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18 de junho de 2020

Isolado ficará quem for contra o impeachment

PT defende novas eleições com a participação de todas as forças políticas

Gleisi Hoffmann

Folha de S.Paulo

A senadora Gleisi Hoffmann discursa após ser reeleita presidente nacional do PT (Partido dos Trabalhadores) na Casa de Portugal, na Liberdade, região central de São Paulo. Jardiel Carvalho/Folhapress

Não há democracia sem povo, ou ela estará reduzida a formalidades ocas. Mais que a liberdade de reivindicar vida digna para todos, emprego protegido por lei, educação de qualidade, saúde pública, Previdência justa e habitação decente, democracia é a possibilidade de exercer de fato esses direitos. Foi o que buscamos materializar nos governos do PT, fazendo valer a Constituição no Estado de Direito.

Essa concepção nos diferencia, mas não nos separa do todo que hoje forma a resistência democrática e o movimento antifascista. Sem demérito de outras forças, nenhum outro partido encarna mais claramente a oposição a Jair Bolsonaro, seu governo e a agenda neoliberal, entreguista, antipopular e destruidora de direitos que ele representa e que Paulo Guedes impõe.

Foi contra o PT, mas principalmente contra o projeto de desenvolvimento soberano com inclusão social, que se criou esse monstro. Foi por meio da brutal prisão e cassação da candidatura do ex-presidente Lula e da indústria de mentiras contra Fernando Haddad, incentivadas ou toleradas por setores com alta responsabilidade sobre o processo democrático, que Bolsonaro chegou à Presidência.

Não havia "escolhas difíceis" para tais setores em 2018, mas sim a opção de excluir o PT da política brasileira a qualquer preço, como se excluiu o povo e a maioria negra em 500 anos de história com a marca infame da escravidão. Agora que, além de se comprovar venenosa para a democracia, a opção Bolsonaro parece disfuncional para antigos parceiros, tentam isolar o PT até de seu papel na oposição, como se isso fosse possível na vida real.

Não foi pela boa vontade dos poderosos que o PT cresceu e se consolidou nesses 40 anos. Foi porque nunca nos isolamos do povo, da classe trabalhadora e do compromisso com a democracia na forma e no conteúdo. Não é diferente agora.

O PT, que nasceu na luta contra a ditadura e a opressão aos trabalhadores, será capaz novamente de somar com adversários de ontem e de amanhã pelo bem do país. Isso não significa abrir mão de nossas bandeiras, nossas raízes e do compromisso com os trabalhadores e a maioria da população que sofre com a desigualdade indecente.

Temos história e responsabilidade para compreender que a luta pela democracia só alcançou resultados quando somou amplas forças políticas e sociais. Foi assim na luta pelo direito de greve, na anistia, nas Diretas Já, na Constituinte, para consagrar a liberdade e os direitos sociais, e na eleição de Lula para tirá-los do papel.

É assim com a luta antifascista, nos terríveis dias de hoje —e nela o PT está mais uma vez lado a lado com quem defende a democracia como valor e como prática. Nesses tempos em que retrocedemos à presença militar na política e na retórica, é hora de juntar exércitos contra o inimigo que ameaça a pátria comum. Cada qual com suas armas e tropas, sem exclusões, mas sem abrir mão de suas próprias bandeiras.

Não há como negar o papel histórico do PT na defesa das liberdades democráticas e dos direitos sociais. Somos contra Bolsonaro e seu governo pelo mal que fazem à democracia, ao país e ao povo brasileiro. E buscamos construir uma frente referenciada nos interesses populares, para se somar ao grande movimento em defesa da democracia.

O denominador comum de uma frente democrática hoje é nada menos que o impeachment de Jair Bolsonaro, pelos crimes de responsabilidade que cometeu e pelos crimes em série contra o país e o povo. Este é o limite que nos separa dos que admitem, ainda que constrangidamente, seguir tolerando o intolerável em nome de uma estabilidade que há muito deixou de existir. São estes que se isolam do clamor da sociedade.

O Brasil não suportará uma saída "por cima", para manter a agenda de Guedes com ou sem Bolsonaro. Nem voltará à normalidade sem reparar a injustiça e restaurar os direitos do ex-presidente Lula. Mais que o impeachment, o PT defende novas eleições com participação de todas as forças políticas. Ou enfrentamos a crise com o povo ou ela só vai se aprofundar.

Sobre a autora

Deputada federal (PT-PR), presidenta nacional do PT, ex-senadora (fev. a jun.2011 e fev.2014 a jan.2019) e ex-ministra-chefe da Casa Civil (2011-2014, governo Dilma).

28 de dezembro de 2019

Um ano de retrocessos

Se foi ruim para o povo, não foi bom para o país

Gleisi Hoffmann

Folha de S.Paulo

A presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), durante entrevista à Folha. Pedro Ladeira/Folhapress

Torço pelo Brasil. Minha militância política, assim como a trajetória do PT, foi sempre dedicada a melhorar a vida do povo brasileiro. Por isso afirmamos que 2019 não foi bom para o Brasil, porque foi ruim para seu povo.

A vida da imensa maioria piorou sob o governo da extrema-direita e sua agenda econômica neoliberal, que só é exequível impondo limites e retrocessos à democracia. O país andou para trás na renda do povo, na saúde, na educação, na defesa do meio ambiente, na liberdade.

Nada se fez para conter o agravamento da desigualdade num país que já concentra 28,3% da renda total nas mãos de 1% da população, a mais indecente taxa do mundo junto com o Qatar, segundo a ONU. São esses que festejam uma “retomada” econômica de fundamentos frágeis e imperceptível para a maioria.

No Brasil real de 2019, a renda dos mais pobres caiu, a dos mais ricos subiu e a inflação aumentou mais para o pobre que para o rico, de acordo com o Ipea.

O desemprego ficou nas alturas, e quase 90% das ocupações criadas são informais, segundo o IBGE. A taxa de trabalhadores sem registro, sem direitos e proteção social já ultrapassa 40% —sem falar dos desalentados que nem ocupação têm. São estes que sofrem com o aumento dos combustíveis e do gás de cozinha; e do abusivo preço da carne, que contamina o de todos os alimentos.

Falamos de 89,6% da população com renda domiciliar per capita de até um salário mínimo. É sobre ela que recai o fim do reajuste real do salário e a cruel taxação do seguro-desemprego. E recairá a reforma injusta da Previdência que penaliza os trabalhadores e mantém privilégios.

Não pode ser considerado bom para o país um ano em que a educação foi declarada inimiga pelo governo. Um ano em que a população perdeu os médicos cubanos, a Farmácia Popular, 10 mil vagas de agentes de saúde e termina com o anúncio de uma inédita redução nas verbas do SUS. Com um corte de R$ 2 bilhões no Bolsa Família, que não vai repor a inflação nem pagará o prometido 13º mês.

Como considerar positivo um ano em que a fome voltou a flagelar o país?

Não foi bom um ano em que o desmatamento aumentou 83%, com incentivo de um governo que dilapidou nossa imagem junto aos ambientalistas e à comunidade internacional. Em que posse, porte e uso de armas foram estimulados criminosamente; líderes indígenas e sindicalistas foram assassinados; professores e artistas, perseguidos; e mulheres, pessoas negras e LGBTs sofreram violência.

No centro desses retrocessos está a imposição de um modelo concentrador de riqueza e renda, excludente por princípio e que propõe o desmonte do Estado —não só por meio da privatização selvagem de empresas como a Petrobras e riquezas como o pré-sal, mas pela destruição dos instrumentos de construção da soberania nacional, como os bancos públicos e o fomento à ciência e tecnologia.

Assusta, particularmente, o papel do Congresso Nacional, em especial da Câmara dos Deputados, como fiadora da implantação desse modelo que não deu certo em nenhuma democracia. O ano de 2019 teria sido melhor, certamente, se as instituições como um todo tivessem reagido à deliberada destruição do país e das forças produtivas, que favorece os bancos e interesses estranhos ao Brasil, mas compromete o presente e o futuro de gerações.

Além de continuar torcendo pelo Brasil, queremos que 2020 seja o ano da reconstrução da esperança, com a anulação da sentença injusta contra Lula e a retomada plena da democracia.

Que seja um ano bom para o povo. É isso o que verdadeiramente importa.

Sobre o autor

Deputada federal (PT-PR), presidenta nacional do PT, ex-senadora (fev. a jun.2011 e fev.2014 a jan.2019) e ex-ministra-chefe da Casa Civil (2011-2014, governo Dilma)

14 de agosto de 2018

Lula na urna em 7 de outubro

Só uma violência jurídica pode impedir candidatura

Gleisi Hoffmann

Folha de S.Paulo

A presidente do PT e senadora Gleisi Hoffmann segura máscara do ex-presidente Lula na convenção do partido - Nelson Almeida - 4.ago.18/AFP

Milhares de pessoas estão mobilizadas para o ato de registro da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República, nesta quarta-feira (15), em Brasília. Muitos duvidaram que chegaríamos com o candidato do povo a essa data do calendário eleitoral. Pois chegamos e iremos além: até 7 de outubro, com o nome de Lula na urna eletrônica.

Chegamos mais fortes do que desejavam os adversários. Construímos uma coligação com o PC do B e com o Pros, fizemos uma aliança com o PSB que libera importantes setores do partido para apoiar Lula, teremos apoio de governadores de outros partidos e, o mais importante: a maioria da população.

Lula não ficará sem voz enquanto permanecer injustamente preso. Registramos como vice na chapa o ex-prefeito e ex-ministro Fernando Haddad, para representá-lo nesta fase da campanha. E, quando concluirmos com êxito os trâmites do registro, a ex-deputada Manuela D'Ávila será a vice de Lula.

Temos todas as razões para seguir defendendo o direito de Lula ser candidato e o direito de o povo brasileiro votar livremente, apesar dos abusos, arbitrariedades e armadilhas jurídicas que enfrentamos. Abusos confessados com desfaçatez, no último fim de semana, em entrevista do diretor da Polícia Federal ao jornal O Estado de S. Paulo.

Lula foi condenado pelas manchetes antes mesmo da ação penal. Foi processado por um juiz parcial, Sergio Moro, que nem sequer tinha jurisdição sobre o caso. Foi condenado sem provas, por "atos indeterminados", o que não existe no direito. Sua pena foi aumentada, num julgamento combinado no TRF-4, na conta exata para evitar a prescrição do crime. Foi preso ao arrepio da lei, atropelando prazos.

A cada ação contra o ex-presidente, a grande mídia alardeou o fim de sua candidatura e até de sua liderança política. Mas o que se viu nas pesquisas foi o crescimento sistemático do candidato, que representa a esperança de superação da profunda crise a que o país foi levado pelo governo de Temer e do PSDB. Tudo ao contrário do que previam.

O país percebeu que Lula não foi preso para expiar crimes que jamais cometeu, mas para impedir que o povo o eleja mais uma vez. Não esperem que sancionemos essa violência, abrindo mão da candidatura que não pertence mais ao PT: é do povo.

Votar em Lula é a reação do povo aos que mentiram —partidos e lideranças, analistas de mercado, comentaristas do Grupo Globo—, dizendo que tudo ia melhorar quando o PT fosse apeado do poder. Aconteceu o oposto: o país andou para trás, a economia parou, a fome voltou, direitos foram retirados, a soberania nacional foi entregue.

É por isso —e por trazer bem viva a memória das conquistas alcançadas nos governos do PT— que o Brasil confia em Lula para conduzir o país de volta ao desenvolvimento com inclusão. Nenhuma outra liderança encarna tão fortemente a possibilidade real de superar a crise econômica, social e política. De dar prioridade aos trabalhadores e aos mais pobres. E não se enganem os senhores da fortuna e do poder: só ele pode conduzir o país de volta à estabilidade perdida.

Ao registrarmos o companheiro Lula, oferecemos ao país uma saída pacífica e legítima. Os precedentes da Justiça Eleitoral confirmam a legitimidade da postulação. Por que não valeriam para Lula? Só por uma violência jurídica. Se negarem esse caminho à nação, estarão assumindo as responsabilidades e consequências por fraudar a soberania do voto.

As forças democráticas muitas vezes foram capazes de derrotar o arbítrio, até mesmo em eleições manipuladas. O PT não fugirá do compromisso com o povo. Lula é quem representa esse compromisso. Ele estará na urna em 7 de outubro.

Sobre a autora

Senadora e presidenta nacional do Partido dos Trabalhadores; eleita deputada federal pelo Paraná.

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