Jennifer Adair
James Woodard
Margaret Power
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| Fotografia tirada no Chile em 1978 do General Augusto Pinochet (à esquerda) e seu homólogo argentino, o General Jorge Videla. (STR / AFP via Getty Images) |
Entre meados da década de 1960 e a década de 1980, ditaduras militares dominaram a América do Sul, exemplificadas pelos países ABC: Argentina de 1966 a 1971 e de 1976 a 1983, Brasil de 1964 a 1985 e Chile de 1973 a 1990. Três historiadores da América Latina questionam o que, se é que algo, o regime militar nesses três países revela sobre a atual guinada rumo ao autoritarismo nos Estados Unidos.
Essas observações, apresentadas na reunião anual da Associação Histórica Americana, podem ser lidas como uma introdução às diferentes vertentes do autoritarismo, tanto naquela época quanto agora.
Em meio às comparações, três aspectos se destacam. Para começar, a retórica temerosa de combate a inimigos internos, comum às ditaduras militares da América do Sul, foi repetida por autoridades do governo Trump nos mais altos escalões. Os contrastes, porém, são ainda maiores, em tudo, desde a fonte de legitimidade da atual administração (eleições, em oposição a golpes militares), até seu estilo personalista e sua relativa capacidade de exercer poder irrestrito. Por fim, os casos sul-americanos nos lembram que as pessoas resistiram ao autoritarismo em condições muito mais perigosas do que qualquer coisa que as pessoas nos Estados Unidos tenham enfrentado até agora. Precisaremos de mais oposição para conter a crescente onda autoritária.
Essas observações, apresentadas na reunião anual da Associação Histórica Americana, podem ser lidas como uma introdução às diferentes vertentes do autoritarismo, tanto naquela época quanto agora.
Em meio às comparações, três aspectos se destacam. Para começar, a retórica temerosa de combate a inimigos internos, comum às ditaduras militares da América do Sul, foi repetida por autoridades do governo Trump nos mais altos escalões. Os contrastes, porém, são ainda maiores, em tudo, desde a fonte de legitimidade da atual administração (eleições, em oposição a golpes militares), até seu estilo personalista e sua relativa capacidade de exercer poder irrestrito. Por fim, os casos sul-americanos nos lembram que as pessoas resistiram ao autoritarismo em condições muito mais perigosas do que qualquer coisa que as pessoas nos Estados Unidos tenham enfrentado até agora. Precisaremos de mais oposição para conter a crescente onda autoritária.
1
Argentina
Existem quatro maneiras pelas quais o autoritarismo MAGA ecoa as ditaduras argentinas da Guerra Fria, especialmente o regime horripilante instalado em 1976.
O primeiro eco é a noção de inimigos internos. Os regimes argentinos da Guerra Fria foram sustentados pela Doutrina de Segurança Nacional, que justificava a repressão contra inimigos internos percebidos. Essa justificativa foi feita de forma infame pelo governador militar da província de Buenos Aires em 1977, quando declarou: “Primeiro matamos todos os subversivos; depois, seus colaboradores; em seguida, seus simpatizantes; depois, aqueles que permanecem indiferentes; e, finalmente, os indecisos”. Na Argentina, a ditadura identificou uma gama cada vez maior de subversivos e inimigos internos. Aqui nos Estados Unidos, observa-se um paralelo na noção de um inimigo interno que cresce em círculos concêntricos: imigrantes, vozes contra o genocídio em Gaza e em apoio aos imigrantes, funcionários públicos demitidos pelo DOGE, educadores, estudantes e pessoas pobres punidas com a suspensão de benefícios alimentares. E, claro, o envio de tropas da administração Trump para cidades governadas por democratas exemplifica a construção e a perseguição de inimigos internos.
O segundo eco são os casos de violência e terror estatal, visíveis e invisíveis. Na Argentina, a violência era frequentemente clandestina; pessoas desapareciam durante a noite. Mas nem sempre. A violência e o terror também ocorriam à luz do dia. Este último aspecto é evidente nos Estados Unidos hoje, nas prisões de estudantes em plena luz do dia, nas batidas policiais em locais de trabalho por todo o país e na rede de prisões que abriga imigrantes para deportação. E há o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) e seus agentes mascarados do terror, formando uma força paramilitar extrajudicial semelhante à Aliança Anticomunista Argentina.
No caso argentino, a resistência ao regime não foi imediata, nem foi abraçada pela maioria dos argentinos comuns.
Um terceiro eco é talvez menos dramático. Ele reside na dissonância da vida normal e cotidiana continuar em ritmo acelerado durante o terror. Nos últimos anos, alguns dos melhores trabalhos sobre o regime argentino têm se relacionado à vida cotidiana sob o autoritarismo. Obras de historiadores como Sebastián Carrassai, Marina Franco e David Sheinin examinaram as muitas maneiras pelas quais indivíduos comuns viviam e muitas vezes prosperavam sob o regime militar — um tipo de cumplicidade social. Muitos nos Estados Unidos provavelmente sentiram essa dissonância: em vendas de bolos escolares à sombra de batidas do ICE, em entrevistas de naturalização no Lower Manhattan, ao lado da sede do ICE em Nova York.
No entanto, devemos ser cautelosos ao traçar muitas equivalências. A América do Sul certamente mostra como os países podem deslizar para o autoritarismo, mas Donald Trump retornou ao cargo por meio do processo eleitoral, não por um golpe militar (embora a tentativa de golpe de 6 de janeiro de 2021 possa estar mais próxima deste último do que do primeiro). As instituições estadunidenses, embora reveladas como frágeis, não foram formalmente suspensas como na Argentina.
Um último eco, potencialmente mais esperançoso, surge ao pensarmos na resistência. Ao longo do último ano, muitos artigos de opinião abordaram como a América Latina oferece exemplos de como combater o autoritarismo. No caso argentino, é importante notar que a resistência ao regime não foi imediata, nem foi abraçada pela maioria dos argentinos comuns. Muitos neste país conhecem as Mães e Avós da Praça de Maio, as manifestantes de lenços brancos que exigiam saber o paradeiro de seus entes queridos. Mas esse movimento, fundado em 1977, passou anos em relativo isolamento. Foi somente em 1981, cinco anos após o golpe militar, quando os crimes do regime eram conhecidos e condenados em todo o mundo, e com a economia em queda livre, que o movimento de direitos humanos na Argentina começou a ganhar maior aceitação, e mesmo assim o processo permaneceu lento.
Dizer isso não é sucumbir à paralisia do pessimismo, outra ferramenta do autoritarismo. Estamos presenciando atos de resistência, grandes e pequenos: indivíduos comuns detendo agentes do ICE e protegendo seus vizinhos; a mensagem especial do Conselho de Bispos Católicos dos EUA condenando a perseguição a imigrantes; as marchas e manifestações massivas por todos os Estados Unidos; e até mesmo a reunião de negócios da Associação Histórica Americana, na qual os membros votaram esmagadoramente para condenar os ataques aos princípios fundamentais da educação e expressar solidariedade a Gaza, apesar do veto do Conselho Executivo às resoluções e da violação da expressão democrática dos membros.
Não está claro como seria uma resistência bem-sucedida ou como ela se desenrolaria nos Estados Unidos, mas a indignação e a mobilização generalizada provocadas pelos recentes assassinatos cometidos pelo ICE em Minneapolis podem oferecer um vislumbre do crescente consenso de que o que está acontecendo aqui não pode ser permitido.
— Jennifer Adair
Argentina
Existem quatro maneiras pelas quais o autoritarismo MAGA ecoa as ditaduras argentinas da Guerra Fria, especialmente o regime horripilante instalado em 1976.
O primeiro eco é a noção de inimigos internos. Os regimes argentinos da Guerra Fria foram sustentados pela Doutrina de Segurança Nacional, que justificava a repressão contra inimigos internos percebidos. Essa justificativa foi feita de forma infame pelo governador militar da província de Buenos Aires em 1977, quando declarou: “Primeiro matamos todos os subversivos; depois, seus colaboradores; em seguida, seus simpatizantes; depois, aqueles que permanecem indiferentes; e, finalmente, os indecisos”. Na Argentina, a ditadura identificou uma gama cada vez maior de subversivos e inimigos internos. Aqui nos Estados Unidos, observa-se um paralelo na noção de um inimigo interno que cresce em círculos concêntricos: imigrantes, vozes contra o genocídio em Gaza e em apoio aos imigrantes, funcionários públicos demitidos pelo DOGE, educadores, estudantes e pessoas pobres punidas com a suspensão de benefícios alimentares. E, claro, o envio de tropas da administração Trump para cidades governadas por democratas exemplifica a construção e a perseguição de inimigos internos.
O segundo eco são os casos de violência e terror estatal, visíveis e invisíveis. Na Argentina, a violência era frequentemente clandestina; pessoas desapareciam durante a noite. Mas nem sempre. A violência e o terror também ocorriam à luz do dia. Este último aspecto é evidente nos Estados Unidos hoje, nas prisões de estudantes em plena luz do dia, nas batidas policiais em locais de trabalho por todo o país e na rede de prisões que abriga imigrantes para deportação. E há o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) e seus agentes mascarados do terror, formando uma força paramilitar extrajudicial semelhante à Aliança Anticomunista Argentina.
No caso argentino, a resistência ao regime não foi imediata, nem foi abraçada pela maioria dos argentinos comuns.
Um terceiro eco é talvez menos dramático. Ele reside na dissonância da vida normal e cotidiana continuar em ritmo acelerado durante o terror. Nos últimos anos, alguns dos melhores trabalhos sobre o regime argentino têm se relacionado à vida cotidiana sob o autoritarismo. Obras de historiadores como Sebastián Carrassai, Marina Franco e David Sheinin examinaram as muitas maneiras pelas quais indivíduos comuns viviam e muitas vezes prosperavam sob o regime militar — um tipo de cumplicidade social. Muitos nos Estados Unidos provavelmente sentiram essa dissonância: em vendas de bolos escolares à sombra de batidas do ICE, em entrevistas de naturalização no Lower Manhattan, ao lado da sede do ICE em Nova York.
No entanto, devemos ser cautelosos ao traçar muitas equivalências. A América do Sul certamente mostra como os países podem deslizar para o autoritarismo, mas Donald Trump retornou ao cargo por meio do processo eleitoral, não por um golpe militar (embora a tentativa de golpe de 6 de janeiro de 2021 possa estar mais próxima deste último do que do primeiro). As instituições estadunidenses, embora reveladas como frágeis, não foram formalmente suspensas como na Argentina.
Um último eco, potencialmente mais esperançoso, surge ao pensarmos na resistência. Ao longo do último ano, muitos artigos de opinião abordaram como a América Latina oferece exemplos de como combater o autoritarismo. No caso argentino, é importante notar que a resistência ao regime não foi imediata, nem foi abraçada pela maioria dos argentinos comuns. Muitos neste país conhecem as Mães e Avós da Praça de Maio, as manifestantes de lenços brancos que exigiam saber o paradeiro de seus entes queridos. Mas esse movimento, fundado em 1977, passou anos em relativo isolamento. Foi somente em 1981, cinco anos após o golpe militar, quando os crimes do regime eram conhecidos e condenados em todo o mundo, e com a economia em queda livre, que o movimento de direitos humanos na Argentina começou a ganhar maior aceitação, e mesmo assim o processo permaneceu lento.
Dizer isso não é sucumbir à paralisia do pessimismo, outra ferramenta do autoritarismo. Estamos presenciando atos de resistência, grandes e pequenos: indivíduos comuns detendo agentes do ICE e protegendo seus vizinhos; a mensagem especial do Conselho de Bispos Católicos dos EUA condenando a perseguição a imigrantes; as marchas e manifestações massivas por todos os Estados Unidos; e até mesmo a reunião de negócios da Associação Histórica Americana, na qual os membros votaram esmagadoramente para condenar os ataques aos princípios fundamentais da educação e expressar solidariedade a Gaza, apesar do veto do Conselho Executivo às resoluções e da violação da expressão democrática dos membros.
Não está claro como seria uma resistência bem-sucedida ou como ela se desenrolaria nos Estados Unidos, mas a indignação e a mobilização generalizada provocadas pelos recentes assassinatos cometidos pelo ICE em Minneapolis podem oferecer um vislumbre do crescente consenso de que o que está acontecendo aqui não pode ser permitido.
— Jennifer Adair
2
Brasil
Mais do que qualquer outra coisa, comparar o autoritarismo trumpista com o regime militar brasileiro revela contrastes.
O contraste mais básico entre o autoritarismo trumpista e o autoritarismo do governo militar reside no personalismo da administração e na institucionalização dos governos militares brasileiros. O trumpismo é, como o termo sugere, um show de um homem só, dependente do apelo pessoal, dos caprichos, das obsessões e da vaidade de Trump, enquanto os generais brasileiros eram antipersonalistas por princípio.
E, no entanto, há algo curioso sobre o personalismo trumpista. O personalismo, como atributo político, tende a ser identificado com a popularidade, mas Trump possui alguns dos índices de aprovação mais baixos da história. Com base nisso, poderíamos dizer que ele é provavelmente menos popular do que qualquer um dos generais-presidentes do Brasil, com exceção talvez do último, um cavaleiro que ficou famoso por dizer que preferia o cheiro de cavalos ao cheiro de pessoas.
Mas, embora o autoritarismo trumpista seja profundamente impopular, ele está mobilizando uma minoria de apoiadores incondicionais, enquanto a ditadura militar brasileira estava desmobilizando. Mesmo em seu auge, a propaganda pró-regime no Brasil visava fomentar a quietude, a passividade, a aceitação e, em sua versão mais ambiciosa, o entusiasmo, mas nada em termos de apoio ativo e participativo por parte de qualquer pessoa fora das forças de segurança. Trump, por outro lado, mobilizou seus apoiadores mais incondicionais contra instituições e indivíduos identificados como seus inimigos, mais notavelmente em 6 de janeiro de 2021, mas também durante seu segundo mandato. É sabido, por exemplo, que alguns legisladores republicanos têm se mostrado relutantes em se distanciar do governo, não apenas por medo de perderem as primárias, mas também por temerem por sua própria segurança e a de suas famílias. Aqui, estamos muito mais próximos da Itália da década de 1920 do que do Brasil sob o regime dos generais.
Voltando ao Brasil: no início da década de 1970, no auge do regime militar, havia muitos fatores que sustentavam a posição do governo. Esse foi o período do chamado milagre econômico, durante o qual o crescimento do PIB ultrapassou os 10% ao ano e o crescimento industrial chegou a ser o dobro. Sim, sabemos que os frutos desse crescimento econômico foram esmagadoramente para os 10% mais ricos da população, mas para os moradores e visitantes das cidades do sudeste do país, o progresso era evidente. O interior era outra história — mas esse era o objetivo, o projeto nacional dos generais brasileiros compartilhava uma antiga predileção política por favorecer o sudeste urbano.
A expressão “projeto nacional” apresenta outro contraste entre o autoritarismo do governo militar e o trumpismo. Em resumo, os generais brasileiros tinham um projeto nacional; o governo Trump não. O projeto nacional brasileiro era centrado na industrialização, mas abrangia a modernização de forma mais ampla, incluindo o desenvolvimento de infraestruturas de transporte e comunicação em âmbito nacional, a expansão da educação e algumas medidas de bem-estar social. Após 1973, o projeto incluiu a diversificação das fontes de energia do país. Após 1974, também incluiu uma expansão do setor público. Este último foi sacrificado durante o neoliberalismo da década de 1990, mas elementos do projeto nacional permanecem na infraestrutura de transportes, nos carros flex e na usina hidrelétrica de Itaipu. Os generais não levaram o Brasil ao Primeiro Mundo, como alguns sonhavam, mas tinham um projeto voltado para o futuro que produziu coisas que ainda são úteis.
A natureza retrógrada do MAGA contrasta com o senso de futuro apresentado pelo regime militar brasileiro.
O autoritarismo trumpista, por outro lado, não tem um projeto nacional. Sim, todos viram os bonés vermelhos, mas quase dez anos depois ainda não aprendemos quando a América foi grande, muito menos nos foi apresentado um plano de como chegar lá (novamente). E mesmo que soubéssemos, a natureza retrógrada do slogan contrasta com o senso de futuro apresentado pelo regime militar brasileiro. Em vez de um projeto nacional, o autoritarismo trumpiano parece ter como único objetivo o benefício próprio, tanto econômico quanto psicológico.
Analisando os dois regimes sob uma perspectiva diferente, é preciso reconhecer que o autoritarismo trumpiano é muito menos completo. O Brasil e os Estados Unidos são repúblicas federais, mas o federalismo brasileiro foi muito mais restringido sob o regime militar do que o federalismo estadunidense. O poder dos estados, e das jurisdições menores dentro dos estados, ainda se mantém nos Estados Unidos em um grau nunca visto no Brasil sob o regime militar. Para citar apenas o exemplo mais dramático, em novembro, um socialista democrático foi eleito prefeito da cidade mais populosa do país; há poucas semanas, ele tomou posse sem incidentes. É possível imaginar um cenário semelhante ocorrendo no Brasil sob regime militar? Acontece que não. Em novembro de 1968, um socialista democrático foi eleito prefeito de Santos, importante cidade portuária do Brasil. Antes que pudesse assumir o cargo, porém, Esmeraldo Tarquínio foi vítima da cassação — ou seja, o governo militar suspendeu seus direitos políticos para impedi-lo de assumir o cargo.
De contrastes a citações:
Brasil
Mais do que qualquer outra coisa, comparar o autoritarismo trumpista com o regime militar brasileiro revela contrastes.
O contraste mais básico entre o autoritarismo trumpista e o autoritarismo do governo militar reside no personalismo da administração e na institucionalização dos governos militares brasileiros. O trumpismo é, como o termo sugere, um show de um homem só, dependente do apelo pessoal, dos caprichos, das obsessões e da vaidade de Trump, enquanto os generais brasileiros eram antipersonalistas por princípio.
E, no entanto, há algo curioso sobre o personalismo trumpista. O personalismo, como atributo político, tende a ser identificado com a popularidade, mas Trump possui alguns dos índices de aprovação mais baixos da história. Com base nisso, poderíamos dizer que ele é provavelmente menos popular do que qualquer um dos generais-presidentes do Brasil, com exceção talvez do último, um cavaleiro que ficou famoso por dizer que preferia o cheiro de cavalos ao cheiro de pessoas.
Mas, embora o autoritarismo trumpista seja profundamente impopular, ele está mobilizando uma minoria de apoiadores incondicionais, enquanto a ditadura militar brasileira estava desmobilizando. Mesmo em seu auge, a propaganda pró-regime no Brasil visava fomentar a quietude, a passividade, a aceitação e, em sua versão mais ambiciosa, o entusiasmo, mas nada em termos de apoio ativo e participativo por parte de qualquer pessoa fora das forças de segurança. Trump, por outro lado, mobilizou seus apoiadores mais incondicionais contra instituições e indivíduos identificados como seus inimigos, mais notavelmente em 6 de janeiro de 2021, mas também durante seu segundo mandato. É sabido, por exemplo, que alguns legisladores republicanos têm se mostrado relutantes em se distanciar do governo, não apenas por medo de perderem as primárias, mas também por temerem por sua própria segurança e a de suas famílias. Aqui, estamos muito mais próximos da Itália da década de 1920 do que do Brasil sob o regime dos generais.
Voltando ao Brasil: no início da década de 1970, no auge do regime militar, havia muitos fatores que sustentavam a posição do governo. Esse foi o período do chamado milagre econômico, durante o qual o crescimento do PIB ultrapassou os 10% ao ano e o crescimento industrial chegou a ser o dobro. Sim, sabemos que os frutos desse crescimento econômico foram esmagadoramente para os 10% mais ricos da população, mas para os moradores e visitantes das cidades do sudeste do país, o progresso era evidente. O interior era outra história — mas esse era o objetivo, o projeto nacional dos generais brasileiros compartilhava uma antiga predileção política por favorecer o sudeste urbano.
A expressão “projeto nacional” apresenta outro contraste entre o autoritarismo do governo militar e o trumpismo. Em resumo, os generais brasileiros tinham um projeto nacional; o governo Trump não. O projeto nacional brasileiro era centrado na industrialização, mas abrangia a modernização de forma mais ampla, incluindo o desenvolvimento de infraestruturas de transporte e comunicação em âmbito nacional, a expansão da educação e algumas medidas de bem-estar social. Após 1973, o projeto incluiu a diversificação das fontes de energia do país. Após 1974, também incluiu uma expansão do setor público. Este último foi sacrificado durante o neoliberalismo da década de 1990, mas elementos do projeto nacional permanecem na infraestrutura de transportes, nos carros flex e na usina hidrelétrica de Itaipu. Os generais não levaram o Brasil ao Primeiro Mundo, como alguns sonhavam, mas tinham um projeto voltado para o futuro que produziu coisas que ainda são úteis.
A natureza retrógrada do MAGA contrasta com o senso de futuro apresentado pelo regime militar brasileiro.
O autoritarismo trumpista, por outro lado, não tem um projeto nacional. Sim, todos viram os bonés vermelhos, mas quase dez anos depois ainda não aprendemos quando a América foi grande, muito menos nos foi apresentado um plano de como chegar lá (novamente). E mesmo que soubéssemos, a natureza retrógrada do slogan contrasta com o senso de futuro apresentado pelo regime militar brasileiro. Em vez de um projeto nacional, o autoritarismo trumpiano parece ter como único objetivo o benefício próprio, tanto econômico quanto psicológico.
Analisando os dois regimes sob uma perspectiva diferente, é preciso reconhecer que o autoritarismo trumpiano é muito menos completo. O Brasil e os Estados Unidos são repúblicas federais, mas o federalismo brasileiro foi muito mais restringido sob o regime militar do que o federalismo estadunidense. O poder dos estados, e das jurisdições menores dentro dos estados, ainda se mantém nos Estados Unidos em um grau nunca visto no Brasil sob o regime militar. Para citar apenas o exemplo mais dramático, em novembro, um socialista democrático foi eleito prefeito da cidade mais populosa do país; há poucas semanas, ele tomou posse sem incidentes. É possível imaginar um cenário semelhante ocorrendo no Brasil sob regime militar? Acontece que não. Em novembro de 1968, um socialista democrático foi eleito prefeito de Santos, importante cidade portuária do Brasil. Antes que pudesse assumir o cargo, porém, Esmeraldo Tarquínio foi vítima da cassação — ou seja, o governo militar suspendeu seus direitos políticos para impedi-lo de assumir o cargo.
De contrastes a citações:
Ele está se comportando como um imperador desde a posse. [...] Ele está demitindo as melhores pessoas de altos cargos e substituindo-as por aquelas que contribuíram significativamente para sua campanha, algumas das quais têm interesses pessoais nas questões que deveriam regular. O Congresso, que deveria estar fazendo algo para contrabalançar os esforços para concentrar todo o poder na presidência, fala muito, mas não faz nada. [...] É vergonhoso, e nos perguntamos que tipo de país será este após o fim deste mandato. Todas as medidas de bem-estar social estão sendo canceladas, e apoio adicional está sendo dado às empresas e às classes ricas. [...] Uma das piores ações é o esforço crescente para silenciar a oposição por parte dos jornais, da TV, do rádio, etc.
Isso é de uma carta da antropóloga Betty Meggers. Não é de 2025 ou 2026, mas de 1974, referindo-se a Richard Nixon, um lembrete de que não precisamos ir tão longe quanto a América do Sul para encontrar precedentes para o autoritarismo trumpiano. Mas Meggers — que trabalhou no Brasil desde a década de 1950, passando pelo período da ditadura militar e além — concordou com essa comparação, acrescentando: "Estamos nos parecendo cada vez mais com o Brasil!". Apesar das diferenças, talvez estejamos mesmo.
— James Woodard
— James Woodard
3
Chile
Chile
A ditadura militar que derrubou o governo da Unidade Popular em 11 de setembro de 1973 estava no auge do seu poder quando cheguei ao Chile em novembro de 1976. Os comandantes haviam abolido o parlamento, os partidos políticos, o Estado de Direito e os direitos humanos e civis. O Chile estava sob toque de recolher, então, conforme a noite se aproximava, as ruas se esvaziavam e os comércios fechavam.
As pessoas que encontrei sentiam medo, tristeza e confusão, mas também raiva, coragem e determinação, emoções sentidas por aqueles que se opõem ao governo Trump nos Estados Unidos hoje.
Protestos de rua eram proibidos, então, no dia 1º de maio, a oposição realizou uma missa especial em homenagem a São José Operário na catedral do centro da cidade, um dos poucos lugares seguros em Santiago. As homilias e os sermões foram proferidos por um menino cujo pai havia desaparecido, uma mãe cuja filha havia desaparecido, um adolescente que trabalhava em um refeitório comunitário, um homem que havia juntado suas economias com outros trabalhadores que perderam seus empregos para que pudessem produzir algo para vender e ter uma renda mínima para sustentar a si mesmos e suas famílias. Após a missa, algumas pessoas gritavam: “Abaixo com a Junta, Liberdade aos presos políticos!”, enquanto outras berravam: “Cale a boca, a DINA (Direção de Inteligência Nacional, a polícia secreta) está aqui!”. A polícia cercou a área externa da catedral com pastores alemães que pareciam prontos para atacar. A multidão se dispersou rapidamente. A polícia prendeu algumas pessoas, mas a maioria conseguiu voltar para casa.
Apesar do terror e da brutal repressão, a esquerda chilena continuou a se organizar, a ter esperança e a lutar. Os membros da oposição entendiam que estavam arriscando suas vidas, mas persistiram porque acreditavam que poderiam acabar com a ditadura e construir um Chile socialista.
Os agentes do ICE, assim como os militares chilenos e a polícia secreta, operaram com impunidade, acreditando que jamais seriam responsabilizados por seus atos de brutalidade.
Obviamente, as diferenças com os Estados Unidos são enormes. A Conferência da Associação Histórica Americana não estaria acontecendo e não estaríamos apresentando estas observações se estivéssemos sob uma ditadura militar. Manifestações públicas de resistência, como protestos de rua e comícios em locais fechados, sofreriam repressão massiva. Embora o nível de repressão tenha aumentado neste país, a maioria de nós não participa de manifestações pensando que talvez não volte. Contudo, após os recentes assassinatos cometidos pelo ICE em Minneapolis, essa ideia se torna cada vez menos verdadeira.
As diferenças entre a esquerda chilena e a estadunidense são inúmeras. Poucas organizações ou partidos nos EUA possuem o nível de organização, memória histórica, experiência de repressão e o compromisso político e moral de resistência que a esquerda chilena demonstrou. (Isso não significa que toda a esquerda chilena tenha agido de forma heroica.) Ao mesmo tempo, a resposta das dezenas de milhares de pessoas nos Estados Unidos que saíram às ruas para apoiar o povo palestino e os imigrantes, desafiar o ICE e serem presas e brutalizadas é impressionante e inspiradora. Precisamos manter e aprofundar nosso compromisso com a justiça.
Outra grande diferença, é claro, é que os militares chilenos derrubaram o governo da Unidade Popular de Salvador Allende. Até hoje, setores-chave das forças armadas dos EUA não se alinharam às tentativas de Trump de violar a Constituição. É por isso que Trump transformou o ICE em sua própria milícia particular e removeu oficiais militares de alta patente que discordam dele.
Um paralelo entre as forças armadas chilenas nas décadas de 1970 e 1980 e o ICE nos Estados Unidos hoje é que ambos consideram e tratam pessoas em seus respectivos países como o inimigo externo. Em 1964, a Escola de Guerra do Exército dos EUA em Carlisle, Pensilvânia, instruiu os militares latino-americanos a derrotar o “inimigo interno”, aqueles a quem o General Augusto Pinochet se referia como “intrínsicamente perversa” (inerentemente perversos), já que eram eles que representavam a maior ameaça à nação. Essa política inverteu o preceito de que o papel das forças armadas era proteger a nação do inimigo externo e, em vez disso, as direcionou para os chamados subversivos. Os membros do ICE não receberam essa mesma doutrinação, mas é evidente que consideram qualquer pessoa que se oponha a eles um alvo justificável. Os agentes do ICE, assim como os militares chilenos e a DINA, operaram com impunidade, acreditando que jamais enfrentarão a justiça, muito menos a punição, por seus horríveis atos de brutalidade. Essa crença provou-se equivocada no Chile, e precisamos garantir que seja igualmente falsa nos Estados Unidos.
Em 2026 e nos anos seguintes, precisamos intensificar nossa resistência, construir redes de oposição comunitárias e nacionalmente conectadas, oferecer apoio e solidariedade àqueles que estão sendo atacados e acreditar que, assim como os chilenos se livraram da ditadura de Pinochet, derrotaremos o movimento MAGA.
— Margaret Power
Colaboradores
Jennifer Adair é professora associada de história na Universidade de Fairfield e autora de Em Busca da Década Perdida: Direitos Cotidianos na Argentina Pós-Ditadura.
James Woodard é professor na Universidade Estadual de Montclair e autor de dezenas de livros, artigos, capítulos de livros e outras obras curtas sobre história brasileira.
Margaret Power é professora emérita do Instituto de Tecnologia de Illinois e copresidente da organização Historiadores pela Paz e Democracia. Ela é autora de Mulheres de Direita no Chile e Solidariedade nas Américas.
