Forrest Hylton
Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão. Dois ex-ministros da Defesa, o general Walter Braga Netto e o general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, foram condenados a 26 e 19 anos, respectivamente. O general Augusto Heleno, ex-chefe da Segurança Institucional, recebeu 21 anos; o ex-chefe da Inteligência, Alexandre Ramagem, e o ex-chefe da Marinha, almirante Almir Garnier Santos, receberam 24 anos cada; Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, recebeu 16 anos. O secretário e intermediário de Bolsonaro, tenente-coronel Mauro Cid, foi condenado a dois anos de prisão domiciliar.
O veredicto foi histórico em um sentido forte: diferentemente da Argentina e do Uruguai, não houve nenhum acerto de contas judicial com a ditadura no Brasil até então; não houve Comissão da Verdade até 2014.
Para a geração que viveu o golpe de 1964 – cuja história Bolsonaro e seu governo militar tentaram reescrever – e que viu os militares saírem impunes durante a transição para a democracia constitucional em 1986, com a impunidade garantida pela Constituição de 1988, havia chegado a hora de comemorar – rolhas de champanhe estouravam no meu prédio em Salvador, Bahia. As gerações mais jovens se juntaram à festa. A porteira e o zelador sorriam e riam na manhã de sexta-feira enquanto lavavam a entrada, comentando como Trump, Bolsonaro e os militares brasileiros haviam encontrado seu limite no Supremo Tribunal Federal.
Na noite de sexta-feira, as pessoas comemoravam em bares, nas ruas e praças com samba, música e uma euforia incomum. No sábado, no final de um longo show, a banda local Ifá fez uma pausa para celebrar a duração das sentenças e exigir que os conspiradores fossem presos em vez de cumprirem prisão domiciliar (ao contrário do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe, Bolsonaro corre o risco de fugir). A multidão foi ao delírio. No domingo, no farol da Barra, era como um Carnaval, com multidões de pessoas indo para ouvir uma apresentação de artistas locais sob o sol escaldante da tarde e pela noite adentro.
Os pescadores de Porto da Barra concordaram que o veredicto foi histórico e comemoraram durante todo o fim de semana. Eles estavam revoltados com Trump há semanas. Alguns dos homens que carregavam guarda-sóis e cadeiras até a praia me disseram que a maior facção do crime organizado do Brasil finalmente havia caído; eles também comentavam sobre como Trump precisava ser colocado em seu devido lugar. Havia muita alegria ao se pensar na possibilidade de Bolsonaro passar o resto da vida na prisão.
Apesar de ser deputado federal, o filho de Bolsonaro, Eduardo, está nos EUA há meses, fazendo lobby em nome do pai – com algum sucesso, como evidenciado pelas tarifas de 50% que os EUA impuseram às importações brasileiras e pelos ataques, incluindo sanções, contra Alexandre de Moraes, a quem Trump acusa de perseguir seu “amigo” Jair Bolsonaro. Marco Rubio chamou o julgamento no Supremo Tribunal de Justiça de “caça às bruxas” e disse que os EUA “responderiam de acordo”.
Eduardo tem medo de voltar para casa, perguntando ao pai se ele também se tornaria um prisioneiro. Seu irmão, Carlos Bolsonaro, também está sendo investigado. Na semana anterior à sentença do ex-presidente, cerca de 42 mil apoiadores de Bolsonaro lotaram a Avenida Paulista, em São Paulo, com uma bandeira americana gigante, mas isso não fez diferença. Desta vez, não.
Até Trump começar a atacar o Brasil e seu judiciário, Lula estava em queda livre nas pesquisas de opinião entre sua base eleitoral – pessoas que ganham menos que o dobro do salário mínimo, especialmente no Nordeste – apesar do desemprego historicamente baixo e do progresso significativo no combate à desigualdade. Agora, graças à hostilidade de Trump, Lula tem uma enorme vantagem nas pesquisas para a eleição do ano que vem.
Historiadores falam de consequências não intencionais, psicanalistas de comportamentos perversos que produzem resultados opostos aos desejados. O ministro Alexandre de Moraes se tornou uma estrela global. A ministra Cármen Lúcia, no entanto, roubou a cena com sua opinião escrita de 400 páginas, condensada em uma exposição de duas horas de impecável raciocínio jurídico. (Em contraste com o Ministro Luiz Fux, que levou doze horas para argumentar – de forma falaciosa – que o tribunal não era competente para julgar o caso.) “Este processo criminal”, disse Lúcia, “é um encontro entre o Brasil e seu passado, seu presente e seu futuro.”
Diante dos ataques de Trump e da improbabilidade de que cessem, a disposição de Lula em enfrentá-lo é amplamente vista como uma defesa do próprio Brasil. A soberania nacional, ou a falta dela, está manifestamente em jogo. A extrema direita não tem candidatos credíveis: Michelle Bolsonaro, manchada por um escândalo de contrabando (um assessor foi flagrado pela alfândega retornando da Arábia Saudita com joias não declaradas no valor de mais de 3 milhões de dólares), e Tarcísio de Freitas, que está ocupado privatizando e militarizando São Paulo, o estado mais rico e populoso do Brasil, têm apelo limitado em nível nacional.
Freitas esteve em Brasília tentando angariar apoio para uma lei de anistia, na esperança de se posicionar como o líder capaz de reconstruir o país antes de 2026. Sua ideia é fazer com que o Centrão – o bloco de partidos independentes no Congresso – estabeleça uma contrapartida, na qual os projetos de desenvolvimento de Lula seriam mantidos como reféns até que Bolsonaro e os generais recebam anistia. O consenso entre políticos, jornalistas e acadêmicos em Brasília é que Freitas enfrenta grandes dificuldades, dada a natureza transacional da política brasileira.
A República Federal não é presidencialista: o Congresso tem poder extraordinário para paralisar iniciativas do Executivo por meio do controle do orçamento. Mas o Centrão tem mais a ganhar continuando a operar sem Bolsonaro do que tentando ressuscitá-lo politicamente. Resistir aos apelos por anistia também não deve custar caro aos políticos do Centrão nas urnas.
Aparentemente, o barco de Bolsonaro já partiu, embora ainda haja um processo de apelação em andamento. Supondo que a rigidez política de Trump se mantenha ou se aprofunde, ele não recuará nos ataques ao Brasil. Os ataques disparados até agora ou erraram o alvo ou se voltaram contra ele.
Enquanto as tarifas de Trump estiverem em vigor, o Brasil venderá mais petróleo, soja, carne bovina, ouro, esmeraldas, cacau, madeira nobre, café e suco de laranja para o Japão, Coreia do Sul, China, Rússia, Índia e União Europeia. Mesmo que as tarifas sejam revogadas no futuro, o Brasil talvez nunca mais dependa dos mercados consumidores dos EUA na mesma medida. E se o apoio interno a Lula se mantiver nos níveis atuais (embora isso seja uma grande incógnita), ele poderá até mesmo vencer a eleição presidencial do ano que vem no primeiro turno.
É difícil lembrar de um tempo em que, em toda a esfera anglo-saxônica, o Brasil fosse considerado um paradigma da democracia, mas, graças à independência de seu Supremo Tribunal Federal, esse é o caso agora. Na última quinta-feira, o tribunal considerou o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados nas Forças Armadas culpados de conspirar para assassinar o presidente Luís Inácio Lula da Silva e derrubar seu governo democraticamente eleito em 8 de janeiro de 2023.
Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão. Dois ex-ministros da Defesa, o general Walter Braga Netto e o general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, foram condenados a 26 e 19 anos, respectivamente. O general Augusto Heleno, ex-chefe da Segurança Institucional, recebeu 21 anos; o ex-chefe da Inteligência, Alexandre Ramagem, e o ex-chefe da Marinha, almirante Almir Garnier Santos, receberam 24 anos cada; Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, recebeu 16 anos. O secretário e intermediário de Bolsonaro, tenente-coronel Mauro Cid, foi condenado a dois anos de prisão domiciliar.
O veredicto foi histórico em um sentido forte: diferentemente da Argentina e do Uruguai, não houve nenhum acerto de contas judicial com a ditadura no Brasil até então; não houve Comissão da Verdade até 2014.
Para a geração que viveu o golpe de 1964 – cuja história Bolsonaro e seu governo militar tentaram reescrever – e que viu os militares saírem impunes durante a transição para a democracia constitucional em 1986, com a impunidade garantida pela Constituição de 1988, havia chegado a hora de comemorar – rolhas de champanhe estouravam no meu prédio em Salvador, Bahia. As gerações mais jovens se juntaram à festa. A porteira e o zelador sorriam e riam na manhã de sexta-feira enquanto lavavam a entrada, comentando como Trump, Bolsonaro e os militares brasileiros haviam encontrado seu limite no Supremo Tribunal Federal.
Na noite de sexta-feira, as pessoas comemoravam em bares, nas ruas e praças com samba, música e uma euforia incomum. No sábado, no final de um longo show, a banda local Ifá fez uma pausa para celebrar a duração das sentenças e exigir que os conspiradores fossem presos em vez de cumprirem prisão domiciliar (ao contrário do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe, Bolsonaro corre o risco de fugir). A multidão foi ao delírio. No domingo, no farol da Barra, era como um Carnaval, com multidões de pessoas indo para ouvir uma apresentação de artistas locais sob o sol escaldante da tarde e pela noite adentro.
Os pescadores de Porto da Barra concordaram que o veredicto foi histórico e comemoraram durante todo o fim de semana. Eles estavam revoltados com Trump há semanas. Alguns dos homens que carregavam guarda-sóis e cadeiras até a praia me disseram que a maior facção do crime organizado do Brasil finalmente havia caído; eles também comentavam sobre como Trump precisava ser colocado em seu devido lugar. Havia muita alegria ao se pensar na possibilidade de Bolsonaro passar o resto da vida na prisão.
Apesar de ser deputado federal, o filho de Bolsonaro, Eduardo, está nos EUA há meses, fazendo lobby em nome do pai – com algum sucesso, como evidenciado pelas tarifas de 50% que os EUA impuseram às importações brasileiras e pelos ataques, incluindo sanções, contra Alexandre de Moraes, a quem Trump acusa de perseguir seu “amigo” Jair Bolsonaro. Marco Rubio chamou o julgamento no Supremo Tribunal de Justiça de “caça às bruxas” e disse que os EUA “responderiam de acordo”.
Eduardo tem medo de voltar para casa, perguntando ao pai se ele também se tornaria um prisioneiro. Seu irmão, Carlos Bolsonaro, também está sendo investigado. Na semana anterior à sentença do ex-presidente, cerca de 42 mil apoiadores de Bolsonaro lotaram a Avenida Paulista, em São Paulo, com uma bandeira americana gigante, mas isso não fez diferença. Desta vez, não.
Até Trump começar a atacar o Brasil e seu judiciário, Lula estava em queda livre nas pesquisas de opinião entre sua base eleitoral – pessoas que ganham menos que o dobro do salário mínimo, especialmente no Nordeste – apesar do desemprego historicamente baixo e do progresso significativo no combate à desigualdade. Agora, graças à hostilidade de Trump, Lula tem uma enorme vantagem nas pesquisas para a eleição do ano que vem.
Historiadores falam de consequências não intencionais, psicanalistas de comportamentos perversos que produzem resultados opostos aos desejados. O ministro Alexandre de Moraes se tornou uma estrela global. A ministra Cármen Lúcia, no entanto, roubou a cena com sua opinião escrita de 400 páginas, condensada em uma exposição de duas horas de impecável raciocínio jurídico. (Em contraste com o Ministro Luiz Fux, que levou doze horas para argumentar – de forma falaciosa – que o tribunal não era competente para julgar o caso.) “Este processo criminal”, disse Lúcia, “é um encontro entre o Brasil e seu passado, seu presente e seu futuro.”
Diante dos ataques de Trump e da improbabilidade de que cessem, a disposição de Lula em enfrentá-lo é amplamente vista como uma defesa do próprio Brasil. A soberania nacional, ou a falta dela, está manifestamente em jogo. A extrema direita não tem candidatos credíveis: Michelle Bolsonaro, manchada por um escândalo de contrabando (um assessor foi flagrado pela alfândega retornando da Arábia Saudita com joias não declaradas no valor de mais de 3 milhões de dólares), e Tarcísio de Freitas, que está ocupado privatizando e militarizando São Paulo, o estado mais rico e populoso do Brasil, têm apelo limitado em nível nacional.
Freitas esteve em Brasília tentando angariar apoio para uma lei de anistia, na esperança de se posicionar como o líder capaz de reconstruir o país antes de 2026. Sua ideia é fazer com que o Centrão – o bloco de partidos independentes no Congresso – estabeleça uma contrapartida, na qual os projetos de desenvolvimento de Lula seriam mantidos como reféns até que Bolsonaro e os generais recebam anistia. O consenso entre políticos, jornalistas e acadêmicos em Brasília é que Freitas enfrenta grandes dificuldades, dada a natureza transacional da política brasileira.
A República Federal não é presidencialista: o Congresso tem poder extraordinário para paralisar iniciativas do Executivo por meio do controle do orçamento. Mas o Centrão tem mais a ganhar continuando a operar sem Bolsonaro do que tentando ressuscitá-lo politicamente. Resistir aos apelos por anistia também não deve custar caro aos políticos do Centrão nas urnas.
Aparentemente, o barco de Bolsonaro já partiu, embora ainda haja um processo de apelação em andamento. Supondo que a rigidez política de Trump se mantenha ou se aprofunde, ele não recuará nos ataques ao Brasil. Os ataques disparados até agora ou erraram o alvo ou se voltaram contra ele.
Enquanto as tarifas de Trump estiverem em vigor, o Brasil venderá mais petróleo, soja, carne bovina, ouro, esmeraldas, cacau, madeira nobre, café e suco de laranja para o Japão, Coreia do Sul, China, Rússia, Índia e União Europeia. Mesmo que as tarifas sejam revogadas no futuro, o Brasil talvez nunca mais dependa dos mercados consumidores dos EUA na mesma medida. E se o apoio interno a Lula se mantiver nos níveis atuais (embora isso seja uma grande incógnita), ele poderá até mesmo vencer a eleição presidencial do ano que vem no primeiro turno.

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