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26 de novembro de 2024

Quebrando o teto de vidro para atacar outras mulheres

Marine Le Pen e Giorgia Meloni representam um novo modelo de marketing político da extrema direita. Elas apresentam o neoliberalismo ocidental como um farol do empoderamento feminino — alegando defender os direitos das mulheres, mesmo quando atacam migrantes e pessoas de baixa renda.

Francesca De Benedetti

Jacobin

Giorgia Meloni falando durante uma coletiva de imprensa em 25 de setembro de 2022, em Roma. (Valeria Ferraro / SOPA Images / LightRocket via Getty Images)

Tradução / "Eu sou Giorgia, eu sou uma mulher, eu sou uma mãe, eu sou italiana, eu sou uma cristã, e você não pode tirar isso de mim." Na Itália, essas palavras são talvez o resumo mais famoso de Giorgia Meloni sobre suas crenças. Dita pela primeira vez em 2019, essa linha foi ouvida muitas vezes desde então, inclusive por meio de um remix disco e uma versão em espanhol pronunciada em comícios do partido de extrema direita Vox: "Yo soy una mujer..."

Na cúpula demográfica de Budapeste em setembro passado, comandada pelo premiê húngaro Viktor Orbán, Meloni elaborou essa crença: “O que eu queria dizer com essas palavras é que vivemos em uma era em que tudo o que nos define está sob ataque. E por que isso é perigoso? É perigoso para nossa identidade — nossa identidade nacional, nossa identidade familiar, nossa identidade religiosa — é também o que nos torna conscientes de nossos direitos e capazes de defendê-los.”

O movimento se encaixa perfeitamente no que a filósofa e feminista italiana Giorgia Serughetti chama de “maternalismo identitário”: um estilo de liderança que “aproveita qualidades tipicamente associadas a mulheres e mães para oferecer ao eleitorado uma face reconfortante e protetora em tempos de grande incerteza”. A retórica da maternidade é parte de um manual de extrema direita agora comum que faz do “gênero” um inimigo — mas usa essa palavra em inglês para significar “ideologia feminista e LGBTQIAPN+”. Isso significa defender a família “tradicional” (heterossexual) como o núcleo da sociedade, condenar o aborto e os direitos LGBTQIAPN+ e ficar obcecado com as taxas de natalidade.

A estratégia de normalização da extrema direita não significa abandonar seus elementos autoritários, discriminatórios e anti-classe trabalhadora. Mas também vale a pena entender como o modelo reacionário tradicional é hibridizado com outros elementos de marketing político, sob o disfarce de liderança feminina. Hoje, enfrentamos uma operação mais caleidoscópica do que os dias em que Margaret Thatcher personificou o conservadorismo neoliberal.

Naquela época, a primeira-ministra Tory [conservadora] promulgou políticas antissociais apesar de ser mulher. No clima político de hoje, a extrema direita pode servir aos mesmos propósitos graças ao fato de ter líderes mulheres.

Ambiguidade estratégica

O fato de ser mulher não implica de forma alguma liderança feminista. Embora menos conhecida do que a citação “Eu sou uma mãe”, uma declaração nas memórias de Meloni, I Am Giorgia [Eu Sou Giorgia], coloca isso de forma clara: “Eu nunca fui feminista.” Meloni também parece estar em sintonia com o machismo: “O líder (literalmente: “il capo”) deve liderar e provar ser o mais forte!”

Como no caso de Alice Weidel, líder da Alternative für Deutschland (AfD) na Alemanha, ou Riikka Purra, que lidera o Partido Finlandês de extrema direita, essa “força” não tem nada a ver com empoderar a maioria das mulheres. Elas seguem uma agenda neoliberal que glorifica a competição e sacrifica o bem-estar. Como exemplo, a Fratelli d’Italia de Meloni se opôs à recente diretiva da União Europeia sobre o fortalecimento do princípio de salário igual para trabalho igual. A líder do Partido Finlandês, Purra, que também é ministra das finanças de seu país, é uma defensora ferrenha da austeridade. Weidel, como Meloni, se opõe ao salário mínimo — uma política muito mais propensa a beneficiar as mulheres — e cita Thatcher como seu modelo político.

Ainda assim, devemos notar o papel da ambiguidade estratégica no avanço dessa visão política. Fratelli d’Italia, enraizado no fascismo histórico, mantém uma postura viril e machista mesmo que sua líder use a retórica maternal; a AfD ainda mantém um discurso homofóbico mesmo que seja liderada por uma lésbica. E quando a líder de extrema direita francesa Marine Le Pen diz que quer defender os valores do Ocidente como mulher, sua batalha não é para estender direitos, mas para restringi-los.

Tal posição também é notavelmente moldada por sua insistência de que as acusações de chauvinismo são falsas. “Como todas as mulheres, mesmo que não necessariamente faça disso uma luta militante, você é sensível à condição das mulheres na França e até mesmo no mundo. Como política, eu mesma sou muito apegada a isso”, escreveu Le Pen na última vez em que concorreu à presidência. “O Ocidente deve se orgulhar de promover a igualdade e a emancipação das mulheres.”

Na retórica do Rassemblement National de Le Pen, o Ocidente se opõe ao islamismo. Quando Le Pen afirma direitos, ela não o faz para estendê-los, mas para torná-los exclusivos e excludentes. Não é coincidência que, enquanto prega a emancipação das mulheres francesas, Le Pen sonha com uma “preferência nacional” para excluir de empregos na administração estatal aqueles com dupla nacionalidade e limitar o acesso dos imigrantes aos serviços públicos.

As líderes femininas da extrema direita não apenas privam o feminismo de qualquer potencial revolucionário; elas também usam a feminilidade como apoio para a exclusão. Até mesmo os direitos das mulheres são remodelados como uma fronteira: eles não são concebidos como um bem universal, mas algo que nos distingue de outsiders perigosos (muçulmanos, imigrantes, gays) que minam esses mesmos direitos.

Vimos isso nos últimos dias, durante o lançamento de uma fundação dedicada a Giulia Cecchettin, uma jovem de 22 anos assassinada há um ano por seu namorado branco e italiano: o ministro da educação, Giuseppe Valditara, causou um escândalo ao declarar que “o patriarcado não existe mais” e afirmar uma ligação entre feminicídios e a presença de estrangeiros. Meloni defendeu seu colega, insistindo que a imigração ilegal é de fato um fator de violência de gênero. No último dia 25, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, em uma entrevista à revista Donna Moderna (Mulher Moderna), ela reforçou esse ponto, dizendo: “Vou ser chamada de racista por isso, mas há uma taxa maior de casos de violência sexual por imigrantes”.

Uma vez que as demandas sociais e econômicas foram eliminadas do discurso público, os líderes de extrema direita podem facilmente reinterpretar os direitos das mulheres como uma questão de identidade e segurança: o direito (ou melhor, a pressão) de dar à luz e o direito de se defender (do Outro demonizado). Nos cartazes da Alternative für Deutschland, bem como em sua contraparte austríaca, isso é simbolizado por mulheres grávidas dizendo “Não nos toquem” para migrantes.

Mães da Itália

A família é importante para o governo italiano. Nas palavras de Isabella Rauti, senadora do partido de Meloni: “Sem filhos, sem a alegria da continuidade, não há futuro, não há nada.” (Rauti é filha de Pino Rauti, um membro fundador do fascista Movimento Social Italiano que esteve envolvido em inúmeras investigações judiciais por terrorismo nos anos 1970.)

Meloni insiste que “tudo o que nos define está sob ataque” — e apresenta uma mensagem tradicionalista de defesa de uma identidade ameaçada. Até mesmo sua retórica sobre “ecologismo conservador” (contraposto ao “ambientalismo”, considerado uma ideologia da esquerda radical) cita a causa maior de “Deus, nação e família”.

Mas há também um quarto termo que precisa ser adicionado a esse trio: laissez-faire. Isso é afirmado tanto para os negócios (“aqueles que produzem não devem ser perturbados” pelo governo, insiste esse partido) quanto para a vida privada, embora da maneira mais contraditória: a própria Meloni é uma mãe solo, como certamente é seu direito, e ainda assim ela rotineiramente discorre sobre o que uma família de verdade é e o que não é.

Meloni também fez de sua própria família uma ferramenta de comunicação essencial, levando sua filha de seis anos em visitas oficiais importantes, como uma viagem recente à China. “Juntas em todos os lugares: eu te amo, meu ratinho”, ela postou nas redes sociais, junto com uma foto. Aqui, a maternidade tradicional e a demanda por privacidade são fundidas com o oposto.

Em sua obra de 1999, The New Spirit of Capitalism [O Novo Espírito do Capitalismo], Luc Boltanski e Ève Chiapello já haviam sugerido como o capitalismo seria capaz de engolir movimentos e ideias progressistas. Uma década depois, a filósofa Nancy Fraser explicou como o feminismo estava sendo distorcido pelo neoliberalismo, que sob a retórica de “quebrar o teto de vidro” deixou a maioria das mulheres socialmente destruídas. E agora, na década de 2020, líderes femininas de extrema direita estão contaminando ainda mais o cenário. Em Meloni, Le Pen e outros, a política dura da direita encontra um lar cada vez mais aconchegante para suas pátrias — o abraço caloroso de uma mãe.

Colaborador

Francesca De Benedetti cobre assuntos europeus em Domani e escreve colunas sobre política europeia para a Vanity Fair. É cofundadora da newsletter European Focus. Seus escritos sobre política italiana foram publicados pelo Libération, Balkan Insight, International Press Institute e outros veículos internacionais.

7 de abril de 2024

O clima de guerra na Europa está encobrindo a extrema-direita

A caminho das eleições europeias de junho, os políticos centristas apelam a um voto para travar a extrema-direita. Mas a extrema-direita já conquistou a credibilidade do mainstream - e isso deve-se ao facto de aceitar a crescente dedicação dos fundos públicos da UE à indústria da defesa.

Francesca De Benedetti


Ursula von der Leyen. Foto do Conselho Europeu.

Tradução / Esqueça-se o cordão sanitário contra a extrema-direita. Hoje, o neoliberalismo europeu é protegido por um cordão que já integrou essa força sectária. O futuro da União Europeia está a ser construído muito antes de os cidadãos votarem no primeiro fim de semana de junho: a mudança de paradigma já cá está.

Até às eleições para o Parlamento Europeu de 2019, ainda fazia sentido falar de uma barreira contra a extrema-direita. Hoje, ela ruiu completamente. Uma das principais razões pelas quais o chamado centro-direita se reconciliou com líderes de extrema-direita, como Giorgia Meloni, é porque têm um objetivo conjunto pró-negócios.

Durante a campanha para as eleições de junho, a atitude de Bruxelas em relação ao investimento de dinheiro público na indústria da defesa e a pressão dos líderes europeus para com uma "economia de guerra" não revela apenas que dão prioridade aos lucros de uma pequena elite. A construção de uma narrativa de "tempo de guerra" e o apelo à unidade também servem para evitar críticas e ajudar a preparar o caminho para as próximas decisões e nomeações nas instituições da UE.

"É necessária uma abordagem menos ideológica na chefia das instituições europeias", afirmou recentemente o presidente francês Emmanuel Macron. Este defendeu a nomeação de Mario Draghi, antigo presidente do Banco Central Europeu (BCE), para um dos cargos principais da UE. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, está a fazer campanha para um segundo mandato, o que, no seu caso, significa fazer com que as políticas da UE sejam cada vez mais vantajosas para as grandes empresas; já o tinha feito com a Big Pharma e agora é a vez da indústria agrária e do setor da defesa.

Mesmo que muitos não se apercebam disso, uma Europa cada vez mais neoliberal está a ser construída mesmo debaixo do nosso nariz, e a sua liderança política inclui agora a extrema-direita. Mas propor uma alternativa já se tornou mais difícil. Enquanto os reacionários estão em marcha, falta uma frente progressista contra eles.

A trindade neoliberal

Fala-se muito da possibilidade de von der Leyen, Draghi e o primeiro-ministro holandês cessante, Mark Rutte, assumirem papéis-chave depois de junho. O trio partilha uma notável compatibilidade com o pacto neoliberal. Embora os eleitores tenham de esperar até 6 a 9 de junho para escolherem o novo Parlamento Europeu, os líderes europeus já estão a negociar o que virá depois.

A política da UE tem uma regra oculta, mas bem conhecida, com nome alemão: o chamado processo spitzenkandidat ("candidato principal"), que implica que a presidência da Comissão Europeia deva ser confiada ao candidato do partido político mais votado. Isto sugere que os eleitores europeus têm controlo direto sobre pelo menos uma das posições de liderança em Bruxelas. Mas, na vida política real, não é assim que as coisas funcionam.

Isto foi bem evidente em 2019, quando o spitzenkandidat do Partido Popular Europeu (PPE), Manfred Weber, hoje líder deste agrupamento de centro-direita, foi ultrapassado por Angela Merkel. Durante a negociação entre os chefes de governo, a então chanceler alemã, e membro do PPE, Merkel, impôs a sua ministra da Defesa, von der Leyen, como presidente da Comissão Europeia. Agora, candidata-se a um segundo mandato como spitzenkandidat escolhida pelo PPE, apesar de muitos delegados da sua família política preferirem não a apoiar.

Os líderes nacionais são ainda mais influentes quando se trata da renovação da presidência do Conselho Europeu, que reúne os vinte e sete chefes de Estado e de Governo para definir as prioridades políticas da União Europeia. Draghi parece ser uma escolha provável para este cargo, embora os seus patrocinadores prefiram não o apoiar publicamente: ações prematuras desperdiçariam as suas hipóteses.

A OTAN também vai mudar o seu secretário-geral em 2024, mais tarde do que o previsto. Não foi por acaso que o atual secretário-geral, Jens Stoltenberg, prolongou o seu mandato: a sua permanência no cargo até ao outono permitirá que as escolhas para a chefia da UE e da NATO sejam decididas em conjunto. Hoje, Rutte, que enquanto primeiro-ministro holandês se destacou como um defensor "frugal" da austeridade, apresenta-se para este papel na OTAN.

Há três datas-chave para ver quem vai liderar a UE. De 6 a 9 de junho, os europeus vão votar. A 17 de junho, uma reunião informal de chefes de governo dará início às negociações. Mas o momento não oficial para a decisão é agora: já estão a decorrer conversações acesas nos bastidores. Von der Leyen discutiu esta questão com Meloni durante a sua viagem a Itália, em janeiro. O primeiro-ministro italiano, por sua vez, falou com Macron sobre as nomeações no último Conselho Europeu. E o Presidente francês tinha negociado com Olaf Scholz alguns dias antes, aquando da sua deslocação a Berlim.

A valsa das convergências está a decorrer. O resultado está sujeito a fatores imprevistos até ao fim, mas os pressupostos neoliberais das principais figuras estão definidos. Depois de a UE e os seus líderes terem pregado a austeridade durante os anos da crise financeira, a pandemia constituiu um estímulo para aumentar a despesa pública, não para apoiar o bem-estar, mas para restaurar um sistema capitalista em crise.

Eis o cenário que está a ser trabalhado atualmente. Com a permanência de von der Leyen como presidente da Comissão, as políticas da UE serão cada vez mais favoráveis às grandes empresas. Já durante a crise pandémica, von der Leyen agiu como forte aliada da Pfizer-BioNTech, utilizando comunicações privadas (mensagens e telefonemas) com o CEO da Pfizer, Albert Bourla, para negociar um contrato de vacinas a preços mais elevados. O Ministério Público Europeu está a investigá-la por "interferência pública, destruição de SMS, corrupção e conflito de interesses". Nessa altura, a presidente da Comissão Europeia também impediu a Trips Waiver, uma isenção temporária de patentes destinada a reduzir as enormes desigualdades no acesso global às vacinas. Durante o seu atual mandato, as grandes empresas têm acesso privilegiado às decisões em Bruxelas.

Com a campanha para um segundo mandato já em curso, no outono passado, esta atitude acentuou-se, com o objetivo de atrair os principais eleitores do PPE: as grandes empresas. Em setembro, a Presidente da Comissão anunciou a nomeação de um representante da UE para as pequenas e médias empresas. Pediu também ao ex-chefe do BCE e ex-primeiro-ministro italiano, Draghi, que preparasse um relatório sobre o futuro da competitividade europeia, afirmando que "cada novo ato legislativo deveria ser objeto de um controlo da competitividade".

Depois chegou o inverno, e foi a época do agro-negócio: o Copa Cogeca, o mais forte lóbi de agricultores, e manifestantes foram recebidos com deferência em Bruxelas. Pelo contrário, os ativistas do clima foram criminalizados pelos governos europeus. O Pacto Ecológico, a única mancha de cor progressista na presidência de von der Leyen, acabou por ser esbatido em derrogações. Os planos para a política agrícola comum (PAC) da EU, cujos objetivos ecológicos foram considerados "blá blá blá" por Greta Thunberg, quase não referem questões climáticas.

No início de março, os delegados do PPE tiveram de se reunir em Bucareste para aprovar von der Leyen como a sua principal candidata. A presidente da Comissão deu-lhes uma bela prenda. Na véspera do congresso do PPE, a Comissão Europeia lançou uma "nova estratégia industrial de defesa". Este pacote legislativo é uma piscadela de olho à indústria da defesa e a Macron: o presidente francês está a exercer pressão para se injetar fundos no setor e von der Leyen vai precisar do seu apoio para ser confirmada para um segundo mandato.

No entanto, o gabinete de Macron pretende obter as melhores condições de negociação, e foi por isso que, no final de março, quando os jornalistas lhe perguntaram sobre o futuro de von der Leyen, ele disse que "a presidência da UE não deve ser hiperpolitizada: o presidente deve estar acima dos partidos". Esta declaração faz lembrar o principal argumento com que o antigo homem da Goldman Sachs e ex-chefe do BCE, Draghi, foi chamado à política italiana para se tornar primeiro-ministro. A chamada de atenção não é acidental.

Desde 2023, a comitiva de Macron considera Draghi como opção para um cargo de chefia na UE, dando-lhe primazia como presidente do Conselho Europeu. O plano é precisamente propô-lo como um nome um tanto imparcial como antigo salvador do euro e o futuro salvador de uma Europa encurralada no meio de múltiplas crises, guerras e forças de direita em ascensão.

União em nome das empresas

Fecha-se assim o círculo vicioso: depois de a austeridade e as políticas anti-sociais terem aumentado o apoio ao populismo de direita, propõe-se como remédio outra dose de neoliberalismo.

Há uma razão para que a palavra "resiliência" esteja tão na moda em Bruxelas depois de a globalização do capitalismo ter mostrado todos os seus limites. Em vez de alargar os direitos sociais, reforçar o bem-estar e redistribuir a riqueza, o número de magia de Draghi consistirá em aumentar a dívida pública da UE para ajudar as empresas. Não importa que a austeridade reduza as despesas sociais: paradoxalmente, o financiamento público pode ser utilizado sem restrições, quando ajuda os privados globais a ter um bom desempenho e o capitalismo a reconverter-se de novo.

Com o álibi de estar a preparar o relatório sobre o futuro da competitividade europeia, o "custe o que custar", como Draghi é conhecido pela sua resposta à crise da zona euro durante a década de 2010, este já está a discutir de perto com os governos europeus, a quem explica como gerir os desafios globais: com uma "enorme quantidade" de investimento, e "o dinheiro público nunca será suficiente".

Draghi e Macron, duas figuras certamente recetivas às exigências dos grandes nomes da finança e da economia mundial, partilham a ideia de uma nova dívida comum, emitida conjuntamente pelos Estados-membros da UE, segundo o modelo "Next Generation EU", desde que se sentaram juntos no Conselho Europeu, enquanto dirigentes nacionais. Nessa altura, como agora, tiveram de enfrentar as dúvidas de Berlim a este respeito.

Ao lançar a “economia de guerra” e referindo-se às “botas europeias na Ucrânia”, o presidente francês desempenhou um papel de liderança na criação de entusiasmo em torno do aumento dos gastos militares e na promoção da narrativa sobre o risco de a UE se envolver diretamente numa guerra. Esta tendência não se deve apenas ao amor de Macron pelas empresas de defesa.

É importante notar que o centro-esquerda europeu também está alinhado com este foco na indústria de defesa. No início de março, os líderes socialistas reuniram-se em Roma para o congresso europeu do partido. O chanceler alemão, Scholz, falou a favor do aumento dos gastos militares. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, também um nome na corrida à presidência do Conselho Europeu, está preparada para cortar assistência social para este fim: “A Europa deve reduzir os gastos com a assistência social para dissuadir a Rússia com aumentos prolongados do financiamento da defesa”, disse ela ao Financial Times.

Os cientistas políticos referem-se ao chamado “efeito unir em torno da bandeira” para explicar como, confrontados com a perceção de uma ameaça externa como a guerra, toda a nação se identifica com o líder e a atenção crítica é reduzida.

Não é necessária uma guerra para isso, embora a guerra esteja hoje à nossa volta. Há treze anos, em Itália, o aumento do spread (a diferença entre os rendimentos das obrigações alemãs e italianas, considerado como uma medida da confiança dos investidores em Itália) foi apresentado pelos principais meios de comunicação e pelos políticos como algo cataclísmico. Este enquadramento abriu caminho à ascensão de Mario Monti, um antigo comissário da UE, e às suas políticas de austeridade.

Já naquela altura, foi feito o apelo a um governo “técnico” (em vez de político-partidário). Na verdade, tudo menos “técnica” nas suas intervenções, a liderança de Monti foi politicamente orientada por uma bússola neoliberal, como pode ser visto nas políticas de austeridade do seu governo, incluindo uma contestada reforma das pensões. Tornando-se primeiro-ministro em 2021, Draghi foi apresentado à opinião pública italiana como um salvador que colocaria os partidos atingidos pela crise numa situação difícil. O mesmo enquadramento poderia agora ser utilizado a nível europeu: este verão, Macron talvez o descreva como o novo messias.

O esperado sucesso eleitoral da extrema-direita vai favorecer este tipo de narrativa porque proporcionará o bicho-papão, ou dito de outra forma, uma “ameaça” que favorece o efeito da união em torno da bandeira. Mas este é um jogo em que cada lado desempenha o seu papel: quando se trata de políticas neoliberais, a extrema-direita e os principais partidos estão na mesma página.

O desmantelamento do cordão sanitário foi desencadeado pelo Partido Popular Europeu há três anos, quando iniciou uma aliança tática com Meloni. Esta cooperação baseia-se principalmente numa atitude neoliberal comum. A primeira-ministra de Itália vai além do laissez-faire: diz frequentemente que o Estado “não deve incomodar aqueles que têm negócios”. Depois de incluir num decreto um escudo criminal para evasores fiscais, durante uma viagem à Sicília, Meloni referiu-se à luta contra a evasão fiscal por parte dos lojistas como um caso de pizzo di stato: isto é, comparou os impostos a uma rede mafiosa imposta pelo Estado. Embora a extrema-direita demonstre simpatia pelos evasores fiscais, nenhuma simpatia vai para aqueles que estão no lado mais difícil da situação. Meloni aboliu o chamado “reddito di cittadinanza”, uma rede de segurança social que beneficiava grupos vulneráveis, e aproveitou o Dia Internacional dos Trabalhadores para emitir um decreto que reduz ainda mais as restrições aos contratos precários.

Em fevereiro, no Parlamento Europeu, o Reconquête, o partido xenófobo e islamofóbico francês liderado por Éric Zemmour e Marion Maréchal, juntou-se ao grupo Conservadores e Reformistas Europeus (ECR) de Meloni, que é uma ponte para o PPE. Isto é apenas aparentemente paradoxal. Embora seja a força de extrema-direita na política eleitoral francesa, o partido de Zemmour “tem uma abordagem neoliberal e explora um processo de radicalização da burguesia”, diz Jean-Yves Camus, um dos principais especialistas em extrema-direita francesa.

Apesar da retórica de líderes como Macron e Weber, que ainda dedicam palavras inflamadas contra a ameaça da extrema-direita, foram eles que a normalizaram. A perspetiva neoliberal é o traço de união que os une. Imediatamente após as eleições de junho, a extrema-direita irá fornecer aos auto-denominados centristas um álibi perfeito para desviar a UE numa direção ainda mais neoliberal. Será um apelo à “união em torno das grandes empresas” que a política europeia serve cada vez mais.

Colaborador

Francesca De Benedetti cobre assuntos europeus para o Domani e escreve colunas sobre política europeia para a Vanity Fair. É co-fundadora do boletim informativo European Focus. Os seus textos sobre a política italiana têm sido publicados pelo Libération, Balkan Insight, International Press Institute e outras publicações internacionais.

31 de janeiro de 2024

Na Europa, o centro liberal está em extinção

Os centristas da Europa afirmam frequentemente defender os valores liberais contra ameaças populistas. No entanto, antes das eleições europeias de junho, os liberais adotaram pontos de discussão de extrema-direita sobre tudo, desde o clima até à migração - e isso não está a salvar os seus fracos números nas sondagens.

Francesca De Benedetti


A líder francesa de extrema direita do Rassemblement National, Marine Le Pen, aperta a mão do presidente francês Emmanuel Macron após conversas no palácio presidencial em Paris, em 21 de junho de 2022. (Ludovic Marin / POOL / AFP via Getty Images)

Tradução / Antes das eleições para o Parlamento Europeu em junho deste ano, a União Europeia (UE) perdeu sua posição central. Parece que o bloco não pode mais contar com o grupo político liberal europeu, conhecido como Renew, como o fator decisivo.

Um exemplo recente foi o presidente da França, Emmanuel Macron. Ele prometeu combater a extrema direita, mas acabou aprovando uma lei de imigração que dependia do apoio do Rassemblement National. Seja por suas políticas neoliberais, sua retórica agora misturada com propaganda de extrema direita ou cumplicidade absoluta, Macron abriu caminho para Marine Le Pen sucedê-lo como presidente. O mesmo pode ser dito sobre o principal afiliado holandês da Renew (Partido Popular para a Liberdade e a Democracia, VVD), em relação ao eterno candidato anti-imigração daquele país, Geert Wilders.

O paradoxo é que os liberais, que deveriam agir como uma barreira à extrema-direita, estão eles próprios a dar-lhe um cavalo de Tróia. Alguns dos partidos e governos centristas mais influentes da Europa estão facilitando a normalização da extrema direita, ou mesmo incorporando sua propaganda em seus próprios discursos. Quando se trata de políticas antissociais e anticlimáticas, partidos liberais como o Partido Democrático Livre (FDP) alemão têm uma pesada responsabilidade.

Certamente, nem todas as forças liberais estão endossando uma agenda de extrema direita. Mas essa contradição interna poderia desencadear a implosão do grupo liberal no Parlamento Europeu. Hoje, os sinais de uma cisão já são visíveis — e também há quem esteja torcendo para que isso aconteça.

O cavalo de Tróia

Em setembro de 2017, Emmanuel Macron afirmou em seu discurso na Sorbonne: “Mas não devemos cair na armadilha dos populistas ou dos extremos. Precisamos rever o projeto europeu, através e com as pessoas, com muito mais rigor democrático.” No entanto, o presidente francês, ao longo de seus dois mandatos, falhou em cumprir duas promessas cruciais: impedir o avanço da extrema-direita e promover a democracia na Europa, inclusive em seu próprio país.

Apesar de suas decepções e frustrações, muitos eleitores de esquerda votaram em Macron no segundo turno da eleição presidencial, como ele mesmo reconheceu publicamente. No entanto, o oposto não ocorreu: nas eleições parlamentares realizadas em dois turnos, quando a escolha era entre a esquerda ecológica (a aliança conhecida como Nouvelle Union Populaire Écologique et Sociale, NUPES) e a extrema direita, vários apoiadores proeminentes de Macron optaram pela abstenção em vez de impedir o avanço do Rassemblement National. Os autodenominados liberais preferiram criticar a esquerda, que representava uma alternativa real às suas políticas neoliberais, em vez de conter a extrema-direita, como vinham prometendo fazer há anos.

“Não há mais cordão sanitário”, como disse triunfalmente Kévin Mauvieux, um dos oitenta e nove deputados do partido de Le Pen, em julho de 2022. Um mês antes, no Palácio do Eliseu, o Presidente Macron tinha sido fotografado apertando a mão da líder do Rassemblement National, depois que ela manifestou o desejo de fazer parte de um governo de unidade nacional. Esse aperto de mão em 21 de junho de 2022 é apenas uma representação clara da relação entre os dois; Basta dizer que Le Pen conseguiu eleger dois membros de seu partido, Sébastien Chenu e Hélène Laporte, como vice-presidentes da Assembleia Nacional, em uma votação dependente de membros do próprio partido Renascença de Macron.

É surpreendente ver o autoproclamado antipopulista Macron como o grande facilitador da extrema-direita, mas é importante destacar que a França não é um caso isolado. Pelo contrário, esse padrão se repete em outros lugares. Em outubro de 2022, os liberais suecos (Liberalerna) se uniram ao governo de Ulf Kristersson. Na Suécia, a coalizão governista conta com o apoio externo dos Democratas Suecos, um antigo movimento neonazista. Mais uma vez, os liberais não demonstraram qualquer hesitação em colaborar com a extrema-direita.

Uma reviravolta anti-liberal

Aderiva para a direita dos liberais na Europa, no entanto, não tem a ver apenas com os padrões de suas alianças. A forma anda junto com a substância. O caso neerlandês ilustra-o bem.

Depois de reforçarem o seu consenso construindo uma narrativa contra “soberanistas” e eurocépticos, os partidos liberais que antes eram considerados moderados estão agora a fazer um acordo com o diabo: pensam que podem sobreviver ao chegar a acordo com a extrema-direita.

Geert Wilders já foi o epítome do que um liberal europeu poderia muito bem detestar: islamofóbico, xenófobo, alérgico à diversidade, ansioso por tirar a Holanda da União Europeia, bem como um precursor de Donald Trump, com quem partilha uma pretensão loira e cujo populismo agressivo antecipava. Naturalmente, as políticas identitárias de Wilders são combinadas com o neoliberalismo desenfreado, em um refrão típico da extrema direita: mesmo em sua última campanha eleitoral, no outono passado, ele prometeu cortar impostos, bem como medidas como tirar fundos das artes e da cultura. Essa agenda neoliberal explica certas afinidades com o espaço liberal. Mas até agora certamente não tinha sido suficiente para normalizar tal personagem.

No entanto, mesmo antes das eleições de novembro, nas quais Trump holandês emergiu como a principal força política do país, Dilan Yeşilgöz-Zegerius, que assumiu a liderança do VVD do primeiro-ministro cessante Mark Rutte, já tinha dito que estava pronta para o diálogo com a extrema-direita de Wilders.

“Acredita-se que o ponto de virada no caminho de Geert Wilders para o triunfo eleitoral holandês (se não o poder) tenha sido a decisão do líder do partido conservador VVD de abrir as portas para o partido de Wilders como parceiro de coalizão”, escreveu o cientista político holandês Cas Mudde. “Foi neste momento que muitos eleitores calcularam que poderiam votar tanto em Wilders quanto no VVD.” Mudde chega à conclusão de que os valores liberal-democráticos devem ser “afirmados em vez de assumidos”: devem ser defendidos também contra “o mainstream político radicalizado que normalizou em grande parte [a extrema-direita]”. Este é um argumento que podemos facilmente compartilhar – e também nos traz de volta ao caso do campo de Macron.

Em 2021, o ministro do Interior da França, Gérald Darmanin, definiu Marine Le Pen como “branda demais” com o Islã. Em tempos mais recentes, o governo francês, o presidente e seu partido Renascença apresentaram uma nova lei de imigração cujo conteúdo foi tão infundido com propaganda de extrema direita que Le Pen a considerou sua própria “vitória ideológica”. Não só os deputados do Rassemblement National votaram a favor do projeto do governo, mas seu apoio foi decisivo para sua aprovação.

Uma agenda neoliberal

Aprevisão do Conselho Europeu de Relações Exteriores para as eleições de 2024 para o Parlamento Europeu mostra como essa votação será difícil para o grupo liberal Renew — que deve cair de seus 101 assentos anteriores para 86 no Parlamento de 720 membros — e para sua afiliada francesa Renaissance. O Rassemblement National é projetado para ser o vencedor — crescendo de vinte e três para vinte e cinco assentos – enquanto o Renaissance diminui de vinte e três para dezoito assentos. Essas previsões explicam em parte os movimentos de Macron, primeiro perseguindo a extrema direita, depois jogando como um ilusionista.

A nomeação de Gabriel Attal como novo primeiro-ministro da França, em janeiro, é, na verdade, uma tentativa de vender aos eleitores a ilusão de que o passado pode se repetir. Tendo iniciado sua carreira política no Partido Socialista e sendo uma figura carismática popular entre os franceses, o novo premiê Attal ainda pode tentar o enfoque abrangente que já funcionou para Macron em seus primeiros dias. Mas, embora Attal seja efetivamente um clone de Macron, não estamos mais em 2017: agora é evidente que Macron não é o baluarte contra a extrema direita, mas sim a direita.

A agenda neoliberal, consubstanciada, por exemplo, pela impopular reforma da Previdência do ano passado, anda de mãos dadas com uma atitude cada vez mais iliberal. O ministro do Interior de direita Darmanin — que é tão bom em fazer com que a polícia escolte amigavelmente tratores durante protestos do agronegócio — não hesitou em reprimir à força as manifestações sociais e climáticas. Para fazer avançar o aumento da idade da reforma, o governo utilizou todas as alavancas à sua disposição, em detrimento da estabilidade democrática francesa. O chamado governo liberal francês (Darmanin acima de tudo) também criminalizou as organizações ambientais — “ecoterroristas”, como o ministro as chama — e aquelas que defendem os direitos humanos, incluindo a histórica Ligue des droits de l’homme (Liga dos direitos dos homens).

A explosão do centro

Embora a tendência já bem estabelecida do Presidente francês para dissimular e mudar de roupa, há uma coerência na sua agenda neoliberal, que o aproxima da direita, bem como de outros partidos importantes do grupo liberal na UE.

O Partido Democrático Livre (FDP) é um deles. O impulso pró-austeridade do seu líder, Christian Lindner, por parte do Ministério das Finanças alemão, é um dos principais culpados por diluir a reforma do Pacto de Estabilidade e Crescimento, um conjunto de regras que restringem a despesa pública e, assim, minam efetivamente o bem-estar. A Confederação Europeia de Sindicatos alertou que “os Estados-membros da UE podem ser forçados a cortar coletivamente seus orçamentos em mais de 100 bilhões de euros no próximo ano sob os planos do Conselho de reintroduzir medidas de austeridade”.

Se o novo pacto nasce com fórmulas austeras cansadas — e se a UE ainda é governada por políticas de austeridade —, isso deve-se muito à contribuição dos liberais alemães. E assim como o presidente francês boicotou alguns dossiês verdes importantes na UE (como pressionar para que o nuclear e o gás fossem considerados “verdes” na chamada taxonomia da UE), o mesmo aconteceu com Lindner.

O Green Deal — que se tornou o bode expiatório favorito do Partido Popular Europeu (PPE), democrata-cristão, bem como da extrema-direita — é um bom teste à precária unidade do grupo liberal na Europa. Em julho de 2023, quando o líder do PPE, Manfred Weber, testou a possibilidade de formar uma ampla maioria de direita em Bruxelas, atacando a “Lei de Restauração da Natureza”, o eurodeputado liberal finlandês Nils Torvalds me disse que tinha que “brincar com o cubo de Rubik”, ou seja, montar uma operação engenhosa para encontrar um compromisso para que os liberais não dessem a Weber os números de que ele precisava para levar adiante seus planos. Nesse caso, o cubo de Rubik foi resolvido, e Weber foi derrotado. Mas quando se trata de questões climáticas, a Renew muitas vezes se divide.

Em 2017, Macron havia transformado seu partido, também em nível europeu, em um veículo centrista de “esquerda e direita”, mas seria ingênuo acreditar – como diria Macron – que ainda estamos na mesma situação de sete anos atrás. O cordão sanitário foi desmantelado e os liberais flertam iliberalmente com a extrema-direita. Depois das eleições de Junho, veremos a verdadeira natureza do Grupo do Partido Europeu dos Liberais, Democratas e Reformistas. E não se pode descartar que também veremos sua explosão.

Colaborador

Francesca De Benedetti cobre assuntos europeus na Domani e escreve colunas sobre política europeia para a Vanity Fair. É cofundadora da newsletter European Focus. Os seus escritos sobre a política italiana foram publicados pelo Libération, Balkan Insight, International Press Institute e outros meios de comunicação internacionais.

24 de setembro de 2023

Ursula von der Leyen está levando a Europa para a direita

O discurso sobre o "Estado da União" da chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, mostra que ela está concentrando cada vez mais poder nas suas próprias mãos. Não só os partidos de extrema-direita estão em ascensão em todo o continente, mas também o principal responsável da UE está impulsionando a sua agenda.

Francesca De Benedetti

Jacobin

Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, faz o seu discurso sobre o Estado da União ao Parlamento Europeu em Estrasburgo, França, em 13 de setembro de 2023. (Stefan Wermuth/Bloomberg via Getty Images)

A chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, está concentrando cada vez mais poder nas suas próprias mãos - e isso está a acontecendo em paralelo com a deriva da União Europeia para a direita.

Assumir poderes ilimitados sempre foi uma tentação para os líderes europeus de direita. Há uma década, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, começou a teorizar a "democracia iliberal". Ele foi seguido em 2019 por Matteo Salvini, líder da Lega, de extrema direita, que exigiu "plenos poderes" para mudar a Itália.

Mas quando se trata do presidente da Comissão Europeia, esta tendência parece particularmente desastrosa, em uma altura em que o futuro da UE está em jogo. O défice democrático do bloco não foi resolvido; pelo contrário, é hoje agravado por alegadas violações do Estado de direito, tanto nos Estados-Membros como a nível da própria UE.

Não só a posição democrática da UE está hoje em causa, mas também a sua vocação social, em uma época em que dezenas de milhões de pessoas são atingidas pelo aumento do custo de vida. Em um tal contexto, as ações de Von der Leyen representam tanto o resultado da viragem neoliberal da UE - como a premissa da sua maior iliberalização.

O Estado da União

"Em pouco menos de trezentos dias, os europeus irão às urnas na nossa democracia única e notável." Foi com estas palavras de elogio ao vigor democrático da UE que Von der Leyen iniciou o seu discurso "Estado da União 2023" em 13 de setembro.

Nos Estados Unidos, a tradição do “Estado da União” foi iniciada por George Washington em 1790 e, desde a invenção dos meios de comunicação de massa, pelo menos supostamente representou um momento unificador. Em 2010, a UE também introduziu a ideia de um discurso anual do presidente da Comissão Europeia. Suposto para anunciar a agenda legislativa — e permitir a responsabilização do presidente — este discurso é também sobre o capital político deste líder.

Com o seu mandato quase no fim, Von der Leyen está claramente de olho em um segundo mandato. É por isso que ela transformou efetivamente este Estado da União em um discurso de campanha para as eleições europeias do próximo mês de junho, como ficou claro nas primeiras linhas citadas acima.

Mas também é evidente uma tendência de direita: o termo mais adequado seria "melonização" de Von der Leyen. O presidente, que liderou vários ministérios alemães sob a chanceler Angela Merkel, pertence ao Partido Popular Europeu (PPE), cujo líder é Manfred Weber. Há dois anos, o PPE intensificou as suas conversações com os Conservadores e Reformistas Europeus (ECR), liderados pela extrema-direita italiana Giorgia Meloni. Este diálogo resultou em uma aliança tática que hoje se desenvolve rapidamente.

Já antes de Meloni, líder do partido pós-fascista Fratelli d'Italia, se tornar primeira-ministra italiana em outubro passado, ela tinha boicotado tentativas de formar uma aliança de extrema-direita à escala europeia, tal como proposto por Matteo Salvini, Viktor Orbán e Marine Le Pen. Em troca deste papel de sabotadora, Meloni poderia tornar-se um interlocutora da força de direita dominante na UE, especificamente o PPE. Sem a normalização da líder pós-fascista italiana por Weber, teria sido mais difícil para ela governar. Mas foi exatamente isso que ela garantiu.

Em janeiro de 2022, a eleição de Roberta Metsola, do PPE, como presidente do Parlamento Europeu foi o primeiro teste desta aliança em si; o grupo ECR, que também inclui o Vox da Espanha e o Law and Justice da Polônia, ganhou um vice-presidente. Mais importante ainda, garantiu o rompimento do anterior cordão sanitário contra a extrema direita. Depois vieram as eleições na Suécia e na Finlândia, cujos novos primeiros-ministros pertencem ambos ao PPE e governam com o apoio de partidos de extrema-direita. O chefe do PPE, Weber, abriu a porta a este tipo de acordos: os pós-fascistas e os pós-nazistas já não são um tabu para o PPE quando se trata de alianças governamentais.

A "melonização" de Ursula von der Leyen

Apesar das lutas políticas internas entre eles, Manfred Weber e Ursula von der Leyen chegaram a um acordo. Enquanto a presidente da Comissão Europeia pensa no seu segundo mandato, o atual está fazendo uma clara mudança para a direita.

Von der Leyen é bem conhecida pelos seus métodos centralizadores: por vezes até os seus comissários da UE são excluídos da tomada de decisões. Durante a pandemia, a ambição de Von der Leyen por "plenos poderes" veio à tona quando o New York Times escreveu sobre a sua negociação com a Pfizer sobre vacinas "com mensagens de texto e chamadas". Já meses antes, os membros do Parlamento Europeu tinham denunciado a falta de transparência da Comissão Europeia, simbolizada pela "sala escura" onde apenas alguns deles, durante alguns minutos, podiam olhar para contratos fortemente redigidos.

Após a explosão do "SMS-gate", o Provedor de Justiça Europeu concluiu que "a Comissão deveria ter procurado os documentos solicitados, incluindo os não registados. O fato de a Comissão não o fazer constitui má administração." A Procuradoria Europeia está investigando o caso e o responsável do gabinete denunciou a "falta de informação" da Comissão Europeia.

A aliança tática com Meloni está exacerbando a atitude de Von der Leyen. A presidente da Comissão Europeia mostrou diversas vezes o seu apoio ao primeiro-ministro de Itália: quando Meloni a convida, Von der Leyen segue-o. Ela foi para Emilia-Romagna após as enchentes na região norte da Itália, e depois para a ilha de Lampedusa quando Meloni falou que a Itália enfrentava uma crise migratória.

Mas as viagens da dupla à capital tunisina neste verão foram as mais interessantes, em termos da falta de legitimidade democrática da UE. Von der Leyen deu a Meloni um palco para a sua propaganda - e uma oportunidade para promover a ideia de um acordo com o presidente autoritário da Tunísia, Kais Saied, para gerir a migração, impedindo as pessoas de atravessar o Mediterrâneo. Embora Saied seja um expoente da teoria da "grande substituição" e tenha destruído a democracia no seu país, a Comissão Europeia assinou rapidamente o memorando com a Tunísia.

Sophie in't Veld, uma deputada liberal do Parlamento Europeu e uma forte defensora do Estado de direito, salientou imediatamente que o memorando tinha o estatuto jurídico de "uma base para copos de cerveja". In't Veld pergunta: "Por que Mark Rutte e Giorgia Meloni estavam na Comissão da UE quando o memorando foi assinado? Qual é o estatuto jurídico desta delegação chamada 'Team Europe'? Este é um corpo de fantasia!" Von der Leyen "está ignorando cada vez mais os freios e contrapesos; ela está confundindo a separação de poderes. O efeito final é a falta de control' democrático: quem devemos responsabilizar por este memorando?"

A inconsistência do acordo UE-Tunísia ficou evidente em setembro: o Alto Representante da UE para as Relações Exteriores e a Política de Segurança, Josep Borrell, relatou que "vários Estados-Membros expressaram a sua incompreensão relativamente à ação unilateral da comissão".

Apesar da carta de Borrell, datada de 7 de setembro, uma semana depois Von der Leyen afirmou no seu discurso sobre o Estado da União que "assinamos uma parceria com a Tunísia... e agora queremos trabalhar em acordos semelhantes com outros países."

Interesses corporativos

"Nós, o povo" está transformando-se agora em "eu, Von der Leyen". Neste sentido, é emblemático o Estado da União 2023. Projetada para as eleições de 2024, Von der Leyen anunciou novas funções, novos procedimentos e novas nomeações, das quais ela é a única guardiã.

"Nomearemos um enviado da UE para as PME [pequenas e médias empresas] e ele reportará diretamente a mim" — disse ela, mudando de "nós" para "eu" — "e para cada nova peça legislativa realizaremos uma verificação de competitividade por meio de um conselho independente." Ela anunciou: "Pedi a Mario Draghi que preparasse um relatório sobre o futuro da competitividade europeia".

O processo legislativo da UE já prevê consultas públicas. A escolha de inventar um novo papel para representar os interesses empresariais deve ser interpretada como um piscar de olhos à base do PPE; mas Von der Leyen não faz mais do que ampliar o enorme défice democrático da UE. As empresas e os grupos de pressão já têm um acesso privilegiado à elaboração de políticas da Comissão Europeia, ao contrário das ONG e dos grupos da sociedade civil, que muitas vezes não são ouvidos por Von der Leyen e pela sua comissão. A aliança tática entre o PPE e Meloni também é visível no seu ataque combinado contra as ONG. A extrema direita italiana começou a atacar ONGs que resgatavam migrantes, enquanto Weber utilizou o escândalo de corrupção conhecido como "Qatargate" para tentar impor limites às atividades das ONG em Bruxelas.

A regra da lei de Ursula von der Leyen

"A Comissão Europeia não está disposta a ouvir os representantes sindicais, e a presidente excluiu completamente os trabalhadores do seu discurso anual: ela não encontrou espaço para falar sobre preços inacessíveis ou sobre os direitos dos trabalhadores", afirmou o membro belga de esquerda do Parlamento Europeu. Marc Botenga me conta.

O grupo PPE respeita cada vez menos o cordão sanitário contra a extrema direita; mas, ao mesmo tempo, projeta este cordão contra a esquerda, quer se trate de partidos de esquerda ou de ativistas climáticos. "O objetivo é deslegitimar e marginalizar a dissidência", diz Botenga.

O controle do poder de Ursula von der Leyen e Giorgia Meloni foi concebido para evitar dissidências. A vulnerabilidade da governança democrática europeia deve ser considerada juntamente com o impulso para políticas neoliberais. Bruxelas não enterrou de todo a austeridade: apesar da resposta comum à pandemia com a iniciativa "NextGenerationEU", o debate sobre a reforma do Pacto de Estabilidade e Crescimento ainda é guiado pelo princípio do controlo rígido da despesa pública. A centralização de poderes nas mãos de líderes neoliberais de direita pode agravar tanto a falta de uma Europa social como o défice democrático da UE.

Em 2021, o Parlamento Europeu pressionou Von der Leyen devido ao seu atraso em acionar o chamado mecanismo de condicionalidade do Estado de direito, uma nova margem de manobra que permitiu a Bruxelas congelar fundos da UE em caso de violação do Estado de direito. Devido a um acordo silencioso entre Angela Merkel e Viktor Orbán, o presidente da Comissão Europeia esperou até às eleições húngaras de abril de 2022 antes de acionar o mecanismo.

Desde o início da aliança tática entre o PPE e o ECR de Meloni, as ameaças ao Estado de direito aumentaram, da Itália à Grécia. Apesar disso, Von der Leyen passa as suas "férias privadas" na casa de praia do primeiro-ministro grego Kyriakos Mitsotakis e cede abertamente à propaganda de Meloni. No seu Estado da União 2023, Von der Leyen anuncia que "abriremos os Relatórios sobre o Estado de Direito aos países candidatos". O presidente não faz qualquer menção à Hungria, à Polônia, à Grécia, à Itália e aos governos de extrema direita que corroem constantemente a democracia na Europa.

Colaborador

Francesca De Benedetti cobre assuntos europeus na Domani e escreve colunas sobre política europeia para a Vanity Fair. É cofundadora da newsletter European Focus. Os seus escritos sobre a política italiana foram publicados pelo Libération, Balkan Insight, International Press Institute e outros meios de comunicação internacionais.

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