Mara Marques Cavallaro
Jacobin
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| Quarenta anos após o fim da ditadura militar no Brasil, e sete após a eleição de um presidente que elogiou seus torturadores, a memória da ditadura brasileira permanece controversa. (Vitrine Filmes) |
Quarenta anos após o fim da ditadura militar no Brasil, sete desde a eleição de um presidente que elogiou seus torturadores e três desde que o ex-presidente tentou um golpe de Estado, pode ser tentador diagnosticar o país inteiro com uma espécie de amnésia nacional. Afinal, essa é a explicação mais otimista para a ascensão de Jair Bolsonaro e da extrema direita. A menos otimista — de que seus apoiadores reconheçam seu autoritarismo, plenamente conscientes do que isso significa — é mais assustadora. E a verdadeira explicação, sem dúvida, reside em algum lugar entre esses dois extremos — em algum lugar na confusão de memórias herdadas e consentimento fabricado, de arquivos oficiais e os arquivos armazenados em nossa carne.
É esse mosaico de memória coletiva que anima O Agente Secreto, o mais recente longa-metragem do diretor Kleber Mendonça Filho. Ambientado em Recife, em plena ditadura brasileira — o letreiro diz simplesmente “Nossa história se passa no Brasil de 1977, um período de grandes perversidades” — o thriller acompanha Marcelo Alves (Wagner Moura), um cientista viúvo em fuga. No início do filme, ele dirige por três dias seguidos até chegar a uma casa segura administrada pela idosa Dona Sebastiana (Tânia Maria); ele deixa seu filho pequeno (Enzo Nunes) aos cuidados dos sogros (Carlos Francisco e Aline Marta Maia); está exausto e tem pesadelos. Marcelo não é seu nome verdadeiro. Mas, embora o título sugira o contrário, ele é um homem comum que enfrentou um homem poderoso — não um agente secreto.
O fato de alguém sequer ouvir a história de Marcelo, aliás, se deve a uma dissidente chamada Elza (Maria Fernanda Cândido), que talvez se encaixe no perfil de “agente secreta”. É ela quem avisa que Marcelo está sob ameaça de morte; que lhe arranja um emprego, até que seu passaporte falso esteja pronto, em um escritório de emissão de documentos de identidade em Recife; e que, diante de notícias plantadas e censura desenfreada, começa a conduzir suas próprias entrevistas. É Elza quem desafia os arquivos e registros oficiais da época — arquivos que constituem o tema central e o objeto de investigação do filme. Para Mendonça, os registros oficiais, essas manifestações físicas da memória pública, são tão cruciais para o contexto histórico quanto para o enredo, e poderosos o suficiente, em seus apagamentos e invenções, para moldar a história à medida que se desenrola.
Por fim, o jornal acusa falsamente Marcelo de corrupção e envolvimento em “crimes sob investigação”. O clima é sombrio, e o público fica encarregado de juntar as peças do quebra-cabeça. O governo brasileiro de 1977 era mais do que “malicioso”; era uma ditadura. Sua principal preocupação era o anticomunismo, a polícia atuava como agente do terror de Estado e a imprensa era um instrumento para fabricar consenso.
É esse mosaico de memória coletiva que anima O Agente Secreto, o mais recente longa-metragem do diretor Kleber Mendonça Filho. Ambientado em Recife, em plena ditadura brasileira — o letreiro diz simplesmente “Nossa história se passa no Brasil de 1977, um período de grandes perversidades” — o thriller acompanha Marcelo Alves (Wagner Moura), um cientista viúvo em fuga. No início do filme, ele dirige por três dias seguidos até chegar a uma casa segura administrada pela idosa Dona Sebastiana (Tânia Maria); ele deixa seu filho pequeno (Enzo Nunes) aos cuidados dos sogros (Carlos Francisco e Aline Marta Maia); está exausto e tem pesadelos. Marcelo não é seu nome verdadeiro. Mas, embora o título sugira o contrário, ele é um homem comum que enfrentou um homem poderoso — não um agente secreto.
O fato de alguém sequer ouvir a história de Marcelo, aliás, se deve a uma dissidente chamada Elza (Maria Fernanda Cândido), que talvez se encaixe no perfil de “agente secreta”. É ela quem avisa que Marcelo está sob ameaça de morte; que lhe arranja um emprego, até que seu passaporte falso esteja pronto, em um escritório de emissão de documentos de identidade em Recife; e que, diante de notícias plantadas e censura desenfreada, começa a conduzir suas próprias entrevistas. É Elza quem desafia os arquivos e registros oficiais da época — arquivos que constituem o tema central e o objeto de investigação do filme. Para Mendonça, os registros oficiais, essas manifestações físicas da memória pública, são tão cruciais para o contexto histórico quanto para o enredo, e poderosos o suficiente, em seus apagamentos e invenções, para moldar a história à medida que se desenrola.
A história oficial
O primeiro jornal que Marcelo encontra é a edição de 25 de fevereiro de 1977 do Diário de Pernambuco — uma publicação real de Recife. Ele o leva para o seu primeiro dia de trabalho, onde uma visita guiada pelo escritório o leva por um porão repleto de armários empilhados com arquivos amarelados que ele logo descobre serem fundamentalmente falhos. Quando seu chefe pede um nome para demonstrar como localizar documentos de identidade, Marcelo oferece o de sua falecida mãe, apenas para descobrir que os documentos masculinos são mais fáceis de encontrar. A visita continua então no andar de cima, passando por uma cruz de madeira, uma bandeira brasileira e um retrato emoldurado do presidente Ernesto Geisel.
É quando Marcelo finalmente chega à sua mesa e abre o jornal que ele conhece o chefe de polícia Euclides Oliveira Cavalcanti (Robério Diógenes), que se aproxima acenando com a cabeça para a manchete da primeira página, “Número de mortos no Carnaval: 91”, e prevendo ironicamente que “Vai passar de 100”. (Um cadáver será, de fato, noticiado nesta mesma edição do jornal. Mas estou me adiantando.) No momento, Marcelo sente apenas uma aversão instintiva por Euclides — provavelmente pela maioria dos policiais da época. O que ele ainda não sabe, mas o público sabe, é o quão intrinsecamente ligados estão o chefe de polícia, a mídia e a violência estatal.
Em uma trama paralela à de Marcelo, Euclides lê em voz alta outra manchete macabra: “Perna Humana Encontrada no Estômago de Tubarão”. O próprio chefe de polícia, confirma o artigo, está liderando a investigação e é citado dizendo que o caso é “muito estranho”. Mas quando ele vira a página para a próxima manchete, “Estudante de Agronomia Ainda Desaparecido”, é revelado não apenas que a perna encontrada pertence ao estudante, mas que o próprio chefe de polícia é o responsável por seu assassinato, ou pelo menos por seu acobertamento.
“Nada aqui”, diz Euclides, tranquilizando-o, sobre os artigos. “Nem haverá.” Quando o filho do chefe, também policial, pergunta por que ele se preocupa com o que é publicado no jornal — afinal, está sujeito à censura da ditadura — ele responde: “Porque pode haver uns comunistas desgraçados tentando nos derrubar”.
O fato de termos ao menos uma chance de chegar a um entendimento compartilhado e preciso do nosso passado se deve a esse registro, documentação e investigação da verdade.
Em um filme que opta por nunca mencionar o nome da ditadura, é em momentos de diálogo como esses que o diretor se mostra mais explícito sobre política. Marcelo admite ser “mais comunista do que capitalista”; Dona Sebastiana diz que foi “comunista e depois anarquista, ou foi o contrário?”; os moradores de seu abrigo são “refugiados”. Subentende-se que as pessoas que os atacam são capitalistas, fascistas, ditadores, assassinos, mas em alguns casos os detalhes são vagos. Há fortes indícios, por exemplo, de que a falecida esposa de Marcelo, Fátima, foi assassinada. Mas é quase como se, ao não ser completamente explícito, Mendonça estivesse espelhando a natureza evasiva da comunicação sob vigilância ou tentando atrair o público que se afastaria com a menção à ditadura logo de cara. O efeito é um filme que precisa ser visto mais de uma vez para ser totalmente compreendido.
Em um desses momentos, o filme toma um rumo aparentemente sobrenatural ao narrar a versão dos jornais sobre o desaparecimento da perna encontrada no necrotério da cidade — levada pelos capangas do chefe — na qual o sumiço do membro é atribuído a uma criatura folclórica. Na realidade, manchetes da década de 1970 acusavam repetidamente um ser mítico, a “perna peluda”, de atacar pessoas nas ruas de Recife. As histórias eram tão inacreditáveis que alguns dizem que eram denúncias codificadas da violência policial. Mas no filme, as pessoas — incluindo Marcelo — leem a história e riem. Horror e morte, contanto que não sejam atribuídos ao Estado, vendem bem.
Por fim, o jornal acusa falsamente Marcelo de corrupção e envolvimento em “crimes sob investigação”. O clima é sombrio, e o público fica encarregado de juntar as peças do quebra-cabeça. O governo brasileiro de 1977 era mais do que “malicioso”; era uma ditadura. Sua principal preocupação era o anticomunismo, a polícia atuava como agente do terror de Estado e a imprensa era um instrumento para fabricar consenso.
A verdadeira história
Em 1973, quatro anos antes da época em que se passa O Agente Secreto, meu avô foi assassinado por agentes da ditadura em Recife. Ele tinha 24 anos, era estudante de medicina e de esquerda. E embora ele — Jarbas Pereira Marques — e outros cinco, Soledad Barret Viedma, Pauline Reichstul, Eudaldo Gomes da Silva, Evaldo Luís Ferreira de Souza e José Manoel da Silva, tenham sido sequestrados e torturados antes de serem mortos, a manchete publicada naquela semana no Diário de Pernambuco — o mesmo jornal que impulsiona a trama de O Agente Secreto — foi “Segurança acaba com o terror na Grande Recife”. A verdadeira manchete no Jornal do Brasil, um jornal nacional ainda publicado no Rio de Janeiro, foi “Seis terroristas morrem em tiroteio em Pernambuco”. Na “versão oficial, a versão dos poderosos, os subversivos sempre morriam em tiroteios”, escreve minha mãe em sua autobiografia, Born Subversive. Na versão oficial, dissidentes são sempre terroristas.
Assim que tive idade suficiente para pesquisar o nome do meu avô no Google, encontrei os artigos. E embora a Comissão Nacional da Verdade do Brasil já tivesse determinado que a versão divulgada pela imprensa era falsa — graças a pessoas como minha bisavó, que encontrou o corpo do filho e exigiu uma autópsia apesar das ameaças à sua família — a violência do arquivo original permanece. Há pessoas hoje, como o próprio Bolsonaro, que ainda acreditam que pessoas como meu avô eram terroristas. Há pessoas que leram essas reportagens em 1973 e nunca leram uma correção. Há pessoas que me disseram que preferiam a ditadura brasileira à democracia atual, que negam, concordam ou elogiam sua violência. O mesmo acontece no Chile e na Argentina. Seja amnésia, negacionismo ou qualquer outro nome, temos um problema existencial com a memória. Simplesmente não nos lembramos da mesma maneira.
Por volta da metade de O Agente Secreto, a entrevista de Elza com Marcelo corta para um prédio de escritórios contemporâneo, onde uma jovem arquivista chamada Flávia (Laura Lufési) escuta a conversa deles em uma fita cassete. Ela e seu colega, como se descobre, são pesquisadores universitários encarregados de transcrever o arquivo de Elza. Quando são apresentados pela primeira vez, parecem um artifício forçado para conectar passado e presente, não personagens com identidade própria — mas então, em uma alusão ao negacionismo da ditadura de Bolsonaro, a universidade ordena que interrompam o trabalho e devolvam as fitas. Elas contêm, explica a direção, “informações sensíveis”. Mas Flávia, agora envolvida demais para desistir, decide agir por conta própria. Ela resolve procurar Fernando, o filho adulto de Marcelo.
Quando Flávia finalmente encontra Fernando (também interpretado por Wagner Moura), ela traz um presente: o arquivo de Elza, agora duplamente clandestino, copiado para um pen drive. Ela empurra o pen drive pela mesa; Fernando olha fixamente por um instante antes de, relutantemente, guardá-lo no bolso. Ele admite não se lembrar do pai. Aliás, Flávia deve saber mais sobre a história dele do que ele. Não há registros dele, e é doloroso tentar se lembrar.
Mas, apesar do que Fernando diz, Flávia encontra nele também um arquivo. Ele tem o rosto do pai e a voz que ela aprendeu a reconhecer nas gravações de Elza. Ele é a prova de que seus pais viveram, a prova de que sua avó paterna existiu, apesar do documento que seu pai nunca encontrou. Ele é filho do pai — da mesma forma que minha mãe é filha do pai dela. Ela tem as orelhas dele, os olhos dele e o nome que ele escolheu para ela. Ela ouviu histórias sobre como ele gostava de dançar, de cebolas e de Anna Karenina, de Liev Tolstói; como ele emprestava livros da livraria onde trabalhava para os amigos, contanto que prometessem devolvê-los em perfeito estado; como ele perdeu um irmão gêmeo quando criança e nasceu na última semana de agosto, como eu; como ele acreditava que seu país poderia fazer melhor por seu povo; Como ele era uma pessoa, um universo. Eu também já ouvi essas histórias.
O Agente Secreto, então, é um lembrete de que, mesmo em contextos autoritários, mesmo sob as circunstâncias mais hostis, não deixamos de criar nossos próprios arquivos — fitas cassete clandestinas, fotografias, histórias transmitidas de geração em geração, memórias como a da minha mãe sobre infâncias no exílio, filhos e netos que herdam nossos nomes, nossas lutas e nossas esperanças. O fato de termos ao menos uma chance de alcançar uma compreensão compartilhada e precisa do nosso passado se deve a esse registro, documentação e investigação da verdade.
Quarenta anos após o fim da ditadura militar no Brasil, Kleber Mendonça Filho questiona a quais vozes recorreremos e quais registros compartilharemos. Como nos lembraremos? Como viveremos?
Colaborador
Mara Marques Cavallaro é escritora e editora e reside no Harlem, Nova York, onde é diretora assistente da Columbia's Incarcerated Writers Initiative da Universidade Columbia. Seus trabalhos foram publicados em veículos como The Nation, Jacobin Brasil, Cleveland Review of Books e outros.

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