29 de março de 2025

Trump usa lógica do progressismo universitário contra as próprias universidades

Governo humilhou instituições poderosas em sua cruzada para suprimir discurso em defesa dos direitos humanos palestinos

Idelber Avelar
Professor de literatura na Universidade Tulane (EUA). Entre seus livros sobre política, contam-se "Crônicas do Estado de Exceção" (Azougue, 2015) e "Eles em Nós: Retórica e Antagonismo Político no Brasil do século 21" (Record, 2021).


[RESUMO] Perseguição promovida pelo governo Trump nos campi americanos a qualquer crítica a Israel, sob a fantasiosa alegação de combate ao antissemitismo, tem deixado poderosas universidades, como Columbia, de joelhos, enredadas na própria teia que ajudaram a tecer. Casa Branca se vale do discurso progressista dominante nessas instituições, que transforma discordâncias em danos psicológicos e confere autenticidade a um discurso a partir da identidade étnica de quem o profere, para criar a miragem de que judeus são perseguidos nas universidades do país.

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Em 8 de março, agentes migratórios entraram no apartamento de Mahmoud Khalil, bacharel pela Universidade Columbia (Nova York), e o detiveram sem acusação formal ou flagrante. Khalil é residente permanente dos EUA, ou seja, não está no país com um visto temporário. Ele foi informado de que seu green card seria revogado por "atividades alinhadas ao Hamas," embora a única atividade que o governo Trump conseguiu apontar foi sua participação nos protestos pró-palestinos de Columbia.

A deportação já foi bloqueada por um juiz federal, mas Khalil continua detido. Ele mora em Nova Jersey, mas foi levado, sem explicação, para uma prisão na Louisiana, a mais de 2.000 km de distância. O Judiciário ordenou que o caso volte para Nova Jersey, mas o Executivo não cumpriu a ordem.

Homem em protesto contra a detenção de Mahmoud Khalil, no lado de fora do campus principal da Columbia, em Nova York - Mike Segar-27.mar.25/REUTERS

Paralelo a isso, o governo bloqueava US$ 400 milhões (cerca de R$ 2,3 bilhões) de financiamento federal regular de Columbia enquanto a universidade "não combatesse o antissemitismo," expressão com a qual a Casa Branca designa a repressão a qualquer discurso crítico a Israel ou em defesa dos direitos humanos palestinos.

A resposta de Columbia foi humilhante. Decidiu cumprir as exigências de investigar os seus próprios estudantes por participação em protestos e de nomear um interventor externo para o Departamento de Estudos do Oriente Médio, medida que só acontece em casos extremos, quando um departamento se torna ingovernável.

Em 25 de março, Rumeysa Ozturk, doutoranda de cidadania turca na Universidade Tufts, foi abordada por agentes migratórios mascarados que a algemaram, confiscaram-lhe o telefone, e a levaram para um centro de detenção na Louisiana, de novo em violação de ordem judicial que determinava que ela permanecesse em Massachusetts. Informaram-lhe que seu visto estudantil seria revogado por "apoio ao Hamas," embora, de novo, nenhuma acusação formal lhe tenha sido feita.

Em 2 de março, um site que não lista colaboradores nem inclui matérias assinadas publicou um artigo apontando a doutora iraniana Helyeh Doutaghi, pesquisadora associada da Faculdade de Direito da Universidade Yale, como "membro de um grupo terrorista". A evidência citada de tal vínculo seria o cartaz de uma palestra em que supostamente estariam presentes outros "terroristas".

Enquanto isso acontecia, o governo Trump anunciava que Yale era parte de uma lista de 60 universidades que estariam ameaçadas de corte de verbas por supostamente não combater o antissemitismo.

Em menos de 24 horas, Yale baniu Doutaghi do campus, colocou-a em licença administrativa, apagou sua página profissional no site da universidade e revogou seus privilégios de biblioteca, laboratório e email. Isso aconteceu sem que ela tenha sido acusada de qualquer crime.

Qual é o método e quais são as condições de possibilidade desses ataques, e por que as universidades têm se ajoelhado de tal forma? Por que instituições tão poderosas, de lastro tão profundo, e admiradas no mundo todo, não conseguem minimamente reagir? Será que a chantagem pelo dinheiro explica tudo?

Os casos de Khalil, Ozturk e Doutaghi, que são apenas os mais visíveis entre muitos, não deixam dúvidas. No ataque de Trump às universidades, a alavanca, a matriz e o paradigma são a supressão do discurso em defesa dos direitos humanos palestinos. Troféu Poliana para quem acredita que Trump está preocupado com antissemitismo.

No campo conservador, os autointitulados defensores da liberdade de expressão teriam que se decidir. A prova definitiva para o genuíno defensor da Primeira Emenda é hoje, nos EUA, a defesa dos discursos pró-palestinos, por mais discordância que se possa ter por essa causa. Esse é o discurso que se encontra ameaçado ao ponto de se tornar não enunciável, quase indizível.

Os conservadores, em sua esmagadora maioria alinhados com Trump, passaram anos reclamando do coitadismo da esquerda universitária. Ao se referir à "mente americana mimada," a partir do livro de Greg Lukianoff e Jonathan Haidt, o conservadorismo apontava, não sem ocasional razão, que a retórica das microagressões criava uma geração de coitados, eternas vítimas de "danos" provocados pela pura existência de discursos que lhes causam desconforto.

São esses mesmos conservadores que agora ajudam a mobilizar o aparato policial para suprimir discursos, sob o argumento de que uma bandeira palestina e um cântico sobre a liberdade para palestinos "do rio ao mar" provocam irrecuperável "trauma" a estudantes judeus.

Esse argumento é utilizado em total desconsideração do fato de que muitos dos estudantes que entoam esses cânticos são, eles próprios, judeus. Não nos esqueçamos de que 4 de cada 10 judeus americanos com menos de 40 anos defendem o ponto de vista de que Israel é um Estado de apartheid.

Se até mesmo entre tantos jovens judeus americanos Israel é visto como um Estado criminoso e pária, por que as universidades não conseguiram responder aos ataques de Trump com um mínimo de altivez e honestidade?

Por que não dizer a simples verdade —ou seja, o fato banal de que, desde que Moisés partiu o Mar Vermelho, existiram poucos lugares neste planeta tão amigáveis e seguros para judeus como os campi universitários dos EUA de hoje, em que qualquer suspeita de antissemitismo destrói uma carreira e uma vida?

A razão pela qual a acusação trumpista de tolerância com o antissemitismo pegou as universidades de calças na mão já foi descrita nesta Folha. O mecanismo só se aperfeiçoou desde que as reitoras de Harvard, Penn e MIT foram humilhadas (e as duas primeiras forçadas a renunciar) nas oitivas de 5 de dezembro de 2023 no Congresso.

A hipocrisia do campo conservador fica clara quando contrastamos os anos em que reclamaram de coitadismo identitário com a ofensiva que agora protagonizam contra as universidades a partir do mais hipócrita dos coitadismos identitários, o que associa críticas a Israel a ameaças a judeus.

Mas por que esse ataque hipócrita é capaz de deixar a universidade de joelhos, gaguejando respostas submissas? Os próprios teóricos do trumpismo, como Christopher Rufo, já detalharam a estratégia.

O trumpismo percebeu que sua hipocrisia seria inominável pela universidade, pois esta se encontrava presa na teia que ela própria teceu: a concessão de privilégio epistemológico a uma vítima definida a partir de sua identidade étnica. A vitimização consistiria na simples presença de discursos incômodos, que supostamente promoveriam microagressões.

Como dizer a banal obviedade de que hoje, nos campi universitários dos EUA, os judeus não são vítimas coisa nenhuma, se a universidade passou duas décadas dizendo que a vítima tem sempre razão? Quem vai ter a coragem de falar que judeus não são vítimas?

Todo ativista da causa palestina conhece de cor e salteado as utilizações do judeocídio de meados do século 20 para legitimar a ocupação ilegal de terras por Israel. O jogo aqui, no entanto, recebeu um outro giro. O trumpismo agarrou o coração, a lógica mesma do discurso dominante no progressismo universitário e utilizou suas armas contra a universidade.

Essa ofensiva é baseada em uma lorota, mas ela simplesmente replica uma lorota anterior, de gestação puramente universitária. É por isso que as universidades estão caladas e de joelhos: elas foram atacadas com uma miragem roubada de seu próprio repertório.

É por isso que as autoridades universitárias não têm tido a coragem de nomear o elefante na sala —porque o nome dele é Palestina.

Não custa lembrar que, até hoje, nenhum dos diretores das iniciativas de "diversidade, equidade e inclusão" levantou a voz em defesa de Mahmoud Khalil, Rumeysa Ozturk e Helyeh Doutaghi, ou ousou pronunciar seus nomes.

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