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15 de maio de 2025

Cowboy brega: Hayek é o culpado?

Hayek suspeitava que nada na reivindicação do neoliberalismo seria fácil de entender. Seria necessário algum pensamento mágico para fermentar a mistura. Ele queria elites devidamente educadas nas virtudes da economia de livre mercado, mas também as queria conscientes das maneiras como as pessoas poderiam recuar diante da experiência de viver sob tal sistema.

David Runciman


Vol. 47 No. 9 · 22 May 2025

Hayek's Bastards: The Neoliberal Roots of the Populist Right
por Quinn Slobodian.
Allen Lane, 279 pp., £25, abril, 978 0 241 77498 4

A Sociedade Mont Pelerin foi criada em 1947 com o objetivo de garantir que o aparente triunfo da liberdade sobre o fascismo na Segunda Guerra Mundial fosse entendido como uma derrota. Inspirada por seu pai fundador, Friedrich von Hayek, cujo chamado à guerra, "O Caminho da Servidão", havia sido publicado três anos antes, a organização acreditava que o preço da vitória havia sido alto demais. As sociedades democráticas ocidentais – notadamente os Estados Unidos – venceram a guerra imitando as táticas econômicas de seus rivais geopolíticos, incluindo a União Soviética: planejamento central, controles de mercado, gastos governamentais massivos e extensa engenharia social e econômica. Uma vez terminada a luta, isso se traduziu em promessas de gastos governamentais contínuos para financiar extensos programas de bem-estar social como recompensa pelos sacrifícios feitos, o que, por sua vez, garantiu a continuidade da engenharia social e econômica. Uma guerra total exigira um Estado monstruoso para processá-la. O monstro agora ameaçava devorar também a paz. A tarefa em questão era desmantelar esse Estado em nome da liberdade. Essa foi a base do neoliberalismo do pós-guerra, e a Sociedade Mont Pelerin tornou-se sua câmara de compensação intelectual.

Em uma narrativa convencional, a verdadeira vitória do neoliberalismo teve que esperar até quarenta anos depois, no fim da Guerra Fria, quando uma combinação da ascensão Reagan-Thatcher e o colapso da União Soviética sinalizou que a liberdade finalmente havia triunfado. Após longas décadas de guerrilha acadêmica, muitas vezes ingrata, as ideias dos neoliberais emergiram do submundo dos think tanks e periódicos para os corredores do poder. O planejamento central havia sido derrotado. A regulamentação estava em retirada. Os mercados eram os mestres agora. Dinheiro, ideias, pessoas: todos tinham liberdade para ir aonde pudessem encontrar o melhor retorno. Mas, como Quinn Slobodian deixa claro em sua história estimulante das origens intelectuais da alt-right, a narrativa convencional ignora grande parte do panorama.

Para muitos adeptos de Mont Pelerin, a história não se corrigiu no final do século XX, mas sim se repetiu. Mais uma vez, decidiram, o preço da vitória fora alto demais. A Guerra Fria fora vencida pela fragilidade das sociedades ocidentais em relação às panaceias da solidariedade global, da seguridade social e do empoderamento pessoal. Mesmo Reagan e Thatcher não ousaram assumir muitas das devoções esquerdistas por medo de assustar os eleitores. Como resultado, na década de 1990, outras ideias estavam em ascensão, incluindo o ambientalismo, o feminismo e a justiça racial. Todas elas – com sua insistência em corrigir a desigualdade social e as falhas de mercado – ameaçavam a integridade do capitalismo. Portanto, a luta pela liberdade precisava recomeçar.

Ao argumentar, pela segunda vez, que a aparente vitória era, na verdade, uma derrota, a nova geração de neoliberais estava sendo fiel à visão original de Hayek e, ao mesmo tempo, distorcendo-a completamente – daí o nome que Slobodian lhes dá: "bastardos de Hayek". Hayek havia compreendido que persuadir qualquer sociedade a aceitar os rigores da liberdade capitalista nunca seria fácil. O capitalismo é assustador porque é muito incerto: o ponto principal da lógica de mercado é que ninguém sabe o que vai funcionar até descobrir se as pessoas estão ou não dispostas a comprar. Mas isso também era a glória para Hayek. A livre troca de bens e ideias produzia maravilhas inimagináveis, porque o mercado conseguia enxergar coisas que nenhum ser humano conseguia. Como resultado, o prospecto neoliberal precisava ser cuidadosamente manuseado. O excesso de franqueza sobre o grande desconhecido que é a sabedoria do mercado assustaria as pessoas e as faria buscar confortos familiares. Elas precisavam de bases para manter algum tipo de fé no futuro. A religião poderia ajudar, pensou Hayek. Uma rede mínima de seguridade social também ajudaria.

Hayek baseou essa percepção, em parte, em suas observações sobre política eleitoral – os eleitores sempre precisariam de razões não neoliberais para votar em políticas neoliberais (Thatcher, com sua insistência em desempenhar o papel de dona de casa cuidadosa, instintivamente sabia disso, assim como Reagan, o cowboy piegas). Mas isso também derivou de sua leitura da teoria da evolução. Ele acreditava que a natureza humana se inclinava para o socialismo. Isso porque sentimentos tribais de lealdade – negociar com o grupo interno, matar forasteiros – nos serviram bem na savana. Naturalmente, queremos organizar nossa vida econômica de acordo com uma memória muscular da potência das obrigações recíprocas. Mas o capitalismo exige algo muito diferente. Só prosperamos verdadeiramente quando aprendemos a negociar com completos estranhos, indiferentes aos seus costumes e lealdades. Caso contrário, o mercado não consegue lançar sua rede ampla o suficiente para abranger o desconhecido. Portanto, o capitalismo é evolutivamente vantajoso – sua capacidade de gerar prosperidade em uma escala que nenhum sistema rival poderia igualar demonstra isso –, mas vai contra nossa preferência evoluída pela solidariedade social. Como resultado, Hayek suspeitava que nada na reivindicação do neoliberalismo seria fácil de entender. Algum pensamento mágico seria necessário para fermentar a mistura. Hayek queria elites devidamente educadas nas virtudes da economia de livre mercado, mas também as queria conscientes das maneiras como as pessoas poderiam recuar diante da experiência de viver sob tal sistema. Muitos membros da elite educada também poderiam recuar diante dele. Eles precisariam receber algo mais em que acreditar para manter o medo do desconhecido sob controle.

Por um tempo, essa estratégia de liberdade furtiva pareceu estar dando resultados, mas o problema para muitos membros da Sociedade Mont Pelerin era que ela havia sido muito bem-sucedida. Justamente quando o mercado parecia ter vencido, as elites ocidentais não estavam mais satisfeitas com ele. Elas queriam algo como o mercado positivo: capitalismo, com certeza, mas com maior coesão, mais integração e menos injustiças. Elas também queriam menos risco de catástrofe ecológica, uma vez que ficasse claro que a liberação do potencial produtivo humano poderia ameaçar a viabilidade do nosso habitat natural. Assim, embarcaram em novos projetos de governança global, regulação ecológica e coordenação capitalista. Este era o perigo do pensamento mágico: é difícil saber onde parar. No final da década de 1990, ele havia produzido, entre outras coisas, a Zona do Euro, que parecia exatamente o tipo de grande esquema de engenharia política e econômica contra o qual Hayek havia alertado a vida inteira. A Sociedade Mont Pelerin não estava em clima de triunfo na virada do século. Estava completamente assustada.

Ao lutar contra esse novo inimigo, alguns neoliberais acabaram invertendo o argumento de Hayek. Hayek temia que a natureza humana pudesse pressionar tanto o capitalismo que concessões teriam que ser feitas à força da solidariedade social. Mas isso foi muito além do que ele pretendia e produziu um híbrido estranho: o capitalismo solidário em escala global. A nova geração de neoliberais decidiu que a ideia da evolução humana poderia e deveria ser usada para combater esse absurdo. Se os socialistas agora acreditavam na justiça global, os capitalistas precisavam voltar à savana para explorar o poder da lealdade tribal. O neoliberalismo se transformou em paleolibertarianismo: mercados livres mais hierarquias raciais, sexuais e políticas primitivas. Hayek celebrou empreendedores dinâmicos e intelectuais livres-pensadores. Os bastardos de Hayek eram adeptos dos homens das cavernas.

Ao revelar essa reviravolta, Slobodian quer mostrar que a política da  alt-right – toda aquela pressão orquestrada descontroladamente por jovens alienados, por homens que só querem ser homens de verdade, por brancos que não querem ver bens infinitos sendo distribuídos a negros indignos – não é um repúdio à globalização neoliberal em nome dos que perderam, como frequentemente se supõe. Não se trata de uma revolta dos que ficaram para trás. É uma tentativa de resgatar o capitalismo neoliberal da globalização, inspirada por um bando de cabeças-duras que passaram a acreditar que a globalização havia se tornado um pretexto para a engenharia social em sua escala mais extrema. Essencialmente, eles achavam que Hayek havia calculado terrivelmente mal. Ele acreditava que permitir alguma solidariedade humana era um preço que valia a pena pagar pelo capitalismo global. Em vez disso, descobriu-se que o outro lado estava disposto a pagar o preço do capitalismo global em nome de alguma solidariedade humana. O globalismo se transformou na coisa que os liberais de coração mole faziam. O homem de Davos era estúpido demais para saber que havia sido enganado ou desonesto demais para deixar transparecer que estava enganando todo mundo. Portanto, só havia uma coisa para os neoliberais de dentes e garras vermelhas fazerem. Eles tinham que destruir todo o fatídico acordo.

A dinamite que usaram foi a política racial. A teoria evolucionista rudimentar foi utilizada para argumentar que havia hierarquias de liberdade: alguns tipos de pessoas – basicamente, os brancos (embora os asiáticos orientais às vezes pudessem dar uma olhada) – eram mais adequados a ela do que outros. O argumento era que podemos viver livres e prosperar, desde que nos limitemos a fazer negócios com os nossos semelhantes. Quando começamos a nos dobrar para deixar todos os outros participarem, simplesmente arrastamos todos para baixo. A prova número um da nova reação racial – embora, como diz Slobodian, tenha sido na verdade uma "reação frontal", visto que esses empreendedores intelectuais estavam determinados a se antecipar – foi The Bell Curve, de Richard J. Herrnstein e Charles Murray, publicado em 1994, que defendia que as diferenças de QI entre grupos raciais deveriam ser levadas em consideração na formulação de políticas. Mas Slobodian mostra que isso era apenas a ponta de um iceberg do tamanho do Monte Pelerin: não era preciso procurar muito nos anos 1990 e depois para ver os neoliberais desbravadores começando a defender a causa do grupo interno em detrimento dos demais.

Tudo isso deveria ser antitético ao capitalismo como Hayek o entendia. Excluir pessoas com base na raça sugeria fronteiras, barreiras e restrições, não a abertura e a indiferença à origem das quais depende o dinamismo do mercado. Mas os novos neoliberais não se importaram, principalmente porque tinham um modelo anterior de capitalismo dinâmico no qual se basear. Os defensores do livre comércio do século XIX geralmente também eram imperialistas, que sabiam que uma maneira de enriquecer era controlar o mundo e manter todos em seu devido lugar, em vez de permitir a liberdade para todos. Além disso, eram racistas (praticamente todos no século XIX eram racistas). Nada disso impediu que a economia global se expandisse rapidamente e que as pessoas no topo se saíssem melhor do que todos. Etnopolítica não significa apenas um etnoestado com fronteiras implacavelmente policiadas. Pode também significar uma etnoeconomia na qual o mercado exerce sua magia para as pessoas que entendem como fazer o melhor uso dele. As pessoas que não entendem não têm a chance de participar. São arrebanhadas para as margens, onde pertencem.

Havia dois problemas com esse argumento. Primeiro, a ciência racial em que se baseava era completamente falsa. O QI era tratado como uma ferramenta estatística rigorosa, em vez de uma referência aproximada e pronta que pode fazer praticamente o que você quiser. A evidência de que, em quase todas as medidas, há diferenças muito maiores dentro dos chamados grupos raciais do que entre eles foi ignorada. Dados supostamente concretos eram frequentemente apenas uma coleção de anedotas. Segundo, os novos neoliberais abandonaram a fé em um futuro incognoscível e indefinido, que Hayek acreditava ser a essência do dinamismo capitalista. Em vez disso, a história agora era que tudo estava indo por água abaixo e que era hora de levantar a ponte levadiça. O etnocapitalismo se baseava na premissa de que estaríamos bem próximos do fim dos tempos, a menos que começássemos a assumir um controle mais imediato sobre o que aconteceria em seguida – e a preparação pode acabar soando muito parecida com planejamento. Essa era uma doutrina profundamente pessimista, repleta de pressentimentos sombrios sobre a iminente conflagração das raças. Hayek acreditava que eram precisamente esses medos primordiais do desconhecido que precisavam ser eliminados de nós pela educação. Os "paleos" e seus novos amigos neoliberais achavam que esses medos precisavam ser alimentados por qualquer combustível que pudessem encontrar.

Apesar dessas desvantagens, a nova versão do neoliberalismo tinha duas vantagens. Havia muita gente comprando o que essas pessoas estavam vendendo: se você está no ramo do preconceito racial, não precisará procurar muito por clientes. Alguns dos compradores tinham dinheiro para queimar e, assim, os neoliberais da próxima geração conseguiram financiamento: conseguiram criar uma nova rede de think tanks e fóruns de discussão, puderam espalhar a notícia por meio de seus boletins informativos, sites, canais do YouTube e podcasts, e descobriram que alguém – Charles Koch, por exemplo – geralmente estava disposto a pagá-los para continuar publicando. Descobriram também que era possível ganhar um bom dinheiro vendendo apocalipse. Nesses sites e canais do YouTube, uma mensagem de catástrofe iminente era invariavelmente acompanhada de anúncios de coisas que poderiam protegê-la: pílulas e proteínas em pó para prepará-lo para um mundo em que apenas os mais aptos sobreviverão, livros e vídeos para explicar o que estava em jogo e, acima de tudo, ouro – compre! Troque! Acumule! (o ouro tem sido há muito tempo o refúgio financeiro do racista aterrorizado). Esses eram os dois prazeres de estar na direita alternativa: alimentar conflitos iminentes e ganhar uma boa comissão.

A outra vantagem dessa versão do neoliberalismo é que seus proponentes da alt-right não foram os únicos a aumentar as apostas. Embora Slobodian não queira realmente abordar o assunto, a alt-left estava igualmente disposta a levar as coisas para o próximo nível. Isso aconteceu na política ambiental (Just Stop Oil!), na política de rua (Antifa!), na política de gênero (Mulheres Trans São Mulheres!). Independentemente do que você pense sobre os méritos dessas posições específicas, não há dúvida de que quanto mais a temperatura subia, mais ambos os lados se entrincheiravam. Enquanto a direita encontrou uma espécie de consolo em sua retomada da biologia, a esquerda encontrou consolo em abandoná-la. E nesse mercado específico, receio, a nova direita tinha o produto mais fácil de vender.


A história de Slobodian é fascinante, mas o problema com seu relato é que ele não se interessa muito em explorar como as ideias que descreve chegaram ao mainstream, ou o que mais precisou acontecer para que isso fosse possível. Ele se contenta em rastrear as ideias até suas fontes e persegui-las pelos obscuros departamentos universitários, boletins informativos mal-humorados e estranhas saídas de trabalho onde elas surgiram. Ele tem um elenco variado de personagens – como o de cabelos bufantes Peter Brimelow, que começou como um thatcherista bastante comum no Reino Unido e acabou nos EUA como um supremacista branco, ou Murray Rothbard, que passou do paleolibertarianismo para a promoção de David Duke e da negação do Holocausto – mas depois de um tempo é difícil distingui-los. É difícil ter uma noção de quais ideias importaram mais, quais alianças ganharam força real, quais pessoas sabiam o que estavam fazendo politicamente e quais delas realmente não se importavam. As origens neoliberais da direita populista são tratadas como se existissem em uma espécie de vácuo ideológico, as várias ideias se sobrepondo à medida que descobrimos repetidamente que algumas pessoas ruins conheciam muitas pessoas que eram ainda piores.

Há indícios iniciais da loucura que está por vir. A preocupação de Trump em 2024 com imigrantes haitianos comedores de cães e gatos ("Eu vi gente na televisão!") provavelmente remonta às histórias assustadoras sobre imigrantes haitianos com Aids, com as quais ele provavelmente estava familiarizado na década de 1990. Naquela mesma década, Brimelow já canalizava seu Bertolt Brecht interior para reclamar que a política de imigração dos EUA significava que o governo federal ‘estava literalmente dissolvendo o povo e elegendo um novo’, que é mais ou menos como Trump acha que Biden roubou a eleição presidencial de 2020 (mortos e imigrantes ilegais nas listas eleitorais). É divertido ver as líderes de torcida da nova direita tendo que se virar do avesso para acompanhar. Na década de 1990, o Wall Street Journal notava com aprovação que as únicas pessoas que pediam fronteiras literalmente abertas eram os neoliberais radicais que acreditavam que todas as barreiras à liberdade de movimento eram uma restrição ao funcionamento eficiente do mercado de trabalho internacional. Agora que a direita trumpista pensa que os defensores das fronteiras abertas são comunistas e traidores, o Wall Street Journal mudou um pouco de tom.

Mas fornecer uma ladainha de links de lá para cá não é o mesmo que dar sentido a tudo. Esse tipo de história parece muito atual. Talvez seja um pouco fácil demais hoje em dia rastrear as conexões em uma infinidade de fontes online, seguindo cada ideia para qualquer câmara obscura que ela possa levar. Todos nós fazemos isso. Enquanto lia este livro, eu mesmo persegui Slobodian por uma série de podcasts tentando descobrir o que ele tinha a dizer sobre Trump, Musk e tudo mais. Cheguei ao meu limite quando assisti a um episódio de Trashfuture e o ouvi discutindo a concepção original de "meritocracia" de Michael Young, algo que ele explora detalhadamente no livro. Ele teve que fazer uma pausa enquanto seus apresentadores apontavam que Michael Young é (rufem os tambores) o pai de Toby Young, um guerreiro da liberdade de expressão, e todos reservaram um momento para saborear o significado requintado e irônico desse detalhe. Tudo se conecta! Mas é claro que sim: tudo se conecta se você olhar longa e atentamente o suficiente, o que significa que a mera conexão não é suficiente para sustentar o argumento. Slobodian tem uma tese interessante sobre como as ideias de Hayek foram viradas do avesso, mas ela parece superdeterminada e subteorizada. "Bastardos de Hayek" é um livro curto – 176 páginas – mas tem 52 páginas de notas e uma bibliografia de 38 páginas. Algo está fora de sintonia aqui.

Também falta algo. Slobodian dedica um tempo rastreando a alt-right até o Vale do Silício, onde ideias distorcidas de hierarquia racial e intelectual têm um lar há muito tempo. A Universidade Stanford, como ele aponta, foi fundada por um eugenista. Mas ele não tem muito a dizer sobre o lugar das ideias de tecnologia na guerra pelo legado de Hayek, embora seja provavelmente onde se encontra o cisma mais profundo na nova direita. O próprio Hayek acreditava que a inovação tecnológica era a principal demonstração das virtudes da economia de mercado, e muitos de seus seguidores concordariam. O problema com as sociedades planejadas, na visão deles, é que elas ficam presas reciclando o que já existe. Sociedades de livre mercado tropeçam em um futuro que ninguém poderia ter previsto. A União Soviética acabou com TVs explodindo, carros que pareciam brinquedos e Chernobyl. Os Estados Unidos, por sua vez, criaram a internet. Os discípulos de Hayek às vezes quiseram enquadrar essa diferença em termos evolucionários. Os mercados permitem que as ideias se fertilizem e sofram mutações, onde a engenharia social invariavelmente leva à endogamia. Matt Ridley, autor de The Rational Optimist: How Prosperity Evolves (2010), um manifesto para aqueles que desejam manter a fé no futuro aberto de Hayek, disse que a internet é o que acontece quando o computador pessoal faz sexo com o telefone. E isso não pode acontecer fora de uma economia de mercado.

Mas há duas maneiras pelas quais Hayek pode ser usado para argumentar algo diferente. Em sua própria compreensão da evolução humana, continuamos a depender de formas de conhecimento "tácito" que estão além do alcance dos computadores. Foi a capacidade humana inata de navegar pela incerteza que nos permitiu interagir uns com os outros no mercado. Como resultado, somos capazes de usar o poder oculto do mercado para construir computadores, mas eles não deveriam ser capazes de usá-lo para nos construir. É claro que Hayek não tinha ideia do que poderia se tornar possível na era da IA, quando os computadores estão cada vez mais hábeis em imitar todas as formas de conhecimento – tácito, tácito, até inconsciente – que os seres humanos possuem. Ele estava pensando em tentativas anteriores, desajeitadas, de usar a tecnologia computacional para administrar a economia, como o fracassado Projeto Cybersyn no Chile de Allende, que prometia gerenciar preços e bens em tempo real e nunca foi além de se assemelhar a um cenário de filme de ficção científica ruim. Pode ser que a mais recente tecnologia de IA em breve seja capaz de "executar" a liberdade como Hayek a entendia. Talvez a libertação não seja apenas para humanos, afinal. Mas há motivos para os hayekianos ficarem nervosos com as ambições do Vale do Silício nessa área – sem falar no que está sendo tentado por seus rivais chineses. O objetivo do mercado era nos permitir realizar nosso potencial. Se existem entidades não humanas que se saem melhor em condições de mercado do que nós, isso não seria um bom motivo para fechar o mercado?

A outra tensão no legado de Hayek é mais diretamente visível na própria nova direita. O mercado realmente construiu a internet? Afinal, suas verdadeiras origens remontam à Guerra Fria, quando os enormes gastos do governo americano com tecnologia – muitos deles supérfluos, alguns francamente paranoicos – dificilmente se adequavam ao modelo de inovação de Hayek (esta história começou com Hayek querendo que os estados parassem de se comportar em tempos de paz como se a economia em tempo de guerra fosse um estado permanente). Mais significativo, os gastos estatais continuam a desempenhar um papel importante em muitas histórias de sucesso do Vale do Silício. Veja a SpaceX, a Alphabet, a Amazon Web Services (o braço de computação em nuvem que impulsiona a lucratividade da empresa): todas elas realizam grande parte de seus negócios com contratos governamentais e também se beneficiam de amplos subsídios. Será que as novas gigantes da tecnologia realmente se livraram do apoio governamental ou são apenas recipientes inchados para as esmolas dos contribuintes?

Uma pessoa muito atenta a essa questão é Steve Bannon, de uma vez por todas um stormtrooper MAGA (agora ele tem a pena de prisão para provar isso) e, em muitos aspectos, um improvável discípulo de Hayek. Mas em 2018, falando ao lado de Marine Le Pen em um congresso do partido Frente Nacional (como era chamado na época), Bannon invocou Hayek para atacar as forças que estavam sufocando a liberdade em todos os lugares:

Os governos centrais, os bancos centrais e as empresas de tecnologia capitalistas de compadrio controlam você e o levaram por um "caminho para a servidão" de três maneiras. Os bancos centrais estão no negócio de desvalorizar sua moeda, o governo central está no negócio de desvalorizar sua cidadania e os poderes tecnológicos capitalistas de compadrio estão no negócio de desvalorizar sua personalidade. Hayek nos disse: o caminho para a servidão passará por esses três.

Hayek não nos disse isso, como Slobodian aponta ao citar este discurso (embora seja interessante especular o que ele teria feito com o argumento). Slobodian acha notável apenas que até mesmo um neandertal como Bannon tenha falado sobre o nome de Hayek, mas não discute as implicações. Essa linha de pensamento é a razão pela qual Bannon detesta tanto Musk, a quem ele descreveu recentemente como um "imigrante ilegal parasita". Uma ala da alt-right acredita que o Vale do Silício é um modelo para o futuro: renegados como Curtis Yarvin (também conhecido como o blogueiro Mencius Moldbug) adoram a maneira como os titãs da tecnologia administram suas empresas como se fossem feudos medievais e gostariam de transformar todo o governo federal em uma gigantesca corporação de tecnologia. Mas outra ala do mundo de Trump acredita que essas empresas são aproveitadoras malvadas, administradas por globalistas secretos (o Vale do Silício não está nem um pouco interessado que as restrições à imigração incluam engenheiros de tecnologia da Ásia ou de qualquer outro lugar). O que Trump pensa? Só Deus sabe. Mas essas pessoas são todas bastardas de Hayek, cada uma à sua maneira, e não é difícil imaginá-las eventualmente se despedaçando.

28 de janeiro de 2025

Hora da alimentação no cocho

David Runciman sobre as perspectivas para o segundo mandato de Trump

David Runciman


Vol. 47 No. 2 · 6 February 2025

Os discursos que os presidentes americanos fazem no dia de sua posse não fazem muita diferença para nada. Alguns deram frases ressonantes à linguagem ("Os melhores anjos da nossa natureza", "Nada a temer além do próprio medo"), mas a maioria é logo dobrada e arquivada junto com o evento como um todo. Como os juramentos de coroação de reis medievais, essas são ocasiões para prestar homenagem à piedade antes que o negócio sério de governar comece, momento em que as palavras tendem a ser esquecidas. O único discurso inaugural com alegações de ter moldado decisivamente o que se seguiu ocorreu em 1841, quando William Henry Harrison — "Velho Tippecanoe" — estava tão ansioso para mostrar que era capaz de observar as propriedades que fez uma dissertação de duas horas sobre o governo constitucional sem casaco ou chapéu no inverno frio e chuvoso de Washington. Ele pegou um resfriado e em um mês morreu do que foi amplamente assumido como pneumonia, embora, dado o estado do encanamento da Casa Branca na época, seja igualmente provável que tenha sido tifoide.

Embora não seja possível prever muito sobre uma administração presidencial a partir do que é dito no início, esses discursos fornecem uma boa lente através da qual podemos olhar para trás, para as preocupações da época. O discurso de Harrison estava principalmente preocupado com os perigos de concentrar poder em qualquer ramo do governo, particularmente o executivo. Ele se esforçou para salientar que não faria um despotismo da presidência, algo que ele achava que aconteceria se alguém servisse mais de quatro anos naquele cargo. Então ele fez uma promessa pública de que "sob nenhuma circunstância consentirei em servir um segundo mandato", uma promessa que ele foi capaz de manter à sua maneira. A maioria de seus sucessores imediatos seguiram o exemplo como presidentes de um mandato, com apenas os líderes da Guerra Civil Lincoln e Grant — verdadeiros déspotas aos olhos de seus oponentes — garantindo a reeleição. Em 1893, Grover Cleveland se tornou o único homem antes de Trump a retornar à presidência após ter sido derrotado quatro anos antes (o homem que o derrotou foi o neto de Harrison, Benjamin, que ganhou a Casa Branca apesar de perder o voto popular). Em seu segundo discurso de posse, Cleveland não fez menção à vindicação ou a ter sido roubado da última vez. Em vez disso, ele se concentrou nos males do paternalismo crescente e na crescente dependência dos americanos do apoio do governo. Ele prometeu restaurar a frugalidade e a eficiência da administração pública eliminando todas as reivindicações injustificadas sobre o dinheiro do contribuinte. O sucessor de Cleveland foi William McKinley, o homem que parece ter substituído Lincoln como o antecessor favorito de Trump. Em seu primeiro discurso de posse, McKinley falou longamente sobre a necessidade de dinheiro sólido, bem como insistiu na "economia mais severa" nos gastos públicos. Em sua segunda posse, quatro anos depois, ele se gabou de ter alcançado ambos, ao mesmo tempo em que reafirmou o poder americano no exterior.

O discurso de Trump na segunda-feira não se pareceu em nada com o de McKinley. Não foi apenas arrogante, mas surpreendentemente narcisista. Ao contrário de Cleveland, ele se deleitou com seu retorno e forçou seus oponentes derrotados a passar por uma destruição completa de seu histórico. Ao contrário de Harrison, ele trouxe seu público do frio brutal e fez tudo isso no ambiente aconchegante da Rotunda do Capitólio. No entanto, apesar disso, há algo do século XIX na política de Trump. Ele citou McKinley — um "grande presidente" e um "empresário nato" — como alguém que usou a política tarifária para enriquecer a nação. Ele não mencionou o dólar, mas também não, mais surpreendentemente, discutiu criptomoedas, apesar do fato de que a recém-lançada memecoin $TRUMP parece destinada a render bilhões à sua família. Ele lembrou seu público das economias prestes a serem liberadas pelo Departamento de Eficiência Governamental, enquanto seu chefe de corte de custos, Elon Musk, observava amorosamente. Ele falou sobre mudar nomes no mapa. Ele prometeu uma nova era de espírito de fronteira e engrandecimento internacional. Ele parecia desejar que fosse 1896 novamente.

O período da política americana que Trump realmente quer relegar aos livros de história é aquele que acabou de passar. Ele faz os pronunciamentos de seus antecessores imediatos parecerem como se fossem de outra era. O segundo discurso de posse de Obama em 2013 agora parece o catecismo empoeirado de uma era passada. "Não podemos confundir absolutismo com princípio", disse ele, "ou substituir espetáculo por política, ou tratar xingamentos como debates fundamentados". Acontece que sim, podemos. A América, insistiu Obama, "responderá à ameaça das mudanças climáticas... O caminho para fontes de energia sustentáveis ​​será longo e às vezes difícil. Mas a América não pode resistir a essa transição". Ele tomou como certa uma narrativa de progresso social: uma estrela-guia "que ainda nos guia, assim como guiou nossos antepassados, por Seneca Falls, Selma e Stonewall". "Preservar nossas liberdades individuais", disse ele, "requer, em última análise, ação coletiva". Ele não estava errado. Mas ele estava enganado.

O segundo discurso de posse de Trump foi o de Obama com tudo virado do avesso. Não foi simplesmente sua celebração dos combustíveis fósseis – "ouro líquido" – e sua recusa em aceitar qualquer vocação maior do que ganhar dinheiro com petróleo. Nem foi seu orgulhoso anúncio de que o nome do pico mais alto da América do Norte, Denali, no Alasca, seria restaurado para Monte McKinley (Obama reconheceu oficialmente o nome usado pelos habitantes indígenas e pelo Estado do Alasca em 2015). O que o tornou tão completamente diferente foi a recusa de Trump em ser reverente, mesmo quando a ocasião parecia exigir. Sua falta de piedade é seu cartão de visita único como político e como presidente. Obama e seus redatores de discursos se deleitaram com a exigência do discurso de posse moderno de adaptar qualquer mensagem política à ideia de que há algo no experimento americano e na experiência americana que transcende a mera política. Trump e seus redatores de discursos se deleitam com a rejeição de tudo isso. Cada discurso de posse antes do primeiro de Trump — e agora o segundo — pelo menos acenou para a noção de que a administração que viria era parte de algo maior e mais duradouro do que ela mesma. McKinley fez isso. Nixon fez isso. Bush fez isso. Trump vê o que for maior e mais duradouro como simplesmente uma parte de sua futura presidência.

Isso é mais aparente quando Trump é forçado a jogar junto como se fosse como os outros políticos. Ele não consegue fazer isso por mais de um momento. Desta vez, na preparação para sua posse, ele sentou-se impassível durante uma introdução tradicionalmente nobre da senadora Amy Klobuchar — lá como presidente do Comitê Conjunto do Congresso sobre Cerimônias Inaugurais — embora até ele se sentisse obrigado a se juntar aos aplausos rituais quando ela prestou homenagem ao heroísmo dos bombeiros lutando contra os incêndios em Los Angeles. Quando chegou sua vez, alguns minutos depois, no entanto, ele destruiu o esforço de resgate e, dependendo de como você interpreta suas observações, se entregou às custas daqueles que sofreram as consequências ou deram um aceno aos teóricos da conspiração ('Algumas das [pessoas] sentadas aqui agora não têm mais um lar... Isso é interessante'). Em seu discurso, ele fez o que os presidentes empossados ​​costumam fazer, listando as barreiras aparentemente intransponíveis que os americanos superaram no passado para mostrar que eles poderiam fazer isso de novo. Foi uma recitação bastante convencional - '[Nós] vencemos o Velho Oeste, acabamos com a escravidão, resgatamos milhões da tirania, tiramos bilhões da pobreza, aproveitamos a eletricidade, dividimos o átomo, lançamos a humanidade aos céus e colocamos o universo do conhecimento humano na palma da mão humana' - e adequadamente adaptado poderia ter vindo dos discursos de posse de muitos de seus antecessores. (Também é estranhamente próximo da peroração no final do filme Uma Verdade Inconveniente de Al Gore, onde ele lista os triunfos da América contra todas as probabilidades para insistir que se eles conseguissem tudo isso, eles também poderiam consertar as mudanças climáticas.) Mas Trump, de forma única, coroa a história da conquista americana com uma realização final e incomparável, uma personificação viva da máxima "Não há nada que não possamos fazer e nenhum sonho que não possamos alcançar". "Muitas pessoas pensaram que era impossível para mim encenar um retorno político tão histórico. Mas como você vê hoje, aqui estou eu... Estou diante de vocês agora como prova de que vocês nunca devem acreditar que algo é impossível de fazer". Não há nada que Trump não possa reduzir ao seu nível.

O erro que muitos de seus oponentes cometeram é assumir que sua ausência de reverência é uma fraqueza que eles podem explorar. Michelle Obama não compareceu à sua segunda posse (ela sentou-se estoicamente durante a primeira), tendo deixado claro que ela não tem mais estômago para esse tipo de coisa. Quando Trump foi um daqueles que zombavam e menosprezavam seu marido durante seu segundo mandato, ela disse a famosa frase: "Quando eles vão para baixo, nós vamos para o alto". Como isso funcionou? Por muito tempo, incluindo durante sua primeira administração, tem sido tentador para os democratas pensar em Trump como alguém que zomba dos ideais do serviço público, como se ele fosse algum tipo de brincalhão incendiário, o garoto que ateia fogo nas vestes do padre enquanto ele tenta fazer um sermão. Mas não é isso que ele é. Ele é mais como o garoto que assistiu a muitos sermões intermináveis ​​pensando em como ele poderia se divertir se estivesse lá em cima. Atear fogo em tudo é uma maneira de levar isso a sério. Assumir o controle é uma maneira de fazer com que seja o que você quiser.

Trump não é o fim do sistema americano de governo constitucional. Mas ele é uma inversão dele. Ele representa muitas das coisas contra as quais ele foi criado para se proteger, incluindo a política de queixas pessoais e ganância privada. Seus antecessores do século XIX teriam visto isso mais claramente do que alguns de seus predecessores imediatos, para quem a política tendia a ser reduzida a considerações eleitorais em vez de constitucionais. A questão que os oponentes de Trump querem que seja respondida é se ele pode se safar. Sua coalizão se manterá, suas políticas sairão pela culatra, seu partido recuará, seus rivais farão um círculo, suas líderes de torcida perderão o ânimo, ele encontrará uma resistência eficaz? Mas há outra questão. O que acontece quando ele se safa? A linguagem política americana tradicional tem uma palavra para o que vem a seguir. É chamado despojos.

A visão da política que Trump expôs em seu segundo discurso de posse — muito mais do que no primeiro — não é diferente de um esquema para ganhar dinheiro. As palavras "rico" ou "enriquecer" apareceram quatro vezes; a palavra "dinheiro" apareceu com a mesma frequência. Ele anunciou a criação de um "Serviço de Receita Externa" para coletar todas as tarifas, impostos e receitas. "Serão enormes quantias de dinheiro entrando em nosso Tesouro vindas de fontes estrangeiras." Não houve menção se o Congresso aprovaria tal esquema, e nenhuma discussão sobre quem o policiaria. Ele disse que embarcaria imediatamente em uma série de ordens executivas projetadas para proteger a fronteira e instruiria seu gabinete a reduzir os preços. Novamente, nenhuma menção de como. O novo Departamento de Eficiência Governamental pretende cortar trilhões de dólares do orçamento federal. Mas também significa supostamente colocar o poder de contratar e demitir nas mãos do homem mais rico do mundo. Você não precisa ter um governo massivamente inchado para operar um sistema de espólios, como os políticos do século XIX entendiam. Tudo o que você precisa é de um governo irresponsável. De muitas maneiras, é mais fácil se o escopo for mais restrito. A corrupção prospera na política de relacionamentos pessoais e feudos privados. Inevitavelmente, os relacionamentos pessoais de Trump irão corroer rapidamente, como aconteceu na primeira vez. É improvável que ele e Musk permaneçam amigos por muito tempo. Mas desta vez ele assume o cargo com muito mais clientelismo à sua disposição, dado seu mandato seguro, o controle de seu partido sobre os vários ramos do governo e sua determinação de não deixar a oportunidade escapar. A presença em sua posse dos homens mais ricos da América — o desgrenhado Zuckerberg e o brilhante Bezos ao lado de Musk com seu rosto comprimido, queixo caído e devastado por Ozempic, cada um deles parecendo um painel de uma pintura de moralidade medieval — é uma prova de quanto mais Trump tem a oferecer em seu segundo mandato do que no primeiro. Ele está prometendo tempo de alimentação no cocho.
Claro, Trump acredita que vai erradicar a corrupção, não inaugurar uma nova era dela. Mas a corrupção da qual ele está falando é ideológica e não pessoal: o que ele vê como a infiltração do "vírus da mente acordada" na burocracia federal e a política da guerra jurídica no departamento de justiça. Comparado a isso, o que é um pouco de corrupção? Ele pode estar certo de que o que se entendia por corrupção no século XIX não preocupa tanto as pessoas no século XXI, pelo menos quando comparado ao que mais está acontecendo. Afinal, não é como se Zuckerberg e Bezos precisassem de mais dinheiro, mesmo que pareçam servilmente ansiosos para adquiri-lo. Se há corrupção em seus relacionamentos com o governo, é justo supor que muito disso já aconteceu. Ao mesmo tempo, Trump fez um bom trabalho em fazer o escrúpulo sobre riqueza obscena parecer uma das relíquias de uma era passageira. É difícil moralizar quando as plataformas construídas ou adquiridas por Zuckerberg, Musk e outros fizeram de todos os gestos de fé em instituições estabelecidas um convite à zombaria. Na era da mídia social, a piedade só funciona se você puder torná-la sua marca pessoal, caso em que não é realmente piedade. Todo o resto é santidade.

Mas as instituições da república americana são construídas na fé e exigem que o público tenha algum grau de fé nelas para que continuem a funcionar. Este não é o tipo de fé religiosa ostentosa que estava sendo espalhada na posse de Trump pelos porta-vozes de várias denominações, cada um dos quais tentava superar os outros em sua insistência de que a presença de Trump entre eles era um presente de Deus. Eles estavam simplesmente polindo a marca (ao contrário da Reverenda Mariann Budde, que em seu sermão no serviço de oração inaugural pelo menos tentou fazer Trump pensar sobre como outras pessoas estavam se sentindo, por todo o bem que isso fez). Mas a moeda, a dívida nacional, os tribunais: essas são coisas em que as pessoas precisam acreditar se quiserem trabalhar em seu benefício. Se a confiança na durabilidade do dólar, ou na credibilidade do governo, ou na imparcialidade da lei, cair, pode ser difícil recuperá-la. Essa — por mais piedosa que pareça — é a mensagem que os discursos de posse anteriores tentaram reforçar da melhor forma possível. Mas não este. O pobre Obama teve que sentar lá na segunda-feira e testemunhar a confusão entre absolutismo e princípio e espetáculo e política. Não acho que Trump os confunda — ele não se importa o suficiente para se importar com o que passa por quê. Mas as pessoas na plateia que se levantaram e aplaudiram durante todo o seu discurso — enquanto Biden e Harris e os Clintons e os Bush permaneceram tristemente em seus assentos — os confundiram. Eles acham que colherão as recompensas do que se segue. Mas também pagarão o preço.

David Runciman

David Runciman ensina política em Cambridge. Seus livros incluem Political Hypocrisy: The Mask of Power, from Hobbes to Orwell and Beyond, How Democracy Ends e Confronting Leviathan: A History of Ideas. Ele escreveu mais de cem peças para a LRB sobre assuntos como Lance Armstrong, apostas, todos os três volumes da biografia de Thatcher de Charles Moore, a eleição de Donald Trump e sua derrota. Ele é o apresentador do podcast Past Present Future.

14 de abril de 2011

Eles não perceberam? Offshore

Como resumir Saif al-Islam Gaddafi, essa figura emblemática dos nossos tempos, com seu doutorado pela LSE ("O Papel da Sociedade Civil na Democratização das Instituições de Governança Global"), suas fundações filantrópicas, seu extenso portfólio de propriedades, seu estilo de vida de playboy, sua heterogênea coleção de amigos (Peter Mandelson, Nat Rothschild, Príncipe Andrew), seu fácil acesso ao fundo soberano da Líbia e sua recente disposição declarada de eliminar os inimigos do regime de seu pai, uma bala de cada vez?

David Runciman


Vol. 33 No. 8 · 14 April 2011

Treasure Islands: Tax Havens and the Men who Stole the World 
por Nicholas Shaxson.
Bodley Head, 329 pp., £14.99, janeiro 2011, 978 1 84792 110 9

Winner-Take-All Politics: How Washington Made the Rich Richer – and Turned Its Back on the Middle Class 
por Jacob Hacker and Paul Pierson.
Simon and Schuster, 368 pp., £11.50, março 2011, 978 1 4165 8870 2

Como se compõem e integram o personagem de Saif al-Islam Gaddafi, figura emblemática de nosso tempo – com doutorado na London School of Economics (“O Papel da Sociedade Civil na Democratização das Instituições de Governança Global”), suas fundações de caridade, sua extensa relação de propriedades, o estilo play-boy de levar a vida, a coroada e brilhantíssima coleção de amigos (Peter Mandelson, Nat Rothschild, Príncipe Andrew), seu acesso livre ao fundo soberano da Líbia – e sua recentemente enunciada disposição para eliminar os inimigos do regime de seu pai, “um tiro em cada um”? É hipócrita, provavelmente, mas isso não explica grande coisa. Também, para alguns, seria vítima: seu infeliz orientador acadêmico e mentor na LSE, David Held, descreveu em termos de “coisa shakespeareana”, o cataclismo cerebral pelo qual o reformador neoliberal Saif teria passado para sobreviver, depois que o povo de seu pai revoltou-se em armas. Mas isso também não nos leva a qualquer discussão mais consistente.

É provável que seja bandido-gentleman, que muitos observadores online identificaram ao bandido de fala suave e empresário elegante “Stringer” Bell, personagem do seriado The Wire [1] . Mas as palavras que mais bem capturam Saif Gaddafi aparecem no impressionante comentário que Nicholas Shaxson construiu em seu livro, do papel que os paraísos fiscais cumprem hoje nas finanças internacionais. 

Shaxson não discute os próprios Gaddafis, mas pinta um quadro mundial no qual o jovem Gaddafi, até bem recentemente, vivia perfeitamente à vontade. É o mundo do ‘offshore’ [ing. literalmente “ao largo”, “em mar alto”; por extensão, designa os chamados paraísos fiscais, muitos deles localizados em ilhas; mas a expressão aparece também em “petróleo offshore”, para designar petróleo submarino; e em “pesca offshore”, pesca de alto mar (NTs)]. No que aqui interessa, é o mundo dos paraísos fiscais, da deslocalização do dinheiro para fora de fronteiras territoriais continentais das grandes potências. Shaxson não se limita ao significado técnico do termo, de designação de jurisdições privadas que existem para permitir que os muito ricos não paguem impostos. Usa a palavra ‘deslocalizado’, ‘ao largo’, offshore, tanto para pessoas como para lugares, e tanto para qualificar um meio de vida, como para qualificar um estado mental. Assim definido, o adjetivo “deslocalizado” passa a ser palavra utilíssima. Saif Gaddafi é sujeito global deslocalizado, dos que vivem no mundo deslocalizado do dinheiro offshore.

A essência seja de pessoas seja de empresas globais no mundo global deslocalizado, do offshore, é parecerem todas respeitabilíssimas, ao mesmo tempo em que existem para permitir que quantidades muito grandes de dinheiro circulem com a mínima marola possível. Fugir de pagar impostos deixou de ser atividade clandestina. Os paraísos fiscais existem precisamente para que os muito ricos possam canalizar o próprio dinheiro de modo que escape das autoridades. Mas o dinheiro tem de continuar existindo, tem de manter-se acessível. E tem de ser líquido. Por isso tudo, os muito ricos preferem os paraísos fiscais onde podem conduzir os próprios negócios de modo relativamente exposto. Claro: as mais bem sucedidas instituições e empresas deslocalizadas offshore são as que fazem e respondem menos perguntas e, correspondentemente, mentem menos.

A expressão memorável, definitiva, que Shaxson cunhou para tudo isso é “o teatro da probidade”. Os suíços sempre foram mestres nessa arte, com suas maneiras formais e papelada mínima, gerida com perfeição. Mas outro dos campeões mundiais dessa arte são os britânicos. O livro de Shaxson explica como e por que Londres tornou-se o centro do que o autor chama de “teia de aranha de atividades deslocalizadas offshore” (e que, no processo, passou a oferecer lar confortável para os Saif Gaddafis do mundo). Porque a deslocalização offshore é movimento típico de impérios em declínio. Faz perfeito sentido e adapta-se muito bem a país que tem aparência de opulência e grandeza e de viver segundo padrões muito altos, mas que, por baixo dos panos, vive desesperadamente precisado de arranjar sempre e sempre mais e mais dinheiro.

Como Shaxson demonstra, muitos dos mais bem sucedidos paraísos fiscais do planeta são ex-entrepostos comerciais ou entrepostos comerciais ainda ativos, do império britânico. Entre esses, Hong Kong, as ilhas Channel e territórios britânicos remanescentes do ultramar, como as ilhas Cayman. Esses locais oferecem regimes muito limitados ou inexistentes de impostos, regulação nenhuma, política local fraca, mas todas as manifestações cenográficas de respeitabilidade ética e de transparência democrática. 

Os depositantes podem, sem qualquer comichão “ética”, depositar o próprio dinheiro em locais que sentem como “jurisdição britânica”, mesmo que, de fato, não sejam submetidos a nenhuma lei ou regulação britânica (e a nenhuma lei de impostos britânica). As ilhas Cayman, ou Jersey, fazem uso pleno de suas conexões britânicas, para assegurar aos muito ricos que seu dinheiro esteja em total segurança (o hino nacional de Cayman ainda é “God Save the Queen”), mas se alguém reclama às autoridades britânicas, de que aquelas ilhas estão sendo usadas por criminosos e ditadores para lavar dinheiro, o reclamante é informado de que são governos democráticos independentes, sobre os quais a Grã-Bretanha não tem qualquer poder. 

É o papel que Hong Kong desempenhou antes de ser devolvida à China em 1997: podia ser apresentada ao mundo exterior como local onde reinavam valores britânicos, mas sem a funesta tendência dos britânicos de aumentar impostos e impor padrões regulatórios às finanças, por ação de pressões políticas. Desempenha hoje o mesmo papel, agora para a China. Depois de 1997, a China preservou Hong Kong como uma ‘zona administrativa especial’ autônoma do continente em todos os campos, exceto no que tenha a ver com relações internacionais e defesa. 

Nas palavras de Shaxson, “As semelhanças com o laço ambíguo que liga a Grã-Bretanha e as ilhas Jersey, ou Grã-Bretanha-Cayman, não são coincidência. As elites chinesas querem ter seu próprio centro deslocalizado, offshore, com controle político à parte e separação jurídica”. O que sugere que os centros de finanças deslocalizados, offshore, também prestam bom serviço a impérios em ascensão.

Outro traço comum à maioria desses postos é que são ilhas. Ilhas são ótimas para receber paraísos fiscais, e não só porque estão topograficamente separadas, mas porque estão distanciadas das pressões políticas sempre muito ativas no centro. Além disso, constituem comunidades muito coesas, nas quais todos sabem o que acontece, mas ninguém vê qualquer vantagem em qualquer ‘revelação’ do que não é segredo para ninguém. E, além do mais, sobre todos pesa a ameaça do ostracismo. São como “aquários”, nas palavras de Shaxson, o que serve muito bem à forma mental do mundo do dinheiro deslocalizado, porque aquários são convincentemente transparentes. Vê-se através do aquário e não há “ponto cego”. Portanto, quanto mais você examina o aquário, mais você se convence da transparência dele, até convencer-se de que, ali, nada se poderia esconder. Jersey é caso exemplar: local agradável, de pessoas gentis, com forte senso de responsabilidade civil e cheio de oportunidades para qualquer empreendedor, inclusive para o Estado empreendedor, com eleições para todos os cargos públicos (senadores, deputados, xerifes e policiais de quarteirão), mas com partidos políticos muito fracos, com eleições gerais quase só formais e sem que jamais, ali, tenha havido alguma alternância nos postos eletivos. “Os incomodados mudam-se daqui” é a lei jamais desmentida da política transparente das ilhas Jersey. 

Evidentemente a diferença de opinião não foi completamente abolida, como seria sob ditadura (e motivo pelo qual as ditaduras dão péssimos paraísos fiscais: sob ditadura, ninguém jamais sabe quando a coisa toda voará pelos ares). Ali, apenas se dá tempo ao tempo, e todas as diferenças de opinião esvaziam-se. Acontece exatamente o mesmo nas Ilhas Cayman, com população mínima (cerca de 55 mil habitantes), deputados e senadores eleitos e governador-geral nomeado por Londres, que toma todas as decisões, mas, sempre, depois de ouvir a população local, democraticamente. Como disse um ex-governador-geral de Cayman, “acho que vivemos aqui no mundo da semântica. Quantos mais caymanenses sejam nomeados para postos de poder, melhor. Os nativos servem como faróis condutores, esclarecendo os pontos obscuros, sempre que há divergência de opinião no plano político”.

Essa é a teia, mas onde está a aranha? No coração do ensaio de Shaxson e da história que expõe, está sempre a City de Londres, ela própria uma espécie de ilha dentro do estado britânico. Outra vez, o crescimento da City como local preferido dos estrangeiros que tenham dinheiro para guardar, não importa quem sejam ou de onde venham, está associado ao declínio o império. 

Depois da 2ª Guerra Mundial, a libra esterlina ainda financiava grande parte do comércio global, mas a economia britânica já não tinha como defender o valor da pound contra o dólar. Depois de Suez, que provocou uma corrida para a pound, o governo tentou impor limitações aos empréstimos externos feitos por bancos comerciais londrinos. A resposta dos bancos, com a conivência do Bank of England, foi transferir seus empréstimos internacionais para o dólar. O resultado foi que assim se criou o chamado “mercado do eurodólar” – que sempre foi um muito efetivo paraíso fiscal, deslocalizado, offshore. Porque as trocas comerciais estavam acontecendo em dólares, os britânicos entenderam que não era preciso impor regulação alguma; e, porque estava acontecendo em Londres, os americanos não tinham meios para taxar aquelas trocas ou regulá-las, fosse como fosse.

Entre os primeiros a perceber as vantagens do novo sistema estavam os soviéticos, que precisavam de lugar seguro para guardar seus dólares fora dos EUA, de modo que os americanos não pudessem congelá-los, no caso de as relações entre os dois países se deteriorarem. Pouco depois, os próprios americanos acompanharam o movimento de        “deslocalização”, offshore, dos soviéticos rumo a Londres; não todos os cidadãos norte-americanos, claro: só os bancos norte-americanos e os indivíduos muito ricos – que viram o mercado londrino como alguém com quem podiam negociar, perfeitamente protegidos das garras das autoridades tributárias dos EUA. O dinheiro começou a chegar a Londres em pilhas e pilhas e pilhas.

O Banco de Londres vivia feliz: Londres era novamente o centro nervoso (e rico) da finança internacional. O governo dos EUA, como se pode adivinhar, não vivia igualmente muito feliz: temiam uma crise da balança de pagamentos. Mas quando, em 1963, o presidente Kennedy tentou conter os fluxos de dinheiro para fora do país e taxou o lucro de seguros estrangeiros, num esforço para conter a exportação de dólares para mercados exteriores mais lucrativos, obteve resultado exatamente oposto ao que almejava e produziu o que Shaxson chama de “estouro da boiada rumo ao mercado londrino offshore, deslocalizado, livre de impostos e regulações de qualquer tipo”. Os estrategistas da economia dos EUA estavam, pois, ante um dilema. Podiam tentar enfrentar a ameaça do mercado deslocalizado, ou com maiores juros domésticos, ou com controles ainda mais apertados contra a saída de dinheiro e regime regulatório mais rígido que exigisse dos bancos dos EUA que prestassem informações ao fisco nos EUA sobre suas atividades no mercado offshore londrino. E os EUA podiam ainda copiar Londres e criar seu próprio offshore doméstico, mais perto de casa: em outras palavras, se você não pode derrotá-los, alie-se a eles. 

A segunda via era a via de menor resistência – dentre outras coisas, seria meio útil para fortalecer a posição do dólar como moeda global de reserva; e, ao longo do tempo, os EUA escolheram essa via. Lentamente, a partir do final dos anos 1960s, ao longo dos anos 1970s e, depois, muito mais rapidamente nos anos 1980s e 1990s, os EUA desregularam todos os controles financeiros e deixaram que o dinheiro se movimentasse daqui para lá, com cada vez menos perguntas, controles e limitações, na esperança de que, no fluxo, mais dinheiro acabaria deixado pelo caminho, grudado nos dutos.

Nos EUA, iniciado o processo, criou-se uma onda de competição entre os estados dos EUA (“guerra fiscal”, como se chama no Brasil), com cada estado da federação tentando oferecer o ambiente menos regulado, mais hospitaleiro, menos intrusivo, para atrair empresas para seus respectivos territórios. O estado líder nesse movimento foi o pequeno Delaware, que sempre tentara compensar o território reduzido, com abertura para todos os negócios. Desde os anos 1980s, muitas e muitas corporações mudaram-se para o estado de Delaware, em busca dos benefícios de laissez-faire extremo com que Delaware tratava os direitos de acionistas e empregados, contra os interesses das gerências corporativas. 

Se você mudasse seu negócio para o Delaware (o que custava, apenas, o trabalho de mobiliar um escritório-sede e preencher alguns formulários), praticamente ninguém ou quase ninguém conseguiria provar coisa alguma contra você, porque as cortes de justiça do Delaware viviam sob a firme crença de que o que você fizesse era problema seu, não delas. Outra vez, os demais estados enfrentaram um dilema: podiam tentar isolar o Delaware, apertando cada vez mais os seus próprios padrões regulatórios, ou abriam uma disputa pela partilha do botim. Vários estados dos EUA decidiram competir e buscar a sua parte naquele latifúndio de desregulação. O que começara deslocalizado para longe, passou a ser deslocalizado aqui mesmo. O offshore atracou.

Quando os funcionários de Delaware viajaram pelo mundo, no final de 1980s para divulgar seus serviços (e esperando, dentre outras coisas, atrair para seu paraísooffshore estadual deslocalizado e atracado todo o dinheiro quentíssimo que se esperava que escapasse de Hong Kong no processo da devolução à China), divulgavam o slogan “Em Delaware, seu dinheiro está protegido contra todas as políticas”. 

Shaxson define um paraíso fiscal sem taxas e impostos, como “local que procura atrair negócios oferecendo estabilidade política, para ajudar pessoas e empresas a escapar de regras, regulações e jurisdições de que o resto do mundo vive cheio”. E é aí que está o xis.

Que fim deram à política? Por que esses movimentos do grande dinheiro não geraram instabilidade política, ou, no mínimo, alguma discussão política? No caso do Delaware, como em outras comunidades-aquário, o tamanho provavelmente explica alguma coisa (por longo tempo, toda a política estadual do Delaware foi modelada pela ação da família Du Pont, cujas vastas operações, na indústria química, dominavam a economia local). Mas no caso, digamos, de Washington, onde a mudança para uma forma de pensar de deslocalização ampla, de desatracamento, de offshore amplo geral e irrestrito do grande dinheiro deveria, no mínimo, ter gerado discussão social e, no mínimo, alguma oposição política empenhada? 

O que aconteceu aos representantes eleitos de todas as multidões de norte-americanos que não têm milhões e milhões a defender, que não têm dólares a deslocalizar nem que quisessem deslocalizar-se um pouco, e que tem, isso sim, interesse amplo geral e irrestrito em criar e defender sistema justo, amplo, progressista e progressivo de impostos, e que seja eficiente em termos de arrecadação? Não viram o que estava acontecendo?! Mas... mas... ninguém nunca percebeu nada?!

Essa é a questão que ocupa Jacob Hacker e Paul Pierson, em seu novo livro “A Política do Vencedor Leva Tudo”. Não consomem muito tempo explicando os mistérios do offshore e da deslocalização do grande dinheiro, mas o argumento que constroem é impressionantemente próximo do argumento exposto por Shaxson. Segundo Sahxson, um dos modos pelos quais se pode identificar um ambiente favorável a dinheiro deslocalizado, e sem conflito político, é verificar se, no local considerado, a política local foi capturada pelos serviços financeiros. Nesse sentido, Washington é perfeito para acolher paraísos fiscais, dinheiro grosso deslocalizado: a política, em Washington foi completa e absolutamente capturada pelos interesses de um grupo muito pequeno de indivíduos extremamente ricos – a maioria dos quais são o próprio mundo da grande finança. 

Para Hacker e Pierson isso, mais que qualquer outro fator, explica por que os muito ricos ficaram tão mais ricos ao longo dos últimos 30 anos. Quando dizem “ricos”, não dizem “ricos em geral”: falam dos super-ricos. Os verdadeiros beneficiários da explosão dos ganhos dos mais ricos desde os anos 1970s não foram os 1% mais ricos, mas, sim, os 0,1% mais ricos da população total. Desde 1974, os 0,1% mais ricos dos EUA viram sua renda passar de 2,7 para 12,3% do total da renda nacional, o que parece ser o caso mais espantoso de desigualdade na distribuição nacional, entre os que têm e os que não têm. Quem são essa gente? 

Como Hacker e Pierson observam, não são necessariamente superestrelas e celebridades do mundo da arte, entretenimento ou esportes. Nem são herdeiros ricos que vivem de fortuna acumulada nas famílias, como se via acontecer no início do século passado. 

Hoje, parcela significativa dos super-ricos são executivos e gerentes, muitos deles, executivos e gerentes de empresas financeiras.

Hacker e Pierson creem que a política deva ser culpada por isso. Aconteceu porque os políticos e os funcionários públicos deixaram que acontecesse; não aconteceu por causa de mercados internacionais, nem por causa da globalização ou por diferenças nas oportunidades educacionais ou de vida em geral. 

O que aconteceu foi construído, por pressão de lobbystas e de outras organizações para criar ambiente amigável para os super-ricos, que satisfaça suas necessidades. E se trata, de fato, de uma espécie muito particular de política, e de uma espécie muito específica de escolha. Não é resultado de conspiração, dado que aconteceu aí, à vista de todos. Mas não é movimento político do tipo de política que se vê nas ruas, com comícios, discursos e triunfos eleitorais,

A política que deixou que acontecesse o que aconteceu com o grande dinheiro planetário deslocalizado depende em grande parte do que Hacker e Pierson chamam de “um movimento de deriva”: “fracassos sistemáticos, prolongados de sucessivos governos responderam à deriva de um movimento econômico. Os políticos e decisores, com grande frequência, foram persuadidos a não resistir, a nada fazer, a deixar que as coisas se acomodassem, que andassem para onde quisessem andar, que o dinheiro corresse pelo mundo, para cima e para baixo, à vontade, até que o dinheiro se acumulou na ponta mais alta da pirâmide. 

Essa ideia faz eco ao que Shaxson diz sobre como o sistema de deslocalização do grande dinheiro foi deixado livre, leve, solto, sem qualquer controle, ao longo dos últimos 40 anos. E nem se fala de conspiração, porque ninguém precisou conspirar. De fato, o que aconteceu aconteceu porque “ninguém estava prestando atenção ao grande dinheiro”.

Uma das reclamações de Hacker e Pierson sobre o modo como nós em geral vemos a política é que não vemos o que realmente acontece, porque só vemos o showeleitoral e as disputas partidárias. É o teatro da política eleitoral, que se desenrola ao lado do teatro da probidade.

Muito frequentemente, dizem eles, reduzimos a política ao plano do esporte: “Isso, sem dúvida, é o que explica que a política eleitoral seja tão atraente, como tema, para a mídia: é excitante e é simples. Os torcedores memorizam as jogadas características de seus atletas preferidos ou se tornam especialistas em grandes pelejas passadas. Mas todos sempre podem gozar o apaixonante espetáculo oferecido por duas equipes altamente motivadas disputando a palma.”

Aqui, tenho de fazer um mea culpa. Já várias vezes me surpreendi pensando se me interesso por política pelo mesmo motivo que me interesso por esportes, e várias vezes senti-me vagamente culpado. Desconfio que a culpa se explique porque, de fato, não sei, a fundo, o que acontece nem num caso nem no outro. Eleições são eventos fascinantes, aqueles dias são vividos de modo tão radical, que com certeza ali nada se vê do que seja a verdadeira política: os grupos de pressão – dinheiro, lobbyes, ameaças – operam nesses dias para arrancar o melhor dos candidatos, sejam quem for, para influenciar a modelagem das políticas futuras. Eleições são também falsos pontos de virada histórica. 

Seria fácil aceitar que, se os ricos têm vencido nas últimas décadas, o processo começou com a eleição do grande agente pró-big business e antigoverno que foi Ronald Reagan em 1980 (e, concomitantemente, de Margaret Thatcher na Grã-Bretanha em 1979). Mas Hacker e Pierson dizem que o verdadeiro ponto de virada aconteceu antes, em 1978, ainda durante a presidência de Jimmy Carter. 

Nesse ano, os lobbyistas e outros grupos organizados, que trabalhavam para implantar na opinião pública os discursos pró-desregulação e execravam o “peso dos impostos e regras” sobre os mais ricos e os interesses das grandes corporações, descobriram que ninguém labutava na resistência contra seus planos. 

Apesar de o Partido Democrata controlar a Casa Branca e as duas Casas do Congresso, 1978 assistiu à derrota de todas as tentativas para aprovar reformas progressistas no campo tributário e para fortalecer a posição legal dos sindicatos. Em vez disso, aprovaram-se leis para reduzir a carga tributária das empresas e aumentar a carga tributária dos empregados (leis que autorizam desconto de impostos na fonte, que são leis conservadoras). Tudo isso aconteceu, porque os políticos seguiram a via de menor resistência – como sempre fazem os políticos eleitos – e a resistência mais bem organizada e mais bem abastecida de dinheiro veio dos representantes do big business, não das forças trabalhistas organizadas.

O que aconteceu nos EUA nos anos 1980s foi, portanto uma extensão dos anos Carter, não alguma virada em relação a eles. O processo de desregulação e redistribuição rumo à concentração do dinheiro no pico da pirâmide foi acelerado nos anos Reagan, que era amplamente simpático a essa concentração. Mas não aconteceu por Reagan ser simpático ao processo, mas porque suas simpatias encontraram ambiente político favorável para correr com rédea solta, ambiente no qual a oposição manteve-se muda e a esperada coalizão de interesses populares jamais se materializou no campo contrário. Afinal de contas, como Hacker e Pierson observam, Richard Nixon, do qual se poderia esperar que partilhasse várias das simpatias de Reagan, uma década antes, havia labutado na direção oposta e acolhera o marco legal do estado de bem-estar e mantivera um sistema tributário amplamente progressista. (Processo semelhante acontecera na Grã-Bretanha, com Edward Heath.) 

Nixon agiu como agiu, não por suas simpatias estarem num lado ou noutro, mas porque não teve escolha: a pressão organizada para impedir que se aprovassem leis de concentração da riqueza ali estava, atenta, e muito mais forte que a pressão a favor dos interesses dos muito ricos. Só durante os anos Carter é que essa pressão enfraqueceu, e enfraqueceu muito mais do que se poderia esperar que enfraquecesse. Os políticos da revolução Reagan/Tatcher fizeram o que fizeram porque eram ideólogos comprometidos, determinados a não ceder um palmo de seus princípios. Fizeram o que fizeram, porque perceberam que não seriam presos nem seriam eleitoralmente derrotados.

Mas... e que fim levou a resistência contra os interesses da elite de super-ricos? Esse é o verdadeiro enigma, a cuja elucidação Hacker e Pierson dedicam-se empenhadamente, porque levam a democracia a sério – apesar de serem doentiamente obcecados na defesa de eleições.

Democracia implica favorecer os interesses da maioria, em detrimento dos interesses da minoria. Nas palavras de Hacker e Pierson, “A democracia talvez não preste em muitos pontos. Mas se supõe que seja eficaz para solucionar problemas que afetam maiorias amplas.” Será que a maioria realmente não se incomodou com estar perdendo tanto, a favor dos interesses de uma pequena elite de super-ricos? 

No caso dos EUA, a ideia geral é que os eleitores permitiram que tudo acontecesse porque vivem preocupados com outras coisas: religião, cultura, aborto, armas etc. Quem pense assim entende que os norte-americanos comuns assinaram uma espécie de pacto faustiano com o Partido Republicano, pelo qual os ricos ficariam com o dinheiro e os pobres receberiam apoio e respeito aos valores culturais que lhes eram caros. Hacker e Pierson rejeitam essa ideia, mas não só porque não acreditam que o processo que analisam dependa de haver um Republicano na Casa Branca. 

Os autores veem fortes evidências de que o público eleitor norte-americano continua a desejar um sistema tributário mais justo e entende que não é trabalho dos políticos proteger os interesses dos mais pobres contra os interesses da alta finança. O problema parece ser que os eleitores simplesmente não sabem o que os políticos fazem. O eleitor não é adequadamente informado sobre como as leis foram sendo consistentemente alteradas na direção que mais prejudicava o maior número de pessoas. “Os norte-americanos também são igualitaristas no que tenha a ver com o que entendem como mundo ideal” – escrevem Hacker e Pierson. “Mas têm opiniões muito menos claras, menos acuradas, quando se trata do mundo real”.

Por que ninguém estava prestando atenção ao que estava acontecendo? A culpa talvez seja da Internet, que torna cada vez mais difícil que alguém pense sobre alguma coisa, por tempo suficiente. Mas chama a atenção, de fato, que o argumento de Hacker e Pierson implica retorno a uma crítica muito antiga da democracia, uma crítica que floresceu nos anos 1920s e 1930s, mas foi suplantada, no período do pós-guerra, pela convicção de que os eleitores seriam competentes para manifestar comportamento racional em massa. 

Essa crítica tradicional não vê qualquer fragilidade na democracia, no sentido de supor que os eleitores desejem coisas erradas, ou que não saibam o que querem. O eleitor sabe o que quer, mas não sabe como consegui-lo. As pessoas não são idiotas, mas, no que tenha a ver com política e votos, são ignorantes, preguiçosas, deixam-se satisfazer rapidamente por qualquer resposta de ocasião, construída para acalmá-las e calá-las. Hacker e Pierson reconhecem que hoje já se vê como ‘politicamente incorreto’ dizer tais coisas, mesmo nos discursos políticos sérios. Mas ainda é plena verdade. 

“A maioria dos cidadãos dá pouca atenção à política, o que se vê pelas ruas. Generosidade política, hoje, seria, precisamente, chamar a atenção dos eleitores para seus vícios.” A solução tradicional que se encontrou para esse problema tem sido suprir a ignorância dos eleitores com opiniões de especialistas, que se apresentam como dispostos a reformar todo o sistema, na direção do melhor interesse dos eleitores. A dificuldade é que, quanto mais falam esses especialistas, menos os eleitores manifestam interesse em informar-se mais sobre o que se passa no mundo. 

É onde Hacker e Pierson identificam o xis do problema da política democrática: para combater o que acontece fora do radar dos eleitores, é preciso que a luta continue a acontecer nos espaços que o eleitor vê. A esperança progressista é que, assim sendo, o leitor eventualmente acorde para as lutas e decida engajar-se nelas. Nas palavras de Hacker e Pierson: “Os reformadores políticos têm de aprender a discutir política pequena e para poucos, em milhões e milhões de fronts, a política de eixo longo e transmissão complexa.” O que exige muito tempo.

Mas tempo parece ser uma das coisas que os reformadores não têm. Como Shaxson aponta, em seu estudo de como nasceram os paraísos fiscais, uma das causas pelas quais a deriva andou na direção da desregulação é que a resistência política demorou demais para constituir-se como resistência. E aqui, outra vez, aparece mais uma das críticas tradicionais que se fez à democracia: enquanto os democratas bons e decentes organizam-se para fazer do mundo lugar mais acolhedor, o mundo a ser transformado já se transformou. 

Em ambiente de altas finanças, cada vez mais rápido, é sempre mais fácil reunir uma coalizão de vontades a favor de cada vez menos regulações e regras, que reunir gente para trabalhar a favor de mais regulações ou leis mais apertadas. Assim também, é sempre mais fácil não aplicar leis que haja, do que fazê-las valer: não aplicar leis é trabalho instantâneo – basta fechar os olhos, exige o tempo de uma piscadela – mas aplicar leis é processo lento e laborioso. 

Shaxson, como tantos de nós, parece ter construído a arapuca na qual se vê preso. Por um lado, entende que a chave para resistir ao poder do dinheiro deslocalizado, global, offshore, super concentrado no topo da pirâmide, é construir sistema mais transparente, baseado no que chama de “troca automática de informação, em plataformas multilaterais”. Mas, isso, é o mesmo que entregar o timão aos especialistas (que, cada dia mais, falam sozinhos, ou só entre eles). 

Por outro lado, Shaxson quer governos nacionais mais ativos, dinâmicos, que respondam mais e melhor aos cidadãos. Mas, nesse caso, supervalorizam-se os governos nacionais e se enfraquece qualquer governança global, cuja coordenação é indispensável a qualquer sistema que se queira transparente. Se as políticas nacionais forem reforçadas, mais difícil será implantar qualquer coordenação no plano internacional. Essa é a arapuca-total em que se meteu a globalização.

Shaxson ilustra o problema, ao final de seu livro, quando lista propostas para mudar a cultura da grande finança deslocalizada global offshore. Um dos exemplos que oferece de como se pode fazer, vem dos EUA onde, em 2001, o Congresso afinal aprovou leis mais duras contra a lavagem de dinheiro e impediu a proliferação de bancos offshore que se ocultam sob delegados e acionistas cujos verdadeiros nomes ninguém conhece e que são os verdadeiros proprietários daqueles bancos. Mas, aí, é preciso considerar a data: todas essas leis foram incluídas no “pacote” do Patriot Act, e só foram aprovadas porque todos os deputados e senadores estavam paralisados pelo 11/9. Além do mais, ninguém, em sã consciência, dirá que daquelas leis resultou mundo mais bem integrado ou mais transparente, ou alguma revitalização da política nos EUA. 

Shaxson recomenda também que os governos se dediquem mais a manter ‘em casa’ o dinheiro da grande finança. Uma das forças motrizes do mundo da grande finança deslocalizada global offshore, diz ele, são “as marés de dinheiro sujo do petróleo que escorrem para dentro do sistema offshore global, e distorcem, nesse processo, toda a economia global.” Solução radical para manter as riquezas minerais dos países longe das mãos dos poucos indivíduos hiper-ricos e nas mãos de cidadãos comuns, é redistribuir o dinheiro, internamente, diretamente para os cidadãos. Parece irrealista, mas já se faz assim em vários lugares do mundo, por exemplo, na Líbia e no Alaska. Mas Shaxson não deixa que sua análise avance até a revelação dos nomes dos políticos governantes que fazem isso: Muammar Gaddafi, na Líbia; e Sarah Palin, no Alasca. 

Assim sendo, sim, políticos ágeis, socialmente sensíveis, democráticos ou não, podem fazer grande diferença; mas não se conclui daí que, de suas políticas, resultem melhor compreensão entre os povos, nem, sequer, alguma paz. Esses dois ensaios brilhantes que resenhamos aqui acertam, ao sugerir que a política seja parte da questão. Mas a política (e a democracia) continuam a ser, também, sempre, parte do problema. 

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