30 de novembro de 2024

Guerreiro Ramos olhou para questões filosóficas universais para analisar o Brasil

Nova edição de "A Redução Sociológica" devolve às livrarias um dos maiores textos do pensamento brasileiro do século 20

André Jobim Martins
Doutor em história pela PUC-Rio e pesquisador de pós-doutorado na Unicamp

[RESUMO] Em "A Redução Sociológica", publicado em 1958 e reeditado neste ano, Guerreiro Ramos busca produzir ferramentas intelectuais para compreender a realidade brasileira e antecipa posições do pensamento decolonial hoje em voga, esforço filiado à defesa que encampou da necessidade de a sociologia se adaptar ao contexto nacional em vez de reproduzir padrões científicos estrangeiros.

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Demorou, mas parece que Alberto Guerreiro Ramos (1915-1982) finalmente voltou à ordem do dia. Proponente de ideias que parecem antecipar posições do pensamento decolonial hoje em voga, a obra do sociólogo baiano, que também se propôs pensar a questão racial a partir de sua experiência de homem negro, tem sido reconhecida pela sua pertinência para o debate público brasileiro contemporâneo.

Ainda que não se possa dizer que Guerreiro Ramos tenha sido esquecido em algum momento, é sensível uma nova intensidade com que seu pensamento vem sendo resgatado.

O sociólogo Alberto Guerreiro Ramos - Acervo pessoal

No ano passado, a Zahar lançou "Negro Sou", coletânea organizada por Muryatan Barbosa, resenhada nesta Folha por Mário Medeiros. Neste ano, saiu a nova edição de "A Redução Sociológica" (Ubu), tratado teórico de grande alcance que apareceu pela primeira vez em 1958, com posfácio de Barbosa e prefácio de Frederico Lustosa da Costa. A edição conta ainda com prefácio do próprio Ramos à segunda edição e diversos apêndices.

Parte da dificuldade, mas também da vantagem de ler Guerreiro Ramos é ter que se adaptar ao idioleto guerreiriano, à sua maneira muito particular de usar as palavras. Além de certo sabor antiquado do português escrito nos anos 1950, chama atenção como Guerreiro Ramos se apossa das palavras como elas lhe convêm, pouco se preocupando com expectativas dos leitores.

É o que o leva a, meio quixotescamente, se insurgir contra o uso da palavra sociologia para descrever a atividade dos departamentos universitários que têm esse nome ou a chamar sua proposta teórica mais arrojada de pensamento redutor.

Se, por um lado, isso solicita um esforço redobrado de atenção na leitura, por outro lado, é especialmente estimulante observar a construção dos raciocínios no seu estilo idiossincrático, que retira da linguagem a transparência ilusória que teria em um texto mais convencional e realça o pensamento em ação ou, para usar uma expressão cara ao autor, o pensamento "em mangas de camisa".

A principal meta de "A Redução Sociológica" é produzir ferramentas intelectuais para compreender a realidade brasileira, problema que obriga Guerreiro Ramos a se aventurar em problemas de alcance filosófico universal. O desembaraço com que o autor joga esse jogo é uma das razões da sua atualidade e do seu charme, se assim se pode dizer.

Antes de Guerreiro Ramos, pensadores como Silvio Romero e Alberto Torres já haviam percebido como a atividade intelectual no Brasil era seriamente prejudicada pela ausência de uma tradição que tivesse desenvolvido um pensamento crítico que fosse além de tentativas de aplicar artificiosamente ideias estrangeiras à realidade brasileira. "A Redução Sociológica" procura produzir uma teoria que dê conta da confrontação sistemática desse problema, que, para o autor, não resulta de falhas individuais dos intelectuais brasileiros, mas da situação histórica colonial.

Por conta da situação diversa de desenvolvimento, a compreensão que um pensador brasileiro tem de sua sociedade precisa se valer do acervo de experiências e conhecimento das nações mais adiantadas (emprego a terminologia do autor, que pode soar desusada), pois elas produziram e desenvolveram mais cedo um trabalho especializado de teorização histórica e sociológica. Deixar de conhecer a teoria da história de Dilthey ou a teoria social de Weber é algo como renunciar à penicilina ou à eletricidade.

Entretanto, esse acervo, do qual é preciso se apropriar, nasceu de um contexto e de problemas que não são os da sociedade brasileira. A apropriação do pensamento estrangeiro tem de se dar, mas por "redução" do produto apropriado ao seu movimento conceitual, depurando-o das particularidades históricas que o incompatibilizem com o contexto brasileiro, mesmo que isso signifique a descaracterização ou o descarte de parte do seu conteúdo.

Assim como um caminhão tem de ser dotado de características brasileiras para se adaptar ao contexto social, físico e mesmo psicológico em que será usado (o exemplo é do autor), a sociologia precisa se adaptar ao contexto brasileiro em vez de reproduzir padrões científicos "alienígenas". Daí vem a crítica de Ramos à sociologia universitária e à ênfase cientificista de autores como Florestan Fernandes, dura e mordazmente criticado no prefácio à segunda edição.

O verdadeiro sociólogo, para Guerreiro Ramos, não é o professor de sociologia, mas aquele que, partindo de uma experiência prática, sem necessariamente adotar o título de sociólogo, procura formular uma compreensão da realidade de seu entorno, com o objetivo de transformá-la no sentido do progresso histórico. Por essa razão —e corretamente, é preciso reconhecer—, Ramos previa que Silvio Romero e Alberto Torres seriam autores mais lembrados que seu contemporâneo Fernando Azevedo, sociólogo de cátedra.

Na armação do intrincado aparato conceitual que sustenta sua teoria da redução, Ramos manipula com vigor e liberdade conceitos das mais diversas procedências, desde as críticas às narrativas coloniais da história mundial de Aimé Césaire e Cheikh Anta Diop até a filosofia da história ocidentalista de Arnold Toynbee.

Mas, me parece, o cerne da sua disposição teórica está no que há de comum entre as diversas posições de que se apropria, uma visão de mundo que reconhece o caráter situado, contextual de toda a compreensão da realidade. Essa posição nega a possibilidade de neutralidade da observação científica da realidade e afirma a mútua influência entre o observador e o mundo, que não se compõe da soma dos "fatos" à nossa volta, mas é uma totalidade histórica que preside nossa percepção e compreensão das coisas.

O conhecimento é um processo relacional e nascido da prática. Não escolhemos nosso modo de ver as coisas, mas o exercício do pensamento historicamente informado nos dá uma capacidade limitada de criticá-lo e melhor ajustá-lo às nossas necessidades específicas.

É com essa mesma ferramenta que vamos perceber as principais dificuldades que nosso contexto atual opõe à teoria de Guerreiro Ramos, que pressupõe uma filosofia da história progressiva e uma concepção insustentável de desenvolvimento, fundada na noção de que o progresso técnico nos liberta da dependência do meio ambiente.

Também é difícil presumir com a mesma segurança de Ramos a capacidade dos Estados nacionais de engendrarem uma transformação emancipatória que colocasse o Terceiro Mundo (hoje diríamos Sul Global) no mesmo patamar de prosperidade dos países ocidentais. Esse otimismo, que hoje parece ingênuo, é uma marca do contexto da escrita de "A Redução Sociológica", o momento histórico mais triunfante das lutas de descolonização, igualmente palpável na obra contemporânea de Frantz Fanon.

A expectativa da época era de industrialização e progresso técnico no Terceiro Mundo, que conferiria aos povos colonizados, finalmente, "personalidade cultural", isto é, autonomia intelectual, ao lado da econômica e política. Sabemos que a história não foi bem assim.

Diante de tais dificuldades, penso que Ramos já teria uma resposta na manga: seria preciso "reduzir" o que há de essencial no movimento do seu "A Redução Sociológica", adequando-o aos problemas que enfrentamos hoje. Não é tarefa fácil, como não deve ter sido fácil para o autor chegar ao patamar intelectual a que chegou.

Apesar de contar com dois bons paratextos críticos, é preciso notar que o trabalho editorial deixa a desejar. Não seria demais esperar que uma nova edição de "A Redução Sociológica" contasse com índices de nomes e assuntos.

Ainda mais decepcionante é a falta de uma bibliografia geral ao final do volume. Como era comum na época em que escreveu "A Redução Sociológica", Guerreiro Ramos nem sempre oferece as referências completas das suas citações. A edição corrige essas faltas em alguns casos, mas deixa escapar vários outros, facilmente sanáveis.

Cito um que me chamou a atenção em particular. "A Redução Sociológica" dedica um capítulo inteiro à chamada lei das fases, no qual atrela o trabalho de compreensão sociológica à investigação das principais linhas de força que sustentam um modo de organização social historicamente específico. Nele, cita uma formulação de John Stuart Mill, segundo a qual "é o todo que produz o todo, antes que a parte a parte". Disso, Mill conclui que a totalidade historicamente apreensível é a fase de desenvolvimento de uma sociedade e que o "problema fundamental" da ciência social é o estudo das "leis de acordo com as quais um estádio da sociedade produz o estádio que o sucede e toma seu lugar".

Extraída do capítulo 10 do livro 6 do "Sistema da Lógica" de Mill, essa proposição pode parecer antiquada, mas não desempenha papel secundário na argumentação de Guerreiro Ramos. O texto citado, por sinal, não é desconhecido e teve grande influência na história das ciências sociais. Uma nota indicando isso ajudaria a situar os argumentos do livro na história do conhecimento sociológico, um tema particularmente caro a Guerreiro Ramos.

De toda maneira, o saldo da edição é amplamente positivo, ao devolver às livrarias um dos textos mais importantes do pensamento brasileiro do século 20.

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