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18 de junho de 2020

A primeira mulher a liderar um partido político foi uma comunista italiana

Nascida neste dia em 1889, Camilla Ravera liderou o Partido Comunista da Itália em seus primeiros anos difíceis sob a tirania fascista. Sua história mostra como uma geração de mulheres se tornou líder política - vinculando sua libertação à da classe trabalhadora como um todo.

Lorenzo Alfano


Foto: Os escritos de Camilla Ravera chamaram a atenção de Antonio Gramsci, que tomou a decisão de direcioná-la ao papel de liderança do recém-fundado Partido Comunista.


Tradução / Era meio dia, 10 de julho de 1930, no lago Maggiore, que fica situado na fronteira da Itália fascista com a Suíça. Duas mulheres saem de um barco a remo e cumprimentam um homem quando chegam à terra firme. Os três esperam encontrar outros militantes em uma reunião clandestina que levou meses de planejamento. Mas a reunião nunca ocorre; um espião alertou a polícia de Benito Mussolini, que prende os três e os leva às celas.

“Meu nome é Camilla Ravera”, uma das duas mulheres diz ao policial. Após uma caçada de oito anos, o regime finalmente prendeu Ravera, secretária geral do Partido Comunista da Itália (Partido Comunista d’Italia, ou PCI). Por oito anos ela trabalhava sob nomes falsos. Começou a vida clandestina quando os fascistas a proibiram de dar aulas. Nos anos seguintes, Camilla fora “Silvia” e depois “Micheli”, tornando-se um fantasma de si mesma – mascarando sua identidade com tanta eficácia que a polícia tinha certeza de que a famosa “Micheli” era um homem.

Com seu rosto austero e estrutura leve, Ravera, de quarenta anos, era frequentemente chamada de maestrina (“professorinha”). Um nome tão diminuto não combinava com ela; por trás de sua aparência nada ameaçadora e voz frágil havia um caráter de aço. Era uma mulher que assumiu o fardo de manter o Partido Comunista unido quando estava sob constante ataque da polícia fascista. Um partido que teria desaparecido se não fosse pela tenacidade de suas lideranças: Palmiro Togliatti, Umberto Terracini, Alfonso Leonetti, Felice Platone e Camilla Ravera, que se tornou secretaria – o principal cargo do partido – em 1927.

Já no ano anterior, diante da proibição do partido e da prisão de Antonio Gramsci, Ravera exibira seus grandes talentos como organizadora. Nesse período, a situação do PCI parecia absolutamente desesperadora – tanto que a ala da direita do partido liderado por Angelo Tasca chegou a sugerir que ele se dissolvesse e incentivasse os militantes a se retirarem para suas próprias vidas privadas. No entanto, essa tendência “liquidacionista” encontrou imediatamente a resistência de Ravera.

Em vez disso, ela começou a reorganizar os contatos entre o grupo de liderança e os ramos periféricos do partido, interrompidos pelo regime fascista. Nesse trabalho, ela usou seus chamados “flamingos”, militantes pouco conhecidos, que provavelmente não atrairiam suspeitas policiais, que carregavam documentos e mensagens pelas várias regiões da Itália. Nesse mesmo período, Ravera organizou a sede central do partido em uma pequena casa de campo nos arredores de Gênova, trabalhando para reconstruir suas várias agências e grupos de trabalho em torno do secretariado. Esta casa tornou-se o local de constantes idas e vindas de comunistas clandestinos; o escritor Ignazio Silone o batizou “o hotel dos pobres”.

Anos clandestinos

Esta foi uma fase crucial na existência do Partido Comunista. Graças ao árduo trabalho que Ravera realizou “no escuro” durante esses anos, o PCI conseguiu sobreviver à dura repressão que o movimento operário enfrentou durante a consolidação do regime de Mussolini. Apenas mais tarde, talvez, com o papel de liderança do partido na construção da resistência antifascista de 1943 a 1945, seria possível apreciar plenamente o valor dessa continuidade organizacional – e a tenacidade dos líderes comunistas em defender a necessidade de manter o partido vivo.

Este foi sem dúvida um trabalho exaustivo. Ravera teve que viajar constantemente para construir e reconstruir a densa rede de relações que mantinham o partido unido. Isso significava garantir a distribuição de uma imprensa clandestina; reuniões clandestinas pela Itália; viagens a Paris para se comunicar com outros líderes no exílio; e até a participação do sexto congresso do Comintern (Internacional Comunista) em Moscou em 1928. Lá, ela recebeu uma oferta de mudança permanente para a capital soviética para trabalhar na Secretaria Internacional da Mulher. Mas mesmo tendo essa oportunidade de se libertar do trabalho clandestino em solo italiano, Ravera recusou – em vez disso, direcionou seu ativismo contra o regime fascista.

Seu retorno da União Soviética destacou os perigos desse trabalho subterrâneo contínuo; depois que um informante falou à polícia sobre a base clandestina do PCI perto de Gênova, Ravera foi forçada a mudar apressadamente suas operações através da fronteira para a Suíça. No entanto, esse período suíço seria breve, pois, Ravera estava convencida de que o partido deveria explorar todas as possibilidades de operar na própria Itália. Assim, ela voltou para a fronteira em maio de 1930, para ser presa apenas dois meses depois, perto do lago Maggiore.

Seguiu-se uma sentença de quinze anos – um tempo de provações intensas sentidas na própria pele. Ravera passou o resto do período fascista sendo transferida de uma prisão para outra em condições terríveis. Esses tempos terríveis culminariam em agosto de 1939 em uma ruptura trágica com seus companheiros – sua expulsão do partido em confino (exílio interno) em Ventotene – por causa de suas diferenças sobre o Pacto Molotov-Ribbentrop com os outros comunistas confinados. Para Ravera, este foi o mais duro dos golpes – uma profunda humilhação superada apenas em 1945, quando ela foi finalmente readmitida para as fileiras do partido.

Essa acolhida de volta ao partido foi retratada de maneira comovente pela jornalista Miriam Mafai, que contou o momento em que Togliatti – neste momento o Secretário Geral do partido e, de fato, seu líder inquestionável – chegou ao quartel-general de Turim. Cercado por camaradas e guerrilheiros comemorando a queda do fascismo, ele olhou em volta e perguntou, inocentemente:

“E onde está Ravera?” Alguém respondeu, envergonhado, que ela não estava por perto, que não podia estar, pois não estava mais no partido. E Togliatti respondeu: “Você deve estar brincando... Traga Ravera aqui e deixe que não se fale mais dessa tolice.”

“Para nós, foi um encontro emocionante”, lembrou Ravera, “nos abraçamos em silêncio. Nós não nos víamos há mais de 13 anos”. Sem debate ou qualquer confusão, Ravera foi imediatamente reinserida. Ela foi convidada a reintegrar o Comitê Central do partido, antes de ser eleita para o parlamento em 1948.

Camarada Ravera pede para falar

Voltemos um pouco. A posição revolucionária de Ravera tinha raízes distantes em uma atitude que colorira toda a sua família. Como para muitos de sua geração, o estímulo à ação política foram as trágicas consequências da Primeira Guerra Mundial; um irmão, Giuseppe, morreu no front, enquanto outro, Francesco, foi envenenado por gás.

Em 1918, um terceiro irmão, Cesare, foi recrutado e enviado para as trincheiras. Membro do Partido Socialista Italiano, Cesare confiou a Ravera que fosse à filial de Turim para pagar seus subsídios mensais para apoiar o partido. Foi assim que Ravera se aproximou dos círculos socialistas; ela logo se inscreveu e começou a dedicar cada vez mais tempo ao ativismo socialista.

Em uma época em que era quase impossível para as mulheres participarem ativamente da vida política e social, Ravera, no entanto, fez sua descoberta. Ela rapidamente se tornou protagonista do foco da elaboração teórica e da atividade política que Turim havia no período de L’Ordine Nuovo – o jornal semanal fundado pelo jovem Antonio Gramsci, em meio às ocupações das fábricas após a Primeira Guerra Mundial e à ascensão do fascismo. A ascensão de Camilla não foi fácil, dada sua timidez. Ela lembrou que ficou muito tempo incapaz de falar em público, por vergonha – a primeira vez que discursou em um comício foi porque um camarada mentiu e declarou à plateia “a camarada Ravera pediu para falar”.

Mas – como dizíamos – a jornada política de Ravera tinha raízes profundas em sua vida familiar. Em muitos escritos posteriores, ela associou seu “batismo” político a um episódio de sua infância. Com apenas oito anos, ela estava andando com a mãe pelas ruas de uma cidade no Piemonte quando se viu cara a cara com uma enorme falange de mulheres marchando atrás de um homem segurando uma grande bandeira vermelha. Foi uma marcha de trabalhadores em greve, e a pequena Ravera ficou assustada com seus slogans que gritavam:


Percebendo que estava com medo, minha mãe me disse que essas mulheres eram polidoras de ouro, protestando que não podiam se dar ao luxo de comer mesmo quando trabalhavam doze horas por dia e que suas mãos estavam sendo destruídas pelo ácido que usavam para polir o ouro. Ela me disse que eu não deveria ter medo de trabalhadores em greve e que muitas vezes teria motivos para lutar com eles. Perguntei para onde eles estavam indo e por que aquele homem estava as levando. Ela respondeu que não sabia para onde estavam indo, mas que o cavalheiro que segurava a bandeira vermelha era Filippo Turati, fundador do Partido Socialista Italiano.

Esse encontro “messiânico” com Turati e os grevistas foi, nas memórias de Ravera, o ponto de partida para toda a sua jornada política. Para ela, essa era uma vida marcada por sua necessidade urgente de “estar sempre entre a classe trabalhadora” – nunca perdendo contato direto com movimentos políticos reais. Nas décadas seguintes, Ravera insistiu que era precisamente esse sentimento sincero que a colocava em seu primeiro emprego, como professora.

Ravera mudou-se para ensinar em Turim e seus escritos logo atraíram as atenções de Antonio Gramsci, que se mostrou decisivo em direciona-la para um papel de liderança no recém-nascido Partido Comunista. Ele primeiro lhe confiou a responsabilidade por La Tribuna delle donne (uma seção famosa em L’Ordine Nuovo, por e para mulheres) e, em julho de 1921, a convidou para integrar a equipe editorial do jornal. O momento em que ela foi convidada para o conselho editorial aparece com frequência em seus escritos, como uma medalha presa ao peito:

Gramsci e eu conversamos um pouco e no final da conversa – ele havia me abordado como lei (a versão formal de “você” em italiano), e disse que queria que eu participasse do trabalho da equipe editorial. Tímida que era, tentei levantar razões triviais para não aceitar. Família, escola, inexperiência eram minhas desculpas; mas depois de ouvir pacientemente minhas bobagens, ele disse: “Estou formalmente pedindo para você se juntar ao conselho editorial de l’Ordine Nuovo”.

Diante de tal pedido de Antonio Gramsci, ninguém poderia dizer não. Quando Ravera aceitou, ela sabia que esse trabalho editorial a afastaria do ensino – mas mais importante: ela sabia que essa era uma opção de vida abrangente, que a tornaria uma militante em tempo integral.

Gramsci não escolheu Ravera apenas por sua “devoção”. Ele a nomeou por causa de seu temperamento, suas habilidades de organização e sua autoridade – algo que era devido, em parte, às características que ambos compartilhavam. Ravera e Gramsci mostraram uma capacidade rara de ouvir e um desejo sincero de entender os humores e aspirações da classe trabalhadora. Isso significava uma determinação em dar forma organizada às lutas – baseada não nas preferências de um intelectual, mas no desejo e na capacidade dos trabalhadores de se libertarem.

Uma mulher comunista

Apartir de então, a vida de Ravera foi uma sucessão de papéis cada vez mais importantes, incluindo responsabilidades de nível internacional, como participar do Quarto Congresso do Comintern em novembro de 1922 como delegada do PCd’I. Durante essas muitas viagens ao exterior, ela conheceu algumas das figuras mais importantes do movimento internacional dos trabalhadores.

Estes variaram de Clara Zetkin – feminista e colaboradora próxima de Rosa Luxemburgo – a Khristo Kabakchiev – a representante do Comintern búlgaro que liderou o brinde aos “bolcheviques italianos” na fundação do PCd’I – o “sempre quieto e educado” Stalin, e Lenin. Ravera lembrou não apenas as palestras que Lenin deu na escola do partido, mas também seus comentários mordazes sobre a questão da emancipação das mulheres: “’sobre a questão das mulheres’, ele me disse, ‘esprema um comunista e lá você encontrará um reacionário.’

Contar essa relação entre questões de gênero e seus dias no lendário L’Ordine Nuovo foi uma das anedotas mais interessantes de Ravera sobre seu tempo como militante em Turim. No período imediatamente antes de os fascistas de Mussolini assumirem o governo, os camisas-negras intensificaram seus ataques a sindicatos e partidos operários – e todos da L’Ordine Nuovo também temiam a possibilidade de um ataque armado em seus escritórios. Um dia, um colega veio a Ravera e disse:

— Gramsci acha que talvez seja melhor você ir para casa.

— Por quê? — eu perguntei. — Aconteceu algo com meus pais?

— Não, mas há rumores de que os fascistas estão chegando. É melhor colocarmos você em uma distância segura – sabe-se lá o que poderia acontecer aqui.

— Você vai embora, então?

E eu respondi:

— Não, eu tenho que ficar aqui. Com licença, então, mas por que devo sair? Eu não obedecerei. Vá para Gramsci e diga a ele que você precisa de uma explicação.

Um pouco mais tarde, Antonio Gramsci chegou visivelmente envergonhado e disse: “Eu entendo. Fique aqui. Nós éramos errados.”

Além de liderar pelo exemplo, sendo uma mulher comunista em um partido liderado principalmente por homens, Ravera concentrou grande parte de seus esforços políticos em questões de gênero. Ela nunca se entitulou “feminista”, mas sempre – e apenas – “uma observadora atenta das condições de vida das mulheres”. Lutando com toda a sua energia contra a discriminação na sociedade, ela era inevitavelmente atraída pela situação das mulheres em particular. Ela travou essa batalha em La Tribuna delle donne, tentando dar voz direta às demandas das mulheres.

Apesar de sua grande determinação, muitas vezes era difícil para Ravera conseguir que as mulheres escrevessem. Elas ficaram felizes em falar sobre os temas que ela propôs, mas foram intimidadas pelo jornal, pela imprensa – coisas que sempre consideraram estar fora de suas próprias experiências. Diante dessas barreiras objetivas, Ravera e Gramsci começaram a colocar o problema (e isso foi verdadeiramente revolucionário, para a Itália da época) sobre como organizar um movimento que, embora ligado ao quadro das lutas trabalhistas, não seria formado de mulheres comunistas sozinhas,

mas sim de mulheres, não importando a que partido ou religião pertencessem, e mesmo de mulheres que não tinham intenção de se organizar em um partido; mulheres que compartilharam problemas, em um partido ou em outro, em uma classe ou em outra.

As tentativas de organizar um movimento de mulheres continuariam mesmo nos primeiros anos do governo de Mussolini; em 1924, Ravera foi encarregada de administrar a quinzena La compagna (“camarada mulher”). No entanto, a verdade é que após a Marcha Sobre Roma, no final de 1922, as prioridades do Partido Comunista eram mais uma questão de sobrevivência do que de luta aberta. Em uma situação política se voltando rapidamente para uma ditadura que buscava a aquiescência da hierarquia da Igreja Católica, os espaços para as demandas das mulheres se estreitavam ao ponto de desaparecer.

Somente após a Segunda Guerra Mundial o trabalho de Ravera sobre a questão das mulheres foi retomado. Agora que se tornou membra do parlamento, ela colocou seu nome em numerosos projetos de lei focados principalmente na proteção das mães e salários iguais para as mulheres e para os homens. Os primeiros anos do pós-guerra provariam ser os últimos de Ravera como uma figura verdadeiramente politicamente ativa – em 1958, ela se retirou da vida pública. Mais tarde, entretanto, ela voltou ao cenário político nacional, em 1982, quando o ex-partidário Sandro Pertini – hoje o primeiro presidente socialista da Itália – a nomeou a primeira mulher a ser senadora vitalícia. Somente em certo sentido foi uma escolha surpreendente. Como o democrata-cristão Giulio Andreotti colocou no Parlamento:

O fator dominante na escolha de Pertini foi uma oposição intransigente à ditadura. Para aqueles que propuseram como senador vitalício um banqueiro ilustre, irrepreensível em todos os aspectos, Pertini respondeu: “Ele não estava comigo quando estávamos lutando contra o fascismo”. Então, ele escolheu Camilla Ravera.

De fato, ela sempre esteve presente na luta contra o fascismo; foi a mulher que manteve vivo o Partido Comunista na sua hora mais sombria.

Sobre o autor

22 de janeiro de 2020

Feliz Aniversário, Antonio Gramsci

Antonio Gramsci é lembrado como um grande teórico da política e da cultura modernas. Mas ele não achava que grandes ideias eram apenas uma questão de intelectuais - e insistia que os trabalhadores deveriam se tornar líderes de suas próprias organizações.

Lorenzo Alfano


Antonio Gramsci em 1933. Wikimedia Commons.

Tradução / É madrugada em Turim, rua do Arcivescovado, início de 1920. Na porta do L’Ordine Nuovo um homem com sotaque sulista estava irredutível: queria imediatamente uma reunião com o diretor da revista. L’Ordine Nuovo não era apenas o jornal dos operários turineses, era também o jornal de Antonio Gramsci.

Na Turim do início dos anos 20, o clima político era tenso. Todas as noites os trabalhadores das fábricas se revezavam em turnos para vigiar a entrada do jornal; temia-se que, a qualquer momento, os grupos fascistas apareceriam para devastar a sede da revista. A estrutura lembrava um forte: operários carregavam fuzis e entre a entrada e as salas da redação havia um longo corredor, um pátio, um portão, arame farpado, bombas prontas para serem usadas e metralhadoras – ou pelo menos assim se dizia.

Os responsáveis pela segurança daquele turno analisaram atentamente o homem para entender se tratava-se de um espião da FIAT, de um fascista ou de um policial (ou os três); responderam que para conversar com Antonio Gramsci ele deveria vendar os olhos, para não descobrir como operavam a defesa militar do jornal. Nesse momento o suspeito ficou furioso, deu meia volta e fez menção de ir embora, mas poucos passos depois se vira e grita: “digam à Gramsci que Benedetto Croce passou aqui!”.

Quando soube, Gramsci lamentou o incidente; mas não deixou de rir, porque não conseguia imaginar o mais importante personagem da cultura italiana vendado e cambaleando a sua procura. Ria porque era um homem do humor simples: sociável e risonho, era comum que explodisse em risadas joviais, contagiando quem estivesse por perto. Risadas engraçadas que “manifestavam-se repentinamente”, de um homem que adorava piadas e brincadeiras (mesmo quando ele próprio era o alvo).

Essa é a imagem de Gramsci construída pelos seus amigos e camaradas, cujos relatos não só enriquecem os dados biográficos, como ajudam a compreender melhor o contexto (difícil mas frequentemente feliz) em que seu pensamento se desenvolveu. Gramsci não era o herói trágico e sério que geralmente imaginamos.

Obstáculos na vida

O poeta Corrado Alvaro definiu-o como “um Leopardi [poeta italiano do século XIX] que passou pela Planície Padana [área de intensa atividade industrial na Itália] com o socialismo de baixo do braço”. Gramsci compartilhava com Leopardi pouco, mas o que ambos tinham em comum era a inteligência viva, voraz e universal. Em Gramsci não encontramos pegadas de pessimismo, com exceção do “pessimismo da razão”, que segundo ele deveria servir para prever a pior situação possível de modo a “poder acionar todas as reservas de vontade e otimismo para conseguir eliminar o obstáculo”.

Gramsci também compartilhava com Leopardi um corpo marcado pela doença de Pott, ou tuberculose vertebral. A doença fez com que ele se tornasse alvo de chacotas por parte daqueles que não sabiam o que responder diante de uma superioridade dialética esmagadora. Em 1925, os fascistas interromperam o seu único discurso na Câmara dos Deputados gritando-lhe “cale-se, corcunda!”. Ou quando, durante seus estudos na universidade, alguns de seus colegas do curso de Filosofia disseram ao professor Annibale Pastore: “o Gramsci não passa de um corcunda”. “Sim, ele é” – respondeu o professor – “mas que corcunda!”. Assim como Cezanne dizia a Monet: “é só um olho, mas... que olho!”.

A doença perseguiu Gramsci por toda a sua vida, complicando suas ações cotidianas e agravando seu sofrimento na prisão – que mais tarde o levou à morte. Poderíamos nos perguntar o que teria sido de Gramsci se ele não tivesse o mal de Pott. Mas, como disse o professor da Universidade de Parma Giuseppe Amoretti com algumas palavras carinhosas, "Antonio não poderia ser outro e um Antonio Gramsci diferente e melhor não é pensável. Ele deveria ser aquilo que a natureza e a sociedade fizeram florescer. A sua sorte física e humana deveria ser grande e singular, como aquela dos gênios e dos heróis, portanto, sem alegria e dor, mas com um longo caminho florido a ser percorrido até o fim."

Mas na Turim daquela época não havia tempo a perder e as dúvidas existenciais ficavam em segundo plano para Gramsci. Era um trabalhador incansável que se dedicava integralmente à classe operária. Trabalhar com os operários das fábricas de Turim não era fácil, porque Gramsci (ao contrário de muitos intelectuais da época e de hoje) não pensava nos trabalhadores como sujeitos passivos. 

Como explicou o professor e jornalista Umberto Calosso durante uma sessão da Assembleia Constituinte de 1947, para Gramsci a classe operária era a “aristocracia do gênero humano” e assim deveria ser tratada. A relação entre os intelectuais e as massas deveria, sim, ser “educativa”, mas o ensino e a cultura deveriam movimentar-se em ambas as direções: dos trabalhadores aos intelectuais e vice versa, para construir uma real pedagogia política de massa. 

Para Gramsci não “se ia” até a classe operária, não “se descia” até os trabalhadores para espalhar a palavra, mas se “subia até a classe operária”. A perspectiva era, portanto, revertida para o início. As palavras de Giuseppe Ceresa (aluno de Gramsci na prisão) explicam porque ele era visto como um intelectual diferente dos outros, "perto dele não sentíamos aquele peso, aquela distância que quase sempre coloca um operário em alerta de que a conversa é com um intelectual. Ele não nos tratava ou considerava como simples instrumentos materiais da revolta social, incapazes de protagonizar de forma consciente a revolução.

Tornando-se protagonistas

Foi para colocar em andamento a pedagogia política de massa que Gramsci, em 1919, criou L’Ordine Nuovo com outros três redatores: o pacifista Angelo Tasca, o futuro secretário do Partido Comunista Italiano Palmiro Togliatti e Umberto Terracini, que em 1948 assinaria a Constituição italiana como presidente da Assembleia Constituinte.

Todos tinham menos de trinta anos e todos seriam perseguidos por Mussolini anos mais tarde. Tasca e Togliatti foram forçados ao exílio, enquanto os outros dois foram condenados, em 1928, a 45 anos de prisão pelo tribunal fascista. Os quatro, como disse Terracini, eram unidos por uma paixão pela cultura operária: “queríamos fazer, fazer e fazer”.

Trabalho certamente não faltava. O Grande Massacre de 1915-1918 [série de confrontos bélicos entre a Itália e os exércitos alemão e austro-húngaro na fronteira italiana com a Áustria e a Suíça] terminara apenas poucos meses antes e não trouxera nada às classes populares, apenas um milhão de mortes. Turim era um campo de batalha e a raiva dos trabalhadores era extrema; eles não acreditavam mais no “radicalismo verbal” do Partido Socialista Italiano, que com o termo “revolução” enchia os próprios comícios, mas não era capaz de indicar a direção para passar da teoria para a prática.

Enquanto isso, em 1917, a Rússia fez sua revolução: Marx era grande, Lenin o seu profeta e “pão, paz e terra” era a palavra de ordem. O Outubro Vermelho era a esperança dos oprimidos e os bolcheviques o exemplo a ser seguido para os setores mais politizados da classe operária italiana e mundial. E na Itália os mais bolcheviques eram os quatro redatores do L’Ordine Nuovo.

A faísca acendeu o fogo, e após alguns anos o movimento proletário disparou: as greves sucederam em um clima de pré-insurreição, as fábricas viviam ocupadas, os operários se armaram e formaram as Guardas Vermelhas [grupos armados de defesa proletária] e a produção das fábricas continuava mesmo durante as ocupações. A cidade que até aquele momento era conhecida como “cidade dos automóveis” tornara-se a cidade dos conselhos de fábrica, a cidade visitada por jornalistas do mundo inteiro: a “Meca do comunismo italiano”, a “Petrogrado da Itália”. O poder operário se fortalecia e afirmava não só na ótica “militar”, mas também, e especialmente, como inteligência coletiva de uma classe trabalhadora capaz de emancipar-se de seus patrões. E, claro, os patrões ficaram aterrorizados.

Aquele era um escândalo intolerável e só o fascismo conseguiria devolver a ordem que as instituições liberais não eram mais capazes de sustentar pelo consenso. A classe dirigente só conseguiu recuperar a ordem e o consenso com o uso do cassetete.

Mas em 1920 a Marcha sobre Roma estava longe e o L’Ordine Nuovo estava em plena atividade. A redação do jornal tornara-se o epicentro da luta política urbana e todos os dias, na mesma hora, acontecia a “comitiva”. Todos iam até o escritório de Gramsci: camaradas de Sessão e da Fração comunista, dirigentes do movimento estudantil e feminista, chefes de sindicatos, intelectuais, guardas vermelhos, ex-docentes universitários de Gramsci, companheiros da base e pessoas sem partido.

Esse cotidiano permitia que o L’Ordine Nuovo não perdesse o contato com o movimento político real; contudo, a movimentação intensa trazia também problemas a Gramsci, que por vezes não conseguia terminar seus artigos. Como conta Mario Montagnana (redator do jornal), em certos dias Gramsci era obrigado a escrever: "As nove ou às dez da noite, quando não havia mais visitantes, um redator falava para Antonio: 'agora ninguém mais entra até que o artigo esteja pronto'. Porta trancada a chave, um camarada no corredor para impedir a entrada das visitas e após uma ou duas horas Gramsci entregava finalmente em duas ou três folhas do tamanho de um palmo de mão um artigo escrito com caligrafia grossa, nítida, quase sem nenhuma rasura."

Com exceção desses pequenos inconvenientes, aquele contínuo entrar e sair de pessoas permitiu a concretização do objetivo que a revista estabeleceu desde o seu primeiro editorial: tornar-se uma academia de “vulgarização da inteligência” de todas as tendências político-culturais mais avançadas da época. Tal vulgarização serviu para realizar aquela que mais tarde seria a obsessão de Gramsci: a formação dos quadros de partido. Ele começava a intuir que constituir um grupo restrito de dirigentes era, a longo prazo, mais eficaz do que formar uma massa de dirigentes intermediários. Esses dirigentes deveriam representar a nata da classe trabalhadora para construir a espinha dorsal de uma grande organização revolucionária.

Nesse processo de formação foi expressa toda a paciência e potência pedagógica de Gramsci, que alertava continuamente seus companheiros para o estudo, com o intuito de convencê-los de que não existiam revolucionários de barricada e revolucionários de mesa, mas que ambos deveriam apropriar-se da cultura, uma vez que essa é a maior aliada da ação.

Pedagogia crítica

No andamento dessa jornada, Gramsci criticava socraticamente os erros dos companheiros, mas na sua crítica “nunca havia algo de negativo, nada de desencorajador, nada que fizesse com que os companheiros perdessem a confiança na própria força”, como conta Montagnana. Gramsci era um rigor revolucionário extremamente humano, sempre impessoal e que desenvolvia-se quotidianamente.

Não devemos cair na ilusão, contudo, de que Gramsci era somente um Sócrates com um coração doce. Ele era extremamente rígido e impiedoso não apenas com os adversários, mas também com os companheiros que, uma vez alcançada a maturidade política, comportavam-se como professores para outros.

É muito significativa uma carta que Gramsci enviou para Vincenzo Bianco [jornalista e dirigente do Partido Comunista Italiano] em 1924, na qual recordou como forçava um de seus primeiros alunos de redação a reescrever o texto de três a quatro vezes, com o intuito de diminuir o tamanho de oito colunas para uma e meio. “E Viglongo (o aluno), que antes era um desengonçado, acabou por escrever bem, tanto que depois pensou que tinha se tornado um grande homem e afastou-se de nós. Portanto, não serei mais o professor de jovens como ele: se eu tiver a oportunidade, irei orientar apenas operários, que não tem a aspiração de tornarem-se grandes jornalistas da burguesia”, escreveu ele.

Para nós, que estamos acostumados a pensar em Gramsci quase exclusivamente como intelectual, poderia parecer estranha a afirmação de Giovanni Parodi, de que a escritura foi a menor das atividades históricas e práticas de Gramsci, enquanto “a sua maior contribuição foi o ensinamento por via oral e prática”. Parodi entrou na fábrica com 14 anos era a perfeita imagem do dirigente operário que aumentou a sua cultura política (e o seu conhecimento técnico) ao ponto de poder conduzir a produção do estabelecimento central da FIAT durante a ocupação das fábricas. A testemunha daquele mundo revolucionário da Turim pós-Primeira Guerra é uma foto dos operários sentados na escrivaninha de Giovanni Agnelli [fundador da FIAT]. Entre eles, liderando o conselho da fabrica, estava Giovanni Parodi.

Alquimia rara

Poderiam ser escritas muitas páginas para tentar explicar qual foi a fantástica alquimia criada no entorno do L’Ordine Nuovo. Qual é o truque que se escondia atrás da figura mítica de Antonio Gramsci? Como foi possível que uma revista que tratava de temas complexos tornou-se “o jornal dos operários”? Por qual motivo as Guardas Vermelhas teriam morrido para defender o L’Ordine Nuovo dos fascistas? E especialmente: como criou-se aquele círculo de afetos, solidariedade e lutas duríssimas no qual um homem de apenas trinta anos, de óculos, magricelo e desgrenhado era o representante e intérprete dos interesses da classe trabalhadora?

Se precisássemos dar apenas uma resposta, essa deveria vir da própria biografia de Gramsci. Embora ele viesse de uma família da pequena burguesia, viveu anos de extrema miséria em sua juventude, devido a prisão de seu pai condenado por apropriação indevida em 1900. Apesar da inteligência excepcional que transformou Gramsci em uma das mentes mais brilhantes da cultura européia, isso não apagou a memória consolidada por uma vida caracterizada por dificuldades e privações materiais, causadas por uma repentina degradação social.

Basta aprofundar-se na biografia de Gramsci para descobrir que ele chegou à Universidade de Turim com uma bolsa de estudos tão mísera que forçou-o a escolher entre comprar madeira para o fogão ou o próprio jantar. Como Camilla Ravera [política e uma das fundadoras do Partido Comunista Italiano] disse: "Gramsci nunca teve muito dinheiro e o que tinha gastava em livros. Às vezes ele tinha tão pouco que nem conseguia comprar meias e acabou por ir ao jornal apenas com os sapatos nos pés."

Togliatti, mesmo sem pai e de origem modesta, não precisava pagar o aluguel porque morava com a família, enquanto a mãe de Antonio teve que se endividar para enviar dinheiro ao filho. Além disso, Gramsci era sardo [nome dado aos italianos nascidos na região da Sardenha] e a memória da vida miserável, solitária e incerta de muitos de seus compatriotas permaneceu muito viva.

Nas lembranças de Teresa, irmã mais nova favorita de Antonio, é possível encontrar uma das imagens mais significativas da infância na Sardenha. Uma infância em que, incapazes de comprá-los, Nino [apelido carinhoso de Antonino] e Teresina aprenderam a fazer seus próprios brinquedos: "Eu fazia bonecas de cana que cobria com pequenos pedaços de pano colorido, Nino fazia barcos, veleiros ou passarinhos engraçados com a plumas na cabeça. Depois organizávamos leilões. Cada peça tinha um número e todos os filhos da vizinhança, inclusive aqueles de proprietários ricos, vinham tentar a sorte. Em vez do dinheiro, eles nos davam uma maçã ou uma pera."

Para tentar escapar do sentimentalismo puro poderíamos dizer que a capacidade de Gramsci de ouvir e a sua empatia foram fundamentais, mas provavelmente o segredo do pequeno sardo foi o alinhamento de uma mente prodigiosa com o intelectualismo e a vivência material semelhante a de um proletário.

Talvez tenha sido apenas esse o segredo de Antonio, que trouxe ao mundo aquele que Sandro Pertini [político italiano e sétimo presidente da República italiana] definiu como “O político mais engenhoso que encontrei no meu caminho, cuja morte deixou um vazio profundo não só para o Partido Comunista, mas para todo o movimento operário italiano e internacional; um vazio que nunca mais foi preenchido por outra pessoa”.

Podemos ficar tristes com isso, ainda hoje. Mas em 22 de janeiro - o dia do nascimento de Gramsci - comemoramos sua vida. Feliz aniversário, Antonio.

Sobre o autor

Lorenzo Alfano é formado em História Contemporânea e é especialista em Gramsci.

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