1 de fevereiro de 2010

Duas revoluções

Como explicar os resultados opostos para o comunismo na Rússia e na China, depois de 1989? Classes e líderes, anciens régimes e cenários externos, examinados em perspectiva comparativa.

Perry Anderson

New Left Review


Tradução / Se o século 20 foi dominado pela trajetória da Revolução Russa, mais do que por qualquer outro evento singular, o século 21 será configurado pelo resultado final da Revolução Chinesa. O Estado soviético, nascido da Primeira Guerra Mundial, vitorioso na Segunda, derrotado na réplica"fria" de uma Terceira, desintegrou-se após sete décadas quase sem um tiro, tão rapidamente quanto surgira. O que restou foi uma Rússia menor em superfície do que aquela que o Século das Luzes conheceu, com menos da metade da população da antiga União Soviética, restituída a um capitalismo mais dependente da exportação de matérias-primas do que nos últimos dias do tsarismo. Embora não se possam descartar futuras reviravoltas, no momento o que restou do levante de outubro, em qualquer sentido positivo, não parece ser grande coisa. Seu feito mais transcendente, deveras extraordinário, foi negativo: a derrota do nazismo, o que nenhum outro regime europeu teria sido capaz de alcançar. Esse, de qualquer modo, é um juízo consensual hoje em dia.

O desfecho da Revolução Chinesa oferece um impressionante contraste. Ao entrar na sua sétima década, a República Popular é uma força motriz da economia mundial; o maior exportador, seja para a União Europeia, o Japão ou os Estados Unidos; o maior detentor de reservas cambiais do mundo; o país que. durante um quarto de século apresentou o maior e mais rápido crescimento da renda per capita jamais registrado, e para a maior população do mundo. Suas grandes cidades não têm rivais em matéria de ambição comercial e arquitetônica, seus produtos são vendidos em toda parte. Seus empreiteiros, agentes comerciais e diplomatas cruzam o mundo em busca de novas oportunidades de negócios e áreas de influência. Cortejado tanto por antigos inimigos quanto por amigos, pela primeira vez na sua história o Reino do Meio se tornou uma verdadeira potência mundial, estendendo sua presença a todos os continentes. Com a queda da URSS, nenhuma outra fórmula para caracterizar a virada histórica que ela significou se tornou tão sacramentada quanto o "colapso do comunismo". 20 anos depois, ela soa um tanto eurocêntrica. Em certo sentido, o comunismo não apenas sobreviveu como se tornou a história exitosa dos tempos atuais. Naturalmente, o caráter e a escala desse feito encerram mais de uma (amarga) ironia. Já quanto à sorte diversa das revoluções na China e na Rússia, resta pouca dúvida.

Onde estaria a explicação desse contraste? Não obstante o peso histórico-mundial da questão, ela não tem sido muito discutida. O que está em pauta, naturalmente, não é apenas uma comparação entre duas sublevações similares, porém distintas, que não guardam relação entre si quanto ao mais, dados os seus diferentes contextos, a exemplo da analogia antes familiar entre 1789 e 1917. A Revolução Chinesa proveio diretamente da Revolução Russa e permaneceu ligada a ela, como inspiração ou admoestação, até o final dos anos 1980, quando chegou a hora da verdade para ambas. As duas experiências não foram independentes uma da outra, mas formaram conscientemente uma sequência ordinal[2]. Esse vínculo entra em qualquer apreciação de seus diferentes resultados. A explicação destes, por sua vez, requer reflexão sobre certo número de aspectos. Aqui, distinguiremos quatro deles. Primeiro, como se diferenciavam os agentes políticos subjetivos das duas revoluções - isto é, os respectivos partidos em cada país e as estratégias que implementaram? Segundo, quais eram os dados objetivos iniciais - as condições socioeconômicas e outras - com base nos quais cada partido embarcou no seu programa de reformas? Terceiro, quais foram as consequências concretas das políticas que adotaram? Por último, quais legados, na Zangue durée da história de ambas as sociedades; podem ser vistos como fatores subjacentes determinantes do resultado final das revoluções e das reformas? isto que a República Popular da China (RPC) sobreviveu à URSS e seu futuro talvez constitua a principal incógnita da política mundial, o foco organizado r destas anotações será a China, tal como vista no espelho russo - não o único relevante, como ficará claro, mas uma condição iniludível de tudo o mais.

I. Matrizes

A Revolução de Outubro, como é notório, foi uma rápida insurreição urbana que em questão de dias tomou o poder nas grandes cidades da Rússia. A rapidez com que derrubou o governo provisório foi igualada pela cristalização do partido que a realizou. Os bolchevistas, que não somavam mais de 24 mil em janeiro de 1917, às vésperas da abdicação de Nicolau lI, já superavam 200 mil quando, nove meses mais tarde, derrubaram o regime de Kerensky. A sua base social era a jovem classe operária russa, que correspondia a menos de 3% da população. Eles não tinham nenhuma presença no campo, onde vivia mais de 80% da população, jamais tendo cogitado organizar o partido entre os camponeses - o que tampouco ocorreu aos socialistas revolucionários, embora estes tivessem recebido maciço apoio rural em 1917. Essa rápida vitória a partir de uma margem de apoio ainda exígua foi possibilitada pela desintegração do Estado tsarista, diante dos devastadores ataques alemães na Primeira Guerra Mundial- os fracassos militares deflagrando motins que pulverizaram seu aparelho repressivo, visto que a Revolução de Fevereiro produzira um governo sucessor instável e esvaziado de autoridade.

Contudo, se o poder foi facilmente tomado nesse vácuo, seria muito mais difícil conservá-lo. Vastas extensões do território caíram sob o domínio alemão. Quando a própria Alemanha foi derrotada em 1918, dez forças expedicionárias diferentes - norte-americana, britânica, canadense, sérvia, finlandesa, romena, turca, grega, francesa e japonesa - foram despachadas para ajudar os exércitos brancos a esmagar o novo regime, numa cruenta guerra civil que se prolongou até 1920. Quando esta chegou ao fim, completando o quadro de destruição deixado pela Grande Guerra, a Rússia estava em ruínas: escassez crônica de alimentos nas aldeias, fábricas abandonadas nas cidades, a classe operária pulverizada pelos combates e pela desindustrialização do país. O partido de Lênin, com sua base social desintegrada ou absorvida pelas estruturas do novo Estado, emergiu da guerra civil como um aparato de poder isolado, suspenso sobre uma paisagem devastada: seu governo era associado agora às misérias da guerra intestina, mais do que às promessas de paz e de distribuição de terras feitas após outubro.

A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que o partido criou mediante um supremo esforço, cobria a maior parte do antigo império russo. Mas, primeiro Estado moderno da história a recusar qualquer definição territorial, a emergente URSS não fez qualquer chamamento ao orgulho patriótico ou à construção nacional. Seu apelo era internacional: dirigia-se à solidariedade do movimento trabalhista mundial. Após tomar o poder num país tão vasto quanto atrasado, cuja economia era predominantemente agrária e cuja população era em grande parte analfabeta, os bolchevistas contavam com revoluções nos países europeus mais desenvolvidos e industrializados para resgatá-los da difícil posição de um compromisso radical com o socialismo num país que não apresentava os pré-requisitos de nenhum capitalismo coerente. Uma aposta que os sitiados governantes perderam depressa, desde o início ela nada significou para a massa dos governados. O partido soviético teria de aguentar por suas próprias forças e tentar avançar o mais rapidamente possível para uma nova forma de sociedade, sem contar com muito apoio no plano doméstico e sem nenhuma ajuda externa.

2

A Revolução Chinesa, embora inspirada pela russa, inverteu praticamente todos os seus termos. O Partido Comunista da China (PCC), fundado em I921, ainda não contava mil membros quatro anos mais tarde, quando, pela primeira vez, começou a se tornar uma força política expressiva, nascida da explosão da militância operária nas cidades costeiras suscitada pelo movimento de 30 de maio de I925, e auxiliada pelo papel crucial dos assessores e suprimentos soviéticos no incipiente regime do Guomindang (GMD) liderado por Sun Yat-sen em Cantão. Entre esse momento fundador e a conquista do poder pelos comunistas na China, houve conflitos que se estenderam por um quarto de século. Seus marcos são bastante conhecidos - a expedição ao norte de I926, que uniu nacionalistas e comunistas contra os regimes dos principais senhores guerreiros; o massacre dos comunistas por Chiang Kai-shek em Xangai, em I927; o Terror Branco que se seguiu; o estabelecimento do soviete do liangxi em I93I, e as cinco campanhas de aniquilação movidas contra ele pelo GMD; a Longa Marcha do exército vermelho para Yari'an em I934-I935 e a criação de regiões fronteiriças governadas pelo PCC no noroeste; a Frente Unida com o GMD contra o invasor japonês em I937-I945; e, por fim, a guerra civil de I946-I949, em que o Exército de Libertação Popular (ELP) arrebatou o país.

Mais que a simples temporalidade totalmente diversa dessa experiência a separa da reviravolta na Rússia. A forma pela qual o poder foi conquistado foi inteiramente distinta. Se é possível definir o Estado, segundo a famosa fórmula de Weber, como o exercício do monopólio da violência legítima sobre um determinado território, uma revolução sempre implica na ruptura desse monopólio e na emergência daquilo que Lênin e Trotsky chamaram de poder dual. Logicamente, existem três modos pelos quais isso pode ocorrer, correspondentes aos três termos da fórmula de Weber. Uma revolução pode quebrar o monopólio de poder do Estado, destruindo a base de legitimidade de seu governo, de modo que este se veja impossibilitado de exercer coerção para reprimir o movimento que se lhe opõe. A Revolução Iraniana, na qual não houve conflitos, ficando o exército real paralisado enquanto a monarquia caía, seria um exemplo. Como outra opção, uma revolução pode provocar o confronto de uma violência insurgente com o aparelho repressivo do Estado, dominando-o mediante um golpe rápido e decisivo, sem ter assegurado nenhuma legitimidade expressiva. Esse foi o modelo russo, possível apenas contra um adversário fraco.

Finalmente, uma revolução pode quebrar o monopólio de poder do Estado sem primeiro esvaziar sua legitimidade ou neutralizar rapidamente sua capacidade para a violência, mas subtraindo-lhe território suficiente para erguer um Estado paralelo, capaz de solapar com o tempo o seu controle da força e do consentimento. Esse foi o modelo chinês. Não foi exclusivo da China, tendo caracterizado a trajetória geral das forças guerrilheiras - sejam iugoslavas ou cubanas - rumo ao poder. O excepcional no caso chinês não foi a criação de sucessivos "estados rebeldes" dentro do Estado, mas sua duração combinada. São as condições dessa longevidade que requerem explicação.

Na virada do século, a monarquia Romanov, apesar de suas próprias vulnerabilidades, era incomparavelmente mais forte que a Qing: uma instituição autóctone que contava não somente com bolsões de indústria avançada e abundantes recursos naturais, mas também com um enorme exército e profundas reservas de lealdade patriótica geradas pela vitória sobre Napoleão. Já no Extremo Oriente, foi sobretudo a ação conjunta das potências europeias que causou a desagregação do império chinês. Somente a derrota esmagadora nos campos de batalha, primeiro contra o Japão e depois contra a Alemanha, foi capaz de deflagrar as revoluções de 1905 e 1917. A monarquia Qing, em contraste, já em meados do século 19 era geralmente odiada como uma dinastia adventícia e, logo depois, também como uma possessão corrupta do Ocidente. Após a rebelião Taiping, ela nunca mais recuperou pleno controle da força sobre o país como um todo. O Estado imperial estava tão enfraquecido que caiu em 19II sem ao menos um movimento orquestrado contra ele. Nenhum regime sucessor se mostrou à altura dos critérios de Weber. A República se dissolveu primeiro num tabuleiro de feudos rivais controlados por senhores guerreiros; depois, no regime híbrido baseado em Nanjing, o GMD dominando o centro do país a partir do delta do Yang-tsé e variados caudilhos militares regionais, o resto: Chiang Kai-shek nunca chegou a controlar mais da metade das 18 províncias chinesas tradicionais, não raro menos ainda.

Foi nesse emaranhado de centros de poder conflitantes que o PCC conseguiu se implantar, ocupando as lacunas entre as jurisdições e constituindo um poder paralelo móvel. Mas, embora nunca tivesse enfrentado uma máquina do Estado unificada, como ocorrera com os bolchevistas, seu adversário era paradoxalmente mais formidável e os riscos de derrota, maiores. Embora restrito como estava a seus baluartes estratégicos, o GMD não era um regime absolutista ao concluir seu ciclo de existência, nem um governo provisório espectral. Nacionalismo e comunismo eram antagonistas contemporâneos formados no mesmo molde organizacional: rivais igualmente modernos, cada um a seu modo, pelo domínio do país. Contudo, o GMD dispunha de exércitos muito mais vastos, equipados com blindados pesados e treinados em sucessivas missões de assistência militar - as de Von Seeckt, Von Falkenhausen - pela elite da Wehrmacht; controlava a renda tributária das regiões mais ricas da China. Apesar de todo o heroísmo da Longa Marcha, o GMD teria certamente aniquilado o PCC no final da década de 1930, caso o Japão não tivesse lançado um ataque maciço contra o regime de Nanjing em 1937.

Nessa emergência, Chiang, privado de sua presa, mas ainda obcecado com o comunismo como o perigo maior, mostrou-se incapaz de enfrentar o inimigo estrangeiro com alguma eficácia. Um colaborador de longa data dos militares japoneses - com os quais planejara o massacre de Xangai em 1927, voando para Tóquio pouco depois para selar um pacto com seu estado-maior, e aos quais dera seu consentimento para a anexação da Manchúria -, ele se retirou para o interior do país e, após Pearl Harbour, deixou o tempo passar, esperando que os Estados Unidos saíssem vitoriosos da guerra para, então, cair sobre o PCC com o grosso de suas forças intactas. A campanha final do Japão na China, a ofensiva de Ichigo, em I944, arruinou qualquer chance de o GMD concretizar facilmente esses planos, despedaçando suas melhores divisões de modo irreparável. Não menos danoso foi o descrédito que cercou a ditadura de Chiang, que se recusou a fazer de tudo pela defesa da nação.

Fora do alcance do GMD ou da penetração japonesa, a partir de sua base na remota região fronteiriça de Yan'an, o PCC promoveu no norte da China uma guerra de guerrilhas cada vez mais eficiente contra o invasor. A ampliação de seu poder se deveu à sua capacidade de combinar reforma nas aldeias - redução dos preços de arrendamento, cancelamento de dívidas, redistribuição limitada de terras - com resistência ao invasor estrangeiro. A conjugação desses dois fatores possibilitou ao PCC um grau de penetração social que o partido russo jamais alcançou, ampliando sua base de apoio entre o campesinato, a classe que formava a ampla maioria da população. No intervalo de oito anos entre I937 e I945, o número de militantes do PCC passou de 40 mil para I,2 milhão e o efetivo de seus exércitos, de 90 mil para 900 mil. Após a rendição do Japão, o partido se implantou rapidamente na planície setentrional da China: quando estourou a guerra civil em I947, seus quadros tinham mais que duplicado novamente, somando cerca de 2,7 milhões. Nesse ínterim, nas áreas controladas pelo GMD no centro e no sul, a corrupção e a inflação desenfreadas destruíram a base de apoio urbano ao regime de Chiang, cujos exércitos desmoralizados, embora bem armados e equipados pelos Estados Unidos, não se mostraram em absoluto adversários à altura do ELP. Em número cada vez maior, seus comandantes se renderam ou trocaram de lado, à medida que o ELP marchava para o sul: Beijing, Xangai, Nanjing, Guangzhou - uma após outra, as grandes cidades da China foram caindo quase sem luta.

Na Rússia, a guerra civil veio depois da revolução e, como para castigá-Ia, mergulhou o país numa situação muito pior do que ele se encontrava antes da ascensão dos bolchevistas. Na China, a revolução sucedeu a guerra civil e seus efeitos imediatos foram sentidos como uma redenção daquele transe. Por mais de um século, a China não conhecera um governo central capaz de fazer face à agressão estrangeira e assegurar a manutenção da ordem no país. O comunismo trouxe ambas as coisas: soberania nacional e paz interna. Com a derrota do Guomindang, oficiais americanos, canhoneiras britânicas e retardatários japoneses foram despachados de mala e cuia para fora do país. A vitória do ELP, longe de deixar a economia e a sociedade depauperadas, promoveu a recuperação e a estabilidade. A inflação foi controlada; a corrupção, reprimida; o abastecimento, restabelecido. No campo, o sistema de arrendamento de terras foi abolido. Nas cidades, não foi preciso fazer expropriações radicais, visto que mais de dois terços das indústrias já haviam sido estatizadas durante o período do Guomindang e os compradores haviam transferido seus capitais para Hong Kong e Taiwan. Os últimos anos de governo nacionalista tinham alienado as simpatias da classe média a tal ponto, que boa parte dela recebeu a chegada dos comunistas com alívio, mais que resistência; à medida que a produção se restabelecia, os trabalhadores retornavam ao regime de emprego normal e voltavam a receber salários. A República Popular, encarnando ideais patrióticos e disciplina social, veio ao mundo desfrutando de um grau de consentimento popular que a União Soviética jamais conheceu.

3

Essas diferentes matrizes deixaram sua marca na evolução dos respectivos regimes, cujas proporções de força e consentimento sempre foram distintas. Sob Stálin, o comunismo soviético obteve o apoio ativo da população em duas oportunidades após a guerra civil: entre a nova geração de operários de origem rural mobilizados para o esforço intensivo de industrialização dos primeiros planos quinquenais, numa atmosfera Sturm. und Drang de entusiasmo coletivo autêntico, senão generalizado; e durante a Segunda Guerra Mundial, quando o regime se valeu de um patriotismo russo muito mais disseminado, numa luta de ida ou morte de toda a população contra o invasor nazista. Nem o esforço de industrialização nem o esforço de guerra alteraram a desconfiança dos governantes em relação às massas subalternas. O sistema soviético se aproveitou de episódios de adesão popular quando eles se manifestaram. Contudo, estava baseado na repressão. Durante o período da ditadura de Stálin, a polícia secreta tornou-se uma instituição mais importante e mais poderosa do que o próprio partido. A violência, desencadeada compulsivamente contra inimigos reais ou imaginários, inclusive dentro das próprias fileiras do regime, era onipresente.

Contra um fundo de tensão contínua, seus dois grandes paroxismos foram a coletivização agrária do final dos anos 1920 e os expurgos da década de 1930. Com a primeira, o regime lançou uma guerra total contra a sociedade camponesa, na qual as deportações em massa e a fome fizeram talvez 6 milhões de vítimas, reduzindo o campesinato a uma massa taciturna e alquebrada, situação da qual a agricultura russa jamais se recuperaria. Com os expurgos, não somente a velha guarda bolchevista inteira que fizera a Revolução de Outubro, mas praticamente toda a geração seguinte de quadros em posições de liderança no partido e no Estado, bem como vasto número de outras vítimas foram liquidados - pelo menos, 700 mil ao todo. Os campos de trabalhos forçados, para onde foram despachados aqueles que escaparam de ser sumariamente executados nessas selvagerias, iriam alojar outros 2 milhões naqueles anos, correspondendo a um expressivo setor da economia3. Após a vitória na Segunda Guerra Mundial, na qual a Rússia sofreu enorme destruição, o terror arrefeceu. Contudo, apesar de toda a consagração que alcançou nos campos de batalha, o medo continuou a ser a mola-mestra do poder de Stálin até o fim. 


O partido chinês herdou o modelo soviético, tal como se configurou sob Stálin, desenvolvendo em larga medida a mesma disciplina monolítica, a mesma estrutura e hábitos de comando autoritários. Em termos organizacionais e ideológicos, o Estado que ele criou no início da década de 1950 assemelhava-se bastante ao soviético. E mais: no decorrer do processo, o governo comunista infligiria à China dois grandes desastres similares. Dadas as suas raízes no campo, onde os trabalhadores de modo geral mantiveram sua confiança nos líderes, o PCC foi capaz de promover uma rápida e integral coletivização poucos anos após as primeiras redistribuições de terras, sem provocar o desastre ocorrido na Rússia. Mas, em 1958, decidido a acelerar o ritmo das mudanças, o partido lançou o Grande Salto Adiante, criando comunas populares que deveriam implementar indústrias de fundo de quintal e, ao mesmo tempo, produzir cotas muito mais elevadas de grãos. Com o desvio da mão-de-obra para fornos siderúrgicos caseiros e o baixo rendimento das colheitas provocado pelo mau tempo, o resultado foi a pior fome do século, que causou a morte de pelo menos 15 e talvez 30 milhões de pessoas. Oito anos depois, a Revolução Cultural viria ceifar as fileiras do próprio partido, dizimando seus quadros numa série de expurgos que, como na Rússia, então ultrapassaram seus limites. Ao que tudo indicava, como que arrebatada por uma inexorável dinâmica comum, a RPC tinha reproduzido os dois piores cataclismos da URSS. 

Mas, por mais estranhas que possam parecer as semelhanças, a matriz diversa da Revolução Chinesa acabou se impondo. Se o saldo de vítimas no campo, em termos proporcionais, foi comparável, seus mecanismos e suas consequências foram distintos. A coletivização soviética foi concebida como uma operação para destruir os camponeses "ricos" como um estrato - em geral, os proprietários de alguma criação - e foi executada com níveis militares de violência. Mais de 2 milhões de kulaks foram deportados para as estepes sob a mira das armas da OGPU. A fome de 1932-1933 que se seguiu, embora provocada em parte pelo mau tempo, foi essencialmente um efeito da destruição da sociedade rural que esta segunda guerra civil deixou no seu rastro. Por mais absurdamente voluntarista que tenha sido, o Grande Salto Adiante, em contraste, nunca foi concebido como um ataque contra o campesinato ou qualquer de suas camadas. Não houve deportações, nem se viu tropas do Ministério do Interior arrebanhando camponeses recalcitrantes. A cegueira burocrática, resultado da carência (autoinflingida, naturalmente) de relatórios fidedignos das bases sobre o rendimento real das safras de grãos, mais do que a truculência policial, foi a causa imediata do desastre. Além do mais, não se produziu nenhum desânimo comparável ao que se abateu sobre o campesinato russo. O campo não ficou permanentemente desmoralizado pelo Grande Salto Adiante, e o trem de vida nas aldeias, mesmo nas regiões mais gravemente afetadas, foi retomado com surpreendente rapidez.

O contraste entre as motivações e os resultados finais foi ainda mais acentuado na Revolução Cultural. Na segunda metade da década de 1930, Stálin espalhou o terror de alto a baixo no partido e no Estado soviético, atingindo muitos dos próprios dirigentes que tinham lhe delegado o poder supremo no PCUs, prontamente fuzilados como espiões, traidores ou contrarrevolucionários durante a Yezhovshchina. Embora os verdadeiros motivos por trás dessa insânia permaneçam obscuros, está claro que Stálin, cuja legitimidade como ditador personalista nunca fora totalmente assegurada - ele não desempenhara nenhum papel relevante na Revolução de Outubro e Lênin prevenira expressamente o partido contra ele -, foi tomado por uma mórbida suspeita contra todos os que o cercavam e agiu na certeza de que a única maneira de lidar com potenciais opositores ou dissidentes era matá-los. 

Ao lançar a Revolução Cultural, Mao também visou seus colegas mais próximos, em parte porque fora obrigado a admitir o fracasso do Grande Salto Adiante, quando este não podia mais ser negado, e aceitar a mudança da política agrária que lhe impuseram. Contudo, sua principal motivação foi impedir que se reproduzisse na China a casta de burocratas empedernidos que, a seu ver, estava conduzindo a URSS pós-stalinista a uma sociedade de classes indistinguível do capitalismo. A fim de tolher essa tendência, ele não recorreu aos órgãos de segurança, que na China nunca tiveram a importância que tinham na Rússia, mas à juventude estudantil. Insuflando contra os suspeitos de favorecer a via soviética agitações de massa desde as bases, em vez de decapitá-los desde a cúpula, Mao lançou o país numa década de caos controlado.

As barbaridades que se seguiram formaram uma legião. A violência desregrada - perseguições e altercações; humilhações, surras, fuzilamentos; guerras entre facções - espalhou-se de cidade em cidade; nos condados, execuções organizadas. O número de vítimas, ainda a ser devidamente computado, superou de longe um milhão4. Contudo, as mortes - proporcionalmente, muito menos numerosas que as verificadas durante o pandemônio soviético - não foram ditadas por instruções executivas, mas motivadas por iniciativas localizadas de vingança, conforme as autoridades iam sendo depostas, e as pendências, ajustadas por todo o país. Nenhum Yezhov ou Beria estava no comando. Ao contrário do Grande Terror, a Revolução Cultural não foi simplesmente uma campanha de repressão em escala gigantesca. Foi uma tentativa radical de sacudir as estruturas burocráticas, mobilizando contra elas a revolta de uma geração mais jovem, tendo sido vivida como uma liberação mental - quanto mais não seja, devido ao colapso temporário de tamanha autoridade institucional - por muitos que mais tarde se decepcionariam com seus resultados e mesmo por anticomunistas ferrenhos. A sua meta autoproclamada foi uma transformação igualitária de perspectivas que não mais comportasse as "três grandes diferenças": entre cidade e campo, entre agricultura e indústria, e - acima de tudo - entre trabalho intelectual e manual.

Esses ideais eram utópicos para qualquer sociedade da época, quanto mais para uma tão atrasada como a chinesa. Mas eles não eram mera vitrine. O envio de 17 milhões de jovens das cidades para o campo a fim de realizarem trabalhos agrícolas ao lado dos camponeses, com a consequente paralisação dos colégios e universidades, foi um processo mais característico e de maior alcance do que as perseguições do período. Executado sem violência, frequentemente com entusiasmo, ele atendia a outros objetivos. Estes, por sua vez, pesaram no modo pelo qual a Revolução Cultural promoveu sucessivos expurgos no interior do partido. Não houve nenhuma carnificina generalizada. Humilhação, degradação e embrutecimento era a sina comum da maioria dos visados, mais do que a eliminação. Os rituais da reforma do pensamento, destinados a "curar a doença, não matar o paciente", segundo o preceito de Yan'an, permaneceram na teoria e na prática - esta, um tanto brutal -, o método habitual para lidar com os suspeitos da via capitalista. Quando a Revolução Cultural chegou ao fim, não mais do que 1% dos quadros do partido havia sido definitivamente expulso, sendo que praticamente todo o primeiro escalão - à exceção de Liu Shaoqi -, contra o qual Mao investira em 1966-1969, sobrevivera. Ao contrário de Stálin, Mao tinha conduzido a Revolução Chinesa para a vitória e não ocorreu nenhum massacre da Velha Guarda que combatera a seu lado. Variáveis culturais e políticas interagiram para produzir um desenlace diferente. Mao tinha se tornado um imperador moderno, exercendo poder pessoal absoluto. No entanto, a tradição imperial da China sempre valorizara mais a doutrinação do que a coerção como instrumento de governo, por mais implacável que tenha sido seu exercício da violência quando a necessidade ou o capricho assim o ditaram: o objetivo da Revolução Cultural- transformar as mentes para transformar a realidade, como se as concepções intelectuais determinassem as relações sociais - era tributário de noções mais confucianas do que marxistas da transformação histórica. Contudo, esse ainda era um regime nascido de uma revolução social, em que o poder - contrariamente a um ditado de Mao da época - brotara não apenas do cano de um fuzil, mas também da confiança moral de milhões no partido que o detinha. Se a Revolução Cultural chegou perto de destruir essa herança política, nem por isso ela deixou de ser estranhamente conformada e, afinal, também restringida por ela. 

II. Mutações

Com uma diferença de trinta anos entre suas origens, as duas revoluções tenderam para projetos de reforma que, dada a sua proximidade no tempo, acabaram por se superpor. Os antecedentes de cada um deles foi o fracasso das tentativas prévias de reconstrução. Na URSS, tão logo Stálin morreu, a reação contra sua tirania foi rápida. Sob Khruschev, a máquina do terror foi desmantelada; a censura relaxou; as fazendas coletivas ganharam maior autonomia; os investimentos em consumo aumentaram; e a coexistência pacífica com o capitalismo foi proclamada. A desestalinização prosseguiu com ímpeto considerável por uns cinco anos, do XX ao XXI Congresso do PCUs. Depois disso, os erráticos zigue-zagues de Khruschev na política externa e interna - aposta e recuo no Caribe, reestruturação inócua do partido, planos improvisados para a revitalização da agricultura - provocaram a hostilidade de seus colegas e levaram à sua demissão sumária. Khruschev não chegou a cogitar nenhuma transformação essencial do sistema econômico herdado de Stálin, com ênfase no planejamento altamente centralizado e prioridade para a indústria pesada, que tinha assegurado o triunfo soviético em 1945 e que servira de plataforma para a sua própria carreira. Legitimando tudo o que a Cosplan5 alcançara o prestígio da vitória sobre a potência mais industrializada da Europa comprometeu a flexibilidade do sistema socioeconômico responsável por transformar a URSS numa grande potência, justamente no momento em que isso se fazia mais necessário, no limiar de uma nova era6.

Quando Khruschev foi deposto, o desenvolvimento ainda era considerável e o poder militar da URSS se expandia. O preço de seu fracasso foi o "período de estagnação", como seria chamado longo interregno de meados da década de 1960 até meados da década de 1980. Livre de suas irrequietas iniciativas e agora a salvo de prisões arbitrárias, a burocracia soviética se acomodou numa inércia complacente, contentando-se com um estoque crescente de armamentos e ignorando a queda acentuada de rendimento de suas repisadas fórmulas de investimento industrial. A URSS alcançou paridade nuclear com os EUA e conquistou o estatuto de superpotência. Contudo, 20 anos de brezhnevismo transformaram o partido numa floresta petrificada de funcionários públicos, que geriam uma sociedade na qual a expectativa de vida caía, o crescimento econômico praticamente estagnara e o cinismo era generalizado. Era esse o palco quando Gorbachev entrou em cena, em 1985.

A desordem na China quando Deng Xiaoping chegou ao poder era impressionante. O país ainda estava traumatizado pela turbulência da Revolução Cultural. A educação superior simplesmente deixara de existir durante uma década. Monumentos haviam sido destruídos pelo vandalismo' a vida intelectual havia sido abolida pelo dogmatismo. Vasto número de jovens continuava segregado em exílio rural. As cidades ferviam de insatisfação, e a capital do país fora recentemente palco de tumultos de massa, quando o prédio do Birô de Segurança Pública, nas imediações da praça da Paz Celestial, foi saqueado e incendiado por multidões enfurecidas: baderna inconcebível em Moscou. Mao quisera evitar a espécie de comunismo a que as políticas de Khruschev, no seu entender, tinham conduzido a URSS. Nisso, ele foi bem-sucedido. Agora, a China estaria preservada daquela lenta involução de uma burocracia conservadora, como a que tomou conta da URSS com Brezhnev, imobilizando a economia e a sociedade numa condição degenerativa. Sua meta negativa tinha sido alcançada. Mas sua alternativa positiva fracassara igualmente, e por completo. Por ocasião de sua morte, as políticas que implementara tinham conduzido a China a outro tipo de impasse histórico.

2

Quando embarcaram nos seus programas de reforma, a União Soviética, ao que tudo indicava, era dos dois países o que apresentava condições materiais e culturais muito mais favoráveis para lograr o êxito. Seu PIB era de quatro a cinco vezes maior que o chinês. Sua base industrial era muito mais ampla e empregava mais do dobro da força de trabalho, em termos relativos. Era mais rica em quase todos os recursos naturais - combustíveis fósseis, minérios preciosos, terras abundantes. Era muito mais urbanizada. Sua população era mais bem alimentada e ingeria em média 50% mais calorias que a chinesa. Sua infraestrutura era consideravelmente mais desenvolvida. Por último, mas não menos importante, seu nível de educação era incomparavelmente melhor: totalmente alfabetizada, com um número, em termos relativos, 20 vezes maior de estudantes matriculados em nível superior além de contar com uma comunidade de cientistas bem treinados.

Contudo, o "período de estagnação" veio neutralizar gradualmente e, em certos aspectos cruciais, degradar essas vantagens naturais. Durante 20 anos, nenhuma mudança política sacudiu o marasmo da vida soviética. O planejamento centralizado levado a extremos caricaturais - 60 mil produtos básicos com preços tabelados - tolheu a inovação e propiciou toda espécie de distorções. A produtividade do trabalho estagnou; a relação capital/produto piorou: a maquinaria obsoleta não foi sucateada; as novas tecnologias de informação não foram assimiladas. No entanto, à medida que o desempenho da economia declinava, a pressão da corrida armamentista aumentava. Encalacrada numa rivalidade estratégica com os Estados Unidos, um país mais avançado e muitíssimo mais rico, a liderança soviética desviou uma vultosa fatia do PIB para gastos militares, com pouca ou nenhuma "derivagem" [spin-offJ para o resto da economia, sem ter conseguido afinal emparelhar com o arsenal norte-americano. Seus protetorados no Leste Europeu e no Afeganistão, demandando subsídios e forças expedicionárias, representavam um ônus adicional. Para a URSS, a Guerra Fria não foi apenas um impasse diplomático, ela também congelou as molas do crescimento.

Mas, quando chegou o momento da reforma há muito necessária, o grande déficit nesse sistema emperrado não foi econômico, mas político. Quatro gerações separavam agora o partido dirigente da Revolução. O espírito insurgente do bolchevismo havia muito desaparecera. O rude dinamismo da shturmovshchina stalinista na indústria e na guerra era coisa do passado. A simples lembrança do espalhafatoso jogo de cena de Khruschev, no seu intento de combinar as duas coisas, ainda que brevemente, tinha se apagado. O grosso do PCUs - a nomenklatura soviética propriamente dita - era formada por funcionários administrativos medíocres e apáticos, incapazes de criatividade ou iniciativa. O surgimento de Gorbachev como seu líder, no entanto, provou que o partido ainda não estava totalmente catatônico. Tão logo tomou posse como secretário-geral, ele agiu rapidamente para afastar dos altos cargos remanescentes do período de Brezhnev, consolidando seu poder no partido por meio de uma maioria escolhida a dedo no Politburo. Em seguida, proclamou seus lemas: glasnost e perestroika - a necessidade de maior transparência nos negócios públicos e uma remodelação das instituições do país.

A primeira, acompanhada por um relaxamento geral da censura, foi saudada por uma onda de entusiasmo na sociedade, à medida que energias há muito reprimidas eram liberadas em polêmicas revelações de fatos controversos e debates iconoclastas de toda espécie. Já a segunda deixou sua audiência um tanto perplexa. O que a perestroiha - um termo que Lênin certa vez utilizara de modo incidental- realmente significava na prática? Logo se viu que Gorbachev, por corajoso que fosse nas suas intenções, era vago nas suas ideias: embora moralmente distanciado do PCUs da era Brezhnev no qual ascendera, ele contava com poucos recursos intelectuais independentes do partido e não tinha senão uma ideia demasiado vaga das reformas que pretendia. A maioria de seus delegados na cúpula do partido tinha uma ideia mais vaga ainda e não tardou para que muitos começassem a resistir-lhe. A fim de contornar sua oposição, Gorbachev passou a apelar cada vez mais para uma clientela alternativa, em busca de legitimidade e orientação.

A intelligentsia russa havia muito se incompatibilizara com o regime. O brilhante movimento vanguardista animado por aqueles que não tinham partido para o exílio após a Revolução foi enterrado por Stálin. As esperanças alimentadas pela distensão que se seguiu à sua morte foram rapidamente frustradas, antes mesmo da queda de Khruschev, pela rudeza e pelo espírito filisteu do regime sucessor. Em meados dos anos 1980, o comunismo, sob qualquer forma ou aspecto, era anatematizado por quase todas as correntes desse estrato historicamente influente da sociedade russa. Os eslavófilos e os ocidentalistas, seus dois polos tradicionais, se uniram na recusa da ordem soviética. Aqueles, no entanto - apesar da projeção alcançada por Solzhenitsyn -, eram residuais; estes eram hegemônicos. Liberais, convencidos da superioridade do Ocidente e aspirando a se integrar nele, em breve estavam ditando o compasso na entourage de Gorbachev, propondo mais ideias e objetivos decididos do que ele próprio desenvolvera. Para eles, uma verdadeira reforma só poderia significar duas coisas interrelacionadas: a introdução da democracia, com a realização de eleições livres, e o estabelecimento de uma economia de mercado baseada na propriedade privada dos meios de produção.

Como secretário-geral do PCUS, Gorbachev não estava em posição de apoiar a segunda meta, mesmo se tivesse querido, o que não foi o caso. Mas ele endossou a primeira, desde que as regras fossem tais que lhe assegurassem a legitimação de seu próprio poder por meio de um plebiscito popular, ajudando-o a se libertar da dependência de um partido do qual passara a desconfiar cada vez mais, assim como o partido desconfiava dele. A reforma política, a criação pela primeira vez na história russa de uma democracia representativa, tornou-se a prioridade. A reforma econômica, que originalmente havia sido o principal significado da perestroiha, foi postergada. Essa foi a ordem de batalha transmitida para a intelligentsia liberal, que precisava quebrar o monopólio do poder antes de investir contra os alicerces da economia planejada. Para Gorbachev, no entanto, ela tinha uma outra atração. Abolir a censura e permitir a realização de eleições livres era algo relativamente simples de realizar - no fundo, uma simples questão de suspender restrições. Reorganizar a economia seria muito mais difícil- uma tarefa descomunal, em comparação. Ele preferiu o caminho menos árduo.
Se havia que introduzir a democracia de estilo ocidental no país, que sentido tinha confrontá-Ia no plano externo? Esvaziar gradualmente a Guerra Fria era algo que poderia lhe trazer não somente o aplauso da intelligentsia que, agora bem entrincheirada na mídia, tinha se tornado o principal formador de opinião no país, como também benefícios econômicos concretos, reduzindo o ônus representado pelos gastos militares. E não apenas isso: o prestígio internacional de um governante que se relacionava nos termos mais amistosos com seus interlocutores ocidentais, sobretudo com o presidente dos Estados Unidos da América, e trazia paz e boa-vontade às nações do mundo, só faria realçar a sua imagem interna. A partir de Ig87, Gorbachev se dedicou cada vez mais a viagens internacionais e confabulações, tornando-se o centro das atenções da opinião pública ocidental, visivelmente inebriado pela figura que estava cultivando no cenário mundial. O tempo dedicado à desagradável tarefa de gerir a economia russa era cada vez menor. Então, quando os inconsistentes projetos iniciais para a promoção de cooperativas deram em nada, uma medida inócua após outra foi experimentada para introduzir maior autonomia empresarial, com pouco ou nenhum resultado, enquanto a URSS mergulhava numa profunda crise social, consequência direta da prioridade dada à renovação política do país, em detrimento da econômica. O crescimento era praticamente nulo quando Gorbachev assumiu o poder, e os preços do petróleo - do qual a receita cambial do governo dependia criticamente - já estavam começando a cair, pressionando o orçamento com intensidade crescente e constante, à medida que as rendas do petróleo continuavam caindo. Essas seriam graves dificuldades em quaisquer circunstâncias. O que as transformou numa queda livre catastrófica foi a marginalização do r-cus por Gorbachev, em sua busca de consagração popular. A economia planejada dependia da capacidade do partido de exigir o cumprimento das cotas de produção requeridas pelo governo central. Como o partido fora privado de poder real, sem nenhum substituto efetivo, os gerentes simplesmente deixaram de fornecer seus produtos ao Estado pelos preços fixados e passaram a vendê-los por quanto conseguissem e a quem pudessem. O resultado foi o colapso do sistema de alocação central que mantinha o sistema coeso e o crescente descontrole do comércio, particularmente severo entre as repúblicas.

Enquanto a economia mergulhava no caos, o Estado encontrava dificuldades cada vez maiores para arrecadar impostos das empresas e das repúblicas, apelando para a emissão de moeda a fim de cobrir subsídios de alimentação e encargos sociais. A espiral inflacionária foi agravada pelo aumento do déficit no balanço de pagamentos - visto que o governo tentara conter a queda de sua popularidade com a importação de bens de consumo -, bem como pelo aumento galopante da dívida externa, que duplicaria em cinco anos. Por volta de 1989, o Estado soviético não estava longe da bancarrota. E, o que ainda era mais fatídico, estava à beira da desintegração, e pela mesma razão. A partir do momento em que Gorbachev excluiu o fator PCUs da equação, colocando-se na posição de governante personalista, à parte e acima dele, nada mais conservou as repúblicas unidas7. Sem a estrutura coesiva do partido, a URSS carecia de quaisquer vínculos unionistas [all-UnionJ. Gorbachev, encarnando até o fim seu papel de moderador da Guerra Fria e libertador da Europa do Leste, mostrou -se ainda mais insensível para a questão nacional dentro de seu próprio país, do que para a situação crítica de sua economia. Quando os últimos sobreviventes da velha ordem finalmente se revoltaram contra ele, em 1991, e o derrubaram, vindo abaixo junto com ele, a URSS se dissolveu da noite para o dia. 

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Quando, sete anos antes do PCUs, o PCC se lançou no caminho das reformas, a China era um país muito mais pobre e atrasado do que a Rússia8. Por volta de 1980, o PIB per capita da RPC era 14 vezes menor que o soviético. Mais de 70% de sua força de trabalho estava empregada na agricultura, contra 14% na União Soviética. Cerca de um em cada três chineses ainda não sabia ler ou escrever. Suas universidades não passavam de uma fração das indianas. Pode-se afirmar com segurança que nenhum observador, seja no próprio país ou fora dele, poderia ter previsto a reviravolta da sorte nos dois países três décadas mais tarde. Contudo, já de início a Rússia apresentava uma série de desvantagens que não afetavam a China; esta apresentava antes um conjunto de "vantagens negativas" que lhe proporcionaram condições iniciais - econômicas, sociais e políticas - que a favoreciam, sob certos aspectos menos evidentes.

A primeira delas era o peso menos considerável da maquinaria obsoleta na economia, não porque seu capital fixo superasse o soviético, mas simplesmente por seu nível inferior de industrialização. Aquilo que se tornaria conhecido como o "cinturão da ferrugem" chinês ainda era algo respeitável: quem viu West ofthe Tracks, a trilogia de Wang Bing sobre o destino final do parque industrial de Shenyang e de seus operários - talvez, o maior documentário de todos os tempos -, não poderá esquecê-lo. Ainda assim, em termos relativos, seu peso era menor do que na URSS. Não havia tantas fábricas para sucatear. Mais importante ainda, o planejamento chinês sempre havia sido mais maleável que o seu modelo russo. Bem cedo, Mao compreendeu a impossibilidade de impor as ubíquas diretrizes do Gosplan a uma economia muito menos articulada como a chinesa, com tradições regionais muito mais arraigadas e infraestrutura mais pobre. Desde o início, as autoridades provinciais e distritais haviam desfrutado de maior autonomia do que no sistema soviético, em qualquer momento de sua história. Deliberadamente, a Revolução Cultural enfraquecera ainda mais os poderes do centro, deixando aos governos locais uma margem maior de iniciativa. Assim, as metas de produção industrial eram um tanto modestas e a pressão para seu cumprimento não era irresistível. O resultado foi um sistema muito mais descentralizado, no qual o número de produtos básicos com preços tabelados por Beijing nunca ultrapassou 600, no máximo, um centésimo da pletora soviética9. Menos rígido, esse marco institucional permitia maior flexibilidade e mudanças menos desestabilizadoras.

Socialmente, a China também apresentava uma enorme e decisiva vantagem sobre a Rússia. O campesinato chinês não era um resquício da classe indolente e taciturna que havia sido antigamente, como na Rússia. Não estava exaurido, nem descontente, mas cheio de energias latentes à espera de sua liberação, como os acontecimentos demonstrariam. Historicamente, nunca possuíra instituições coletivas comparáveis ao mir. A sociedade rural, atomizada havia muito no norte e chacoalhada pela rebelião Taiping no sul, conseguiu se recuperar após o Grande Salto Adiante, tendo atrás de si um passado secular de estímulos competitivos. Além do mais, a ausência de descontentamento profundo no campo não se deveu a uma simples diferença entre as duas sociedades rurais. Formando a maioria esmagadora da população, o campesinato chinês era a pedra angular da nação. Seu equivalente mais próximo na URSS, ainda que proporcionalmente não correspondesse a um setor tão amplo da sociedade, seria a classe operária industrial. No entanto, embora não tão desmoralizada quanto os kolkhoz- niki, por volta da década de 1980 ela também era uma força social totalmente desiludida, profundamente cética com relação ao regime, acomodada ao trabalho antieconômico e à baixa produtividade, como uma espécie de compensação para a imensa disparidade entre seu papel nominal como classe condutora do Estado e sua posição real na hierarquia do privilégio. Na China, onde após o Grande Salto Adiante a população rural foi impedida de entrar nas cidades e sempre careceu dos benefícios sociais que assistiam aos trabalhadores urbanos, as desigualdades formais entre cidade e campo eram maiores do que na União Soviética. Antes de mais nada, porém, a ideologia governante nunca proclamou aos camponeses que eles eram a classe na vanguarda da construção do socialismo. O abismo moral entre teoria e realidade era menor, bem como o tempo transcorrido entre as esperanças iniciais e a experiência subsequente. Apesar de tudo o que lhes foi infligido ou concedido, o campo continuou a ser uma reserva do partido no poder.

No plano internacional, a situação da RPC proporcionou-lhe maior margem de manobra. Ela não estava sobrecarregada por nenhuma zona de estados-satélites onerosa, que exigisse soldados e subvenções para ser mantida. Ela não estava em condições de competir com as superpotências na corrida armamentista, nem tentou. Além de estar livre desses entraves, havia a relação radicalmente diferente que a China mantinha com os Estados Unidos. Após uma década de extrema tensão com a URSS, quando se produziram inclusive choques militares ao longo da fronteira, Mao derivou para uma entente com os Estados Unidos ainda durante a Revolução Cultural. A visita de Nixon e seus resultados, por mais espetaculares que tenham sido, permaneceriam uma abertura diplomática sem maiores consequências enquanto ele vivesse. Graças a ela, porém, quando ocorreu o redirecionamento para as reformas internas, a China contava com uma situação propícia na arena internacional. Uma amizade cautelosa, de preferência a um antagonismo calculado, criou as condições para que o centro nervoso do capital mundial e sua pletora de sucursais regionais já estivessem preparados para estender ajuda financeira à China, aos primeiros sinais de abertura para a economia de mercado. A ausência de descontentamento profundo no campo somou-se à inexistência de qualquer ameaça imperialista direta do exterior, pela primeira vez na história moderna do país.

Além do mais, internamente a RPC não corria perigo algum de se desintegrar, como aconteceria com a URSS. Ela não era composta de 15 repúblicas diferentes. Mais homogênea em termos étnicos do que a maioria dos Estados- Nação, ela enfrentava a hostilidade de nacionalidades rebeldes dentro de suas fronteiras - no Tibete e no Uygur -, o que não ocorrera durante meio século na União Soviética. Contudo, o peso delas no conjunto da população era mínimo em comparação com a soma dos povos que provocariam a fragmentação da URSS uma década mais tarde. Um ponto mais prioritário na agenda do PCC do que o problema recorrente de manter essas regiões sob controle era a tarefa ainda pendente de recuperar Taiwan, onde o GMD estabelecera um reduto insular sob proteção dos Estados Unidos, ainda alimentava pretensões de representar a verdadeira República da China e atravessava um período de grande prosperidade econômica. A principal preocupação do partido não era com os riscos de dissolução, mas com problemas de recomposição territorial.
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Contudo, no limiar de suas reformas, a diferença mais decisiva entre a Rússia e a China talvez fosse o caráter de suas lideranças políticas. A RPC não tinha no seu comando um funcionário inexperiente, isolado, cercado de assessores e publicitários imbuídos de um ingênuo Schwiirmerei por tudo o que fosse ocidental, mas veteranos escaldados da Revolução original, líderes que haviam sido companheiros de Mao e sofrido sob seu governo, mas que não tinham perdido nada de sua capacidade estratégica, e de sua autoconfiança. Deng Xiaoping, com efeito, havia sido tão indispensável ao regime que Mao o chamara de volta quando ainda vivo. Após a morte de Mao, sua autoridade era tamanha que ele depressa se sobressaiu como o árbitro inconteste do partido, sem precisar se empenhar pessoalmente para alcançar essa distinção, nem sequer ocupar altos postos hierárquicos. Mas Deng não estava só. Com ele, retornaram Chen Yun, Bo Yibo, Peng Zhen, Yang Shangkun e outros, formando um entrosado grupo de colegas sem papas na língua - os "Oito Imortais" -, os quais, embora não raro discordassem veementemente entre si, asseguraram a continuidade das reformas a seu lado. Coletivamente, eles ocupavam uma posição forte, desfrutando não somente de prestígio pelo-seu desempenho na Guerra Civil e na construção da nação, mas de popularidade por terem dado um fim à Revolução Cultural, o que foi recebido com uma onda de alívio nas cidades.

Ao avaliar a situação do país tal como Mao o deixara, esses dirigentes, com Deng à frente, permaneceram os revolucionários que sempre haviam sido. A sua têmpera era leninista: radicais,
disciplinados, criativos - capazes tanto de paciência tática, quanto de experimentação cautelosa, das iniciativas mais ousadas e das guinadas mais dramáticas. Esse havia sido o espírito que inspirara a Longa Marcha e levara à vitória na guerra civil. E foi com esse espírito que eles enfrentaram o impasse no qual a Revolução Cultural lançara a China. Ao fazê-lo, tinham aguda consciência da transformação da conjuntura chinesa, o que os funcionários do PCUs, dirigindo uma sociedade relativamente mais avançada, não tinham. O Leste Europeu era certamente mais rico e mais desenvolvido do que a Rússia, mas sempre havia sido, e a diferença entre suas respectivas taxas de crescimento - durante as décadas de 1970 e início de 1980, a própria CEE (Comunidade Econômica Europeia) entrou num longo período de baixa - não era tão grande a ponto de forçar os dirigentes soviéticos, nem mesmo nos primeiros tempos de Gorbachev, a repensar os pressupostos básicos sobre os quais assentava o êxito do Estado.

No Extremo Oriente, por outro lado, a partir da década de I950, o Japão quebrara todos os recordes históricos no seu acelerado crescimento - superando de longe não apenas a Europa, mas também os Estados Unidos. Essa recuperação espetacular de uma economia reduzida a cinzas no final da guerra - com a criação de indústrias exportadoras de altíssima competitividade e de uma sociedade de consumo integralmente moderna - contrastava de modo flagrante com a pobreza e a autarquia relativas da China, apesar do substancial desenvolvimento alcançado durante o período de Mao. O Japão, ainda que sobrepujasse seus vizinhos como agora o fazia, tampouco estava sozinho no seu êxito. No final da década de I970, a Coreia do Sul experimentara um vertiginoso processo de industrialização conduzido por Park Chung-Hee e, o que era ainda mais exasperante, o regime do GMD em Taiwan não ficara muito atrás. A pressão desses desenvolvimentos sobre a RPC era iniludível. Deng exprimiu-se com agudeza sobre a situação uma década mais tarde, no auge da crise política de I989. Após observar que, enquanto a China permanecesse isolada, "não haveria nenhum desenvolvimento econômico, nenhum aumento do padrão de vida, nenhum fortalecimento do país", ele continuou: "Hoje em dia, o mundo galopa uma milha por minuto, sobretudo em ciência e tecnologia. Mal conseguimos acompanhar10. A tarefa de superar o descompasso entre o comunismo na China e o capitalismo no Extremo Oriente era uma ordem do dia formidável para qualquer programa de reformas. No entanto, os Imortais não se mostraram intimidados. Atacaram-na, não somente com um vigor derivado do impulso ainda atuante da Revolução que tinham feito, mas também com a milenar auto confiança - posta à prova durante séculos, mas ao fim e ao cabo inquebrantável-, da mais antiga civilização contínua do mundo. O dinamismo de Mao, feliz ou infelizmente, havia sido uma das expressões da restauração dessa confiança. A Era das Reformas impulsionada por Deng seria outra. Essa auto confiança histórica constituía outra das diferenças essenciais entre a Rússia e a China. 

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Ideologicamente, o tsarismo possuíra desde o início um ligeiro traço messiânico, transmitido às elites russas e, no seu devido tempo, à intelligentsia do país - crenças da Rússia como a Terceira Roma, a salvadora dos eslavos, a redentora da humanidade do materialismo ocidental. No século que iria dar na Revolução, manifestações dessa tendência podiam ser detectadas nos Aksakov, Dostoiévsky, Rozanov, Blok. Tratava-se, porém, de um mecanismo de compensação. A Rússia continuou a ser, como sabiam todos os russos, um rincão atrasado da Europa, temível apenas por sua imensidão. A ocidentalização, destituída de idiossincrasias étnicas ou religiosas, tinha sido a visão que impelira seus maiores governantes, Pedro e Catarina, e numa ou noutra variante - liberal ou radical-, veio a dominar suas elites e sua intelligentsia no início do século 20. Contudo, a reivindicação de uma missão especial reservada à Rússia persistiu, produzindo uma esquizofrenia recorrente, visível até hoje. O leninismo superou essa mentalidade cindida combatendo o atraso russo, não em desesperada imitação do Ocidente, mas em revolta contra ele, movido por sua profunda crítica dele. Sob Stálin, a Segunda Guerra Mundial e suas sequelas propiciaram o retorno de um nacionalismo de corte mais tradicional, do tipo "Grande Rússia", com sua cadeia de mecanismos de defesa, embora ele tenha sempre coexistindo com motivos marxistas. Após Stálin, esse chauvinismo perdeu terreno, sem que nenhum substituto viesse a ocupar o seu lugar. Os últimos alentos do internacionalismo, ainda subsistentes sob Khruschev, depressa se extinguiram, deixando apenas o vácuo ideológico do brezhnevismo. Na altura da perestroika, não somente a maioria quase absoluta da intelligentsia, como também elementos da própria elite dirigente, desesperançados diante da estagnação do país, reverteram para o que se poderia considerar em termos históricos a posição ideológica default da ocidentalização radical- desta vez, porém, com espírito de rebaixamento, mais que ambição. As tradições geoculturais da China eram totalmente diversas. O Reino do Meio havia dominado seu mundo conhecido desde a unificação promovida pelo primeiro imperador, ao tempo das Guerras Púnicas no Ocidente; foi por vezes conquistado, mas nunca sofreu a rivalidade de nenhum Estado comparável da região, onde sempre foi de longe a maior, mais rica e mais avançada potência, à qual as outras podiam somente prestar tributos, não esperar igualdade de tratamento. Sob a dinastia Qing, o império tinha se expandido como nunca antes, alcançando os recessos da Ásia Central. A ideologia das sucessivas dinastias variava - os cultos manchús eram dos mais heteróclitos -, mas não a pretensão imperial de absoluta preeminência sobre quaisquer soberanos menores, mais próximos ou mais distantes. A China era o centro da civilização e seu ápice natural.

No século 19, a ingerência ocidental despedaçou essas antiquíssimas pretensões. Quando se tornou claro que a monarquia estava ruindo sob o impacto de golpes internos e externos, o alarme dos literatos - normalmente, a mola-mestra da administração imperial- tornou-se mais e mais estridente; e, com os primeiros reveses da nova República, sua reação tomou uma direção singularmente radical. Diferentes correntes se entrecruzaram na cultura do Movimento de Quatro de Maio, que se cristalizou em torno dos protestos estudantis de 1919 contra as exigências japonesas impostas à China e contra o Tratado de Versalhes que as amparava. Contudo, sua investida se concentrou na demolição completa do cânone confuciano, a doutrina de governo que regera a ordem sociopolítica da China e o arcabouço moral da vida intelectual desde a dinastia Han. Em questão de poucos anos, ele foi reduzido a praticamente nada: um feito que os adversários de qualquer credo ou religião comparável- cristã, muçulmana, hindu ou budista - que ocupasse uma posição equivalente no firmamento ideológico de suas civilizações, jamais rivalizaram11. O assalto contra o passado chinês - um tanto impetuoso já em Liang Qichao, ainda que esporádico - tornou-se abrangente e implacável com Chen Duxiu, o mentor intelectual da Nova Juventude12.

A veemência dessa rejeição das tradições autóctones, que destoava por completo de qualquer corrente de ideias no Japão, não refletiu - isso também destoava do Japão - nenhuma tentação profunda pelo Ocidente. Na China, o retrospecto predatório das potências ocidentais era demasiado flagrante para permitir algum tipo de zapadnichestvo. A carnificina entre as potências europeias na Primeira Guerra Mundial foi o remate das lições sobre a ganância imperialista na Ásia, e seu casamento em Versalhes precipitou o próprio Movimento de Quatro de Maio. A marca distintiva dessa intelligentsia após o colapso do sistema de exames imperiais foi a repulsa ao passado tradicional e a execração do presente capitalista, tal como estes se combinavam na China dos senhores guerreiros. Seu maior espírito, Lu Xun, exprimiu ambos de modo inesquecível. Sem negar que os dois sistemas contivessem algo de positivo - no espírito de um sardônico Montaigne, ele instigou seus compatriotas a tirar o melhor proveito de cada um, numa pilhagem à Ia "haptism" -, ele permaneceu um inimigo irreconciliável de ambos. Contudo, o próprio extremismo de suas posições derivava da força da cultura que ele criticava.

Mao, que admirava Lu Xun, seguiu seu conselho numa escala grandiosa, transformando suas negações na síntese positiva de um marxismo achinesado, a uma só vez mais sistematicamente receptivo à subversão intelectual do Ocidente e mais profundamente apegado às tradições políticas do passado imperial - redigindo "Sobre a contradição" nas cavernas de Yan'an e negligenciando os negócios do Estado no auge de seu poder para reler as crônicas de Sima Guang. Lu Xun era pouco versado em materialismo dialético e não apreciava os anais da autocracia. Contudo, os liberais de hoje, que detestam ambos, não estão equivocados em discernir uma ligação entre o "totalismo" do crítico e o "totalitarismo" do dirigente. A seu modo, ambos encarnaram uma resposta chinesa às crises de seu país, cujo vigor criativo não encontra paralelo na Rússia de meados da década de 1920, resposta tirada dos profundíssimos substratos de uma cultura muito mais antiga e mais ameaça da pela dominação estrangeira. Sob forma produtiva ou pervertida, do Quatro de Maio à Revolução Cultural, correntes de força semelhantes estiveram em ação. De 1919 a 1949, confiança na negação, em seguida na revolta. De 1958 a 1976, excessiva confiança na construção, em seguida na destruição. Finalmente, após 1987, confiança na reforma e na reconstrução.

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O grau de auto confiança com que o senado de anciãos revolucionários atacou os problemas que enfrentavam se manifestou inicialmente no seu modo de lidar com o passado e o futuro do partido. A desestalinização na Rússia tinha sido o feito espetacular, porém subreptício, de um líder unicamente, Khruschev, que surpreendeu o XX Congresso de seu partido com um discurso de denúncia dos crimes de Stálin, sobre o qual não consultara ninguém. Emocional e anedótico, sem apresentar explicações mais profundas sobre como as repressões que relatava seletivamente tinham sido possíveis, a não ser recorrendo ao vazio eufemismo burocrático "culto da personalidade", essa arenga divagadora nunca foi publica da oficialmente, nem complementada por documentos ou análises mais profundas por parte da liderança daquela época ou das subsequentes, até os dias da perestroiha.

Deng e seus colegas agiram de modo muito diverso. Cerca de 4 mil funcionários e historiadores do partido foram convocados para elaborar um retrospecto da Revolução Cultural; com base nas discussões então mantidas, um grupo de 20-40 redatores, sob a supervisão de Deng, produziu um documento-síntese de 3S mil palavras, formalmente adotado como resolução pelo Comitê Central do PCC em junho de 1981. Embora não fosse certamente um relato completo da Revolução Cultural- a responsabilidade atribuída a Mao era qualificada como "ampla pela escala e prolongada pela duração", mas as vítimas das repressões se restringiam ao partido, mais que à população -, o documento oferecia uma explicação coerente dos acontecimentos que não se limitava aos desmandos de um indivíduo isolado: as tradições peculiares de um partido cujo caminho para o poder o tornara afeito à luta de classes irredutível, como se isso fosse uma missão permanente; o efeito do conflito com a Rússia, alimentando temores de revisionismo; e, por último, mas não menos importante, "a perniciosa influência ideológica e política de séculos de autocracia feudal". Ao contrário do requisitório de Khruschev, a resolução admitia a corresponsabilidade do Comitê Central nas gestões do moderno autocrata e não procurava de modo algum diminuir sua contribuição para a Revolução Chinesa como um todo.

Com vistas ao futuro, a abordagem dos anciãos era igualmente distinta. Na URSS, Khruschev não dera nenhuma atenção à questão sucessória. O grupo que o depôs, com Brezhnev à frente, agarrou-se aos seus cargos até a senilidade. Na gerontocracia paralisada em que se transformara o PCUs, as novas gerações eram vistas não como uma promessa, mas como uma ameaça; somente as mortes poderiam suscitar alguma renovação da liderança. Foi preciso que três secretários-gerais morressem no espaço de três anos, todos na casa dos 70, para que um político mais jovem finalmente ascendesse. No PCC, por outro lado, os anciãos estavam preservados dessa insegurança. Eles não perderam tempo para encontrar um substituto. Dois anos após recuperar o poder, tinham delegado seu exercício diário ao séquito de seus subordinados, promovendo Hu Yaobang a secretário-geral do partido e Zhao Ziyang a presidente do Estado. 


A Era das Reformas começou - se não exatamente no tempo, em termos concretos - com uma transformação das relações fundiárias. Primeiro, os preços de estocagem de grãos foram aumentados. A seguir, em um processo que se estendeu por todo o país após o êxito dos experimentos realizados em Anhui e Sichuan, as comunas do povo foram desativadas de modo ordenado e o usufruto das terras criteriosamente dividido entre as famílias individuais que as formavam, as quais poderiam dispor de suas propriedades para produzir o que quisessem, contanto que as cotas requeridas pelo Estado fossem cumpridas. O "sistema de responsabilidade por unidade familiar" significou uma segunda reforma agrária, tão igualitária quanto a primeira, mas muito mais favorável à produção dos camponeses. Reagindo aos novos incentivos, a produtividade aumentou rapidamente: os insumos de mão-de-obra diminuíram e as safras aumentaram; a produção agrícola aumentou em um terço. Com a redução das horas de trabalho dedicadas à lavoura, a indústria rural- têxteis, tijolos e similares - prosperou rapidamente. O resultado foi um aumento de 30% para 44% da renda dos camponeses na renda nacional em um intervalo de poucos anos, 1978-1984. No setor industrial, o sistema de alocação centralizado, baseado no modelo russo, não sofreu nenhum ajuste radical. Ao contrário, as empresas estatais foram gradualmente autorizadas a cobrar preços de mercado para a produção que excedesse as cotas exigidas pelos planos governamentais, vendidas a preços fixos. Os gerentes receberam incentivos parecidos aos dos agricultores para produzir com rentabilidade por fora do sistema de cotas oficial, sem que fosse preciso desmantelá-Ia. Quando esse sistema de preços dual foi suficientemente testado, o escopo dos planos foi congelado, permitindo que outros empreendimentos industriais se desenvolvessem à sua margem. Na prática, o Estado passou a arrendar empresas aos gerentes em bases contratuais, assim como cedera terras aos camponeses mediante contratos de arrendamento de 30 anos, conservando-as, em última instância, sob sua propriedade.
Durante 15 anos ou mais, no marco desses arranjos, o setor mais dinâmico da economia foi o das "empresas de comunas e aldeias" ou TVES13, com seu peculiar estatuto híbrido. Firmas a meio-caminho entre a propriedade estatal, coletiva e privada, elas se beneficiavam de baixos impostos e crédito fácil dos governos locais, muitas vezes acionistas delas, proliferando com espantosa rapidez e competitividade nos ramos mais simples da indústria. A produção da indústria rural cresceu a uma taxa anual superior a 20%; os postos de trabalho nas TVES aumentaram mais de quatro vezes, passando de 28 para 135 milhões; sua parcela no PIB aumentou de 6% para 26%, entre o lançamento das reformas e meados da década de 199014. Altamente lucrativo, o fenômeno das TVES foi ignorado pelos reforma dores russos de todos os matizes, à medida que a perestroika era implementada. De todos os contrastes entre as transformações nas duas economias, o desempenho das TVES constitui a antítese mais flagrante do mergulho desestabilizador da economia soviética na desindustrialização.

Naturalmente, o crescimento espetacular das TVES estava condicionado à oferta ilimitada de mão-de-obra barata, inexistente na URSS. Com elas, pela primeira vez, a RPC tirou máximo proveito de sua principal dotação, em função da qual seu modelo anterior de industrialização em moldes soviéticos - concentrado em investimentos com elevado coeficiente de capital em indústria pesada -, revelara-se um desajuste, embora necessário à época. Alterando esse padrão mediante investimentos intensivos de mão-de-obra em indústria leve, as TVES ganharam uma enorme vantagem comparativa: no final da década de 1980, a relação mão-de-obra/capital fixo das TVES era nove vezes maior que a das empresas estatais. Contudo, estas últimas também foram beneficiárias do crescimento das TVES, cujos lucros engordaram a poupança dos agricultores, sendo então canalizados através dos bancos estatais para ulteriores investimentos nas grandes empresas nacionalizadas, reequipando-as e modernizando-as.

Os elevados índices de poupança rural, por sua vez, foram outra característica do desenvolvimento chinês arraigada no legado paradoxal da própria Revolução. Pois, o que os determinou foi uma combinação entre a tradicional limitação dos benefícios integrais de bem-estar social aos trabalhadores urbanos, o desmantelamento das comunas que tinham fornecido serviços sociais no campo, mais restritos, mas ainda assim efetivos, e os efeitos da política do filho único, destinada a conter o crescimento populacional. Sem proteção do Estado contra a vicissitude, nem garantias seguras de provimento por parte da geração seguinte, as famílias camponesas não tinham muitas opções, senão investir uma parcela substancial de seus rendimentos em poupança. O Estado se beneficiou duplamente com isso. Ao contrário de sua contraparte soviética, ele não precisou cobrir os gastos com o bem -estar social da maioria de sua população e obteve fácil acesso aos fundos necessários para financiar seu programa de modernização.

Havia capitais disponíveis também de outra fonte. Já em 1979-1980, Zonas Econômicas Especiais tinham sido implantadas nas regiões costeiras para atrair investimentos da chamada "diáspora chinesa", visando os afluentes expatriados de Hong Kong, de Taiwan e do Sudeste Asiático. Após um início moroso, a política de Portas Abertas, voltada para esses empresários estrangeiros, tornou-se um sucesso. Atraídas pelas regalias, pela ausência de tarifas de importação e pela mão-de-obra barata da China Continental, as firmas da "diáspora" chegaram com força total, trazendo tecnologias inacessíveis às ZEES, sobretudo em processamento de exportações. Assim, a China conseguiu pegar carona na experiência e no patrimônio acumulados do capitalismo da diáspora para fazer sua entrada no mercado mundial como centro manufatureiro de baixo custo para linhas de montagem, especializando-se com o tempo em eletrônica e eletrodomésticos de cozinha. Essa também foi uma vantagem regional que a economia soviética, embora eventualmente contasse com outras opções, não tinha chance de igualar.

Por último, mas não menos importante, as reformas chinesas foram decisivamente beneficiadas pela descentralização dos controles sobre a economia, um dos legados mais profícuos do maoísmo. Isso significou não apenas que o império do planejamento a ser remodelado era muito menor, sem uma parafernália desmesurada de cotas e diretrizes, mas também que o país já contava com uma rede de centros autônomos de atividade econômica em suas províncias. Quando estas foram liberadas ainda mais da intervenção de Beijing, seus governos entraram com força total, oferecendo todo tipo de incentivos para aumentar os investimentos e acelerar o crescimento em suas jurisdições. A certa altura, isso acabou provocando uma série de distorções e irracionalidades: duplicação de indústrias, gigantismo na consecução de obras públicas, expansão do protecionismo informal, para não falar do enfraquecimento fiscal do governo central, visto que as autoridades locais passaram a competir entre si por melhores resultados. Contudo, apesar de todas as suas aberrações, a concorrência interprovincial na China, tal como a rivalidade entre as cidades italianas no passado, foi e continua
a ser uma fonte de vitalidade econômica. A Rússia é hoje nominalmente uma federação; no entanto, suas vastas e uniformes planícies nunca favoreceram a criação de fortes identidades regionais e seu governo continua centralizado como nunca. O contraste com a China é notável. Em matéria não de direito constitucional, mas de realidade comercial, a República Popular de hoje é um exemplo tão acabado de federalismo dinâmico quanto os Estados Unidos.

III. Pontos de ruptura

Quando a Era da Reforma completou uma década, no final dos anos 1980, a economia chinesa tinha se transformado substancialmente. Naturalmente, a escala e a rapidez dessas mudanças não deixaram de afetar a sociedade e a cultura. No campo, o crescimento da renda estacionou após 1984, mas as condições de vida do campesinato tinham melhorado tão sensivelmente, em termos relativos, que eles permaneceram uma classe satisfeita. A intelligentsia, historicamente o outro fator-chave da ordem social, também havia sido bastante favorecida pela política de reformas. Contudo, sua atitude diante do regime era mais ambígua. As universidades reabriram, os institutos de pesquisa se expandiram, novas oportunidades de emprego surgiram. A juventude escarmentada pela temporada no campo foi reintegrada à vida urbana e as vítimas das repressões do passado, libertadas. A liberdade de expressão era muito maior do que no período de Mao, o acesso às ideias e à literatura estrangeiras era de modo geral franqueado, motivando uma verdadeira "febre de alta cultura". Numa atmosfera estimulante de crescente emancipação, debatia-se o futuro da nação, com esmagador consenso em favor da ampliação das reformas.

Esse último ponto, aliás, não constituía propriamente uma diferença com o governo, cuja meta oficial também era aprofundar o processo de reformas. Para muitos intelectuais, ambos trabalhavam no mesmo sentido, trocando consultas e orientações, especialmente com Zhao Ziyang e seus assessores. Mas, havia também certa tensão no ar, que foi aumentando à medida que a década avançava. O partido estava imbuído da autoridade que os sucessos na economia lhe conferiram. Ele gozava de legitimidade também por ter resgatado o país da Revolução Cultural. Mas essa liberação não se traduziu pela sugestão de nenhuma ordem política alternativa. A esse respeito, os anciã os, que tinham sentido na própria pele os efeitos da turbulência, não fizeram nenhum aceno, mas tão só advertências quanto à necessidade de prevenir qualquer recaída no caos. Já em 1978, quando começou a Era das Reformas, as vozes que reivindicavam democracia haviam sido rapidamente silenciadas como uma ameaça para a estabilidade. Na época, elas ainda eram relativamente isoladas.

Mas, à medida que as reformas econômicas avançavam, com ênfase crescente na introdução de relações de mercado, não houve nenhum esforço consequente de analisar as suas implicações - nenhuma explicação oficial para o sucesso das ZEES, por exemplo. O resultado foi uma espécie de limbo ideológico, no qual as ideias liberais se disseminaram de modo um tanto natural. Ora, se os princípios da economia de livre empresa estavam na ordem do dia, por que os princípios jurídicos de liberdade política - alguns, consagrados nominalmente na própria constituição da RPC - não poderiam acompanhá-los, tal como sustentavam as doutrinas conceituadas no Ocidente? Historicamente, apesar da projeção alcança da por Hu Shi, seu representante mais destacado na geração do Movimento Quatro de Maio, o liberalismo havia sido uma tendência inexpressiva entre a intelligentsia chinesa. Mas, na década de 1980, sem ter produzido nenhum teórico comparável, sem contornos suficientemente nítidos, ele se tornou, no rastro da Revolução Cultural, algo como uma postura dominante entre os intelectuais. Bastante moderada, na maioria, embora com o tempo viesse a adquirir acentos mais radicais, mais próximos do padrão russo. Por volta de 1988, a popular série de televisão River Elegy propunha um elogio cifrado do Ocidente, em contraste com as austeras tradições chinesas, do qual qualquer zapadnik teria se orgulhado, embora incluísse até mesmo um retrato lisonjeiro de Zhao Ziyang, evocando o futuro grandioso prometido ao país, e fosse amplamente criticada pelos estudiosos como reconstituição histórica.

Nessa altura, o clima entre os estudantes variava. Entre a geração dos que não haviam sido diretamente afetados pela Revolução Cultural, a animação era grande e as ideias, menos rígidas. Poucos não tinham sido tocados pelos ideais originais da Libertação; alguns eram influenciados por professores liberais, outros por mais ortodoxos; a maioria, sintonizada com a cultura e as novidades do estrangeiro - canções de Taiwan, música dos Estados Unidos; greves na Polônia, eleições na Rússia; todos embalados pelo élan de um país em movimento, excitados pela abertura de seus horizontes e frustrados por seu prolongado imobilismo. Cientes do papel histórico que haviam desempenhado na conscientização da nação em 1919 e novamente em 1935, eles formavam a camada da população mais madura para a ação coletiva. Em 1985, eles mostraram sua característica fibra nacionalista em protestos contra o Japão. Então, no inverno de 1986-1987, organizaram demonstrações pela democracia em Hefei e Beijing. Quando Hu Yaobang, o secretário-geral do partido, se recusou a dissolvê-Ias, os anciãos o demitiram. O movimento foi contido, mas os sentimentos que o animavam não desapareceram.

No ano seguinte, a própria reforma da economia - até então, o para-choque contra as reivindicações de reforma política - defrontou -se com sua primeira crise séria, quando os preços dos produtos básicos começaram a subir e os salários dos trabalhadores urbanos estagnaram. Quando Zhao e Deng deram a entender que a liberação geral dos preços seria iminente, seguiu-se a estocagem de produtos básicos provocada pelo pânico e a inflação disparou durante o verão, alcançando uma variação média anual de 50%. Mas, na percepção do povo, esse não foi o único efeito nocivo do sistema de preços dual. A corrupção, desconhecida durante o período de Mao, aumentava, com funcionários se aproveitando de seus cargos para explorar a diferença entre os preços tabelados e os preços de mercado dos mesmos produtos, e era abominada. A combinação entre dificuldades materiais inesperadas e revolta diante da injustiça social era uma mistura explosiva, gerando uma atmosfera de tensão nas cidades.

Em Beijing, os estudantes já estavam preparando demonstrações para coincidir com o aniversário dos 70 anos do Movimento Quatro de Maio, quando, em abril de 1989, a morte de Hu Yaobang - caído em desgraça por tê-los apoiado - proporcionou um catalisador mais imediato para a manifestação de seus sentimentos sobre o fechamento político. Os estudantes marcharam em passeata até a praça da Paz Celestial para homenagear Hu, pegando o governo desprevenido. zhao tinha desempenhado um papel na queda de Hu, a quem substituiu como secretário-geral do PCC, Confrontado com o tumulto, porém, ele agora contemporizou e o Comitê Permanente rachou, deixando as autoridades sem ação. O movimento estudantil, que mostrou um excelente nível de organização, foi capaz de mobilizar todas as universidades da cidade e manter pressão contínua sobre o governo. No início de maio, as passeatas deram lugar à ocupação da praça pelos estudantes, que exigiam mudanças democráticas e eram apoiados por grandes manifestações da população de Beijing, exasperada pelo agravamento de sua situação econômica e solidária com as principais reivindicações políticas dos estudantes. Protestos semelhantes irromperam em todo o país, onde houvesse universidades para deflagrá-los. Milhões de pessoas saíram às ruas, num movimento social sem precedentes na história da República Popular.

As agitações de 1989 na China, por sua escala e intensidade, superaram todas as outras registradas na Europa do Leste, para não falar na Rússia, naquele ano ou posteriormente. A energia rebelde e o idealismo dos estudantes do país, bem como a solidariedade ativa da população urbana, não tiveram paralelo em outros lugares: um testemunho, a seu modo, da vitalidade política de uma sociedade ainda próxima de suas origens revolucionárias. Na China, porém, dois tipos de energia diferentes colidiram. Quando estourou a crise, a liderança pós-revolucionária responsável pelo funcionamento diário do Estado e do partido titubeou e rachou. Mas os anciãos, veteranos de décadas de luta armada para conquistar o poder, não iriam perdê-lo por indecisão. Eles permaneceram os combatentes que sempre haviam sido, não hesitando em contragolpear aquilo que viam como uma ameaça ao poder do partido, tão logo a força necessária para tanto foi mobilizada. Em junho, o ELP recebeu ordens de esvaziar a praça e o movimento foi esmagado em uma noite de violência. 2 A repressão custou caro ao PCC. Ele perdeu mais legitimidade com o Quatro de Junho do que com a Revolução Cultural, que em certo momento não apenas desfrutou de apoio efetivo, mas também deixou uma reserva de líderes respeitáveis para assumir o governo, uma vez superada. Em 1989, nenhum setor da nação apoiou a repressão e nenhuma oposição sobreviveu no partido - Zhao, exonerado por não ter votado em favor da lei marcial, morreria no anonimato 16 anos mais tarde, ainda sob prisão domiciliar. Por outro lado, o regime ainda conservava o trunfo do crescimento econômico. Gastas as antigas credenciais ideológicas, daí em diante seria isso que bancaria todo o resto. Uma dose de austeridade para controlar a inflação vigorou até 1991. O que viria em seguida?

Nesse ponto, Deng se distanciou de seus colegas e de seu próprio passado. Em maio de 1989, ele tinha declarado: "Naturalmente, há os que pensam que 'reforma' significa um movimento rumo ao liberalismo ou capitalismo. O capitalismo é a quintessência da reforma para eles, mas não para nós. O que nós entendemos por reforma é algo diverso, ainda sujeito a discussão15". Em janeiro de 1992, Deng percorreu o sul da China e em Shenzhen, a maior das Zonas Econômicas Especiais, declarou que o principal perigo que a China enfrentava era a oposição, não da direita, mas da esquerda, contra o aprofundamento das reformas, cuja inovação exemplar era a bolsa de valores local. Embora ainda sustentasse que a China precisava mais do socialismo que do capitalismo, ele agora se recusava a "falar de capitalismo com 'c' maiúsculo e socialismo com 's' maiúsculo" como algo fútil, explicando que, como as desigualdades são funcionais para o crescimento, a acumulação individual de riquezas não era algo condenável, mas louvável: "Ficar rico é uma glória". Enterradas as esperanças de liberdade coletiva, a compensação estaria na prosperidade individual. Tudo o que importava era o crescimento, sem especificações anacrônicas, como rezava o lema oficial buzinado aos ouvidos céticos: "O desenvolvimento é o argumento irrefutável".

O desenvolvimento veio, de fato, e a um ritmo espetacular. O crescimento da China nos anos 1990 superou inclusive o dos 1980, conforme a liberalização da economia se intensificava. No final da década, a paisagem industrial tinha se transformado graças a uma reestruturação maciça das empresas estatais. Ainda em 1996, o setor estatal era responsável pelo grosso dos postos de trabalho nas cidades. Mas, a partir de 1997, os funcionários provinciais foram autorizados a dispor da maioria delas como bem entendessem, fechando, remodelando ou privatizando-as. No decorrer do processo, a cada ano cerca de 7 milhões de trabalhadores perderam seus empregos; finalmente, por volta de 2004, os postos de trabalho nas empresas privadas eram quase o dobro dos do setor público. No mesmo período, as Empresas de Comunas e Aldeias (TVES) foram privatizadas numa escala ainda maior, ficando apenas 10% delas sob alguma forma de propriedade coletiva. O mesmo aconteceu com 80% dos imóveis residenciais urbanos. Mas, "conservando o grande e descartando o pequeno", o Estado não abriu mão daquilo que considerava o pináculo estratégico da economia: energia, metalurgia, armas e telecomunicações. Responsáveis por um terço do total de vendas de produtos manufaturados e apresentando altas margens de lucro, suas megaempresas nesses setores-chave correspondem a cerca de três quartos do patrimônio global das empresas estatais16.

Estruturalmente, se o despojamento gradual foi uma das duas mudanças fundamentais do segundo período de reformas PÓS-1989, a outra foi a maximização do comércio exterior. A rapidez e o grau de abertura nesse setor tiveram poucos precedentes. No início do novo século, as tarifas industriais médias eram de menos de 10%, cerca de um terço das da Índia; as tarifas agrícolas não ultrapassavam 15%. Fomentado por investimentos externos - em que capitais não mais da "diáspora", mas norte-americanos, japoneses e europeus, embora minoritários, desempenhavam um importante papel -, as exportações de manufaturados aumentaram vertiginosamente - sobretudo, de tecnologia avançada, embora estes últimos envolvessem basicamente montagem. De fato, no espaço de uma geração, a China tornou-se a nova fábrica do mundo: a fatia correspondente a comércio exterior de manufaturados no seu PIB é de dois terços, cifra sem precedentes para um grande país, duas a três vezes superior à dos Estados Unidos ou do Japão. Mas, tal como ocorreu com a indústria doméstica, o Estado manteve até agora uma alavancagem decisiva no terreno do comércio exterior, controlando a taxa cambial, a conta de ativo fixo e o sistema bancário.

O sucesso material desse modelo de desenvolvimento transformou a RPC na maravilha do mundo contemporâneo. Com uma taxa de investimento superior a 40%, em 15 anos, de 1989 a 2004, seu PIB quadruplicou. Nas cidades, a renda das unidades familiares aumentou a uma taxa anual de 7,7%; no campo, em cerca de 5%17. Do início da Era da Reforma até 2006, o padrão de vida médio dos chineses aumentou oito vezes, expresso em dólar. Numa única década, a população urbana registrou um salto de 200 milhões18. Ela corresponde agora a dois quintos da população do país e alimenta o maior mercado automotivo do mundo. Ultrapassando de longe até as reservas japonesas, os títulos em carteira do comércio exterior somam mais de 1,3 trilhões, superando o PNB do Canadá. A China chegou, e com força total. 

IV. O novum

Mas seria "chegada" o termo correto? Não seria "retorno" talvez o mais apropriado? Afinal, a China havia sido por muitos séculos a civilização mais rica e mais avançada do mundo: com certeza, deve existir alguma relação entre esse passado grandioso e as formidáveis realizações do presente. Essas questões nos levam para um terreno mais abrangente e mais obscuro do que o campo relativamente delimitado das comparações entre duas revoluções modernas. Aqui, poderíamos caracterizar em linhas gerais três correntes de pensamento antagônicas, embora não tenha havido até agora nenhum confronto sistemático entre elas. A primeira, atualmente mais em voga entre os historiadores, atribui o acelerado crescimento da RPC essencialmente aos legados milenares de seu passado imperial - dinamismo comercial baseado na agricultura intensiva; profunda divisão do trabalho; redes urbanas desenvolvidas e expansão do comércio interno; crescimento populacional recorde; uma "revolução industriosa". Sob esse ponto de vista, a economia chinesa, havia muito a maior e mais sofisticada do mundo, exibindo um clássico padrão smithiano de crescimento, era tão ou mais plenamente desenvolvida quanto a da Europa Ocidental, pelo menos, até a Guerra do Ópio. Desviada de seu curso por mais de um século pela penetração estrangeira e pela desordem interna, ela agora retornava à sua posição natural no mundo.

Para uma segunda corrente, predominante entre os economistas, o passado imperial oferece poucas pistas para compreender o presente moderno, quanto mais não seja porque - como enfatizou Smith - a ausência de intercâmbio comercial com o estrangeiro privou a economia tradicional de estímulos competitivos, e a proteção deficiente dos direitos de propriedade inibiu a atividade empresarial, restringindo o desenvolvimento chinês a limites próximos do padrão malthusiano. Segundo essa interpretação, o acelerado crescimento atual é resultado da integração tardia da China à economia capitalista mundial, de cuja formação ela esteve historicamente ausente. Com a abertura de seus mercados aos investimentos externos e o gradual fortalecimento dos direitos de propriedade, os fatores de produção foram finalmente liberados para um novo dinamismo. A combinação de oferta abundante de mão-de-obra barata com fartos capitais e tecnologias estrangeiros construiu uma máquina de exportação sem precedentes no passado da China.

Para uma terceira corrente, encontrada (não apenas) entre os sociólogos, a chave para a ascensão econômica da China estaria, pelo contrário, na Revolução Chinesa. Segundo essa versão, foram as realizações do período de Mao que lançaram os fundamentos para as façanhas da Era da Reforma. Esse legado traz no seu bojo a criação, pela primeira vez na história moderna da China, de um Estado soberano forte, que pôs fim à sujeição semicolonial do país; a formação de uma força de trabalho treinada e disciplinada, com altos índices de alfabetização e de expectativa de vida, numa sociedade sob outros aspectos ainda retardatária; e o estabelecimento de poderosos mecanismos de controle da economia - planejamento, setor público, contas do país com o exterior - dentro de um marco institucional relativamente descentralizado, que deixava uma margem de autonomia para as províncias. O desempenho do período das Portas Abertas só teria sido possível com base nesses fatores de transformação19. Obviamente, nenhuma dessas interpretações é absoluta. Encontram-se tanto misturas, quanto casos puros. Em geral, porém, elas não tentam avaliar o peso relativo das variáveis em jogo. Em termos analíticos, a hierarquia dos fatores determinantes buscada não se cristalizará de uma hora para outra. Nesse ponto, é suficiente indicar um termo de comparação pertinente para as hipóteses conflitantes, o qual pode ser formulado da seguinte maneira. Em que, e como, o acelerado crescimento da RPC se diferenciou ou se assemelhou ao do Japão, Coreia do Sul ou Taiwan? Se a experiência chinesa foi um tanto parecida com a deles, então, as hipóteses, sejam de capitalismo pré-moderno ou de capitalismo tardio, ganham impulso; se diferiu substancialmente deles, a hipótese revolucionária parecerá prima fade mais plausível. O que sugerem as evidências?

Uma olhadela nas estatísticas revela um paradoxo. Apesar de sua impressionante rapidez, o crescimento da RPC não foi tão mais veloz que o de seus vizinhos do Extremo Oriente em etapas comparáveis de seu desenvolvimento, embora fosse mantido por uma década a mais. As suas respectivas bases econômicas tampouco diferiam significativamente: em todos os casos, o modelo de desenvolvimento era essencialmente voltado para a exportação. Nesses dois aspectos, as semelhanças entre os membros da família são fortes. Noutros cinco, porém, o contraste é marcante. A partir da década de 1990, a RPC passou a depender muito mais das exportações do que o Japão, a Coreia do Sul ou Taiwan; a parcela correspondente a consumo no PIB chinês tem sido muito inferior; a dependência do capital estrangeiro tem sido muitíssimo maior; a disparidade de renda - e de investimentos - entre o campo e a cidade, muito mais acentuada20,» Por fim, e não menos importante, a escala e o papel do setor estatal na economia foram e continuam a ser, em termos estruturais, muito maiores. Essas características que distinguem o crescimento chinês no contexto do Extremo Oriente estão interrelacionadas e apresentam uma explicação simples. No Japão, na Coreia e em Taiwan, os Estados emergentes no pós-guerra foram uma criação da ocupação ou da proteção norte-americanas, formando uma das linhas de frente da Guerra Fria. Estrategicamente, eles continuam até hoje sob a tutela de Washington - incrustados de bases militares ou cercados por belonaves norte-americanas-, sem contar com verdadeira autonomia diplomática ou militar. Carentes de soberania política e, no entanto, necessitados de autonomia no plano interno, seus governantes - o partido Liberal Democrata, Park Chung Hee, o Guomindang - buscaram uma compensação implementando políticas de desenvolvimento econômico autossustentado, mantendo o capital estrangeiro à distância, por um lado, e promovendo as corporações nacionais, por outro. De modo análogo, temendo a radicalização no campo, confrontados com o espectro da Revolução Chinesa, eles implementaram políticas de reforma agrária - nisso, os EUA os apoiaram - e cuidaram para que o campo nunca ficasse muito atrás das cidades, à medida que o crescimento acelerava. A configuração contrária prevaleceu na RPC. Nela, o Estado pós-revolucionário era totalmente soberano na arena internacional- a ponto de arrancar um cessar-fogo dos Estados Unidos na Coreia - e bastante forte no plano interno desde o início. Por isso mesmo, quando chegou a Era da Reforma, a RPC foi capaz de assimilar um influxo maciço de capital externo, sem receio de que este pudesse lhe trazer descrédito ou subversão. Como Estado totalmente independente, em pleno comando de seu território, ele podia confiar tanto na sua capacidade de controlar fluxos de capital estrangeiro por meio do poder político - um pouco como Lênin pretendera nos tempos da Nova Política Econômica (NEP) -, quanto na sua capacidade de dominar ou manipular o capital nacional, graças a seu controle contínuo sobre as instâncias estratégicas da economia - financeiras e industriais. Além do mais, o Estado podia conter o consumo no campo, impelindo camponeses destituídos para as cidades como uma força de trabalho migrante, algo inviável para os governos em Tóquio, Seul ou Taipé, cujos agricultores precisavam ser bem tratados como condição de sobrevivência dos regimes locais. Se o PCC foi capaz de conseguir isso sem perder o controle sobre a urbanização - a proliferação de favelas planetárias no sul e no sudeste da Ásia -, foi graças ao sistema de hukou, que segregava as cidades do campo, estabelecido durante o Grande Salto Adiante. Durante o período de Mao, os camponeses também tinham sido vítimas de acumulação primitiva em benefício das cidades. Uma vez que a saúde pública e a educação nas aldeias foram desmanteladas após Mao, e que na gestão de liang Zeming os investimentos foram redirecionados para longe do campo, as disparidades de renda entre as populações urbana e rural aumentaram aos saltos. Os pressupostos históricos tanto dos altos índices de inversões externas diretas, quanto dos baixos índices de investimentos em infraestrutura rural na RPC são os mesmos - um regime originado de uma revolução, num país com população mais de sete vezes maior que a do Japão, Coreia do Sul e Taiwan juntos, capaz de jogar duro seja com os camponeses, seja com os estrangeiros. O preço de ambas as coisas ainda não foi pago. Mas os custos diretos ou indiretos de uma e outra têm aumentado visivelmente - de modo ainda desarticulado, porém espalhando inquietação nas aldeias; de modo ainda administrável, mas gerando crescente dependência do Tesouro dos EUA. 

2

O partido que comandou essa transformação do país foi transformado por ela. Os Imortais já passaram. Mas não as vantagens de ser o segundo, e não o primeiro, a mover as pedras. Tirando as lições necessárias da sorte final reservada ao brezhnevismo, o rcc institucionalizou a renovação de seus quadros dirigentes, impondo limites para o exercício dos cargos e regulando a transferência de poder de uma geração para outra. Sem quaisquer antecedentes revolucionários, os atuais e os próximos detentores do poder possuem uma educação mais formal e, como nunca antes, dispõem - tal como os imperadores dispunham dos letrados - de recursos técnicos e intelectuais mais amplos e diversificados, de painéis de especialistas e consultas informais com peritos ou partes interessadas. O crescimento econômico e o sucesso diplomático restauraram a reputação política: o partido atualmente conta com um grau de legitimidade popular como não contava desde a década de 1950. O mandato que adquiriu é a um só tempo poderoso e frágil. O poder: prosperidade no plano interno e dignidade no plano externo são apelos a que poucos resistem. A fragilidade: desenvolvimento econômico sem justiça social, afirmação no plano doméstico e percalços na arena internacional, são aspectos que dificilmente se enquadram nos ideais da Revolução que o partido reivindica como sua. O nacionalismo de consumo é um constructo ideológico raso, no qual ele não pode se fiar inteiramente. Despolitizado como o discurso dominante do PCC se tornou, expurgá-lo de todo socialismo seria contraproducente. A reivindicação transmitida de uma outra legitimidade, ainda inscrita no seu nome, continua a ser uma reserva necessária. Pois os sentimentos revolucionários diante da injustiça e as demandas por equidade não desapareceram das mentes dos cidadãos. Nem tampouco os riscos de ignorá-los.

Explicação é uma coisa, classificação outra e avaliação, uma terceira. Em termos taxonômicos, a RPC do século 21 é um novum histórico-mundial: a combinação daquilo que, segundo qualquer critério convencional, é no momento uma economia predominantemente capitalista, com aquilo que, segundo qualquer critério convencional, ainda é incontestavelmente um Estado comunista - ambos, em seus respectivos gêneros, os mais dinâmicos jamais vistos21. Politicamente, os efeitos dessa contradição deixam suas marcas por todo o espectro da sociedade, onde eles se fundem ou se mesclam. Nunca tantos saíram tão rapidamente da pobreza absoluta. Nunca indústrias modernas e infra-estruturas ultramodernas foram implantadas em escala tão vasta, em tão pouco tempo, nem nunca uma classe média florescente emergiu tão rapidamente junto com elas. Nunca a hierarquia das potências foi alterada tão dramaticamente, alimentando tão espontaneamente o orgulho popular. Nem, nos mesmos anos, a desigualdade atingiu tão rapidamente tetos tão mirabolantes, a partir de um piso tão baixo. Nem a corrupção se alastrou tanto, ali onde a probidade era algo subentendido. Nem os operários, ao menos em teoria, os senhores do Estado até ontem, foram tratados de modo tão abusivo e impiedoso - extinção de postos de trabalho, não pagamento de salários, afrontas escarnecidas, protestos sufocados22. Nem os camponeses, a espinha dorsal da revolução, foram tão esbulhados de suas terras e meios de subsistência, alijados de uma área equivalente à das regiões montanhosas da Escócia por empreendedores imobiliários e burocratas. Usuários da internet em número superior ao de qualquer outro país, nenhum terror, ampla liberdade em suas vidas privadas; um aparato de vigilância moderno e eficiente, como nunca se viu. Para as minorias, ação afirmativa e repressão política e cultural, de mãos dadas; para os ricos, todos os luxos e privilégios que a exploração pode comprar; para os fracos e desenraizados, migalhas ou menos que isso; para os dissidentes, a mordaça ou a masmorra. Em meio ao conformismo ideológico formal- nem sempre, de todo irreal- energia social e vitalidade humana formidáveis. Emancipação e regressão não raro estiveram associadas no passado; mas não de modo tão vertiginoso como na China que Mao ajudou a criar e tentou evitar.

A apreciação de um processo histórico tão descomunal, ainda no seu estágio inicial, está sujeita à falibilidade. Um tanto complexo para aqueles que o vivem de dentro, abarcá-lo na sua totalidade com firmeza e clareza de vistas e chegar a uma síntese dialética talvez seja uma tarefa simplesmente impossível para os que o observam de fora. No Ocidente, mania e fobia da China têm alternado com regularidade desde o Século das Luzes, o pêndulo ora oscilando desta para aquela, em meio a uma nova onda de chinoiserie popular e erudita, não necessariamente mais esclarecida que a original. Na China, suas contrapartes são climas recorrentes de atração pelo Ocidente e de chauvinismo Han. Um espírito sóbrio de comparação, raramente alcançado, é a única salvaguarda contra tais tentações. Isso também vale para o futuro. As projeções de tendências futuras, otimistas ou pessimistas, ouvidas de tempos em tempos entre seus cidadãos, são frequentemente tiradas de Taiwan ou Cingapura: provável democratização, à medida que o padrão de vida e as expectativas políticas aumentam, ou paternalismo autoritário in perpetuo, com uma fachada eleitoral. Nem um nem outro são particularmente atraentes. Em Taiwan, a democracia resultou não tanto de uma gradual mudança de disposição do GMD, quanto de sua necessidade de um novo tipo de legitimação internacional, uma vez que os Estados Unidos deixaram de reconhecer a ilha. O regime monopartidário de Cingapura está fundado sobre um sistema de bem-estar social que só é tão previdente porque foi construído em função de uma cidade-estado, não de um Estado de proporções imperiais. Beijing não necessita do primeiro, nem é provável que venha a reproduzir o segundo. Rumo a quais paragens o megajunco da RPC está se deslocando, é algo que resiste ao cálculo, pelo menos dos astrolábios ora conhecidos.

Notas:

1.

2. O notável ensaio de Isaac Deutscher, “Maoism – Its Origins and Outlook” (1964), continua a ser o ponto de partida para qualquer exame das relações entre as duas revoluções: Ironies of History, Oxford, 1966, pp.88-120.

3. Para uma estimativa do saldo de vítimas, ver R.W. Davies, “Forced Labor under Stálin: The Archive Revelations”, NLR I/224, nov-dez. 1995, pp.62-80; J. Arch Getty e Oleg Naumov, The Road to Terror, New Haven, CT 1999, pp. 587-594.

4. Ver Andrew Walter e Yang Su, “The Cultural Revolution in the Countryside: Scope, Timing and Human Impact”, China Quarterly, mar. 2003, pp. 82-107.

5. Gosudarstvennyi Komitet Planirovaniya, Comissão de Planejamento Estatal do Governo Comunista da Rússia. [N.doT.]

6. Negativamente, a coletivização agrária e os expurgos tiveram efeitos afins sobre o sistema político: catástrofes cujos êxitos comprometeram irremediavelmente as renovações, enquanto os fracassos do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural possibilitaram-nas.

7. Para o desmantelamento do partido federativo, ver Stephen Kotkin, Armageddon Averted: The Soviet Collapse 1970-2000, Oxford, 2001, pp. 76-81; para o caos monetário, a disseminação do escambo e o desfalque crescente do patrimônio público à medida que a perestroika degringolava, ver David Woodruff, Money Unmade: Barter and the Fate of Russian Capitalism, Ithaca, 1999, pp. 56-78, e Andrew Barnes. Owning Russia: The Struggle over Factories, Farms and Power, Ithaca, 2006, pp. 43-67.

8. As comparações pertinentes são exploradas na obra fundamental de Peter Nolan, China´s Rise, Russia´s Fall: Politics, Economics and Planning in the Transition from Stalinism, Basingstoke, 1995, pp. 110-159, que também contém um dos mais críticos e contundentes relatos da perestroika: pp. 230-301. Para reflexões contritas sobre o fracasso da perestroika em “deflagrar uma revolução capitalista”, comparar Minxin Pei, From reform to Revolution: The Demise of Communism in China and the Soviet Union, Cambridge, 1944, pp. 118-142.

9. Barry Naughton, Growing out of the Plan: Chinese Economic reform, 1978-1993. Nova York, 1995, pp. 41-42

10. The Tiananmen Papers, Nova York, 2001, p. 327.

11. Para um estudo de brilhante virtuosismo, ver Mark Elvin, “The Collapse of Scriptural Confucianism”, in Another History: Essays on China from a European Perspective, Honolulu, 1996, pp. 352-389. 

12 .“Onde estão os babilônios hoje? De que lhes serve a sua cultura agora?”, Indagou ele, Jack Gray, Rebellions and Revolutions China from the 1800s to 2000, Oxford, 2002, p. 195.

13. Em inglês, “Township and Village Enterprises”, ou TVE [N.do T.] 14 Naughton, The Chinese Economy: Transitions and Growth, Cambridge, 2007, p. 274-276.

14.

15. The Tiananmen Papers, p. 325. 16 Naughton, The Chinese Economy, pp. 186, 106, 286, 303-304.

16.

17. As cifras globais dissimulam uma brusca guinada tanto no modelo de crescimento quanto na distribuição de renda após 1989, favorecendo as cidades em detrimento do campo, e as empresas estatais e estrangeiras em detrimento das empresas privadas. Para uma análise dessa mudança, ver Yasheng Huang, Capitalism with Chinese Characteristics: Entrepreneurship and the State, Nova York, 2008, que argumenta ainda que o fator total de produtividade vem declinando na economia chinesa como um todo: pp. 228-290. 

18. Fred Bergsten, Bates Gill, Nicholas Lardy e Derek Mitchel, China: The Balance Sheet, Nova York, 2006, pp. 5 e 31.

19. Para os argumentos da primeira corrente, ver Kenneth Pomeranz, The Great Divergence: Europe, China anad the Making of the Modern World Economy, Princeton, 2000, e Sugihara Kaoru, “The East Asian Path of Economic Development: a Long-Term Perspective”, in Giovanni Arrighi, Hamashita Takeshi e Mark Selden (ed.), The Resurgence of East Asia: 500, 150 and 50 year Perspectives, Londres, 2003, pp. 78-117; para uma ilustração da segunda, ver Jim Rowher, “When China Wakes”, Relatório Especial de The Economist, 28.11.1992; para exemplos da Terceira, ver Chris Bramall, Sources of Chinese Economic Growth 1978-1996, Oxford, 2000, e, especialmente, Lin Chun, The Transformation of Chinese Socialism, Durham, 2006.

20. Ver o surpreendente estudo, com os respectivos gráficos, de Hung Ho-fung, “America´s Head Servant?”, NLR 60, nov-dez. 2009.

21. Para a mais lúcida análise recente da estrutura da economia, ver Joel Andreas, “Changing Colours in China”, NLR 54, nov-dez. 2008, pp. 123-152; sobre o continuísmo no partido, ver David Shambaugh, China´s Communist Party: Atrophy and Adaptation, Bekerley/Los Angeles, 2008, que destaca a sua capacidade de tirar lições das consequências do colapso do PCUs. 22 As vicissitudes da velha e da nova classe operária chinesa são o objeto de uma obra-prima da sociologia: Ching Kwan Lee, Against the Law: Labor Protestes in China´s Rustblet and Sunblet, Bekerley/Los Angeles, 2007.

22. As vicissitudes da velha e da nova classe operária chinesa são o objeto de uma obra-prima da sociologia: Ching Kwan Lee, Against the Law: Labor Protestes in China´s Rustblet and Sunblet, Bekerley/Los Angeles, 2007.

Vida e época da primeira New Left

O editor fundador da NLR relembra o surgimento da Nova Esquerda Britânica a partir da dupla conjuntura de 1956 – Hungria e Suez – e identifica as correntes cruzadas, culturais e políticas, que nutriram sua primeira geração.

Stuart Hall 



Tradução / A “primeira” New Left nasceu em 1956, em uma conjuntura – e não apenas um ano – marcada, por um lado, pela repressão à Revolução Húngara, pelos tanques soviéticos, e, por outro, pela invasão britânica e francesa à zona do Canal de Suez1. Os dois eventos, cujo impacto dramático foi agravado pelo fato de terem ocorrido no curto prazo de poucos dias entre um e outro, desmascararam a violência subjacente e a agressão latente dos dois sistemas que dominaram a vida política do período – o stalinismo e o imperialismo ocidental –, de modo a abalar todo o mundo político. Em um sentido mais profundo, eles definiram para as pessoas da minha geração as fronteiras e os limites do tolerável na política. Os socialistas do período “pós-Hungria”, pareceu-nos, deveriam levar em seus corações o sentimento de tragédia que a degeneração da Revolução Russa no stalinismo representou para a esquerda no século XX. A “Hungria” pôs fim a determinado tipo de inocência socialista. Contudo, por outro lado, “Suez” sublinhou a enormidade do equívoco em crer que a redução da Union Jack2 em algumas ex-colônias, necessariamente, tivesse assinalado o “fim do imperialismo”, ou que os ganhos reais do Estado de bem-estar social e da ampliação da afluência material significaram o fim da desigualdade e da exploração. “Hungria” e “Suez”, assim, foram liminares, experiências de marcação de fronteira; simbolizaram a dissolução da Idade do Gelo política. 

A New Left veio à existência no rescaldo desses dois eventos. Ela tentou definir um terceiro espaço político em algum lugar entre essas duas metáforas históricas –  “Hungria” e “Suez”. Sua ascensão significou para os adeptos da esquerda da minha geração o final dos silêncios impostos e dos impasses políticos da Guerra Fria, bem como a possibilidade de um avanço em direção a um novo projeto socialista. Pode nos ser útil começar, aqui, com a própria genealogia. O termo “new left” é comumente associado a “1968”; porém, para a geração de “1956” dessa New Left, “1968” já era uma segunda mutação, ou talvez até mesmo uma terceira. Nós tínhamos emprestado a expressão, na década de 1950, de um movimento conhecido como nouvelle gauche, uma tendência independente na política francesa, associada ao semanário France Observateur e a seu editor-chefe, Claude Bourdet. Como figura de liderança na Resistência Francesa, Bourdet personificava a tentativa, depois da Guerra, de abrir uma “terceira via” na política europeia, independente das duas posições dominantes na esquerda, capitaneadas pelo stalinismo e pela social-democracia, que suplantasse os blocos de poder militar da OTAN e do Pacto de Varsóvia e, ainda, que se opusesse às presenças soviética e norte-americana na Europa. 

Essa “terceira via” fazia paralelo às aspirações políticas de muitas pessoas que se juntaram para formar o início da New Left britânica. Alguns de nós tínhamos encontrado Bourdet em Paris, em uma conferência convocada para considerar a criação de uma Sociedade Socialista Internacional, por intermédio das divisões da Europa Ocidental e Oriental. O principal protagonista da ideia na Grã-Bretanha era George Douglas Howard Cole, um austero e corajoso veterano da esquerda independente, o qual, na época, ensinava política na Universidade de Oxford. Embora fosse um exímio historiador do socialismo europeu e um estudioso do marxismo, o socialismo de Cole era enraizado nas tradições do Guildismo3, de cooperação e controle da produção por parte dos “trabalhadores”. Sua crítica à nacionalização burocrática de estilo “morrisoniano” foi bastante influente na formação de muitos socialistas da minha geração que almejavam formas estadistas de socialismo. 

A New Left representou o encontro de duas tradições ligadas, porém diferentes – e também de duas experiências políticas ou, então, de duas gerações. Uma delas foi a tradição que eu denominaria, por falta de um termo melhor, “humanismo comunista”, simbolizada pela New Reasoner e seus fundadores, John Saville, Edward Thompson e Dorothy Thompson. A segunda talvez fosse mais bem descrita como a tradição do “socialismo independente”, cujo centro de gravidade residia na geração dos estudantes de esquerda da década de 1950, que manteve certa distância das afiliações “partidárias”. Foram pessoas desse último estrato que, em um primeiro momento, produziram, a partir da desintegração das ortodoxias em 1956, a Universities and Left Review. Eu pertenço a essa segunda tradição. 

Chegadas 

Pode ajudar a entender esse momento se eu falar de minha trajetória pessoal. Cheguei a Oxford com uma bolsa Rhodes, vindo mais ou menos diretamente do colégio jamaicano, em 1951. Eu diria que minha posição política era, principalmente, “anti-imperialista”. Era simpático à esquerda, tinha lido Karl Marx e fui influenciado por ele quando estudante na Jamaica, mas, na época, não poderia me denominar marxista no sentido europeu do termo. De qualquer forma, estava preocupado com o fracasso do marxismo ortodoxo em lidar mais adequadamente com os problemas da raça e da etnicidade no “Terceiro Mundo”, com as questões do racismo ou, ainda, com a literatura e a cultura, que me preocupavam, intelectualmente, como aluno de graduação. Pensando agora retrospectivamente, eu me identificaria, no período, como um daqueles tipos descritos por Raymond Williams, em Cultura e sociedade, seguindo, como estudioso da literatura, o combate entre os Leavisistas4 e os críticos marxistas – obrigado a reconhecer que o “Scrutiny venceu”5. Não porque ele estava certo – sempre fomos críticos do elitismo conservador do programa cultural do Scrutiny –, mas porque os modelos marxistas alternativos eram muito mecânicos e redutores (inclusive, nós ainda não tínhamos acesso a Lukács, Benjamin, Gramsci ou Adorno). Na frente política mais ampla, eu era um crítico ferrenho a tudo o que eu sabia sobre o stalinismo, seja ele como sistema, seja como modelo de política. Eu o opunha ao modelo de um socialismo democrático, e não pude apreender a relutância dos poucos comunistas que conhecia em reconhecer a verdade daquilo que todos sabiam sobre as suas consequências desastrosas para a sociedade soviética e para a Europa Oriental. 

Tal qual o restante do pequeno número de alunos do “Terceiro Mundo” em Oxford, minhas principais preocupações políticas eram com as questões coloniais. Tornei-me muito envolvido nas políticas estudantis na West Indian. Nós debatíamos, principalmente, o que estava ocorrendo “em casa”, na expectativa de que, em pouco tempo, estaríamos todos lá novamente e envolvidos nessas questões. Discutimos sobre a West Indian Federation6 e as perspectivas de uma nova ordem econômica no Caribe; a expulsão da esquerda do Partido PNP [People’s National Party] de Manley, na Jamaica, sob as pressões da Guerra Fria; a derrubada do governo Jagan, na Guiana Britânica, com a suspensão da constituição e o movimento das tropas britânicas. Não houve “política para negros” na Grã-Bretanha, e a migração pós-guerra tinha apenas começado. 

Mais tarde, quando comecei a ter um interesse maior pela política britânica, entrei em contato com a esquerda de Oxford. Não havia nenhum movimento político de esquerda britânico de “massa” ou alguma grande questão política popular aos quais fosse possível se filiar. A escolha parecia ser entre um Partido Trabalhista, que, naquele momento, estava profundamente comprometido com uma visão de mundo atlantista, e as trevas da extrema esquerda. A primeira vez que me aventurei em uma reunião de discussão do Grupo Comunista foi para debater com o Partido Comunista (PC) a aplicação do conceito marxiano de classe à sociedade capitalista contemporânea. Na época, eu sentia que esse era um movimento extremamente ousado – tal era o clima de medo e suspeita que prevalecia. Depois de 1954, no entanto, esse clima começou a mudar. Houve um renascimento lento e hesitante do debate na esquerda, e então um grupo começou a surgir pautando essas discussões. Muitos de nós participamos do “Grupo Cole” (como seu seminário na política era conhecido), o qual, embora formalmente fosse uma oportunidade para estudantes de graduação, duplicou, como um vasto grupo de discussão da ampla esquerda. Alguns dos primeiros contatos e amizades, que mais tarde se cimentaram com a formação da New Left, foram forjados lá. 

É difícil evocar, atualmente, o clima político de Oxford, em 1950. A Guerra Fria dominava o horizonte político, posicionando todos e polarizando cada tópico a partir de sua lógica binária sem qualquer piedade. “Recomendar a admissão da China na ONU era provocar o opróbrio de ‘simpatizante-colaborador’7 [fellow- -traveller]; dizer que o caráter do capitalismo contemporâneo mudou era ser classificado como um ‘liberal keynesiano’”, como o primeiro editorial da ULR (Universities and Left Review) colocou8. O “degelo” começou com o debate sobre uma série de questões contemporâneas: o futuro do trabalho e a esquerda na esteira do renascimento conservador, a natureza do Estado social e do capitalismo no pós-guerra, o impacto da mudança cultural na sociedade britânica nos primeiros anos “abastados” da década. O ritmo desse debate foi acelerado pelas revelações de Khrushchev, no XX Congresso do PCUS (Partido Comunista da União Soviética). A resposta para “1956” e a formação de uma nova esquerda não poderiam ter ocorrido sem esse período anterior de “preparação”, em que um número de pessoas, lentamente, começou a ganhar a confiança para envolver-se em um diálogo que passou a questionar os termos da discussão política ortodoxa e atravessar as fronteiras organizacionais existentes. 

Esses fios foram condensados, dramaticamente, pelos acontecimentos de “1956”. Os tanques soviéticos em Budapeste acabaram com qualquer esperança de que uma marca mais humana e democrática do comunismo pudesse evoluir na Europa do Leste, sem trauma prolongado ou alguma convulsão social. “Suez” colapsou a ilusão aconchegante de que (para adaptar, aqui, a frase de Tawney) “você poderia esfolar o tigre do capitalismo-imperialista listra por listra”. A demonstração em Trafalgar Square Suez foi o primeiro comício político em massa de seu tipo, na década de 1950; pela primeira vez, eu encontrei a polícia montada face a face e também pela primeira vez ouvi Hugh Gaitskell e Nye Bevan falando em público. A denúncia feroz de Bevan ao Éden, lembro-me, dispersou pombos assustados em voo. Um dos resultados do fermento de “1956”, nesse sentido, foi a publicação de duas revistas, Universities and Left Review e New Reasoner, que, posteriormente fundidas, em 1960, formaram a “primeira” New Left Review. 

Um novo estudante de esquerda

Como e por que motivo isso ocorreu naquele momento? E por que, de todos os lugares possíveis, aconteceu particularmente em Oxford? Na década de 1950, as universidades não eram, como vieram a se tornar mais tarde, centros de atividade revolucionária. Uma minoria de estudantes de esquerda privilegiados, debatendo o capitalismo de consumo e o aburguesamento cultural da classe trabalhadora, em meio às “espirais de sonhos”9 [dreaming spire], pode parecer, agora em retrospecto, um fenômeno político bastante marginal. No entanto, o debate foi acompanhado com uma intensidade feroz, conscientemente contraposta à confiança frágil e casual do tom dominante de Oxford, definido pelas tentativas dos “Hooray Henries”10 da época de reviver Brideshead revisited11. De fato, Oxford também conteve seus enclaves rebeldes: desmobilizou jovens soldados veteranos nacionais, sindicalistas do Ruskin College, “os garotos bolsistas” e as garotas locais e do exterior. Embora eles não fossem capazes de redefinir a cultura dominante, esses outsiders vieram a constituir uma cultura intelectual minoritária – para não dizer sitiada. Esses eram os “partidários da ULR”. 

A esquerda de Oxford era muito diversificada. Havia um pequeno número de membros do Partido Comunista – incluindo Raphael Samuel, Peter Sedgwick e Gabriel Pearson –, principalmente em Balliol, onde Christopher Hill era tutor em História Moderna. Paralelamente, havia também uma grande massa de apoiadores do Labour Club, a maioria firmemente ligada à Fabian Society12, aos trabalhadores e a posições reformistas, alguns com seus olhos fixos, de modo inabalável, nas futuras carreiras parlamentares. Finalmente, havia os “independentes”, incluindo algumas pessoas sérias do Labour, que não estavam intelectualmente alinhadas a nenhum desses dois campos, mas se viam empurradas de modo desconfortável a eles. O último grupo atraiu mais do que seu quinhão de exilados e imigrantes, o que reforçou seu cosmopolitismo. Charles (Chuck) Taylor era um estudioso francês-canadense da Rhodes, e algo um tanto ambíguo, uma espécie de marxista católico; Dodd Alleyne era de Trinidad; eu, jamaicano; Sadiq al-Mahdi mais tarde iria desempenhar papel significativo no Sudão; Clovis Maksoud era membro fundador do Partido Ba’ath sírio. Alguns, como Alan Lovell, um pacifista do País de Gales; Alan Hall, um classicista escocês; e Raphael Samuel, Gabriel Pearson, Stanley Mitchell e Robert Cassen, judeus, eram o que se poderia chamar hoje de emigrados internos. 

O local de nossos debates era o Clube Socialista, uma organização de esquerda moribunda, mais ou menos abandonada desde os tempos da Frente Popular dos anos 1930, que nós reanimamos. Ficou claro que debates semelhantes estavam sendo desenvolvidos em outras universidades e que deveria haver alguma plataforma comum para essa esquerda estudantil emergente. Isso explica a palavra “Universities” no título da revista que estávamos produzindo. A outra metade de seu título incômodo e nem um pouco comercial sinalizava nossa preocupação com as questões culturais, por intermédio de um link simbólico com a Left Review, uma ampla e pouco ortodoxa publicação literária e cultural das décadas de 1930 e 1940, mais receptiva aos novos movimentos culturais (por exemplo, em sua abertura às correntes modernistas) do que qualquer outra revista “partidária” comparável da época – Brecht, inclusive, fora publicado na Inglaterra nessas páginas. O advento de 1956, no entanto, destruiu as fronteiras universitárias dos debates e nos catapultou para o turbilhão nacional e internacional das políticas de esquerda. A primeira edição de Universities and Left Review, que surgiu na primavera de 1957, teve quatro editores: Raphael Samuel e Gabriel Pearson, que deixaram o PC depois do evento “Hungria”, Charles Taylor e eu, representando “os independentes”. Seu conteúdo e seus colaboradores – Isaac Deutscher, Bourdet, Lindsay Anderson, Thompson, Cole, Eric Hobsbawm, Graeme Shankland, escrevendo sobre planejamento urbano, David Marquand, sobre o filme Lucky Jim13, Joan Robinson, Basil Davidson – demonstram, claramente, essa tradução para um estágio mais amplo. 

As tradições marxistas inglesas

A New Left tinha, na mesma medida, importantes – embora muito diferentes – raízes de outra tradição, representadas pelo New Reasoner. Essa tendência teve sua formação nas políticas da Frente Popular e Comunista da Grã-Bretanha. Alguns dos “Reasoners” – Edward Thompson, John Saville, Rodney Hilton, Christopher Hill, Victor Kiernan, Eric Hobsbawm – tinham pertencido a um enclave único, o Grupo de Historiadores do Partido Comunista, que, sob inspiração da pouco conhecida Dona Torr, desenvolveu uma leitura altamente independente e original da história britânica, assim como uma forma de política marxista que estava muito mais em contato com o radicalismo popular inglês, bastante distinto em estilo e inspiração do que sustentava a liderança do Partido Comunista, por meio de figuras poderosas – mas profundamente sectárias –, como Palme Dutt.

As revelações do XX Congresso estimularam, dentro do partido, uma reavaliação dolorosa de toda a experiência stalinista; o New Reasoner apareceu, pela primeira vez, nesse contexto, como boletim de oposição interna insistindo em um “ajuste de contas” aberto e público. Foi só depois que eles perderam sua luta pelo direito de expressar o que foram oficialmente definidas como opiniões de “facções” – e as disciplinas do centralismo democrático mobilizadas contra eles – que a maioria dos “Reasoners” ou deixou o partido ou foi expulsa; assim, o New Reasoner apareceu como jornal independente de esquerda. A última questão do Reasoner foi planejada e produzida antes de Suez e da Hungria; mas, para ele, esses eventos estavam “circunscritos historicamente”: 

Mesmo a urgência da crise egípcia não pode disfarçar o fato de que os acontecimentos de Budapeste representam um ponto de viragem crucial para o nosso partido. A agressão do imperialismo britânico é mais feia e cínica do que as agressões imperialistas anteriores. Mas a crise no mundo comunista, agora, é de um tipo diferente[3].

Por isso, a New Left representou o encontro de duas tradições políticas diferentes. Como isso ocorreu e de que maneira funcionou? Os detalhes da organização da fusão entre as duas revistas podem ser rapidamente resumidos. Elas continuaram a publicar em conjunto por um tempo, anunciando e promovendo cada uma a outra. Depois de um período, contudo, os dois conselhos editoriais começaram a reunir-se regularmente em torno de uma agenda política mais ampla, a fim de nomear membros do conselho editorial em comum e para recrutar novos membros. Ambos os conselhos estavam cada vez mais preocupados com a luta para manter a viabilidade financeira e comercial das duas publicações. Ainda mais urgente foi o custo em capital humano. Para muitos de nós, a vida normal tinha sido mais ou menos suspensa em 1956. Alguns não tinham parado de girar em círculos, desde então, e se encontravam, com efeito, em um estado de exaustão política extrema. Havia também, de forma positiva, oportunidades que estavam faltando antes para criar uma plataforma política mais ampla, unida à nossa posição. Enquanto estávamos conscientes de nossas diferenças, nossas perspectivas aproximavam-nos cada vez mais nos meses de colaboração. Dessa variedade de fatores saiu a decisão de fundir, e, com candidatos apropriados, como Thompson e outros não dispostos a contribuir, eu temerariamente concordei em me tornar o primeiro editor da New Left Review, com John Saville atuando como presidente do conselho editorial. 

A primeira New Left Review 

A New Left Review nesse formato durou dois anos. Acredito que ela nunca tenha sido um periódico mais bem-sucedido ou distinto do que qualquer um de seus antecessores. O ritmo bimestral e as pressões para nos conectarmos com questões políticas imediatas nos tornaram mais uma “revista” de esquerda do que propriamente um “periódico”. Isso exigiu uma mudança de estilo jornalístico e editorial que não se encaixava na intenção política original e em relação à qual o conselho não estava preparado. Havia diferenças de ênfase e de estilo de trabalho no interior do conselho editorial, o que transformou o principal peso político e de autoridade do movimento, bem como o pequeno grupo editorial de trabalho, que começou a se reunir próximo ao número 7 da Carlisle Street, em Soho. 

Os “New Reasoners” – Edward e Dorothy Thompson, John Saville e outros da equipe Reasoner, como Ronald Meek, Ken Alexander e Doris Lessing – pertenciam a uma geração política formada pela experiência da Frente Popular e dos movimentos antifascistas dos anos 1930, dos movimentos de resistência europeus durante a Guerra, das campanhas da “Segunda Frente” pela “amizade com a União Soviética” e da virada popular à esquerda, refletida na vitória do Labour, em 1945. Embora alguns comunistas mais jovens da tendência na ULR também pertencessem a tal tradição, sua relação com ela fora sempre diferente. Em sua esmagadora maioria, o centro de gravidade da geração ULR estava irrevogavelmente localizado no “pós-guerra”. E essa não foi uma diferença de idade, mas de formação mesmo – uma questão de gerações políticas, dentro das quais a Guerra constituiu a linha divisória simbólica. Essas diferenças criaram tensões sutis que submergiram devido à nova publicação. 

As diferenças de formação e de estilo político de trabalho foram ampliadas pela localização das duas tendências em dois ambientes sociais e culturais bastante distintos. A base da The New Reasoner estava em Yorkshire e no Norte industrial. Embora houvesse muitos leitores em outros lugares, estava organicamente enraizada no interior de uma cultura política provincial – não apenas no movimento dos trabalhadores, mas também em organizações, como a Yorkshire Peace Committee – e parecia fortemente desconfiada em relação a “Londres”. A ULR também atraiu o apoio de várias partes do país, mas ela dizia respeito muito mais ao que os “Reasoners” viam como o eixo “cosmopolita” ou de “Oxford-Londres”. Apesar de não os entendermos conscientemente na época, os ULR-ERS eram modernistas, se não realmente “cosmopolitas”. Como um colonial que eu era, certamente me sentia em casa, de maneira instintiva, na cultura mais socialmente anônima e metropolitana, embora lamentasse a falta entre os ULR de ligações orgânicas em relação à vida da classe trabalhadora não metropolitana. 

Já devia estar claro que, mesmo dentro dos conselhos editoriais dos periódicos originais, a New Left estava longe de ser monolítica e, certamente, nunca se tornou culturalmente ou politicamente homogênea. As tensões foram, em sua maior parte, manipuladas de forma humana e generosa. Entretanto, qualquer leitor mais atento das revistas, rapidamente, será capaz de identificar os pontos reais de diferença e, por vezes, os debates ferozmente disputados que vieram à tona em suas páginas. Por isso, seria muito errado tentar reconstruir, retrospectivamente, uma “New Left” essencial, bem como impor a ela uma unidade política que nunca possuiu. No entanto, ainda que quaisquer dois membros nunca fizessem a mesma listagem de características, havia um conjunto de temas relacionados que ordenou um assentimento amplo o suficiente para torná-la distinta como formação política. Minha leitura é aqui centrada no argumento de que qualquer perspectiva para a renovação da esquerda tinha que começar com uma nova concepção de socialismo e com uma análise radicalmente nova das relações sociais, da dinâmica e da cultura do capitalismo do pós-guerra. Longe de constituir um modesto exercício de atualização, esse foi um projeto intelectual de longo alcance, ambicioso e multifacetado. No que se refere ao socialismo em questão, significava chegar a um acordo com as experiências deprimentes, tanto do “socialismo realmente existente” quanto da “democracia social realmente existente”, e transformar, à luz dessas experiências, a própria concepção de “político”. Já no que concerne a essa última questão, o que chamamos de moderno “capitalismo corporativo” tinha formas econômicas, organizacionais, sociais e culturais muito diferentes. Ele funcionava segundo uma “lógica” diferente daquela do capitalismo empresarial, descrita nas teses clássicas de Marx ou embutida na linguagem e na teoria da esquerda e inscrita em suas agendas, instituições e em seus cenários revolucionários. Para muitos de nós (embora não para todos), essa luta para fundamentar o socialismo a partir de uma nova análise de “nossos tempos” foi primária e originária – ou seja, de onde todo o projeto da New Left começou. 

O diagnóstico dominante oferecido era o de que estávamos entrando em uma sociedade “pós-capitalista”, em que os principais problemas de distribuição social tinham sido resolvidos pelo boom do pós-guerra, acoplado à expansão do Estado de bem-estar, à regulação macroeconômica keynesiana e à revolução gerencial com “face humana”. Todos esses foram elementos que, mais tarde, vieram a ser conhecidos como “corporativismo” – grande capital, grande Estado – ou, de outro ponto de vista, como o “consenso do pós-guerra”. Eles levaram a uma erosão das culturas de classe tradicionais e ao “aburguesamento” da classe trabalhadora. Contrapondo-se a esse cenário, estava o argumento da “Velha Esquerda”, que acreditava que, enquanto o sistema continuasse a ser claramente capitalista, nada de significativo iria mudar. As classes e a luta de classes eram as mesmas de sempre, e questionar isso era trair a causa revolucionária. 

A maioria dos integrantes da New Left, todavia, recusou essa lógica binária. As novas formas de propriedade, a organização corporativa e a dinâmica da acumulação e do consumo modernos requeriam uma análise mais atualizada. Esses processos tiveram efeitos sobre a estrutura social e a consciência política da época. Mais amplamente, a propagação do consumismo tinha desarticulado muitas atitudes culturais tradicionais e hierarquias sociais, e isso gerou consequências para a política, para partidários da mudança e para as instituições e agendas da esquerda, com as quais o socialismo teve que chegar a um acordo. Mesmo faltando muito material nativo ainda para seguir em frente, alguns analistas americanos – Riesman, Galbraith, Wright Mills –, que estavam na vanguarda desses desenvolvimentos, forneceram nossa principal aquisição em relação a esses argumentos. 

Cultura e política

Intimamente ligado a isso tudo estava o argumento acerca da contraditória e politicamente indeterminada “deriva” do social e da mudança cultural. Tais mudanças pouco induziram a uma transformação da sociedade de modo claro, embora, ambiguamente, elas desmantelassem muitas das antigas relações e formas sobre as quais a esquerda estava edificada, bem como o projeto de socialismo que tinha sido historicamente construído. 

Novamente, havia pelo menos duas versões que competiam sobre isso. Uma afirmava que, desde que a estrutura de classes britânica fundamental permanecesse a mesma, a “mudança” seria apenas de um tipo “sociológico” mais superficial. Isso destacou diferenças incidentais e, sobretudo, estilísticas em áreas marginais de estudo, tais como as novas atitudes e o estilo de vida entre os jovens, os novos padrões da vida urbana, o movimento de êxodo das cidades do interior, a crescente importância do consumo na vida cotidiana, o “enfraquecimento” de antigas identidades sociais, e assim por diante, o que não tocava “o fundamental”. Essa abordagem fundamentalista correspondia, por outro lado, a uma implacável celebração da mudança em si, e sobre a qual a nova mídia de massas investiu maciçamente. Com a expansão do “novo jornalismo” e a emergência da televisão comercial, a sociedade parecia enfeitiçada pelas imagens de si própria em movimento, refletindo suas iluminadas facetas consumistas. Novamente, a New Left insistiu em não ocupar nenhuma dessas alternativas simplistas, optando por uma “terceira” e mais complexa descrição. Não havia consenso entre nós sobre os termos em que entendíamos essas mudanças (a troca entre eu, Edward Thompson e Raphael Samuel em minha obra especulativa, “A Sense of Classlessness”, nas páginas da ULR, é um locus classicus desse debate), mas estávamos de acordo sobre a significância deles. Em minha visão, muito disso foi criativo, embora caótico e impressionista sobre a “imagem do mundo” que vinha das páginas da New Left, cujo frescor e vitalidade (tanto quanto seu caráter utópico) são devidos aos esforços de se esboçar os sentidos dos inconstantes contornos da mudança. Esse foi, de fato, um ponto em que os investimentos da New Left nos debates sobre cultura emergiram em um momento inicial. Primeiro porque era no domínio cultural e ideológico que a mudança social parecia se fazer mais dramaticamente visível. Segundo porque a dimensão cultural não nos parecia secundária, mas sim uma dimensão constitutiva da sociedade – isso reflete parte da longa desavença entre a New Left e o reducionismo e o economicismo da metáfora base-superestrutura. Terceiro porque o discurso da cultura nos parecia fundamentalmente necessário para qualquer linguagem na qual o socialismo pudesse ser reescrito. A New Left, portanto, deu os primeiros e vacilantes passos no sentido de colocar questões de análise e política cultural no centro de sua política. 

De modo diferente, a New Left lançou um ataque contra a limitada definição de “política” e buscou projetar em seu lugar uma “concepção expandida do político”. Se essa ideia não se disseminou tão rápido quanto o princípio feminista de “o pessoal é político”, certamente, abriu-se para a crítica dialética entre “problemas privados” e “questões públicas”, que afastou a concepção convencional de política. A lógica implicada nessa postura sugeria que aquelas “dimensões ocultas” deveriam ser representadas nos discursos “do político” e que as pessoas comuns poderiam e deveriam organizar-se, onde quer que estivessem, em torno de questões da experiência imediata; deveriam começar a articular suas insatisfações, em uma linguagem existencial, e construir uma agitação a partir desse ponto – tal era a fonte de nosso muito debatido “humanismo socialista”. A definição expandida do político também ocasionou o reconhecimento da potencial proliferação de ambientes de conflito social e grupos partidários pela transformação. Embora fôssemos a favor de um sindicalismo forte, contestávamos também a ideia de que somente aqueles do “âmbito da produção” poderiam fazer a revolução.

A crítica ao reformismo e ao seu singular representante britânico, o trabalhismo, foi perpetrada pelo discurso alargado sobre “o político”. Nós buscávamos uma transformação mais radical e estrutural da sociedade: em parte porque estávamos comprometidos com muitas das perspectivas fundamentais do programa socialista clássico; em parte porque víamos, no capitalismo moderno, uma maior concentração do poder social e podíamos traçar o impacto da “mercantilização” em regiões mais afastadas das áreas de exploração do trabalho assalariado; mas, acima de tudo, por conta da crítica mais ampla “à civilização e à cultura capitalistas”. Ninguém expressou o caráter constitutivo e fundamental desse argumento feito pela e na New Left mais profundamente do que Raymond Williams. Foi nesse sentido que permanecemos “revolucionários”, embora tenhamos retido pouca fé em uma tomada vanguardista do poder do Estado. A oposição entre “reforma” e “revolução” parecia, para muitos de nós, ultrapassada: é mais uma maneira de depreciar e amaldiçoar os outros do que, propriamente, um real valor histórico- -analítico em si. Nós procurávamos, então, de diferentes maneiras, superar tal oposição. 

Desse e de outros modos significativos, a tendência dominante da New Left era “revisionista”, sobretudo no que se refere ao trabalhismo e ao marxismo. Nós surgimos e vivemos ainda hoje na era dos “muitos marxismos”. Poucos de nós – se é que algum – poderiam ser descritos depois de 1956 como “ortodoxos”; principalmente, porque, embora sustentássemos diferenças acerca de quanto do marxismo poderia ser transposto sem “revisão” à segunda metade do século, todos recusávamos a enxergá-lo como doutrina rígida e acabada ou, então, como texto sagrado. Por exemplo, foi de considerável importância para nós a redescoberta, por meio de Chuck Taylor, dos Manuscritos econômico-filosóficos, de Marx, com seus tópicos sobre a alienação, o ser genérico e as “novas necessidades”, que Taylor trouxe de Paris, em 1958, e que apenas pouco tempo depois ganhou uma versão em inglês. 

Os clubes da New Left 

Havia muitos outros temas que qualquer abordagem compreensiva seria obrigada a discutir: o debate acerca do “socialismo humanista”; as análises sobre o Terceiro Mundo e, em conexão com as Campanhas para o Desarmamento Nuclear, o “neutralismo”, a OTAN e o desarmamento; a cultura popular e a mídia. Entretanto, tendo em vista que a New Left é, frequentemente, rotulada como uma formação fundamentalmente intelectual, seria mais apropriado lembrar os leitores que a “primeira” New Left, embora de modo errôneo, se pensava mais 227 2014 Vida e época da primeira New Left como um movimento do que simplesmente como periódico. De forma resumida, depois da publicação do primeiro número, a ULR convocou sua primeira “reunião com leitores”, em uma pouco auspiciosa tarde de domingo, que foi sucedida pela fundação do Clube Londrino da ULR. Nos primeiros anos, o Clube (posteriormente chamado de London New Left Club) atraiu aos seus encontros semanais entre trezentos e quatrocentos espectadores, vindos de todo o espectro da esquerda. Em certo momento, isso forneceu um ponto focal de contenção extremamente importante, vivo e frequentemente controverso para as pessoas sem comprometimento político formal. Era algo que diferia da típica organização ou seção da esquerda, já que o propósito não era recrutar membros, mas engajá-los em uma cultura política de esquerda, em uma frente ampla, por meio da argumentação, do debate e da educação. 

O Clube se tornou um importante e independente centro para a esquerda política de Londres, particularmente depois que fundou uma sede permanente – por intermédio de outra atitude desesperadoramente arriscada, porém inovadora e brilhante, de Raphael Samuel –, no Partisan Café, na rua Carlisle. Esse foi o primeiro “Bar-Café” esquerdista em Londres, com um clube e uma biblioteca no piso superior. No quarto piso, fixamos os escritórios da ULR, que depois serviram à NLR. Após a fusão, numerosos clubes de esquerda se espalharam pelo país. O último número da NLR que editei, o 12°, listou trinta e nove clubes em diferentes condições politicamente vitais. Os clubes refletiam em seus programas e composições o caráter cultural e político de suas localidades: os Clubes de Manchester e Hull tinham proximidade com o movimento local de trabalhadores; a Liga Socialista de Fife estava ligada, por meio de Lawrence Daly, a um movimento socialista independente entre os mineiros na Escócia; os Clubes de Croydon e Hemel Hempstead tinham mais um sentimento “inter-classista” ou, ainda, “novo supraclassista”. 

Desde muito cedo, o Clube Londrino da New Left encampou o pioneirismo na propaganda e na panfletagem da primeira CND (Campanha para o Desarmamento Nuclear) Aldermaston March, pioneirismo esse que os filiados do clube apoiaram em massa. Esse foi o princípio de estreitas relações entre a New Left, o movimento moderno pela paz no Grã-Bretanha e a origem da CND como organização política de massas. Entre suas outras atividades, o Clube da New Left em Londres tornou-se muito envolvido com os distúrbios de 1958, em Nothing Hill, e com as lutas antirracistas do período na região de North Kensington. Participamos dos esforços para estabelecer associações de moradores na região; ajudamos a proteger os negros que, no auge dos “problemas”, foram molestados e acossados pelas multidões brancas enfurecidas entre a estação de Nothing Hill e suas casas; e piquetamos o Mosley e outros grupos de extrema direita. No curso desse trabalho, primeiro tropeçamos nos fortes traços de racismo dentro do Partido Trabalhista – Rachel Powell, membro ativo do clube, desenterrou o escândalo do “Rachmanismo” e a exploração pelo senhorio branco em Nothing Hill. 

Peter Sedgwick, certa feita, observou apuradamente que a New Left era menos um movimento que um “milieu”. Ele assinalou, inclusive, para a falta de uma estrutura organizacional mais firme, uma concepção solta de liderança, hierarquias planificadas, ausência de filiação, regras, regulamentos, programa partidário ou uma “linha” que caracterizasse a New Left, em agudo contraste com outras tendências políticas e setores da extrema esquerda. Essas características eram produto de nossas críticas às formas de organização do leninismo e do centralismo-democrático, bem como de nossa ênfase na auto-organização e na política participativa, que hoje podemos ver, retrospectivamente, como “prefigurativa” de muito do que estava por vir. Sedgwick deve também ter obliquamente comentado sobre a baixa participação da classe trabalhadora – ou, para ser mais preciso, sobre a “competição entre classes”, embora não entre todas elas, na maioria dos clubes da New Left. Isso poderia ser visto – como de fato era – como uma séria fraqueza; porém, por incrível que pareça, também produzia algumas compensações. Os clubes eram particularmente fortes em estratos sociais emergentes e cenários de classes mais rapidamente mutáveis em recomposição-decomposição do pós- -guerra na Grã-Bretanha. Esse fato nos separou não do trabalhador comum, pois tínhamos muitos deles como apoiadores ativos, mas da cultura política do movimento trabalhista tradicional e dos quadros revolucionários dos demais setores. No entanto, isso concedeu à New Left um acesso privilegiado ao afiado, atritado e contraditório processo de mudança social. 

Prática prefigurativa

Com todas as suas fraquezas, os clubes representavam o projeto da New Left de ser um novo tipo de entidade socialista: não um partido, mas um “movimento de ideias”. Eles foram um sinal de que, para nós e para a esquerda, a “questão da agência” tinha se tornado profundamente problemática. Adotamos essa abordagem em parte por convicção, mas também porque imaginávamos que um movimento de pessoas comuns na política – quebrando a crosta de opiniões convencionais e alinhamentos ortodoxos em suas vidas, a partir de um aspecto concreto, começava- -se a “tomar atitudes por si próprios” – seria politicamente mais significante do 229 2014 Vida e época da primeira New Left que a maioria das “linhas mestras”. Outro motivo foi que vimos na CND o embrião de uma nova forma de mobilização – além, por assim dizer, dos grandes batalhões do partido –, capaz de refletir em torno de certas forças sociais emergentes e aspirações características de seu tempo e em relação à qual era necessário à esquerda desenvolver uma nova prática política. 

A CND foi uma das primeiras desse tipo específico de “movimento social” a aparecer na política, no pós-guerra – um movimento popular com um impulso radical inequívoco e um conteúdo implícito anticapitalista, formado mediante auto-organização na sociedade civil, em função de um tema concreto, mas sem uma clara composição de classe e mais atraente às pessoas por meio das linhas fortemente marcadas da identidade de classe tradicional e das lealdades organizacionais. Já era possível reconhecer nesses novos movimentos alguns produtos da sociedade moderna e aspectos do antagonismo social que tinham atestado a dificuldade de se construir algo dentro da agenda organizacional da esquerda tradicional – como o movimento dos direitos civis, em seu tempo, as questões feministas e sexuais, os problemas ecológicos e ambientais, a política de comunidade, direitos sociais [welfare rights] e as lutas antirracistas, nos anos 1970 e 1980. Sem esses movimentos sociais, entretanto, nenhuma mobilização política de massas ou movimento para transformações radicais seriam, hoje, concebíveis. 

Finalmente, o que a CND levantou para a New Left – como sempre fazem os novos movimentos sociais – foi o problema de como articular esses novos impulsos e forças sociais com a classe política da esquerda tradicional e como, por meio dessa articulação, o projeto da esquerda poderia ser transformado. O fato de que não tivemos maior sucesso que a esquerda teve quando tentou construir um “bloco histórico” a partir dos interesses sociais heterogêneos, movimentos políticos e agendas, de modo a construir uma prática política hegemônica das e com as diferenças, não nega a urgência da tarefa. O que podemos aprender da “primeira” New Left é quais questões colocar, e não quais respostas produzir. 

No que concerne ao Partido Trabalhista, pode-se dizer que muitos dos que estavam na New Left ou que se encontravam ao redor dela eram membros do partido. Muitos não. Como movimento, nossa posição frente ao partido era bem clara. Nossa independência dos vínculos organizacionais, controles, rotina e disciplina partidária eram essenciais ao projeto político que tínhamos em mente. O voto da maioria, no unilateralismo na Conferência do Partido Trabalhista, para o qual muitos de nós fizemos campanha, foi um claro exemplo de “derrota-na-vitória”, como resultado dos erros na campanha vitoriosa de uma plataforma com novas posições políticas populares. No interior da máquina, a CND murchou e reduziu-se a uma espécie de talismã, um fetiche das resoluções das conferências do partido, um joguete das manobras do voto em bloco, sem tocar o solo da consciência política ou a atividade de pessoas reais. 

Ao mesmo tempo, reconhecemos o fato de o socialismo na Grã-Bretanha ter sido inextrincavelmente ligado ao destino e à sorte do trabalhismo. Reconhecemos o Partido Trabalhista como aquele que, por bem ou por mal, hegemonizou a grande maioria da classe trabalhadora organizada com uma política reformista. Honramos sua ligação histórica com o movimento sindicalista. Entendemos que esse foi o motor da revolução do “Estado de bem-estar”, de 1945, que nunca subestimamos, porque representou uma reforma, em vez de uma derrubada, do sistema. Permanecemos profundos críticos da Fabian Society e da cultura trabalhista do partido, de seu “estatismo”, sua carência de enraizamento popular na vida política e cultural das pessoas comuns, sua suspeita burocrática de qualquer ação independente ou “movimento” fora de seus limites, assim como seu profundo anti-intelectualismo. Opusemo-nos a seus procedimentos profundamente antidemocráticos do voto em bloco e ao “constitucionalismo” vazio do partido. Ademais, reconhecemos que, gostássemos ou não, o Partido Trabalhista havia representado a estratégia grevista na política britânica, o que ninguém pode ignorar. 

Nós, entretanto, desenvolvemos uma política aberta e polêmica em relação à liderança de Geitskell15, por um lado, e à perspectiva do “nada-mudou, reafirme Cláusula 4” da esquerda tradicional, por outro; assumimos – aqui e em todo lugar – uma terceira posição, abrimos um “terceiro front”. Nos debates revisionistas dos anos 1950 e 1960, opusemo-nos ao “pós-capitalismo”, às teses da “face humanizada do capitalismo corporativo”, propostas em O futuro do Socialismo, de Crosland16, enquanto o tomávamos como um formidável e inteligente oponente. Insistimos – inclusive contra o imobilismo doutrinário da maior parte do trabalhismo e do sindicalismo de esquerda – sobre a necessidade de fundamentar as perspectivas da esquerda em análises mais renovadas das condições do capitalismo pós-guerra e da mudança social. Algumas pessoas continuaram a trabalhar nisso desde dentro do Partido Trabalhista; outras trabalharam de fora dele. Não enxergávamos como poderia haver uma linha “mestra” nesse aspecto, enquanto havia tão pouca relação entre o que as pessoas queriam politicamente e o veículo para se atingir isso. Nossa estratégia era, portanto, contornar esse caminho e, como alternativa, envolver as pessoas, qualquer que fossem suas filiações, na atividade e no debate político independentes. 

Essa estratégia “paralela” requereu, como condição necessária, a manutenção de periódicos, clubes, uma rede de contatos e formas de demonstração, argumentos e propaganda para se articular essa “terceira posição”, que não estava sujeita à rotina do HQ17 (headquarter) do Trabalhismo, em Transport House, mas que fora pensada para retornar ao partido e ter efeitos políticos internos, reverberando, assim, no movimento dos trabalhadores. Chamamos essa estratégia de “um pé dentro, um pé fora”. 

Indo em direção ao povo

Que tipo de liderança organizacional essas estratégias pressupunham? A metáfora para a qual constantemente retornávamos era a da “propaganda socialista”. Conforme Edward Thompson relata em New Reasoner:

A New Left não se coloca como organização alternativa em relação àquelas já existentes no campo; em vez disso, oferece duas coisas àqueles que estão dentro ou fora das organizações existentes – uma propaganda específica de ideias e certos serviços práticos (periódicos, clubes, escolas, etc).[4]

A noção de uma “propaganda socialista de ideias” foi, é claro, emprestada direta e explicitamente de William Morris e das relações entre os intelectuais, forjadas na Liga Socialista, lutando para se tornarem o que Gramsci chamou de “orgânicos” da classe trabalhadora. Tínhamos sido inspirados pelo capítulo “Making socialists”, do livro William Morris: romantic to revolutionary, de Thompson. De fato, o primeiro editorial da NLR foi formatado, em suas extremidades, por uma passagem de Morris no artigo “Commonweal”, de julho de 1885: “O movimento trabalhista não está em sua fase insurrecional”. Eu acrescentei: “Nós estamos em nossa fase missionária”19.

Embora não estivesse totalmente teorizada, essa concepção de liderança estava fundamentada em certos pressupostos manifestos. O primeiro era a necessidade de desafiar o habitual anti-intelectualismo do movimento trabalhista britânico e superar a tradicional divisão entre intelectuais e classe trabalhadora. O segundo era o repúdio a três modelos alternativos: as concepções “vanguardistas” e “democrático-centralistas” da liderança revolucionária; a noção fabianista de “especialistas” da classe-média atuando no interior da máquina do Estado, a fim de proporcionar o socialismo para a classe trabalhadora; e a tradicional fé da esquerda trabalhista em relação aos mecanismos constitucionais, às resoluções de conferências, à vitória por votação em bloco e à conquista eleitoral ligeiramente mais à “esquerda”20. O terceiro era nossa visão de que as mudanças na sociedade britânica produziram um grande número de novas camadas sociais, que, no pós-guerra, tiveram acesso à educação e à propaganda socialista. Quarto, tínhamos uma profunda convicção de que, contra o economicismo stalinista, trotskysta e trabalhista assemelhados, o socialismo era um movimento democrático consciente, e os socialistas eram produzidos, e não nasciam ou se criavam por leis inevitáveis da história ou do processo objetivo do modo de produção em si. 

Também desafiamos a visão predominante de que a assim chamada sociedade afluente pudesse erodir o apelo da propaganda socialista – como se o socialismo somente pudesse emergir da miséria e da degradação. Nossa ênfase nas pessoas agindo por si próprias, “construindo o socialismo desde baixo” e no “aqui e agora” não estava esperando por alguma revolução abstrata que transformasse tudo em um piscar de olhos; por isso, à luz da re-emergência desses temas após 1968, provou-se contundentemente prefigurativa, tal como afirmamos no primeiro número da NLR:

Tivemos de ir a bairros e cidades, universidades e cursos técnicos, clubes da juventude e almoços de sindicatos – como disse Morris – para produzir socialistas ali. Atravessamos 200 anos de capitalismo e 100 anos de imperialismo. Por que as pessoas deveriam – naturalmente – tornarem-se socialistas? Não há lei que diga que o Movimento Trabalhista, como uma grande máquina inumana, deva trilhar seu caminho em direção ao socialismo ou que nós podemos, a qualquer momento [...], contar com a pobreza e a exploração para dirigir a população, como animais cegos, rumo ao socialismo. Socialismo é, e permanecerá sendo, uma fé ativa em uma nova sociedade, para a qual nos voltamos como seres humanos pensantes e conscientes. O povo deve ser confrontado com a experiência, chamado à “sociedade de iguais”, não porque as coisas nunca estiveram piores, mas porque essa sociedade é melhor do que a melhor das sociedades capitalistas de consumo, e porque a vida é algo a ser vivida, e não algo pelo qual se passa, assim como o chá pelo coador[7].

Tal postura pode parecer inocente e, certamente, foi tomada como “utópica” e “populista” desde o início. No entanto, foi populista no sentido Narodnik, de “ir até o povo” e em termos do que eles/nós precisavam/ávamos se/nos tornar, mais do que no sentido de massagear o consenso popular com apelos cínicos que lhes apontem o que é melhor. Tínhamos uma instintiva, se não bem formulada, noção de que o projeto socialista deveria estar enraizado aqui e agora, e conectado à experiência vivida: com aquilo que sempre aprendemos a chamar de “nacional-popular”. O “povo”, é claro, é sempre uma construção discursiva, e a distorção de um preciso referente social, no populismo dos primórdios da New Left, foi certamente significativo. Contudo, há mais do que um tipo de populismo, e isso pode, apesar de seus problemas, estar articulado tanto à direita quanto à esquerda, servindo tanto para colocar em curto-circuito quanto para desenvolver antagonismos populares. O “populismo” do início da New Left era, com certeza, do segundo tipo, tal como Edward Thompson, seu principal arquiteto, argumenta em New Reasoner:

O que distinguirá a New Left será sua ruptura com a tradição de fragmentação interna do partido e sua renovação da tradição de livre associação, educação socialista e atividade direcionada ao povo como um todo [...]. Insistirá que o Movimento Trabalhista não é uma coisa, mas uma associação de homens e mulheres; que os trabalhadores não são recipientes passivos das condições culturais e econômicas, mas seres intelectuais e morais [...]. Apelará ao povo com argumentação racional e desafio moral. Irá contrariar o materialismo burguês e o anti-intelectualismo da velha esquerda, recorrendo para tanto à totalidade dos interesses e potencialidades humanas e construindo novos canais de comunicação entre os trabalhadores industriais e os especialistas em artes e ciências. Deixará de postergar as necessidades do socialismo para um hipotético período “pós-revolucionário” e procurará promover no presente, em particular nos grandes centros de concentração da classe trabalhadora, um rico senso comunitário.[8]

As tensões e contradições envolvidas nesse “populismo” nunca foram completamente resolvidas. As rápidas mudanças na estrutura social, no período pós-guerra, que nós constantemente tentamos caracterizar sem, no entanto, fixá- -las precisamente, dividiram de modo desigual a New Left; falhamos ao tentar erigir essas diferenças em um novo “bloco histórico”, embora essa fosse nossa intenção implícita. As tensões aludiam à oposição entre o norte provinciano e uma Londres cosmopolita, como versões posteriores da divisão Norte/Sul – mas que eram muito mais complexas do que essa simples oposição sugere. Não obstante, elas eclipsaram diferenças importantes no ritmo e no caráter da decomposição e recomposição social, na sociedade britânica do pós-guerra, e veio para ficar, de forma metonímica, em meio ao chão diversificado da política, sem prover um princípio de articulação. As tensões entre intelectuais e ativistas eram um problema contínuo e largamente tácito, conectado à questão mais ampla do status incerto do intelectual na vida cultural inglesa em geral e o filisteísmo inábil da esquerda. Atravessando todas essas tensões, em outra direção, estavam as quase totalmente disfarçadas questões do gênero – o fato de que a maior parte das lideranças do corpo editorial era constituída por homens e que a grande parcela do trabalho real recaía sobre as mulheres: a usual divisão sexual do trabalho, reproduzida tão frequentemente na esquerda. Sobre essa última questão, a New Left manteve-se – como fazia o restante da esquerda – profundamente inconsciente. 

Nós esperávamos que os clubes desenvolvessem suas próprias organizações, lideranças e canais de comunicação independentes (talvez até seus próprios panfletos e boletins), deixando o periódico livre para desenvolver seu projeto. Mas nos faltaram recursos para que isso acontecesse, o que exacerbou, nos clubes, o sentimento de que eles não tinham nenhum controle sobre a revista, e, no conselho editorial, o receio de que um periódico de ideias pudesse não circular efetivamente pelos comitês. Essa foi, com efeito, a última questão, que veio acompanhada de pressões transversais e que precipitou minha demissão voluntária da editoria da New Left, em 1961.

Não tentei fazer, aqui, uma avaliação completa da New Left, que eu vejo como apenas um primeiro estágio de constituição de um novo tipo de esquerda política. Parece-me absurdo tentar realizar seu registro detalhado ou impor, retrospectivamente, uma consistência que ela não possui. Suas forças e fraquezas, seus erros e enganos ainda permanecem e são incontestáveis – para serem ensinados, mais do que para serem repudiados. Não obstante, faço uma distinção mordaz entre o que fizemos e como fizemos e o projeto mais amplo. Permaneço comprometido com este último como sempre fui. O “terceiro espaço” que a “primeira” New Left definiu e tentou apreciar de modo aberto me parece a única esperança para a renovação do projeto socialista e democrático, em nossos novos e desconcertantes tempos.

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1 Este ensaio é dedicado à memória de Alan Hall, com quem compartilhei muitas das experiências daqueles tempos. Conheci Alan quando ele veio de Aberdeen para Balliol, em 1952. Em seguida, ele lecionou clássicos em Keele e foi um arqueólogo apaixonado pelas ruínas greco-romanas em Anatólia. Desempenhou papel central no início da New Left (incluindo a passagem da primeira para a segunda geração), mas morreu, tragicamente, em seus cinquenta anos, antes de ter oportunidade de se registrar na história da New Left. “The first New Left: life and times” foi originalmente apresentado como paper, em 1988, na conferência “Out of Apathy”, acerca da New Left, realizada em Oxford. Uma versão mais longa apareceu na coleção Out of apathy: voices of the New Left thirty years on, Londres, 1989, editado por Robin Archer e outros.

2 Editorial, Universities and Left Review 1, Spring 1957, p. i.

3 E. P. Thompson, ‘Through the Smoke of Budapest’, Reasoner, November 1956.

4 Thompson, ‘The New Left’, New Reasoner 9, Summer 1959, p. 16.

5 Hall, ‘Introducing NLR’, NLR 1/1, Jan-Feb 1960, p. 2.

6 Thompson, ‘The New Left’, p. 16.
7. Hall, ‘Introducing NLR’, p. 3.

15 de janeiro de 2010

Entrevista com James Heckman

John Cassidy


Esta é a quinta de uma série de entrevistas com economistas da Escola de Chicago. Leia “Depois da Explosão”, a história de John Cassidy sobre os economistas de Chicago e a crise financeira.

Tradução / Entrevistei Heckman por telefone em finais de Outubro. Comecei por me referir a uma peça da revista da Universidade de Chicago na qual ele apareceu para absolver a economia de Chicago de qualquer culpa por ter causado a crise financeira. Como reagiu ele, então, às recentes críticas à economia da Escola de Chicago feitas por Joseph Stiglitz, Paul Krugman, e outros?

James Heckman

Bem, eu quero distinguir entre duas ideias diferentes. A Escola de Chicago incorpora muitas ideias diferentes. Penso que a parte da Escola de Chicago que tem sido justificada é a afirmação de que as pessoas reagem a incentivos, e que os incentivos são importantes. Nada no que aconteceu invalida essa ideia. As pessoas reagiram aos incentivos – claramente que reagiram. Acontece que os incentivos a que reagiam não eram socialmente benéficos, mas definitivamente reagiram a eles. A outra parte da Escola de Chicago, que Stiglitz e Krugman criticaram, é a hipótese dos mercados eficientes. Trata-se de algo completamente diferente.

Penso que é importante colocá-lo numa perspetiva histórica. Nos finais dos anos 40 e início dos anos 50, quando o Keynesianismo era realmente dominante, esse tipo de Keynesianismo – o chamado Keynesianismo hidráulico – ignorou completamente os incentivos e a forma como as pessoas reagiam a eles. O que Chicago fez – Milton Friedman, George Stigler, e outros – foi com o objetivo de restabelecer esse equilíbrio. Fizeram uma série de estudos empíricos que mostraram como as pessoas reagiram aos incentivos, tais como alterações nos impostos ou preços. Isso foi incrivelmente influente, e continua a ser.

No início dos anos 70, Martin Feldstein, de Harvard, mostrou como as mudanças nos subsídios de desemprego tiveram um grande impacto na oferta de mão-de-obra. Isso teve um enorme impacto na política, e foi uma aplicação da economia de Chicago. Feldstein disse ter lido “Capitalismo e Liberdade” [de Friedman] quando estava na pós-graduação em Oxford, e isso teve uma enorme influência no seu pensamento. Essa foi a influência de Chicago, e ainda se mantém de pé. Ligando o trabalho empírico à teoria, e mostrando como coisas como impostos e programas governamentais têm impacto sobre o comportamento.

Ok. As pessoas estavam a reagir aos incentivos – os credores hipotecários, os banqueiros de Wall Street, os compradores de casas – eu concordo. Mas os preços de mercado não lhes estavam a enviar sinais errados, e não é isso o estar a pôr em causa a economia de Chicago, que, desde Hayek, pelo menos, sublinhou o papel dos preços na coordenação do comportamento?

Tenho tendência a pensar mais nisso em termos de reacção demasiado lenta do mercado. Certamente, a partir do final de 2007, quando ficou claro que estavam a surgir problemas, muitos profissionais de Wall Street afastaram-se dos títulos hipotecários. Durante muito tempo, porém, o mercado estava a enviar os sinais certos. As pessoas ganhavam muito dinheiro – os comerciantes, e assim por diante. Acabou por não ser socialmente ótimo, mas essa é uma questão diferente.

[Heckman criticou então economistas comportamentais, tais como George Akerlor de Berkeley e Robert Shiller de Yale, por sugerirem que as raízes da crise estavam no comportamento irracional: excesso de confiança, espíritos animais, e assim por diante. Na sua maioria, os indivíduos responderam aos incentivos do mercado e reagiram racionalmente, insistiu ele].

Olhe, eu poderia subsidiar pessoas para assassinar crianças, e se eu oferecesse dinheiro suficiente, penso que não encontraria muita dificuldade em encontrar uma oferta pronta de assassinos.

Além disso, penso que poderia culpar tanto os reguladores como o mercado. A partir de cerca de 2000, houve uma decisão tomada em Washington de não regular estes mercados. Pessoas como Greenspan estavam a tomar uma forma muito grosseira e extrema da hipótese dos mercados eficientes e a dizer que isto justificava não regular os mercados. Era uma utilização retórica da hipótese dos mercados eficientes para justificar as políticas.

E quanto à hipótese das expectativas racionais, a outra grande teoria associada à Chicago moderna? Como é que isso se junta agora?

Poderia contar-lhe uma história sobre o meu amigo e colega Milton Friedman. Nos anos 70, estávamos na discussão de uma tese de doutoramento de um economista de Chicago que deixou a sua marca no mundo. A sua tese era sobre as expectativas racionais. Depois de ele ter saído, Friedman virou-se para mim e disse: “Olha, acho que é uma boa ideia, mas estes tipos foram longe demais”.

Tornou-se uma espécie de tautologia que, em teoria, teve implicações políticas enormemente poderosas. Mas o facto é que não tinha qualquer conteúdo empírico. Quando Tom Sargent, Lard Hansen, e outros, tentaram testá-la usando restrições de equações cruzadas, e assim por diante, os dados rejeitaram as teorias. Houve um certo conjunto de pessoas que se deixaram levar. Chegou a ser bastante sufocante.

E Robert Lucas? Ele inventou muitas destas teorias. Será que ele tem responsabilidade?

JH: Bem, Lucas é uma pessoa muito subtil, e está principalmente preocupado com a teoria. Ele não faz muitas afirmações empíricas. Não creio que Bob se tenha entusiasmado, mas alguns dos seus discípulos entusiasmaram-se. Isso acontece frequentemente. Quanto mais abaixo se vai na cadeia alimentar, mais os fanáticos se apoderam dela.

E quanto a si? Quando as expectativas racionais invadiram a economia qual foi a sua a reação a isso? Sei que você é principalmente economista de micro, mas o que pensa sobre isto?

JH: O que me impressionou foi saber que a teoria keynesiana ainda estava viva nos bancos e em Wall Street. Os economistas dessas áreas baseavam-se em modelos keynesianos para fazer previsões a curto prazo. Pareceu-me estranho que continuassem a fazer isto se tinha sido provado teoricamente que estes modelos não funcionavam.

E quanto à hipótese dos mercados eficientes? Será que os economistas de Chicago também foram demasiado longe na promoção dessa teoria?

JH: Alguns foram. Mas há aqui uma grande diversidade. Pode-se ir de gabinete em gabinete e obter uma visão diferente.

[Heckman trouxe à baila as memórias do falecido Fischer Black, um dos fundadores do modelo de preços de opções Black-Scholes, no qual diz que os mercados financeiros tendem a vaguear por aí, e não se agarram aos fundamentais económicos].

JH: Black estava muito próximo dos mercados, conhecia-os bem, estava a favor deles, e era muito céptico. E era um economista de Chicago. Mas havia um elemento de dogma em apoio da hipótese dos mercados eficientes. Pessoas como Raghu [Rajan] e Ned Gramlich [um ex-governador da Reserva Federal, que morreu em 2007] estavam a avisar que algo estava errado, e foram ignorados. Havia uma espécie de cultura de mercados eficientes – em Wall Street, em Washington, e em partes do mundo académico, incluindo Chicago.

Qual foi a reacção aqui quando a crise rebentou?

JH: Toda a gente ficou cega pela magnitude do que aconteceu. Mas não foi só aqui. Toda a profissão estava cega. Não creio que Joe Stiglitz estivesse a prever um colapso no mercado hipotecário e colapsos da banca em grande escala.

Então, hoje em dia, o que sobrevive da Escola de Chicago? O que resta?

JH: Penso que a tradição de integrar a teoria na sua reflexão económica e confrontá-la com dados é coisa que está ainda muito viva. Pode estar no estudo da desigualdade salarial, ou das respostas da oferta de trabalho aos impostos, ou o que quer que seja. E a ideia de que as pessoas respondem racionalmente aos incentivos também continua a ser central. Nada invalidou esta ideia – pelo contrário.

Por isso, penso que as ideias subjacentes à Escola de Chicago ainda são muito poderosas. A base do foguetão continua a estar intacta. É o que eu vejo como a fase de arranque, de impulsão – a hipótese das expectativas racionais e as versões vulgares da hipótese dos mercados eficientes que se depararam com problemas. Eles sofreram um duro golpe – sem dúvida alguma. Penso que o que aconteceu foi que as pessoas se afastaram demasiado dos dados e da confrontação das ideias com os dados. Essa parte da tradição de Chicago foi negligenciada, e era uma parte forte da tradição.

Quando Bob Lucas estava a escrever que a Grande Depressão era devida ao facto de que tiravam férias prolongadas – recusando-se a aceitar empregos disponíveis a baixos salários – havia outro economista de Chicago, Albert Rees, que estava a escrever no Chicago Journal a dizer: Não, espera um minuto. Há muitas provas de que isto não é verdade.

Milton Friedman era um teórico macro, mas era menos movido pela teoria e pelo desejo de construir uma teoria geral particular do que pela tentativa de responder a questões empíricas. Mais uma vez, se lermos os seus livros empíricos, eles estão cheios de dados empíricos. Esse lado do seu legado foi negligenciado, penso eu.

Quando Friedman morreu, há um par de anos atrás, tivemos um simpósio para os antigos alunos dedicado ao legado de Friedman. Eu estava a falar da hipótese de rendimento permanente; Lucas estava a falar de expectativas racionais. Tivemos alguns brilhantes êxitos. Uma mulher levantou-se e disse: “Vejam as provas dos planos 401k e como as pessoas os usam indevidamente, ou não os usam”. Está realmente a dizer que as pessoas olham para o futuro e planeiam com racionalidade”? E Lucas disse: “Sim, é isso que diz a teoria das expectativas racionais, e isso faz parte do legado de Friedman”. Eu disse: “Não, não é. Ele tinha uma mente muito mais empírica do que isso”. As pessoas tomaram uma parte do seu legado e esqueceram o resto. Afastaram-se demasiado dos dados.

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