigação seja politizada como mais um espaço de ataque geopolítico a ser usado contra a China.

Probabilidades e fins

Há um monte de outras coisas mencionadas no “Compromisso com os EUA”, um resumo do tamanho de um guardanapo das prioridades do Partido Republicano para sua presumida maioria vindoura.

Incluem-se aí declarações vagas e codificadas sobre “proteger a vida dos nascituros e de suas mães”, dando aos pais mais poder para impor a censura nas escolas e “garantindo que apenas as mulheres possam competir nos esportes femininos”, tudo isso aponta para uma versão mais expandida da agenda social repressiva e medieval que os republicanos têm aplicado no âmbito estadual. Também se fala de prioridades republicanas familiares, como restrições aos eleitores, prevenção da reforma da lei de armas, lei e ordem (incluindo “reprimir procuradores e promotores públicos que se recusam a processar crimes”) e “proteger a fronteira”.

Também inclui a promessa de “maximizar a produção de energia confiável, mais limpa e fabricada nos Estados Unidos e reduzir pela metade o tempo do processo de licenciamento”, uma referência inteligentemente formulada aos planos do Partido Republicano para um projeto ambicioso e longo prazo de agenda pró-combustíveis fósseis. Essas ambições foram em primeiro lugar delineadas como uma resposta à inflação em junho, o que desembolca no plano de aumentar a produção de combustível fóssil dos EUA, aumentar as exportações de gás natural liquefeito do país, expandir a energia hidrelétrica e reduzir o tempo do processo de licenciamento para projetos de infraestrutura. Com a provável continuidade das pressões sobre os preços dos combustíveis graças a uma guerra na Ucrânia sem fim à vista, e tendo os democratas já concordado uma vez com a expansão massiva da produção de combustível fóssil e permitido uma ampla revisão, esta será provavelmente uma outra avenida para um colaboração bipartidária de sucesso.

Por fim, os republicanos estão planejando uma série de investigações no Congresso destinadas em parte a envergonhar os democratas a tempo de 2024 e em parte como vingança política pelo tratamento do partido ao seu porta-estandarte, Trump. Os assuntos abordados são a acidentada retirada dos EUA do Afeganistão, as políticas de fronteira supostamente permissivas de Biden, uma possível investigação do conselheiro científico aposentado Anthony Fauci, e um olhar sobre a suposta politização anti-republicana do Departamento de Justiça, especialmente no que se refere à apreensão em agosto de documentos confidenciais de Trump em sua propriedade de Mar-a-Lago. Mas o grande tema será uma investigação sobre os negócios do filho do presidente, Hunter Biden, e se eles comprometeram o presidente, um esforço que, quaisquer que sejam as descobertas, provavelmente levará a um processo de impeachment.

Embora ambos os partidos sejam hostis a uma agenda da classe trabalhadora, os planos dos republicanos de atrapalhar a organização dos trabalhadores, atiçar a guerra, acelerar o desastre climático e destruir o que resta da rede de segurança social dos EUA, sem resistência séria, prenunciam grandes sofrimentos e retrocessos para os trabalhadores americanos. E tudo isso se tornará mais provável pelas consideráveis ​​facções democratas que provavelmente colaborarão em questões-chave. Mas com uma possível expansão dos números de membros progressistas no Congresso criando uma via para bloquear pelo menos parte disso, agora é a hora de planejar a resistência.

Colaborador

Branko Marcetic is a Jacobin staff writer and the author of Yesterday's Man: The Case Against Joe Biden. He lives in Toronto, Canada.

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