9 de janeiro de 2026

Liderança do Brasil está sob escombros após o ataque de Trump à Venezuela

Ao tentar equilibrar defesa da soberania venezuelana e denúncia de violação de direitos, país terminou em limbo diplomático

Perda da influência brasileira não se resume à falta de críticas a Maduro; intervenção dos EUA inviabilizou mediação da crise

Regiane Nitsch Bressan
Doutora em integração da América Latina pela USP, professora de relações internacionais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e presidente do FoMerco (Fórum Universitário Mercosul). Coautora de "Liquid Regionalism in the Americas"


[RESUMO] O Brasil falhou em construir uma alternativa de liderança diplomática na América no Sul ao mesmo tempo intransigente com o autoritarismo de Maduro e feroz na defesa da autonomia territorial da Venezuela, argumenta autora. Para recuperar seu papel de interlocutor na região e assegurar que a soberania brasileira não seja a próxima a ser ameaçada por potências estrangeiras, o país deve se manter fiel ao princípio de não intervenção e reafirmar que a América Latina deve ser uma zona de paz.

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A história latino-americana é marcada por dois movimentos recorrentes: o caudilhismo interno, que afronta as instituições democráticas, e o intervencionismo externo, que, sob o pretexto da salvação, viola a soberania das nações. Embora essa dinâmica de instabilidade doméstica e pressão estrangeira pareça uma sina inescapável da nossa trajetória, a América Latina conheceu janelas de oportunidade em que buscou ativamente romper esse círculo vicioso.

O cenário atual de degradação contrasta amargamente com o início do século 21, quando o Brasil e a Venezuela, sob as lideranças de Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez, consolidaram uma relação de proximidade e cooperação. Foi um período em que a América Latina ensaiou um movimento de autonomia estratégica, buscando soluções regionais para problemas comuns e fortalecendo blocos de integração que projetavam uma voz própria no cenário global.

Nicolás Maduro e Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Itamaraty, em Brasília, durante a Reunião de Presidentes dos Países da América do Sul em 2023 - Ueslei Marcelino - 30.mai.23/Reuters

Ao olharmos para a Venezuela neste janeiro de 2026, assistimos à colisão trágica dos dois erros históricos que a América Latina tantas vezes tentou superar. Por sua vez, o isolamento do Brasil na última Cúpula do Mercosul, realizada em Foz do Iguaçu em dezembro de 2025, e a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos não são episódios diplomáticos isolados. São sintomas de uma erosão de soberania que ameaça redesenhar o mapa de influência na América do Sul.

A mais recente Cúpula de Líderes do Mercosul evidenciou uma fratura exposta no coração da diplomacia regional. Enquanto a Argentina, o Paraguai, o Panamá e outros vizinhos assinaram um comunicado incisivo exigindo o restabelecimento da ordem democrática e o fim das detenções arbitrárias em Caracas, o Brasil silenciou, optando por não subscrevê-lo.

A recusa em assinar o documento, sob a justificativa de que o texto omitia a preocupação com interferências externas e a presença militar norte-americana no Caribe, levanta uma questão central: o Brasil abriu mão da sua liderança regional ao não ter um posicionamento mais assertivo sobre o regime de Nicolás Maduro?

A análise desse cenário exige uma reflexão complexa. Ao longo da última década, o desmantelamento sistemático da independência dos Poderes na Venezuela e a gestão econômica que levou ao empobrecimento da população criaram um vácuo de autoridade moral. Quando o Brasil hesita em condenar o caudilhismo, permite que esse espaço seja ocupado por potências extrarregionais que não têm compromisso com a paz regional, mas com seus próprios interesses estratégicos.

É inegável que a democracia exige alternância, transparência e respeito aos direitos humanos. O reconhecimento da falência do regime de Maduro, contudo, não significa que os EUA têm o direito de legitimar uma intervenção militar que visa, explicitamente, controlar recursos estratégicos. O governo Donald Trump, ao redefinir a Doutrina Monroe para o século 21, deixou claro que a chamada libertação venezuelana vem com uma fatura cobrada em barris de petróleo.

A declaração de Washington sobre a necessidade de "reter o petróleo" para "garantir a estabilidade" é um eufemismo perigoso para o neocolonialismo e a violação flagrante da autodeterminação dos povos. Quando uma potência estrangeira condiciona a sua ação à posse de riquezas naturais, a operação passa a configurar uma ocupação militar com custos operacionais pagos pelo país invadido com seus recursos.

Nesse cenário, surge a indagação: uma postura mais crítica do Brasil em relação a Maduro teria aumentado as chances de o país atuar como o mediador necessário para a crise?

É provável que, em um cenário de multilateralismo funcional, a autoridade moral de um Brasil que condena desvios democráticos coerentemente seria o maior trunfo da diplomacia sul-americana. Porém, os desafios no diálogo entre a diplomacia brasileira e Maduro desde o Consenso de Brasília, em maio de 2023, a realidade controversa imposta pelo governo Donald Trump e a ascensão de outros líderes, como Javier Milei na Argentina, inviabilizaram essa via.

Diante de um governo norte-americano que utiliza postos de comando militar para realizar capturas e ataques diretos, o espaço para a diplomacia regional robusta foi progressivamente asfixiado. O Brasil se viu em uma posição ingrata: assinar o documento na Cúpula do Mercosul poderia ser interpretado como um endosso indireto a uma catástrofe humanitária provocada por fuzis estrangeiros; não assinar, por outro lado, levou ao isolamento do Brasil em relação aos seus parceiros históricos e alimentou a narrativa de uma liderança omissa.

A fragmentação vista em Foz do Iguaçu, onde o Mercosul evitou mencionar a ofensiva dos EUA enquanto a direita regional celebrava o que chamava de pressão exercida por Trump, evidenciou a perda da coesão latino-americana.

Ao tentar equilibrar a defesa da soberania com a denúncia da violação de direitos, o Brasil terminou em um limbo diplomático. A influência brasileira na América do Sul está sob escombros porque o país não conseguiu, nos últimos anos, construir uma alternativa de liderança ao mesmo tempo intransigente com o autoritarismo de Maduro e feroz na defesa da autonomia territorial.

Validar o pressuposto de que os objetivos finais legitimam métodos arbitrários —o que, na prática, significa anuir com incursões militares estrangeiras para a destituição de regimes autoritários— equivale a destampar uma caixa de Pandora perigosa na arquitetura do direito internacional e fragilizar a paz global em prol de interesses individuais.

Se a comunidade internacional consentir hoje com intervenções externas travestidas de cruzadas democráticas, qual será a nossa blindagem retórica e jurídica amanhã, caso uma grande potência resolva tutelar a Amazônia brasileira ou os campos de lítio bolivianos sob o manto da segurança climática, da estabilidade ambiental ou da preservação de bens comuns da humanidade?

A soberania das nações não deve ser tratada como um conceito elástico, seletivo ou descartável sempre que o regime de turno se mostra desagradável aos olhos das potências globais. Ela é um pilar inalienável que sustenta a coexistência dos Estados e protege os povos de ambições neocoloniais.

O equívoco fundamental de Nicolás Maduro residiu na ilusão autoritária de que a legitimidade emana da força bruta e da opressão das instituições, não do consentimento livre e soberano do povo expresso por meio do contrato social básico.

Por outro lado, a falha estratégica e ética dos EUA foi de igual gravidade e tragédia: a crença messiânica persistente de que a democracia pode ser manufaturada e exportada na ponta de uma baioneta, que ignora que a liberdade e a estabilidade institucional nascem de processos políticos internos e diplomáticos, com a participação da sociedade civil organizada, não da imposição de uma ordem militar externa.

Porém, é simplista atribuir a perda de influência brasileira apenas à falta de críticas a Maduro. Há um fator exógeno que inviabilizou qualquer tentativa de mediação equilibrada: o modo de agir do governo Trump, que amedronta e desestabiliza a América Latina há um ano.

Quando uma potência estrangeira condiciona a chamada libertação de um país à apropriação das suas riquezas naturais, a operação passa a ser neocolonialista. O petróleo da Venezuela pertence ao seu povo e deve servir para reconstruir sua própria infraestrutura, não para abater os custos operacionais de uma ocupação militar estrangeira. Os recursos advindos dessa riqueza deveriam servir para reconstruir hospitais em Maracaibo e escolas em Caracas, nunca para garantir a segurança energética do hemisfério Norte. O melhor caminho sempre passou pela política e pelo respeito às urnas, não por bombardeios a embarcações no Caribe.

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